Terminado o torneio, não ficam muitas
dúvidas: a prova foi eliminando os menos capazes, quer individualmente,
quer colectivamente, e foi preservando os mais aptos. Espanha, Itália, e
Alemanha foram as equipas mais fortes do torneio, e Portugal a mais
competente das restantes. Mas tanto a Itália como a Espanha, por serem
superiores, mereciam esta final, e a Espanha, tanto pela superioridade
que já demonstrara no primeiro jogo, apesar do empate, como por ser, de
facto, melhor equipa, não podia deixar de se sagrar vencedora. Findos 6
anos de conquistas, é talvez tempo para reflectir. Mais do que dizer
disparates, do que torcer contra eles, porque nos eliminaram, do que
desejar-lhes a queda, por incompreensão do fenómeno, há que
reconhecer-lhes a superioridade, tentar perceber as causas dessa
superioridade, elogiá-las, e tentar reproduzi-las. A Espanha é o que é
por várias razões. A primeira chama-se obviamente Guardiola. Sem o
modelo catalão, sem o perfil de decisão que os jogadores catalães
trouxeram para a selecção, esta Espanha seria muito diferente. Não seria
de todo injusto se aos 14 títulos no currículo de Guardiola se
juntassem os títulos espanhóis. Mas outra causa, menos recente, e mais
ampla, explica este sucesso. A Espanha começou há mais de 20 anos a
investir no futebol (e no desporto, em geral), em formação, numa
identidade, num perfil de jogador muito próprio, alicerçado no talento e
na inteligência, e prova agora que os grandes jogadores do futebol
moderno, ao contrário do que muitos defendem, têm origem nas academias e
não na rua. Não fosse assim, e as ruas da Catalunha teriam de ter
qualquer coisa de especial, para que aparecessem tantos craques
catalães. Aquele argumento de que um país com poucas pessoas
dificilmente é capaz de competir com um país com muitas pessoas, pois a
base de recrutamento é incomparavelmente menor, é um disparate. É
evidente que em países como o Brasil ou a Argentina, em que o futebol de
rua ainda tem força, é menos importante ter projectos de formação
competentes para que apareçam muitos bons jogadores. Mas se há coisa que
esta selecção espanhola veio mostrar é que um projecto de formação
competente, pensado a longo prazo, não só permite anular a diferença
entre bases de recrutamento maiores e menores, como deixa claro que,
actualmente, os jogadores de topo são jogadores que adquirem habilidades
que não podem, de modo nenhum, adquirir na rua.
Há
palermas que acham, pelo menos desde o mundial de 2010, que esta
Espanha é uma selecção defensiva. São palermas que, por exemplo,
consideram o estilo de jogo espanhol aborrecido, sonolento, que acham
que a equipa usa a bola para adormecer adversários, e para defender.
Claro que a Espanha usa a bola para defender, mas esse uso não é
exclusivo. Acima de tudo, esta Espanha sabe uma coisa que estes palermas
não sabem: quem ataca é quem tem a bola. A Espanha é uma equipa
ofensiva, nem que seja pelo simples facto de ter mais tempo em seu
poder, por norma, o instrumento que permitiria que o adversário, se o
tivesse, pudesse atacar. Mas a Espanha não é só isso. É uma equipa que
assenta o seu modelo na posse de bola, e faz uso dela para tudo: para
defender, claro, mas para irritar o adversário, para descansar, para
desposicionar as linhas adversárias, para se recrear, e claro, para
atacar. Esta Espanha, pelo simples facto de ser, em toda a História, a
selecção que melhor ataca, que mais conscientemente percebe por onde
deve entrar, quando deve forçar e quando deve manter a bola, é a equipa
mais ofensiva da História. Os palermas, por serem palermas, acham que
ser ofensivo é jogar com muitos avançados, ter um modelo vertical, jogar
sempre para a frente, etc.. Essas equipas são ofensivas, sim, mas
também são irresponsáveis, e incompetentes. Para os palermas, ser
ofensivo é simplesmente o contrário de ser defensivo. O corolário da
tese dos palermas é o de que as equipas ofensivas não podem ser
defensivas. É um corolário estúpido, mas é o corolário de um raciocínio
deste tipo. Eu, por acaso, acho o contrário: acho que a melhor equipa,
em termos ofensivos, será necessariamente a melhor equipa, em termos
defensivos. Quando, por isso, os palermas dizem que a Espanha é
defensiva, estão no fundo a dizer que é ofensiva, sem o saberem. De
facto, em futebol não é difícil de saber o que é atacar e o que é
defender: quem tem bola, ataca; quem não tem, defende. Depois, há quem
ataque bem, há quem ataque mal, há quem ataque de forma mais rápida, há
quem ataque de forma mais lenta, há quem ataque de forma mais racional, e
quem ataque de forma mais irracional. Mas, no fundo, ataca quem tem
bola, e defende quem não a tem. Ao contrário do que pensam os palermas,
que pensam que esta Espanha ensinou o mundo a defender com bola, o que
esta Espanha fez foi ensinar que é possível atacar defendendo e defender
atacando. Há uma diferença monstruosa entre atacar porque sim e atacar
racionalmente, e essa diferença consiste em saber os usos certos a dar à
bola. Os palermas que acham que o futebol da Espanha é aborrecido não
percebem isso. Como não percebem a racionalidade do futebol espanhol, e
no fundo defendem a irracionalidade, são estúpidos. São estúpidos, e um
futebol inteligente como o da Espanha, dá-lhes sono. Os palermas, tal
como preferem fogo-de-artifício a um livro, preferem uma equipa inglesa
(e o futebol electrizante praticado em terras de Sua Majestade) ao
futebol mais bem praticado de sempre. A conclusão de tudo isto é que os
palermas não gostam de futebol. Gostam das sensações que se habituaram a
ter ao ver futebol. E isso é diferente. Aborrecida, esta Espanha?
Aborrecida uma equipa em que todos os jogadores estão a pensar ao mesmo
tempo? Aborrecido um futebol em que, de minuto a minuto, os jogadores
nos mostram habilidades dificílimas e fazem coisas que só estão ao
alcance de muito poucos? Aborrecido é ver um jogo com quarenta
oportunidades de golo, mas que resultam de choques no ar, de erros
infantis dos defesas, de remates violentos, de jogadas com 2 passes, do
aproveitamento do muito espaço que existe, etc.. Aborrecido é ver um
jogo que só se joga ao pé das balizas, em que ninguém faz nada de
extraordinário, para além de pôr a plateia ao rubro, com a eminência do
golo. Os palermas não sabem o que é a excelência. Gostam de futebol porque lhes dá comichão, não porque reconheçam o que é excelente.
O
contrário de um jogo aborrecido, para quem não é palerma, foi a
primeira parte desta final. Os comentadores de serviço, como não podia
deixar de ser, reproduzem ideias consoante a marcha do marcador. Como o
resultado final foi uma vitória esmagadora dos espanhóis, acham que o
jogo só teve um sentido, e que a Espanha foi muitíssimo superior. A
verdade é que não foi. Aliás, a Itália, na primeira parte, voltou a
mostrar de que modo se deve jogar contra esta Espanha, ou seja, com
bola. Ao intervalo, já os comentadores diziam que a Espanha estava a ser
superior. Diziam-no porque olhavam para o resultado, não porque
estivesse, de facto, a ser. A Itália, na primeira parte, criou tantas ou
mais oportunidades que os espanhóis, teve mais posse de bola (o que é
um feito enormíssimo), mas acabou por ter o azar de encontrar uma equipa
inspiradíssima, a quem as coisas foram correndo cada vez melhor. A
primeira parte do jogo foi um exemplo daquilo que, na minha opinião, vai
ser o futebol daqui a uns anos, um futebol jogado sobretudo no
meio-campo, com uma percentagem de passes acertados muito boa, apesar da
competência da pressão adversária, um futebol bastante rendilhado, com
muitas combinações colectivas, passe e devolução constante, de um lado e
do outro, com muitas tabelas, com as equipas a progredirem no terreno
de forma apoiada, sustentando os seus ataques através de movimentações
interiores, de aproveitamento de espaços entre as linhas defensivas
adversárias. Não fossem as vicissitudes da segunda parte, e teria sido o
melhor jogo do europeu (o primeiro jogo entre estas duas equipas já
estava entre os três melhores), com duas equipas interessadas em ganhar,
e sem medo nenhum uma da outra. Aliás, o comportamento da Itália, com
bola, foi qualquer coisa de espantoso. Nunca caíram na tentação de jogar
longo, procuraram sair sempre a jogar, apesar da excelente pressão
espanhola, e a verdade é que foram compensados por essa estratégia
conseguindo sair das zonas de pressão várias vezes, e conseguindo chegar
à área espanhola em boas condições, e de maneira a criar boas situações
de golo. No final, a Itália foi goleada, mas foi a equipa que mais
problemas conseguiu criar à defesa espanhola (tanto num jogo como
noutro, criaram várias oportunidades de golo). A primeira parte foi
equilibradíssima, e a segunda equilibrada começou, com ambas as equipas a
criarem oportunidades. Prandelli errou, quando tirou aquele que estava a
ser o melhor em campo, Riccardo Montolivo (já havia errado, ao tirar
Cassano ao intervalo), e acabou por ter azar, porque Thiago Motta, cinco
minutos depois, se lesionou, o que fez com que a contenda terminasse.
Mas, ainda assim, está de parabéns. Fatalmente, a Espanha é melhor. Num
jogo em que falhou muito menos passes do que em jogos como o das
meias-finais, e num jogo em que até teve muito menos espaço no centro do
terreno, os seus jogadores acabaram por se mostrar muito inspirados.
Quando se elogia tanto Portugal, por ter conseguido anular as ofensivas
espanholas, devia-se reflectir um bocado. Portugal teve o mérito de não
deixar a Espanha construir na primeira fase, onde eles não são fortes,
como o é, por exemplo, o Barcelona, mas nem sequer impôs os mesmos
constrangimentos no centro do terreno que os italianos. Simplesmente, as
combinações entre os médios espanhóis, a movimentação entre linhas, o
jogo sem bola das diferentes unidades espanholas, e as decisões de quem
tinha a bola foram muito melhores. Ajudou a isso, entre outras coisas, o estado do relvado, muito melhor que o da meia-final, e o menor cansaço dos espanhóis. Por fim, a questão do avançado. Para
os palermas, o golo de Fernando Torres fecha o debate sobre os
avançados. Mas é preciso ser palerma para dizer tal coisa. Primeiro,
porque foi o único golo espanhol, nesta final, que resultou de uma
recuperação alta da equipa. Ou seja, o avançado concluiu um lance que
não é típico desta selecção. Segundo, uma das principais razões para que
a Espanha estivesse mais inspirada foi a inclusão de Fabregas no onze,
em detrimento de Negredo. Aliás, a Espanha fez apenas dois jogos fracos,
neste europeu, e em nenhum deles Fabregas foi a opção de ataque. Sempre
que a Espanha jogou sem avançado, foi superior, criou mais
oportunidades, e não deu quaisquer hipóteses ao adversário. Se provas
ainda fossem precisas, o que esta final demonstrou (já que o empate do
primeiro jogo tinha levantado essa dúvida) é que o estilo de jogo
espanhol exige um avançado que não o seja. Para que este estilo seja
eficaz, é preciso quem saiba aproximar, dar apoio vertical, jogar entre
linhas, tabelar. Um médio habilidoso, por norma, sabe-o muito melhor do
que um avançado de área. É por isso que esta Espanha funciona melhor sem
avançados.
Melhor Equipa, em 433:
Guarda-Redes: Buffon
Defesa Direito: Debuchy
Defesa Esquerdo: Philip Lahm
Defesas Centrais: Piqué e Hummels
Médio Defensivo: Andrea Pirlo
Médios Ofensivos: Luka Modric e Xavi
Extremos: Andrés Iniesta e Cristiano Ronaldo
Avançado: Cesc Fàbregas
Treinador: Cesare Prandelli
Suplentes:
Guarda-Redes: Iker Casillas
Defesa Direito: Arbeloa
Defesa Esquerdo: Jordi Alba
Defesas Centrais: Chiellini e Lescott
Médio Defensivo: Sergio Busquets
Médios Ofensivos: Marchisio e Montolivo
Extremos: David Silva e Mesut Özil
Avançado: Ibrahimovic
Treinador: Michal Bilek
Melhores Jogadores: 1º: Andrea Pirlo; 2º Andrés Iniesta; 3º Luka Modric