terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Cabecinha de Mascherano e o Treino de Certas Habilidades

O jogo é o Barcelona-Granada, da última jornada da Liga Espanhola, e o lance ocorre já no final da partida, antes, porém, de o Barcelona chegar à vantagem. O Barcelona não fez um jogo extraordinário, denotando uma vez mais pouca elasticidade, coisa que Tito Vilanova parece não compreender, ao não abdicar do seu 433 rígido, com extremos que servem praticamente apenas para dar profundidade à equipa. Os seus pupilos dominaram a partida, criaram algumas ocasiões de golo, mas não conseguiram desmanchar a defesa do adversário como tão bem o faziam no passado. Tudo melhorou quando Xavi entrou e, sobretudo, quando Tito Vilanova, ao trocar Adriano por Tello, experimentou, pela primeira vez desde que está ao comando da equipa, o 343 losango de Guardiola. Para bem do futebol, seria bom que Tito tivesse percebido aquilo que conseguiu, ao mexer assim no jogo. A partir desse momento, sobretudo, o jogo desenrolou-se praticamente apenas dentro da área do Granada e à saída dela, com o Barça a conseguir muitas combinações curtas em zonas bastante avançadas e a conseguir pressionar muito mais alto. Os últimos 15 minutos foram os únicos que valeram mesmo a pena, e, aí sim, voltou a pairar sobre Camp Nou a aura de Pep Guardiola.

A vitória acabaria por chegar, muito naturalmente, mas não sem que antes a equipa passasse por um susto, no único lance, em todo o jogo, em que, de facto, o Granada podia ter facilmente chegado ao golo. Tito Vilanova e os mais conservadores até poderão concluir que tal ocasião, por ter acontecido precisamente numa altura em que havia menos homens atrás, é consequência do risco que o 343 representa. Estão enganados. Trata-se de um lance de vantagem numérica defensiva, que só por força de um erro individual pôde ter expressão. E erros individuais tanto acontecem em defesas a 3 como em defesas a 4, sobretudo se Mascherano estiver em campo. Confesso que não consigo compreender a admiração que se sente por este argentino, nem o entusiasmo que continua a gerar nalgumas franjas de adeptos, principalmente depois de errar tão flagrantemente e com tanta regularidade. Enfim, continua a haver muita coisa para mudar no jogo. Falemos do lance.


O filme não mostra o que antecede o passe que isola o avançado do Granada, nem permite perceber os comportamentos de Song e de Mascherano, pelo que tenho de descrevê-los. O Granada sai em contra-ataque, com a bola a cair junto à linha, do lado direito. Song, muito bem, acompanha o lance, não caindo no erro de tentar o desarme, até porque o adversário estava praticamente isolado. Mascherano acompanha a jogada de perto, e atrás dele vem um segundo atacante do Granada. Do outro lado, um terceiro defesa do Barça fecha o meio, garantindo a superioridade numérica. Não querendo forçar o desarme, Song obriga o portador da bola a recuar, permitindo a recolocação de Mascherano ao meio, em cobertura, mas o argentino, por qualquer paragem cerebral que me custa a compreender, abranda o passo, esquece a necessidade de ir fazer a cobertura a Song, e permite que o segundo atacante lhe passe nas costas, abrindo a possibilidade ao portador da bola de fazer o passe entre Song e Mascherano. É precisamente aí que o filme começa, e quem o veja pode até pensar que Mascherano chega atrasado para cortar essa linha de passe. Não é verdade. Mascherano pensou foi noutra coisa, e não compreendeu o que o lance exigia dele, permitindo que uma jogada completamente controlada, de 2 atacantes para 3 defesas, se transformasse de repente numa jogada de 1 para 0.

Que Mascherano tem dificuldades a interpretar lances de futebol já não deve ser novidade para ninguém. Aquilo de que me apetece falar, contudo, é de uma ideia geral de treino segundo a qual se acredita que os jogadores aprendem pelo treino a corrigir as suas capacidades interpretativas. Acredito que o treino pode melhorar muita coisa (capacidades técnicas, físicas, tácticas, etc.), mas sempre duvidei da capacidade do treino para melhorar um certo tipo de capacidades muito específicas, e que tem sobretudo a ver com a leitura de lances não-padronizados. Ou melhor, até posso aceitar que o treino possibilite essa melhoria, mas nunca a curto ou médio prazo, e somente mediante um tipo de treino muito diferente daquele em que a esmagadora maioria dos treinadores acredita. Quando digo a esmagadora maioria, não estou a exagerar; é mesmo a esmagadora maioria. Os defensores daquilo a que se convencionou chamar "periodização táctica", por exemplo, gostam de acreditar que são a vanguarda do treino, que são aqueles cuja metodologia é a mais moderna possível. Mas qual é a grande mais-valia da periodização táctica? A capacidade de mecanizar comportamentos colectivos contextualizados, mediante uma ideia de treino por tentativa e erro. O problema é que isso, não obstante a diferença para outras metodologias mais antigas, não contempla nem um décimo das situações de jogo que um jogador encontra. Por tentativa e erro pode-se ensinar um jogador a comportar-se em muitas situações típicas, mas não se pode ensinar um jogador a interpretar situações atípicas. E o problema é que o futebol é um jogo essencialmente de situações atípicas. É sobre isto que falta reflectir. De que modo poderia um treinador ensinar a Mascherano que, naquela situação, deveria ter ido proteger rapidamente as costas de Song, garantindo a permuta de funções, e inviabilizando um passe para as costas da linha defensiva? Com que exercícios de treino é que, repetindo-os muitas vezes, o argentino ficaria preparado para responder melhor a esta situação? A resposta é fácil: com nenhuns! A interpretação não é uma habilidade como as outras, e não pode ser cultivada do mesmo modo que as outras o são. Nenhuma metodologia convencional de treino (e, sim, a periodização táctica, não obstante as diferenças significativas para modelos de treino mais primitivos, é uma metodologia convencial, pela simples razão de entender o jogo exactamente do mesmo modo que os outros modelos o entendem, ou seja, como um jogo de situações típicas como o basquetebol, o voleibol, o andebol, ou o futsal) é capaz de trabalhar, a breve ou a longo prazo, as habilidades interpretativas. Para que um jogador melhore as suas habilidades interpretativas (isto é, no fundo, a sua decisão em lances para os quais o treino não o mecanizou, ou seja, lances que não exigem respostas tipificadas), tem primeiro de compreender o jogo, de compreender aquilo que a cada momento é o melhor a fazer. Só um tipo de treino centrado num certo culto da decisão, um tipo de treino não-especializado, cuja preocupação central seja não a criação de padrões de comportamentos, rotinas colectivas e especialistas para cada posição, mas sim a compreensão daquilo que é o jogo a cada momento, só um tipo de treino assim é capaz de melhorar este tipo de habilidades. Um tipo de treino assim não tem propriamente uma metodologia própria, à qual vem filiado; tem, isso sim, uma concepção do jogo de espécie diferente, uma concepção do jogo que nenhum dos outros tipos de treino, sejam os mais tradicionais, seja os mais modernos, tem, e que consiste em entender o jogo, em termos teóricos, de modo completamente distinto e inovador.  

36 comentários:

Guilherme disse...

viva Nuno, parabéns pelo artigo.

de facto, não há jogo em que o Mascherano não cometa erros idiotas. Mas é um jogador com "garra", que "corre muito" e isso, como nos é repetido à exaustão, são qualidades desejáveis num jogador de futebol.
Os elogios do guardiola no passado a essas mesmas qualidades também não contribuiram muito para um maior compreensão geral da burrice do argentino. Por outro lado, creio que será um jogador que pelas suas qualidades humanas é importante no balneário: factores extra-cancha, enfim...

mudando de assunto, achas que algum dia poderias escrever sobre a metodologia de treino do guardiola (presumo que seja a metodologia a que referes no fim do artigo), se evoluiu ao longo das épocas, como é que se organizavam os treinos dele, etc

na mesma linha, podemos falar de um modelo de periodização táctica, ou há variantes para além da do mourinho? o vilas-boas também aplica o mesmo método ?

e, por último, sabes de alguém, ou tu próprio já leste o livro do Matias Manna, o autor do Paradigma Guardiola? creio que vai ser uma das minhas próximas aquisições.

grd abr

Blessing Lumueno disse...

Guilherme:

Atenção que Mourinho não foi/é inventor da periodização... Nem de perto nem de longe... Ele tal como AVB é um dos seguidores da metodologia ...

Quanto ao texto em si, fico por comentar quando tiver mais tempo para deixar algumas impressões.


Abraço

Centro de Jogo disse...

Boas Nuno,

Sobre Mascherano não vou sequer falar. Não tem a mínima qualidade para estar neste plantel, quanto mais ser considerado titular indiscutível.

Interessa-me mais relacionar esse facto com a metodologia. Tenho alguma dificuldade em perceber o que é uma metodologia, e as características que acarretam a sua definição. Como já te tinha dito, a periodização táctica pouco me diz, não passa de treino com as "marteladas" normais (o dito treino convencional), coisas que sempre se fizeram mas com nomes mais bonitos e desenhos com cores em planos de treino. Por exemplo, vejo coisas escritas em livros e que circulam pela Internet deste género.
Objectivo: Ligação inter-sectorial (Linha defensiva e linha média). Depois o exercício em si, são duas balizas no meio campo onde 7 gajos contra ninguém fazem uma data de passe e colocam lá a bola. No meu tempo isto chamava-se, Zero! No meu tempo isto chamava-se circulação táctica sem oposição, ou seja, prefiro continuar a chamar-lhe Zero! Mudam o nome, organizam-se posições, leva-se um quadro táctico, e já somos todos belos treinadores porque fizemos 5 anos de faculdade, mas treinar o jogo que é bom, continua sem o ser feito. E isto vai de encontro aquilo que dizes, ninguém treina a capacidade de interpretação. Ninguém deixa que a dedução do jogo, seja intuitiva, e até se perceber isso, até se perceber que não é preciso controlar tudo a 100%, para se puder ter uma boa equipa, ainda vai um grande passo.

Eu não vou por metodologias, nada no futebol tem receita. E essa receita, ou aquilo que extraímos dela, tem mais a ver com o modo de pensar sobre ela, que da capacidade da receita em si.

Este teu paragrafo diz tudo. "Só um tipo de treino centrado num certo culto da decisão, um tipo de treino não-especializado, cuja preocupação central seja não a criação de padrões de comportamentos, rotinas colectivas e especialistas para cada posição, mas sim a compreensão daquilo que é o jogo a cada momento, só um tipo de treino assim é capaz de melhorar este tipo de habilidades. Um tipo de treino assim não tem propriamente uma metodologia própria, à qual vem filiado; tem, isso sim, uma concepção do jogo de espécie diferente, uma concepção do jogo que nenhum dos outros tipos de treino, sejam os mais tradicionais, seja os mais modernos, tem, e que consiste em entender o jogo, em termos teóricos, de modo completamente distinto e inovador."

Perceber como deixar os jogadores manipular os momentos é mais importante que controlar todos eles. Pois nesse caso a criatividade, o modo de agir pensando passa apenas pela experiência vivida, e não pela capacidade de nessa experiência criar ferramentas que façam identificar acções que podem sequer nunca ter sido vividas daquele modo. Só que se existe abertura para tal facto é normal que elas se manifestem.

Não é fácil passar isto para terceiros e fazê-los ir contra tudo aquilo que ouviram e estudaram. Mas é a mais pura das verdades.

As acções de jogo não se repetem, no máximo são idênticas, mas não se repetem. Logo, a resposta nunca pode ser repetida, terá de ser adaptada ... e para isto é apenas preciso uma coisa, saber ler a interpretação e dar-lhe corpo.

Mas hás-de ter 80 anos, e tudo continuará igual!!!

Abraço, Jorge D.

Centro de Jogo disse...

Contudo, faltou dizer que é possível recriar um comportamento de interpretação em determinados jogadores durante o treino. Em Mascherano, não sei, pois não o conheço, mas não é uma coisa impossível. No entanto, marcar uma personalidade para que esta passe a querer e a agir pela interpretação é até fácil, mas não tem a ver (só)com o exercício, tem sim a ver com o que o treinador extrai dele. Numa criança então, é facílimo! Num adulto com "vícios" como os de Mascherano, só conhecendo pessoalmente se percebe se isso é ou não possível. A questão é que no alto rendimento e numa equipa com a dimensão do Barcelona, isso nem deve ser posto em causa, não se deve perder tempo com isso. A não ser, lá está, que haja algo mais importante por trás e que sirva de sustento para todo esse trabalho! Mas é possível, pode é não ter sido devidamente feito, ou pode-se ter estragado tudo o que já tinha sido feito. Mas a verdade é que Mascherano sempre foi o elo mais fraco deste grupo. E isso é a única certeza que temos.

ABraço, Jorge D.

Blessing Lumueno disse...

1º que tudo, gostei do artigo. Está interessante e tem um tema que tem muito por onde se pegar e discutir e por isso os meus parabéns.

Nuno: "Os defensores daquilo a que se convencionou chamar "periodização táctica", por exemplo, gostam de acreditar que são a vanguarda do treino, que são aqueles cuja metodologia é a mais moderna possível. Mas qual é a grande mais-valia da periodização táctica? A capacidade de mecanizar comportamentos colectivos contextualizados, mediante uma ideia de treino por tentativa e erro."

Bem acho que tu incorres em erro, ou os defensores da periodização (meu caso) incorrem em erro.
Digo isto porque o treino desportivo é uma ciência não exacta onde vários factores influenciam o desenvolvimento ou não das capacidades/habilidades para executar bem as tarefas específicas do jogo em questão. Com isto, quero dizer que como ciência está sempre em crescente evolução e todos os métodos que levem a alcançar o resultado pretendido (seja ele jogar bem ou ganhar simplesmente) são igualmente válidos. O que acontece é que existem metodologias em que uns treinadores acreditam mais do que outros. No meu caso acredito mais na periodização pois é aquela, que para mim, faz mais sentido para se desenvolver um "determinado" tipo de jogar, que é o meu objectivo. No entanto não acho nem nunca achei que isso fosse a vanguarda do treino, ou que fosse sequer melhor que as outras metodologias. Achei sim, que me identificava mais com ela, com os seus métodos e que por isso acredito que , eu, tenha mais sucesso com ela.

Não sei mesmo qual é o teu entendimento de periodização táctica, mas quando falas em "mecanizar" comportamentos (sejam eles individuais ou colectivos) incorres novamente em erro. A periodização táctica tem como objectivo que os jogadores resolvam os problemas de forma "AUTÓNOMA" que é diferente de "automática/mecânica". E digo isto porque um dos pontos de base desta teoria é ela compreender que todas as situações de jogo são diferentes.

Depois tenho por exemplo a dizer-te que eu, tenho uma percepção diferente da tua do lance. Não totalmente diferente mas tenho. Por exemplo, eu tenho como ideia que em lances de superioridade e igualdade numérica, os meus defensores devem "sempre" atacar o homem com bola e tentar o desarme (para reduzir tempo e espaço de execução para o jogador com bola), principalmente se o jogador adversário não se encontra na zona central do campo. Claro que isto deve ser feito, sempre salvaguardando a zona central do terreno, dando a "lateral" como única possibilidade de passe ou drible para o adversário. Tendo eu dito isto, se está correcto ou não, é discutível, mas é a percepção que eu tenho do que se deve fazer. Então, tendo em conta o que descreveste do lance, para mim o primeiro erro é do Song, e o segundo também porque tem dois timmings possíveis para apertar o adversário e não o faz. Não quero com isto dizer que o Macher fez aquilo porque é a ideia do seu treinador, porque o que descreves da acção dele é claramente uma paragem cerebral e a cobertura ao Song independente da acção do mesmo é "obrigatória". Estou apenas a identificar uma percepção diferente daquilo que descreveste, como boas acções do Song.

Nuno:"Por tentativa e erro pode-se ensinar um jogador a comportar-se em muitas situações típicas, mas não se pode ensinar um jogador a interpretar situações atípicas"

Continua...

Blessing Lumueno disse...

Confesso que tenho alguma dificuldade em compreender que situações "atípicas" são essas. Para mim, atípico, é algo que não acontece com regularidade. Algo fora da esfera daquilo que estamos "habituados" a fazer. E com isto quero dizer que apesar de todas as situações de jogo serem diferentes, as de treino (pelo menos do meu) também o são. Posso retirar cadência no sentido de fazer muitos jogos reduzidos de forma a retirar complexidade do exercício, posso manipular o espaço e o tempo, mas não posso manipular o tipo de acções que ,principalmente, o jogador com bola faz. E é isso que vai fazer com que os jogadores sem bola respondam. Tornando ,dessa forma, todas as situações de treino diferentes umas das outras.


Nuno:"E o problema é que o futebol é um jogo essencialmente de situações atípicas. É sobre isto que falta reflectir. De que modo poderia um treinador ensinar a Mascherano que, naquela situação, deveria ter ido proteger rapidamente as costas de Song, garantindo a permuta de funções, e inviabilizando um passe para as costas da linha defensiva?"

Primeiro que tudo o treinador deve passar aos jogadores, qual será a forma mais correcta de defender situações de superioridade/inferioridade/igualdade numérica. Depois dos jogadores terem isso bem presente e aprendido pode-se passar da teoria a prática. Um treinador cria determinado exercício para que a equipa se encontre em superioridade numérica defensiva fazendo o jogador passar pelo maior número de situações possíveis. O jogador tem bem presente o que deve ser feito nesse caso, vai errar algumas. Se perceber onde errou vai começar a errar menos, se não perceber vai ser "corrigido" e volta a repetir. Partindo sempre os exercícios, do mais simples possível, para graus de complexidade maior, quando verificamos que o exercício já não representa estímulos/evolução para os jogadores em questão.



As situações de jogo/treino podem ser todas diferentes, mas todas requerem o mesmo tipo de análise. E o cérebro, tal como nós o conhecemos pode ser treinado, para analisar, identificar, perceber a resposta e responder a essas situações.
A análise passa sempre, sempre pelos mesmos factores:

-Posição da bola (em relação a baliza do adversário em caso de ataque e em relação a nossa baliza em caso de defesa).

-Posição/movimento/número do adversário.

-Posição/movimento/número dos colegas.

-Pela nossa própria posição em relação a todos os outros factores.

Nuno:"Com que exercícios de treino é que, repetindo-os muitas vezes, o argentino ficaria preparado para responder melhor a esta situação? A resposta é fácil: com nenhuns!"

E acho o que disse acima suficiente para que percebas que é possível sim melhorar essas capacidades interpretativas, a médio prazo a curto prazo e também a longo prazo.

Continua...

Blessing Lumueno disse...

"Só um tipo de treino centrado num certo culto da decisão, um tipo de treino não-especializado, cuja preocupação central seja não a criação de padrões de comportamentos, rotinas colectivas e especialistas para cada posição, mas sim a compreensão daquilo que é o jogo a cada momento, só um tipo de treino assim é capaz de melhorar este tipo de habilidades."

A questão é que o objectivo do treino de um desporto colectivo a nível sénior, passa sempre por ter como preocupação central o desenvolver de um "jogar" colectivo. Onde todos os jogadores tenham a percepção da ideia que o treinador tem sobre a melhor forma de resolver os problemas que o jogo tráz. E isso é um "problema" porque cada pessoa tem uma forma diferente de resolver problemas, daí a diversidade de futebóis a nível mundial.
O exemplo claro disso é a percepção que eu tenho do lance, onde para mim o Song devia e podia ter atacado a bola duas vezes, não obstante do erro gritante do MAcher e para ti ele agiu bem em não tentar desarme nos dois timmings possíveis.

O que tu achas correcto nesse lance, para mim é um erro e é ai que reside a diferença entre o "jogar" pensado por mim, e o "jogar" idealizado por ti. E tu vais querer que os teus jogadores ponham em prática aquilo que tu achas mais correcto, como no caso desse lance e não o que eu acho correcto. Daí o desenvolver de uma forma de jogar "específica" (tua ou minha) dever ser o objectivo principal do treino.

A compreensão do jogo em cada momento deve estar integrada no treino. E é uma das caraterísticas essenciais do treino, pois o futebol é um desporto "pensante" e se os jogadores não perceberem o jogo é muito, muito difícil treinar e eles adquirirem o que quer que seja do treino.
Um jogador que pensa o jogo constantemente, coloca questões, põe em causa, percebe e encontra soluções. Mas não é fácil incutir algo a alguém que não aprender, ou que acha que sabe tudo e portanto não precisa de aprender.

Blessing Lumueno disse...

Boas Jorge,

Jorge D: "Como já te tinha dito, a periodização táctica pouco me diz, não passa de treino com as "marteladas" normais (o dito treino convencional), coisas que sempre se fizeram mas com nomes mais bonitos e desenhos com cores em planos de treino. Por exemplo, vejo coisas escritas em livros e que circulam pela Internet deste género.
Objectivo: Ligação inter-sectorial (Linha defensiva e linha média). Depois o exercício em si, são duas balizas no meio campo onde 7 gajos contra ninguém fazem uma data de passe e colocam lá a bola. No meu tempo isto chamava-se, Zero! No meu tempo isto chamava-se circulação táctica sem oposição, ou seja, prefiro continuar a chamar-lhe Zero!"

Não sei que entendimento tens tu, também da periodização.
Não sei qual é a bibliografia que utilizaste, se quiseres podes/deves partilhar para pelo menos eu entender melhor de onde tiraste essa ideia.
Mas sei que a ideia que tens está completamente errada.
Primeiro porque a circulação táctica não mudou de nome e continua com o mesmo.
Segundo porque um exercício de treino seja ele qual for, sem oposição (de número aproximado a situação de jogo específica que estás a treinar) vale ZERO e é uma das coisas que a periodização diz.

Jorge D: "E isto vai de encontro aquilo que dizes, ninguém treina a capacidade de interpretação. Ninguém deixa que a dedução do jogo, seja intuitiva, e até se perceber isso, até se perceber que não é preciso controlar tudo a 100%, para se puder ter uma boa equipa, ainda vai um grande passo"

Acho que afinal conheces bem a periodização. A decisão passa sempre pelos jogadores, e a metodologia percebe isso. Percebe sobretudo que os comportamentos mecanizados dão a resposta a alguns problemas, mas dão a mesma resposta ou nenhuma para problemas diferentes. E percebendo isso interpreta-se facilmente que o jogador deve ter capacidade para decidir bem. E isso passa pela análise correcta da situação tendo em conta os factores que referi. Mas para que o jogador dê uma resposta adequada é necessário ele ter o conhecimento para dar essa resposta. E esse conhecimento é passado pelo treino. Não podemos esquecer que o conhecimento que eu vou passar ao meu jogador é "meu". É diferente do conhecimento que o
Nuno passaria aos jogadores deles. Logo a resposta dos jogadores a situação vai ser diferente. Isso é a diferença entre o modelo do Nuno e o "meu".
A isso eu e o professor Vitor Frade chamamos de periodização táctica.

Se queres realmente saber sobre periodização posso aconselhar-te a bibliografia certa. E digo certa porque está "directamente" ligada ao criador dessa mesma metodologia (Professor Vitor Frade). José Guilherme, Marisa Gomes, Rui Faria, Nuno Amieiro e mais alguns autores que foram directamente orientados pelo professor nas suas teses são algumas das pessoas que deves procurar para saber mais sobre o que o professor dá nas suas aulas.

Um Abraço

Blessing Lumueno disse...

Só um aparte aos meus comentários ao Nuno, o maior problema é de facto a identificação do problema. Ou seja, o jogador percepcionar que aquilo é uma situação de superioridade numérica defensiva. É a transição mental de um lance ofensivo por exemplo para um lance defensivo, onde temos de pensar rápido todos os factores que referi e perceber o que fazer. Mas isso faz parte da tal evolução que se faz passito a passito aumentando a complexidade do exercício de treino.

Centro de Jogo disse...

Boas Blessing,

Não tive como objectivo dizer que tu, Prof. Vitor Frade, Marisa ou Amieiro não percebem nada de treino. Percebem e muito.
Conheço bem a periodização e suas obras, aliás, algumas das pessoas que referiste conheço até pessoalmente, inclusive o Prof. Vitor Frade.
Mas a questão não é só o jogo contra zero, enquanto jogador fiz isso um milhão de vezes e nunca morri, duvido é que tenha adquirido alguma coisa nesses momentos, com a excepção o tédio que é esse tipo de rotina!
Vai por exemplo ao livro da Marisa (pois já vi que o tens)e abre por exemplo entre a pag 105 e 113!
Não ponho em questão a pessoa, e tão pouco o que a pessoa sabe, pois ela sabe muito, ponho em questão se a metodologia será assim tão válida ou tão diferente daquilo que se fazia antigamente. No mínimo é contraditória! Diferente é, para melhor também, mas tem coisas que nada mudaram, apesar de concordar que a nomenclatura é mais rica. Se olhar para o seu morfociclo padrão, tudo é igual ao que já há muito se faz. Claro que de um modo mais evoluído e claro, com uma linguagem mais perceptível, abordando o tipo de contracção muscular tendo em conta situações estratégicas. Aqui a novidade, é o procedimento estratégico, visto que desde as camadas jovens que me lembro de descansar no "inicio da semana", ganhar "resistência a meio" e "treinar velocidade no final da mesma"! Como uma forma mais evoluída de ver o treino, fala-se também no desgaste emocional. Aqui então discordo a 300%. Não que ele não exista, mas sim porque não concordo no modo como está explanado.

É a opinião que tenho sobre esta metodologia, acho-a viva em certos aspectos, mas discordo dela em muita coisa, visto que se torna contraditória, com o texto do Nuno deixou "escrito entre linhas".

Com isto, não digo que os seus autores não tenham validade, claro que têm, e muita. Só acho que entram demasiado em contradição. Como já percebeste eu não me regulo por ela pois apesar de ter coisas interessantes torna-se incompleta.

Mas como diz Vitor Frade, isto depende do olho que observa!!! Pode ser o meu a estar errado! Um dia se perceber que o erro é meu, serei o primeiro a admiti-lo!

E nunca tinha dito, pois mesmo aqui nunca tinha falado contigo, mas gosto dos teus comentários. Gosto de malta que argumenta e tem opiniões próprias. Digo isto sem qualquer tipo de ironia.

Abraço, Jorge D.

Blessing Lumueno disse...

Obrigado Jorge, também gosto disso e sinto reciprocidade por pessoas que pensam o jogo. Pensar o jogo de forma diferente claro, mas o mais difícil é pensar.

Quanto a teoria sim tem pontos.fortes e pontos fracos, como todas. Daí eu não acreditar que seja a melhor. Sei que me identifico com ela, sei o que estudei dela. Sei que por me identificar e acreditar mais nela vou ter mais sucesso com ela, sem com isso reconhecer as suas limitações.

quero compreender ao certo, ainda.onde o Nuno quer chegar. Mas tocando ao extremo da questão e sendo o treino preconizado de uma forma centrada no entendimento do jogo, os melhores.jogadores seriam os treinadores... Percebes onde quero chegar?
E isso não acontece porquê?
Porque se o cérebro desse uma resposta a um problema sem recorrer a experiência anterior, essa resposta iria demorar uma "eternidade" a ser dada... Pelo que li do teu comentário percebes isso bem...
E digamos que nem todos os jogadores jogam futebol para aprender. Aliás a maioria joga para se divertir, daí a maior popularidade e acessibilidade domesmo.
Mesmo a nível profissional isso acontece. Jogadores sem paciência para aprender. Ou jogadores ao qual nunca foi colocada essa necessidade.

Por estes e outros motivos, como a perda de praticantes o treino nunca poderia ser centrado numa base teórica, até porque esse transfere para o jogo, nunca ia chegar a tempo útil de resposta, por culpa da experiência.

Depois desde tenra idade os jogadores não podem aprender isto nem apreender... O futebol costuma funcionar como uma fuga a escola para elese a teoria aí nunca seria aceite pela maioria dos praticantes.

Abraço Jorge

Blessing Lumueno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Blessing Lumueno disse...

Quanto ao livro sim, vou ler essas

Nuno disse...

Guilherme diz: "mudando de assunto, achas que algum dia poderias escrever sobre a metodologia de treino do guardiola (presumo que seja a metodologia a que referes no fim do artigo), se evoluiu ao longo das épocas, como é que se organizavam os treinos dele, etc "

Bom, não tenho dados suficientes para o fazer. Do pouco que li sobre esse assunto, lembro-me de pensar que tinham ideias bastante modernas, e lembro-me de pensar que, por exemplo, aquela ideia de que a periodização táctica era uma coisa bem portuguesa, que nascera no Porto e pela mão de Vítor Frade, não correspondia bem à verdade. Mas, como disse, tenho poucos dados para poder escrever sobre isso. A metodologia a que me refiro no fim não é bem uma metodologia. É, quando muito, uma contra-metodologia. O meu ponto é que todas as metodologias que vigoram ignoram uma coisa essencial acerca do jogo e são, por isso, muitíssimo incipientes em si mesmas. Aquilo que me parece é que, em vez de se andar a defender a metodologia a, b, ou c, era muito mais frutífero andar a defender teorias do jogo a, b, ou c. Mais importante do que perceber de que modo é que o treino prepara os jogadores para o jogo seria perceber de que modo é que o treino permite aos jogadores compreenderem o jogo. Isto tem a ver com as ideias enraízadas acerca do papel do treinador. Para os defensores de metodologias a, b, ou c, o treinador deve ser alguém que percebe como é que pode um exercício X tem utilidade para um jogar Y. Eu acho que um treinador deve ser essencialmente alguém com preocupações teóricas acerca do jogo. O problema dos aficionados das metodologias é que estão a discutir questões estritamente práticas, sobretudo relacionadas com a eficácia de certo tipo de exercícios. Para mim, a eficácia dos exercícios é um problema secundário. Se um treinador achar que, defendendo com 11 e jogando em transição, pode ser campeão nacional, os seus treinos podem ser os melhores do mundo, a equipa pode defender melhor do que qualquer outra e ser a melhor do mundo em transição, mas dificilmente será campeã.

"na mesma linha, podemos falar de um modelo de periodização táctica, ou há variantes para além da do mourinho? o vilas-boas também aplica o mesmo método ?"

Eu acho que há variantes, sim. E isso tem muito a ver com o perfil do próprio treinador. Muito mais do que a periodização táctica, aquilo que acho verdadeiramente interessante no tipo de treino do Mourinho é aquilo a que ele chama "descoberta guiada". Muito rapidamente, se não gosta do resultado de um exercício, pára o treino, pergunta aos jogadores o que acharam daquilo, recolhe feedbacks, aconselha, e repete o exercício deixando ao critério do jogador mudar ou manter as suas decisões. Tenho sérias dúvidas de que haja muitos treinadores com este tipo de sensibilidade. Porque isto implica que o treinador não pode ter um "jogar" predefinido, e tem de saber que a decisão é sempre do jogador.

Sobre o livro do Matias Manna, já o tenho, mas ainda não o li. Não sei se sabes, mas aquilo é uma colectânea de textos escritos no blogue, e não há propriamente grandes novidades. Ainda assim, claro, é das melhores coisas que se podem ler sobre o jogo.

Nuno disse...

Jorge D. diz: "até se perceber que não é preciso controlar tudo a 100%, para se puder ter uma boa equipa, ainda vai um grande passo."

Jorge, é cada vez mais essa a sensação que tenho. Os treinadores modernos, aqueles que defendem com unhas e dentes as metodologias, têm a ilusão de que aquilo que fazem lhes permite controlar, se não 100%, perto disso. E, na verdade, controlam muito menos do que se se estivessem a borrifar para as metodologias e se preocupassem com as coisas certas. Quando vejo um treinador a saltar do banco, irritado porque o seu avançado falhou um golo certo, na única oportunidade que a equipa criou, imagino imediatamente: "este tipo acha-se um grande treinador, e acha que, por treinar 1000 situações de contra-ataque e de finalização por semana, controla tudo e o seu avançado não pode falhar aquilo." Este tipo de treinador é uma besta. Falhar faz parte do jogo, e não é por se ter treinado exaustivamente certas situações que os jogadores não falham na execução dessas situações. O problema é que estas pessoas acham que treinar está estritamente relacionado com a execução prática do jogo. Eu acho que treinar tem pouquíssimo a ver com a execução do que quer que seja.

"Numa criança então, é facílimo! Num adulto com "vícios" como os de Mascherano, só conhecendo pessoalmente se percebe se isso é ou não possível."

Pois, também acho que isto, numa criança, é muito mais fácil. Daí achar, ao contrário de quase toda a gente, que o perfil intelectual do jogador muda pouquíssimo em idade sénior. Os vícios estão formados, o padrão de respostas a estímulos é já muito denso, e as ideias que o jogador formou sobre o jogo ao longo dos anos não permitem que, de repente, se faça tabula rasa sobre tudo o que se aprendeu. É uma questão epistemológica. As pessoas não aprendem rasurando tudo o que tinham aprendido antes, nem passam a crer em ideias contrárias àquelas que forma formando ao longo dos anos de um dia para o outro. Eu tenho ainda menos fé nos jogadores do que tu. Para mim, mudar o Mascherano seria como transformar um católico ferrenho, que viveu toda a vida como católico, que comungou toda a vida, que foi sempre feliz com o seu catolicismo, num judeu de um momento para o outro. É uma questão de crenças, e as crenças, sejam elas religiosas, sejam pura e simplesmente epistemológicas, são provalmente aquilo que de mais íntimo temos. O Mascherano, para mudar, teria de deixar de ser o Mascherano. Quase ninguém está preparado para isso.

Nuno disse...

Blessing Lumueno diz: "No entanto não acho nem nunca achei que isso fosse a vanguarda do treino, ou que fosse sequer melhor que as outras metodologias. Achei sim, que me identificava mais com ela, com os seus métodos e que por isso acredito que , eu, tenha mais sucesso com ela."

Blessing, conheço muito boa gente que "bate" todos os dias naqueles treinadores que põem os jogadores a subir e a descer escadas. Eu também acho que isso é estúpido. O problema é que aqueles que defendem o contrário, embora me pareçam certos em defendê-lo, não são extraordinariamente diferentes deles, pois o jogo, para eles, é uma coisa muito parecida. A única coisa que os distingue é que são mais "modernos" em termos metodológicos. Já não vão para a mata correr, já não vão fazer pré-época para praia, já não põem os jogadores a correr à volta do campo de forma descontextualizada. Mas, se perguntares aos dois tipos de treinador o que é o jogo, a definição é muito parecida.

" A periodização táctica tem como objectivo que os jogadores resolvam os problemas de forma "AUTÓNOMA" que é diferente de "automática/mecânica". E digo isto porque um dos pontos de base desta teoria é ela compreender que todas as situações de jogo são diferentes."

Sim, são os jogadores que, através do treino, devem descobrir como solucionar os problemas. Mas, quando fazes um exercício contextualizado, não tens um objectivo? Não pretendes "conduzir" os jogadores a executar alguma coisa que tens na cabeça? Quando se faz um exercício de transição, o objectivo não é dotar os jogadores de processos mecanizados para que a sua resposta em jogo seja mais rápida, para que levem menos tempo a considerar as variáveis todas? Atenção, eu não discordo disto. Eu acho que há certos momentos do jogo que devem estar bem mecanizados, em que os jogadores devem estar preparados para responder quase mecanicamente. Tipicamente, lances de bola parada, primeiras fases de transição, e organização defensiva.

O problema é que isto é, no máximo, 5% do que é o jogo. A minha crítica é à ideia de exercício. Quando se fazem exercícios em treino, esses exercícios têm uma finalidade, seja ela ditada pelo treinador, seja ela descoberta pelos jogadores. E o problema é essa finalidade. Na minha opinião, mais de metade do treino devia ser composto por exercícios sem finalidade. E, desculpa lá, mas se há coisa que a periodização táctica preconiza é que todo o exercício deve ter uma finalidade intimamente ligada ao "jogar" pretendido. É essa a minha crítica.

Nuno disse...

Claro que os lances são todos diferentes, mas a resposta que a periodização táctica dá à diversidade do jogo é a especialização de cada elemento da equipa num determinado número de situações, esperando com isso contemplar o máximo de situações. Um treinador que defenda a periodização táctica pretende que cada um dos seus jogadores se especialize num determinado conjunto de comportamentos. Se quer um lateral ofensivo, vai treiná-lo para que se comporte como tal, vai treiná-lo para que mecanize o máximo de comportamentos possíveis em acções ofensivas que considera que o jogador terá pela frente no jogo. Para isso vai treinar recepções orientadas do lateral após variações de flanco, passagens nas costas do extremo, apoios recuados, etc.. O meu problema é com esta ideia de especialização. Este lateral vai saber comportar-se num determinado conjunto de situações, mas não vai saber comportar-se noutras precisamente porque foi treinado especialmente para as primeiras. A finalidade do seu treino foi essa. O meu ponto é o de que estes treinadores acham que, se tiverem um lateral especializado em determinadas situações, um extremo especializado noutras, um avançado noutras, e por aí fora, têm uma equipa especializada em tudo o que importa. Eu acho que isto faz especial sentido noutros jogos, como no voleibol. Em voleibol, interessa-me especializar o receptor na sua função, o passador na sua, e os rematadores nas deles. Em futebol, acreditar que os jogadores têm funções como no voleibol é muito redutor. E, no fundo, quem defende a periodização táctica, defende um pouco isto. Isto porque a periodização táctica defende a especialização (individual e colectiva).

O meu ataque é a esta ideia de especialização. Para mim, o futebol não é como o voleibol porque, ao contrário do voleibol, não é um jogo de situações típicas. Como não é um jogo de situações típicas, não permite especialização. O índice de tipicidade no futebol é até muito inferior a qualquer outro jogo colectivo que conheça (muito diferente até, por exemplo, do futsal), e é tão baixo que a especialização não faz sentido nenhum.

"eu tenho como ideia que em lances de superioridade e igualdade numérica, os meus defensores devem "sempre" atacar o homem com bola e tentar o desarme (para reduzir tempo e espaço de execução para o jogador com bola), principalmente se o jogador adversário não se encontra na zona central do campo."

Blessing, eu concordo com isso. O problema é que, no lance, quando o Song ataca o portador da bola, a superioridade numérica ainda não aconteceu. Quando o Song vai à bola, está um para um. Se é comido, o avançado do Granada fica isolado. A ajuda está a chegar, quer com o Mascherano, quer com o Dani Alves (salvo erro), do outro lado, mas ainda não chegou. O que ele tem a fazer, naquele momento, é contenção. Isto é básico. E ele fá-lo, e muito bem. Ele só poderia atacar o portador da bola depois de o Mascherano assegurar a cobertura, e isso nunca chega a acontecer. O Song faz o que é correcto.

Nuno disse...

"Confesso que tenho alguma dificuldade em compreender que situações "atípicas" são essas. Para mim, atípico, é algo que não acontece com regularidade"

Blessing, por exemplo, em futsal, o remate é muitas vezes feito ao segundo poste, à espera de um desvio. Isso é uma acção típica, e pode ser trabalhada por tentativa e erro. Existe tipicidade porque, em futsal, é comum que, no momento do remate, haja um colega a surgir ao segundo poste. Em futebol, esta tipicidade simplesmente não existe. Para que é que se vai treinar, por exemplo, um lance de ataque que termine com um médio a lançar o extremo, e este a cruzar para a área? Qual é a finalidade disto? Treinar a execução de cruzamento, a resposta do avançado, as movimentações, os timings, etc. Ora, num jogo não há dois lances iguais. Para que é que se andou a perder tempo em treino a "mecanizar" coisas? Em jogo, um lance com as mesmas coordenadas pode pedir um cruzamento rasteiro, se por exemplo o primeiro defesa estiver atrasado e permitir a linha de passe rasteira para o avanaçado, um cruzamento pelo ar, caso não haja linha de passe, ou até a entrada do extremo na área, um compasso de espera a pedir novas movimentações aos colegas. Para que é que se treinou a especialização da ida à linha e do cruzamento, se é a especificidade do lance no jogo que pede a resposta mais adequada? Em futebol, quase tudo é atípico neste sentido. E é por isso que os treinadores deviam tentar preparar os jogadores não para a tipicidade, como o fazem, mas para a atipicidade. E isso, parece-me a mim, só se faz cultivando a decisão de um modo muito distinto.

"Um treinador cria determinado exercício para que a equipa se encontre em superioridade numérica defensiva fazendo o jogador passar pelo maior número de situações possíveis."

Pois, eu não vejo como é que um exercício (ou vários diferentes) ajudam um jogador a saber como se comportar perante situações diferentes. É este o meu problema com a ideia de "exercício". Tu achas que o Mascherano corrigiria este erro treinando muitos exercícios de superioridade numérica. Eu acho que todas as situações de superioridade numérica são diferentes. Por exemplo, neste caso, a superioridade numérica ainda não existe. Vai acontecer quando o Mascherano e o o Dani Alves chegarem, mas não existe no início do lance. Isto é muito específico. Para contemplares todas as situações de superioridade numérica defensiva, terias de treinar milhares de situações, para que ele estivesse preparado para todas elas. Eu acho que isso não se faz assim. Um jogador inteligente deve saber como decidir em situações que nunca treinou. É essa a diferença.

Nuno disse...

"A questão é que o objectivo do treino de um desporto colectivo a nível sénior, passa sempre por ter como preocupação central o desenvolver de um "jogar" colectivo."

Pois, precisamente. O problema é que os defensores da periodização táctica, e não só, acham que o futebol é um desporto colectivo como os outros. É essa a minha crítica. O futebol é um desporto colectivo de espécie diferente. Tem um índice de tipicidade muito inferior aos outros desportos colectivos, e isso faz com que seja muito diferente. Se for encarado assim, talvez se perceba que por ser assim, a ideia de "jogar" colectivo, em futebol, exige coisas diferentes. Os que acham que o futebol é como os outros desportos colectivos, acham que o colectivo, em futebol, deve ser trabalhado como o colectivo nesses outros desportos. Ou seja, acham que, se cada elemento do colectivo se especializar numa função, o colectivo funcionará o melhor que é possível. Nos outros desportos colectivos, talvez seja assim. É assim, de certeza, em futebol americano, em basquetebol, em voleibol, em andebol, pelo menos. Mas em futebol não é. Um colectivo que seja apenas um conjunto de especialistas não é um colectivo o mais forte que é possível. Em futebol, a especialização não é a melhor solução. O futebol é um jogo colectivo de baixo índice de tipicidade, e isso requer um colectivo com baixo índice de especialização.

Blessing Lumueno disse...

Acho que já respondi ao teu comentário. Entretanto repito...
Esqueceste de na minha explicação do exercício considerar o que disse sobre dotar os jogadores do conhecimento do que fazer naquele momento do jogo antes de passar a, prática...
Um jogador inteligente sim saberá sempre resolver uma situação dessas que nunca treinou. O único problema nisso é que a reposta a situaçãoe consequente resposta motora só iria chegar depois da bola já estar lá dentro...
O tempo de resposta ia ser simplesmente demasiado lento, porque o cérebro não iria ter experiência ao qual recorrer...
Se desde miúdos o futebol começasse a ser dado desta forma isso faria sentido... Mas não vai acontecer por algumas das razões que já referi acima amigo...

Um abraço

Centro de Jogo disse...

Nuno,

Este é o ponto fulcral.

"Sim, são os jogadores que, através do treino, devem descobrir como solucionar os problemas. Mas, quando fazes um exercício contextualizado, não tens um objectivo? Não pretendes "conduzir" os jogadores a executar alguma coisa que tens na cabeça? (...) Quando se fazem exercícios em treino, esses exercícios têm uma finalidade, seja ela ditada pelo treinador, seja ela descoberta pelos jogadores. E o problema é essa finalidade. Na minha opinião, mais de metade do treino devia ser composto por exercícios sem finalidade."

Não posso concordar mais. Não consigo sequer perceber como tu não estando directamente liga do ao treino (pelo que me lembro dizes apenas que jogaste futebol muitos anos) consegue chegar a esta conclusão e as pessoas que o estudam ainda não perceberam 1/10 do que percebes?! Espera, já captei a resposta! Não está mecanizado nem especializado em nada, apenas interpretas! Só isto. E é isto que deveria ser um jogador de futebol. Especialista sim, mas na interpretação.

A grande diferença é aí referida nesse teu comentário. Um exercício não é um fim em si mesmo. Não tem finalidade. Tem objectivos variados, isto porque as linhas de força que suportam o jogo assim o ditam. Pegando no teu exemplo, treinar uma transição rápida, não é o mesmo que treinar a percepção do momento em que ela poderá acontecer, são coisas muito diferentes. Os exercícios terão de ser sempre abertos, com objectivos variados, objectivos que por vezes o treinador nem conhece, é o jogador que o indica. Depois a relação entre eles, e os seus objectivos específicos (de cada um) é que dita um modo momentâneo de jogar, com o tipo de acção possível, com o tipo de contracção muscular que o permite e com o desgaste emocional intrínseco que poderá ou não provocar. E aqui reafirmo, se os exercícios forem abertos, com múltiplas saídas, com variadas formas e diferentes ângulos criativos para a obtenção do sucesso, condicionados pela dedução intuitiva do jogador (apesar de parecer paradoxal) não existe sequer desgaste emocional!!! Isto vem na sequência da minha resposta ao Blessing.

Claro que não é dar uma bola e joguem como querem. Agora, pensar de que forma é que isto pode ser feito, pois parece impossível, é que faz alguma confusão. Mas de impossível nada tem, é totalmente exequível na minha opinião!

Abraço, Jorge D.

Blessing Lumueno disse...

Dessa forma o que me ocorre é que deixaria de haver posições pré definidas dentro de campo... Ou seja: todos os jogadores saberiam jogar bem, em todas às posições...
Isso tem também um problema certo? Por mais que nós queiramos não especializa-los, isso irá sempre acabar por acontecer. O motivo é simples. Experiência!
Não vamos nunca conseguir que eles assimilem todos de igual forma a mesma coisa, o que vai fazer com que eles sejam melhores em momentos de jogo e fracos noutros. E é a partir daí que surge a especialização. Vais dar maior experiências de situações de um tipo do que doutro aos que joguem por exemplo melhor em organização ofensiva!
E a especialização é um problema de interpretação. Porquê? Porque teoricamente o que vou explicar ao meu jogador, são às formas que eu acho que sejam mais eficazes de resolver o problema. E apesar de deixar o exercício "aberto" ao seu critério, já direccionei para um ponto que eu achava correcto e o jogador vai ter isso em conta.
A não ser que sem dar qualquer luz sobre a forma de resolver o problema ele passe pela dificuldade e a resolva sozinho. Mas se não conseguir resolver? Temos sempre de ser nós treinadores a balizar essa forma de resolução certo?

Abraço malta

masterzen disse...

Nuno quando puderes envia-me onde leste que o basquetebol é um jogo de situação típicas... quero rir um pouco.
Uma constatação dessas só pode ser feita por um futeboleiro qualquer de uma universidade.

Nuno disse...

Blessing Lumueno diz: "Um jogador inteligente sim saberá sempre resolver uma situação dessas que nunca treinou. O único problema nisso é que a reposta a situaçãoe consequente resposta motora só iria chegar depois da bola já estar lá dentro... O tempo de resposta ia ser simplesmente demasiado lento, porque o cérebro não iria ter experiência ao qual recorrer..."

Porquê? Pelo contrário. Um jogador inteligente iria perceber mais rapidamente o que o lance exigiria de si. O problema da tua teoria é que achas que os jogadores só têm respostas motoras rápidas se trabalharem os exercícios específicos para os quais essas respostas motoras são necessárias. E isso não é assim. Não respondes apenas a situações que conheces, ou que identificas. O culto da decisão de que fala contempla precisamente isso, o saber decidir melhor em situações que nunca se treinou e para as quais, portanto, não se pode dar resposta motora "mecanizada".

"Dessa forma o que me ocorre é que deixaria de haver posições pré definidas dentro de campo... Ou seja: todos os jogadores saberiam jogar bem, em todas às posições..."

Não. O que deixaria de haver era funções predefinidas. Já o disse aqui no blogue várias vezes: num verdadeiro colectivo, os jogadores não têm funções ou um conjunto de tarefas a desempenhar. Num verdadeiro colectivo, a única tarefa é decidir o melhor possível a cada instante, consoante a situação em que se encontre. Isso não significa, no entanto, que cada jogador não tenha uma posição em campo. Tem-na, e deve respeitá-la. Mas essa posição não lhe impõe tarefas. Impõe-lhe apenas que respeite a posição relativa aos colegas. E isso também é decidido instante a instante.

"Não vamos nunca conseguir que eles assimilem todos de igual forma a mesma coisa, o que vai fazer com que eles sejam melhores em momentos de jogo e fracos noutros. E é a partir daí que surge a especialização."

Não. A especialização surgirá, quando muito, como efeito secundário. Surgirá do facto de se jogar em posições que façam com que se tome mais vezes um tipo de decisão do que outro. O que seria redutor seria forçar isso. Num jogo, um avançado tem 4 ou 5 ocasiões de finalização, e provavelmente todas diferentes umas das outras. Tem também centenas de outras acções, como desmarcações, como apoios verticais, etc. Eu não percebo, muito sinceramente, por que é que se perde tempo a treinar momentos de finalização, quando a grande maioria das acções a que um avançado terá de dar resposta num jogo são de outro tipo. É por isso que a especialização não faz sentido. Um avançado é igual a outro jogador qualquer, com a diferença de que vai aparecer mais vezes (não muitas) em zona de finalização. Se, em vez de se tentar mecanizar-lhe esses momentos, o que é estúpido, se tentasse trabalhar-lhe a decisão, ele acabaria por saber responder melhor a esses momentos (que não são iguais) por saber decidir melhor e não por reagir mecanicamente por repetição do que treinou. Quando muito, tornar-se-ia, e apenas por efeito secundário, num especialista em decisões desse tipo.

De qualquer modo, Blessing, o ponto que critico não é a metodologia em si. Há boas pessoas a trabalhar em periodização táctica. E haverá também boas pessoas a trabalhar noutros métodos. A minha crítica é àqueles que acham que a metodologia é o segredo do sucesso. Não é. Há-que pensar o jogo, e é sobretudo isso que é importante.

Nuno disse...

Jorge D. diz: "Um exercício não é um fim em si mesmo. Não tem finalidade. Tem objectivos variados, isto porque as linhas de força que suportam o jogo assim o ditam. Pegando no teu exemplo, treinar uma transição rápida, não é o mesmo que treinar a percepção do momento em que ela poderá acontecer, são coisas muito diferentes. Os exercícios terão de ser sempre abertos, com objectivos variados, objectivos que por vezes o treinador nem conhece, é o jogador que o indica."

Jorge, lembro-me de que foste a primeira pessoa que me fez pensar num tipo de treino totalmente diferente daquele que é actualmente preconizado. Na altura, ainda a periodização táctica me parecia ter virtudes que hoje acho que não tem. Falaste-me, nessa altura, em treino da criatividade, e isso suscitou em mim imediatamente alguma empatia. E o problema acho que é esse. Quando li sobre periodização táctica, gostei do que li, porque representava um corte grande em relação a outras metodologias e parecia cobrir uma série de coisas. Ainda assim, não me satisfazia por inteiro. Intuitivamente, havia coisas que não eram contempladas. Com o tempo, percebi que essas coisas eram as mais importantes, e, aliás, a grande maioria das coisas para as quais uma equipa devia estar preparada. Isso fez-me reflectir, pensar em alternativas, e chegar a conclusões. É por isso que ninguém pensa assim. As pessoas lêm coisas, aceitam-nas, se houver quem tenha sucesso com elas elevam-nas ao estatuto de Bíblia, e não reflectem sobre elas nunca mais. Aquilo que eu acho que é o jogo é completamente incompatível com a natureza destas metodologias, e só reflectindo a sério sobre a primeira é que pude perceber isso. Evidentemente, fazer com que alguém aceite um tipo de treino que, aparentemente, não tem finalidade é muito mais difícil do que fazer alguém aceitar um tipo de treino em que cada exercício tem uma finalidade óbvia. E é esse o problema. Aliás, não é só em futebol que as pessoas têm problemas com coisas que não têm finalidades óbvias ou de curto prazo. Basta pensar na ideia errada que há em relação à supremacia das ciências exactas sobre as outras, ou sobre as estratégias políticas da grande maioria dos governos europeus. A grande maioria dos seres humanos tem dificuldades em tomar decisões que não apresentem resultados imediatos e tem dificuldades em compreender como é que certas estratégias que não pareçam minimamente objectivas podem ser melhores que outras cuja finalidade, boa ou má, é apresentada desde o início. O melhor jogador de xadrez é aquele que pensa mais à frente e cuja jogada não parece ter uma finalidade óbvia e circunscrita àquela mesma jogada. Mas, ainda assim, ninguém presta atenção a isso.

Masterzen diz: "Nuno quando puderes envia-me onde leste que o basquetebol é um jogo de situação típicas... quero rir um pouco."

Masterzen, há jogos com índices de tipicidade mais elevados do que o basquetebol. O voleibol é um caso claro. Mas também há jogos com índices de tipicidade mais baixos: o futsal, por exemplo. O único jogo que conheço cujo índice de tipicidade é mesmo muito baixo, e que me permite dizer que é um jogo completamente diferente, é o futebol. No caso do basquetebol, como é óbvio, não é só situações-tipo. Mas há muitas. Basta ver que, em basquetebol, na sua maioria, as jogadas são defensivas ou ofensivas: ou se defende com toda a gente, ou se ataca com toda a gente. Isto introduz imediatamente tipicidade. Quem coordena o ataque é o base responsável pela condução de bola. O poste tem normalmente um conjunto muito reduzido de movimentos. Há bloqueios estudados, há inúmeros lances em que o portador da bola comunica aos colegas, por sinais, que jogada irá fazer. Como é que isto não é um jogo de situações típicas? Há meia-dúzia de lances preferenciais, e a liberdade está limitada à decisão de um entre esses, de acordo com a situação. Não há propriamente muito espaço para inovação, e só em casos extraordinários (que os há, ainda assim) é que alguém surpreende com tomadas de decisão inesperadas.

masterzen disse...

Caro Nuno, a sério que não quero estar aqui a discutir qual é o desporto com mais situação típicas, o que te perguntei foi onde é que leste isso que eu quero rir um pouco.
Estás a falar sobre coisas que é por demais evidente que não dominas, pois confundes situações organizadas com situações típicas. Uma situação pode ser organizada e não tem que ser necessariamente típica. Para que tenhas um exemplo o barcelona em basket na ultima época tinha mais de 90 sistemas e variantes de ataque, como é óbvio é organizada mas não típica porque não se repete com muita frequÊncia. Diz-me falando de sistema ofensivo como é que a maior parte das equipas que ataca com 4 ou 5 jogadores no futebol 11 é assim tão imprevisível?
Depois isso de ser o base que sai no contra-ataque em drible é literatura do tempo do Chalana e Diamantino mas muito aplicável ainda ao basquetebol português. O que é preciso desconstruir de uma vez por todas é a literatura imposta pelo mundo do futebol, que está errada bem como as suas invenções. Em forma de anedota para rirmos todos juntos, esta invenção do Mourinho de colocar a mão á frente da boca para ninguém perceber e que alastrou a todo o lado, é utilizada pelos árbitros da NBA há décadas.
Abraço e continuação de bom trabalho

Nuno disse...

"o que te perguntei foi onde é que leste isso que eu quero rir um pouco."

Não li em lado nenhum.

"confundes situações organizadas com situações típicas."

Não, não confundo.

"Para que tenhas um exemplo o barcelona em basket na ultima época tinha mais de 90 sistemas e variantes de ataque, como é óbvio é organizada mas não típica porque não se repete com muita frequÊncia."

Pois, é mesmo isto, Masterzen. Havendo a possibilidade de ter 90 jogadas (ou 200, não interessa) indicia que o jogo é feito de tipicidade. Achas que seria possível, em futebol, estudar 90 jogadas? Claro que não. Nem 5. E a razão é muito simples: o jogo é muito mais imprevisível, precisamente porque não há tanta tipicidade. Embora haja muito boa gente que acredita que os seus jogadores podem mecanizar algumas jogadas típicas. A maioria das equipas nem 5 lances de bola parada tem ensaiados. E isto não é só porque grassa por aí muita incompetência. É porque, simplesmente, à medida que se introduz complexidade, a diversidade das respostas de quem ataca e de quem defende torna impossível prever o que acontece de seguida. E são bolas paradas, em que os jogadores têm tempo para pôr na cabeça todos os passos da jogada.

"Diz-me falando de sistema ofensivo como é que a maior parte das equipas que ataca com 4 ou 5 jogadores no futebol 11 é assim tão imprevisível?"

Han? Como assim? Em basquetebol, há desde logo uma vantagem enormíssima, que é um passe ser muito mais certeiro do que em futebol. Os espaços são mais curtos, o jogo é jogado com a mão, etc. Em futebol, uma simples imprecisão num passe (que acontecem a toda a hora, em todas as equipas) inviabiliza de imediato o lance que seja estudado, ficando os jogadores entregues à necessidade de usarem um recurso. Se me perguntares como é que a maioria das equipas ataca com 4 ou 5 jogadores, digo-te que o faz com transições rápidas. Se me perguntares como é que essas transições são feitas, muito honestamente, não faço ideia. Umas vezes são feitas lançando nas costas, outra abrindo nas alas, outras por recuo do avançado a servir de apoio central. Queres mesmo comparar as variáveis que existem num jogo e noutro? O futebol, por ser jogado com os pés, por ser jogado por 11 jogadores contra 11, por ser jogador num campo com aquelas dimensões, e por muitas outras coisas, é tendencialmente mais complexo e menos tipificado do que qualquer outro jogo.

"Depois isso de ser o base que sai no contra-ataque em drible é literatura do tempo do Chalana e Diamantino mas muito aplicável ainda ao basquetebol português."

Mas quem é que falou num base a sair em contra-ataque? O que eu disse foi que, no basquetebol, a grande maioria dos lances são de ataque organizado, e a grande maioria são conduzidos pelo base. Este base, normalmente, é alguém com boa técnica, com criatividade e espontaneidade, e com boa qualidade de passe, precisamente porque são as características mais importantes para alguém que vai definir todo o lance ofensivo. No futebol, por mais que as pessoas digam que o Xavi é que puxa os cordelinhos do ataque Barça, para dar um exemplo, isso é estapafúrdio. Não há um jogador responsável por conduzir ataques, por decidir que jogada é que a equipa vai ensaiar. Em futebol, esse jogador decide consoante o momento. Em basquetebol, o base pode aproveitar aquilo que os colegas lhe derem, em termos de linhas de passe, de bloqueios, etc., mas muitas vezes é ele que estipula a decisão de todo aquele ataque. E é em relação às decisões do base que a equipa reage depois. Isto, só por si, confere ao jogo uma tipicidade muitíssimo maior. Mas não é sequer preciso ir tão longe. É um jogo em que as situações de ataque ocorrem, geralmente, à volta do bloco defensivo, em que a bola só entra no bloco adversário (e muitas vezes nem entra) para a definição do lance. E isso, por si só, torna as possibilidade de decisão muito mais reduzidas. Em futebol, o jogo disputa-se maioritariamente entre os dois blocos, e isso faz com que imediatamente a tipicidade se desmorone.

Mozart öZZil disse...

Sim o Mascherano,alias "Masc",é um "gaúcho","que juega con GARRA y HUEVOS"(como dizem Los Hinchas from La Pampa!),e pouco mais disso...

O Sporting também tem um assim,chama-se "Fito Rinaudo"

..E tambem é idolatrado dos adeptos leoninos!
É assim... Como deixa "a pele em campo","corre em todo o lado",entra de carrinho "a todo o gás",etc.. é o Herói da plateia!Das claques...

Que tristeza de "futebol"... (Sá Pinto Likes This)

Mozart öZZil disse...

Pra falar de VERDADEIRO FUTEBOL(verdadeiro "6"),Nuno;conheces o MARCO VERRATTI(Paris Saint-Germain)?

Em Italia chamam-lhe "O Novo Pirlo",e com razão porque é incrível,o puto... Tens mesmo de o ver jogar,Nuno!
Amanhã no Dragão,o PSG(que conta com Pastore & Ibrahimovic,tambem)vem jogar,por isso tenta ver o jogo,e admira a classe deste prodígio!19 anos..
E já sabe quase tudo o que se deve fazer em campo!
Uma maturidade incrível...
Parece um pouco o André Martins(tbm tem 1m65),mas com ainda mais recursos técnicos,e um pouco mais "cabedal",mais força..

Um "fuoriclasse",mesmo!

Mozart öZZil disse...

..Ah mais uma coisa!

Vi num post que falaste do FERNANDEZ SUSO.. Também gosto muito!!
E vejo nele grande futuro...

Olha pra classe dele nos seus primeiros passos com a equipa primeira do Liverpool:

http://www.youtube.com/watch?v=UIJEorlMTgo

Parece um pouco o Fabregas(versão esquerdino),mas com ainda mais velocidade...

Repara como conduz a bola(sempre com cabeça levantada;com bela atitude),finta o adversario(olééé),e acaba por tomar a boa decisão;com simplicidade,de maneira natural...

Não engana aqui também:"Crackazo"!

Mozart öZZil disse...

SUSO,um jogador totalmente "EntreDez-Compatível"...

Elegância & Estilo.

masterzen disse...


Caro Nuno, gosto da forma como teorizas as coisas, nota-se que há trabalho de casa. Em relação ao base no contra-ataque foi erro meu, embora sirva para te mostrar como a tipicidade não é assim tão linear no jogo moderno.
Analisa o jogo do Barça e repara como há tipicidade. A tipicidade é feita a base de conceitos serão 10 ou 15 ou até 20, mas existem. O segredo do barça ser uma máquina infernal é a diferença entre jogar com conceitos, anárquicamente ou mecânicamente.
Esta história do jogo por conceito há muito enraizada noutras modalidades está ainda para chegar ao futebol excepto o Barcelona. Conceitos na ocupação de espaços, no trabalho sem bola, no sair a jogar etc, se tens dúvidas consulta as análises do jogo na UEFA. Isto do jogo ser imprevisível, será talvez nas bolas que batem em alguém e entram. Repara porque quase não se chuta de fora e não se bate cantos para a área por isso mesmo para lhe tirar imprevisibilidade no momento da perda da bola.
Abraço e continuação de bom trabalho

Nuno disse...

Mozart Ozzil, o Verrati é uma máquina. Vou falar dele brevemente. Já o conhecia. Só acho é que a 6 as suas características não são todas potenciadas. Sê-lo-iam numa equipa como o Barça. No PSG, devia jogar ao lado do Pastore, mais à frente. O gajo é fenomenal em espaços curtos, arranja soluções com uma facilidade brutal, e tecnicamente é um prodígio.

Masterzen, não há tipicidade nenhuma. O que há é a tentativa de mitigar ao máximo a atipicidade do jogo, reduzindo o risco e o erro. O que o Barça faz, precisamente, é reconhecer que o jogo é essencialmente atípico, e propõe-se a tentar controlar-lhe, o melhor que conseguir, essa atipicidade. Agora, as jogadas são todas diferentes umas das outras, não há nada predefinido a não ser essa ideia vaga de que não se deve arriscar quando o risco é alto.

Mozart öZZil disse...

@Nuno:"Só acho é que a 6 as suas características não são todas potenciadas.Sê-lo-iam numa equipa como o Barça.No PSG,devia jogar ao lado do Pastore,mais à frente"...

Concordo plenamente!

Pra mim,a melhor disposição(o losango no 4-4-2)deveria ser isso:

-----------Thiago Motta----------
------Verratti----Chantome(Bodmer)
-------------Pastore-----------

--------------------------Menez
-------------Zlatan------------

VERRATTI deve jogar mais perto do PASTORE!
Um pouco à imagem de ANDRÉ MARTINS(que é um pouco o "verratti tuga"^^)com o DIOGO ROSADO(que é ele um pouco o "pastore tuga"^^)nos SUB21;vi quase todos os jogos deles,e é de facto incrível a relação em campo entre os dois!
Jogam/combinam quase de "olhos fechados",fantásticos!Perfeitos.. -Mesmo incompreensível como no SPORTING vendo aquilo não metem a "dupla maravilha" à funcionar na equipa primeira(?!?).. Mas como já referimos,"falta ideias" em Alvalade..(Preferem burros à Capel que jogam cabisbaixo lol)

Voltando ao assunto principal("prodigio verratti"),o problema é que o ANCELOTTI quere fazer no PSG como fazia no MILAN

Mete o VERRATTI no papel do PIRLO(a 6,estilo "quaterback"),e para "o proteger" no papel dos "molossos" à GATTUSO-AMBROSINI,temos SISSOCKO-MATUIDI

E isso é terrível porque não são JOGADORES DE FUTEBOL

CHANTOME sim,já é!.. E felizmente Ancelotti da-lhe algumas oportunidades no meio campo..

Mas ainda temos lá o MATUIDI(não percebi porque o Freitas Lobo intusiasmou-se tanto com ele ontem;pra mim MATUIDI não é grande coisa em termos futebolisticos!.. OK,"corre","compensa","da équilíbrio","tem pulmão".. mas na hora de tomar boas decisões -em ataque organizado-,já le falta o essencial:"cérebro"!)

E o resultado é que temos um Paris Saint-Germain "milanizado" que joga com linhas muito baixas,e que vive principalmente de contra-ataques,transições rápidas..

E acho isso um pouco triste..

Porque Verratti,Pastore & Ibrahimovic pela classe que tem,mereciam maior ambição no jogo!

Ancelotti tem boas ideas(sua grande referência é Sacchi),mas parece que às vezes ainda tem "residuo" de "Velha Italia"(tipo trapatoni o capello)...

Mas acho que vai mudando aos poucos(chantome no losango já é bom sinal de mudança);e cuando leio suas declarações elogiosas sobre o Barça de Pep,o a Italia de Prandelli(tbm quer propor esse tipo de futebol no PSG).. Penso que esta no bom caminho,o Carletto...

Va piano,va sano.. lol

Mozart öZZil disse...

..Ó Nuno,não respondeste sobre SUSO;
Não o viste o suficiente pra ter uma opinião definida sobre ele,é isso?
Eu também descobri com a España no Euro-19(principalmente contra Portugal;Remember:

http://www.youtube.com/watch?v=A0dfjJ4gG20

O gajo tem o pé esquerdo(a criatividade;a postura..)de REDONDO!!Incrível...

Mete a bola onde quer!.. Faz o que quer.

Nuno disse...

Sim, o Suso é bom. Tem, de facto, um pé esquerdo incrível. Mas não é o meu preferido, da geração dele. De quem gostei mesmo foi do Oliver Torres e do Denis Suarez. Falei disso aqui:

http://www.entredez.blogspot.pt/2012/07/hegemonia-e-geracao-espontanea.html