Mostrar mensagens com a etiqueta Saviola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Saviola. Mostrar todas as mensagens

sábado, 3 de março de 2012

A Lotaria dos Detalhes e o Ostracismo de Saviola

Num jogo com duas equipas pouco interessadas em arriscar muito, pressionantes, subidas, mas raramente querendo fazer da bola aquilo que ela deve ser, num jogo em que as preocupações em não perder a bola em construção, e em que o medo dos desequilíbrios defensivos superou a necessidade de promover a imaginação e a criatividade ofensiva, num jogo em que houve um equilíbrio de forças muito constante, a vitória poderia pender para qualquer um dos lados. Neste tipo de jogo, os detalhes fazem a diferença, e - pode de facto dizer-se - foram os detalhes que definiram a vitória do Porto na Luz: os comportamentos defensivos inadequados de Emerson nos dois primeiros golos, o fora-de-jogo no terceiro, as lesões de Aimar e Garay, a expulsão de Emerson, o único lance em que o Benfica não conseguiu impedir a transição do Porto ter dado golo, etc..

Mas a derrota no jogo (e quem sabe no campeonato) tem de começar a explicar-se muito antes. É que não é por acaso que a equipa encarnada acabou à mercê dos detalhes. Tudo começou há muito tempo, e culmina agora. Jesus tem vários méritos, mas teve sempre o defeito de ter como principal paixão a vertigem e a intensidade. Esse era o defeito principal do seu Benfica no primeiro ano, defeito que, por não ter corrigido no segundo, lhe valeu o desastre que valeu. Este ano, tentou corrigi-lo, mas não soube nunca como o fazer. Passou a não correr tantos riscos em construção, numa primeira fase, com uma circulação mais à largura e mais paciente nessa primeira fase, e tentou trazer densidade e argumentos físicos ao meio-campo. O problema, no entanto, é que Jesus, como em muitos outros casos, pareceu identificar o problema certo nos sítios errados, ou de modo errado. O problema da intensidade e da vertigem não está só nos desequilíbrios defensivos que provoca, não está só no risco que promove; está também, e talvez acima de tudo, na incerteza ofensiva que gera. E a verdade é que, se numa primeira fase, o Benfica actual parece mais calmo e maduro do que antes, se parece mais capaz de controlar a forma como se desequilibra quando ataca, no último terço continua a equipa febril e viciada em intensidade que sempre foi na era de Jesus. As competências ofensivas da equipa encarnada continuam assim demasiado dependentes da intensidade que a equipa conseguir impor ao jogo (levando o jogo para velocidades de execução que acentuem a desigualdade individual), da inspiração individual, e dos atributos técnicos e físicos dos seus atacantes. Continua a ser dada pouca importância à imaginação, à criatividade, à inteligência, e às combinações colectivas.

O problema mais curioso de Jesus, como disse, parece ser a incapacidade para perceber mais concretamente aquilo que até consegue intuir. Isso é extraordinariamente fácil de compreender no que diz respeito aos jogadores que aprecia. É que Jesus parece muitas vezes gostar dos jogadores certos, mas pelas razões erradas. E isso é determinante. Durante muito tempo, acreditei que Aimar só continuava a ser aclamado entre os adeptos porque Jesus o percebia como poucos treinadores em Portugal o perceberiam, e lhe dava bastante protagonismo no seu modelo por essas razões. Achava que um jogador com as suas debilidades físicas depressa seria ostracizado por qualquer outro treinador. Por aqui, o Gonçalo sempre discordou de mim, e sempre achou que a reputação de Aimar era a principal razão para Jesus lhe dar a atenção e o crédito que lhe dava. Sensivelmente a meio da época passada, comecei a torcer o nariz à minha crença, e hoje estou certo de que o Gonçalo tem razão. Jesus não gosta de Aimar pelo melhor que ele tem, por aquilo que de melhor pode oferecer à equipa; gosta dele porque tem qualidade e a qualquer altura pode inventar uma jogada soberba. Ou seja, o que Jesus espera que Aimar dê à equipa é um momento ou outro de génio, que é mais ou menos o que toda a gente acha que Aimar pode dar. A colocação do argentino preferencialmente mais perto das zonas de decisão assim o comprova. Eu, por outro lado, acredito que Aimar podia dar muitas outras coisas, nomeadamente a capacidade de circulação e progressão em zonas mais baixas, melhor capacidade para sair de zonas de pressão, competência em espaços curtos e entre linhas adversárias, etc.. Aimar é muito mais do que o último passe ou dois ou três apontamentos por jogo. E não perceber isso é determinante. É determinante porque implica não perceber o que falta verdadeiramente à equipa. Aliás, este problema de Jesus estende-se a muitos outros jogadores. Gosta de Nolito pela agressividade e pelo repentismo do espanhol, e não pela forma como antecipa os comportamentos dos colegas e como lê linhas de passe; gosta de Cardozo pelos golos que marca e pela estampa física do paraguaio, e não pela forma como se relaciona com os colegas, sobretudo quando serve de apoio vertical e referência para tabelas; gosta de Saviola pelo oportunismo do argentino e não pela inteligência na movimentação e na decisão. É também por isso que valoriza tanto jogadores que deixam muito a desejar, em alguns aspectos relevantes do jogo. O caso evidente é o de Emerson, mas poderia estender o argumento a Rodrigo, por exemplo, que anda por estes dias quase que criminosamente sobrevalorizado.

De resto, a melhor explicação possível para mais uma época falhada - a confirmar-se o falhanço - é a mesma que tenho dado há já muito tempo. Desde o primeiro ano de Jesus que defendia que os principais argumentos ofensivos do Benfica consistiam nas combinações curtas, que na altura ocorriam quase que exclusivamente quando Aimar e Saviola coabitavam. Aos poucos, Jesus foi abdicando disso. Também aqui não percebeu a importância vital de um argentino para a produção do outro. Aimar e Saviola passaram a estar em campo à vez, até que, finalmente, o segundo deixou de ser opção. O ostracismo de Saviola, tão simplesmente isto, é a principal causa da derrota de ontem. Evidentemente, nada mudaria se Saviola estivesse dentro de campo ontem. O que quero dizer é que há uma relação causal entre uma equipa ser incapaz de não ficar à mercê da lotaria dos detalhes e o processo de ostracismo a que o argentino foi votado. Ao conceder a Saviola o papel de quinta opção, quando necessariamente teria de ver nele a primeira solução para o seu ataque, Jesus pôs um ponto final na dúvida acerca da sua capacidade para perceber de que maneira a sua equipa poderia ser mais competente em termos ofensivos. Ao prescindir de vez de Saviola, mostrou que não é excepcionalmente diferente de vários outros treinadores de competências razoáveis. O seu Benfica é competente em muitas coisas em que outras equipas são competentes; o que não tem é aquela genialidade que só poderia ter (e que teve, ainda que acidentalmente, na primeira época) se tivesse em campo, em simultâneo, pelo menos dois ou três jogadores capazes de se entender entre si na perfeição. Ao contrário de outras competências colectivas, a criatividade do colectivo não resulta da soma da criatividade de que é capaz cada um dos seus elementos, mas da forma como eles se relacionam criativamente entre si. Ao ostracizar Saviola, Jesus ostracizou também a criatividade do seu Benfica. E ficou, por isso, à mercê daquilo de que todos os outros treinadores medianos ficam à mercê.

P.S. Não se fique com a impressão de que, por ter sido omitida, a opinião sobre Vítor Pereira e o futebol praticado pelo seu Porto foge ao crivo crítico desta análise. Nem se pense que essa opinião é especialmente mais moderada do que esta que fica. Haverá oportunidade para falar disso noutra altura, mas não é por ter ganho ontem, nem por se preparar para ser campeão, que Vítor Pereira passa a merecer mais que a mediania em que tento inserir Jorge Jesus. Aliás, talvez fosse até excessivamente prestigiante, se aí o inserisse. Aquele futebol chocho e fraco de ideias não merece, pelo menos da minha parte, especial homenagem.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Clássico e os Detalhes

Não tenho muito a dizer do clássico do passado fim-de-semana, a não ser que, embora emotivo, embora bem disputado, não foi propriamente bem jogado. Ambas as equipas arriscaram o menos possível, e o que acabámos por ter foi um jogo dividido, com muitas disputas de bola, muita luta, muito choque, e pouco futebol. O número de passes acertados foi certamente baixo, e as duas equipas preferiram sempre jogar no erro adversário. Ainda assim, nenhuma delas se entregou às evidências, procurando condicionar a posse adversária o melhor possível. Num jogo com estas características, diria eu, os detalhes são importantes, claro. E foi num detalhe, num lance de bola parada, que tudo se decidiu. Mas os detalhes não ocorrem apenas porque sim. O Benfica venceu num detalhe, mas foi também a equipa que mais fez para contar com a benesse dos "detalhes".

É evidente que a vitória podia ter sorrido a qualquer uma das equipas, e que, mesmo estando onze para onze, não houve uma superioridade significativa, em termos da quantidade de oportunidades de golo, dos encarnados. O resultado mais justo, mesmo sem contar com o que o Sporting fez após a expulsão de Cardozo, talvez até fosse o empate. Mas o jogo do Benfica, ainda que sem a qualidade desejável, procurou o mínimo de racionalidade. Fosse por a bola ter chegado mais vezes a Aimar do que a Matías Fernandez, fosse porque Witsel, Aimar e Gaitan se entenderam melhor entre eles, fosse porque os hábitos encarnados são diferentes, a verdade é que o futebol do Benfica foi menos precipitado. O Sporting nunca se interessou por construir fosse o que fosse. Apostou numa pressão alta, excessivamente condicionada pelas referências ao homem, a meu ver, e por conduzir os seus ataques após recuperações de bola, o mais rapidamente possível. Tudo o que vimos, do lado dos leões, foram solicitações dos homens mais adiantados, cruzamentos largos para a área, correrias de Capel, movimentos verticais de Elias e Schaars, e pouquíssima imaginação. É verdade que conseguiu criar algumas oportunidades nestas condições, mas também é verdade que não foi capaz, precisamente por causa deste tipo de decisões, de criá-las em condições minimamente favoráveis.

Como disse anteriormente, a diferença entre as equipas não se traduziu em número de oportunidades de golo. As melhores oportunidades que o Benfica criou foram ou de bola parada, ou após recuperações ou perdas do adversário (lances de Cardozo e de Rodrigo, por exemplo). Mas sentiu-se sempre que o Benfica chegava às imediações da área leonina em melhores condições, que trabalhava melhor os lances, que era mais criterioso, que se preocupava mais em fazer as coisas de modo racional. A sofreguidão leonina podia ter conduzido a outro resultado, até porque a racionalidade dos encarnados não foi assim tão concludente, mas a verdade é que essa mesma sofreguidão condicionou a equipa, e tem de ser introduzida na conversa sobre detalhes. O jogo decidiu-se num detalhe, sim, mas a própria estratégia de Domingos implicava a aceitação de um jogo decidido pela "lotaria" dos detalhes e deixava a equipa menos preparada para os mesmos.

Fala-se demasiado em detalhes, como se os detalhes merecessem uma análise à parte do resto do jogo. Mas a verdade é que, para que uma partida se decida num detalhe, algo tem de acontecer para que esses detalhes se possam verificar. A meu ver, o principal mérito do Benfica na partida foi precisamente o modo racional como tirou partido da sofreguidão do Sporting. Nem sempre o fez bem, obviamente, e tenho até dúvidas de que o tenha feito conscientemente. Mas fê-lo, nem que tenha sido apenas pelas características dos seus jogadores. Jogando com isso, puxou convenientemente o jogo para o tipo de decisões que mais lhe eram favoráveis, e fez pender os pratos da balança para o seu lado. O jogo foi, de facto, repartido em termos de oportunidades de golos, em termos de emoção junto às balizas, mas foi melhor controlado pelo Benfica. A decisão do mesmo através de um detalhe não pode por isso ser demasiado restrita. Decidiu-se num detalhe, sim. Mas um detalhe que o resto do jogo e o comportamento das duas equipas em campo potenciou.

P.S. Não se tem falado muito da ausência de Saviola do onze encarnado, e tem-se gabado o Benfica desta temporada mais do que me parece razoável. De facto, o melhor Benfica da época foi o dos primeiros jogos, altura em que o argentino ainda fazia parte das primeiras opções de Jorge Jesus. Como sempre disse aqui, a principal arma encarnada no primeiro ano de Jesus, aquilo que introduzia diversidade na equipa, eram as combinações curtas entre Aimar e Saviola, assim como a liberdade de que os dois gozavam no modelo de jogo. No segundo ano, Jesus procurou potenciar em excesso aquilo que a equipa já fazia bem, e deu menos liberdade à criatividade dos dois argentinos, evitando até, o mais possível, que os dois jogassem em simultâneo. Esta época acentuou apenas essa tendência. O Benfica deste ano ganhou alguma inteligência e capacidade de gestão de ritmos com os reforços (sobretudo Witsel, Bruno César e Nolito), mas perdeu ainda mais criatividade no último terço do terreno. Parece uma equipa menos dependente das correrias de outrora, menos interessada em jogar a uma velocidade altíssima, mais competente a gerir a bola em zonas baixas do terreno, mas é uma equipa menos forte a penetrar em blocos mais densos, menos imaginativa. Privar as pessoas daquilo de que Aimar e Saviola, juntos, são capazes, é hoje o maior crime de Jorge Jesus.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Três notas sobre Hipocrisia

Não é importante, mas gosto especialmente de pessoas que tentam passar uma imagem de seriedade e idoneidade que, na verdade, não possuem. É sobre essas pessoas, e sobre a mesquinhez dos seus comportamentos, que este texto essencialmente versa, pessoas que, em vez de sustentarem as suas teorias com argumentos, procuram imbecilizar ideias bem argumentadas, pessoas que terminam conversas quando lhes dá jeito, pessoas que lembram apenas a metade das razões que lhes interessa, pessoas que vêem coisas que não existem, construindo-lhes a existência, pessoas que denunciam comportamentos moralmente condenáveis quando, moralmente também, a sua conduta é francamente duvidosa.

1. Veja-se o que diz Miguel Lourenço Pereira, xenófobo radical, acerca das acusações de racismo que chocaram o futebol francês. Em larga medida, Miguel Lourenço Pereira representa a grande maioria dos tipos de pessoas que referi acima, e tudo à volta de um só umbigo, o que é extraordinário. Não só é hipócrita por atacar um tipo de comportamento que em tantas outras ocasiões o fascina, como constrói um texto em que omite informações (omite, por exemplo, as explicações de Laurent Blanc, o que tornaria muito mais compreensível a posição do técnico francês) para favorecer a sua intenção denunciadora. Por outras palavras, inventa a notícia. E depois disto ainda passa o texto todo a falar de moralidade. Haja lata! Bom, em primeiro lugar, como este espaço gosta de ensinar as pessoas, se Miguel Lourenço Pereira queria denunciar a falta de moral dos franceses, deveria ter usado o substantivo "imoralidade" e não "amoralidade", que significa outra coisa. Um bom dicionário talvez seja a prenda de Natal indicada a oferecer a esta pessoa. Embora o português não seja o forte deste sujeito, não é o pior dos seus males. Muito sucintamente, condena Miguel Lourenço Pereira aquilo que acha ser uma medida racista, que visa quantificar o acesso de miúdos não-nativos a escolas de formação em França, ignorando a explicação alternativa; condena, por definição, o modelo teórico do sistema de quotas, ignorando talvez o quão intimamente democrático esse tipo de sistema pode ser; e condena, por fim, uma sociedade francesa que, embora não me pareça que conheça, apelida de racista. Tenho a vantagem, em relação a Miguel Lourenço Pereira, de não ser hipócrita. Isso faz com que seja capaz de perceber melhor a lógica do assunto. O problema não era de natureza rácica, como podia parecer, mas futebolística. O que estava em jogo não era a diversidade étnica nos escalões de formação, mas a ausência específica de jogadores que se possam distinguir pela técnica e pela capacidade de drible. O problema, nomeadamente em relação aos miúdos de ascendência africana, é que atingem uma maturação física precoce, quando comparados com outros miúdos, o que os deixa em vantagem num processo de selecção não regularizado. A introdução de quotas visaria assim suportar essa "injustiça" e assegurar que o potencial é o principal critério a privilegiar. Pode-se discutir, evidentemente, a aplicação prática de um sistema deste género, pelo tipo de injustiças e discriminação que pode possibilitar, mas a ideia, em termos teóricos, além de profundamente democrática, é futebolísticamente sensata. A formação, em futebol, deve ter em conta uma única coisa: o talento. E a selecção do talento, por não ser um atributo tão visível quanto isso, deve ser impermeável às restantes características dos atletas, características que muitas vezes, em determinadas idades, os favorecem "injustamente". Não conhecendo a fundo a realidade francesa, arriscaria ainda assim a dizer que, num país com tanta diversidade social e cultural, a não-introdução de um sistema de quotas é que é uma injustiça. Havendo tanta diversidade, são os pequenos, os menos dotados atleticamente, mas talvez os que escondem melhores talentos, quem certamente saem mais prejudicados. E isso é, diria eu, bem mais discriminatório do que o contrário.

2. Aimar desmentiu as alegadas agressões de que teria sido vítima, por parte de um adepto encarnado, e explicou que a desavença teve origem na acusação de que ele só passaria a bola a Saviola. Mais do que insólito, o caso demonstra a inequívoca estupidez do adepto comum, que é hipócrita por definição. É que este adepto, caso os resultados tivessem sido diferentes, estaria agora a beijar os pés de Aimar, mesmo que tivesse passado o campeonato inteiro a passar a bola a Saviola. Mais do que a hipocrisia, porém, interessa-me falar daquilo que há de estúpido na situação. Aimar afirmou que disse a tal adepto que não percebia nada de futebol. E disse bem. Aliás, devo confessar, é a melhor resposta possível que um jogador pode dar a uma crítica deste género. Os adeptos são, na sua essência, gente estúpida e alertá-los para isso parece-me mais honesto do que tentar explicar-lhes o que evidentemente não podem perceber. Ao contrário , no entanto, do que seria talvez de esperar, o argumento com que quero sustentar esta posição não é o mais consensual. Esta pessoa não percebe nada de futebol, mas não por as bases da acusação serem falsas, não por se ter equivocado quanto à questão de Aimar passar muitas vezes a bola a Saviola, mas por achar que isso é censurável. Aliás, a verdadeira crítica a fazer seria acusá-lo de não passar a bola vezes suficientes ao colega argentino. É que, se ao longo destas duas épocas, o futebol do Benfica conseguiu alguma vez ser imprevisível e diversificado, isso deveu-se ao entendimento entre Aimar e Saviola. O futebol do Benfica peca é por não promover mais situações em que possam jogar entre os dois, é por não promover a tabela curta a que os dois dão expressão, é por não promover o entendimento e o pensamento gémeo que os dois tão bem revelam. Aimar e Saviola foram os únicos que contrariaram a febre da velocidade a que o modelo de Jesus prestou vassalagem, foram os únicos a oferecer alternativas a uma ideia de jogo geral, perante a qual o comum atleta não é capaz de adicionar nada de original. Aimar e Saviola não se limitaram à ideia geral: procuraram sempre, entre os dois, fazer algo de diferente, modificar as coordenadas do jogo. Nestes dois anos, nenhuma sociedade entre jogadores foi tão determinante dentro do plantel benfiquista como esta. Acusá-los do que quer que seja é não entender nada do que se passou dentro de campo.

3. Por fim, a questão mais badalada. No final dos quatro desafios que puseram frente a frente Barcelona e Real Madrid, Guardiola levou evidente vantagem. Noutras alturas, só num manicómio é que o mérito dos catalães poderia ser discutível. Como se trata de uma questão cara aos portugueses, como interessa aos pobres de espírito derrubar o monstro que é o Barcelona, como Mourinho montou o circo que montou, parece aceitável que se discuta o que quer que seja em relação ao conjunto dos quatro jogos. Todas as acusações de roubo, todas as denúncias de anti-jogo, todas as desculpas de mau perdedor são, como disse Xavi, patéticas. Sou talvez capaz de entender as acusações que foram feitas há dois anos, em relação ao jogo de Stamford Bridge, porque houve de facto três lances mal assinalados, um dos quais a prejudicar o Barcelona (embora se esqueçam convenientemente da primeira mão, em que o escândalo foi tão ou mais grave que o desse jogo), mas não entendo o que se passou agora. Alertei, após os primeiros dois jogos, para a insustentabilidade do modelo apresentado por Mourinho. Dependia de muita coisa, nomeadamente da desinspiração catalã e da leviandade dos árbitros. Assim que um árbitro teve coragem de proteger quem se preocupa apenas em jogar futebol, o Real ficou reduzido a dez. Mourinho queixou-se da arbitragem, mas a responsabilidade do sucedido foi sua. Pepe é bem expulso, ainda que, não sei bem com que audácia, se diga que não tocou no adversário, mas só o risco em que o Real estava a jogar há quase trezentos minutos anunciava a probabilidade de tal desfecho. Pepe foi expulso nessa altura, sim, mas Xabi Alonso, Khedira, Arbeloa, Marcelo, e o próprio Pepe mereciam ter sido expulsos bem antes, noutros jogos, até. Queixar-se o Real do que quer que seja, quando em quatro jogos conseguiu apenas uma boa primeira parte, no jogo da Taça, ficando sucessivamente à mercê do futebol do Barcelona no tempo restante, é má-fé. O Real perdeu bem, mereceu perder e a única injustiça foi não ter sofrido perdas mais categóricas. Aliás, após os quatro jogos, Mourinho deveria dar graças pela conquista de um troféu, pois só com muito boa vontade alguém com juízo pode aceitar que tenha feito o suficiente sequer para merecê-lo.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lições de Mestre (2)

A jornada tinha, por jogo grande, a recepção do Porto ao Braga. Maior parte dos iluminados não conseguiu perceber que o resultado esteve muito longe de expressar uma supremacia do Porto e que o Porto foi, essencialmente, uma equipa eficaz a aproveitar os espaços em transição. À margem disto, voltou a ser um Porto pouco imaginativo, pouco capaz em organização ofensiva, excessivamente vertical, com os dois médios, Rúben Micael e Raúl Meireles muito precipitados, a tornar o jogo sistematicamente numa vertigem de velocidade. Resultou, é certo, mas porque o Braga não esteve bem onde era importante estar contra este Porto. Duvido seriamente, porém, que isto não seja o primeiro capítulo do afundamento deste Porto. Desde que Belluschi saiu da equipa, o Porto voltou a ser uma formação demasiado preocupada com a velocidade e, contra adversários fechados lá atrás, que optem por blocos baixos, voltará a sentir dificuldades.

Não é, contudo, sobre este jogo que pretendo falar. A análise ao mesmo está no nosso artigo desta semana no Academia de Talentos. Pretendo antes recuperar o lance do primeiro golo do Benfica frente à União de Leiria, num jogo disputado há já algumas semanas, mas correspondente a esta jornada. O lance é genial e merece, por isso, a inclusão nesta rubrica. A tabela entre Saviola e Aimar parece simples, mas não é. Quantos jogadores, na mesma situação, fariam o mesmo? Com um simples toque, Saviola e Aimar ultrapassaram 4 defesas e o cruzamento para Cardozo tornou-se possível. É isto que uma simples tabela permite. Nenhum lance individual, nenhum talento requintado, nenhuma invenção sobre-humana seria capaz de tornar uma jogada aparentemente inofensiva num lance iminente de golo. Saviola e Aimar, em pezinhos de lã, com um movimento aparentemente simples, conseguiram-no. Eis o que, no futebol actual, faz dos processos ofensivos algo mais do que a soma da inspiração de cada jogador.



Há quem ache que, no que diz respeito a processos ofensivos, os treinadores têm responsabilidade essencialmente na transição defesa-ataque e nas primeiras fases de construção. Segundo esta teoria, no último terço do terreno, com o adversário organizado defensivamente, prevalece sobretudo o talento individual, a inspiração, a qualidade de cada jogador da equipa. E, segundo ainda esta teoria, a definição dos processos ofensivos no último terço do terreno não é treinável. Se não bastasse, para contradizer esta teoria, o modelo de Guardiola, eis que dois pequenos argentinos, com um passo de tango, a destroem por completo. Entre vários adversários, Saviola procurou Aimar não porque o seu talento o impeliu nessa direcção, mas porque percebeu que, combinando com o colega, se desembaraçaria muito mais facilmente da situação em que estava. Que isto aconteça mais frequentemente entre estes dois jogadores é explicado pelo facto de ambos terem mais consciência daquilo que isso lhes permite. Mas o movimento é colectivo e pode ser replicado por outros jogadores. Assenta essencialmente na ideia de que, fazendo a bola circular rapidamente entre dois ou três companheiros, o adversário tem menos possibilidades de inviabilizar o lance, e ainda em coisas como movimentos de aproximação, em apoios constantes, em passe e devolução, etc. O que Saviola e Aimar fizeram foi genial e é a prova de que, em organização ofensiva, mesmo com pouco espaço para jogar, o futebol deve ser essencialmente colectivo e que há mais probabilidades de êxito sempre que se procura resolver as coisas colectivamente, isto é, fazendo participar mais do que um elemento da equipa, do que recorrendo às individualidades. O envolvimento colectivo oferece possibilidades ofensivas que a soma das individualidades jamais oferecerá. Esta é a lição de Saviola e Aimar.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O que é um Avançado?

O texto que se segue tem por objectivo esclarecer aquilo que é ou deve ser um avançado. Serão postuladas algumas teorias e denunciadas algumas falácias típicas. O texto estará dividido por secções, mas todo ele será atravessado pela tentativa de resposta à pergunta "O que é um avançado?"

Um Avançado Não serve para fazer Golos


A resposta à pergunta pode parecer intuitiva, mas estou certo de que pouca gente saberá, com exactidão, a relevância específica da posição. A teoria mais convencional consiste em afirmar que um avançado é ou deve ser o responsável pela conclusão dos lances de ataque da sua equipa. Essa teoria não só não faz sentido como também põe a nu as fracas competências analíticas de quem quer que a defenda. Segundo esta doutrina, um avançado serve para marcar golos, como se os golos - esse acontecimento tão especial e único - não devessem ser antes um objectivo geral da equipa. Os defensores desta teoria jamais se podem livrar da terrível concepção de que os jogadores de uma equipa têm funções específicas em campo. Ainda assim, há quem queira defender as duas coisas, não percebendo a incoerência do que defendem. Se um avançado serve para fazer golos, então um médio serve para construir jogadas de ataque, um defesa serve para defender e um médio-ala serve para ir à linha cruzar. Isto é rudimentar e está de tal modo ultrapassado que só um amigo de Jaime Pacheco pode defendê-lo e ainda assim achar que está certo. Mesmo assim, há quem ache que os jogadores não devem ter funções, mas que depois ceda à tentação de classificar um avançado pelos golos que marca. Além de incoerente, este é um comportamento estúpido.

Um avançado não só não serve para marcar golos como não pode, de maneira nenhuma, ser avaliado segundo a competência que denota nesse capítulo. Tudo porque as coisas têm de ser contextualizadas. Por exemplo, um avançado pode marcar muitos golos porque simplesmente não se preocupa com mais nada. Isto não faz nem pode fazer dele um jogador extraordinário. Do mesmo modo, um avançado pode fazer poucos golos porque passa maior parte do tempo a procurar servir a sua equipa de outra maneira. O seu registo pouco impressionante não pode, também, servir para caracterizar a sua qualidade geral. Um avançado que não marca golos pode ser o jogador mais influente da sua equipa. Tudo depende do seu desempenho geral e não de dois ou três lances numa partida. Aqueles que não são capazes de perceber isto devem interromper a leitura imediatamente. Certos saberes não podem ser adquiridos por toda a gente.

Saviola: o melhor Avançado da Liga Portuguesa

Falemos agora um pouco mais concretamente. Actualmente, poucos se atreverão, certamente, a dizer que Saviola não é o melhor avançado desta Liga. Falarão até, muito provavelmente, nas coisas certas, nos movimentos sem bola, na capacidade técnica, no improviso, na inteligência, na capacidade para se movimentar entre linhas e para tabelar com os companheiros. Tenho, porém, sérias dúvidas de que existisse tamanho consenso caso Saviola não tivesse marcado já bastantes golos, embora continuasse a ser extraordinário em tudo aquilo que se lhe reconhece. Por aqui, desde muito cedo que afirmámos que o avançado argentino era o melhor da Liga, numa altura em que Cardozo e Falcao se destacavam na liderança dos melhores marcadores e ele tinha ainda, apenas, dois golos obtidos. Não precisámos que Saviola marcasse a quantidade de golos que já marcou para lhe outorgarmos esse estatuto e continuaríamos a defender esta posição mesmo que o argentino continuasse sem marcar golos. Aquilo que Saviola faz em campo é tão extraordinário que, mesmo retirando os golos que tem marcado, não há ninguém ao seu nível. Saviola é avançado e não é pelos golos que marca que é o melhor avançado da Liga. Se, por azar, não tivesse nenhum golo obtido, continuaria a sê-lo.

Aquilo de que duvido é que a maioria das pessoas que reconhece valor ao argentino consiga ser isenta ao ponto de defender o mesmo nas circunstâncias em que apresentei, ou seja, no caso de ele não ter qualquer golo marcado. O que estou a dizer é que, consciente ou inconscientemente, maior parte das pessoas faz depender o valor que reconhecem em Saviola não de tudo o resto que falei mas dos golos que marca. Sem os golos, não teriam focado a atenção no argentino e não teriam reparado em tudo o resto e na relevância de tudo o resto. Isto não faz sentido. No fundo, é dizer que Saviola vale por tudo aquilo que foi referido, mas ter usado a bitola dos golos para lhe avaliar a competência. Estou certo que há pouquíssimas pessoas que entendem realmente o que é um avançado. Aquilo que vou fazer de seguida é tentar definir, com o grau de precisão que for possível, aquilo que deve ser um avançado.

Requisitos de um Bom Avançado

A única diferença entre um avançado e um defesa, ou entre um avançado e outro jogador qualquer, é a posição relativa em que joga. Por posição relativa entendo o posicionamento em campo em função dos restantes companheiros. Um avançado é, portanto, por definição, um jogador que joga numa posição mais avançada, em relação aos colegas. Isto em teoria, porque na prática, dependendo das situações do jogo, o seu posicionamento pode oscilar. Muita gente acha que, por ser o jogador que, teoricamente, joga mais avançado, deve ser aquele que deve ter por missão fazer golos, uma vez que está mais perto da baliza do que qualquer outro colega. Isso é, contudo, uma forma simplista de ver o jogo. O futebol é tudo menos um jogo simples e um avançado tem mais para fazer em campo do que ser o elemento mais avançado de uma equipa. O futebol, jogado como um todo, não pode estar refém de jogadores com funções específicas; uma equipa, para fazer golos, não pode estar refém do seu atleta mais adiantado. Tem de ser capaz de tornar complexo o seu jogar a ponto de ser absolutamente indiferente quem faz ou não faz os golos.

Um avançado serve para tudo o que outro jogador qualquer serve. Acontece, porém, que o estar numa determinada posição relativa em campo faz com que participe mais vezes numas situações e menos noutras. Deste modo, um avançado estará muito menos vezes de frente para a baliza adversária do que um defesa, pelo simples facto de que, na maior parte do tempo, o jogo está a ocorrer atrás de si. Assim, jogará muito mais vezes de costas para a baliza adversária e será quase sempre de costas para a baliza que será solicitado. Um avançado que se preze, numa equipa que jogue ao ataque, tem portanto de ser competente na maior parte das vezes em que é solicitado. Se maior parte das vezes em que é solicitado está de costas para a baliza e com adversários à ilharga, tanto mais competente será o avançado quanto melhor for a jogar de costas para a baliza, a servir de apoio vertical, a baixar no terreno para tabelar, sem se virar para o jogo. Ao avançado não se pede que seja capaz de ter uma visão periférica porque na maior parte das vezes deve estar preocupado, isso sim, em movimentos de aproximação, em perceber onde estão os colegas mais próximos e em proteger a bola. Ora bem, um bom avançado não é, portanto, um avançado que faça muitos golos. Quem pensar isto, está equivocado. Um bom avançado é alguém capaz de servir de apoio vertical, capaz de baixar no terreno para tabelar, capaz de proteger a bola, capaz de encontrar com celeridade um companheiro perto de si. Um avançado que recebe a bola de costas para a baliza e que a perde invariavelmente, que se vira mais vezes para o adversário do que procura jogar de frente, que não é capaz de encontrar soluções de passe com rapidez e que não sabe a importância de proteger uma bola, é um mau avançado pelo simples facto de, na maioria das situações, ser incompetente.

Numa equipa que joga ao ataque, as competências mais importantes num avançado são estas. A razão é simples e tem a ver com a quantidade de vezes em que as solicitações exigem essas competências. Naturalmente, um avançado não é só solicitado desta forma. Mas uma vez que esta é a forma geral em que mais vezes é solicitado, é um contrassenso imaginar que um avançado que não seja competente nesse aspecto possa ser um grande avançado. Um avançado que - imaginemos - é incompetente em 80% das situações em que é solicitado não pode nunca, por melhor que seja nos outros 20%, ser um grande avançado. Ainda assim, é talvez importante referir de que outras formas pode um avançado ser solicitado e de que outras formas pode ser competente. Sem bola, pode ser útil na forma como se movimenta de modo a arrastar marcações ou a desviar atenções, a esticar a equipa adversária ou a fazer diagonais para permitir linhas de passe aos colegas. Pode ainda ser solicitado através de cruzamentos e pode ser mais ou menos competente a atacar zonas de finalização. Há, no entanto, uma pequena ressalva a fazer em relação a isto.

O Melhor tipo de Avançado

Muita gente não percebe isto, mas penso que é algo que só a muito custo pode ser negado. Muitos dos avançados que passam maior parte do tempo preocupados em movimentos de aproximação, em servir de apoio vertical, em baixar para tabelar com um colega, não têm depois tempo para acorrerem ao cruzamento que toda a sua participação anterior tornou possível. Muitas vezes, quando um avançado baixa para que a equipa consiga desbloquear uma situação no meio-campo e a jogada prossegue e exige uma finalização, o avançado que antes baixara no terreno e possibilitou todo o desenho subsequente não é capaz de chegar à área em condições de atacar as melhores zonas de finalização. Isto é assim por definição. Como tal, é natural que um jogador que não tenha as preocupações anteriores, que não baixe no terreno e se mantenha bem posicionado e concentrado unicamente no ataque das zonas de finalização, seja capaz de marcar mais golos. O que é importante, porém, perceber, é o que é mais útil para a equipa: contar com um avançado que marque mais golos ou contar com um avançado que participa melhor na manobra ofensiva da equipa. Eu não tenho quaisquer dúvidas. Um avançado que esteja preocupado apenas em marcar golos, por mais competente que seja nesse aspecto, faz com que a equipa esteja permanentemente coxa, a jogar com um elemento que não se dá a mostrar, que não procura ser solicitado senão para finalizar.

Isto não é apenas uma questão de preferência. Não é só o facto de preferir um tipo de avançado em detrimento de outro. Trata-se de perceber que um tipo é melhor que o outro porque permite mais coisas à equipa do que o outro. Um avançado não serve para marcar golos e um avançado que só seja competente a marcar golos é um mau avançado. Ponto final. Pode ser melhor que um avançado que também só seja competente a marcar golos, embora não tão competente, mas é sempre inferior a um avançado que seja competente no resto, ainda que não seja tão competente a marcar golos ou, simplesmente, que a sua competência de goleador seja afectada pelo facto de estar mais interessado em outras competências.

Ibrahimovic e a Ausência de relação causal entre Eficácia Colectiva e Avançados Goleadores

Não há, talvez, melhor exemplo para demonstrar a razão do que digo que o do melhor avançado do mundo. Na melhor equipa do mundo, o melhor avançado do mundo, Zlatan Ibrahimovic, não marcava há 2 meses e meio. Voltou a marcar esta semana. Repito: não marcava há 2 meses e meio! E é o melhor do mundo. E joga na melhor equipa do mundo. E o que é extraordinário é que o jejum de golos do sueco coincidiu com o melhor período do Barcelona esta época. Neste período, o Barcelona ganhou praticamente todos os jogos, goleou mais vezes do que o tinha feito até aqui e jogou muito bem. Mais extraordinário ainda é que Ibrahimovic foi quase sempre dos melhores em campo. Esteve excelente na forma como contribuiu para o jogo de posse da equipa e foi, sem dúvidas, dos principais responsáveis pelo esmagador caudal ofensivo apresentado. O Barcelona não precisou que Ibrahimovic fizesse golos para vencer e para jogar bem; precisou, isso sim, que Ibrahimovic contribuísse para a competência ofensiva da equipa, para que a equipa, enquanto equipa, fosse capaz de atacar bem e de criar situações de golo. Durante este período, Ibrahimovic não marcou golos, mas o futebol do Barça melhorou. Para quem esteve atento, as razões são simples. Ibrahimovic esteve excelente nos movimentos de aproximação, no abaixamento no terreno para funcionar como apoio vertical, nas tabelas. Com isto, o futebol atacante do Barcelona fluiu exemplarmente e a equipa conseguiu ser mais acutilante. Em termos individuais, este tipo de coisas talvez tenham prejudicado o pecúlio do sueco, pois acabou por sair das zonas de finalização mais vezes, mas a equipa agradeceu. Um grande avançado, como o é Zlatan Ibrahimovic, é por isso muito mais alguém que propicia tais coisas à equipa do que alguém que faz muitos golos. O Barcelona - repito - esteve imparável, e Ibrahimovic, o único avançado da equipa, não marcou golos. É até irónico que, precisamente no dia em que voltou a marcar golos, o Barça tenha sido finalmente parado no campeonato. Nada poderia ser mais conclusivo: não existe qualquer relação causal entre um avançado que marca muitos golos e uma equipa eficaz. Uma boa equipa, que pratique um bom futebol, não necessita de ninguém em específico que marque muitos golos. Pensar o contrário trata-se de uma falácia absurda que os tempos modernos e o advento de modelos de jogo sofisticados como o de Guardiola ou - por que não dizê-lo? - o de Mourinho, nos seus primeiros anos, já deveriam ter erradicado.

Postiga, Liedson e a Irrelevância de um Avançado que faça golos

O que aconselho, por isso, às pessoas que continuam a achar que um avançado serve para fazer golos é que parem de dizer asneiras. Um avançado é muito mais do que alguém que faz golos e mesmo um avançado que não marque um único golo, numa prova inteira, pode ser um avançado muito importante na manobra da equipa. Para quem não consegue ver mais do que golos, para os cegos que seguem cegamente o fenónemo futebolístico, Hélder Postiga, que não marca há não sei quanto tempo, é um mau avançado. Além de isto ser francamente estúpido, porque ignora que, noutras alturas, Postiga já fez bastantes golos, é uma forma simples de avaliar um atleta. Não conseguem perceber o quanto o futebol do Sporting ganha com um avançado que faz o tipo de coisas que Postiga faz e, como não marca golos, apressam-se a injuriá-lo. A mais mordaz das respostas a este tipo de palermice está bem à vista de todos. Apesar de haver ainda quem o queira ignorar, é um facto indesmentível que o futebol do Sporting, desde que Postiga foi afastado, perdeu muita qualidade. Em Janeiro, quando, por sorte, Liedson esteve parado, o Sporting apresentou invariavelmente Postiga e Saleiro na frente de ataque. O que a equipa ganha com este tipo de jogadores foi aqui, atempadamente, anunciado: melhor circulação de bola, apoios verticais constantes, capacidade para segurar e entregar de frente, aproveitamento do espaço entre linhas. No último terço do terreno, o Sporting tinha jogadores que eram capazes de dar continuidade à troca de bola da equipa, jogadores capazes de propiciar mais soluções de passe e capazes de tabelar com os colegas. É inegável, para quem viu o Sporting jogar nessa altura, que a equipa tenha melhorado significativamente de qualidade. Na altura, referimos a presença destes dois avançados como a principal das causas para a melhoria que se registou. Além de a qualidade ter melhorado em relação ao passado e de a equipa ter apresentado um futebol como já não apresentava há já cerca de dois anos, o Sporting venceu também todos os jogos, entre eles um desafio frente ao Braga. Desde que Liedson regressou, o Sporting soma 1 empate e 5 derrotas, entre elas duas humilhantes goleadas ante os rivais. Nada poderia ser mais conclusivo, de novo. Junte-se a isto o regresso à ausência de ideias, a esterilidade dos processos ofensivos e a má qualidade, em termos gerais, do futebol praticado. O que mudou foi que o Sporting deixou de ter na frente, entre os defesas, um jogador capaz de dar continuidade ao processo ofensivo e passou a ter um jogador que raramente consegue dar continuidade ao que quer que seja e que só é útil no último toque. Com isto, o Sporting passou a jogar pior. Passou a não conseguir entrar no último terço do terreno com a bola controlada, como o fazia com Postiga; passou a perder mais bolas quando tinha de a trocar em espaços mais reduzidos; passou a viver mais do acaso e do improviso. Sugeriu-se, na altura, que a melhoria do mês de Janeiro tinha a ver com os adversários que o Sporting tinha encontrado, com a chegada de João Pereira e até com a mecanização das ideias de Carvalhal. Nada disto é verdade. O Sporting voltou a perder com o Braga e já encontrou adversários acessíveis aos quais não conseguiu ganhar, João Pereira manteve-se na equipa e as ideias de Carvalhal não deixaram de estar mecanizadas de um momento para o outro. O que mudou foi que o avançado que agora joga é completamente diferente do anterior e é alguém que não permite o mesmo tipo de coisas que o anterior. Sem Postiga, o Sporting é menos competente ofensivamente, joga pior, tem menos capacidade para ter a bola e torna-se uma equipa mais frágil. Não há como não reconhecer isto. Pode ganhar um avançado que faz alguns golos, mas perde capacidade de construir jogadas para golo. Pouco interessa que Liedson faça muitos golos se, com ele, a equipa é mais fraca. Postiga poderia nunca mais marcar golos na vida. Desde que continuasse a ter a influência que tem na manobra ofensiva da equipa, o Sporting seria sempre melhor com ele do que com Liedson.

A Mentalidade

Há quem ache ainda que, sobretudo num avançado, não fazer golos implica uma perda de confiança que afecta o seu desempenho geral. Isto não é verdade, como o comprova o exemplo de Ibrahimovic. Sobre a importância da mentalidade num jogador de futebol falarei brevemente. Para já, queria concentrar-me nesta ideia, que não faz sentido nenhum. Um avançado que valha pelos golos pode, de facto, sentir-se afectado se fica muito tempo sem marcar golos. Com o tempo, a ansiedade de voltar a marcar pode ser um factor emocional negativo, na hora de atirar à baliza. Mas achar que a ansiedade de não marcar golos implica um desempenho geral negativo é ridícula. O jogador pode sentir ansiedade quando confrontado com uma situação de finalização, mas dificilmente isso prejudicará o resto do seu jogo se tiver consciência de que, no resto, as coisas lhe têm saído bem. Basta olhar para os casos de Postiga e de Ibrahimovic. Talvez tenham denotado alguma ansiedade na hora de finalizar - sobretudo Postiga - mas continuaram excelentes em tudo o resto. A razão é simples. Ambos percebem a importância do resto das suas acções e não misturam as coisas. Aliás, estou plenamente convencido de que a reacção de Postiga ao facto de não marcar golos há tanto tempo passa por uma tentativa de se concentrar ainda mais naquilo em que é mesmo bom e que pode controlar, a sua inteligência, a sua capacidade para tabelar, para encontrar rapidamente soluções de passe, para jogar de costas para a baliza. Um jogador como Postiga, que sabe que é bom em determinadas acções e que não tem tido a felicidade de marcar, reage tentando estar mais concentrado naquilo em que se sente mais confortável. Talvez também por isso, por estar tão concentrado e preocupado com outras coisas, esteja tantas vezes longe das zonas de finalização. Postiga, ao contrário do que se pensa, não é mentalmente fraco. Se o fosse, todo o seu jogo se teria ressentido. Isso não aconteceu. Postiga tem reagido mentalmente bem, tal como Ibrahimovic o fez durante este período.

Uma coisa que demonstra que esta teoria não está certa é o facto de Postiga praticamente não usufruir de oportunidades de golo. É verdade que, as que teve, não conseguiu aproveitar. Mas não é um avançado que usufrua de muitas. Significa isto que Postiga não se mexe bem dentro da área? Não. Mexe-se bem. O problema é que não está tantas vezes em posição de atacar convenientemente as zonas de finalização porque passa mais tempo preocupado com outras coisas. A ausência de golos não provoca um abaixamento da confiança do jogador, como se pensa. Provoca, isso sim, que o jogador procure melhorar naquilo em que sabe que é bom, de modo a compensar a ausência de golos. Ao fazê-lo, acaba por, consequentemente, ter ainda menos oportunidades para marcar golos. Isto funciona sempre assim, em grandes avançados, em avançados com uma personalidade forte como Postiga. Funcionou assim com Ibrahimovic, também. Esta questão da mentalidade, portanto, é mais uma falácia que não tem qualquer fundamento.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Os Pequenotes

Num desporto em que cada vez mais as pessoas se apaixonam pelos Raúis Meireles do momento, eis que surgem dois pequenotes, desprovidos de velocidade ou força especialmente distinta, mas extraordinários do ponto de vista técnico e, sobretudo, do ponto de vista intelectual, a fazerem as delícias dos verdadeiros amantes da modalidade.

De um deles, disse há pouco mais de um ano que era o meu maior ídolo na actualidade e que seria um prazer poder vê-lo em Portugal, mas que temia que o seu futebol não fosse apreciado e valorizado no contexto nacional e no contexto particular da equipa para onde vinha. A época transacta deu razão às minhas reservas, mas, felizmente, tudo mudou desde Agosto. Do outro, sempre fui fã incondicional e não tinha dúvidas do seu valor. Como em relação ao primeiro, cheguei a temer que a mentalidade retrógrada do país não soubesse retribuir-lhe a qualidade. Felizmente, uma vez mais, encontrou o espaço ideal e a mentalidade ideal na equipa para a qual veio habitar.

Por esta altura, qualquer pessoa sensata saberá já que estas palavras de apreço não poderiam ser dirigidas senão a Pablo Aimar e a Javier Saviola. Os dois argentinos são, a uma distância que não consigo sequer qualificar, de tão vasta, os melhores jogadores deste campeonato. Com eles, o Benfica não é só um candidato ao título normal; é uma equipa mentalmente saudável, imaginativa como muito poucas no mundo. O futebol encarnado tem, colectivamente, uma qualidade considerável e Jesus está, por isso, de parabéns. Mas a principal virtude deste conjunto são estes dois pequenotes. E não estes dois, cada um por si; estes dois, sim, mas quando relacionados um com o outro. O Benfica torna-se especialmente poderoso quando estes dois conseguem combinar entre si, quando se conseguem entender. A relação entre eles é que é formidável. As suas qualidades mais interessantes, por isso, são aquelas que lhes permitem perceber-se um ao outro e não aquelas através das quais conseguem, ocasionalmente, resolver situações individuais.

O principal mérito de Jorge Jesus, de entre os muitos que tem, é ter confiado incondicionalmente o seu Benfica à arte destes dois enormes jogadores. Ao contrário de Paulo Bento, que parece desenhar a sua equipa sempre em função de Liedson, o mérito de Jesus consistiu em perceber em função de quem é que vale a pena desenhar equipas. Se uma equipa de futebol deve ser pensada em função de alguma coisa, deve sê-lo em função do talento. E é de talento que tem de se falar quando se fala nos nomes de Aimar e de Saviola. Estes dois artistas não têm muitos dos atributos que, hoje em dia, muita gente considera essenciais a um jogador de topo. Não são extraordinariamente velozes, não são agressivos, não são capazes de jogar intensamente durante 90 minutos, não são fortes fisicamente, não são altos. No fundo, são dois pequenotes. Acontece que, ao contrário do que muita gente pensa, o futebol é essencialmente para os pequenotes. E Aimar e Saviola encontraram na Luz quem percebesse isso.

O sintoma que mais fielmente denota a saúde desta equipa não é a capacidade de pressionar alto durante 90 minutos, não é a resistência física dos seus jogadores, não é a organização táctica da equipa, não é a quantidade absurda de golos marcados, não é a capacidade de criar jogadas de perigo a toda a hora. Tudo isto são, de facto, indícios positivos. Mas aquilo que melhor espelha o potencial desta equipa não é nenhuma destas coisas. Aquilo que faz pensar que, de facto, o Benfica poderá fazer uma época extraordinária e medir forças com quase todas as equipas do mundo é um pormenor que tem passado despercebido a quase toda a gente. Falo de Aimar e de Saviola, claro. Mas falo deles não por tudo o que é normal dizer deles, mas por outra coisa. Vejam como trocam a bola entre eles descomplexadamente, como jogam para trás quando podiam progredir, como parecem divertir-se ao mesmo tempo que decorre a competição, como se procuram um ao outro em campo, como tabelam com uma destreza inigualável, como confiam um no outro e endossam a bola ao outro mesmo quando este se encontra rodeado de adversários, como jogam à rabia entre adversários, como iludem tudo e todos negligenciando a ideia de progressão e preferindo repetir o passe para trás. Parecem almas gémeas. Entendem-se na perfeição e podem dar-se ao luxo de levar esse entendimento para patamares de complexidade incompreensíveis para a maior parte dos adversários. Ao fazê-lo, tornam-se muito difíceis de parar. Quando se pensa que Aimar vai definir a jogada, com um passe para as costas da defesa, eis que procura Saviola; quando se pensa que este se vai virar para o adversário e forçar a verticalidade, eis que devolve em Aimar; quando se pensa que, agora sim, Aimar vai dar profundidade, eis um passe para o lado para o amigo Javier; quando se pensa que Saviola, após tanta cerimónia, vai finalmente procurar ser objectivo, eis mais um toque curto para o amigo Pablito. E estão nisto o tempo que for preciso. E os adversários à roda, à procura da bola, com a língua de fora e já sem discernimento para perceber que, com tudo isto, se desorganizaram por completo. A consequência deste tipo de futebol é precisamente esta: desorganizar, pela imprevisibilidade, pela estranheza da coisa, toda uma defesa. O futebol curto de Aimar e Saviola, as tabelas e as contra-tabelas, o exagero de passes e devoluções entre eles, tudo isto corresponde ao maior trunfo deste Benfica. Ser capaz de fazer isto é ser capaz de fazer o que há de mais difícil e eficaz em futebol. Há pouquíssimas duplas que o conseguem. Neste momento, só me ocorrem os nomes de Xavi e Iniesta.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Os erros de David Luiz

Anda para aí muito boa gente deslumbrada com os desempenhos de David Luiz, como se se tratasse do novo Beckenbauer. David Luiz tem qualidades, mas continua a ter defeitos que teima em não corrigir. Mais estranho do que o entusiasmo dos adeptos, é a insistência de Jorge Jesus no jogador, quando Sidnei lhe é francamente superior. Sidnei não comete erros posicionais, não é impetuoso em excesso e não inventa, sendo muito mais seguro a sair a jogar. Aliás, este é outro dos erros em que se insiste. Considera-se que David Luiz é forte a sair a jogar, mas a única coisa em que ele é forte é em fazer disparates. Sair a jogar não significa ser melhor tecnicamente, não significa ser capaz de conduzir a bola para o ataque; significa saber escolher o colega certo a quem endossar a bola, significa desarmar no sentido de ficar com a posse de bola e não de a cortar para fora, significa tomar boas decisões e não somente ter a capacidade de colocar a bola à distância. Nisto tudo Sidnei é bem superior a David Luiz. Ainda assim, o principal problema de David Luiz é em termos defensivos, na quantidade de erros que continua a cometer. E há quem se atreva a comparar-lhe os erros aos de Daniel Carriço, provavelmente o melhor central a actuar em Portugal.

Este texto tem, por isso, a pretensão de revelar alguns dos erros recentes do brasileiro, erros graves que não têm a ver, como muitos julgam, com o facto de jogar a lateral e não a central. Os seus erros têm a ver com índices de concentração, com sentido posicional, com capacidade para se manter emocionalmente estável, com precipitações, com excesso de confiança, etc. E têm acontecido ora quando joga a lateral, ora quando joga a central. Recupero, então, as últimas duas partidas do Benfica (em Poltava e na Luz contra o Setúbal), por ter estado ligado aos três golos sofridos pelos encarnados nesses desafios. Houve ainda outro lance no jogo frente ao Vitória que não deu em golo por mero acaso e no qual David Luiz, após um passe de Di Maria - creio -, passe bastante arriscado, é certo, abordou o lance de forma excessivamente passiva, deixando a bola passar-lhe por trás e sendo captada pelo avançado setubalense que, depois, driblou o central encarnado, acabando, no entanto, por chutar por cima. De qualquer modo, não consegui arranjar imagens do lance, pelo que não falarei mais dele.

Vamos então aos lances:



1. O lance corresponde ao primeiro golo do Vorskla. Em jogada de contra-ataque do Vorskla Poltava, conduzido pela direita, David Luiz, a actuar a lateral-esquerdo nesse jogo, está estranhamente do lado direito do ataque. O que estava lá a fazer não sei. Sei que não estava onde devia e o Poltava ataca por onde ele deveria estar, obrigando toda a equipa do Benfica a um reajustamento que permite que o lance na área seja disputado apenas pelo avançado ucraniano que faz o golo e por Luís Filipe. É certo que Moreira não fica bem na fotografia, mas David Luiz é o primeiro a comprometer. Além disto, a forma como não acompanha a jogada, sendo que lhe era possível ter chegado à area, ainda que pelo lado direito, denota a pouca preocupação com o papel defensivo que deveria estar a desempenhar. Para acabar em beleza, alguém lhe chama a atenção e é possível vê-lo, no final da jogada, no canto superior esquerdo, protestando com esse alguém.

2. No segundo golo, o mau posicionamento de David Luiz é ainda mais gritante. Inicia a jogada estranhamente metido para dentro e bem à frente da linha de defesa. Depois, reage a um passe na zona central, abrindo ainda mais o buraco que criara do seu lado. Como é óbvio, a bola entra na direita, onde não está ninguém, obrigando Sidnei a corrigir essa lacuna e ficando a defesa desprotegida. O cruzamento acaba por encontrar um avançado ucraniano, que se antecipa a Luis Filipe e faz golo. Javi Garcia ainda tenta ocupar um lugar central, mas David Luiz nem se preocupa em ocupar, pelo menos, a posição de Javi Garcia, que lhe fora fazer a dobra. O lance denota, uma vez mais, displicência, falta de concentração e uma péssima tomada de decisão.

3. A culpa do golo do Vitória de Setúbal pode bem ser atribuída a Quim, que sai dos postes quando não o deveria ter feito. Mas David Luiz é o primeiro responsável, pois tem o lance controlado, mas, por excesso de confiança, demora a atacar a bola e, quando o faz, já Hélder Barbosa lá chegara. Poderia ter resolvido facilmente o lance quer passando de cabeça para César Peixoto, quer aliviando mais prontamente a bola. Mas não o fez. Confiou demasiado na sua capacidade de reacção e acabou por facilitar.

4. O quarto lance nada tem a ver com David Luiz. Penso que os três anteriores chegam e sobram para que se reflicta um pouco sobre a sua pretensa qualidade. É o lance do quinto golo do Benfica ante o Vitória de Setúbal e é para mim uma ilustração perfeita daquilo que foi o jogo da Luz. Tinha dito que Saviola foi a chave do desafio e que, pela sua movimentação, desconcertou toda a defesa sadina. Nesta jogada, é evidente o porquê dessa minha afirmação. O lance começa com um passe de Luisão para Di Maria, que cruza para Cardozo ajeitar para Ramires. Repare-se, em primeiro lugar, no espaço que há entre os defesas sadinos e o meio-campo, permitindo a entrada de Ramires. Repare-se igualmente no espaço que há entre cada um dos defesas sadinos. Isto só é possível porque Carlos Azenha veio à Luz defender primitivamente homem a homem. Mas repare-se agora onde está Saviola. Atrás de Di Maria. E perto dele - incrível! - o seu marcador directo. O mais caricato do lance é ver Di Maria pronto a cruzar, com um defesa perto dele, enquanto o marcador directo de Saviola, em vez de estar a olhar para o lance e perceber como se deveria posicionar em função do mesmo, anda à procura de Saviola, virando várias vezes a cabeça para ver se o pequeno argentino não lhe escapava. Nos dias que correm, este comportamento defensivo é ridículo. Este lance demonstra inequivocamente que as razões pelas quais o Vitória foi humilhado na Luz não tiveram nada a ver com a inexperiência dos jogadores nem com qualquer aspecto emocional relacionado com o desenrolar do desafio. Teve a ver, exclusivamente, com a abordagem táctica ao jogo por parte do seu treinador. Se os jogadores estão preocupados com homens em vez de estarem organizados, o único responsável é o treinador. Carlos Azenha não o quis admitir. Falou em desorientação dos jogadores após o terceiro golo. Qual desorientação? Os jogadores já entraram em campo desorientados. E entraram desorientados porque tinham de andar a perseguir individualidades. A movimentação de Saviola, fugindo das zonas de finalização e com isso arrastando os defesas que deveriam ocupar esses espaços, foi por isso a chave da partida.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Coisas por dizer

O período de férias impediu que pudesse falar de certas coisas, bem como concluir certas discussões. Ficaram pendentes, entre outras, discussões sobre aquilo que significa um central ser bom a sair a jogar (que não tem nada a ver com o ter boa qualidade de passe ou ser capaz de transportar e progredir com a bola), assunto que retomarei noutro texto, e discussões sobre a legitimidade da opinião, sendo que, para muitos, é consequência de qualquer regime democrático o poder dizer-se disparates. A cada um destes assuntos dedicarei, brevemente, um texto, mas para já importa falar do que se passou esta semana, pois há muito a dizer.

1. Começando pelo que se passou em Portugal ou com os clubes portugueses, uma palavra para a eliminação do Sporting ante uma Fiorentina a jogar muito mal e outra para o Nacional, que conseguiu eliminar o Zenit da Liga Europa. O Sporting confirmou o terrível início de época e, ironicamente, foi mesmo um dos jogadores a quem menos se podem apontar defeitos quem acabou por estar ligado ao golo de Jovetic. Do Nacional, não vi nada, mas este Zenit, sem as principais figuras e sem o treinador Dirk Advocaat, é certamente uma equipa bem diferente e muito menos forte do que o era há um ano.

2. Continuando no Sporting, Liedson voltou aos golos antes da estreia pela selecção nacional. Agora já ninguém se lembra que não marcava desde Maio e já é novamente o maior avançado de todos os tempos. Mesmo que tenha falhado golos escandalosos, lances esses que, se fossem protagonizados por Nuno Gomes, mereceriam ingente reprovação.

3. O Porto também venceu e há quem diga que Varela já começa a mostrar credenciais. Não sei se é pelo facto de ter participado no primeiro golo, no qual cruza sem olhar, ou se é por ter marcado o segundo, num lance em que o defesa esquerdo da Naval ficou a dormir. Neste tipo de jogos, contra adversários incompetentes a defender como o caso da Naval, jogadores explosivos como Varela têm facilidade em encontrar os espaços para poderem executar. O problema será quando estes espaços não existirem. Aí, Varela será só mais um.

4. O Benfica goleou o Setúbal. Desde cedo, antes mesmo do segundo golo, que me pareceu que o desfecho final seria algo parecido com o que aconteceu. As razões eram óbvias. Jesus não iria pedir nunca para os seus pupilos abrandarem e os erros de organização da equipa sadina eram gritantes. Há quem diga que as bolas paradas definiram o jogo. Discordo inteiramente disso. Antes dos lances que deram os golos, já o Benfica demonstrara conseguir penetrar com facilidade na defesa sadina, abrindo espaços graças à falta de educação táctica do conjunto liderado por Carlos Azenha. É verdade que o factor emocional terá ajudado ao desnivelamento do resultado, mas não foi a principal causa. O principal problema setubalense teve a ver com a forma como abordou o jogo. Interessado em marcações individuais, abdicou da organização própria. Sem talento, sem capacidade para sair das zonas de pressão e sem competência para fechar os espaços, a equipa sadina andou de um lado para o outro atrás dos jogadores do Benfica. É natural que uma equipa dinâmica, com jogadores que, sem bola, procuram os espaços livres, consiga arrastar um adversário que se preocupa com os adversários directos. Desconfio até que esta será a primeira de várias goleadas ao longo da época. Naval, Académica, Belenenses e Leixões, sobretudo pelo modo como jogam, são as equipas na calha para o que se segue.

5. Uma das coisas que Carlos Azenha disse quando chegou a Setúbal foi que ia defender à Sacchi. Marcações individuais é o antónimo disso. Mais um que pensa que ler é saber o significado das palavras que vêm escritas nos livros...

6. Se, como treinador, a sua competência não poderia ter ficado mais abalada, como líder poderia ter-se salvado. Optou por não o fazer. Em vez de defender os jogadores, em vez de poupá-los o mais possível à humilhação de modo a recuperá-los e a transmitir-lhes confiança, Carlos Azenha optou por sacudir a água do capote e colocou as culpas num plantel inexperiente, em jogadores de escalões secundários e na incapacidade dos mesmos para aguentar a pressão. Chamou-lhes , no fundo, incompetentes, mentalmente fracos e imaturos. Boa!

7. O melhor em campo, apesar dos três golos de Cardozo e das três assistências e um golo de Aimar, foi Javier Saviola. As movimentações sem bola do pequeno argentino foram perfeitas. Às vezes, parecia que arrastava meia-equipa sadina, abrindo espaços para os colegas, e ainda ficava sozinho. Foi muito por causa da sua movimentação que o Setúbal, apostando em marcações individuais, se desorganizou defensivamente. Sem Saviola, a história teria certamente sido outra.

8. O Braga continua líder e parece jogar cada vez melhor. Domingos, enquanto treinador, sempre me pareceu pouco coerente. As suas equipas tanto tinham coisas fantásticas como denotavam erros de principiante. O seu trabalho na Académica e no Leiria não foi perfeito, embora também não tenha sido fraco. Para já, o seu Braga está a jogar bem. Vamos ver no que dá. As minhas desconfianças começam, contudo, no facto de a aposta em Rodrigo Possebon não ser clara.

9. Hugo Viana está de volta. A pergunta que fica é: se o Sporting andava atrás de um médio, se não tinha muito dinheiro para gastar e se Hugo Viana até manifestou interesse em vestir a camisola verde e branca, por que razão não foi o escolhido?

10. Em Espanha, o Barcelona entra a ganhar com tranquilidade. Já o Real, superou o Deportivo com muitas dificuldades. Pellegrini vai ter muito que fazer para conseguir estar à altura de Guardiola. É sugestão minha que poderia começar por confiar mais em Gago, provavelmente o melhor médio-defensivo da actualidade.

11. O Barcelona conquistou a Supertaça Europeia num jogo de sentido único. O Shaktar interessou-se apenas em defender e o Barcelona mandou no jogo do princípio ao fim. Em muitos momentos, porém, não conseguiu ser rápido na circulação de bola de modo a aproveitar o espaço entre os diferentes elementos ucranianos. Como tal, não conseguiu muitas ocasiões de golo. A ausência de Iniesta deixa o Barça menos criativo e Ibrahimovic está ainda longe da forma física ideal. Valeu um lance de entendimento entre Messi e Pedro, lance que é um exemplo de como o Barcelona é uma equipa e não um conjunto de jogadores. Depois do golo, destaque para a forma como o Shaktar não conseguiu ter bola durante os cinco minutos que faltavam. Mais nenhuma equipa no mundo consegue trocar a bola durante tanto tempo quando o adversário precisa dela.

12. Em Itália, o Inter de Mourinho começou mal, mas compensou goleando o rival de Milão. O primeiro golo é uma obra-prima e um exemplo de como o futebol se joga pelo meio e não insistentemente pelas alas. A circulação rápida da bola e a movimentação constante dos jogadores acabou por abrir espaços para a entrada de um dos médios, neste caso, Thiago Motta, que só teve que escolher um lado. O Inter deste ano promete reavivar tudo o que de bom José Mourinho conseguiu ao serviço de Porto e Chelsea.

13. A Juventus continua a ser, para mim, o principal adversário doméstico do Inter. Desta feita, venceu sem apelo nem agravo a Roma e Diego, o tal que era fraquinho, foi o herói da partida.

14. Em Inglaterra, atenção ao Arsenal. Wenger parece ter deixado de lado, de vez, o 442 clássico. Com isso, deitou fora a principal fonte de problemas do futebol da sua equipa. A jogar em 433, com a filosofia de jogo que sempre revelou, este Arsenal será certamente mais consistente. Para já, um arranque de campeonato impressionante, com duas goleadas, só travado por um resultado injusto em casa do campeão. Em termos individuais, só um idiota poderia dizer que este Arsenal tem argumentos para rivalizar com Chelsea, Liverpool e Manchester, mas em termos colectivos é a equipa mais interessante em Inglaterra. A jogar assim, num 433 com um médio-defensivo nas costas de dois jogadores mais ofensivos e com dois extremos com liberdade para virem para o meio, o Arsenal mantém a dinâmica ofensiva que sempre possuíu sem se desequilibrar constantemente, como acontecia antigamente. Joga assim de forma mais pausada e não sempre em constante velocidade. O futebol é mais atractivo e mais seguro, ao mesmo tempo. Com o regresso de Nasri e Rosicky, se não abandonar estas ideias, o Arsenal tem tudo para fazer uma grande época.

15. O Chelsea lidera e mantém viva a candidatura ao título. O Liverpool começou mal e o Manchester não está em grande forma. O City terá muitos problemas ao longo do campeonato, assim como o Tottenham, que para já ocupa o segundo lugar, com os mesmos pontos que o Chelsea. Vai ser, porém, o campeonato mais interessante dos últimos anos.

16. Em França, Lisandro tem-se fartado de marcar golos. Mas o que é espantoso é mesmo como Cissokho é titular em vez de Grosso. Ferrara é que não desperdiçou a oportunidade de resgatar o internacional italiano e a Juventus arrecada mais uma boa contratação.

17. Na Alemanha, o Bayern de Van Gaal não começou bem, mas Robben veio dar uma injecção de qualidade e já valeu uma vitória. Espera-se um resto de época interessante.

18. Curiosidade de última hora: alguém sabe onde anda Co Adriaanse? Pista: foi campeão na última época, uma vez mais, e o seu nome continua a rimar com competência. Pena é que haja incompetentes, mesmo entre os holandeses, que tenham tanta ou mais reputação. Estou a falar de um que, por acaso, até lidera o campeonato holandês.