domingo, 31 de maio de 2009

Uma Época de Sonho em 4 Capítulos

1. Os Resultados Impressionantes

6-2 ao Real Madrid, 3-0 e 4-0 ao Sevilla, 4-1 e 6-0 ao Málaga, 4-1 ao Numancia, 5-0 ao Deportivo, 4-0 ao Valencia, 6-0 ao Valladolid, 5-0 ao Almeria, 6-1 ao Atlético de Madrid e 6-1 Sporting Gijon. Foram estas as goleadas do Barcelona na Liga Espanhola. Já nem vou falar do Sporting, do Basileia, do Lyon ou do Bayern de Munique, para a Liga dos Campeões. Só no campeonato, foram 12. Das 8 primeiras equipas da Liga Espanhola, só o Villareal se pode gabar de não ter sido goleado pelo campeão. É obra. Johan Cruyff, no seu artigo desta semana, dedica o último ponto da crónica àqueles que precisavam de que este Barcelona ganhasse tudo para acreditarem naquilo que esta equipa propunha. Diz ele o seguinte:

Escribí que no hacía falta ganar esta final para creer en este equipo, para confiar en su propuesta, para elogiar su temporada. No mentí. Pero, para aquellos que solo creen en el resultadismo, en la victoria, este sonoro triunfo, es más necesario que para mi.

Ora bem, a evidência destes resultados esmagadores é também para esses resultadistas, para os quais não bastava que a equipa jogasse o melhor futebol de que há memória. Muito antes da conquista de todos estes títulos e muito antes de haver possibilidade de perceber o quão longe este Barcelona iria na Liga dos Campeões, já o Entre Dez fazia questão de apoiar incondicionalmente a proposta de Guardiola. Para nós, era evidente que este Barcelona não era só mais uma equipa a jogar bem. O que esta equipa propunha era uma revolução no próprio jogo. E essa revolução era precisamente a revolução que o Entre Dez, desde sempre, procurou propor. Daí a afinidade imediata com esta equipa e com este jogar.

2. A Revolução Teórica e o Salto Evolutivo

É exactamente por causa disto que acho que a grande maioria dos que agora aplaudem o Barcelona o fazem apenas por causa dos resultados. É que estes não percebem o quão diferente é o que representa esta equipa. Não se trata só de um conjunto a jogar bonito e a ganhar; não é só um estilo diferente do habitual. É uma lição teórica sobre o jogo. Já tive oportunidade de dissertar sobre isto noutro espaço, mas impõe-se, por esta altura, a repetição de algumas dessas ideias. O Barcelona não é só uma equipa que dá preferência a um pressing alto ou ao passe curto ou ao jogo posicional. É também a própria anulação de predicados ancestrais, a refutação de alguns dos mais antigos dogmas do jogo. É sobre esses dogmas que, de seguida, falarei. 1) Desde sempre se acreditou que qualquer nesga para chutar deveria ser aproveitada e que uma tentativa de alvejar a baliza adversária era sempre de elogiar. O Barcelona de Guardiola vem dizer que não e o próprio treinador disse mesmo que preferia que os seus jogadores, mesmo dentro da área, trocassem a bola até se encontrarem em condições perfeitas para executar o remate. Daí vermos tantas vezes a equipa a entrar pela baliza a dentro em tabelas. Ao contrário, portanto, dessa máxima antiga, defende o Barcelona que o remate deve apenas ser executado em condições ideais. 2) Não serão, também, poucos os treinadores que pedem aos seus laterais para dar preferência a bolas em profundidade ou a lançamentos verticais. Raríssimos são os exemplos de equipas em que a primeira opção do lateral é jogar no meio. Isto porque se achou, desde sempre, que um lateral optar por vir para o meio era muito arriscado e que mais valia jogar pelo seguro assistindo o extremo do seu lado ou jogando comprido. O Barcelona de Guardiola diz que não. O verdadeiro futebol faz-se de riscos e jogar no meio, quando a bola está na linha, é a opção mais adequada para evitar o pressing adversário e manter a posse de bola. 3) Há também quem defenda que só se deve sair a jogar quando é possível sair a jogar. O Barcelona diz que não. Sai-se sempre a jogar, quer o adversário não pressione, quer pressione alto. 4) Um dos maiores dogmas do jogo é aquele que defende que a equipa deve ser sempre objectiva, isto é, deve procurar sempre evoluir com um objectivo delineado. Por outras palavras, atacar pressuporá sempre uma ideia de progressão e jogar para trás só é opção quando em caso de aperto. Este Barcelona diz que isso não é assim. A falta de objectividade em diversas fases de construção do jogo da equipa chega a ser constragedora. Mas isto é a própria essência deste modelo. Antes de privilegiar essa ideia de progressão, essa objectividade, este Barcelona troca inconsequentemente a bola, porque percebe que a objectividade, quando excessiva, se transforma em previsibilidade.

Por tudo isto, esta equipa representa um salto evolutivo no jogo. É um daqueles marcos na evolução das coisas que a História recordará e que modificará tudo o que vier a seguir. Tudo o que se seguir, a partir de agora, terá de ter em conta a imponência demonstrada pela equipa de Guardiola. Qualquer que seja o caminho deste jogo, será em função do que se passou esta época. Quer apareçam cópias do modelo, quer apareçam equipas a aperfeiçoar formas de contrariar o modelo, tudo será feito com este Barcelona em mente. O impacto desta equipa foi demasiado grande para, pura e simplesmente, ser ignorado. Como diz ainda Cruyff, se houve coisa que o Barcelona deixou bem claro foi que é possível ganhar jogando bonito e dando espectáculo:

Este Barça, y de ello me alegro, ha impuesto un estilo de juego que ha provocado millones de elogios en todos los rincones del mundo. Y ha escrito, con letras grandes y de oro, el mensaje de texto más difundido del 2009: se puede ganar jugando bonito, dando espectáculo. Copien esta propuesta. Si se atreven.

3. O Resto do Mundo, a Incompreensão e o Medo

Antes de terminar, gostaria de deixar, também eu, uma pequena referência àqueles que necessitaram de que o Barcelona ganhasse tudo para aceitarem a sua qualidade. No dia da segunda mão da meia-final contra o Chelsea, antes da partida, o Gonçalo previa que o encontro daquela noite ia ser o Barcelona e o Entre Dez contra o resto do mundo. Na altura, achei exagerado, até porque não eram poucos os que, já então, torciam pela vitória do Barcelona. Mas a verdade é que isso não andou muito longe da verdade. Um jogo menos bom, pontuado por uma passagem à final bastante polémica, foi o suficiente para que metade do mundo esquecesse uma época inteira de estrondosas revoluções. Era o sintoma evidente de que o futebol do Barça, ainda que apreciado, não era compreendido. Para muitos, era o sinal de que aquela equipa e aquele modo de jogar não eram assim tão eficazes. Como prognosticara o Gonçalo, o resto do mundo, à mínima falha, aproveitaria para papaguear sobre as supostas lacunas de tal projecto.

Tal comportamento denota claramente uma incerteza quanto à proposta desta equipa. A meu ver, essa incerteza é resultado de uma óbvia incompreensão do que é este Barcelona. O "resto do mundo" é capaz de apreciar o futebol catalão porque tem a capacidade de identificar nele uma componente estética interessante. Mas não consegue compreender de onde vem essa componente, por que razões joga a equipa como joga. Não percebendo isto, só poderia aplaudir essa qualidade quando a ela se sobrepusessem resultados positivos. Como se não bastasse tudo o que estava para trás. O Barcelona esteve em campo contra o resto do mundo, porque era contra o resto do mundo, contra aquilo em que o resto do mundo acreditava e contra a incompreensão do resto do mundo, que esta filosofia de jogo se debatia. E debateu-se até ao fim. E venceu. E agora nem os resultados podem servir de argumentação aos que não a compreendem.

As manifestações contra a passagem do Barcelona à final, além de incrivelmente absurdas, são resultado dessa incompreensão. A azia exagerada que se desnovelou após esse desafio, ilustrada por um comportamento panfletário e arrivista que teve o seu ponto culminante na total falta de ética profissional com que a própria Sporttv lidou com o assunto, optando por não transmitir os dois jogos seguintes da equipa blaugrana, um deles a final da Taça do Rei (uma das mais aliciantes das últimas décadas), foi uma coisa impressionante. Por trás de todo o barulho que se fez, de toda a campanha nazi, está um fundo irracional que importa expor. A voz colectiva que gritava contra a injustiça não gritava contra a injustiça, apesar de pensar que era isso que fazia. Gritava contra a incompreensão. Aqueles que não compreendem determinada coisa têm tendência a desvalorizá-la, de forma a sentirem-se confortáveis consigo mesmos. Só assim conseguem conviver com aquilo que não compreendem. Maior parte das pessoas tem de se defender do irracional, do que não compreende. Este Barcelona produzia uma coisa tão perfeita que os adeptos de futebol tendiam a desconfiar dela. E preferiam apoiar os que não eram capazes de fazer aquilo só para que "aquilo" não saísse vencedor e os deixasse à mercê da sua própria incompreensão e da sua própria pequenez. Olhar na direcção do Barcelona, para muita gente, é um olhar de impotência, um olhar de formiga. E as pessoas, nos tempos que correm, gostam de se imaginar senhoras de si mesmas, racionais, capazes de conduzir a sua vida e de tomar as suas decisões independentemente dos caprichos do destino. Para estes, considerar possível a existência de algo que não compreendiam constituía uma submissão ao desconhecido, ao imprevisível, ao incontrolável. Era por isso que preferiam que o "monstro" fosse eliminado e extinto. As reacções hiperbólicas daqueles que não conseguiram ver que o Barcelona, no conjunto das duas mãos, foi muito mais equipa que o Chelsea e que não foi mais beneficiado do que prejudicado foram reacções de medo, de incompreensão e de mesquinhez. Foi a alma tacanha, miudinha, que prefere ficar do lado dos coitadinhos a compreender os génios, e que define as suas preferências por um ideal anti-darwinista de aproximação progressiva dos mais fracos aos mais fortes. Esses não gostam verdadeiramente de futebol; gostam é que o futebol reproduza o seu ideal marxista de vida, segundo o qual as oportunidades devem ser repartidas por todos, sem olhar a méritos.

Ainda hoje, depois de o Barcelona ter ganho tudo, depois de se ter sagrado a primeira equipa espanhola a ganhar, no mesmo ano, o Campeonato, a Taça do Rei e a Liga dos Campeões, e sobretudo depois de ter ganho tudo isto da maneira categórica como o ganhou, há quem tenha ainda o atrevimento de não reconhecer especial valor a esta equipa. Serão certamente poucos, é verdade, mas serão estes poucos assim tão diferentes daqueles que, embora reconheçam a esta equipa todo o mérito, depressa modificariam a sua opinião caso os resultados tivessem sido outros? O ponto de convergência destes dois tipos de pessoas é precisamente o não compreenderem de onde vem o valor desta equipa e desta proposta. Todo aquele que não achou necessário destacar o tremendo êxito desportivo desta equipa nesta temporada, todo aquele que imagina que a virtude dos catalães residiu no conjunto de jogadores à disposição do treinador, todo aquele que imagina que a força desta equipa se esgota na perfeita comunhão entre as individualidades e o projecto colectivo, todo aquele que, no fundo, não percebe o carácter revolucionário intrínseco a este modelo de jogo, não pode compreender tudo o que significou esta época. Estes não aplaudiram o Barcelona; aplaudiram os resultados do Barcelona. E são precisamente estes os mesmos que, à primeira escorregadela, estarão na fila da frente para caluniar o que antes tão hipocritamente louvaram. O Entre Dez, pelas razões apresentadas, exclui-se automaticamente e desde logo deste grupo singular.

4. Uma Ideologia Controversa em Sintonia com uma Época de Sonho

O Entre Dez não nega o prazer que estas conquistas causaram. É possível até confessar que o regozijo subsequente terá suplantado qualquer outro sentimento até hoje motivado por este desporto. Afinal, trata-se de uma confirmação; trata-se de ter passado a existir uma coisa palpável e de eficácia irrefutável com a qual este projecto se pode identificar plenamente. Esta, mais do que uma vitória emocional, como são todas as vitórias dos adeptos, foi uma vitória ideológica. As ideias controversas deste espaço passam agora a ter um representante real, e um representante que não só deixou boquiaberto o mundo, como ganhou tudo o que poderia ganhar, sem espinhas, de modo a impossibilitar contra-argumentações falaciosas. As vitórias são do Barcelona, dos jogadores do Barcelona e do treinador do Barcelona. Mas essas vitórias, por estarem em absoluta sintonia com aquilo que se defendeu, desde sempre, neste espaço, e que tanta confusão fez a tanta gente, são também vitórias do Entre Dez.

Para finalizar, na brevidade possível, fica um pequeno resumo daquilo que importa reter neste texto e daquilo que, no fundo, é o verdadeiro legado deste Barcelona para a posteridade.

Três provas em disputa; três títulos. A melhor equipa espanhola e a melhor equipa europeia... Em exibições e em títulos. Vencer tudo, vencer tudo jogando sempre bem, vencer tudo marcando 105 golos no campeonato, vencer tudo perfazendo 12 goleadas em 38 jogos no campeonato (quase um terço dos jogos), vencer tudo a cilindrar os adversários mais directos, vencer tudo passando a fase de grupos, os oitavos-de-final e os quartos-de-final da Liga dos Campeões com goleadas atrás de goleadas, vencer tudo jogando a final da Taça do Rei e a final da Liga dos Campeões com uma perna atrás das costas e em ritmo de passeio... Não poderia ser mais categórico. Dificilmente, aliás, terá havido outra equipa na História do jogo que tenha feito uma época tão categórica. 2008/2009 ficará para sempre na História do Futebol. Por tudo isto, foi uma época de sonho para o Futebol, para o Barcelona e, claro, muito particularmente, para o Entre Dez.

12 comentários:

Paulo Santos disse...

De facto, por conhecer o que advogas para o jogo, não pude, sempre que me regozijei com este futebol, deixar de me lembrar de ti. É também de facto uma vitória do Entre Dez. Os arquivos do blog estão disponíveis para que, quem duvidar, possa confirmar isso mesmo.

De facto, este futebol é qualquer coisa de assinalável, e tal como provoca vertigens nos seus adversários na relva, também provoca o mesmo a quem tem a missão de o observar e analisar. De acordo. Eu, sinceramente, tenho vontade de rever os jogos daquela equipa que, para mim, tinha praticado o melhor futebol que vi até hoje (Brasil - mundial de 82). Tenho essa vontade pois, parece-me que este barça o ultrapassou, e isso já é uma enorme revolução, pelo menos no que respeita às minhas experiências futebolísticas e até à minha maneira de ver o jogo.

Eu, aliás, sempre me insurgi contra a dicotomia futebol espectáculo / resultadismo, e sobretudo com a superioridade moral de um axioma face ao outro...
O grande paradigma disso é o rótulo de "defensivista" que é permanentemente colado ao futebol italiano, que é um enorme disparate, e de uma falsidade brutal...

Fui daqueles que apreciou o atropelo do Barça de Cruiff pelo Milan de Sachi...

Portanto, estou à vontade para elogiar este Barça de Guardiola (também inspirado em Cruiff), porque, eu acho que aquilo nem sequer é futebol romântico ou futebol espectáculo, aquilo está para além desses epítetos, aquilo roça a perfeição, a sua complexidade (pelo menos na forma como tem sido apreendido e entendido por quem o vê) deriva da sua aparente simplicidade - aquilo, por vezes, dá ideia de ser um grupo de amigos a fazerem uma peladinha no pátio da escola.

Quanto ao modelo que será tendencialmente copiado...veremos se será assim. Para já, quem vence torna-se referência, por isso talvez...


No que respeita ao transfer sociológico e ideológico que fazes, não estarei tão certo de que seja assim, mas é uma leitura muito interessante e que mereceria uma interessante e prolongada discussão, acompanhada de umas cervejas e de uns caracóis numa breve tarde de verão, a combinar!


Grande abraço, e a ver se combinamos qualquer coisa.

alexandre Iº disse...

Apesar de tudo - e todo o esplendor do futebol do Barça - parece-me que este post é um bocadinho «over the top». Mas até compreendo em face das posições que alguns assumiram quanto a certas idiossincrasias que patenteias (que não qualifico, ou valorizo, porque não me sinto capaz para o efeito), sendo natural que sintas uma validação em face da vitória em causa.
Grande parte das pessoas, mesmo as que gostam de futebol numa perspectiva mais teórica, para lá do imediatismo dos resultados ou do lance polémico, ou das tricas dirigistas, terão sempre alguma dificuldade em ler as tuas «postas» com olhos de ler e isso pode explicar algumas alergias que vais criando.
De qualquer modo não posso deixar de te dar os parabéns. Juntamente com o jogo directo és a minha leitura obrigatória no campo do futebol falado.
Um último ponto.
O modelo de jogo, revolucionário que seja, do Barcelona poderá não transformar-se nisso mesmo. Isto é, num modelo a adoptar ou a adaptar por/a outras equipas. Parece-me que há ali demasiadas especificidades, quer individuais, quer colectivas, quer organizacionais e, até, sócias, que o dificultam, de qualquer modo aí está um assunto que gostaria de ver, por ti, explorado - da transição/adaptação deste modelo/filosofia de jogo a outras equipas e campeonatos, das respectivas condições e passos.
Parabéns.

Ângelo disse...

Parabéns pelo fantástico post. É de felicitar quem raciocina futebol desta forma.

Gostaria, ainda, de te convidar a tropeçares algumas vezes no http://estatisticas-da-bola.blogspot.com/.

Um blog também de análises, mas de teor mais humorístico.

Espero que gostes, tal como gostei imenso do teu espaço.

Ângelo Delgado

alexandre Iº disse...

Peço desculpa pelo «pedido» que fiz no meu último comentário, mas só agora tive a oportunidade de ler a troca de argumentos na caixa do jogo directo. Embora em resumo, estou mais ou menos esclarecido e, devo dizer, não totalmente convencido da possibilidade.

Nuno disse...

Paulo, combinaremos, sim.

Alexandre, é capaz de dar um bom tema de conversa. No jogo directo, já se focou essa questão. Para o Filipe, porque todo o modelo depende dos intérpretes, não é "copiável". Não concordo com isto porque, embora todo o modelo tenha especificidades, de acordo com aqueles que o colocam em prática, as linhas gerais de um modelo são perfeitamente "copiáveis". Para o Filipe, o Barça é o que é porque, para aquela ideia colectiva tem os melhores do mundo a interpretá-la. Discordo totalmente disto. Xavi e Iniesta são excelentes, mas não são únicos. Van der Vaart, Sneijder, Guti, Seedorf, Beckham, Pirlo, Fabregas, Nasri, Rosicky, Deco, Lampard, Gerrard, Diego e Modric serão assim tão diferentes? Alguém se lembra do Lyon com Juninho e Tiago no meio-campo? Não era parecido, em muitos momentos? E o que dizer do Sporting de Peseiro, com Hugo Viana, Carlos Martins, Pedro Barbosa, Rochemback, Custódio e Moutinho? Não eram demolidores, em posse de bola? E depois, não é só o Iniesta e o Xavi. O Henry não é um jogador que se destaque pela capacidade intelectual ou pelas tabelas, ou pelo jogo posicional, ou pelo passe curto. No entanto, porque procurou respeitar uma ideia colectiva, integrou-se suficientemente bem neste modo de jogar. Alguém terá dúvidas que o Barcelona seria mais forte, a jogar deste modo, se em vez de Henry e Eto'o, por exemplo, tivesse Robben e Ibrahimovic? E se em vez de Touré, a trinco, tivesse Gago? Não faz sentido dizer que o Barça é o que é porque tinha os jogadores certos para o modelo que propunha. Henry e Dani Alves são quase que a antítese do que é o futebol do Barça, mas adaptaram-se suficientemente bem.

Mas pronto, era capaz de dar um texto interessante. Vou pensar nisso.

andre--- disse...

A melhor equipa dos ultimos anos.

Ao mesmo nivel, so o milan de sacchi.

http://apenasesofutebol.blogs.sapo.pt/

Máximo disse...

Uma vitória clara de uma ideologia!

http://sarapitolofboobs.blogs.sapo.pt/108007.html

Continuem a escrever, um abraço

Fernando disse...

Excelente artigo Nuno.

Sempre que vejo o Barcelona lembro-me deste texto e na realidade que ele encerra:

http://blogs.harvardbusiness.org/bregman/2009/05/why-you-should-encourage-weakn.html

Cumprimentos.

Filipe disse...

Quando Leio o que escrevem não consigo deixar de pensar que vocês não leram ainda livros suficientes, gostaria de saber se vocês são formados, e em quê? Dizer que o Guardiola veio revolucionar o futebol é mau, pois desde arrigo sachi que existe a zona pressionante, e tudo o resto que acontece no Barcelona já aconteceu com outras equipas, agora quando se junta Messi Iniesta Xavi Henry Etoo, é natural que a forma de atacar seja diferente, isto quando feita de forma organizada (treinada com hierarquização de princípios e princípios de sub-princípios...). O que apenas vem demonstrar uma coisa, a falta de qualidade nos treinadores dos ditos clubes grandes é gritante, e quando um treinar vem com formação o sucesso é imediato, veja-se o caso do Mourinho, Carlos Carvalhal, José Peseiro, Carlos Queirós, Jesualdo Ferreira etc. Não sei se observam jogos das segundas divisões B, mas é ai onde se situam alguns dos melhores treinadores portugueses, muitas coisas que vocês vêem no barcelona, podem observar na equipa do Oriental de Carlos Manuel e João Barbosa, com jogadores amadores, contudo com uma enorme competência (fizeram de uma equipa com descida assegurada numa equipa que para o ano luta para subir à 2ª!!!) Vejam esta equipa a jogar, e claro que a diferença entre eles e barcelona e abissal, contudo se ficam impressionados com o barcelona, também iam ficar impressionados com o Oriental. Finalizo dizendo que no futebol existe muita coisa podre, e os homens mais competentes não estão nos lugares certos, porque quando estiverem apenas vão dar mais brilho ao nosso futebol, contudo no nosso futebol a ignorância é tal que preferem ex jogadores sem formação a treinar do que, treinadores com formação e muitos deles professores ou ex alunos das nossas universidades.

Nuno disse...

Filipe, vários equívocos:

1. "Quando Leio o que escrevem não consigo deixar de pensar que vocês não leram ainda livros suficientes, gostaria de saber se vocês são formados, e em quê? "

Filipe, em primeiro lugar, ler livros, por si só, não tem uma relação de causalidade com a sabedoria. Para dar um exemplo, diz-se, naquele livro sobre o Mourinho, "Mourinho: porquê tantas vitórias?", que maior parte das pessoas iriam achar o livro extraordinário, mas não iriam compreender uma única ideia. Ler não é apenas um acrescento de informação; é também uma forma de relembrar coisas, de avivar memórias, de aperfeiçoar ideias. E quem não tiver nada disto, ou quem tiver isto em pouca quantidade, não saberá usar o conhecimento ou os dados que a leitura providencia. Posso garantir-te que já li mais livros de futebol que maior parte dos treinadores de futebol, mas que isso, por si só, não significa absolutamente nada.

2. Quanto à nossa formação, é irrelevante. Posso garantir-te que não temos formação em nada próximo do Desporto, de Ciências do Desporto, ou de qualquer área afim. Mas isso é importante? Qual é a formação do Luis Freitas Lobo? Jornalismo. E fala de futebol melhor do que maior parte das pessoas formadas em desporto.

"O que apenas vem demonstrar uma coisa, a falta de qualidade nos treinadores dos ditos clubes grandes é gritante, e quando um treinar vem com formação o sucesso é imediato, veja-se o caso do Mourinho, Carlos Carvalhal, José Peseiro, Carlos Queirós, Jesualdo Ferreira etc."

Ao dizer isto, estás a cair num erro comum hoje em dia. Ter formação em desporto, por si só, não quer dizer nada. É preciso muito mais do que um canudo ou de que um conjunto de conhecimentos adquiridos numa instituição. É errado presumir que um treinador com formação tenha sucesso imediato. Há até muito mais treinadores com formação que não tiveram sucesso do que treinadores com formação que tiveram sucesso. Mourinho, Carvalhal e Peseiro são excepções. Juntar Queiroz e sucesso na mesma frase é um bocado estranho. Mas posso falar em Couceiro, ou em Quique, ou em tantos outros que não tiveram sucesso nem são treinadores acima da média, e que têm formação. Ter formação, por si só, não é nada. Usar métodos inovadores, por si só, não é nada. É preciso ter ideias, saber para que servem os métodos inovadores, saber aplicar a formação, ter olho para a coisa. E o que está por trás disso não é nem a formação, nem o facto de se ter sido jogador e de se ter uma experiência futebolística relevante; o que está por trás disso é a inteligência, a perspicácia, etc. Os treinadores de sucesso são os que sabem reflectir melhor sobre as experiências que têm, são os mais competentes do ponto de vista intelectual, independentemente de terem ou não formação. É evidente, contudo, que quanto mais lermos, mais hipóteses temos de ter sucesso. Mas não porque a leitura confira conhecimento; antes porque a leitura permite reflectir.

3. Não conheço a equipa de que falas, mas concordo que existem equipas em escalões inferiores a jogar bem, para o patamar em que se encontram. Serão, no entanto, casos raros. Mas o facto de referirmos o Barcelona tem também a ver com o facto de estarmos a falar de equipas ao mais alto nível.

Nuno disse...

4. "Dizer que o Guardiola veio revolucionar o futebol é mau, pois desde arrigo sachi que existe a zona pressionante, e tudo o resto que acontece no Barcelona já aconteceu com outras equipas, agora quando se junta Messi Iniesta Xavi Henry Etoo, é natural que a forma de atacar seja diferente, isto quando feita de forma organizada (treinada com hierarquização de princípios e princípios de sub-princípios...)."

Ao dizeres isto, demonstras que não percebes o futebol do Barcelona. O que aconteceu no Barcelona nunca aconteceu noutras equipas ao mais alto nível. O mais perto que houve foi o Dream Team do Cruijff e nem essa equipa dava tanto ênfase à troca inconsequente da bola, uma das principais características deste Barça, ou às tabelas, ou ao jogo pausado. É isso que é novidade. Quando dizes, também, que com esses jogadores era natural que a forma de atacar fosse diferente, estás a cometer um erro. Iniesta, Xavi e Messi podem ser ideias, pelas características que têm, para este tipo de jogo, mas Henry e Eto'o não são os melhores para isto. O que é fenomenal no Barcelona é que um determinado estilo de jogo assomou a todos os jogadores, mesmo àqueles que tinham características completamente diferentes. E quantas equipas não tinham condições, em termos de atletas, para jogar dessa forma? Várias. Desde logo, a Espanha, em que abundam jogadores do tipo de Iniesta, Xavi ou Messi. E, no entanto, não jogam. A diferença está em Guardiola e no colectivo do Barcelona, naquilo que privilegia, e não nas características dos jogadores. É por isso que é tão diferente de tudo o resto. Falando ainda de organização, não há equipas mais organizadas que as de Mourinho. No entanto, nem todas as equipas organizadas jogam desta maneira. Falas de princípios, sub-princípios e afins, mas não me parece que percebas o que são. É que a todos esses níveis o Barcelona é diferente do que quer que seja. Muito daquilo que esta equipa faz contradiz o que toda a vida se andou a dizer que se deveria fazer. Os exemplos estão no texto. Falo de sair sempre a jogar, de os laterais jogarem para dentro, de a equipa denotar falta de objectividade em diversos momentos do jogo, de não rematar senão em condições ideais, etc. Mais nenhuma equipa no mundo tem preocupações destas tão vincadas. É isto que faz a diferença.

Gonçalo disse...

Filipe, antes de mais, costumas ver os jogos do Oriental? Como é q se tem safado o Ricardo Nogueira? Ele está lá, não está? Qt ao Carlos Manuel, acompanhei durante alguns anos o trabalho dele e nunca o vi nada de extraordinário, o que não quer dizer q não tenha evoluido.
Mas concordo que o futebol(assim cm mts outros ramos) viva mt de cunhas. Todavia isso não invalida, em nada, tudo o que defendemos do Barcelona. Um abraço