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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Zidane, un portrait du XXIème siècle

O Doclisboa 2007 teve a bondade de incluir no seu programa este filme. Fui ver. Em Abril de 2005, 17 câmaras filmaram não o Real Madrid-Villareal, mas Zinédine Zidane durante esse jogo: o filme consiste em 90 minutos a olhar para o astro francês. Desinteressado no desenrolar do jogo, o plano acompanha Zidane. Sempre. Para quem tinha dúvidas, o filme é revelador: Zidane era um ser à parte; no relvado, parecia existir a equipa adversária, a equipa de Zidane e Zidane ele-próprio; ainda que incluído num conjunto, era um solitário. Houve, contudo, do princípio ao fim do filme, uma dúvida que não consegui esclarecer: como raio é que um tipo cujo futebol não tinha "intensidade", que andava a passo durante quase todo o tempo, se pôde tornar no melhor jogador de futebol dos últimos 15 anos?

domingo, 25 de março de 2007

Salve, Zidane!

Devido às circunstâncias, decido publicar aqui um texto escrito há já algum tempo, achando que esta era a altura certa para o fazer. Não é outro ponto de vista sobre o mesmo assunto, nem uma atestação do ponto de vista do texto anterior, mas uma confidência pessoal sobre o assunto levantado pelo Gonçalo. Como tal, deve ser lido independemente do texto anterior, ainda que com ele partilhe as mesmas certezas.

Esteve Kafka em Santo Tirso? Tudo indica que não. Mas pareceu-me uma forma suficientemente absurda de começar um texto sobre Deus. Quer dizer, não é sobre Deus, é sobre Zidane, mas vai dar ao mesmo. Aproveitando que falei em Kafka, depois de se ler o autor checo, fica-se certamente com a ideia: “Vou-me entregar à arte!” Ou à arte ou à droga. Se bem que a droga não faz tanto mal. Em Kafka, o mundo que rodeia a personagem central é profundamente absurdo. Tudo o que envolve o protagonista é incompreensivelmente antagónico àquilo que ele é e nada do que faça ou pense será entendido. Esse homem, o artista por excelência, para quem todos os outros são absurdos, está acima dos outros: é o único ser verdadeiramente livre, ainda que nada lhe seja consentido. Contudo, de outro ponto de vista, para o mundo é o protagonista que é absurdo, pois é ele quem está em desequilíbrio com o que o rodeia, é ele quem não se adequa à norma, é ele quem é o louco. Para o leitor, absurdo é eu estar a escrever sobre o absurdo. Talvez seja. Ainda assim, parece-me que absurdo é tanto o que é absurdo como o que não é absurdo, dependendo da perspectiva. E, perante isto, pergunta o leitor: Andas nos copos? Nem por isso. A verdade é que tudo isto tem algum sentido. Isto é, há uns minutos, tinha algum sentido. Querem que conte uma história? Tudo bem, não conto. Pego então na já mítica cabeçada de Zidane ao italiano Materazzi, durante o prolongamento da final do campeonato do mundo de futebol, gesto com que o francês terminou a sua áurea carreira de jogador profissional. À excepção de um ou outro pateta, o público foi de opinião que o gesto violento de Zidane envergonhou o desporto e manchou a sua despedida enquanto futebolista. Dizem esses iluminados que Zidane, cuja despedida do futebol poderia coincidir com a gloriosa conquista de mais um campeonato mundial, conquista essa, que, a realizar-se, se deveria quase exclusivamente à genialidade de que era possuidor, traiu-se a si próprio e aos que o idolatravam, ao perder a cabeça. Para esses mesmos seres inteligentíssimos, nada de mais glorioso haveria que terminar a carreira erguendo a taça, de sorriso no rosto. Para essa gente de inomináveis qualidades, glória é apenas nome de mulher. Para esses doutos senhores, a vida é um prazer tão grande como um rebuçado de mentol. Talvez o mundo se vergasse momentaneamente aos pés de Zidane, se tal acontecesse, e talvez, mesmo, ninguém lhe roubasse a conquista da imortalidade, se conduzisse a França ao segundo título mundial. Talvez… Mas basta ao génio a colheita de todos os triunfos? Ou será a glória mais que carimbar o nome entre os ilustres triunfadores? Para aqueles que repetem, de peito feito, que o acto de Zidane lhe subtrai valor, as minhas sinceras saudações pela lucidez de espírito… Não há nada como ignorar a arte, basear-se em ideais pré-definidos ou ajuizar acções pelo grau de catolicismo que transportam para se poder viver em paz… A todos os outros que, estupidamente, se curvam ainda ante o génio do francês: “Tenham vergonha, pá!” Então o homem dá uma cabeçada num companheiro de profissão, deixa os seus ao abandono, passando ingloriamente ao lado da taça que deveria levantar, desencadeia a derrota da sua selecção e a decepção de uma nação, e ainda assim veneram-no?

Fechemos agora os olhos às aparências e finjamos que somos dotados, afinal, de alguma inteligência. O verdadeiro génio não tem que prestar satisfações. Ao cabecear o adversário, violentando todas as regras de conduta da sociedade e ignorando o prejuízo que tal irreflexão acarretaria, Zidane completou-se. Foi como que afirmar: “Se eu quiser, sou campeão do mundo, se não quiser, não sou.” E todos aqueles que depositavam esperanças nele, bem como os que torciam para que ele falhasse, ficaram de repente à mercê da sua vontade. Com um simples gesto, Zidane abraçou o céu. Quem recorda, hoje, os italianos a festejarem o título, ou os gauleses cabisbaixos ante a final perdida? A única coisa que perdurará na memória das pessoas, bem como nos anais da História que contarão às gerações que virão depois de nós, são os segundos dramáticos que acompanharam a saída de Zidane do relvado, caminhando decidido para o balneário enquanto passava ao lado do troféu mais importante do mundo sem lhe lançar o olhar. Só isso restará. Por que nos compraz a figura de Hamlet, se matou a família toda antes de se suicidar? Se Napoleão, enquanto líder de um exército, pode ser responsabilizado pela morte de tantos soldados inimigos e civis inocentes, por que razão é lembrado como um génio militar? Estará o génio acima dos outros homens, acima da moral, da lei?… Para certos loucos, a resposta não é difícil. A única coisa que prende o génio à terra é a expressão corpórea da sua alma. Ignorar o mundo – eis a expressão máxima do talento do homem. Zidane não se envileceu; perfez-se! Ignorar o troféu e a glória humana, a fé com que alimentava os que acreditavam nele e o desafecto dos que eram contra ele, abandonar tudo o que era humano em si, escapando à modorra do mundo e libertando-se totalmente – eis o que o lhe perpetuará a fama… Porém, é inútil pedir que o vulgo compreenda o génio. Tornar-se absurdo, à vista dos outros, é o preço a pagar por se ser diferente… E como os protagonistas de Kafka, Zidane será eternamente vaiado pelos néscios. Como Gregor Samsa, será visto como um insecto frágil, que os homens medíocres não são capazes de compreender, mas que podem aniquilar se lhe ignorarem a existência. Ao mundo é sempre mais fácil ignorar o que não percebe. Portanto, aos olhos do mundo, como Joseph K, Zidane morreu “como um cão”. Mas, tal como o protagonista kafkiano, perdurará, por essa mesma razão, na eternidade… Salve, Zidane!

quarta-feira, 14 de março de 2007

Coerência...e consequência.

Quando Zizou perdeu a cabeça no peito de Materazzi fui dos poucos que, apesar de sentir que ele não tinha tomadao a atitude mais correcta, consegui compreender e aceitar o seu comportamento. Talvez agora surja muita gente a dizer que não fomos assim tão poucos a fazer uma leitura correcta do que se passou naquele instante, que na altura também defenderam Zidane. A dicotomia patenteada entre os dois jogadores é tal, que me arriscava a dizer que os adeptos que apreciam um jogador como o italiano, dificilmente poderão apreciar qualquer linha traçada neste bolg. Mas para os que demonstrarem presença de espírito, vou-lhes expôr as minhas razões para assumir um como o paradigma do futebol ( Zizou), e outro, Materazzi, como a negação do mesmo. Juntos formam a antítese perfeita para o futebol.

No entanto, admito algum benefício na proliferação de jogadores como o italiano. Jogadores como ele dão enfâse a talentos como o de Zidane. Não que o françês precise, mas junto deste tipo de jogadores, o brilho das estrelas chega a ser incandescente.
Começando pela forma como um e outro promove o futebol. Por todo o lado encontraremos vídeos de ambos. Num lado os dribles, passes, recepções, golos, enfim... No outro, as entradas violentas, as entradas violentas, as entradas violentas, mais entradas violentas, e de quando em vez um golo... Mas não é por isso que perco tempo a escrever sobre estes dois monstros, cada um à sua maneira; as diferenças de talento tão pouco merecem discussão.
Uma coisa que nunca me convenceu na história do italiano, foi a necessidade deste se fazer passar por coitadinho: « Eu sou um ignorante», sim, sem dúvida, no que toca a esta afirmação não me parece que haja objecção alguma a fazer, mas toda aquele choradinho nunca me convenceu. Isso, e a inconsistência da sua versão...
E aqui começa a clivagem entre estes dois homens, no pós-futebol. Zidane independentemente, dos pedidos da FIFA, e da UEFA, nunca vacilou, mostrando-se sempre indisponível para se cruzar com o italiano, por outro lado, o seu antagonista demonstrou sempre uma disponibilidade demasiado Cristâ para perdoar Zidane. É, no minimo, suspeito.

Esta atitude de Zidane é muito mais do que uma mera demonstração da sua forte personalidade, e princípios. É uma relação de respeito para um desporto que o transformou num Deus.

E é aqui que nos deparamos com uma realidade que muitos tem dificuldade em perceber. Zidane, como qualquer génio, quando explanava todo o seu espiríto criativo, libertava-se de qualquer disciplina, ou limitação, que pudesse circunscrever o seu talento. Tudo o resto, imposições tácticas, subserviência às circunstâncias do jogo, tudo isto se torna incómodo para quem assume o processo criativo. Caminhando sobre a linha ténue que separa o génio do ridículo e louco, demonstrou sempre que, mais do que a uma equipa, Zidane pertence ao futebol.
Não se encontra, porém, nestas linhas, justificação para a sua atitude. De que maneira, perguntam vocês, se pode justificar a atitude de Zidane, sendo ele tão honesto com o futebol, tão puro? Simples. Não se pode. Ninguém pode, tão pouco ele. Da mesma maneira que não se explica as jogadas que o imortalizaram. A intuição não se explica. Mas este facto, o de imiscuir um factor tão primário, como o instinto, no seu futebol, não significa que o torne menos complexo,ou digno, apenas o perfuma, pois não podemos conceber a razão sem emoção...
Zidane viveu aquele jogo como o seu último, porque o era, e não só. Porque futebol, é um desporto de emoções, de paixão... E o que é paixão senão a ausência temporária do juízo? Ao perder a cabeça daquele jeito, demonstrou que se entregava, como poucos, ao jogo. Não retaliando qualquer tipo de emoção, ou sentimento, ao mesmo. Ele não pensou nas consequências do seu acto. Apenas sentiu, seguiu o mesmo instinto que o levou a marcar a grande penalidade da forma que o fez. Não podemos dissociar um facto do outro. O temperamento é essencial, mas também ambigúo na sua manifestação...
Esta condição, funciona como dom e maldição. O mesmo processo que o levou a transportar de uma forma, quase, exclusiva a França à Final, foi o mesmo que lhe retirou os últimos dez minutos da mesma... Irónico. As emoções, ao contrário do que se pensa, são essenciais á construção do sublime. Tem de se ter prazer... e dor.
Um caso de falta desse mesmo temperamento: M. Laudrup. O dinamarquês era fantástico no toque de bola, no passe, na forma inteligente como definia os lances, todavia, faltou-lhe sempre aquela faísca, aquele assomo que o levasse a ser considerado um "Deus", passe o exagero. Por outro lado, provavelmente também não agrediria o italiano. Poderia falar de um caso português semelhante... Mas não vou ferir susceptibilidades...
Esta final assumiu os contornos de um verdadeiro paradigma da definição de um génio. Louco, arrebatado, distante, e irredutível... Mas não o foram assim todos...?

Por outras palavras, Zidane nunca cedeu. Assumiu a sua condição, nunca defraudando aquilo que acreditava: O futebol, enquanto um jogo Bellíssimo.
Da mesma forma que, agora, ao não aceder aos convites feitos para a reconciliação?, se mostra fiel ás convicções e motivos que o levaram a cabecear o monstro italiano, reforçando, assim, o peso e legítimidade dos mesmos...