sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Don Andrés

Chegou ao fim, pelo menos ao mais alto nível e nos grandes palcos, a carreira do melhor futebolista espanhol de sempre. O rótulo é ousado, mas inteiramente justo. E o que talvez surpreenda mais é que pouco ou nada, durante todos estes anos, se pensou em Andrés Iniesta como o melhor jogador espanhol de todos os tempos. Estou convencido de que assim foi porque o mais importante no seu futebol não era a superação, os números, as fasquias a transpor. Não só não era um jogador obcecado com isso, como não jogava, de modo nenhum, para a posteridade. E as pessoas pensavam menos em comparações do que se deliciavam com o seu futebol. Tudo o que saía dos seus pés será lembrado no futuro, claro, mas que não se tenha pensado no quão singular a sua carreira foi enquanto ela decorria mostra que aquilo que fazia em campo dava sobretudo prazer. O seu futebol não tinha o alcance longínquo das páginas dos livros por vir; era apenas uma fonte de prazer. Quem quiser falar de Iniesta, daqui para a frente, terá sempre de mostrar como jogava. A sua arte não admite a quantificação dos números, ainda que tenha conquistado inúmeros troféus e esteja ligado a alguns dos momentos mais importantes da História do Barcelona ou da Selecção Espanhola. Iniesta foi o melhor jogador espanhol de sempre, mas aquilo que verdadeiramente importava era aquilo que fazia a cada momento, a sensação de liberdade que transmitia a todos os que o viam jogar, o perfume que aqueles movimentos inexplicavelmente subtis e impossíveis de prever exalavam, a graciosidade e a naturalidade com que se movimentava, escondendo com perfeição o esforço mesmo em situações de aperto. O futebol de Iniesta está nos antípodas da estatística e de tudo aquilo em que os cientistas das tabelas numeradas parecem querer transformar o jogo. Nada do que saía dos seus pés parecia pensado de antemão, ou obedecia a regras de bem jogar. Era tudo incrivelmente intuitivo, natural e belo: a facilidade com que rodava sobre si mesmo, contornando o adversário que lhe obstava a passagem; a capacidade de jogar com a sugestão, fazendo crer a quem tomava a iniciativa de lhe tirar a bola que a tarefa não seria difícil, conduzindo-o exactamente para onde queria para depois se livrar da pressão com leveza; a liberdade, a incrível liberdade com que jogava, como se jogar futebol àquele nível fosse a coisa mais simples do mundo e não acarretasse quaisquer responsabilidades. Em suma, Iniesta era o que o futebol devia ser!

Iniesta era essencialmente um jogador que, não sendo particularmente forte, rápido ou explosivo, se sentia confortável com a proximidade de um opositor e no meio de vários adversários. Essa capacidade de conviver com a proximidade do adversário é talvez o maior recurso num jogador de futebol moderno. Há jogadores extraordinários do ponto de vista técnico, alguns muito admirados por esse mundo fora, que nunca serão capazes de chegar ao nível dos melhores simplesmente porque não conseguem habitar espaços interiores. É muito mais fácil ser Toni Kroos, por exemplo, do que ser Andrés Iniesta. O espanhol nunca foi aquele jogador a quem compete virar flancos, abrir nas alas, jogar por fora e pautar o jogo sem se meter em alhadas. Sempre foi muito mais do que isso. Conseguia, e tinha prazer, em jogar em espaços curtos, dentro do bloco adversário, e percebia que era em espaços curtos, com muitos adversários à ilharga, e onde as opções de passe não são tão óbvias, que podia dar largas à sua criatividade. Os jogadores mais criativos são invariavelmente os que mais à vontade se sentem nessas condições, e os que as procuram para se sentirem bem consigo mesmos. Iniesta adorava conduzir em direcção a vários adversários, para os fixar, e decidir em conformidade; adorava levar a bola para a confusão das pernas adversárias, em vez de a soltar, como mandam os livros, para onde há menos gente; adorava meter-se em apertos, chamar a si os opositores, para lhes perturbar a organização e gerar espaços noutras zonas; e adorava driblar, sem recurso a nada que não a técnica, apenas pelo prazer de sentir o ganho colectivo que advém de tirar um adversário do caminho e provocar a deslocação de outro para lhe fazer as vezes. Havia, aliás, uma finta que o definia (e que define em geral os verdadeiros criativos), que consistia em criar a ilusão do desarme do adversário e, no momento em que esse adversário tomasse a iniciativa, passar a bola de um pé para o outro de modo a contorná-lo. Iniesta fazia-o amiúde, geralmente do pé direito para o pé esquerdo (os destros geralmente usam a finta deste modo porque, sendo destros, criam a ilusão do desarme quando a bola está mais próxima do pé direito), e sempre com uma subtileza notável. Não sei mesmo se alguém alguma vez o terá feito melhor e mais vezes. Essa finta definia-o, em parte, porque exemplifica o futebol de Iniesta. Não é uma finta feita em potência, não carece de velocidade ou explosão, nem é pré-fabricada. É um recurso, que só faz sentido ser utilizado na circunstância de um adversário esboçar uma tentativa de desarme, e que requer destreza técnica, competência a usar o corpo quer para proteger a bola, quer para induzir o adversário em erro, audácia e muita classe.


Agora que a sua carreira chegou ao fim, é tempo de pensar no modo como contribuiu para mudar o jogo. Individualmente, creio que é o melhor exemplo de como o futebol está diferente, para melhor. Há 20 anos, era quase impensável um médio de ataque franzino, pouco veloz e tímido impor-se ao mais alto nível. Os mais dotados, do ponto de vista técnico, tinham sempre de possuir outros atributos que os valorizassem. Zidane marcou dois golos de cabeça numa final do campeonato do mundo, por exemplo. Um jogador como Iniesta, no final dos anos 90, teria poucas possibilidades de se destacar. E, verdade seja dita, não sei se teria tido a notoriedade que acabou por ter se não tivesse tido a sorte de coexistir com Guardiola naqueles quatro anos em Barcelona. Antes disso, era uma jovem promessa do Barça, que não podia jogar no mesmo meio-campo onde já jogava Xavi Hernandez, e que teria de esperar pela sua oportunidade. Mas Guardiola não mostrou apenas que havia espaço para jogadores como Iniesta; mostrou que um jogador como Iniesta é fundamental para que uma equipa possa jogar de um determinado modo. Iniesta é uma possibilidade tornada real. Há 20 anos, ninguém acreditava que o espaço interior, de tão sobrepovoado que estava, era o espaço mais importante para atacar. Quando as equipas se fechavam no meio, todos achavam que era pelas alas que se devia entrar, que era para as faixas que os médios deviam levar o jogo. Não havia espaço, e parecia impossível penetrar pelo meio, por mais dotados que fossem os jogadores que aí se colocassem. E, portanto, achava-se que o futuro do futebol estava nos desequilibradores e nos velocistas, que nessa altura iam sendo transformados em extremos. Ronaldinho Gaúcho, por exemplo, tornou-se um jogador de ala porque era na ala que, na altura, se achava que a sua capacidade técnica podia fazer a diferença. Foi também por isso que se decretou o fim dos números 10. Volvidas duas décadas, tudo mudou. Não só não se extinguiram os números 10, como os grandes jogadores da actualidade, aqueles mais competentes do ponto de vista técnico e mais criativos, são quase todos jogadores de corredor central. Os extremos, tão em voga nessa altura, têm hoje em dia muito menos preponderância. E se a mudança que se registou de então para cá tiver um rosto, esse é o rosto de Iniesta. Num contexto propício, claro, foi ele que mostrou que é possível jogar por dentro, em espaços curtos, e que não é com velocidade, potência física ou números de circo que se supera a organização defensiva do adversário, mas com talento e inteligência. Agora que terminou a sua carreira, vale pois a pena lembrarmo-nos do quanto contribuiu para que o jogo se tornasse melhor. É talvez o melhor tributo que podemos fazer a Don Andrés.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

O Mundial na Era da Estratégia

Depois de muito tempo de ausência, eis a mais recente crónica do "Passe e Devolução". É sobre a 'era da estratégia' e sobre o Mundial de 2018.

"Diz-se por aí que, depois das evoluções tácticas da última década, que se caracterizaram acima de tudo pelo advento da ideia de modelo de jogo (os jogadores passaram a comportar-se constantemente em função de uma ideia de jogo concreta, modelada em treino), entrámos agora na 'era da estratégia'. A expressão visa assinalar uma mudança de paradigma: uma vez que, ao mais alto nível, já todas as equipas funcionam de acordo com um modelo trabalhado com rigor e já não há equipas desorganizadas, nas quais os jogadores se comportem como bem lhes apetece, a diferença far-se-á muitas vezes pela estratégia particular de cada jogo, sendo por isso mais competente a equipa que melhor trabalhar para contrariar o próximo adversário e, por isso, a equipa que melhor souber adaptar-se às circunstâncias específicas de cada jogo. Ter uma ideia de jogo muito bem definida, e ter os jogadores preparados para jogar de uma determinada maneira, sejam quais forem as circunstâncias, terá assim passado para segundo plano. Não deixando de ser importante, já não é aquilo que faz a diferença nesta nova era. De acordo com a doutrina da 'era da estratégia', aquilo que faz a diferença é a forma como a equipa se prepara para explorar as fraquezas específicas de cada adversário e a forma como tenta anular os pontos fortes desse adversário (...)"

O artigo completo encontra-se aqui.


quinta-feira, 5 de abril de 2018

Equilíbrio Emocional

É impressionante que comentadores, treinadores e antigos jogadores nunca expliquem os resultados de um jogo recorrendo ao descontrolo emocional que se apodera dos jogadores em alguns momentos específicos de um jogo de futebol. Há um vício interpretativo absurdo, muito recorrente a partir do momento em que as análises tácticas começaram a ficar mais sofisticadas, que consiste em achar que todos os acontecimentos de um jogo se explicam tacticamente, que o sucesso de uma equipa e o insucesso da outra se devem apenas ao braço de ferro entre as tácticas a que os dois lados dão expressão. Um golo, sobretudo numa competição a eliminar e que continua a ser encarada como decisiva para aferir a verdadeira valia das equipas, pode ser suficiente para alterar o estado emocional dos jogadores, e pôr em causa toda uma táctica. Ninguém parece dar valor a isto, como se isto não prejudicasse a qualidade dos jogadores e os planos dos treinadores. Em competições como estas, muito mais do que em jogos de competições de regularidade, é muito comum vermos uma equipa a baixar os braços a partir do momento em que sente que já é difícil dar a volta a uma eliminatória. E, no final, diz-se que a outra equipa foi muito superior, e que isso se viu até na forma como os derrotados não conseguiram reagir animicamente. Mas uma coisa influencia a outra. Um golo, mesmo quando caído do céu, perturba emocionalmente os jogadores, e fá-los descrer das suas qualidades. O jogo é jogado por humanos, e é natural que um jogador se enerve quando as coisas não correm bem, se desmotive quando as expectativas são frustradas e que perca concentração quando as possibilidades de êxito diminuem. O jogo não é só táctico, e as suas incidências não podem ser explicadas apenas falando de táctica. Não é raro que a táctica não explique nada acerca de um resultado final. E, apesar disso, não há nenhum comentador que olhe para um jogo e que seja capaz de chegar à conclusão de que, naquele desafio em particular, a equipa vencedora não fez o suficiente para ganhar mas teve sorte, ou que tacticamente esteve mal mas beneficiou da intranquilidade da equipa adversária num momento específico do jogo.

Vem isto a propósito da primeira mão dos quartos de final da Liga dos Campeões, entre Liverpool e Manchester City. A opinião é quase unânime: vitória táctica claríssima de Klopp, que soube explorar as fragilidades do City de Guardiola. Desculpem a frontalidade, mas quem acha que o resultado final foi mais obra de Klopp, e das ideias que tinha para o jogo, do que propriamente das incidências do jogo não percebeu nada do que se passou em Anfield. Nada! Em primeiro lugar, porque nenhum dos golos do Liverpool se deveu propriamente à tal estratégia de explorar as fragilidades do adversário. O primeiro golo é em contra-ataque, é verdade, mas além da irregularidade no momento do passe para Salah, só resulta em golo porque Kyle Walker deu os neurónios para caridade. Em segundo lugar, porque o verdadeiro ascendente do Liverpool só se consumou após o 2-0, quando os jogadores do City se intranquilizaram e nem sequer conseguiram condicionar o jogo de posse do adversário. E, além disso, esse ascendente materializou-se no exacto oposto do que seria a tal estratégia de explorar as fragilidades alheias. Quando o Liverpool foi melhor em campo e criou algum embaraço à defesa do City, foi em ataque organizado. O que é que isto tem a ver com a tal estratégia perfeita de Klopp? Em terceiro lugar, e mais importante do que tudo o resto, porque os golos modificaram de modo decisivo as emoções dos jogadores.

O City entrou em campo como sempre, a trocar a bola e a sair de zonas de pressão com qualidade. E, apesar da agressividade defensiva do Liverpool, e da competência nos momentos de pressão, a equipa de Guardiola conseguiu impor o seu estilo. Tudo mudou em poucos minutos, primeiro com aquele golo de Salah, com contribuição dupla de Walker (antes do erro final, já se tinha posicionado mal no início da jogada, e podia perfeitamente ter tornado o fora-de-jogo de Salah muito mais evidente), depois com o falhanço de Sané, logo a seguir, num lance de contra-ataque que podia ter reposto a igualdade no marcador, e finalmente com o segundo golo, também logo a seguir, num pontapé do meio da rua de Chamberlain tão espectacular quanto fortuito (além de um remate daqueles tanto poder entrar ali como ir parar à bancada, a bola vai direitinha aos pés de Chamberlain, que está entre três jogadores do City, depois de uma bola dividida entre Milner e Gundogan). Num momento o City dominava; no momento seguinte perdia por dois. E, mais do que isso, sem que se notasse que o adversário fizera muito por isso. Não há nada de especial na forma como se construíram os dois primeiros golos. E já nem vou falar do terceiro, que vem na sequência de quatro ou cinco ressaltos. De repente, uma equipa que tinha entrado calma em campo, que estava a jogar próximo da área adversária e a conseguir entrar no bloco do adversário, que estava a ser capaz de condicionar os movimentos desse bloco e a forçar as penetrações no mesmo, está a perder por dois sem conseguir identificar uma razão para tal. Em equipas mais maduras do ponto de vista mental, isto talvez não fizesse tantos estragos. Na verdade, um golo relançava completamente o jogo e a eliminatória, e por isso não era caso para tanto. Mas a verdade é que os jogadores se enervaram. Os minutos seguintes foram de descrença absoluta, e as perdas de concentração sucederam-se. Poucos foram os que conseguiram manter a lucidez, de tal modo que a equipa nem sequer conseguiu preservar a sua identidade. Mérito do Liverpool? Não. A explicação para o que se passa em campo não passa necessariamente por aquilo que de bom ou de mau as equipas fazem. Muitas vezes, são as próprias incidências do jogo que melhor o explicam.

A dada altura, era o Liverpool que geria a posse, e o City que andava atrás da bola. Melhorou quando Guardiola trouxe Silva para o lado de Fernandinho, e o espanhol deu clarividência àquela zona. Mas nessa altura já era tarde. Já o City tinha sofrido o terceiro e já podia ter sofrido o quarto. O Liverpool foi melhor entre o segundo golo e esse momento, e foi-o única e exclusivamente por questões emocionais. Nem sempre um resultado positivo implica que a equipa vencedora tenha sido melhor do ponto de vista táctico ao longo do jogo. Neste caso, o Liverpool adiantou-se no marcador sem ter feito grande coisa por isso, chegou ao segundo uma vez mais sem especial mérito do colectivo e aproveitou o desnorte que entretanto se vivia nas hostes do adversário para fazer o terceiro. Esta interpretação do resultado é completamente distinta da interpretação mais consensual, que diagnosticou uma superioridade evidente dos pupilos de Klopp na primeira parte. Reconheço superioridade, sim, mas não a consigo destrinçar do estado emocional dos citizens. E, aliás, só a reconheço no momento em que os citizens claudicaram do ponto de vista emocional, naqueles 15 ou 20 minutos de profunda desconcentração, em que os jogadores não sabiam o que fazer à bola, que espaços ocupar, se deviam acelerar o jogo ou pausá-lo, se deviam pressionar alto ou baixar linhas, etc.. Reconheço superioridade ao Liverpool na primeira parte, sim, mas não reconheço qualquer superioridade táctica. Não foi tacticamente que o Liverpool foi superior. Foi animicamente. E foi-o, não porque seja uma equipa mais bem preparada do ponto de vista anímico, mas porque os acontecimentos do jogo o propiciaram. As pessoas ignoram a importância dos golos na história de um resultado e depois acham que os resultados espelham necessariamente as qualidades individuais e as qualidades colectivas das equipas, as intenções dos treinadores e os planos de jogo. E eis que dão voz a todos os disparates em que acreditam.

P.S. A sensação que todos tiveram, no final do jogo em Turim, foi que o Real Madrid se superiorizou de forma clara à Juventus. Mas a história do jogo seria a mesma sem aquele erro forçadíssimo de Chiellini, aquele golo extraordinário de Ronaldo e a expulsão logo a seguir de Dybala? A Juventus acabou de cabeça baixa e braços caídos, aparentemente vergada ao poderio dos espanhóis, mas antes de tudo isso estava muito mais próxima do empate do que propriamente do descalabro.

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Sergio Busquets: o futebolista do futuro

Imaginem que são um médio-defensivo, que recebem a bola de costas no meio-campo, com a equipa adversária completamente organizada atrás e que, olhando apenas por cima do ombro, descobrem um modo de deixar o jogador mais talentoso da equipa perfeitamente enquadrado para atacar a última linha adversária. Parece impossível, mas foi o que Sergio Busquets fez em Camp Nou no fim-de-semana passado, no primeiro golo do Barça. Tudo no modo como fez a bola chegar a Messi, mas tudo mesmo, foi deslumbrante. A aparente facilidade com que o fez, então, é o sinal inequívoco do seu brilhantismo. Reparem que Busquets não está de frente para o lance, que não pode decidir a direcção do passe à última da hora. Ao olhar por cima do ombro, num primeiro momento, há uma linha de passe aberta para Messi, entre o ala esquerdo e o médio-centro do lado esquerdo do Girona. Se a bola entrasse aí, porém, o ganho não seria decisivo. Mas é essa a linha de passe mais convencional, aquela pela qual optaria a maioria dos jogadores. E já nem estou a falar de jogadores banais. Esses passariam para o lado, ou procurariam fazer a bola chegar aos flancos. Um bom jogador, um que perceba a vantagem de fazer a bola entrar verticalmente entre as linhas adversárias, escolheria essa linha mais convencional. Mas um jogador excepcional como Busquets pensa de outro modo. Entre o momento em que olha por cima do ombro e o momento em que a bola sai do seu pé, há tempo suficiente para que as circunstâncias do lance se alterem. E Busquets sabe isso. Sabe também que os adversários não ignoram essa linha de passe, e que se preparam para reagir à previsível entrada da bola nessa zona. E sabe ainda que Messi também sabe todas essas coisas, e que se encarregará de lhe dar oferecer uma linha de passe alternativa. Ao olhar por cima do ombro, Busquets vê tudo isso: vê uma linha de passe relativamente óbvia, vê aquilo que os seus adversários se preparam para fazer e vê o espaço que existe para Messi explorar alternativamente. E não faz o passe logo porque precisa de dar tempo aos adversários para tomarem consciência da linha de passe mais óbvia e porque precisa de dar tempo ao próprio Messi para perceber qual o melhor espaço a atacar.




É incrível, mas é Sergio Busquets quem, de costas para o lance, vê em primeiro lugar aquilo que havia para ver e é quem, de certo modo, indica o caminho ao argentino. O próprio Messi não parece ter sido tão perspicaz quanto ele a descobrir aquele espaço privilegiado. Busquets recebe a bola, olha por cima do ombro, vê onde estava o espaço verdadeiramente relevante e retarda o passe apenas o tempo suficiente para criar a ilusão de que vai fazer aquilo que parecia evidente que tem de ser feito e para dar tempo ao colega para perceber onde é que a bola tem afinal de entrar. E depois ainda executa o passe na perfeição. Numa fracção de segundos, sem estar de frente para o lance, Busquets faz uma série de coisas inacreditáveis: analisa o posicionamento colectivo de toda a equipa adversária, calcula qual o espaço a aproveitar e em que momento exacto fazê-lo, deixa os adversários lambuzarem-se com o engodo de uma linha de passe que sabe desde o início que não vai utilizar, indica ao colega quais as suas reais intenções e, num gesto técnico nada fácil, ainda faz a bola entrar num espaço diminuto, com precisão absoluta, de modo a deixar o companheiro nas melhores condições possíveis para atacar a linha defensiva adversária. O resto do lance pouco importa. Para a estatística, fica o golo de Suarez e a assistência de Messi. Mas o génio, nesta jogada, é todo de Busquets. É ele quem, do nada, atrás da linha de meio-campo, com uma acção tão subtil quanto aparentemente simples, inventa aquela ocasião de golo. E poucos são os que, levados pela histeria das bolas perto das balizas, conseguem perceber que, por vezes, uma ocasião de golo se gera por inteiro num passe de dez metros a meio-campo. No dia em que se conseguir perceber tal coisa, perceber-se-á, por fim, que o futebol é daqueles que, como Busquets, só usam os pés para cumprir aquilo que a cabeça idealiza.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Jogada do Século

"Quase todos os que não eram alemães acharam que nós deveríamos ter ganho. Não estivemos no nosso melhor na final, mas demos o exemplo a biliões de pessoas. Demos igualmente esperança a todos os jogadores que, como eu, não eram grandes nem fortes. Toda a filosofia de como o futebol devia ser jogado se modificou durante esse torneio. Tal filosofia era, na verdade, muito simples, e continua a sê-lo hoje. Há uma bola, e ou a tens tu ou a têm eles. Se a tiveres tu, eles não podem marcar golo. Se usares a bola bem, a probabilidade de êxito é maior do que a probabilidade de fracasso. Isto mudou o foco para a qualidade e para a técnica, enquanto antes girava tudo em torno do esforço e do trabalho."

Johan Cruyff, My Turn


Se tivesse de escolher uma jogada que, de certo modo, definisse aquilo que foi a evolução do futebol no século XX, escolhia a primeira jogada da final do campeonato do mundo de 1974. O lance é, para os padrões actuais, uma aberração: a velocidade a que se troca a bola, a ausência de zonas de pressão, as marcações individuais dos alemães, a total anarquia da organização ofensiva holandesa, etc.. E, no entanto, o mesmo lance justifica toda a evolução que o futebol sofreu nos últimos 50 anos. É sobretudo por isso que me parece justo descrevê-la como a jogada do século. Nela estão contidas as sementes da revolução laranja, e de tudo aquilo que essa revolução proporcionaria depois, e é nela - precisamente nela - que identifico a fronteira entre o velho e o novo paradigma. Não é de todo irrazoável falar de um futebol antes de Cruyff e de um futebol depois de Cruyff, e muitos já o fizeram, mas normalmente situa-se a fronteira entre essas duas épocas um pouco mais tarde. Aquilo que Cruyff veio a ser como treinador, e o pensamento que depois criaria escola, não é indissociável, contudo, daquilo que foi como jogador. A revolução que as suas ideias protagonizaram tiveram expressão maior no seu 'Dream Team' e, posteriormente, no futebol praticado pelas equipas de Guardiola, mas tudo começou na Holanda, no final da década de 60 e início da década de 70. É nessa altura, com o sucesso do Ajax entre 1969 e 1973 (finalista vencido em 69, o Ajax venceria a Taça dos Campeões Europeus em 71, 72 e 73) e com o futebol apresentado pela selecção holandesa no Mundial de 74, que tudo começa. E a forma como a Holanda chega à vantagem na final dessa competição é o dealbar desse mundo novo. É nesse lance que a parceria entre Rinus Michels e Johan Cruyff encontra o seu expoente máximo. Mesmo que a selecção germânica tenha conseguido recuperar da desvantagem, e a Holanda não se tenha sagrado campeã do mundo, o futebol vergou-se nesse momento e nunca mais foi o mesmo. 



O momento crítico do lance, aquele momento que vai contra tudo aquilo que sabemos ou julgamos saber acerca do jogo, é o momento em que Johan Cruyff, fazendo uso da liberdade e da autoridade que tinha dentro de campo, se aproxima dos defesas holandeses e, recebendo a bola de um deles, decide ser ele a pautar o jogo a partir de trás. Durante alguns segundos, Cruyff foi o jogador mais recuado da sua equipa. Enquanto os colegas trocavam a bola no meio-campo alemão, manteve-se atrás deles, analisando o que se passava à sua frente. Isto é tão surpreendente quanto ilógico, do ponto de vista actual. Mas a verdade é que cabe nesses breves instantes uma revolução inteira. Sem que o próprio Cruyff o soubesse, estava a fundar uma nova maneira de jogar futebol. Ao posicionar-se assim, Cruyff comportou-se como o treinador que seria uns anos mais tarde e, mais ainda, como aquele tipo de jogador que, de certo modo, viria a inventar: o médio-defensivo de qualidade técnica, capacidade de passe e visão de jogo invejáveis que teve em Guardiola o primeiro e mais genuíno representante. Atrás de todos os outros colegas, Cruyff pôde ver o que não veria se estivesse mais subido no terreno. A intuição de que poderia romper por entre as linhas adversárias com a bola colada ao pé dificilmente lhe assomaria ao espírito noutras circunstâncias.

Quando a bola voltou a Cruyff, já o capitão holandês tinha visto como se comportava o bloco defensivo germânico, que tipo de marcações estavam a ser exercidas (sobre si e sobre os seus colegas), e quais as fragilidades que podia explorar. A circulação aparentemente inócua da bola não só lhe deu tempo para observar o que se passava à sua frente como fez o adversário expor os seus comportamentos defensivos. Os 16 passes que antecederam a arrancada fulminante do génio holandês, que só viria a ser travado em falta dentro da área alemã, foram absolutamente decisivos para que se formasse a intuição de que, ultrapassando o seu marcador directo em zona frontal, se criavam as condições ideais para entrar na área adversária com a bola controlada. Não acredito que Cruyff tenha feito de propósito. Isto é, não acredito que lhe tenha passado pela cabeça que precisava de ter uma visão global do campo de batalha antes de tomar a iniciativa de atacar as hostes inimigas. A atitude de Cruyff, no princípio do jogo, é puramente experimental. A ideia ocorreu-lhe e pareceu-lhe boa. E foi isso que o levou a experimentá-la. Do mesmo modo, não acredito que dessa experiência se tenha seguido uma conclusão irrefutável. O que ela originou foi uma intuição. No momento em que recebe a bola e encara Berti Vogts, Cruyff não só já tinha interiorizado uma série de padrões comportamentais do adversário como teria a percepção, mais ou menos vaga, de que havia muito espaço no centro do terreno (esse espaço existias porque os holandeses tinham arrastado as marcações dos alemães para os corredores laterais, e o centro estava momentaneamente despovoado).

À luz do futebol que hoje conhecemos, toda a jogada é estranha: Cruyff a vir buscar a bola aos defesas; Cruyff a posicionar-se atrás de todos os seus colegas; Cruyff a ir no um para um quando era o último defesa; etc. Há algo de profundamente bizarro em tudo isto. E, no entanto, a facilidade com que Cruyff transforma uma jogada de bola a meio-campo numa grande penalidade a favor da sua equipa, antes de qualquer adversário ter sequer tocado na bola, é incontornável! Se parássemos o filme no momento em que Cruyff recebe a bola pela segunda vez e, garantindo que a jogada se desenrolaria junto ao solo, perguntássemos a alguém em qual das duas áreas era mais provável que, sete segundos depois, houvesse uma falta para grande penalidade, quantos se atreveriam a dizer que isso se daria na área germânica? Dado o futebol que conhecemos hoje em dia, quase todos pensariam numa perda de bola dos holandeses e num contra-ataque alemão. O futebol moderno parece, portanto, o exacto oposto desta jogada. Mas aí é que está. O que esta jogada mostra é que, contra todas as probabilidades, há benefícios em jogar assim. Cruyff é, em grande medida, responsável por nos fazer perceber que é possível triunfar contrariando tudo o que nos ensinaram. A dívida que temos para com ele é essa. Mostrou-nos que, em futebol, há uma vantagem teórica decisiva em assumir a iniciativa, e mostrou-nos também que a vontade de fazer coisas diferentes, de não repetir apenas o que os outros fazem, de inovar constantemente, de satisfazer a curiosidade, experimentando, pode beneficiar-nos de um modo inesperado. O talento de Cruyff é, em grande medida, o reflexo da sua prodigiosa intuição. Mas essa intuição não era um dom inato; era o resultado do seu inconformismo, daquela mania de se colocar insistentemente perante obstáculos diferentes, de não resolver os problemas sempre da mesma maneira, de buscar amiúde novos desafios e novos estímulos. A intuição de Cruyff, aquilo que lhe permitia responder com criatividade aos obstáculos que se lhe deparavam, desenvolveu-se em função do desconforto a que ele próprio decidiu sempre sujeitar-se. Colocando-se sistematicamente perante circunstâncias atípicas e forçando-se a descobrir um modo de lidar com cada uma delas, ia adquirindo ferramentas que lhe permitissem lidar cada vez melhor com a atipicidade inerente ao jogo de futebol. A meu ver, esta jogada mostra tudo isto de forma flagrante. É em grande parte por isso que estão contidos nela os fundamentos do futebol moderno.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Marcação Individual

A marcação individual foi um dos temas dominantes há umas semanas, sobretudo nos dias que antecederam a recepção do Sporting ao Barcelona e porque Lionel Messi estava numa forma impressionante. Para muitos, a genialidade do argentino é tanta que a maneira mais eficaz de tirá-lo do jogo é destacar alguém para o vigiar os 90 minutos, vá ele para onde for. Um dos problemas desta opção é, desde logo, o de não garantir que o alvo da marcação não vá conseguir livrar-se dessa marcação vezes suficientes para fazer a diferença. Outro, ainda mais relevante, é o de tornar cada lance em que o conseguir num lance de potencial perigo. Quando o alvo da marcação se consegue livrar do marcado directo, não fica propriamente com o espaço que teria, se não tivesse qualquer marcação, pois a equipa que defende terá sempre se de reajustar em função disso, e com um jogador a menos, que é aquele que está destacado para a marcação a esse jogador.

O problema principal da marcação individual não é, todavia, nenhum destes. Imaginando que essa marcação pudesse ser eficaz ao longo dos 90 minutos, e que o adversário que se achou importante marcar em cima não fosse capaz de escapar a essa marcação e de ter bola para fazer a diferença, a simples preocupação em seguir um adversário por todo o terreno é uma vantagem tremenda para a equipa adversária. Isto porque a equipa do jogador sobre o qual recai a marcação passa a poder levar um elemento adversário para onde lhe aprouver e, portanto, a poder induzir uma determinada desorganização defensiva nesse adversário. Imagine-se que os dois laterais de uma equipa estão destacados para marcar individualmente os dois extremos adversários (quem tiver pouca imaginação e achar que isso já não se usa assim, pode sempre ver alguns jogos do Manchester United de José Mourinho o ano passado). Se o treinador adversário quiser, pode simplesmente pedir aos seus extremos que passem a frequentar espaços centrais, levando consigo os marcadores directos, e aos restantes jogadores da equipa que façam a bola entrar no espaço que passa a ficar livre em cada flanco.


Há um lance do jogo de Alvalade que opôs o Sporting ao Barcelona que ajudar a ilustrar tudo isto. Trata-se da primeira grande ocasião de perigo criada pelos catalães, e é essencialmente causada pela ausência de gente entre os dois médios (Bruno Fernandes e William) e os dois defesas centrais do Sporting. No início da jogada, que se desenrola pela esquerda, Battaglia está mais perto de Acuña do que propriamente da zona que deveria povoar se estivesse preocupado com a cobertura aos seus médios. A missão de perseguir Messi, mesmo que apenas quando este entrava na sua zona de jurisdição (Battaglia não ia atrás do argentino quando este baixava em demasia nem quando este procurava as zonas do ponta de lança, limitando a mover a marcação individual apenas quando Messi aparecia entre linhas), fez de Battaglia um jogador a menos, do ponto de vista colectivo. Não havendo sintonia entre as referências dos colegas (a bola, o espaço e a posição relativa dos colegas) e a referência de Battaglia (o posicionamento de Messi), era natural que este tipo de coisas acontecesse. É impossível articular o comportamento de um colectivo se o comportamento de um dos elementos desse colectivo for ditado pelo adversário. No que diz respeito a este lance, ter ido atrás do argentino para uma zona tão afastada fez com que se abrisse um buraco entre a linha média e a linha defensiva, e Sergi Roberto aproveitou para invadir essa zona, recebendo sozinho e em condições de se enquadrar para a baliza, apenas com a linha defensiva pela frente. Bastou um movimento sem bola e um passe para o espaço criado por esse movimento para se originarem as condições de perigo ideais.

É verdade que do facto de ser assim tão fácil criar as condições de ataque ideais não se segue que todos os jogadores a quem é movida uma marcação individual se movimentem propositadamente para que isto se suceda. É aliás raro que um jogador o faça deliberadamente, ou que um treinador, perante uma situação destas, perceba a vantagem de que dispõe e saiba explicar ao seu atleta para onde e de que modo deve conduzir o seu marcador directo. Mas, mesmo que o adversário não compreenda essa vantagem e não saiba tirar proveito dela, a marcação individual continua a ser uma opção perigosa. Mesmo que involuntariamente, como aliás parece ter sido aqui o caso, é natural que o avançado a quem é movida a marcação acabe por arrastar o seu marcador directo para zonas potencialmente desvantajosas para quem defende e que a equipa que ataca acabe por usufruir do espaço que se cria na sequência disso. Messi é excepcional e merece considerações excepcionais, concordo. Mas hipotecar a organização defensiva na esperança de que Messi tenha menos influência no jogo parece-me estúpido. Entre apostar na organização para tentar vencer uma equipa na qual joga Messi e apostar na desorganização para se jogar contra a mesma equipa, mas sem Messi, parece-me óbvio aquilo que se deve escolher. Mesmo que, colectivamente, este Barça de Valverde seja banalíssimo, há uma quantidade de jogadores acima da média que podem facilmente usufruir da desorganização propiciada pela segunda aposta. Messi é excepcional, claro, mas achar que Messi é mais perigoso sozinho contra uma equipa bem organizada do que os restantes dez companheiros contra uma equipa mal organizada não me parece fazer muito sentido.


domingo, 23 de julho de 2017

Abdelhak Nouri

Há poucos jogadores que me impressionem apenas através de uma antologia de lances, até porque sei que os lances de que essas antologias geralmente se compõem são descontextualizados (carácter oficial ou particular dos jogos, qualidade dos adversários, resultado da partida, etc.) e não permitem uma avaliação rigorosa da qualidade dos mesmos. Há casos excepcionais, contudo. Por vezes, uma antologia de lances mostra um conjunto de acções de tal modo invulgares que leva, de facto, a causar uma impressão muito favorável. Não conhecia Abdelhak Nouri antes do triste incidente de há umas semanas (depois de ter perdido os sentidos em campo, e de ter sido conduzido ao hospital, terá tido uma paragem cardíaca e ficou com danos cerebrais permanentes), e fui tentar perceber o talento que acabava de se perder. O que descobri impressionou-me muitíssimo, sobretudo pela aparente facilidade com que idealizava certas jogadas ou com que executava certas acções nada fáceis de executar. Dizer que Abdelhak Nouri era tecnicamente soberbo não faz justiça à invulgaridade do seu talento. A sua principal virtude, a meu ver, era a imaginação. A visão de jogo; a forma como contemporizava, aguardando o momento certo para soltar a bola; a velocidade a que raciocinava; a facilidade e sobretudo a precisão do passe, com a parte de dentro ou a parte de fora do pé; a preocupação em deixar o receptor em condições ideais, medindo a força e o efeito do passe do melhor modo; o à-vontade com a bola nos pés; a competência no drible, usando-o como recurso e na conta certa; a criatividade com que descobria soluções em espaços curtos; a iniciativa de procurar constantemente os colegas de modo a não se limitar às suas próprias qualidades; o conforto que sentia em complexificar as acções colectivas de modo a criar soluções inovadoras; tudo isto, em suma, advinha de uma imaginação prodigiosa. Nunca se sabe o que poderia ter dado, como é óbvio, mas o potencial parecia ser imenso. Muitas das coisas que se podem ver na antologia que se segue, aliás, são raríssimas, e podemos apenas lamentar que não se venham a repetir.



O tributo acima fala por si, mas vale a pena destacar 1) a velocidade do raciocínio que subjaz ao passe de calcanhar ao minuto 1.16; 2) a dificuldade e a precisão do passe ao minuto 1.36; 3) a qualidade com que faz a bola entrar no sítio certo, no momento certo e com a força certa ao minuto 1.50; 4) a inteligência e a criatividade inerentes ao passe ao minuto 4.18; 5) a visão de jogo, a subtileza e a imaginação que lhe permitem o passe ao minuto 6.23; 6) a forma como se associa aos colegas para se desenvencilhar dos obstáculos ao minuto 7.07; 7) a aparente simplicidade com que, de primeira, numa acção de difícil execução com a parte de fora do pé, devolve a bola a quem lha passara ao minuto 8.35; 8) a preocupação com o efeito a dar à bola, para que ela se aproxime do colega e fuja ao adversário, ao minuto 9.57; e 9) a genialidade com que, não se preocupando em conduzir para fixar, conduz a bola para fora de modo a dar tempo ao colega de entrar, no passe ao minuto 12.13. Resta-nos apreciar.

sábado, 17 de junho de 2017

Os Melhores de 2016/2017

Eis os melhores da Liga Portuguesa, em 433:


Guarda-Redes: Iker Casillas
Defesa Direito: Nélson Semedo
Defesa Esquerdo: Grimaldo
Defesas Centrais: Coates e Lindelof
Médio Defensivo: William Carvalho
Médios Interiores: Pizzi e Oliver Torres
Extremos: Gelson Martins e Krovinovic
Avançado: Bas Dost

Treinador: Luís Castro

Suplentes, em 343 losango:

Guarda-Redes: Ederson
Defesas Centrais: Luisão, Marcano e Josué
Médio Defensivo: Fejsa
Médios Interiores: Vasco Rocha e Matheus Oliveira
Médio Ofensivo: Francisco Geraldes
Extremos: Iuri Medeiros e Otávio
Avançado: Jonas

Treinador: Nuno Manta

sexta-feira, 9 de junho de 2017

O Real de Zidane

Eis, finalmente, a segunda crónica do "Passe e Devolução". É sobre o Real Madrid de Zidane e começa assim:

"Finalmente, uma equipa ganhou duas vezes seguidas a Liga dos Campeões. Dada a dificuldade que todos tiveram para o conseguir, a proeza não pode ser menosprezada. Mas será que do facto de Zidane e seus pupilos se terem sagrado bicampeões europeus se segue que Zidane seja um treinador extraordinário e que o seu Real Madrid pratique um futebol de qualidade indiscutível? A relação entre os êxitos de uma equipa e a qualidade do seu futebol não é de modo algum directa e causal. Mesmo em provas de regularidade, nas quais as qualidades colectivas das equipas são muito mais relevantes do que em provas a eliminar, é imprudente achar que as equipas vencedoras são especialmente competentes (...)"

O artigo completo encontra-se aqui.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mesmo que se faz aqui, mas em mau...

Sabem por que é que aquilo que o António Tadeia faz é o mesmo que se faz aqui, mas em mau? Em poucas palavras: porque não consegue distinguir entre o que é intencional do que não é. Para perceber o que se passa num campo de futebol é preciso, antes de mais, saber identificar as intenções dos jogadores. A actividade de um comentador desportivo não é, desse ponto de vista, muito diferente de outras actividades. Aquilo que distingue o bom crítico literário, o bom analista político e o bom polícia de investigação é a capacidade, no fundo, de compreender as intenções dos escritores, dos políticos e dos criminosos. Confundir uma recepção orientada com uma má recepção não é, por isso, aceitável. Sê-lo-ia, talvez, em quem vê o jogo descontraído no café, ou em quem o vê sem a responsabilidade profissional de interpretar tão bem quanto possível aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Há incidências cuja interpretação, de facto, não é fácil, mesmo para quem faz isto há muito tempo, está diante de um ecrã e tem ao seu dispor um número infindável de repetições de todos os ângulos. Nem sempre é possível ter a certeza acerca das intenções dos jogadores, e isso pode desculpar certas interpretações. Mas há incidências que, de tão óbvias para quem já jogou ou tem o mínimo de experiência a ver jogos de futebol, um comentador profissional não pode não saber interpretar. Não saber distinguir entre um toque involuntário e um toque propositado na bola é como não saber distinguir entre um cadáver putrefacto e a bela adormecida. Não, António, o primeiro toque de Lucas Vázquez não foi mau; foi óptimo. Má foi a análise do António, que não percebeu que o atleta do Real Madrid, calculando que podia tirar o defesa do Atlético da frente alargando o drible até à linha de fundo, orientou de pronto a recepção para esse efeito.




Hoje em dia, quase toda a gente fala em decisões. Mas a maioria das pessoas não percebe bem o que é uma decisão, em futebol. Para as pessoas como o António Tadeia, os jogadores só tomam decisões quando decidem chutar em vez de passar, ou quando escolhem uma opção de passe em detrimento de outra. Nas suas cabeças, só faz sentido falar em decisões quando é evidente que há tempo para decidir antes de executar. Na verdade, tudo o que um jogador faz em campo é decidir. Uma simples recepção, por exemplo, acarreta uma decisão. E, mais importante do que isso, tais decisões são geralmente tomadas em fracções de segundo. Assim é porque as circunstâncias de uma jogada mudam em fracções de segundo. Este lance é um bom exemplo disso. No momento em que a bola sai do pé de Ronaldo, a jogada está ainda longe de estar definida, e é absurdo assumir que o jogador que a vai receber já tenha tomado uma decisão acerca do destino a dar à bola (cruzar de primeira ou dominar a bola, por exemplo). Mais do que isso, precisa de perceber como se vão comportar os colegas e os adversários nos instantes seguintes, e só então, avaliando as circunstâncias tais como se apresentarem nessa altura, poderá tomar uma decisão. A verdade é que Godin, o central do Atlético que sai ao caminho de Lucas Vázquez, não protege devidamente a baliza e ainda se aproxima em demasia do portador da bola, tentando dificultar-lhe a recepção. No último instante, o jogador do Real Madrid percebe que, orientando a recepção, tem espaço suficiente para driblar o uruguaio, e é isso que faz. A decisão foi tomada no último instante antes de chegar à bola, e em função das circunstâncias que só nessa altura tornaram claro que o drible era exequível. Não, António, não era preciso acreditar no Pai Natal para acreditar que havia espaço suficiente para tirar o adversário do caminho e cruzar para um dos colegas que se movimentavam na área. Os jogadores de futebol não fazem as coisas ao calhas; são agentes racionais. Lêem circunstâncias específicas, estimam o sucesso de determinadas decisões e agem em conformidade. Ainda que as suas acções não sejam precedidas de uma ponderação demorada, são determinadas por processos racionais. Recebem estímulos, interpretam-nos e decidem o melhor que conseguem. Avaliando os sinais corporais do adversário, a distância até à linha de fundo e a movimentação dos colegas na área, foi possível a Lucas Vázquez perceber (no último instante) que podia ultrapassar Godin, que teria espaço para chegar à bola antes de esta sair e que, entretanto, teria opções de passe diferentes das que havia nesse instante. Não fez nada ao calhas, e o toque que deu na bola foi tudo menos involuntário e mau. António Tadeia não percebeu isto e fez figura de urso. Anda a fazê-la há anos, aliás, desde que lhe disseram que falar de futebol na televisão não era muito diferente de brincar com ursinhos de peluche. E agora não larga o ursinho.

P.S. A figura de urso, na verdade, foi feita ao longo de toda a partida de ontem, sempre que António Tadeia se lembrava de que Isco, cujo virtuosismo técnico não deixou de gabar com toda a condescendência do mundo, não é capaz de acções colectivas relevantes.

sábado, 11 de março de 2017

Passe e Devolução

A partir de hoje, também há textos meus para ler no Record Online. A crónica chama-se "Passe e Devolução", e não tem uma periodicidade fixa. Vou deixando aqui as ligações para os textos, à medida que forem sendo publicados. A primeira pode ser lida aqui.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Campeão Inglês

Ainda há alguém que acha que Claudio Ranieri é um génio, e que a conquista histórica do Leicester, o ano passado, implica necessariamente um óptimo trabalho do seu treinador? A equipa que este ano está a lutar para não descer é basicamente a mesma equipa que o ano passado surpreendeu tudo e todos. Como é que aqueles que insistiram em explicar o sucesso do Leicester através da competência do seu treinador explicam agora o que se está a passar este ano? Ranieri era genial o ano passado e banal este ano? Foi uma febre que lhe deu? O verdadeiro retrato do Leicester, do mesmo Leicester que o ano passado ganhou o campeonato inglês, é o que está abaixo. É o momento do passe de Mkhitaryan que isola Mata para o terceiro golo do Manchester United, hoje à tarde.



O Leicester de Ranieri é isto: jogadores ao monte, desorganização geral, referências ao homem, etc.. Muita fé e pouca ciência, em suma! Foi isto que foi campeão inglês o ano passado. Se querem elogiar o Leicester, muito bem. Mas o que estão a elogiar é isto. E isto é a Pré-História do jogo. Foi campeão porque o ano passado as únicas equipas que jogavam um jogo minimamente parecido com aquilo que o futebol é actualmente fizeram uma má época, porque os jogadores do Leicester se convenceram a dada altura de que eram melhores do que na verdade são e porque, em Inglaterra, o jogo continua a ser pré-histórico.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Lateral Esquerdo

A convite do Pedro Bouças, colaboro desde a semana passada com o Lateral Esquerdo. Embora prefira escrever do meio-campo para a frente (ou não se chamasse este blogue como se chama), é um privilégio enorme para mim. Quando se arrependerem, já será tarde...

A primeira colaboração foi publicada no fim-de-semana. Envergonhei o bom nome do Lateral Esquerdo com um texto sobre o quão arriscada pode ser a brincadeira de aliviar a bola à toa para o meio-campo adversário.

P.S. Esta colaboração não afectará o funcionamento regular do Entre Dez. E muito menos o seu funcionamento irregular, que é o funcionamento que tem tido nos últimos tempos. A única coisa que posso prometer é que vou continuar a aparecer por aqui. Não deixem de vir cá espreitar. E não deixem de espreitar o Lateral Esquerdo.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

As Incidências do Jogo e as Análises do Resultado

Um jogo de futebol tem 90 minutos, e a análise desses 90 minutos não pode, de maneira alguma, negligenciar as incidências que modificam a face do jogo. Entre essas incidências, a alteração do marcador (e as implicações emocionais e estratégicas dessa alteração) desempenha um papel muito importante. Uma equipa pode começar bem o jogo e, após sofrer um golo, perder a concentração ou modificar deliberadamente a sua forma de jogar. E, no entanto, não é raro os analistas desprezarem a marcha do resultado, quando instados a pronunciar-se sobre o que aconteceu numa partida de futebol. Para tais analistas, uma goleada denota sempre uma superioridade inequívoca de uma equipa sobre a outra, e qualquer vitória, mesmo que obtida nos minutos finais, num lance de bola parada, depois de 90 minutos de pouca qualidade, tem forçosamente de ser justificada mediante um mérito qualquer. Como a única coisa que lhes interessa é justificar racionalmente o resultado final, e geralmente privilegiam explicações simples, tendem a desvalorizar ocorrências que comprometam essa racionalidade ou que a tornem demasiado complexa. Coisas como um golo contra a corrente do jogo, uma expulsão ou uma sequência de falhanços inacreditáveis à frente da baliza têm impacto no modo como as equipas passam a encarar o jogo, do ponto de vista emocional ou estratégico, a partir do momento em que acontecem, e essa mudança tem de ser comtemplada aquando da análise global ao jogo. Há jogos em que, de facto, o resultado expressa bem o que aconteceu em campo. Mas o futebol é um jogo de detalhes, e muitas vezes são os detalhes que definem o resultado, pelo que também há jogos em que o resultado expressa muito mal o que aconteceu em campo. A maior parte dos analistas não considera esta segunda possibilidade, e entende que um resultado favorável traduz sempre uma superioridade qualquer.

Vem isto a propósito de dois jogos da Liga dos Campeões da semana passada. É quase unânime que o Sporting foi muito inferior ao Borussia de Dortmund, sobretudo na primeira parte, e é quase unânime que essa inferioridade se explica pela incapacidade (individual e colectiva) de pressionar Weigl, o médio-defensivo que dava sistematicamente início à construção dos alemães. Não concordo com nada disto, e estou convencido de que tais análises decorrem justamente da impressão que os golos, e o resultado, causam às pessoas. Quando Aubameyang marcou o primeiro golo do Borussia, num lance em que Rúben Semedo não fica isento de responsabilidades (achou que podia tentar ganhar em velocidade, quando podia facilmente ter encostado assim que o gabonês arrancou), o Sporting mandava por inteiro no jogo: já tinha tido duas oportunidades de golo e, sobretudo, não permitia ao Dortmund senão lançamentos longos, a explorar as alas, que invariavelmente acabavam em bolas perdidas. Se, antes do golo, o jogo era diferente daquilo em que se tornaria depois, é absurdo diagnosticar um mal geral ao modo como o Sporting encarou a primeira parte do desafio. Se Bryan Ruiz tivesse conseguido dominar aquela bola que William lhe endossou e, ficando na cara do guarda-redes, fizesse golo, ou se o árbitro da partida tivesse assinalado a grande penalidade sobre Bas Dost no lance que precede o primeiro golo dos alemães, o jogo seria completamente distinto. Mais ainda, o golo não afectou a equipa de Jesus de imediato. Nos minutos seguintes, o Dortmund continuou com muitas dificuldades em ligar o seu jogo, e a liberdade de que Weigl acabou por gozar começou a fazer-se notar apenas aos poucos, e com a descrença que se foi apoderando da equipa leonina. No final da primeira parte, fica-se com a impressão de que Weigl jogou os primeiros 45 minutos sem oposição, que o Dortmund conseguiu sempre superar as linhas de pressão do Sporting e aproveitar o espaço entre a linha de meio-campo e a linha defensiva adversária, e que os leões foram totalmente subjugados. Nada mais falso. Do meu ponto de vista, aliás, o Dortmund fez uma primeira parte relativamente fraca. O jogo interior dos alemães, por exemplo, praticamente não existiu. À excepção de dois lances em que Weigl conseguiu ligar o jogo por Goetze (ao minuto 13, na sequência de uma acção defeituosa de Elias, que se fixa em demasia na referência do homem e deixa um espaço enorme no meio, e ao minuto 29, em que Goetze aparece a receber entre Elias e Gelson, já perto da linha lateral), a opção dos alemães foi sempre o jogo exterior, e esse raramente constituiu um grande problema. É verdade que  o Dortmund conseguiu chegar muitas vezes ao último terço do terreno, e que o Sporting não travou o principal responsável por isso, Weigl, mas raramente lá chegou com a defesa leonina desequilibrada. Os desequilíbrios alemães ocorreram quase todos na sequência de lances de contra-ataque (como o de Pulisic ou como o de Kagawa) ou em acções individuais (como aquelas protagonizadas por Aubameyang). Em organização ofensiva, quantas vezes o Dortmund conseguiu realmente incomodar o Sporting? Conseguiu fazer a bola chegar ao último terço do terreno, mas quase sempre por fora e quase sempre com as linhas defensivas bem arrumadas.

O Sporting começou muito bem o jogo, em todos os aspectos (qualidade a sair de zonas de pressão, capacidade de circular a bola e penetrar no bloco adversário, competência a pressionar, com a linha defensiva muito subida a encurtar os espaços interiores), e continuou a fazer bem algumas dessas coisas. Mas houve uma coisa que mudou com o golo de Aubameyang. Fosse por receio de perder o controlo da profundidade, fosse por desconcentração, a linha defensiva dos leões não se comportou sempre como deveria, afundando em excesso em determinadas ocasiões. Veja-se, por exemplo, o lance de contra-ataque conduzido por Kagawa aos 39 minutos: Bartra recupera a bola, e toda a linha média do Sporting sai em pressão; a linha defensiva, porém, permanece atrasada, e o japonês pôde receber entre linhas, sem ninguém num raio de 20 metros. Foi esse, a meu ver, o principal defeito do Sporting, na primeira parte. Sempre que, em organização defensiva, a linha de defesa baixava, a linha média não tinha outra hipótese que não fosse baixar também, dada a colocação de Goetze e Kagawa (que se posicionavam sistematicamente junto à linha defensiva leonina), e foi isso que permitiu a Weigl toda aquela liberdade. E isso só aconteceu porque o resultado era desfavorável e, concretamente, porque isso resultara de um lance em que Aubameyang conseguira ganhar as costas à defesa do Sporting. Perante um resultado desfavorável, o passar do tempo faz aumentar a descrença dos jogadores, e com essa descrença aumenta também o receio de falhar e a desconcentração. O Sporting continuou a jogar bem, tanto ofensiva como defensivamente, depois de sofrer o golo (esteve muito bem a sair de zonas de pressão, a trocar a bola em espaços curtos, a explorar o jogo interior, a criar situações de ataque através de combinações colectivas, a criar superioridade numérica na zona da bola, a reduzir os espaços no corredor central, etc.), mas num ou noutro momento os jogadores perderam a concentração (geralmente em aspectos em que é mais fácil perdê-la, como seja em acções de posicionamento sem bola), e isso criou a ilusão de que o Borussia de Dortmund tinha dominado o jogo a seu bel-prazer. O Sporting falhou em certos momentos, é certo, mas não me parece justo justificar o resultado de um jogo (neste caso, o resultado que se verificava ao intervalo) com base num falhanço estratégico quando, na verdade, as falhas foram pontuais e em grande medida motivadas pelas incidências do próprio jogo.

O outro jogo que motivou este texto foi a goleada imposta pelo Barcelona ao Manchester City, em Camp Nou. Depois do jogo, aquilo que se ouviu foi que o Barcelona dominara absolutamente, que a diferença de qualidade entre as duas equipas foi avassaladora e que o City de Guardiola ainda não está minimamente afinado. De novo, não só não concordo com nada disto como estou convencido de que tais análises decorrem unicamente dos números expressivos do resultado final. E, no entanto, os primeiros dois terços do jogo não justificam tal análise. Até à expulsão de Cláudio Bravo, o City não estava a ser inferior, de modo algum, ao Barça. Perdia por 1-0, é certo, mas não estava a ser inferior, em termos gerais, ao seu adversário. Em muitos momentos, aliás, estava até a ser superior. Até ao primeiro golo, aos 16 minutos, estava a condicionar por completo a manobra ofensiva dos catalães, e estava a conseguir produzir ataques bem mais interessantes. E mesmo o lance que permitiu ao Barcelona chegar à vantagem é do mais fortuito que há: Messi não só ganhou um ressalto, no início do lance, como acabou por ficar isolado frente a Bravo apenas porque Fernandinho escorregou. Até à expulsão do guarda-redes do Manchester City, no início da segunda parte, as equipas dividiam o jogo, havendo momentos em que uma conseguia superiorizar-se à outra e havendo oportunidades claras de golo em ambas as balizas, e dificilmente se poderia apostar num vencedor. Depois da expulsão, sim, o Barcelona dominou totalmente a partida. Com menos um jogador, o City teve mais dificuldades em suplantar a primeira linha de pressão dos catalães, e começou a cometer alguns erros. E depois do segundo golo, com a partida praticamente decidida, o desnorte apoderou-se dos ingleses. A bem dizer, o Barcelona até justificou a goleada, pelo que conseguiu fazer nos últimos 30 minutos. Mas é anedótico dissociar o que aconteceu nesse período do jogo do acontecimento que o desencadeou. Nenhuma análise séria pode pegar no que se passou nesses 30 minutos sem ter em conta que o Barcelona jogava com mais um jogador, que estava em vantagem no marcador, que tinha a partida resolvida e que os adversários já não estavam emocionalmente comprometidos com o jogo. O Barcelona só foi melhor do que o Manchester City, e só dominou como os analistas disseram que dominou, depois de acontecerem certas coisas no jogo. Foram as incidências do jogo, e só elas, que permitiram ao Barcelona superiorizar-se de modo evidente, e qualquer análise do resultado que procure justificá-lo sem reconhecer a devida importância a essas incidências é uma análise falhada.

domingo, 23 de outubro de 2016

O Futebol não é para Meninos

A frase que serve de título a este texto é ouvida recorrentemente e serve de argumento, na maioria dos casos, ou a um jogador que acabou de vencer um determinado duelo físico a outro jogador, o qual protesta pela dureza da entrada, ou a qualquer pessoa que queira defender que a rispidez de certos contactos é legal. Quem segue este blogue sabe que considero que o futebol, ao contrário do que muitas vezes se afirma, não é um jogo de contacto. O único contacto físico legal, contemplado nas regras do jogo, é o do ombro com ombro, e por razões que facilmente se compreendem: é um contacto justo, na medida em que é feito com a mesma parte do corpo, e que não põe em risco a integridade do adversário. Significa isto que qualquer outro contacto deva ser punido em falta? Não. Mas qualquer contacto físico que sirva àquele que o promove para obter uma determinada vantagem na disputa da bola, ou qualquer contacto físico que de algum modo ponha em risco a integridade física de um adversário, sim. Os árbitros tendem a assinalar com alguma facilidade um puxão de camisola, ou um empurrão, mas têm mais dificuldades em assinalar outros toques, feitos com as pernas ou com o tronco, que produzem o mesmo efeito. Quando o portador da bola não cai, ou não perde o equilíbrio de modo evidente, interpreta-se o contacto promovido por aquele que lhe quer tirar a bola como natural e até, muitas vezes, saudável. E, no entanto, não é raro que esses contactos façam com que o portador da bola, tendo de reequilibrar-se ou tendo de recuperar a passada, perca uma pequena vantagem que tinha: o controlo preciso da bola, uma determinada linha de passe, etc.. Há equipas que fazem deste género de contacto físico, tolerado por quase todos os árbitros, uma valência decisiva. O melhor exemplo que podia dar é o Atlético de Madrid de Simeone.

A ideia que subjaz à conivência dos árbitros é a da "saudável disputa da bola". Ao contrário de um puxão ou de um empurrão, que são formas ostensivas de impedir um adversário de progredir, um pequeno toque com a anca, um pequeno encosto, um braço à frente do dorso do adversário aquando da tentativa de ganhar a frente ao mesmo adversário, ou um desarme que, apesar da consequência de derrubar o adversário, acerte na bola, são exemplos de contactos que, por norma, são considerados legais. Ainda que me pareça sensato que a legalidade deste género de lances deva ser avaliada caso a caso (o critério, como sugeri, deve ser a desvantagem que causam ao portador da bola), creio que era importante, a bem do espectáculo, que se percebesse que este tipo de contacto não é diferente em espécie de um puxão ou de um empurrão. Ainda que não tão ostensivas, sobretudo porque camufladas por uma alegada intenção de disputar a bola, são igualmente formas de impedir um adversário de usufruir de uma qualquer vantagem ganha de forma legítima. Os árbitros não assinalam este tipo de contactos, ou assinalam-nos escassamente, porque presumem a boa intenção do defensor, que realmente parece querer apenas disputar a bola. Como já disse, este género de conivência tende a proteger equipas cujo único argumento é a agressividade com que apertam o portador da bola, que se destacam por morder sistematicamente os calcanhares aos adversários e que se limitam, portanto, a jogar em função do que não permitem jogar. Mas este género de conivência é ainda prejudicial ao espectáculo de outra maneira: põe em risco a integridade física dos jogadores, e especialmente daqueles que melhor tratam a bola.


Vem isto a propósito da lesão de Andrés Iniesta, ontem à tarde, no jogo que opôs o Valência ao Barcelona. É verdade que Enzo Pérez acertou na bola, e é verdade que a única intenção que parece ter é a de tirar a bola dos pés do seu adversário. Também é verdade que lesões destas podem acontecer quando menos se espera. Não é menos verdade, contudo, que este tipo de entradas podia e devia ser evitado. A interpretação do árbitro, ao não sancionar o lance sequer com falta, é muito clara: tratou-se de um desarme legal. De facto, o pé direito de Enzo acerta na bola, e o objectivo da acção do argentino é cumprido. Mas a que custo? E será que o árbitro interpretaria o lance da mesma foram se a perna esquerda de Enzo, ao invés de ter ficado para trás, tivesse cumprido um movimento deslizante junto ao solo, cumprindo aquilo a que vulgarmente se chama uma "tesoura"? Decerto que não. E é isso que é absurdo. Um árbitro tende a punir, e a admoestar disciplinarmente, certas acções que lhe ensinaram a reconhecer como potencialmente perigosas, como é o caso da "tesoura", que pode prender a perna do adversário e provocar uma torção. Que a perna do portador da bola fique presa entre as duas pernas do adversário está longe de ser, todavia, a única forma de provocar uma torção perigosa. No caso concreto, é o impacto da perna direita de Enzo no joelho direito de Iniesta, no momento em que o pé do espanhol se encontrava fixo no chão e a perna totalmente esticada, que provoca a torção. Nesse sentido, a integridade física de Iniesta é posta em causa pela perna de Enzo que, efectivamente, cumpre o desarme. O que interessa, então, que esse desarme se cumpra? O que interessa que o pé direito de Enzo consiga, de facto, tocar na bola, se a sua coxa provoca, em simultâneo ou posteriormente, um impacto no adversário que, em última análise, pode pôr em risco a sua integridade física? 

Estamos a falar de uma lesão grave, mas não era preciso que a entrada de Enzo Pérez tivesse estas consequências para que se considerasse uma entrada perigosa. Perante tais consequências, não faltarão pessoas a concordar que se tratou, de facto, de uma entrada perigosa (ainda que não faltem também aqueles que, vítimas do preconceito com que as educaram, consideram o desarme totalmente legal e a lesão um acidente). Mas quantos diriam o mesmo antes de conhecerem tais consequências? Mais: quantos diriam, ao ver o lance sem repetições, que se tratava sequer de uma entrada para falta? Tenho a certeza de que muito poucos. Para a maioria das pessoas, a legitimidade de um desarme depende do critério da precedência: se o defensor derrubar o atacante, mas tocar primeiro na bola, não há lugar a falta. Este género de raciocínio é absurdo! O lance da lesão de Iniesta é merecedor de falta, não obstante o árbitro não a ter marcado, mas é também merecedora de cartão vermelho. Ainda que Enzo queira apenas acertar na bola, não se preocupa com a possibilidade de aleijar o adversário directo. É uma entrada mais perigosa do que qualquer "tesoura" ou que qualquer rasteira por trás, e é uma entrada cujas consequências, à partida, são muito piores do que qualquer agressão. No mesmo jogo em que Messi viu um cartão amarelo por manifestar verbalmente o seu desacordo por uma decisão do fiscal de linha, um dos melhores jogadores do mundo, um daqueles que sozinho, leva muita gente a ficar em frente a um televisor durante 90 minutos, ficou com boa parte da época em risco. É revoltante, e devia fazer as pessoas reflectir acerca de muita coisa. A principal, a meu ver, é que, as regras do jogo (e a interpretação convencional que é feita dessas regras) continuam a deixar desprotegidos os melhores jogadores e, continuando a encorajar a agressividade defensiva, continuam a não servir o espectáculo. Enquanto se permitir que os mais habilidosos e os mais inteligentes possam ser desarmados deste modo, colocando a sua integridade física em risco, e enquanto a habilidade e a inteligência que os caracteriza puder ser combatida deste modo, com recurso a acções que, mesmo quando não põem em causa essa integridade física, permitem aos menos habilidosos e aos menos inteligentes nivelar a contenda com os demais, a mediocridade continuará a ser tão conceituada quanto a genialidade. A lesão de Iniesta é lamentável. Mas mais lamentável é ter acontecido num lance que a maior parte das pessoas considera normalíssimo. O que é verdadeiramente revoltante é que que este tipo de lances, em que o defensor procura acertar na bola sem se preocupar em fazê-lo sem acertar também no adversário (tenha isso as consequências que tiver), não seja revoltante para toda a gente, que o futebol, em suma, não seja, de facto, para meninos.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

O Futebol e o Bacalhau à Brás: a Falácia dos Princípios de Jogo

Argumento hoje na Soul Magazine que o futebol é muito diferente de bacalhau à Brás. A possibilidade de alguém confundir as duas coisas pode parecer insólita, mas todos aqueles que, influenciados por uma determinada escola de pensamento que ainda hoje continua a ter muitos seguidores, acreditam em princípios de jogo universais, em normas básicas que toda e qualquer equipa procura cumprir, seja qual for o modelo de jogo que as defina, a estratégia de jogo que estiver delineada ou, simplesmente, as circunstâncias de cada jogada, não podem senão acreditar também que jogar futebol é tão simples quanto seguir à letra uma receita.

Podem ler o texto aqui.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Criatividade de Pizzi, o Discernimento de William e a Vox Populi

Não há decerto muitos assuntos que mereçam tanta atenção, neste blogue, como a estupidez generalizada do adepto de futebol. Essa estupidez manifesta-se de muitos modos (em comentários em estádios de futebol, em comentários entre amigos, em comentários online), e grassa geralmente entre aqueles que não têm espírito crítico, que alinham as suas opiniões pelas da maioria e nem sequer se apercebem disso. É por isso natural que tais pessoas não percebam a qualidade de alguns dos melhores jogadores, do nosso campeonato ou de outro campeonato qualquer. Para tanto, basta que tais jogadores não façam aquilo que mais agrada às massas, ou que se distingam por qualidades que as massas, enoveladas na simplicidade da sua própria estupidez, não reconheçam como qualidades. Jogadores que não corram sempre a mil à hora, seja ou não preciso, que não disputem cada lance como se fosse um caso de vida ou morte, que não se livrem da bola assim que a recebem, que não joguem em função de um padrão de decisões previamente estabelecido, condizente com as expectativas mais básicas dos adeptos, mas unicamente em função das circunstâncias, que não passem só por passar nem driblem só por driblar, que não façam, em suma, sempre aquilo que as bancadas exigem, são jogadores que as massas tendem a desvalorizar. Jogadores que pensam antes de agir, que procuram soluções diferentes, muitas vezes distintas daquelas que os adeptos identificam, que se expõem mais ao erro, pelo grau de exigência que assumem na procura de tais soluções, que se caracterizam mais pela velocidade de raciocínio e pela imaginação do que pela velocidade de pernas e pela entrega física, são jogadores a quem os adeptos não reconhecem a devida utilidade. E não o reconhecem unicamente porque, ao seu lado, há sempre mais adeptos que não lhes reconhecem essa utilidade. A estupidez é uma doença contagiosa.

Dois bons exemplos dessa estupidez são as opiniões generalizadas acerca de Pizzi e de William. Ainda que haja muita gente que, hoje em dia, lhes aprecia as qualidades (mal seria, se assim não fosse!), há muitos que ou os consideram relativamente banais ou acham que podiam ser melhores, se juntassem a tais qualidades algumas imprescindíveis que lhes faltam. Acerca dos primeiros, posso apenas lembrar que, desde que feito em condições de segurança, o suicídio é gratuito. A estupidez é, na maior parte dos casos, uma doença incurável, e assim sempre poupariam os ouvidos às pessoas saudáveis. Pizzi é o principal responsável - se não mesmo o único - pela actual liderança do Benfica. Em quase todos os jogos, têm sido dele as acções mais invulgares, os lances de maior génio. Fora as bolas paradas, e a qualidade invididual que abunda no plantel encarnado, tem sido o português a inventar os espaços, a ligar os sectores e a desorganizar as defesas contrárias. Do ponto de vista colectivo, tem sido destacadamente o jogador mais determinante do campeonato. Ao contrário do resto da equipa, cujas acções colectivas são do mais vulgar que pode haver, tudo o que Pizzi faz é feito em função de um benefício colectivo qualquer. Com e sem bola, é sempre uma parte de um todo antes de ser um jogador entre tantos, e quase tudo o que decide fazer é conforme àquilo que, no momento em que o faz, deveria de facto ser feito. Quando falha um passe ou perde uma bola, não o falha ou a perde geralmente nem por distracção, nem por uma má decisão; falha-o ou perde-a, isso sim, porque não o compreendem, porque queriam a bola no pé quando ele vira perfeitamente que era no espaço que ela deveria entrar, porque o colega que lhe devia dar a opção de passe não lha deu e ele teve de optar por uma de maior risco, ou de perder tempo à procura de outra, etc.. Enquanto um jogador normal (deixem-me utilizar o exemplo do André Horta, porque é muito bom do ponto de vista técnico e bastante inteligente) aproveita a desmarcação de um colega para lhe endossar a bola, assim dando continuidade à jogada como propõem os livros, Pizzi endossa-a de modo a que o colega fique em condições de fazer algo com ela a seguir (e não a endossa se perceber que, apesar de ser possível endossá-la, não há vantagem em fazê-lo). Como um xadrezista proficiente, não decide apenas em função das circunstâncias daquele exacto momento. Pelo contrário, pensa sempre por antecipação. Enquanto os outros vêem o que está a acontecer, e executam em função disso, ele levanta a cabeça, vê o que está a acontecer e imagina rapidamente o que vai acontecer a seguir. Quando entrega a bola a um colega, já percebeu quais as opções de passe que o colega vai ter quando a bola lhe chegar, e quais as possibilidades de êxito que terá; quando dá uma linha de passe e solicita a bola, já sabe que opções de passe terá quando a bola lhe chegar, e quais as condições de êxito de cada uma dessas opções. O melhor exemplo que conheço para ilustrar esta virtude, tão difícil de observar, é o segundo golo da Alemanha contra a Inglaterra, no mundial de 2010, do qual falei na devida altura. A forma como Thomas Müller, no momento em que toca na bola, antecipa toda a jogada, é exactamente aquilo que vejo Pizzi fazer frequentemente. Chamemos a essa virtude, como lhe chamei aquando desse texto, "criatividade". É essa criatividade que está na base do primeiro golo do Benfica contra o Braga, esta semana.



A maioria das pessoas concederá a Pizzi, nesse lance, a excelência técnica do apontamento de calcanhar. Eu acho que a virtude do lance está toda no modo como o transmontano, ao ocupar aquele espaço, entre o central, o lateral e os dois médios bracarenses, antecipa o desequilíbrio que tornará possível a situação de golo. Quando Pizzi invade esse espaço, não o faz apenas porque o lateral precisava de um apoio em quem soltar a bola; fá-lo porque, imaginando Gonçalo Guedes a ganhar vantagem sobre o lateral bracarense (como se haveria de verificar), sabe que, recebendo ali o passe, o pode redireccionar de imediato para a esquerda, assim criando um desequilíbrio imediato junto à faixa. Pode não antecipar toda a jogada, não antever que o central do Braga, ao aproximar-se de si no momento em que a bola lhe é passada, fará com que Gonçalo Guedes fique com espaço para ganhar a linha de fundo, mas também não ocupa o espaço, como a maioria dos jogadores, em quem a criatividade não abunda, apenas para que a bola lhe seja endossada. Quando Gonçalo Guedes atrasa a bola para Grimaldo, Pizzi tem já várias ideias acerca do que poderá fazer à bola quando ela lhe chegar (dominar e esperar pelo apoio, devolver de primeira ao lateral, ou colocar em Guedes na linha, etc.), e quando o espanhol se enquadra, algumas fracções de segundo depois, o transmontano já percebeu que a melhor decisão, das três acima mencionadas, será de facto jogar de primeira para Gonçalo Guedes, que entretanto ganhou a frente ao lateral. Pizzi antecipou o lance na medida em que ocupou antecipadamente um espaço cuja mera ocupação, no momento em que receber a bola, será decisiva para que o desequilíbrio se concretize. Ainda que, no momento em que decide ocupá-lo, o desequilíbrio não fosse evidente (era preciso que Gonçalo Guedes ganhasse a frente ao lateral bracarense e criasse aquela superioridade numérica, o que ainda não acontecera), a decisão de ocupá-lo contempla esse desequilíbrio futuro. Claro que, se tal desequilíbrio não se proporcionasse, a decisão a tomar, no momento em que recebesse o passe, seria outra. Mas o que está em causa é a capacidade de imaginar o desequilíbrio antes de ele acontecer. A criatividade é, antes de qualquer outra coisa, essa capacidade imaginativa. Pizzi faz uma leitura perfeita das circunstâncias, imagina o que ainda não aconteceu, e mexe-se em função daquilo que imaginou. Se, instantes depois, acontecer exactamente aquilo que antecipou que aconteceria, está em posição privilegiada para definir a jogada como pensou possível defini-la. O futebol de Pizzi é pensado como o pensam os melhores. Equaciona todas as possibilidades, mas imagina também o que vai acontecer de seguida. Num colectivo que esteja melhor trabalhado, com mais jogadores capazes de pensar bem à sua volta, será sempre mais influente do que é numa equipa que, colectivamente, é apenas o que os jogadores quiserem que seja. Apesar de continuar sem ser chamado à selecção, e de continuar a motivar assobios vindos das bancadas - por razões que só os seus detractores saberão - é, de longe, o melhor jogador português a actuar em Portugal. Já o era, aliás, o ano passado.

O caso de William Carvalho é parecido com o de Pizzi, mas mais fácil de explicar. O estilo pachorrento com que se desloca, a aparente falta de agressividade com que encara os duelos defensivos e o aparente desprezo com que efectua cada uma das suas acções transmitem a ideia de que não se esforça tanto quanto podia. E isso é algo que os adeptos, que vão ao estádio ou ficam agarrados ao televisor para ver quem está em campo a suar as estopinhas, não podem admitir. O crime de lesa-Majestade de William Carvalho, portanto, é o de conseguir fazer tudo bem dando a impressão de que, se quisesse, podia fazer ainda melhor. Nada mais falso. William faz bem o que faz porque o faz daquela maneira. O estilo é uma consequência da sua maneira de pensar o jogo. A pachorra, a pouca agressividade e o desprezo são indissociáveis da qualidade que coloca em cada jogada. Se se deslocasse mais rápido, se procurasse vencer os duelos individuais impondo o físico, se soltasse mais cedo e com mais afinco, não seria o jogador criterioso que é, nem teria o discernimento, a ponderação e a calma que lhe permitem jogar como joga. Um jogador de futebol não é um conjunto de atributos, aos quais se podem somar novos atributos de modo a melhorá-lo pela acumulação de atributos. Se William se modificasse e melhorasse naquilo que as pessoas julgam que pode melhorar, perderia as qualidades (pelo menos em parte) que fazem dele o jogador que é agora. Quando se pensa na pouca intensidade com que parece jogar, deve-se pensar no quanto essa pouca intensidade é parte do que ele é actualmente. A sua melhor qualidade é, a meu ver, o saber perfeitamente que é um ponto de partida (e não um ponto de chegada) da construção ofensiva. Como ponto de partida dessa construção, tem por missão descobrir a melhor linha de passe e fazer avançar o processo ofensivo, tão bem quanto possível, para uma segunda fase de construção. O critério com que decide é absolutamente fabuloso, e a exploração dos apoios verticais do melhor que há no mundo. William está sempre de olhos postos nos colegas que lhe estão à frente, no médio que se esconde temporariamente atrás da linha de pressão, no avançado que desce para tocar, no extremo que vem explorar o espaço interior. O modo como se concentra nas opções de passe que tem perto de si, ignorando provisoriamente as opções mais distantes, é fundamental para que o jogo interior do Sporting seja tão bom. É isso que lhe permite encontrar soluções que não as mais simples e seguras, dando a ilusão de que o faz com simplicidade e segurança. Raramente joga comprido, pelo ar, porque sabe que lhe compete apenas dar início a um processo de construção necessariamente elaborado, porque sabe que não deve queimar etapas, porque sabe que um bom passe vertical, a queimar linhas de pressão, é bem mais útil a uma equipa que privilegia o futebol apoiado do que um passe a explorar a profundidade. Quando a bola sai dos seus pés, a equipa obtém sempre alguma vantagem territorial ou consegue sempre desorganizar provisoriamente o bloco defensivo opositor. Se William fosse mais agressivo sobre a bola ou mais rápido a tomar uma decisão, não seria tão bom a encontrar as linhas de passe que encontra. E o Sporting de Jesus não seria tão competente como é a penetrar nos blocos defensivos dos adversários, a jogar dentre desse bloco, e a criar espaços interiores por onde atacar. É isto que as pessoas não compreendem.

domingo, 24 de julho de 2016

Orgulho e Preconceito

O Euro 2016, um dos piores dos últimos 20 anos (pior só mesmo o de 2004), terminou com a consagração da selecção nacional. O momento é, sem dúvida alguma, histórico, mas não consigo deixar de ficar surpreendido por haver tanta gente a afastar esse sucesso do modo como ele foi obtido. Portugal passou em terceiro (uma novidade, no desenho da prova, que favoreceu claramente a mediocridade) num grupo composto pela Islândia, pela Hungria e pela Áustria. Passou em terceiro, e não em segundo (o que colocaria a equipa no lado forte do sorteio) porque um islandês marcou um golo à Áustria mesmo a acabar, no último jogo da fase de grupos. Portugal passou os oitavos de final num lance de contra-ataque, a pouco minutos do fim do prolongamento, que se sucede de imediato a um lance de muito perigo na sua própria baliza, e num jogo em que a Croácia justificava claramente outro resultado. Depois, eliminou a Polónia apenas nas grandes penalidades. Nas meias-finais, eliminou um País de Gales sem Ramsey (a cumprir castigo), a principal arma ofensiva dos galeses, principalmente pela forma como combinava com Gareth Bale e Joe Allen. E, na final, foi dominado do princípio ao fim por uma selecção gaulesa sem outro argumento que não a força bruta, acabando por marcar num lance de inspiração de Éder, o mais vilipendiado dos jogadores nacionais, e quando ninguém o esperava. Não associar a conquista deste europeu à sorte, para mim, é deturpar desde logo a conversa. As pessoas acham que a sorte se conquista e que, no limite, não é possível vencer uma competição destas sem competência. Como é sabido, não penso assim. O futebol é um desporto especial, e é possível que a sorte desempenhe um papel decisivo. É improvável, mas é possível. Com as devidas diferenças, Portugal venceu um europeu como aquele que a Grécia vencera em 2004: teve a sorte do sorteio, viu os principais favoritos a ficar pelo caminho sem ter de jogar contra eles e superou os adversários que teve de enfrentar invariavelmente por ser mais afortunado nos detalhes. É uma vitória, e será tão saborosa, para os vencedores, como outra vitória qualquer. Mas não deixa de ser uma vitória, em larga medida, fortuita. Os menos conformados com a ideia de que a sorte, em futebol, desempenha um papel importante acham que Portugal venceu esta competição, e não algumas competições anteriores em que até apresentou bom futebol, porque foi pragmático, porque acreditou até ao fim e porque o grupo estava unido. O que eu gostava de saber é o que é que esse pragmatismo, essa crença e essa união têm a ver com o golo islandês aos 90 minutos, com a ocasião de golo croata que precede o contra-ataque que dá o golo de Quaresma, com a passagem na lotaria dos penáltis contra a Polónia, com o acaso de Ramsey ter visto um amarelo contra a Bélgica ou com a bola ao poste de Gignac, a segundos de terminar o tempo regulamentar na final. Não, o sucesso de Portugal não esteve no pragmatismo, na crença e na união do grupo. A posteriori, aliás, é sempre fácil justificar o sucesso com esse tipo de coisas. O sucesso de Portugal dependeu (muito mais do que é vulgar depender) dos factores imponderáveis a que este jogo está sujeito, e não deve ser explicado de modo mais lisonjeiro do que isso. 

É também por isso que não aceito a ideia de que todos os portugueses devam sentir orgulho por tal vitória. Sentir orgulho pela pátria parece-me, desde logo, uma coisa um bocado provinciana. Mas sentir orgulho porque um conjunto de 23 jogadores (e respectiva equipa técnica) que, alegadamente, representa a nossa pátria, venceu outros conjuntos que alegadamente representam outras pátrias parece-me ainda mais bizarro. De facto, ninguém sentiu orgulho e exultou por Portugal ter sido recentemente campeão internacional de columbofilia, nem ninguém vai pedir autógrafos aos pombos vitoriosos. O orgulho que advém da vitória da selecção portuguesa no Euro 2016 tem, por isso, menos a ver com a pátria, e com o que quer que nos leve a sentir apego a ela, do que com o futebol. Tem, no entanto, menos a ver com o futebol enquanto jogo do que com o futebol enquanto fenómeno agregador. Como o futebol é um fenómeno de massas, e ninguém à nossa volta estava indiferente ao que se passava em França, não lhe conseguimos ficar indiferentes. Na verdade, sentimos um contentamento (o qual nos apressamos a julgar que é orgulho), mas não por Portugal, enquanto pátria à qual pertencemos e à qual nos julgamos ligados, ter vencido o campeonato europeu. Sentimos o que sentimos por o nosso vizinho, os vizinhos dele e os vizinhos desses vizinhos, por contaminação, fazerem muito barulho, e nos imaginarmos parte da razão que os leva a sair à rua para gritar. Aquilo a que chamamos orgulho, e que fez com que todos os portugueses, nos dias seguintes, andassem de cabeça erguida e peito feito, não é bem orgulho; é febre. Enfebrecidos pela atmosfera febril que nos rodeia, deitamos a gritar como todos à nossa volta apenas e só porque todos à nossa volta fazem o mesmo. Este tipo de comportamento febril, aliás, não se manifesta apenas a respeito de uma vitória desportiva: todos os fenómenos de massa (desde as modas às intenções de voto) tendem a enfebrecer cada um dos indivíduos de que essa massa informe se compõe. Quase tudo o que fazemos, as opiniões que temos e aquilo que sentimos é resultado do meio em que vivemos, pois foi nesse meio que aprendemos a fazer o que fazemos, que aprendemos a pensar e que aprendemos a sentir. Cada um dos portugueses que ficou contente com a vitória de Portugal não ficou contente por ela de algum modo lhe activar um orgulho pátrio qualquer; cada um deles ficou contente porque, vendo que todos à sua volta também se encontravam contentes, não tinha razões para duvidar de que fosse assim que devia sentir-se. Para mim, as pessoas podem ficar contentes com o que quiserem. Quando o clube do coração ganha, as pessoas comportam-se da mesma maneira. Só acho absurdo é que justifiquem o contentamento com o amor que devem à pátria ou com o amor que devem ao clube. Não é disso que se trata. Em ambos os casos, o contentamento é público: resulta do contentamento alheio que reconhecemos naqueles que julgamos que têm o mesmo género de afeições que nós, sejam as afeições pátrias ou as afeições clubísticas.

O orgulho é um sentimento especial, pois depende sempre de uma proeza qualquer, própria ou alheia. Ninguém sente orgulho por ter dois braços, por exemplo. E o orgulho associado às minorias (o orgulho gay, o orgulho de ser negro, o orgulho de ser mulher) só existe pelo menosprezo a que as minorias, historicamente, foram votadas. Nesses casos específicos, é uma forma de combate: ao orgulharem-se de ser como são, as pessoas orgulham-se da proeza que há em assumirem sem receios, e contra um determinado status quo, quem são. O orgulho depende sempre, portanto, do reconhecimento de uma qualquer superação. É por isso que me faz alguma confusão que as pessoas se confessem orgulhosas com uma determinada vitória desportiva e que reconheçam em simultâneo que essa vitória foi fortuita ou injusta. Como é que se pode ter orgulho por acertar nos números do Euromilhões? Pode-se ficar contente, claro. Mas orgulhoso? De quê? Orgulhoso de ser português? É como ter orgulho por ser homem, e não urso polar. Numa guerra, podemos ficar orgulhosos pela bravura com que os nosso soldados defendem a pátria. Mas será que podemos ficar orgulhosos por vencer a guerra? É certo que ficaremos felizes, pois ninguém gosta de perder nada, sobretudo uma guerra. Mas será que ficamos orgulhosos? Orgulhosos de quê? De superarmos as forças do inimigo? Em que medida é que a derrota alheia pode ser uma proeza própria? Apenas e só na forma como essa derrota acontece. É possível que nos orgulhemos da estratégia de D. Nuno Álvares Pereira em Aljubarrota. Mesmo que ela não tivesse contribuído para a vitória em Aljubarrota, poderíamos reconhecer-lhe mérito e orgulharmo-nos disso. Da vitória sobre os castelhanos, propriamente dita, não vejo como é possível haver orgulho. Numa guerra, só nos podemos orgulhar do modo como essa guerra é conduzida, porque só no modo como ela é conduzida pode haver superação. Orgulharmo-nos do desfecho dela é absurdo. Com a vitória em si, podemos ficar felizes ou aliviados, mas não orgulhosos. O orgulho não é um sentimento que decorra de um determinado desfecho, como a felicidade ou o alívio; é um sentimento que se associa à forma como esse desfecho é obtido. Em futebol acontece mais ou menos o mesmo que numa guerra. Como nem sempre os vencedores cometem grandes proezas, nem sempre se justifica o orgulho daqueles que torcem por eles. Quando a equipa por que torcem ou a selecção nacional do país ao qual julgam dever o patriotismo ganha alguma coisa, as pessoas não ficam contentes por se sentirem orgulhosas, ainda que possam pensar que sim. Ficam contentes porque são macaquinhos de imitação. Só poderiam orgulhar-se, de facto, se reconhecessem no futebol praticado por essa equipa ou por essa selecção qualquer identidade própria na qual de algum modo se revissem. A maioria das pessoas, no entanto, não se revê no futebol do clube do coração ou da selecção do seu país; revê-se, isso sim, no emblema e na bandeira. Quando a equipa que apoia vence, a maioria das pessoas não se regozija pela superação futebolística, mas por ter ganho uma aposta. O investimento emotivo em que consiste o desejo de que o clube do nosso coração ou a selecção do nosso país acabem vitoriosos funciona exactamente como uma aposta. É, aliás, uma aposta tão irracional como aquelas que geralmente se fazem em casinos ou casa de apostas. E é um bocado ridículo orgulharmo-nos das nossas apostas. Quando um apostador vê o cavalo em que apostou cruzar a linha de meta em primeiro lugar, não sente orgulho do cavalo cuja vitória o anima. A vitória de Portugal no europeu de França não encheu 10 milhões de pessoas de orgulho. Essa vitória deixou os portugueses extasiados, claro, mas porque a aposta inadvertida que fizeram no país em que, por um acaso geográfico, aconteceu terem nascido se confirmou finalmente. Toda a gente tem direito a ficar contente por ter ganho um aposta. O que não faz sentido é justificarem a euforia de a ganharem com o orgulho nacional.

Achar que gostamos que a selecção nacional de futebol vença porque isso nos enche de orgulho não passa, portanto, de um preconceito. Não há, de resto, melhor exemplo desse preconceito do que o golo marcado por Éder na final. De que modo é que os milhões de pessoas que acreditavam, dias antes, que o Éder era tão tosco como um elefante marinho de meia-idade se podem orgulhar do que o Éder fez? Como é que se pode ter orgulho de alguém que se considera inepto? Aliás, as considerações acerca da qualidade do Éder mostram bem aquilo que sugeri acima, acerca de fenómenos de massa. A opinião pública acerca do avançado português é como é essencialmente porque umas pessoas ouviram dizer que ele era só um avançado tosco, porque outros, ouvindo aqueles que antes tinham ouvido dizer que era tosco e achando que todos tinham razão, desataram a fazer piadas acerca do seu valor, e porque, em suma, a generalidade das pessoas não tem opiniões próprias. Na verdade, o Éder não é tão fraco como se diz. Pode não ser extraordinário do ponto de vista técnico, e não ser propriamente o mais inteligente dos pontas-de-lança, mas tem algumas qualidades e, a meu ver, justifica plenamente a presença numa selecção nacional portuguesa, neste momento. Fisicamente é muito forte, e é muito competente a proteger a bola e a aguentar a chegada dos companheiros, podendo ser usado como referência ofensiva em determinados contextos. Não é um ponta-de-lança para entrar em tabelas, para usar como apoio vertical em ataque organizado ou para jogadas elaboradas. Mas, como referência ofensiva, pode ser útil para segurar a bola enquanto a equipa sobe, para fixar a defesa adversária e atrair marcações. Nesse capítulo, de resto, sempre me pareceu um jogador interessante. Desde os tempos da Académica que o aprecio e lhe reconheço alguma qualidade. A opinião pública acerca de Éder não é, aliás, muito diferente da opinião pública acerca de Hélder Postiga. Ainda que sejam jogadores diferentes, e que a opinião pública acerca deles seja muito mais injusta no segundo caso, foram vítimas do mesmo género de preconceito. Ora, a mesma causa subjaz quer a este género de preconceito, quer àquele que, assinalado acima, decorre de confundir contentamento com orgulho: o que acontece, em ambos os casos, é que se sente e se forma opiniões por contaminação dos sentimentos e das opiniões vizinhas, tomando-se por privado, próprio e único o que afinal é público e de muita gente. Achar que nos orgulhamos da vitória da selecção não é por isso menos estúpido do que achar que o Éder nem para pino serve.   

12 Apontamentos sobre o Euro 2016:

1. A selecção francesa chegou à final sem mostrar grande coisa para além de algumas individualidades muito inspiradas: Lloris, Payet, Griezmann e Giroud, principalmente, estiveram a um bom nível, e isso chegou, muitas vezes, para que os problemas colectivos não fossem relevantes.

2. A evolução do futebol suíço, nos últimos anos, tem sido notável, e a selecção suíça é hoje muito mais respeitada do que era há uma década. Além do trabalho federativo, que permitiu aos suíços uma quantidade de jogadores de algum talento, há a salientar na selecção A a mudança de paradigma: ao contrário da selecção de Hitzfeld, que apostava tudo na organização defensiva, a selecção de Petkovic é uma equipa que procura ter a iniciativa do jogo. Falta-lhe criatividade no miolo do terreno, é verdade, mas assume esse jogo e procura fazer mais do que aproveitar os erros dos adversários.

3. Ao contrário da generalidade das opiniões que fui lendo, gostei do que a selecção do País de Gales fez. Não é tacticamente extraordinária, e procurou acima de tudo povoar a sua defesa com muita gente. Soube, no entanto, tirar o melhor partido dos seus três melhores jogadores (Ramsey, Bale e Allen, que mostrou que nunca lhe deram o devido valor em Liverpool), os quais procuraram sempre combinar uns com os outros. A liberdade que estes três jogadores tiveram para se procurarem constantemente, e que lhes foi possibilitada pela estratégia colectiva, foi a grande arma desta selecção. E só quando um deles, exactamente aquele que melhor se ligava aos outros dois, não pôde jogar é que foram vencidos.

4. Enquanto em terras de Sua Majestade se continuar a pensar como há 50 anos, o futebol inglês andará longe das vitórias. Não sou contra a ideia de Rooney jogar no meio-campo, e até gostei de ver, talvez pela primeira vez na história do futebol inglês, um médio-defensivo com critério com bola. Mas a aposta nas qualidades atléticas é inequívoca. Em Inglaterra, continuam a achar que o cérebro, em futebol, não serve para nada. Enquanto pensarem assim, vai ser difícil.

5. Sobre a Eslováquia, apraz-me dizer que se confirma aquilo que há muito penso: que o melhor jogador desta geração não é Marek Hamsik, como se faz crer, mas Vladimir Weiss. Hamsik é um médio expedito, muito rápido a ler o jogo e tecnicamente evoluído. Mas não é um médio criativo. É competente a ligar o meio-campo ao ataque, e garante fluidez ao futebol ofensivo da sua equipa, mas raramente é capaz de encontrar uma solução inesperada. Não é inventivo nem imaginativo como Weiss, que a partir da ala procura constantemente o apoio interior. Hamsik pode ser um jogador muito competitivo, mas sem aquilo que distingue Weiss, a criatividade, não passa de um médio relativamente banal.

6. A Rússia teve o que mereceu. Quando se fala tanto em pragmatismo, e quando se pensa que a abordagem pragmática é aquela que, nos dias que correm, tem tido mais sucesso, olhe-se, por exemplo, para a Rússia. O pragmatismo tanto pode dar para ter sucesso como para ser sovado. Os russos não podiam ter sido mais pragmáticos, e foram para casa mais cedo precisamente por causa desse pragmatismo.

7. A selecção croata foi das que mais gostei, neste europeu. Tive pena de não ver Coric, ou de ter visto tão pouco de Pjaca. Mas a qualidade individual dos croatas já não é uma novidade. O que me parece que está a melhorar, no futebol croata, são as ideias colectivas. É possível que, num futuro próximo, consigam bater o pé às melhores selecções. Têm qualidade individual para isso, tê-la-ão nesse futuro próximo, e parecem-me interessados em trabalhar colectivamente para que essas individualidades possam finalmente sobressair.

8. A Alemanha foi a melhor selecção do torneio. Não se pode ganhar sempre, e um pequeno detalhe (penalty de Schweinsteiger), num jogo que estava a dominar, deitou tudo a perder. Mas o futebol jogado foi, no cômputo geral, muito bom. Contra a Eslováquia, por exemplo, roçou a perfeição. Pode não ter dado seguimento ao título mundial conquistado há 2 anos, mas fez tudo bem feito, e é isso que lhes garante que vão continuar a ser favoritos, nos próximos torneios.

9. A Espanha começou bem o campeonato. Sem os erros do mundial de 2014 (titularidade de Koke e Diego Costa), Vicente del Bosque soube escolher um bom onze, mérito que já lho reconhecera anteriormente. Mas não soube estar à altura dos acontecimentos, quando era preciso que estivesse. Primeiro, não soube evitar que a sobranceria se apoderasse dos seus jogadores, depois das duas primeiras vitórias, e não soube convencê-los da importância de vencer o último jogo do grupo. E depois, perante uma selecção italiana a pressionar alto e a esconder a bola dos espanhóis, não soube reagir à adversidade. Já devia ter saído há muito tempo.

10. Zlatan Ibrahimovic terminou o seu percurso na selecção. Deixou de haver razões para ver a Suécia a jogar.

11. A qualidade individual da Bélgica está hoje ao nível das melhores da Europa. Para ser sincero, só vejo melhor conjunto de jogadores na Alemanha, na Espanha e, talvez, na França. Ainda assim, a selecção belga continua sem conseguir impor-se a nível europeu. Colectivamente, o futebol belga continua a ser pobre, e é isso que falta agora mudar.

12. A selecção italiana que se apresentou no Euro 2016 foi uma das mais fracas, em termos individuais, de que me lembro. E sem Marchisio e Verratti, os dois melhores médios italianos (se excluirmos Andrea Pirlo), mais fraca ainda ficou. O futebol italiano precisa urgentemente de uma revolução, e esta geração de jogadores é o sinal claro disso. Ainda assim, Antonio Conte conseguiu construir uma selecção muito competitiva. A forma como eliminou a Espanha foi notável.

Melhor Onze:

Guarda-Redes: Hugo Lloris
Defesa Direito: Joshua Kimmich
Defesa Esquerdo: Raphael Guerreiro
Defesas Centrais: Leonardo Bonucci e Matts Hummels
Médio Defensivo: Eric Dier
Médios Ofensivos: Aaron Ramsey e Andrés Iniesta
Extremos: Gareth Bale e Dimitri Payet
Avançados: Antoine Griezmann

Treinador: Joachim Löw

Suplentes:

Guarda-Redes: Gianluigi Buffon
Defesa Direito: Alessandro Florenzi
Defesa Esquerdo: Jan Vertonghen
Defesas Centrais: Giorgio Chiellini e Ricardo Carvalho
Médio Defensivo: Joe Allen
Médios Interiores: Luka Modric e Toni Kroos
Extremos: Julian Draxler e Nani
Avançado: Cristiano Ronaldo

Treinador: Antonio Conte