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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sergio Busquets: o futebolista do futuro

Imaginem que são um médio-defensivo, que recebem a bola de costas no meio-campo, com a equipa adversária completamente organizada atrás e que, olhando apenas por cima do ombro, descobrem um modo de deixar o jogador mais talentoso da equipa perfeitamente enquadrado para atacar a última linha adversária. Parece impossível, mas foi o que Sergio Busquets fez em Camp Nou no fim-de-semana passado, no primeiro golo do Barça. Tudo no modo como fez a bola chegar a Messi, mas tudo mesmo, foi deslumbrante. A aparente facilidade com que o fez, então, é o sinal inequívoco do seu brilhantismo. Reparem que Busquets não está de frente para o lance, que não pode decidir a direcção do passe à última da hora. Ao olhar por cima do ombro, num primeiro momento, há uma linha de passe aberta para Messi, entre o ala esquerdo e o médio-centro do lado esquerdo do Girona. Se a bola entrasse aí, porém, o ganho não seria decisivo. Mas é essa a linha de passe mais convencional, aquela pela qual optaria a maioria dos jogadores. E já nem estou a falar de jogadores banais. Esses passariam para o lado, ou procurariam fazer a bola chegar aos flancos. Um bom jogador, um que perceba a vantagem de fazer a bola entrar verticalmente entre as linhas adversárias, escolheria essa linha mais convencional. Mas um jogador excepcional como Busquets pensa de outro modo. Entre o momento em que olha por cima do ombro e o momento em que a bola sai do seu pé, há tempo suficiente para que as circunstâncias do lance se alterem. E Busquets sabe isso. Sabe também que os adversários não ignoram essa linha de passe, e que se preparam para reagir à previsível entrada da bola nessa zona. E sabe ainda que Messi também sabe todas essas coisas, e que se encarregará de lhe dar oferecer uma linha de passe alternativa. Ao olhar por cima do ombro, Busquets vê tudo isso: vê uma linha de passe relativamente óbvia, vê aquilo que os seus adversários se preparam para fazer e vê o espaço que existe para Messi explorar alternativamente. E não faz o passe logo porque precisa de dar tempo aos adversários para tomarem consciência da linha de passe mais óbvia e porque precisa de dar tempo ao próprio Messi para perceber qual o melhor espaço a atacar.




É incrível, mas é Sergio Busquets quem, de costas para o lance, vê em primeiro lugar aquilo que havia para ver e é quem, de certo modo, indica o caminho ao argentino. O próprio Messi não parece ter sido tão perspicaz quanto ele a descobrir aquele espaço privilegiado. Busquets recebe a bola, olha por cima do ombro, vê onde estava o espaço verdadeiramente relevante e retarda o passe apenas o tempo suficiente para criar a ilusão de que vai fazer aquilo que parecia evidente que tem de ser feito e para dar tempo ao colega para perceber onde é que a bola tem afinal de entrar. E depois ainda executa o passe na perfeição. Numa fracção de segundos, sem estar de frente para o lance, Busquets faz uma série de coisas inacreditáveis: analisa o posicionamento colectivo de toda a equipa adversária, calcula qual o espaço a aproveitar e em que momento exacto fazê-lo, deixa os adversários lambuzarem-se com o engodo de uma linha de passe que sabe desde o início que não vai utilizar, indica ao colega quais as suas reais intenções e, num gesto técnico nada fácil, ainda faz a bola entrar num espaço diminuto, com precisão absoluta, de modo a deixar o companheiro nas melhores condições possíveis para atacar a linha defensiva adversária. O resto do lance pouco importa. Para a estatística, fica o golo de Suarez e a assistência de Messi. Mas o génio, nesta jogada, é todo de Busquets. É ele quem, do nada, atrás da linha de meio-campo, com uma acção tão subtil quanto aparentemente simples, inventa aquela ocasião de golo. E poucos são os que, levados pela histeria das bolas perto das balizas, conseguem perceber que, por vezes, uma ocasião de golo se gera por inteiro num passe de dez metros a meio-campo. No dia em que se conseguir perceber tal coisa, perceber-se-á, por fim, que o futebol é daqueles que, como Busquets, só usam os pés para cumprir aquilo que a cabeça idealiza.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Marcação Individual

A marcação individual foi um dos temas dominantes há umas semanas, sobretudo nos dias que antecederam a recepção do Sporting ao Barcelona e porque Lionel Messi estava numa forma impressionante. Para muitos, a genialidade do argentino é tanta que a maneira mais eficaz de tirá-lo do jogo é destacar alguém para o vigiar os 90 minutos, vá ele para onde for. Um dos problemas desta opção é, desde logo, o de não garantir que o alvo da marcação não vá conseguir livrar-se dessa marcação vezes suficientes para fazer a diferença. Outro, ainda mais relevante, é o de tornar cada lance em que o conseguir num lance de potencial perigo. Quando o alvo da marcação se consegue livrar do marcado directo, não fica propriamente com o espaço que teria, se não tivesse qualquer marcação, pois a equipa que defende terá sempre se de reajustar em função disso, e com um jogador a menos, que é aquele que está destacado para a marcação a esse jogador.

O problema principal da marcação individual não é, todavia, nenhum destes. Imaginando que essa marcação pudesse ser eficaz ao longo dos 90 minutos, e que o adversário que se achou importante marcar em cima não fosse capaz de escapar a essa marcação e de ter bola para fazer a diferença, a simples preocupação em seguir um adversário por todo o terreno é uma vantagem tremenda para a equipa adversária. Isto porque a equipa do jogador sobre o qual recai a marcação passa a poder levar um elemento adversário para onde lhe aprouver e, portanto, a poder induzir uma determinada desorganização defensiva nesse adversário. Imagine-se que os dois laterais de uma equipa estão destacados para marcar individualmente os dois extremos adversários (quem tiver pouca imaginação e achar que isso já não se usa assim, pode sempre ver alguns jogos do Manchester United de José Mourinho o ano passado). Se o treinador adversário quiser, pode simplesmente pedir aos seus extremos que passem a frequentar espaços centrais, levando consigo os marcadores directos, e aos restantes jogadores da equipa que façam a bola entrar no espaço que passa a ficar livre em cada flanco.


Há um lance do jogo de Alvalade que opôs o Sporting ao Barcelona que ajudar a ilustrar tudo isto. Trata-se da primeira grande ocasião de perigo criada pelos catalães, e é essencialmente causada pela ausência de gente entre os dois médios (Bruno Fernandes e William) e os dois defesas centrais do Sporting. No início da jogada, que se desenrola pela esquerda, Battaglia está mais perto de Acuña do que propriamente da zona que deveria povoar se estivesse preocupado com a cobertura aos seus médios. A missão de perseguir Messi, mesmo que apenas quando este entrava na sua zona de jurisdição (Battaglia não ia atrás do argentino quando este baixava em demasia nem quando este procurava as zonas do ponta de lança, limitando a mover a marcação individual apenas quando Messi aparecia entre linhas), fez de Battaglia um jogador a menos, do ponto de vista colectivo. Não havendo sintonia entre as referências dos colegas (a bola, o espaço e a posição relativa dos colegas) e a referência de Battaglia (o posicionamento de Messi), era natural que este tipo de coisas acontecesse. É impossível articular o comportamento de um colectivo se o comportamento de um dos elementos desse colectivo for ditado pelo adversário. No que diz respeito a este lance, ter ido atrás do argentino para uma zona tão afastada fez com que se abrisse um buraco entre a linha média e a linha defensiva, e Sergi Roberto aproveitou para invadir essa zona, recebendo sozinho e em condições de se enquadrar para a baliza, apenas com a linha defensiva pela frente. Bastou um movimento sem bola e um passe para o espaço criado por esse movimento para se originarem as condições de perigo ideais.

É verdade que do facto de ser assim tão fácil criar as condições de ataque ideais não se segue que todos os jogadores a quem é movida uma marcação individual se movimentem propositadamente para que isto se suceda. É aliás raro que um jogador o faça deliberadamente, ou que um treinador, perante uma situação destas, perceba a vantagem de que dispõe e saiba explicar ao seu atleta para onde e de que modo deve conduzir o seu marcador directo. Mas, mesmo que o adversário não compreenda essa vantagem e não saiba tirar proveito dela, a marcação individual continua a ser uma opção perigosa. Mesmo que involuntariamente, como aliás parece ter sido aqui o caso, é natural que o avançado a quem é movida a marcação acabe por arrastar o seu marcador directo para zonas potencialmente desvantajosas para quem defende e que a equipa que ataca acabe por usufruir do espaço que se cria na sequência disso. Messi é excepcional e merece considerações excepcionais, concordo. Mas hipotecar a organização defensiva na esperança de que Messi tenha menos influência no jogo parece-me estúpido. Entre apostar na organização para tentar vencer uma equipa na qual joga Messi e apostar na desorganização para se jogar contra a mesma equipa, mas sem Messi, parece-me óbvio aquilo que se deve escolher. Mesmo que, colectivamente, este Barça de Valverde seja banalíssimo, há uma quantidade de jogadores acima da média que podem facilmente usufruir da desorganização propiciada pela segunda aposta. Messi é excepcional, claro, mas achar que Messi é mais perigoso sozinho contra uma equipa bem organizada do que os restantes dez companheiros contra uma equipa mal organizada não me parece fazer muito sentido.


domingo, 23 de julho de 2017

Abdelhak Nouri

Há poucos jogadores que me impressionem apenas através de uma antologia de lances, até porque sei que os lances de que essas antologias geralmente se compõem são descontextualizados (carácter oficial ou particular dos jogos, qualidade dos adversários, resultado da partida, etc.) e não permitem uma avaliação rigorosa da qualidade dos mesmos. Há casos excepcionais, contudo. Por vezes, uma antologia de lances mostra um conjunto de acções de tal modo invulgares que leva, de facto, a causar uma impressão muito favorável. Não conhecia Abdelhak Nouri antes do triste incidente de há umas semanas (depois de ter perdido os sentidos em campo, e de ter sido conduzido ao hospital, terá tido uma paragem cardíaca e ficou com danos cerebrais permanentes), e fui tentar perceber o talento que acabava de se perder. O que descobri impressionou-me muitíssimo, sobretudo pela aparente facilidade com que idealizava certas jogadas ou com que executava certas acções nada fáceis de executar. Dizer que Abdelhak Nouri era tecnicamente soberbo não faz justiça à invulgaridade do seu talento. A sua principal virtude, a meu ver, era a imaginação. A visão de jogo; a forma como contemporizava, aguardando o momento certo para soltar a bola; a velocidade a que raciocinava; a facilidade e sobretudo a precisão do passe, com a parte de dentro ou a parte de fora do pé; a preocupação em deixar o receptor em condições ideais, medindo a força e o efeito do passe do melhor modo; o à-vontade com a bola nos pés; a competência no drible, usando-o como recurso e na conta certa; a criatividade com que descobria soluções em espaços curtos; a iniciativa de procurar constantemente os colegas de modo a não se limitar às suas próprias qualidades; o conforto que sentia em complexificar as acções colectivas de modo a criar soluções inovadoras; tudo isto, em suma, advinha de uma imaginação prodigiosa. Nunca se sabe o que poderia ter dado, como é óbvio, mas o potencial parecia ser imenso. Muitas das coisas que se podem ver na antologia que se segue, aliás, são raríssimas, e podemos apenas lamentar que não se venham a repetir.



O tributo acima fala por si, mas vale a pena destacar 1) a velocidade do raciocínio que subjaz ao passe de calcanhar ao minuto 1.16; 2) a dificuldade e a precisão do passe ao minuto 1.36; 3) a qualidade com que faz a bola entrar no sítio certo, no momento certo e com a força certa ao minuto 1.50; 4) a inteligência e a criatividade inerentes ao passe ao minuto 4.18; 5) a visão de jogo, a subtileza e a imaginação que lhe permitem o passe ao minuto 6.23; 6) a forma como se associa aos colegas para se desenvencilhar dos obstáculos ao minuto 7.07; 7) a aparente simplicidade com que, de primeira, numa acção de difícil execução com a parte de fora do pé, devolve a bola a quem lha passara ao minuto 8.35; 8) a preocupação com o efeito a dar à bola, para que ela se aproxime do colega e fuja ao adversário, ao minuto 9.57; e 9) a genialidade com que, não se preocupando em conduzir para fixar, conduz a bola para fora de modo a dar tempo ao colega de entrar, no passe ao minuto 12.13. Resta-nos apreciar.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mesmo que se faz aqui, mas em mau...

Sabem por que é que aquilo que o António Tadeia faz é o mesmo que se faz aqui, mas em mau? Em poucas palavras: porque não consegue distinguir entre o que é intencional do que não é. Para perceber o que se passa num campo de futebol é preciso, antes de mais, saber identificar as intenções dos jogadores. A actividade de um comentador desportivo não é, desse ponto de vista, muito diferente de outras actividades. Aquilo que distingue o bom crítico literário, o bom analista político e o bom polícia de investigação é a capacidade, no fundo, de compreender as intenções dos escritores, dos políticos e dos criminosos. Confundir uma recepção orientada com uma má recepção não é, por isso, aceitável. Sê-lo-ia, talvez, em quem vê o jogo descontraído no café, ou em quem o vê sem a responsabilidade profissional de interpretar tão bem quanto possível aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Há incidências cuja interpretação, de facto, não é fácil, mesmo para quem faz isto há muito tempo, está diante de um ecrã e tem ao seu dispor um número infindável de repetições de todos os ângulos. Nem sempre é possível ter a certeza acerca das intenções dos jogadores, e isso pode desculpar certas interpretações. Mas há incidências que, de tão óbvias para quem já jogou ou tem o mínimo de experiência a ver jogos de futebol, um comentador profissional não pode não saber interpretar. Não saber distinguir entre um toque involuntário e um toque propositado na bola é como não saber distinguir entre um cadáver putrefacto e a bela adormecida. Não, António, o primeiro toque de Lucas Vázquez não foi mau; foi óptimo. Má foi a análise do António, que não percebeu que o atleta do Real Madrid, calculando que podia tirar o defesa do Atlético da frente alargando o drible até à linha de fundo, orientou de pronto a recepção para esse efeito.




Hoje em dia, quase toda a gente fala em decisões. Mas a maioria das pessoas não percebe bem o que é uma decisão, em futebol. Para as pessoas como o António Tadeia, os jogadores só tomam decisões quando decidem chutar em vez de passar, ou quando escolhem uma opção de passe em detrimento de outra. Nas suas cabeças, só faz sentido falar em decisões quando é evidente que há tempo para decidir antes de executar. Na verdade, tudo o que um jogador faz em campo é decidir. Uma simples recepção, por exemplo, acarreta uma decisão. E, mais importante do que isso, tais decisões são geralmente tomadas em fracções de segundo. Assim é porque as circunstâncias de uma jogada mudam em fracções de segundo. Este lance é um bom exemplo disso. No momento em que a bola sai do pé de Ronaldo, a jogada está ainda longe de estar definida, e é absurdo assumir que o jogador que a vai receber já tenha tomado uma decisão acerca do destino a dar à bola (cruzar de primeira ou dominar a bola, por exemplo). Mais do que isso, precisa de perceber como se vão comportar os colegas e os adversários nos instantes seguintes, e só então, avaliando as circunstâncias tais como se apresentarem nessa altura, poderá tomar uma decisão. A verdade é que Godin, o central do Atlético que sai ao caminho de Lucas Vázquez, não protege devidamente a baliza e ainda se aproxima em demasia do portador da bola, tentando dificultar-lhe a recepção. No último instante, o jogador do Real Madrid percebe que, orientando a recepção, tem espaço suficiente para driblar o uruguaio, e é isso que faz. A decisão foi tomada no último instante antes de chegar à bola, e em função das circunstâncias que só nessa altura tornaram claro que o drible era exequível. Não, António, não era preciso acreditar no Pai Natal para acreditar que havia espaço suficiente para tirar o adversário do caminho e cruzar para um dos colegas que se movimentavam na área. Os jogadores de futebol não fazem as coisas ao calhas; são agentes racionais. Lêem circunstâncias específicas, estimam o sucesso de determinadas decisões e agem em conformidade. Ainda que as suas acções não sejam precedidas de uma ponderação demorada, são determinadas por processos racionais. Recebem estímulos, interpretam-nos e decidem o melhor que conseguem. Avaliando os sinais corporais do adversário, a distância até à linha de fundo e a movimentação dos colegas na área, foi possível a Lucas Vázquez perceber (no último instante) que podia ultrapassar Godin, que teria espaço para chegar à bola antes de esta sair e que, entretanto, teria opções de passe diferentes das que havia nesse instante. Não fez nada ao calhas, e o toque que deu na bola foi tudo menos involuntário e mau. António Tadeia não percebeu isto e fez figura de urso. Anda a fazê-la há anos, aliás, desde que lhe disseram que falar de futebol na televisão não era muito diferente de brincar com ursinhos de peluche. E agora não larga o ursinho.

P.S. A figura de urso, na verdade, foi feita ao longo de toda a partida de ontem, sempre que António Tadeia se lembrava de que Isco, cujo virtuosismo técnico não deixou de gabar com toda a condescendência do mundo, não é capaz de acções colectivas relevantes.

domingo, 27 de dezembro de 2015

O Retrato da Liga Inglesa num só Lance

Há imagens que valem por mil palavras. A Liga Inglesa é, pelo investimento que hoje envolve, a liga com mais potencial no mundo. Não obstante, o futebol praticado continua a ser, em larga medida, deplorável. A minha teoria - há muito que a defendo - é a de que a mentalidade desportiva não tem permitido que o jogo evolua. Apesar de a quantidade de grandes jogadores continuar a aumentar, apesar do investimento estrangeiro ser cada vez mais comum, e apesar de, finalmente, começarem a ser contratados treinadores estrangeiros não apenas para as principais equipas, o futebol inglês continua amarrado a um conceito de desporto que, no limite, é contraproducente. A predilecção pela velocidade ou pelo músculo em detrimento do cérebro, pelas qualidades atléticas dos jogadores e não pelas suas qualidades intelectuais, a insistência absurda em defender que o futebol é um jogo de contacto, cuja principal consequência é um modelo de arbitragem que, grosso modo, beneficia os toscos e prejudica os artistas, e, sobretudo, a cegueira a que a generalidade dos intervenientes são conduzidos pela emoção desmesurada com que o jogo é encarado continua a dificultar a evolução do futebol britânico.

É possível apresentar um bom retrato do que acabo de dizer. Num dos últimos lances do encontro que opôs o Liverpool de Klopp ao sensacional líder do campeonato, o Leicester City de Ranieri, a equipa visitante procura chegar ao empate, e Kasper Schmeichel sobe para a grande área. A bola acaba por ser sacudida pela defensiva do Liverpool e sobra para Kanté, penúltimo defensor do Leicester, que se prepara para a reenviar para a área. Tudo o que acontece de seguida é o espelho de um campeonato da idade da pedra. Embora absurdo, não me interessa muito nem a falta claríssima sobre o jogador do Leicester (um dos muitíssimos contactos faltosos que, ao longo do jogo, não foram punidos pelo árbitro da partida e que, ajudando a criar a ilusão de que o jogo foi muito disputado e intensíssimo de parte a parte, retiraram a meu ver todo o interesse à partida, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista táctico), nem o falhanço clamoroso de Benteke, que não soube aproveitar uma situação de clara vantagem numérica. Interessa-me, sim, o que acontece entre esses dois momentos. Refiro-me ao passe que faz a bola entrar em Benteke.



Que nenhum elemento, das três equipas que se encontravam em campo, tenha percebido a irregularidade do lance, nem no momento em que ele decorria, nem depois de ele ter terminado, diz tudo do futebol que se pratica em Inglaterra. Nem o árbitro, nem o fiscal de linha, nem o jogador do Liverpool que faz o passe, nem o jogador do Liverpool que o solicita, nem nenhum outro jogador do Liverpool, nem o defesa do Leicester que ficara para trás com a subida do guarda-redes, nem o guarda-redes que vem a correr desalmadamente, nem qualquer outro jogador do Leicester (ninguém protesta!), percebeu que um passe para um jogador que, estando à frente da linha de meio-campo, tem à sua frente apenas um defensor, é um passe irregular. Consigo admitir que um árbitro interprete mal um lance, sobretudo se esse lance não for muito vulgar (a invulgaridade, aqui, era o último defensor não ser o guarda-redes). Um fiscal de linha, contudo, já não deveria falhar, nesse tipo de coisas, pois tem menos tarefas nas quais se deve concentrar. De qualquer modo, não é do erro da equipa de arbitragem que é importante falar. Que ninguém dentro das quatro linhas (e aposto que nas bancadas também não houve muita gente a aperceber-se da irregularidade do lance) tenha percebido a posição de fora-de-jogo da qual Benteke tira proveito é, a meu ver, o melhor retrato possível do que vai mal no futebol inglês. Nos estádios ingleses, a inteligência fica nos balneários. Enquanto isso não mudar, dificilmente o futebol inglês atingirá o patamar qualitativo a que o potencial económico o promete alçar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sergi Roberto e a Timidez

Sergi Roberto é um dos médios espanhóis mais promissores. Já tinha falado do seu talento anteriormente aqui, e continuei sempre a pensar o mesmo. Ainda assim, a sua afirmação tem sido adiada época após época. Depois da saída de Fabregas e Thiago Alcântara, parecia chegada a altura dele, mas tal não foi o caso, e cheguei a pensar que o seu destino não seria muito diferente do de Jonathan dos Santos, outro médio talentoso cuja evolução estagnou por falta de oportunidades. À partida para esta época, e mesmo com a saída de Xavi, Sergi Roberto parecia ser apenas o quarto médio (as primeiras três opções para o lugar de médio ofensivo, no Barça, eram claramente Iniesta, Rakitic e Rafinha) e, pelas indicações dadas na pré-época, parecia poder jogar mais tempo a lateral direito do que propriamente a médio. Foi assim, aliás, que começou a dar nas vistas, aproveitando a lesão de Dani Alves para aparecer em grande nível, como se tivesse sido lateral toda a vida. A inteligência e a criatividade são os seus principais atributos, e Sergi Roberto parece um exemplo feliz de como isso é tudo o que um jogador de futebol realmente precisava para poder vingar, seja qual for a posição. Apesar de nunca ter sido lateral, parecia saber exactamente o que fazer em cada situação, e foi mesmo o melhor em campo em vários jogos. O regresso de Dani Alves à actividade parecia, contudo, votar Sergi Roberto ao banco de suplentes, e durante algum tempo as suas excelentes prestações não pareciam ter sido devidamente reconhecidas. A lesão de Rafinha permitiu-lhe, porém, alguma utilização como médio, e a lesão mais recente, de Iniesta, contribuiu para que fosse presença assídua no meio-campo do Barça. E o que Sergi Roberto fez, nos últimos jogos, foi o suficiente para tornar difícil a vida a Luis Enrique a partir de agora. No último fim-de-semana, acrescentou à regularidade exibicional uma preponderância ofensiva muito assinalável: além do muito que tem jogado, foram dele as duas assistências para os dois golos com que o Barcelona venceu o Getafe. A primeira, então, é qualquer coisa de sublime, e merece todo o destaque.



Sergi Roberto pertence a um tipo de jogador que, não obstante o talento inegável, parece acusar alguma timidez. Sou defensor de que, numa equipa de futebol, cada jogador deve ter um tratamento diferenciado. Havendo perfis (psicológicos, atléticos, etc.) diferentes, há naturalmente quem mereça uma oportunidade e há quem mereça dez. Um jogador mais tímido, por exemplo, precisa de mais tempo para se sentir confortável dentro de uma equipa e, portanto, precisa de mais tempo para mostrar as suas qualidades. Um jogador mais irreverente, pelo contrário, precisa de menos tempo. Até pelo talento que lhe era reconhecido quando jovem, Sergi Roberto foi sempre permanecendo em Camp Nou. Ainda assim, não se soube, durante largas épocas, tornar confortável ao jogador a sua posição na equipa, e ele continuou incapaz de se livrar da sua timidez. E, se não fosse pela circunstância das várias lesões que fustigaram o plantel às ordens de Luis Enrique, ainda não era esta época que se afirmaria. O caso de Sergi Roberto é, também por isso, muito relevante para se perceber por que é que certos jogadores que parecem destinados ao sucesso acabam por passar ao lado de grandes carreiras.

O melhor exemplo que poderia dar como comparação é o de Bruno Pereirinha. É, de longe, o jogador português mais talentoso da sua geração, e está condenado a uma carreira irrisória. Até apareceu bem no Sporting, com a confiança que advinha de terem muitas expectativas a seu respeito, mas aos poucos foi acusando a sua timidez natural. Se ao seu talento somasse a irreverência que outros têm, a sua carreira teria decerto sido diferente. Podia não ter chegado ao nível a que poderia chegar, dada a conjuntura difícil que encontrou no Sporting, mas teria certamente merecido outro género de aposta, nos mais diversos clubes. A sua timidez levou, inicialmente, a considerar que nem sequer era médio, sendo a lateral que quase todos acreditavam que podia evoluir. Até por aí o seu caso é semelhante ao de Sergi Roberto. A inteligência, como a do espanhol, permitia-lhe jogar a lateral com facilidade, e as pessoas acabaram por considerar que essa era a sua melhor posição. Não era. Como não é a de Sergi Roberto. Tem facilidade nesse lugar, porque tem um talento fora do comum e porque percebe o jogo com facilidade, mas é médio. Como Sergi Roberto é. E é como médio que se espera que Sergi Roberto evolua. No início da carreira no Barça, Iniesta passou por problemas semelhantes. O perfil psicológico dos dois não é, aliás, muito diferente. E o talento, por sinal, também não. A diferença estará sempre na evolução, e nas circunstâncias que a possibilitem. Sergi Roberto já mostrou que merece a aposta, e cabe ao treinador e ao clube perceber que um jogador, por melhor que seja, precisa de que acreditem nele e de que o deixem descobrir, por si, como acomodar a sua timidez com a sua qualidade. A meu ver, o futuro do meio-campo espanhol passa necessariamente por ele e seria um desperdício não o ver, daqui a poucos anos, a comandar a selecção do país vizinho ao lado de Thiago Alcântara e de Oliver Torres.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ficar com a bola enquanto for preciso

A jogada é a do quinto golo do Barcelona, no passado fim-de-semana, em San Mamés, e tem sido amplamente elogiada sobretudo por aquilo que Messi fez. É possível, porém, dizer tantas coisas acerca dela que não resisto a trazê-la à discussão. Sim, deve elogiar-se o trabalho do argentino, que pôs meia equipa do Athletic de Bilbao a andar atrás de si antes de provocar a ruptura decisiva com o passe para Busquets. Mas não é tudo o que deve dizer-se acerca do lance. A primeira coisa em que a jogada me fez pensar foi nas pessoas que não compreendem o facto de certos jogadores, sejam eles quem forem e estejam eles em que circunstâncias estiverem, demorarem algum tempo a soltar a bola. Para muitos, há uma regra privada que diz que a bola deve circular rapidamente entre jogadores, sobretudo quando não há progressão no terreno. Uma vez que acreditam em tal regra, enervam-se sempre que alguém fica algum tempo com ela em seu poder, mesmo que essa decisão se deva à necessidade de procurar uma linha de passe segura ou à espera por uma desmarcação. Quando isso acontece perto da grande área adversária, então, segurar muito tempo a bola é invariavelmente entendido como perda de tempo e lentidão de processos. Na zona frontal, só com a linha defensiva pela frente, acreditam que se deve procurar espaço para o remate, um passe de ruptura ou, quando muito, uma combinação rápida com  um colega.

Para quase toda a gente, o que Messi fez, indo para a esquerda com a bola, não a soltando em nenhum colega e preferindo rodar por trás para voltar para a direita, em zona frontal à baliza, é uma bizarria. A todos os que pensam assim, mesmo àqueles que não o tenham pensado pela simples razão de se tratar Messi, deve ser dito que não pensam bem. Um jogador não deve soltar a bola porque sim, porque alguém estipulou que é errado ficar com ela durante muito tempo, da mesma maneira que não deve agarrar-se a ela porque sim, porque tem qualidade individual suficiente para tirar um ou outro adversário do caminho. São as circunstâncias que determinam quais as melhores decisões a tomar, e um jogador deve agarrar-se à bola ou soltá-la consoante as circunstâncias. É isso que distingue um bom jogador de um jogador desenrascado. Há jogadores que aproveitam o espaço que têm para fazer o que sabem fazer, sejam as circunstâncias quais forem. Vivem daquilo que o jogo lhes permite e tentam pensar o mais rapidamente possível, para que o pouco espaço de que dispõem, a cada instante, não seja desperdiçado. Não esperam pelo melhor momento, nem procuram alterar as circunstâncias com um compasso de espera, protegendo a bola até aparecer a melhor solução, etc.. Lembro-me de dois médios ofensivos relativamente recentes de que nunca gostei particularmente e cuja reputação sempre me pareceu excessiva, que ilustram este defeito: Neca e Rúben Micael. Há evidentemente virtudes em ser um jogador de um ou dois toques. Mas um jogador que não é mais do que isso, que não prende a bola em situação alguma e que acredita que prendê-la é sempre errado não é um grande jogador. Se há coisa que a jogada de Messi demonstra é que há momentos em que segurar a bola, ir para um sítio com ela para voltar ao ponto de origem depois, atrair adversários e esperar por desmarcações de colegas é a melhor decisão a tomar. Note-se, aliás, que não era sequer preciso ser Messi para fazer o que o argentino fez. Não há nada de especialmente difícil, do ponto de vista técnico, no lance. Há algum atrevimento, que não haveria se não houvesse confiança nos seus atributos técnicos, mas não há, em momento nenhum, nada que outro jogador minimamente razoável em termos técnicos não pudesse fazer.



A última coisa de que quero falar é da desmarcação de Busquets. Enaltecer as decisões de Messi sem lembrar a decisão de Busquets de solicitar aquele passe é tremendamente injusto. Sem ela, o lance não teria dado golo e ninguém elogiaria agora Messi. Pelo contrário, dir-se-ia que Messi se agarrara em demasia à bola, que desperdiçara linhas de passe e que permitira à defesa adversária controlar o lance sem grandes problemas. Para fazer um passe, como para dançar o tango, são precisas duas pessoas. Nenhum jogador, por melhor que seja, joga sozinho, e nenhuma boa decisão depende apenas de um jogador. Busquets é médio defensivo e, normalmente, é responsável por dar apoios recuados. Quando muito, oferece uma solução lateral ao portador da bola. E, naquele lance, poderia ter-se limitado a dá-la. Busquets percebeu, no entanto, que no momento em que Messi decide passar entre os dois jogadores adversários, havia uma melhor decisão do que ficar à espera do passe lateralizado do argentino; percebeu que, se iniciasse a marcha naquele momento e passasse nas costas do lateral, Messi iria ter uma linha de passe perfeita, instantes de segundo depois, entre o central e o lateral. Ao perceber as circunstâncias do lance, e aquilo que elas lhe pediam, Busquets percebeu que a melhor decisão que tinha a tomar, para facilitar a decisão do seu colega, era solicitar a bola naquele espaço. A isto chamo capacidade de leitura. O movimento de Busquets é profundamente atípico no jogador catalão e ninguém lhe levaria a mal que fizesse aquilo que está mais habituado a fazer, que seria oferecer uma linha de passe segura. Mas Busquets não é um jogador qualquer. A sua capacidade de leitura dos lances é muito acima da média, e aquilo que fez demonstra-o bem.

Quando se voltar a criticar um jogador que, não provocando duelos individuais, demora muito a soltar a bola, pense-se primeiro no que esse jogador está verdadeiramente a fazer. Leiam-se as circunstâncias e veja-se se, por acaso, ele não estará a pensar bem, se não estará à espera de uma solução mais fiável, de um linha de passe melhor, de um desequilíbrio da equipa adversária. E olhe-se bem para o jogo, quando isso acontecer. Que se tenha a capacidade de ver se, além de tudo isso, os colegas do portador da bola estão a fazer tudo o que devem para que ele possa tomar a melhor decisão possível. Não é nada incomum que um jogador, sobretudo um jogador inteligente, se agarre à bola sobretudo por ter intuído qualquer coisa que os colegas não intuíram ou que, tendo intuído, acharam arriscado pôr em prática. A intuição que esse jogador teve pode ser muito boa, mas, se os colegas não a facilitarem, será ineficaz. E quem é criticado é, geralmente, quem não se desfez da bola a tempo. Um bom jogador - dizem - joga bem em qualquer campo e em qualquer equipa. Não podia estar mais em desacordo. Qualquer jogador, sobretudo aquele que se destaca pelos aspectos intelectuais, é aquilo que a equipa em que joga lhe permitir ser. Numa equipa fraca do ponto de vista intelectual, um jogador inteligente só ocasionalmente se destaca pela sua inteligência. Sempre que faz ou tenta fazer algo que vai para lá das capacidades intelectuais dos que o rodeiam ou das capacidades colectivas da equipa em que está inserido, é incompreendido. Para os que não o compreendem, a imaginação com que joga e que, em equipas a sério, é o atributo mais requisitado, é invariavelmente descrita como egoísmo.

P.S. O blogue tem funcionado a meio-gás nos últimos meses e continuará a funcionar assim durante mais algum tempo. A todos os seguidores, a única coisa que posso prometer é que, a partir de Setembro, passará a ser possível escrever com mais regularidade.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Decisão de Talisca

Não é novidade, para quem visita este espaço com regularidade, que a velha máxima do chutar sempre que possível é algo que não me agrada particularmente. Ora, não é por o lance terminar com a bola no fundo da baliza adversária que um remate, quando se pedia outra acção, passa a ser uma boa decisão. O lance a que me reporto é o do segundo golo do Benfica no Dragão. Não obstante já muita coisa ter sido dita sobre o clássico e não obstante o mesmo ter acontecido há já algumas semanas, creio que o lance é especialmente útil para aquilo que proponho. A jogada terminou com Lima a empurrar a bola para a baliza deserta de Fabiano, mas foi tudo menos uma boa jogada. E, sobretudo, foi tudo menos uma boa decisão de Talisca, que continua a gozar de enorme admiração por parte da massa adepta dos encarnados sem que o justifique propriamente. Não querendo falar de Talisca em termos genéricos, até porque isso daria pano para mangas, posso dizer, essencialmente, que o seu perfil de decisão deixa muito a desejar. À excepção dos índices competitivos que tem conseguido apresentar, o que é notável para um jovem acabado de chegar à Europa vindo de um campeonato em que a competitividade é bem diferente, e à excepção de competências técnicas que muito decorrem desses índices competitivos admiráveis, Talisca não tem mostrado grande coisa. Não tem, aliás, mostrado - e isso parece-me claro - nada que justifique a euforia que se tem criado à sua volta. Mais uma vez, não fora os golos decisivos que marcou, e que muito se deveram, essencialmente, à capacidade competitiva que lhe reconheço, e não se falava dele como se fala actualmente. Mais uma vez, um ou dois lances por jogo são suficientes para a generalidade das pessoas formarem uma opinião. Mas, passando à frente, o que fez de errado Talisca no lance do segundo golo encarnado?



O remate em zona frontal é sempre apetecível, e é uma boa solução quando há espaço e, sobretudo, quando não há desequilíbrios causados pela movimentação dos colegas. Ora, é isso mesmo que Talisca não respeita, ou que pelo menos ignora. Ao contrário de muita gente, não creio que um jogador deva respeitar obrigatoriamente movimentações de colegas nas costas. Mas deve, pelo menos aproveitá-las. Depois do passe de Gaitan para Talisca, Enzo Perez apressa o passo para passar nas costas de Talisca de modo a criar superioridade numérica no flanco esquerdo, onde a defesa portista estava descompensada. Talisca não tinha que ter esperado por Enzo para lhe dar a bola, mas tinha que ter esperado por ele para jogar com a superioridade que ele ia criar e à qual os adversários iriam ter de reagir. Quando Talisca recebe o passe de Gaitan em zona central, tem à sua frente um defesa que o impede de progredir. Depois de contemporizar, por força dessa oposição, fica com mais um médio portista à ilharga. É nesta altura, quando já está francamente apertado, quando perdeu algum enquadramento para o remate e já sem sequer o equilíbrio perfeito, que se decide pelo remate, ignorando que o seu compasso de espera tanto permitira a aproximação de adversários como permitira o início da desmarcação de Enzo. Ao receber a bola, Talisca apercebeu-se que tinha apenas um adversário pela frente e que, possivelmente, teria espaço para rematar. Desde que recebeu a bola, não pensou em mais nada. Durante o tempo que perdeu a preparar esse remate, deveria ter mantido em aberto a possibilidade de tomar outra decisão.  Como tinha a ideia formada, não pensou em mais nada. Podia ter inclusivamente jogardo curto, entre linhas, em Gaitan, mas nem o viu. A melhor decisão, porém, era sempre esperar por Enzo, que ia criar o desequilíbrio na esquerda. Bastava a Talisca ter esperado mais um pouco e poderia jogar com essa desmarcação. Podia fazer o passe para que Enzo cruzasse já dentro da área (ou até para que pudesse rematar) ou podia jogar com essa desmarcação de outra maneira, esperando que Danilo se desposicionasse ao tentar adivinhar um eventual passe para Enzo. Como não pensou nisso, e como tinha o remate na cabeça desde que recebeu a bola, decidiu mal. Que o lance tenha resultado em golo não apaga a má decisão. Note-se, de resto, que o remate não saiu muito potente, como era natural que saísse nas condições em que se encontrava (tinha vários adversários à frente, a bola estava demasiado debaixo do seu próprio corpo, e o enquadramento não era perfeito), e que só um frango monumental de Fabiano, que defendeu com a cara, permitiu que aquela má decisão se transformasse numa recarga de Lima. Para muita gente, Talisca fez bem em chutar, uma vez que deu golo. O problema, no entanto, é o do costume: em situações idênticas, não só um remate naquelas condições dificilmente resultará em golo como a decisão de rematar naquelas condições e com um desequilíbrio prestes a ser criado por um colega dificilmente será a melhor decisão. 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Triangulação Perfeita

A jogada é a do segundo golo do Chelsea na primeira jornada da Liga Inglesa, ante o Burnley, e exemplifica, a meu ver, tudo aquilo que um simples gesto técnico é capaz de conseguir. Tudo começa com uma arrancada de Hazard, mas é o que se segue que me parece notável. A bola entra no flanco direito, os jogadores do Burnley posicionam-se à espera do cruzamento (8 ficam atrás da linha da bola), e o que o Chelsea faz é o que deve fazer qualquer equipa que leva a bola para aquela zona do terreno e pretende invadir a área adversária. No momento em que Ivanovic prepara o cruzamento, Fabregas posiciona-se à entrada da área e pede a bola, enquanto Schurrle inicia a marcha, para passar por entre o bloco adversário sem bola. Ivanovic opta então por trazer o lance para o meio, precisamente para onde Fabregas se encontra, e o espanhol parece ter espaço para armar o remate. Mas o movimento de Schurrle, iniciado anteriormente, dá a Fabregas outra solução, a de, fingindo o remate, amortecer para onde o alemão se dirigia. Com dois passes e uma triangulação relativamente simples, o Chelsea ultrapassou um bloco de oito adversários e criou uma situação clara de golo, deixando um jogador sozinho em frente ao guarda-redes.

Evidentemente, a execução técnica perfeita e a capacidade de Fabregas para ler todo o lance em tão pouco tempo e para tomar aquela decisão foram decisivos. Mas colectivamente é isto que uma equipa deve procurar criar. Sem bola, o movimento de Schurrle foi inteligentíssimo. Percebeu que, na posição em que estava, não oferecia nada à equipa e que, enquanto a bola fosse de Ivanovic a Fabregas, a atenção não recairia sobre ele. Aproveitando-se disso, iniciou um movimento pelo qual pudesse oferecer mais tarde, ao futuro portador da bola e não ao actual, uma opção de passe. A desmarcação também é isto, também é antecipar a opção de passe que dará a quem ainda não tem a bola. O que o Chelsea conseguiu, em termos colectivos, foi por isso notável. E o golo foi um dos melhores dos últimos tempos. Soubesse Mourinho replicar coisas destas e o Chelsea seria uma equipa bem mais interessante.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Rosicky e o Arsenal

Há muito que me apetecia escrever um texto sobre Tomás Rosicky, e esta semana surgiu o pretexto ideal. Fruto das várias lesões que tem tido, nos últimos anos, e fruto também da idade avançada, Rosicky não é um titular indiscutível no Arsenal. Ainda assim, e havendo na equipa muitos médios de ataque com as características do checo (Arteta, Wilshere, Ramsey, Cazorla, Ozil), Wenger não deixa de contar com ele, há já várias épocas, e aqui e ali aparece na equipa, quase sempre com enorme qualidade. Devo confessar que, de todos os médios acima referidos, e reconhecendo que Rosicky pode não ser capaz, nesta fase da carreira, de exibir a regularidade de outros, é o meu preferido, seja pela classe inigualável, seja, em termos mais concretos, por dar à equipa coisas que nem mesmo o alemão Ozil é capaz de dar. Entre linhas, com pouco espaço e pouco tempo para decidir, é sem dúvida aquele que melhor lê o que a jogada pede, aquele que mais rapidamente percebe qual a melhor decisão a tomar. É ainda aquele que, em posse, mais pensa na verticalidade, e, se pode fazer a bola entrar entre linhas, recorrendo ao apoio frontal, não passa para o lado nem procura uma solução menos arriscada. Exemplos das suas melhores características são dois dos golos marcados pelo Arsenal na goleada desta semana frente ao Sunderland.



O primeiro golo do Arsenal começa precisamente com a invasão do espaço entre linhas por Rosicky, facilitando a decisão de Podolski, que executa o passe vertical sem dificuldades. Ao mesmo tempo, Wilshere entra sem bola pelo centro, e Rosicky, apercebendo-se disso, rapidamente desvia a bola na direcção do inglês. Com dois passes, o Arsenal não só entrou entre os médios e os defesas adversários como deixou fora da jogada o defesa que saíra em contenção a Rosicky. A decisão de Rosicky, de tão rápida, deixou Wilshere com a bola controlada à frente de um dos centrais e em posição de remate. Não há muitos jogadores com capacidade para decidir tão bem e tão rápido, e ainda menos são os que o conseguem fazer dando a impressão de que não é difícil fazê-lo. O melhor lance do jogo, contudo, estaria reservado para o terceiro golo, um lance cuja finalização, não obstante a qualidade da mesma e não obstante ter sido precisamente da autoria do checo, é o pormenor menos relevante.



O Arsenal é das poucas equipas que procura sistematicamente lances deste tipo, envolvendo vários atletas nas jogadas de ataque, com tabelas curtas a disposicionar os defesas, e Wenger tem todo o mérito nisso. Com Rosicky em campo, no entanto, a probabilidade de estas coisas acontecerem, e a qualidade com que acontecem, é espantosamente diferente. O lance começa com Wilshere a invadir o espaço entre linhas, com Rosicky a lateralizar para Cazorla, não interrompendo a marcha e invadindo o espaço deixado vago pelo médio adversário que saiu a Cazorla, e com o espanhol a dar de primeira em Wilshere. Wilshere, respeitando o movimento do checo, dá por sua vez de primeira, deixando Rosicky de frente para o lance, só com a linha defensiva pela frente. Com três passes e uma simples triangulação, o portador da bola ficou assim à frente da linha de meio-campo e de frente para a baliza. Se isto já era óptimo, o que Rosicky fez de seguida foi ainda melhor. Sem muito espaço, e não havendo qualquer desposicionamento da defesa contrária, solicitou de primeira Giroud, apesar de o francês praticamente não ter espaço e estar obrigado a jogar de primeira, e desmarcou-se por entre um central e o lateral-esquerdo. Giroud, percebendo as intenções do colega, devolveu de primeira, entre os dois centrais, e deixou Rosicky cara a cara com o guarda-redes adversário. A finalização do checo é primorosa, mas todo o lance é de absoluto génio. Com cinco toques na bola, e envolvendo quatro jogadores, o Arsenal entrou em progressão pelo centro do bloco adversário, um bloco que, de resto, estava bem organizado no início do lance. Embora o espaço não fosse muito e não houvesse grande liberdade para aproveitar, a equipa londrina arranjou maneira de entrar por onde é letal entrar, e soube criar uma situação de golo clara sem precisar de um erro do adverário para o fazer.

Jogar futebol é essencialmente, fazer coisas destas, e é por estas e por outras que a equipa de Wenger, não tendo o orçamento que alguns dos rivais têm e não tendo uma equipa especialmente atlética, se manteve na alta roda do futebol europeu nos últimos anos. Muitos são aqueles que têm criticado o treinador francês ao longo dos últimos anos, sobretudo por não ganhar títulos há muito tempo, mas poucos têm sido capazes de explicar a regularidade impressionante do Arsenal. Mesmo não ganhando nada há muito tempo, nunca fez pior do que o quarto lugar, discutiu várias vezes o título com outras equipas, e apurou-se sempre para a fase das eliminatórias na Liga dos Campeões, algo que, por exemplo, Alex Ferguson não foi capaz de fazer. Disse o ano passado que, caso o Arsenal não perdesse nenhum jogador, e dadas as mudanças que se anunciavam em Manchester, os comandados de Wenger seriam novamente candidatos ao título. Embora outros tenham achado que era uma patetice, e que o mais certo era o Arsenal ser ultrapassado por clubes em ascensão como o Tottenham, justifiquei a minha opinião com base não só na regularidade da sequipas  de Wenger e na maturidade que, este ano, esta equipa atingiria, mas também no tipo de futebol que preferencialmente praticam. Esse tipo de futebol, que esta jogada tão bem exemplifica, é único em Inglaterra. E é esse tipo de futebol o mais eficaz para vencer adversários que fazem do suor e da entrega as armas preferenciais. Num campeonato em que a principal virtude é a capacidade atlética, só há duas maneiras de uma equipa se superiorizar às outras: ou ter uma equipa mais forte que as outras, do ponto de vista atlético, ou ser uma equipa diferente. Não podendo competir, em termos orçamentais, com os principais emblemas britânicos, o Arsenal de Wenger só pôde manter-se ao nível deles recorrendo à segunda hipótese. E, este ano, parece estar finalmente a colher os frutos dessa escolha. Ainda é cedo para perceber o que pode esta equipa fazer, na recta final da prova (se bem que a saída da Champions que se anuncia possa ser benéfica para as aspirações internas da equipa), mas estar na corrida pelo título a três meses do final da competição é já um murro no estômago dos que, com todas as certezas do mundo, achavam que Wenger era um falhado. Quanto a Rosicky, em quantas equipas do topo europeu seria ele opção? Quantas equipas, daquelas que lutam sistematicamente pelo campeonato e que têm algumas ambições europeias, manteriam durante tantos anos um jogador que, apesar de virtuoso, não é especialmente veloz, aguerrido ou combativo, um jogador que fisicamente é algo frágil e que já não vai para novo? Rosicky pode não ser das principais opções de Wenger, mas é com certeza o melhor exemplo do que o francês entende ser este desporto. Para aqueles que gostam de futebol, cada toque na bola de Rosicky é um momento para mais tarde recordar. Como não se sabe quanto mais durará, e se outros serão capazes de fazê-lo no futuro, sugeria que se aproveitasse ao máximo as coisas que ele tem para nos oferecer.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Uma Tabela e um Golo

Neymar marcou um grande golo, assim como Messi, mas é o quarto golo do Barcelona, o golo de Pedro, que, na minha opinião, merece menção na goleada do Barcelona, este fim-de-semana, diante do Rayo Vallecano. É verdade que o lance ocorre numa altura da partida em que os jogadores do Rayo Vallecano já tinha entregado o jogo e estavam conformados com a derrota, e é também verdade que a oposição do adversário, no lance em questão, é muito deficiente, com Fabregas a gozar de muito espaço no meio e, sobretudo, a equipa a iniciar a abordagem ao lance praticamente numa única linha defensiva, com os seus jogadores uns em cima dos outros. Nada disso, porém, invalida que o lance tenha sido superiormente trabalhado por Fabregas e Iniesta, e mais uma vez se demonstra que uma simples tabela, desde que bem executada, pode servir para ultrapassar uma defesa inteira.



O lance inicia-se com Fabregas a invadir o espaço central. Dois jogadores, de perfil, saem-lhe ao encalço, posicionando-se numa linha à frente da linha defensiva. Ao mesmo tempo, Adriano abre na esquerda, o que faz com que o lateral direito do Rayo abra e suba ligeiramente. Ao perceber que estão criadas as condições ideais para a penetração, Iniesta solicita o passe vertical entre as duas linhas defensivas e entre os dois médios de perfil. Sem hesitar, Fabregas dá em Iniesta e inicia a desmarcação para o espaço deixado em aberto pelo movimento do lateral direito, que se preocupara em demasia com Adriano e quebrara a linha defensiva. A partir daqui, era uma questão de a bola entrar no sítio certo, coisa que aconteceu. Mesmo que o passe de calcanhar de Iniesta não permitisse a Fabregas ultrapassar, de uma só vez, toda a defesa adversária (o que só aconteceu porque Zé Castro tentou ir pressionar Iniesta e a bola acabou por passar entre ele e o outro central), permitiria, com toda a certeza, que ultrapassasse os dois médios.

Com uma simples tabela, e envolvendo somente dois jogadores, um médio é pois capaz de passar por uma linha inteira de médios. Note-se, aliás, que entre a linha defensiva do Rayo e os dois médios que formam a outra linha não há mais do que 3 ou 4 metros. Significa isto que, por mais próximas que estejam dispostas as linhas  de defesa e meio-campo do adversário, há formas de uma equipa entrar nelas em progressão. Defender com duas linhas acarreta, pois, este problema, o de serem precisos menos toques para que aquele que conduz a bola fique apenas com a linha de defesa pela frente. De igual modo, ilustra este lance também aquele que me parece ser o principal problema, em termos defensivos, de um duplo-pivot. Por mais perto que joguem entre eles, e por mais perto que joguem da linha defensiva, é sempre possível colocar um passe vertical ou solicitar uma tabela entre os dois. Com três médios, dispostos em duas linhas diferentes, este problema não se põe: se um passe entrar entre dois médios mais ofensivos, há o terceiro, no meio e atrás deles; se, com uma tabela, a linha dos médios mais ofensivos for ultrapassada, há ainda a linha do médio mais defensivo para ultrapassar. Contra equipas que defendem de forma tão primária, e ainda por cima com laterais que não respeitam os princípios básicos de defesa à zona, sendo atraídos para fora por quem abre nas alas, as progressões pelo centro dos catalães continuam, por isso, a ser muitíssimo eficazes. E, assim, o futebol do Barça, se bem que longe do que foi com Guardiola, continua a ser das melhores coisas que se pode ver num campo de futebol.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O Golo do Ajax

Três tabelas e um golo. Foi assim, ontem, em Amesterdão. Em larga medida, romper linhas adversárias e desposicionar defensivamente uma equipa inteira é assim que se faz. Passe vertical no apoio frontal, que dá de frente; novo passe vertical no segundo apoio frontal, que volta a dar de frente; e mais um passe vertical num terceiro apoio frontal, que volta a entregar de frente. Se a primeira tabela não representou ganhos territoriais significativos e teve apenas a utilidade de desposicionar o meio-campo escocês e preparar a jogada que se seguiria, as outras duas permitiram ultrapassar 5 oponentes e deixar Schone na cara do guarda-redes do Celtic. Há quem ache que, com aquela densidade de jogadores adversários, é pouco razoável tentar furar pelo meio e mais recomendável contornar o bloco defensivo. Os jogadores do Ajax mostraram como se faz e o futebol agradece. É assim que se ataca colectivamente: dando opções de passe constantes, com movimentações simultâneas e procurando passes e devoluções dentro do bloco do adversário, preferencialmente entre linhas. No início da jogada, a equipa escocesa nem estaria propriamente mal posicionada, mas os rearranjos sucessivos e a tentativa de ir tapando cada uma dos brechas criadas pela jogada dos holandeses deixou-os, em poucos segundos, e com apenas meia-dúzia de passes, completamente à deriva. É uma pena não haver mais equipas a fazer coisas destas.



sábado, 26 de outubro de 2013

Notas sobre alguns Avançados

Continua a prevalecer, no discurso acerca de avançados, a máxima simplista e redutora de que avançados servem para fazer golos, e jogadores que actuem nessa posição continua a ser avaliados de acordo com os golos que marcam, as oportunidades que têm para o fazer, ou, em suma, a capacidade que têm para aparecer nos momentos-chave das partidas. Isto é redutor porque os momentos-chave são uma ínfima parte do que acontece num jogo de futebol, o que significa que certos jogadores são avaliados por aquilo que produzem ou parecem produzir numa parte ínfima do jogo. Já aqui chamei a atenção, inúmeras vezes, para o erro analítico em que consiste pensar desse modo, mas a verdade é que as pessoas continuam a ser preguiçosas, continuam a ver o jogo como bem lhes apetece, dando apenas atenção aos momentos em que a bola ronda as balizas ou a emoção nas bancadas é mais intensa. Desse ponto de vista, nem sequer percebo por que se interessam tanto por futebol, nem percebo porque perdem 90 minutos a ver um jogo de futebol. Mais valia perderem apenas alguns minutos a ver os resumos dos lances mais relevantes. Pessoalmente, considero que essas pessoas não sabem ver um jogo de futebol e não têm, por isso, fundamentos nenhuns para analisar o que quer que seja. Um jogo de futebol é muito mais do que 6 ou 7 momentos por partida, em que a bola entra ou fica perto de entrar numa baliza, e um avançado é muito mais do que aquilo que aparece coligido nas melhores ocasiões de um jogo.


No lance do terceiro golo do Chelsea esta semana, por exemplo, Fernando Torres não toca na bola. E, no entanto, 80% do golo é dele. É-o porque é ele quem possibilita a Hazard passar com a facilidade com que passa pelo último defesa. Torres é um dos muitos mal amados do futebol actual, essencialmente porque é avançado, custou muito dinheiro, e não marca tantos golos como isso. Confesso que Torres não é o meu avançado predilecto, mas está longe de ser o trambolho com que é hoje em dia confundido. Duas coisas, a meu ver, contribuíram para que não facturasse no Chelsea como o fazia em Liverpool: o facto de as equipas jogarem de modo totalmente distinto (Torres era, em Liverpool, o único avançado de uma equipa que jogava, por sistema, em transição, não lhe sendo pedido mais do que algumas arrancadas por jogo, quando tinha espaço) e o facto de ter modificado substancialmente o seu corpo (a massa muscular actual de Torres não tem nada a ver com a que tinha quando chegou a Inglaterra), o que fez com que fosse perdendo agilidade e destreza técnica. À margem destas considerações, Torres continua a ser um avançado inteligente, sobretudo com espaço. Pode não ser um jogador extraordinário para funcionar como apoio frontal, mas é alguém que percebe muito bem as necessidades da equipa, em lances de pouca densidade numérica como sejam lances de contra-ataque típico. Neste tipo de situações, sabe geralmente o que fazer, protege-se muitíssimo bem da ratoeira do fora-de-jogo e é capaz de se adaptar rapidamente a mudanças de circunstâncias. Foi o que aconteceu neste lance. Acompanhou o lance até que Hazard ficasse de frente para o defesa e, nesse momento, iniciou o movimento nas costas do belga, criando a dúvida no defesa. Torres marcou dois golos, nesta partida, mas o seu melhor momento terá sido sem dúvida este.

Aceitar a última frase pode não ser fácil para toda a gente. Afinal, Torres não assistiu, não marcou. Nem sequer tocou na bola. E, no entanto, é bem possível que este golo seja mais seu do que qualquer um dos outros que marcou. É talvez sabido que, para mim, um avançado é como outro jogador de campo qualquer e deve fazer mais ou menos o que os outros jogadores de campo devem fazer, a saber, tomar boas decisões. É por isso que não me cativam alguns dos avançados mais mediáticos da actualidade, sobretudo aqueles que se destacam por serem combativos, irrequietos, brigões e possantes. Aprecio essas características se acompanhadas de qualidades técnicas evidentes e, acima de tudo, capacidade de compreensão do jogo. Da forma como entendo o jogo, jamais conceberia encaixar um avançado com as características do croata Mandzukic ou dos espanhóis Negredo e Soldado, jogadores por quem se pagou muito dinheiro. Mas também não conceberia encaixar outros, alguns dos quais muitíssimo queridos. Mario Balotelli talvez nem seja um bom exemplo, pois faz-me alguma confusão que a razão pela qual continua a ser colocado entre os melhores do mundo seja a irreverência. Aliás, o italiano é hoje o exemplo paradigmático de um erro muito comum no passado, o de se achar que a irreverência era sinónimo de talento. O raciocínio é mais ou menos este: a grande maioria dos jogadores talentosos são irreverentes; Balotelli é irreverente; logo, Balotelli é talentoso. O problema, claro está, é que mesmo que todos os talentosos fossem irreverentes isso não significaria que todos os irreverentes sejam talentosos. O conjunto dos irreverentes não coincide com o dos talentosos, e o facto de certos jogadores serem as duas coisas não implica que todos o sejam. Balotelli é irreverente, de facto, mas talento tem pouco.

Os dois avançados que, todavia, mais confusão me fazem hoje em dia, sobretudo pela diferença entre a real qualidade deles e aquilo que deles se diz, são o uruguaio Luis Suarez e o brasileiro Diego Costa. É curioso que, além de os achar parecidos em termos futebolísticos, acho-os muitíssimo semelhantes em termos de carácter. São avançados com mau feitio, que passam o jogo "picados" com os defesas contrários, sejam eles quem forem, que refilam em todos os lances, que se fazem de vítimas, que agridem por tudo e por nada, sem pudor, etc.. E, como jogadores, são avançados que raramente jogam de frente, que raramente servem de apoio frontal aos médios, que "metem" a cabeça no chão assim que recebem a bola. Tecnicamente, são ambos abaixo da média, não obstante conseguirem desembaraçar-se várias vezes em situações de um para um. Conseguem-no porque compensam a falta de técnica com um vigor físico impressionante. Seguram e protegem a bola não com a habilidade mas com os cotovelos, o corpo arqueado, e a disponibilidade física. Veja-se como conduzem a bola, por exemplo, e facilmente se perceberá que ela queima nos seus pés. Nada disto seria relevante, contudo, se soubessem ler o jogo, se fossem inteligentes e decidissem bem. Mas raramente o decidem. Vão marcando golos porque são, do ponto de vista atlético, muito fortes, e acima de tudo porque gozam da complacência de alguns árbitros (Suarez, embora beneficie muito de jogar em Inglaterra, até tem sido penalizado por algumas das suas acções, mas Diego Costa tem passado impune, quase sempre), porque os defesas adversários vão na cantiga e são incapazes de perceber que jogadores como Suarez e Diego Costa beneficiam de marcações apertadas, devendo antes dar-lhes algum espaço, e porque jogam em equipas em que se fomenta a ideia de que o avançado é um jogador que se deve desembaraçar sozinho. Veja-se a quantidade de ressaltos que ganham, a quantidade de bolas que ganham porque esbracejam e esperneiam, e a quantidade de golos que marcam com todos os músculos da cara contraídos. É a grande maioria. Tudo o que conseguem é fruto do esforço e da agressividade com que jogam, não da classe ou do talento que têm. E o esforço e a agressividade são daqueles atributos que, por si só, dependem sempre de factores extrínsecos para ser uma mais-valia: da interpretação dos árbitros, da atenção e da esperteza dos defesas e do sistema de jogo em que estejam inseridos. Numa equipa a sério, Luis Suarez e Diego Costa seriam sempre mais um problema do que uma solução.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Para Guardiola ver

Francamente, nunca percebi toda a histeria em torno do croata Mandzukic. Sempre me pareceu um avançado pouco evoluído tecnicamente e pouco capaz de perceber o jogo como realmente se exige a um avançado. Como facilmente se percebe, portanto, não pude deixar de ser surpreendido com o que aconteceu na época transacta a Mario Gomez, um internacional alemão, titular indiscutível nos últimos anos no clube e titular indiscutível da selecção, que perdeu o lugar para um jogador bem inferior, em todos os aspectos do jogo. Com a chegada de Guardiola, imaginei que Mandzukic perdesse o espaço que alcançara a época passada, mas aquele que seria o legítimo dono do lugar foi de imediato transferido, não se sabe se por opção sua, se por vontade de Guardiola. O técnico catalão, de resto, parece continuar a confiar a titularidade a Mandzukic, apesar de o croata ser incapaz de tomar uma decisão correcta ou de, simplesmente, segurar uma bola e entregar de frente. Pizarro já não é novo, e não pode dar o que Mandzukic dá, em termos defensivos. Mas, convenhamos, pulmão e agressividade nunca foram as características de que Guardiola mais gostou num avançado. Se nos extremos a capacidade de pressão sempre foi algo que Guardiola cultivou (e Mandzukic até já actuou, esta época, como extremo), o avançado de Guardiola tem de saber, acima de tudo, fornecer o apoio vertical certo, no momento exacto, e tem de saber segurar de costas, entregar de frente, servir de referência para tabela, tem de fazer mais movimentos de aproximação do que de profundidade, etc.. Mandzukic não sabe nada disto e jamais seria capaz de fazer o que Pizarro fez neste lance, esta terça-feira, frente ao Friburgo:


O lance ocorre sensivelmente a meio da segunda parte do jogo (no video, só dá para ver o lance todo na repetição, que começa aos 2m32s), numa altura em que o Bayern vencia por 1-0 (o resultado final foi de 1-1), e originou uma dupla oportunidade perdida pelos bávaros, primeiro por Kroos e depois por Müller. O lance é relativamente simples de descrever (veja-se também o lance do ângulo da câmara de jogo, alguns segundos antes) e começa nos pés do brasileiro Dante. Nesse momento, todos os jogadores (os do Bayern e os do Friburgo) estão num espaço de menos de 30 metros, e só é possível que a bola vá de um central a um avançado, pelo chão, por um conjunto de factores. Em primeiro lugar, porque os médios do Bayern, em posse, abrem para arrastar marcações, para que haja espaço para a penetração ser feita pelo centro; em segundo lugar, porque há alguma desconcentração da equipa que defende ou simplesmente uma má ocupação dos espaços centrais, fruto de uma estratégia defensiva ineficiente; e em terceiro porque o avançado bávaro, Pizarro, identifica correctamente o momento do jogo e percebe que, naquelas circunstâncias, deveria suscitar o passe ao seu central, fornecendo-lhe um apoio nesse sentido. É notável, ainda, que no momento em que Dante se prepara para fazer o passe, Toni Kroos, que parecia alheado da jogada, rapidamente percebe que deve aproximar-se do local para onde a bola vai ser endereçada, para que nesse momento (um momento que ainda não aconteceu) o colega que receber a bola possa ter uma solução de passe óbvia e imediata. Com tudo isto em movimento, Pizarro acaba por dar apenas um toque para o lado, permitindo a Kroos, que se aproximara dele por entre o central e o lateral, que se isolasse. Com apenas dois toques, o Bayern consegue passar de um momento de início de organização (a bola estava no central) para um momento de finalização, e tudo isto pelo centro do terreno e pelo chão. Tal só é possível porque, acima de tudo, os jogadores decidiram bem (Dante fez o que nem sempre faz, ou seja, jogar vertical pelo chão; Pizarro deu o apoio no espaço deixado livre pelos movimentos horizontais dos médios e libertou de primeira no companheiro que passava; e Kroos leu a jogada antes de ela acontecer). É por coisas destas, no fundo, que o Bayern de Guardiola é já bem melhor do que alguma vez foi o de Jupp Heynckes. E é também por coisas destas que Guardiola devia perceber que Pizarro, não tendo a juventude de Mandzukic, e mesmo não parecendo ter muita paciência para aprender o que Guardiola tem para lhe ensinar, é bem mais útil do que o croata.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Criatividade e Decisão

Podem já não ser os melhores, como parece ter afirmado Piqué. Seguramente que não o são, pois já não conseguem manter os índices competitivos de outrora, deixaram de acreditar nas suas competências, os processos defensivos parecem mais enferrujados do que nunca e, ofensivamente, parece haver um défice claro de imaginação, com os jogadores aparentemente cansados, não do ponto de vista físico, mas mentalmente, como se passassem por um esgotamento de criatividade. Tudo isto aceito sem dificuldades, e reconheço que, em muitos casos, é o suficiente para que se perca a superioridade que se tinha. O que não aceito é que se considere que esta equipa já não tem nada do que a distinguiu nos últimos anos. Podem não ser capazes de manter a concentração durante os 90 minutos e cometer mais erros do que cometiam, mas continuam a fazer coisas que mais nenhuma equipa tem a capacidade de fazer. A prova disso é o quarto golo este fim-de-semana, frente ao Bétis.



Barcelona 4-2 Real Betis 05.05.2013 ourmatch.net por ourmatch

Podem ter mais dificuldades do que tinham a criar condições para que este tipo de lances ocorram, mas continuam a inventar soluções como mais nenhuma equipa o faz. Quando se fala em criatividade, fala-se usualmente em habilidade individual ou em poder de finta. Para mim, criatividade é isto. Nada disto, talvez à excepção do passe de calcanhar de Iniesta, parece difícil de fazer, do ponto de vista técnico. E, no entanto, é de uma sofisticação inacreditável. O lance começa quando Iniesta, um médio, percebendo que tem de facilitar a vida ao companheiro que conduz a bola, Messi, invade um espaço que não é o seu, entre a linha defensiva adversária e a linha de médios, à frente da linha da bola, oferecendo um apoio frontal ao portador da bola. A intuição de Iniesta parece simples, mas é o que muitas vezes é negligenciado em posse; consiste em perceber que, movimentando-se como se movimentou, aumenta as soluções de passe curto do companheiro e, por conseguinte, as possibilidades de decisão que este terá ao seu dispor. No momento em que Messi conduz a bola, dá-se também outra coisa, as diagonais dos extremos, aproximando-se do centro do jogo e do portador da bola. Messi conduz, Iniesta aproxima, Messi toca no apoio frontal e, agora, a jogada está praticamente concluída. Sim, faltam ainda dois passes e a conclusão, mas o mais difícil está feito. A bola entrou no apoio frontal e Messi aproximou-se. A partir desse momento, Iniesta tem duas soluções, uma mais óbvia do que a outra, mas as duas igualmente boas. Podia, ao invés de solicitar Alexis Sanchez de calcanhar, ter simplesmente tocado de frente para Messi. Messi, seguramente, tocaria de primeira em Tello, que ficaria em posição privilegiada ou para finalizar, ou para cruzar para Alexis, que entretanto entrava no outro lado, ou para cruzar atrasado, para Messi ou Iniesta. Fosse qual fosse a decisão de Iniesta, a probabilidade de a jogada terminar com a bola dentro da baliza, após o passe de Messi para Iniesta, era gigantesca. Criatividade é isto, é conseguir criar condições colectivas para que se tenha sucesso, é ser capaz de fabricar espaços e contextos de decisão ideais. É nisto que esta equipa é inigualável, e foi isto que Guardiola ensinou estes jogadores a fazer. Se Tito Vilanova percebesse o que tem em mãos, perceberia talvez que, do ano passado para este, o que mudou essencialmente foi a capacidade de fabricar colectivamente estes momentos. Actualmente, ainda que o faça, a equipa fá-lo apenas esporadicamente, e provavelmente mais por auto-recreação do que por exigência do treinador. Como o faz menos vezes, encontra-se mais vezes à mercê do que a rodeia, aos erros individuais, aos detalhes imponderáveis, à própria necessidade de se motivarem, etc.. E, por isso, cria a ilusão, mesmo nos próprios jogadores, de que já não são superiores.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

O Lance que define o Jogo

Aviso: este texto é só para gente honesta! Os desonestos podem guardar as discordâncias para si, pois elas serão fruto não do que aqui vai escrito, mas da desonestidade que possuem.

A história do jogo divide-se em 2 partes, antes e depois do minuto 57. Depois do minuto 57, a eliminatória estava resolvida, e não me parece justo explicar resultados quando a desconcentração de uns e a falta de pressão a que outros passam a estar sujeitos é evidente. Para gente honesta, explicar o jogo é explicar os primeiros 57 minutos. Nesses 57 minutos, quem foi superior? Para os desonestos, mas também para os que acham que explicar o jogo é reparar nos lances dos golos, o Real foi superior, porque marcou 2 golos. Eu discordo, primeiro porque sou honesto, e segundo porque tenho argumentos para provar quer a minha honestidade, quer a minha razão. Em que é que o Real foi superior? Defendeu razoavelmente bem, sim. E mais? Mais nada. Rigorosamente mais nada. Em 57 minutos, o Real teve um único lance de perigo, o do segundo golo. O primeiro golo nem sequer se pode dizer que seja um lance de golo e só um erro infantil de Piqué o permitiu; resulta de um pontapé ao longo da linha, com o Ronaldo a receber, completamente desapoiado, de costas para a baliza, e que era fácil de defender, caso Piqué assim o tivesse desejado. Bastava ter dado a linha a Ronaldo desde início, e de não ter provocado o um para um. Quanto ao Barcelona, pelo contrário, teve 4 ou 5 ocasiões muito boas para marcar, e não o conseguiu fazer. Se o tivesse feito, em qualquer um desses lances, alguém acha que o jogo tinha sido o mesmo? O lance que definiu o jogo foi, pois, o lance do segundo golo. Definiu-o e é a melhor ilustração possível do que foi a partida. Analisemo-lo.

FC Barcelona - Real Madrid 57' Gol Cristiano... por realmadridplay

4 são os momentos do lance: um toque de calcanhar de Xabi Alonso, ao calhas, que faz a bola seguir para Khedira; um alívio sem nexo de Khedira que põe a bola na frente de Di Maria; um drible desajeitado e lento de Di Maria na sequência do qual se isola, porque Puyol escorrega; defesa de Pinto precisamente na direcção de Ronaldo, que não teve dificuldades para finalizar. A jogada define-se em 4 momentos, e em nenhum deles se pode dizer que os jogadores do Real tiveram qualquer espécie de mérito. Alguém acha que qualquer um destes 4 momentos se treina? Que qualquer uma destas coisas resultam de aprendizagem? Pedro Henriques falou da qualidade do passe de Khedira. Qualidade? Passe? Haja paciência! O alemão nem faz um passe, nem olha para onde vai pôr a bola. Miguel Prates, por sua vez, gabou a "decisão genial" de Di Maria. Decisão? Genial? Podia alguém ser mais imbecil? A jogada acabou com a eliminatória, pois o Barcelona passava a precisar de marcar 3 golos, mas, mais do que isso, ilustrou o que foi a partida: uma equipa a jogar futebol (menos bem, é certo, do que nos habituou), a criar oportunidades de golo (lance de Pedro e Messi a abrir; Fabregas falha o remate já dentro da área, sem oposição, em zona frontal, depois de um cruzamento da direita; livre directo de Messi a centímetros do poste; remate de Busquets à entrada da área para defesa de Diego Lopez e recarga de Fabregas evitada in extremis por Varane, e isto depois de dois remates dentro da área, de Xavi e de Iniesta, que batem em Sergio Ramos; remate de Iniesta, após pontapé de canto, na zona de penalty que bate em Sergio Ramos) e outra sem conseguir incomodar significativamente o adversário, que resolve a eliminatória após um erro de um defesa que raramente erra e após um lance absolutamente fortuito. Pelo que foram estes 57 minutos, há alguém honesto que consiga dizer honestamente que o Real Madrid fez por merecer esta vitória?

P.S.: Nem tudo é mau para o Real Madrid. Varane é um defesa extraordinário. Não, certamente, por aquilo que as pessoas gostam nele: a velocidade, o jogo aéreo, a virilidade, etc.. É extraordinário porque, apesar de não ser excepcional com bola, consegue aliar índices de concentração altíssimos e uma maturidade acima da média, para a sua idade, a uma inteligência notável na forma como interpreta os lances defensivos. Há um lance, hoje, que o define, e que devia servir de lição a Piqué. É no início da segunda parte. Messi recupera uma bola, vira-se e fica apenas com Varane e Sergio Ramos pela frente. Vendo que a ajuda vem a caminho (vêm 3 jogadores do Real atrás de Messi), Varane oferece literalmente a sua direita, onde faltava Arbeloa, obrigando Messi a seguir para lá. A partir daí o lance está ganho. Messi só tem aquela solução e a Varane basta acompanhar, à devida distância, o argentino, sabendo ainda que tem a cobertura do outro central à sua esquerda, caso Messi ainda passasse por ele. Muito provavelmente, se em vez de Varane fosse Pepe ou Sergio Ramos, a opção teria sido forçar o um para um, ou, quando muito, esperar pela decisão de Messi. E teriam assim aumentado as hipóteses de Messi ser bem sucedido. Varane antecipou a decisão do argentino e deu-lhe o lado antes de ele poder fazer alguma coisa. É assim que se defende um lance de uma para um, quer se tenha apoio, quer não. Se Piqué o tivesse feito, no lance do penalty, se tivesse tomado a decisão antes de Ronaldo o enfrentar, dificilmente o lance terminaria como terminou. Como no lance de Messi, Ronaldo não tinha apoio, e só poderia fazer estragos se desequilibrasse no um para um. A Piqué bastava não provocar o um para um, oferecer o seu lado esquerdo ao português, conduzindo-o para a linha de fundo, que a jogada, provavelmente, terminaria sem perigo.

P.S.2.: Há quem veja em dois maus resultados seguidos sinais inequívocos de que a forma de jogar do Barça mudou. Esquecem-se é de que, ainda há 2 semanas, no Barnabéu, só não ganhou um jogo em que cilindrou o Real porque falhou uma quantidade absurda de golos; esquecem-se é de que estão a fazer um campeonato melhor, em termos de pontos e em termos de produção ofensiva, do que em qualquer ano de Guardiola. O problema destas pessoas é interpretarem a qualidade geral da equipa, que não é muito diferente do que era, de acordo com um ou outro jogo ou até, o que é mais grave, de acordo apenas com um ou outro pormenor de um ou outro jogo.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Sem palavras

O que é ser jogador de futebol? É isto:

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Kyle Walker e o que Não é um Lateral

A primeira vez que vi Kyle Walker a jogar, pela selecção sub-21 inglesa, pensei imediatamente: "este tipo, em poucos anos, vai ser adorado por uma grande falange de mentecaptos, e vai ser considerado dos melhores laterais da Europa". É claro que Kyle Walker, na minha opinião, não é nada disto. Mas não me enganei. Em pouco tempo, começavam a babar-se por ele aqui, e hoje ninguém lhe discute a qualidade, como por exemplo aqui. A razão pela qual adivinhei a reputação futura de Kyle Walker é a mesma razão pela qual ninguém lhe discute o valor: a grande maioria das pessoas acha que o lateral é uma coisa que facilmente se percebia que Kyle Walker viria a ser. A saber, o jovem inglês é um prodígio em termos de força, é rápido, é muitíssimo agressivo, compenetrado, e tem técnica suficiente para fazer o corredor sem problemas. Além disso, tem uma mentalidade competitiva invejável. Este conjunto de atributos, num lateral, é hoje em dia inquestionável. Noutras posições do terreno, é mais difícil adivinhar quando um jogador vai ser apreciado ou não, mas um lateral com estas características não podia dar errado. E é este o problema. Como estas pessoas acham que um lateral tem um conjunto de tarefas para desempenhar, aquele que tiver este tipo de atributos será sempre preferido a outro tipo de jogador. Sabem que, aconteça o que acontecer, seja contra quem for, Kyle Walker vai conseguir sempre fazer o corredor com a mesma pujança, entregar-se-á sempre de maneira total ao jogo, e perderá poucos duelos individuais. Esquecem-se do principal, de que um jogador de futebol, seja lateral ou não, não é nada disto.

Para a grande maioria das pessoas, um lateral, nos dias que correm, tem de ser alguém que, para além de competente defensivamente, tem de ser capaz de fazer o corredor todo. De acordo com isto, avaliam a qualidade de um lateral recorrendo apenas a duas análises: se é forte nos duelos defensivos, e se é capaz de subir, combinar, e cruzar para área. Sem grandes rodeios, nada disto é importante num lateral, a meu ver. As competências defensivas vão muito para além da competência nos duelos de um para um, e as competências ofensivas são muito mais do que simples movimentos verticais e qualidade técnica no cruzamento. Um lateral que não se saiba relacionar com os seus colegas da defesa, que não saiba o que é uma cobertura, que não saiba fazer contenção, que pareça uma barata-tonta atrás do atacante que lhe aparecer por perto, que não saiba tomar uma boa decisão sem bola, pode ser um prodígio em termos de força, pode nunca ser ultrapassado em velocidade, pode ganhar muitas bolas divididas, mas não será um bom lateral em termos defensivos. Do mesmo modo, um lateral que não saiba jogar para dentro, que não saiba dar um apoio no momento certo, que não seja capaz de escolher a melhor opção de passe, que não tenha critério no momento de tomar uma decisão, pode ter um pulmão invejável, pode fazer o corredor milhares de vezes por jogo, e pode ser tecnicamente exemplar a cruzar, que não será um bom lateral em termos ofensivos. Sem cérebro, confesso que não consigo perceber como é que alguém possa ser jogador de futebol. Mas a grande maioria das pessoas continua a negligenciar os atributos intelectuais de um jogador, e é por isso que Kyle Walker tem o estatuto que tem, estatuto esse que há-de até tornar-se maior.


Para exemplificar o que digo, podia trazer lances de Cédric Soares. Felizmente, o próprio Kyle Walker poupa-me a ter de usar o jovem leão, cujo estatuto adquirido é em tudo idêntico ao caso do inglês, embora seja um jogador com características diferentes. Apesar de o inglês ter acumulado variadíssimas asneiras, só consegui encontrar o lance do segundo golo do Manchester, na vitória suadíssima dos pupilos de Villas-Boas em Old Trafford no passado sábado, e é dele apenas que falarei. Ainda a bola vem no meio-campo e já se percebe, embora a imagem não abra, que o posicionamento do lateral direito é já defeituoso: parando-se o filme no sétimo segundo, vêem-se 3 defesas em linha, do lado da bola, e um lateral direito que não está onde devia, que nem sequer aparece, que está demasiado aberto, porventura colado ao extremo que lá anda. Mas é quando Van Persie vem para a esquerda, com a bola controlada, e Kagawa flecte para o meio, que o comportamento inacreditável do lateral do Tottenham mais deve ser destacado. Kagawa invade precisamente o espaço entre Walker e o central do seu lado, aproveitando o erro inicial, e o lateral vai atrás dele, até ficar vários metros atrás da linha defensiva. No momento em que Van Persie dribla o seu opositor, Walker perde a fixação pelo japonês, mas mantém o seu posicionamento atrás da linha defensiva, e longe do central. Como se não bastasse, e apesar de o holandês conduzir agora a bola para a zona central, Kyle Walker abre na direita, cavando um fosso ainda maior entre o central e ele próprio. Kagawa não precisa agora sequer de se desmarcar para receber um passe pelo meio e ficar isolado frente ao guarda-redes dos londrinos: um golo fácil, resultante de um erro primário. Ao longo deste jogo, e ao longo de outros jogos, Kyle Walker cometeu vários erros básicos deste tipo. Está preocupado com as coisas erradas, não tem capacidade para perceber e ler o jogo, momento a momento, não é capaz de decidir bem, e não percebe sequer o que faz em campo, a maioria das vezes. A incapacidade para reajustar o seu posicionamento consoante as coordenadas do ataque adversário mudam é assustadora. Mas como tem pulmão, é forte fisicamente, e até dá uns toques, fizeram-no acreditar que podia ser jogador. E pode, de facto. Isto porque no futebol há mediocridade suficiente para que alguém assim possa chegar a ser um jogador de topo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Cabecinha de Mascherano e o Treino de Certas Habilidades

O jogo é o Barcelona-Granada, da última jornada da Liga Espanhola, e o lance ocorre já no final da partida, antes, porém, de o Barcelona chegar à vantagem. O Barcelona não fez um jogo extraordinário, denotando uma vez mais pouca elasticidade, coisa que Tito Vilanova parece não compreender, ao não abdicar do seu 433 rígido, com extremos que servem praticamente apenas para dar profundidade à equipa. Os seus pupilos dominaram a partida, criaram algumas ocasiões de golo, mas não conseguiram desmanchar a defesa do adversário como tão bem o faziam no passado. Tudo melhorou quando Xavi entrou e, sobretudo, quando Tito Vilanova, ao trocar Adriano por Tello, experimentou, pela primeira vez desde que está ao comando da equipa, o 343 losango de Guardiola. Para bem do futebol, seria bom que Tito tivesse percebido aquilo que conseguiu, ao mexer assim no jogo. A partir desse momento, sobretudo, o jogo desenrolou-se praticamente apenas dentro da área do Granada e à saída dela, com o Barça a conseguir muitas combinações curtas em zonas bastante avançadas e a conseguir pressionar muito mais alto. Os últimos 15 minutos foram os únicos que valeram mesmo a pena, e, aí sim, voltou a pairar sobre Camp Nou a aura de Pep Guardiola.

A vitória acabaria por chegar, muito naturalmente, mas não sem que antes a equipa passasse por um susto, no único lance, em todo o jogo, em que, de facto, o Granada podia ter facilmente chegado ao golo. Tito Vilanova e os mais conservadores até poderão concluir que tal ocasião, por ter acontecido precisamente numa altura em que havia menos homens atrás, é consequência do risco que o 343 representa. Estão enganados. Trata-se de um lance de vantagem numérica defensiva, que só por força de um erro individual pôde ter expressão. E erros individuais tanto acontecem em defesas a 3 como em defesas a 4, sobretudo se Mascherano estiver em campo. Confesso que não consigo compreender a admiração que se sente por este argentino, nem o entusiasmo que continua a gerar nalgumas franjas de adeptos, principalmente depois de errar tão flagrantemente e com tanta regularidade. Enfim, continua a haver muita coisa para mudar no jogo. Falemos do lance.


O filme não mostra o que antecede o passe que isola o avançado do Granada, nem permite perceber os comportamentos de Song e de Mascherano, pelo que tenho de descrevê-los. O Granada sai em contra-ataque, com a bola a cair junto à linha, do lado direito. Song, muito bem, acompanha o lance, não caindo no erro de tentar o desarme, até porque o adversário estava praticamente isolado. Mascherano acompanha a jogada de perto, e atrás dele vem um segundo atacante do Granada. Do outro lado, um terceiro defesa do Barça fecha o meio, garantindo a superioridade numérica. Não querendo forçar o desarme, Song obriga o portador da bola a recuar, permitindo a recolocação de Mascherano ao meio, em cobertura, mas o argentino, por qualquer paragem cerebral que me custa a compreender, abranda o passo, esquece a necessidade de ir fazer a cobertura a Song, e permite que o segundo atacante lhe passe nas costas, abrindo a possibilidade ao portador da bola de fazer o passe entre Song e Mascherano. É precisamente aí que o filme começa, e quem o veja pode até pensar que Mascherano chega atrasado para cortar essa linha de passe. Não é verdade. Mascherano pensou foi noutra coisa, e não compreendeu o que o lance exigia dele, permitindo que uma jogada completamente controlada, de 2 atacantes para 3 defesas, se transformasse de repente numa jogada de 1 para 0.

Que Mascherano tem dificuldades a interpretar lances de futebol já não deve ser novidade para ninguém. Aquilo de que me apetece falar, contudo, é de uma ideia geral de treino segundo a qual se acredita que os jogadores aprendem pelo treino a corrigir as suas capacidades interpretativas. Acredito que o treino pode melhorar muita coisa (capacidades técnicas, físicas, tácticas, etc.), mas sempre duvidei da capacidade do treino para melhorar um certo tipo de capacidades muito específicas, e que tem sobretudo a ver com a leitura de lances não-padronizados. Ou melhor, até posso aceitar que o treino possibilite essa melhoria, mas nunca a curto ou médio prazo, e somente mediante um tipo de treino muito diferente daquele em que a esmagadora maioria dos treinadores acredita. Quando digo a esmagadora maioria, não estou a exagerar; é mesmo a esmagadora maioria. Os defensores daquilo a que se convencionou chamar "periodização táctica", por exemplo, gostam de acreditar que são a vanguarda do treino, que são aqueles cuja metodologia é a mais moderna possível. Mas qual é a grande mais-valia da periodização táctica? A capacidade de mecanizar comportamentos colectivos contextualizados, mediante uma ideia de treino por tentativa e erro. O problema é que isso, não obstante a diferença para outras metodologias mais antigas, não contempla nem um décimo das situações de jogo que um jogador encontra. Por tentativa e erro pode-se ensinar um jogador a comportar-se em muitas situações típicas, mas não se pode ensinar um jogador a interpretar situações atípicas. E o problema é que o futebol é um jogo essencialmente de situações atípicas. É sobre isto que falta reflectir. De que modo poderia um treinador ensinar a Mascherano que, naquela situação, deveria ter ido proteger rapidamente as costas de Song, garantindo a permuta de funções, e inviabilizando um passe para as costas da linha defensiva? Com que exercícios de treino é que, repetindo-os muitas vezes, o argentino ficaria preparado para responder melhor a esta situação? A resposta é fácil: com nenhuns! A interpretação não é uma habilidade como as outras, e não pode ser cultivada do mesmo modo que as outras o são. Nenhuma metodologia convencional de treino (e, sim, a periodização táctica, não obstante as diferenças significativas para modelos de treino mais primitivos, é uma metodologia convencial, pela simples razão de entender o jogo exactamente do mesmo modo que os outros modelos o entendem, ou seja, como um jogo de situações típicas como o basquetebol, o voleibol, o andebol, ou o futsal) é capaz de trabalhar, a breve ou a longo prazo, as habilidades interpretativas. Para que um jogador melhore as suas habilidades interpretativas (isto é, no fundo, a sua decisão em lances para os quais o treino não o mecanizou, ou seja, lances que não exigem respostas tipificadas), tem primeiro de compreender o jogo, de compreender aquilo que a cada momento é o melhor a fazer. Só um tipo de treino centrado num certo culto da decisão, um tipo de treino não-especializado, cuja preocupação central seja não a criação de padrões de comportamentos, rotinas colectivas e especialistas para cada posição, mas sim a compreensão daquilo que é o jogo a cada momento, só um tipo de treino assim é capaz de melhorar este tipo de habilidades. Um tipo de treino assim não tem propriamente uma metodologia própria, à qual vem filiado; tem, isso sim, uma concepção do jogo de espécie diferente, uma concepção do jogo que nenhum dos outros tipos de treino, sejam os mais tradicionais, seja os mais modernos, tem, e que consiste em entender o jogo, em termos teóricos, de modo completamente distinto e inovador.  

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Gràcies Pep!

É talvez ainda cedo para que se perceba verdadeiramente o que se passou nestes 4 anos, e acredito que há pouca gente, neste momento, consciente do que isto representou para a História do jogo. Tal como a 14 de Julho de 1789, Luís XIV escrevia no seu diário a palavra "Rien", a grande maioria dos amantes de futebol não estará a par da Bastilha que Guardiola e os seus pupilos tomaram. Por esta ou por aquela razão, ainda que admirados com o que esta equipa fez, não entendem a revolução a que deu lugar. À distância, todos os grandes momentos da História da Humanidade nos parecem grandes o suficiente para que as pessoas que os tenham vivido tenham sabido aproveitá-los. Mas quantas das pessoas que os viviam estariam conscientes da sua importância futura? Saberia, quem conversava com Sócrates em Atenas, o privilégio que tinha? Conheceriam os marinheiros a bordo da Santa Maria as repercussões daquela viagem histórica? Que espécie de sentimentos guardariam os espectadores do "The Globe", em Londres, depois de cada representação? Hoje em dia, as suas vidas parecem-nos invejáveis pelo simples facto de que puderam desfrutar de momentos irrepetíveis. Vistos à escala a quem têm de ser vistos, estes 4 anos propiciaram-nos coisas muito semelhantes, e o seu impacto na História do Futebol depressa se evidenciará.


 
Pessoalmente, poder ter assistido ao futebol apresentado por esta equipa foi um dos maiores privilégios da minha vida, e só posso agradecer a oportunidade. Quando Guardiola, na época de 2008/2009, pegou no leme catalão, poucos o conheciam e poucos esperariam o que se viria a passar. Muitas das ideias que defendíamos aqui, já na altura, não tinham materialização prática, e nenhuma equipa, até então, jogava o tipo futebol que acreditávamos ser o mais eficaz. No início dessa época, José Mourinho rumava a Itália, e tínhamos bastantes expectativas em relação ao seu trabalho. O Porto de Mourinho, assim como o seu Chelsea dos primeiros dois anos, jogava de modo muito interessante, e esperávamos que, em Milão, tentasse levar mais longe algumas das suas ideias mais antigas. Infelizmente, Mourinho tinha mudado a sua maneira de pensar. A mentalidade competitiva falou mais alto, e o querer ganhar a todo o custo sobrepôs-se à ideologia anterior. No ano anterior, o modelo ofensivo de Frank Rijkaard tinha-se desmoronado com a deterioração das capacidades individuais de alguns dos principais jogadores da equipa, mostrando que os feitos alcançados dependiam excessivamente da competência individualizada dos atletas ao seu dispor. Nessa época de 2008/2009, talvez mais do que nunca, imperava no futebol mundial a ideia, contra a qual sempre quisemos lutar, de que as capacidades individuais são o que, no limite, distinguem uma grande equipa, e a ideia, ainda mais rudimentar, de que os atributos atléticos são os mais relevantes numa modalidade que está a chegar ao ponto máximo da sua evolução.

Inesperadamente, portanto, começou a aparecer na Catalunha, em jogadas reais, aquilo que nos ia na cabeça. Ainda me lembro da primeira troca de ideias que eu e o Gonçalo tivemos a respeito da equipa de Guardiola: "Aquilo é a nossa praia!", disse um para o outro. E era! E foi-o sendo cada vez mais, à medida que os jogadores iam interiorizando melhor e melhor a radical diferença do que estavam a fazer. Guardiola ainda não deveria ter 6 meses ao comando dos catalães e já era para nós o melhor treinador da História do Jogo. Isto pela simples razão de que fora o primeiro a conseguir que os seus jogadores jogassem de modo sistemático da maneira que nós acreditávamos ser a melhor para se jogar futebol. Por esta altura, talvez só Xavi e Iniesta entendessem a proposta de Guardiola na sua plenitude. Era por isso que, nessa altura, só entre eles se passasse o tipo de coisas que, mais tarde, se começou a passar entre todos os jogadores em campo. A pouco e pouco, o modelo foi ganhando consistência, sofisticou-se o mais possível, e foi nesta quarta época que atingiu o seu zénite. Na hora da despedida, Guardiola agradeceu aos jogadores por terem posto em campo aqueles lances que antes só podia imaginar. Foi precisamente a quantidade e a qualidade desses lances que Guardiola só podia imaginar que esta equipa foi melhorando ao longo das quatro épocas. Hoje em dia, não podiam melhorar mais. E Guardiola sentiu que tinha o dever cumprido. Agora pode talvez ficar em casa, enquanto outro lhe segue os passos, com a certeza de que poderá continuar a ver aquilo que antes não podia.

Guardiola justificou a decisão de terminar o vínculo contratual que o ligava ao Barcelona com a necessidade de descanso. Visivelmente, já não se entusiasmava como antes, já não vivia intensamente os jogos como no passado. O que Guardiola não disse, mas que talvez lhe estivesse na cabeça, é que o cansaço se devia também ao sucesso. Não falo do sucesso a nível de conquistas, mas num outro sucesso maior. Para muitos, Guardiola ficará na História do Futebol pelos 13 (ainda poderão ser 14) títulos em 4 épocas. Para mim, os seus maiores feitos são outros. Guardiola mudou o jogo! Os seus jogadores interpretavam tão bem aquilo que ele idealizara que sentiu que não tinha mais nada para lhes ensinar. Podia continuar a acumular títulos, mas corria o risco de criar habituações perniciosas. Ao contrário de outros, que usam como estímulo a conquista de troféus, os records, os adversários impossíveis de vencer, Guardiola tinha por estímulo a revolução que levou a cabo. Terminada que está essa revolução, decidiu recolher-se, e merece todo o respeito pela coragem com que o fez. Como bem disse, precisa de sentir novamente que o futebol precisa dele. Talvez nessa altura, com outro projecto, com outras aspirações, regresse para revolucionar mais um pouco. Pessoalmente, não tenho curiosidade nenhuma em saber o que fará noutras paragens. Isto é, gostaria de vê-lo a treinar outra equipa, mas não me preocupa que não o faça. Aquilo que deu ao futebol nestes 4 anos é tão importante que, mesmo que não volte a treinar, terá dado mais do que qualquer treinador em 30 ou 40 anos de carreira. Mal ou bem, Guardiola deixou para a posteridade lições suficientes para que o futebol do futuro não precise de regressar ao tempo das cavernas.

Disse acima que os seus maiores feitos não foram os títulos, e é nisso em que acredito. Ganhar coisas todos ganham. Ganhar muitas coisas também há quem o faça. Mas mesmo os mais titulados dos treinadores, em muitos e muitos anos de carreira, não foram capazes de fazer as coisas que Guardiola fez nestes 4 anos. E é disso que quero falar até ao fim. Terá dito José Mourinho que venceu uma das melhores equipas da História, e que com isso provou que não há só uma maneira de jogar futebol. Que há muitas formas de ganhar e de jogar futebol parece-me inequívoco. Que haja muitas formas de exercer o tipo de supremacia que o Barcelona de Guardiola exerceu nestes quatro anos é que me parece mais difícil de sustentar. Sim, Mourinho ganhou. Como já o havia feito com o Inter de Milão. Mas o Barcelona de Guardiola fez algo muito mais importante do que simplesmente ganhar. Além de ter ganho sistematicamente, fez coisas que nenhuma outra equipa na História do Jogo conseguiu fazer. É esse o legado de Guardiola. Ganhar todos podem fazê-lo. E Mourinho até é dos que ganha muito. Mas revolucionar o jogo como este Barcelona fez não está ao alcance de qualquer um. É claro que não há um só tipo de futebol vencedor. Mas há um só tipo de futebol que, para além de habilitar quem o pratica a vencer, o habilita a ficar na História do Futebol bem acima de qualquer outra equipa. Deixo abaixo algumas evidências daquilo que nos legou esta equipa, coisas que nunca tinha visto acontecer noutros sítios e noutros contextos, e coisas que não voltarão a acontecer tão depressa. São estas coisas que diferenciam esta equipa de qualquer outra. No dia em que houver outra equipa a conseguir estes feitos, então talvez possamos conversar.

1. POSSE DE BOLA

Nunca tinha visto uma equipa passar 4 anos seguidos sem ter menos de 50% de posse de bola num jogo, nem nunca tinha visto uma equipa conseguir médias de posse de bola a rondar os 70%.

2. PASSES COMPLETADOS


Nunca tinha visto o guarda-redes de uma equipa realizar mais passes do que a maioria dos jogadores adversários, nem nunca tinha visto um só jogador ter mais passes completados que a equipa adversária inteira (ainda na recente meia-final da Liga dos Campeões com o Chelsea, no jogo da segunda mão, Xavi fez mais passes do que toda a equipa inglesa).

3. GOLEADAS


Nunca tinha visto uma equipa com capacidade para golear quem quer que fosse o adversário (em Espanha, nenhuma das principais equipas escapou a goleadas com 5 ou mais golos), nem nunca tinha visto uma equipa capaz de vencer por 7-0 em terreno alheio, num jogo da Liga, perfazer 73% de posse de bola, com apenas 4 titulares em campo. Aconteceu a semana passada, diante do Rayo Vallecano (Pinto, Montoya, Puyol, Mascherano, Adriano, Busquets, Keita, Thiago, Pedro, Alexis e Messi foram os onze que entraram em campo).

4. GOLOS


Nunca tinha visto uma equipa marcar tantos golos através de combinações colectivas, nem nunca tinha visto uma equipa funcionar de modo tão exemplar que propiciasse ao seu melhor jogador a possibilidade marcar mais de 70 golos, em jogos oficiais, numa só época.

5. ESTILO

Nunca tinha visto uma equipa capaz de criar um estilo tão distinto (um estilo que, ao mesmo tempo, todos gostariam replicar e ninguém se atreve a fazê-lo), nem nunca tinha visto uma equipa a dominar tão claramente os seus adversários, pondo-os sistematicamente à rabia.


















6. TRANSCENDÊNCIAS

Nunca tinha visto 2 só jogadores conseguirem furar entre 8 ou 9 adversários bem fechados, recorrendo a tabelas sucessivas, nem nunca tinha visto 2 ou 3 jogadores conseguirem superar sistematicamente 5 ou 6 adversários através de combinações entre eles.

7. LIÇÕES

Nunca tinha visto uma equipa a destruir tantos preconceitos acerca do jogo como esta (o de que não se pode sair a jogar quando se é pressionado; o de que não se deve arriscar atrás; o de que se deve cruzar a bola para a área quando se chega à linha de fundo; o de que se deve aproveitar sempre o espaço em transição; o de que se deve ter, pelo menos, alguns jogadores altos e fortes em campo; o de que não se deve ter mais do que um médio criativo em campo ao mesmo tempo; o de que se deve adaptar pelo menos parte do modo de jogar ao adversário que se enfrenta; o de que se deve jogar pelas alas quando o meio está fechado; o de que uma equipa se deve compor de jogadores para defender e de jogadores para atacar; o de que cada jogador deve ter uma função específica em campo; o de que o ponta-de-lança deve servir essencialmente para marcar golos; o de que coisas inconsequentes, como tabelas sem progressão ou passes para jogadores rodeados de adversários, devem ser evitadas; o de que se deve rematar à baliza sempre que se tem possibilidade; o de que se deve variar entre o passe curto e o passe longo; o de que o futebol moderno tornou utópico jogar apenas com 3 defesas; o de que o portador da bola deve respeitar sempre a desmarcação do colega, passando-lhe a bola; o de que a vaidade é um atributo a eliminar numa equipa de futebol; o de que a força ofensiva de uma equipa depende da soma da competência individual dos seus atacantes; o de que, com bola, a equipa deve fazer campo grande, espalhando os seus jogadores o melhor possível pelo terreno de jogo; o de que se deve jogar sempre com a máxima intensidade possível; o de que os extremos devem estar o mais abertos possíveis; etc.), nem nunca tinha visto uma equipa forçar a que os teóricos do jogo reformulassem tanto as suas teorias acerca do mesmo.


8. MONSTRUOSIDADES

Nunca tinha visto uma equipa gerar tantos anticorpos, assustado tanta gente, e motivado tanto esforço para ser derrubada, nem nunca tinha visto uma equipa promover tantos debates teóricos, e motivar tanta discussão em torno da melhor estratégia com que pudesse ser derrotada.

9. APOIO INCONDICIONAL


Nunca tinha visto 90 mil pessoas, instantes depois do golo que impedia a equipa de chegar à final da Liga dos Campeões, três dias depois de a equipa ter também perdido o campeonato para o rival de Madrid, juntar as vozes e, em coro, entoar: "Olele, olala, ser del barça es el millor que hi ha!", nem nunca tinha visto uma equipa ficar em segundo lugar no campeonato, e celebrar tanto quanto a que ganhou o título (aconteceu na despedida de Guardiola, este fim-de-semana).



10. REVOLUÇÃO

Nunca tinha visto nada destas coisas, nem nunca tinha visto uma equipa revolucionar tanto esta modalidade. É este o legado de Guardiola. Que se aprenda alguma coisa com ele! O Entre Dez, que faria justiça à decisão de Guardiola emulando-a, decide por enquanto permanecer activo, a fim de que se possam continuar a educar os espíritos mais difíceis de convencer. Agora que Guardiola mostrou que é possível jogar desta maneira, é também mais fácil pensar no jogo como sempre exigimos que se pensasse. A revolução está feita. Resta-nos continuar a defender-lhe a necessidade.

Gràcies Pep! Torna Aviat!