quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

Ponto de viragem?

O Sporting vive, neste momento, uma fase extremamente importante. Mais do que tentar salvar a época, é imperativo que a equipa leonina encontre um treinador que a possa colocar no rumo certo. Não será fácil, mas acredito que existem soluções que podem catapultar o clube de Alvalade para um patamar superior.

Não acredito que os treinadores devam procurar o melhor modelo para os seus jogadores; antes devem procurar o modelo que serve melhor a concepção que detêm sobre o jogo. Posto isto, o que os dirigentes leoninos devem ter em consideração é a filosofia do treinador que vão escolher. Devem procurar alguém com um modelo que permita ao clube leonino voltar ao trilho do sucesso, cujo estilo, por defeito, valorize os activos do Sporting. E isto não pode ser feito senão através de um estilo que valorize a inteligência dos seus jogadores.

Vendo as soluções ventiladas para suceder a Bento, a melhor solução, no meu entender, surge através de Villas Boas. Só porque o seu nome está associado a tudo o que representa Mourinho? Não. Porque Vítor Pontes também tem uma forte ligação com o "Special One" e dificilmente o veria como uma solução que pudesse servir da melhor forma o clube leonino.

Baseio-me nos jogos que tive a oportunidade de ver da Briosa. É cedo? É. No entanto, os princípios que têm servido de base às exibições da Académica são os melhores. A Académica é uma equipa que revela organização em todos os momentos do jogo, privilegiando a posse do esférico, procurando sair sempre de forma apoiada, obrigando os extremos a jogar mais por dentro. Enfim, procura-se que todas as acções sejam verdadeiramente colectivas. Este factor retira alguma "objectividade" à equipa, impedindo que seja mais rápida nas situações de contra-ataque. No entanto, torna a equipa mais forte no momento ofensivo, assim como retira vulnerabilidade às transições ataque-defesa da sua equipa. Outra coisa que me impressiona é a constante criação de apoios efectuada por toda a equipa. Não é responsabilidade de um ou dois jogadores, mas sim de toda a equipa. Resumindo, é um modelo que não relega para segundo plano a capacidade dos seus elementos em relacionar-se entre si, sempre em função das linhas gerais que guiam a consciência colectiva da equipa. E que melhor modelo, que não este, para fazer crescer jogadores como Pereirinha, Adrien, Carriço, Rosado, André Martins, Rui Fonte, Diogo Amado, Pedro Mendes, ou até, porque não, João Moutinho, Veloso, etc.?

sábado, 7 de Novembro de 2009

Napoleão joga em Alvalade?

Há fármacos - disseram-me há tempos - que atenuam certas doenças mentais. Dedicar-se, por isso, à droga, era capaz de ser uma boa ideia para muito bom jornalista. É o caso de Nuno Madureira, autor deste brilhante artigo de opinião, no MaisFutebol. O jornal já nos habituou à demência dos seus opinadores, mas nunca é demais referir certos casos. Este vale francamente a pena, até porque assenta numa opinião amplamente difundida por mais de metade dos malucos que têm opiniões sobre futebol.

O que Nuno Madureira tenta fazer é explicar de forma simples o problema que se abateu sobre o Sporting. Acontece que só procura explicar coisas complexas de forma simples quem não tem muito juízo. Assim, a manifestação das perturbações mentais de Nuno Madureira começa logo com a sua primeira frase:

"Há muitas maneiras de enumerar os problemas do Sporting. Uma das mais básicas e directas resume-se a uma frase: afinal, Liedson é humano."

A falta de siso começa logo com um problema no discurso. Nuno Madureira diz que há várias formas de enumerar problemas e propõe-se a enumerá-los numa frase, mas depois não enumera nada e resume uma enumeração de várias coisas a apenas uma coisa. O resto deve ter-se, certamente, perdido pelo caminho. Mas antes de ler o resto do artigo, adivinhamos logo que o problema mental do senhor tem por origem uma desilusão relacionada com a natureza de Liedson. Ao que parece, a precipitação do estado de demência ter-se-á ficado a dever à descoberta de que o enormíssimo jogador brasileiro era, afinal, apenas um humano. Convém dizer que nem toda a gente está mentalmente preparada para descobertas deste tipo. Mas eis que prossegue a demonstração de loucura:

"Quantas vezes, nas últimas épocas, a uma exibição mediana - ou medíocre, ou mesmo má - do Sporting, se seguiu a entrada em cena do 31, aparecendo do nada, para resolver o jogo e atenuar as diferenças para a concorrência?"

Posso estar enganado, mas não me lembro de uma única ocasião em que Liedson tenha aparecido "do nada", a fintar os onze adversários e a fazer golos. Mas como não tinha por hábito assistir aos treinos dos leões, posso estar a fazer juízos precipitados. Continuemos:

"De tanto habituar os seus adeptos - e os dos adversários - a um rendimento superlativo, semana após semana, o «levezinho» construiu nos últimos anos, por mérito próprio, uma imagem de super-herói."

Superlativa é a pancada deste senhor; super-heróis foram os pais dele, que tiveram que lhe aturar a estupidez. Adiante:

"Agora, que a sua inacreditável regularidade conhece uma quebra consistente e prolongada - dois golos em nove jornadas, o último há mais de mês e meio - tudo o que andava disfarçado, ou atenuado, parece mais evidente."

Agora?? Mas é a primeira vez que o rapaz fica muito tempo sem marcar?? E quantos jogos resolveu o Sporting nesse mês e meio, sem Liedson? Comecemos pelo fim: foi Saleiro quem marcou frente ao Venstpils, dando o empate; foi Matías Fernandez quem marcou frente ao Guimarães e frente ao Marítimo, o que valeu, das duas vezes, um empate; foram João Moutinho e Miguel Veloso quem marcaram na vitória ante o Ventspils; foram João Moutinho, Daniel Carriço e Vukcevic quem marcaram na vitória frente ao Olhanense; foi Adrien Silva quem marcou na vitória ante o Hertha de Berlim. O problema é mental, mas também é de memória. E de matemática, já agora. O que "andava disfarçado, ou atenuado" e que agora é evidente é que doentes mentais não têm competência para serem jornalistas. Continua Nuno Madureira, dizendo:

"A equipa tem poucas soluções tácticas alternativas? Sim, como sempre teve."

O senhor Nuno Madureira tem poucas ideias que não sejam idiotas? Sim, como sempre teve.

"Falta qualidade individual em quase todos os sectores? Sim, de há muito tempo para cá."

Falta qualidade individual a cada uma das sinapses deste senhor? Sim, é provável que falte.

"Paulo Bento repete receitas e discursos, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez também nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas."

Nuno Madureira repete sentenças populares e discursos de massas idiotas, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas e conseguiu completar um curso superior. Mas eis o que diz no último parágrafo:

"A maior diferença - não a única, claro - é que noutras épocas o Sporting tinha um fenómeno a ponta-de-lança."

Um fenómeno? Mas um fenómeno natural? Era o El Niño? Ia jurar que esse jogava no Liverpool. E será permitido por lei fazer alinhar, no onze inicial, furacões, anti-ciclones, tsunamis e fenómenos dessa natureza?

"Nesta altura, tem apenas um excelente avançado, a lutar para recuperar os superpoderes."

Agora sim, percebo o que o senhor quer dizer. Na cabeça de Nuno Madureira, Liedson é o Super-Homem e o problema do Sporting é que ninguém consegue descobrir onde é que o Lex Luthor pôs a Kriptonyte. Será isso? E Nuno Madureira conclui a sua análise ao problema do Sporting do seguinte modo:

"Afinal, Liedson é humano. E o Sporting não estava preparado para lidar com isso."

Como se depreende, para Nuno Madureira, a humanidade de Liedson estragou os planos ao Sporting. A equipa estava preparada para jogar com dez seres humanos e uma entidade divina, mas a partir de agora vai ter de passar a jogar só com onze seres humanos. E isso, de facto, é um problema, visto que mais nenhuma equipa no campeonato português joga só com onze seres humanos. Aliás, vai ser muito difícil ao Sporting continuar a ser competitivo num desporto como o futebol, em que poucas são as equipas que não têm três ou quatro alienígenas, dois ou três veículos de guerra e um alguidar.

Resumindo, todo o maluco que se preze pensa que é Napoleão. Nuno Madureira é um maluco mais sofisticado. Está convencido de que Liedson é Napoleão. Isto se não estiver convencido de que é Napoleão quem é Liedson. Repito as primeiras palavras do texto: "há fármacos que atenuam certas doenças mentais." É capaz de ser altura, até porque vem aí o Natal, de oferecer ao senhor Nuno Madureira um colete de forças e umas férias pagas no Miguel Bombarda. Ou isso ou autógrafo de Deus... perdão, de Liedson.

P.S. Um bom fármaco contra este tipo de maluquice em particular e que ajuda a compreender os verdadeiros problemas do Sporting é o texto que escrevi a 31 de Julho de 2009 e que pode ser encontrado aqui. Aconselha-se a sua ingestão, duas vezes ao dia, durante três meses e vinte e sete dias...

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

Os Pequenotes

Num desporto em que cada vez mais as pessoas se apaixonam pelos Raúis Meireles do momento, eis que surgem dois pequenotes, desprovidos de velocidade ou força especialmente distinta, mas extraordinários do ponto de vista técnico e, sobretudo, do ponto de vista intelectual, a fazerem as delícias dos verdadeiros amantes da modalidade.

De um deles, disse há pouco mais de um ano que era o meu maior ídolo na actualidade e que seria um prazer poder vê-lo em Portugal, mas que temia que o seu futebol não fosse apreciado e valorizado no contexto nacional e no contexto particular da equipa para onde vinha. A época transacta deu razão às minhas reservas, mas, felizmente, tudo mudou desde Agosto. Do outro, sempre fui fã incondicional e não tinha dúvidas do seu valor. Como em relação ao primeiro, cheguei a temer que a mentalidade retrógrada do país não soubesse retribuir-lhe a qualidade. Felizmente, uma vez mais, encontrou o espaço ideal e a mentalidade ideal na equipa para a qual veio habitar.

Por esta altura, qualquer pessoa sensata saberá já que estas palavras de apreço não poderiam ser dirigidas senão a Pablo Aimar e a Javier Saviola. Os dois argentinos são, a uma distância que não consigo sequer qualificar, de tão vasta, os melhores jogadores deste campeonato. Com eles, o Benfica não é só um candidato ao título normal; é uma equipa mentalmente saudável, imaginativa como muito poucas no mundo. O futebol encarnado tem, colectivamente, uma qualidade considerável e Jesus está, por isso, de parabéns. Mas a principal virtude deste conjunto são estes dois pequenotes. E não estes dois, cada um por si; estes dois, sim, mas quando relacionados um com o outro. O Benfica torna-se especialmente poderoso quando estes dois conseguem combinar entre si, quando se conseguem entender. A relação entre eles é que é formidável. As suas qualidades mais interessantes, por isso, são aquelas que lhes permitem perceber-se um ao outro e não aquelas através das quais conseguem, ocasionalmente, resolver situações individuais.

O principal mérito de Jorge Jesus, de entre os muitos que tem, é ter confiado incondicionalmente o seu Benfica à arte destes dois enormes jogadores. Ao contrário de Paulo Bento, que parece desenhar a sua equipa sempre em função de Liedson, o mérito de Jesus consistiu em perceber em função de quem é que vale a pena desenhar equipas. Se uma equipa de futebol deve ser pensada em função de alguma coisa, deve sê-lo em função do talento. E é de talento que tem de se falar quando se fala nos nomes de Aimar e de Saviola. Estes dois artistas não têm muitos dos atributos que, hoje em dia, muita gente considera essenciais a um jogador de topo. Não são extraordinariamente velozes, não são agressivos, não são capazes de jogar intensamente durante 90 minutos, não são fortes fisicamente, não são altos. No fundo, são dois pequenotes. Acontece que, ao contrário do que muita gente pensa, o futebol é essencialmente para os pequenotes. E Aimar e Saviola encontraram na Luz quem percebesse isso.

O sintoma que mais fielmente denota a saúde desta equipa não é a capacidade de pressionar alto durante 90 minutos, não é a resistência física dos seus jogadores, não é a organização táctica da equipa, não é a quantidade absurda de golos marcados, não é a capacidade de criar jogadas de perigo a toda a hora. Tudo isto são, de facto, indícios positivos. Mas aquilo que melhor espelha o potencial desta equipa não é nenhuma destas coisas. Aquilo que faz pensar que, de facto, o Benfica poderá fazer uma época extraordinária e medir forças com quase todas as equipas do mundo é um pormenor que tem passado despercebido a quase toda a gente. Falo de Aimar e de Saviola, claro. Mas falo deles não por tudo o que é normal dizer deles, mas por outra coisa. Vejam como trocam a bola entre eles descomplexadamente, como jogam para trás quando podiam progredir, como parecem divertir-se ao mesmo tempo que decorre a competição, como se procuram um ao outro em campo, como tabelam com uma destreza inigualável, como confiam um no outro e endossam a bola ao outro mesmo quando este se encontra rodeado de adversários, como jogam à rabia entre adversários, como iludem tudo e todos negligenciando a ideia de progressão e preferindo repetir o passe para trás. Parecem almas gémeas. Entendem-se na perfeição e podem dar-se ao luxo de levar esse entendimento para patamares de complexidade incompreensíveis para a maior parte dos adversários. Ao fazê-lo, tornam-se muito difíceis de parar. Quando se pensa que Aimar vai definir a jogada, com um passe para as costas da defesa, eis que procura Saviola; quando se pensa que este se vai virar para o adversário e forçar a verticalidade, eis que devolve em Aimar; quando se pensa que, agora sim, Aimar vai dar profundidade, eis um passe para o lado para o amigo Javier; quando se pensa que Saviola, após tanta cerimónia, vai finalmente procurar ser objectivo, eis mais um toque curto para o amigo Pablito. E estão nisto o tempo que for preciso. E os adversários à roda, à procura da bola, com a língua de fora e já sem discernimento para perceber que, com tudo isto, se desorganizaram por completo. A consequência deste tipo de futebol é precisamente esta: desorganizar, pela imprevisibilidade, pela estranheza da coisa, toda uma defesa. O futebol curto de Aimar e Saviola, as tabelas e as contra-tabelas, o exagero de passes e devoluções entre eles, tudo isto corresponde ao maior trunfo deste Benfica. Ser capaz de fazer isto é ser capaz de fazer o que há de mais difícil e eficaz em futebol. Há pouquíssimas duplas que o conseguem. Neste momento, só me ocorrem os nomes de Xavi e Iniesta.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Campeonato do Mundo dos Comentários Hilariantes (Grupo B)

Já foi há mais de um ano que o campeonato do mundo dos comentários hilariantes começou. O Grupo A, então em disputa, gerou controvérsia. Agora, entra em acção o Grupo B. São mais 25 comentários fascinantes sobre o mundo da bola, recolhidos do baú de comentários do Entre Dez e expostos agora para apreciação dos nossos caríssimos leitores. Alguns deles reavivam lembranças saudosas e ilustres comentadores que, entretanto, deixaram de dar o seu riquíssimo contributo às nossas caixas de comentários, facto que lamentamos profundamente. A ideia, para quem não se lembra, é votar nos que considerar mais espectaculares. A prova continuará, com mais grupos a disputarem o acesso à grande finalíssima, e os melhores de todos terão depois o devido destaque. Aqui estão, sem mais demoras, os segundos 25 comentários hilariantes a concurso. Toca a votar...

1) Anónimo (29 de Novembro de 2007) (post Sub-Aproveitamento):

"tu percebes de futebol é? quem to disse? tens curriculo para apresentar? é que se n tens es igual aos restantes, podes mandar umas "papaias" para o ar mas é igual aqueles que rejeitas... cumprimentos"

(Nota: Anónimo, anónimo, tu percebes de disparates? Tens currículo para apresentar? É que se não tens és igual aos restantes a dizer disparates, podes mandar umas "papaias", mas dizes disparates tão disparatados como os daqueles que rejeitas...)

2) Bruno Pinto (4 de Dezembro de 2007) (post Falsas aparências... Parte dois):

"Se um gajo não sabe cruzar, não pode ser lateral, se não sabe atirar a bola lá para dentro, não pode ser avançado, se não sabe marcar em cima, não pode ser central. Etc, etc, etc."

3) Pedro (10 de Dezembro de 2007) (post As asneiras de Luís Freitas Lobo):

"Sim caro Nuno o talento nasce com as pessoas....por muito q tu aprendas a cantar se não tiveres voz não chegarás ao nível máximo. Pq o talento é o q define aquilo q separa uns de outros, talento é aquele factor x que não se explica, tem-se ou não se tem. Simplesmente isso. Chama-lhe instinto, inspiração, whatever, talento nasce connosco..."

e (a 11 de Dezembro de 2007)

"Não se trata da inteligência ser inata ou não. Trata-se sim de tu estudares uma vida inteira e não conseguires resolver os mais dificeis problemas matemáticos e outros aos 15 anos resolverem-nos desde os 7."

(Nota: Achou o comentário confuso?? Faça uma pausa às 15 horas desde as 7.)

4) Anónimo (10 de Dezembro de 2007) (post As asneiras de Luís Freitas Lobo):

"a homossexualidade é, obviamente, genética. Ninguém é gay/lésbico por opção (ao contrário do que alguns tontos homossexuais parecem acreditar, provavelmente por receio que lhes chamem doentes hereditários...)."

5) Bruno Pinto (10 de Dezembro de 2007) (post As asneiras de Luís Freitas Lobo):

"O Maradona foi o que foi porquê? Primeiro, porque Deus deu-lhe um talento absolutamente incrível para jogar futebol. Segundo, porque treinou e aprendeu a usar esse talento no futebol de alta competição."

(Nota: O Deus é um maluco, a distribuir presentes assim pela malta.)

6) pedro silva (11 de Janeiro de 2008) (post O Boavista de Pacheco):

[falando de Mateus, Fary e Zé Kalanga]
"os 3 abundam em talento...mas é preciso um treinador!"

e

"O diakite é um jogador fundamental no boavista. ele não está lá pra jogar à bola... está lá pra não deixar jogar e aí está o teu erro de interpretação."

e

"O futebol defensivo é o mais ganhador de sempre na história do futebol. "

e (a 12 de Janeiro de 2008)

"Mourinho é claramente um defensor do estilo de jogo defensivo. Qualquer um sabe disso."

(Nota: Diz Mourinho, sobre a sua filosofia de jogo, em contraste com a de Bobby Robson, no livro de Luís Lourenço, Liderança: as lições de Mourinho, o seguinte: "(...) mantendo a primazia por um futebol de ataque, procurei no fundo, organizá-lo melhor e essa organização parte, muito justamente, da defesa." Afinal parece que não é assim tão defensivo.)

7) pedro silva (11 de Janeiro de 2008) (post Tragédia Grega... e não só):

[sobre Katsouranis]
"Sei que muita gente gosta dele mas eu, reconhecendo-lhe as qualidades que tem, acho que tem defeitos a mais para jogar no benfica."

8) Bruno Pinto (13 de Janeiro de 2008) (post Tragédia Grega... e não só):

"Bem, eu começo a pensar que o Nuno e o Gonçalo são o mesmo cromo, de tão parecidas que são as estupideses que dizem e a forma como não percebem o que se diz. Vontade de rir... Ainda não percederam (percebeu?) patavina do que eu disse do Veloso e do Moutinho. Não percebem... O Veloso e o Moutinho são os dois inteligentes. E não percebem porque eu prefiro um ao outro. É que não percebem. E depois ainda acham que percebem de futebol... Epá..."

(Nota: Não percebi como é que se não se percebe que um gajo não perceba que usou quase uma centena de vezes o verbo "perceber" numa frase, sem perceber que a estava usar de forma a tentar perceber algo que não tem capacidade para perceber.)

e

"Eu não acho que chamar burro é insultar (...) Um burro é um gajo sem inteligência. Não é insulto."

(Nota: Eu não acho que chamar prostituta à mãe deste artista seja insultar. Prostituta é uma gaja que usa o corpo para trabalhar. Não é insulto.)

9) Bruno Pinto (16 de Janeiro de 2008) (post 22 curtinhas):

"Nuno, escreve-se 'covarde'. Muda lá isso que não estou habituado a erros ortográficos neste blog."

(Nota: O ensino do português, a norte do Tejo, parece-me pouco competente. Assim como o ensino da bazófia.)

10) Pedro (18 de Fevereiro de 2008) (post Curtas mesmo mesmo curtas):

"Sinto da tua parte uma embirração com o Binya...e algo me diz q em breve vais ter q te retractar..."

e (a 19 de Fevereiro de 2008)

"Por acaso acho um pouco estranho q tu, logo tu, tenhas uma opnião assim tão fechada de Binya mas não vou aprofundar muito a questão. Acho q se nota q há ali muito potencial mas adiante...agora não reconhecer q com ele em campo o Benfica ganha agilidade e dinâmica na pressão defensiva é puxado."

11) Anónimo (6 de Abril de 2008) (post Breves da Semana):

"E se alguem desencantar um extremo que marque golos de cabeça com a facilidade do Ronaldo, digam, está bem?
Ao artolas que comentou anteriormente - já não tens paciência para o CR7? Olha, ainda vais ter que o aturar por muito tempo... e no Europeu, quando precisares dele para ganhar jogos, como é?"

(Nota: O que vale é que tínhamos o Ronaldo no Europeu, se não teríamos ficado aí pelos quartos-de-final.)

12) Messi (23 de Abril de 2008) (post O que é um passe?):

[sobre Pelé]
"Ainda bem que há gente como vocês para ensinar um jogador que joga no campeão Italiano o que é um passe.

Serviço público no seu melhor."

(Nota: Um jogador que "jogava" no campeonato italiano. Assim é que está certo. Um jogador que passou a primeira metade da época passada a brilhar na Liga Intercalar e que depois foi brilhar para um colosso inglês. E que agora brilha em Espanha. Fica a correcção. E o serviço público.)

13) Trigo (30 de Abril de 2008) (post Compreender Futebol, em vez de o jogar...):

"Só se diz merda neste blog? Execução vs interpretação... Conversa estúpida!! Só cromos nesta rua."

14) Julio Cruz (11 de Maio de 2008) (post Clássicos: Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique):

"Não concordo, aquela equipa do Artur Jorge era brilhante tacticamente, não me venham dizer o contrário."

15) ChuckE (12 de Maio de 2008) (post Clássicos: Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique):

"Que biltre horrivel que és... podes admitir que não gostavas do estilo do porto daquela altura, e naquela final em especial, de "combate". Mas daí a chamar-lhe mau jogo..."

e

"Eu já vi a repetição do jogo na rtp memória, também. Apreciei bastante o jogo do Porto, num estilo de jogo semelhante ao praticado pelo Porto do Carlos Alberto, muito combativo, sólido a defender, sempre na recuperação de bolas, futebol apoiado, meio campo de pitbulls baixotes, como foi o estilo do Porto durante anos. "

(Nota: O raciocínio que importa reter é: todo aquele que não gosta de "pitbulls baixotes" é um "biltre horrível".)

16) Pedrovsky (25 de Maio de 2008) (post Os melhores):

"OFF-TOPIC: viste o (outro) grande golo do Pelé na final da taça de Itália? Leste o que é que os jornais italianos, gazzeta e corriere dello sport disseram dele? Qual é mesmo o teu problema com ele? Palpita-me que este será um sapo grande que vais ter de engolir mais cedo ou mais tarde, ai vais vais..."

(Nota: A mim palpita-me é que não fui eu quem engoliu sapos...)

e (a 26 de Maio de 2008):

"Nuno, eu sempre achei o Pelé um possível grande jogador de FUTURO. O grande golo que ele marcou (mais um)é mais uma prova e não apenas um motivo para dizer que ele é bom.
Qto às possibilidades com Mourinho, lembro-te apenas que o Bosingwa com Mourinho quase nunca jogou e hoje é o lateral mais caro do mundo, enquanto o dani alves não sai do sevilha. Por isso, o tempo está a favor do Pelé, mesmo que ele fique mais tempo no banco."

(Nota: Exacto, o tempo continua a favor do Pelé.)

17) slb4ever (26 de Maio de 2008) (post Os melhores):

[sobre Pelé]
"se com Mourinho não explodir, o problema é do Zé..."

(Nota: Se com Mourinho não explodir, o problema é do Zé; se com o Jesualdo não explodir, o problema é do Jesualdo; se com o Tony Adams não explodir, o problema é do Tony; basicamente, o problema é de todos menos dele...)

18) Anónimo (28 de Maio de 2008) (post Os melhores):

"És o maior tono do caralho!!"

(Nota: O que é um "tono"?)

19) Pedrovsky (29 de Maio de 2008) (post Pelé: um estudo):

"tens problemas com o M. da Costa? Já alguma vez viste um central com a habilidade dele na frente?"

20) Pedro Silva (29 de Maio de 2008) (post Pelé: um estudo):

"Nuno, exageras e ainda vais passar mal com o pelé."

21) Anónimo (5 de Junho de 2008) (post Sondagem (6)):

[sobre uma votação para eleger a equipa com melhores condições para vencer o Euro 2008]
"Votos na Espanha: nuno, gonçalo, o cão do nuno e o gato do gonçalo."

(Nota: os patetas do costume, uma vez mais com opções de voto que não lembram nem ao Diabo.)

22) Anónimo (14 de Junho de 2008) (post Incidências da Primeira Ronda do Euro 2008):

"Este blog é de escachar o coco a rir."

(Nota: Nunca percebi por que é que partir um côco é motivo de riso. Já "escachá-lo" é-o, seguramente.)

23) José Henriques (18 de Junho de 2008) (post Segunda Ronda):

"Mister fred (k de mister nao deve ter nada), já devo ver fut há mt mais tmp k tu!! por isso não me substimes...e n des exemplos parvos...o diakité e o binya são 2 pretos xulos.o petit é 1 gajo ja com visao d jogo e um remate mt forte..e a grécia eu nao digo k seja espectacular! mas k é boa tacticamente é! e vai xamar nabo à tua avó torta, k eu ja vejo futebol a 20 anos! este blog é so energumenos e gente sem humildade. isto é uma vergonha. a juntar a censura. parece q k voltamos ao estado novo."

(Nota: O nível dos insultos é brilhante, o português usado melhor ainda. Melhor, só mesmo a justificação para a falta de qualidade de Diakité e Bynia seguida da indignição por um comportamento, supostamente, em conformidade com a censura do Estado Novo. O que vale é que há coerência!)

24) Zé das Hóstias (20 de Junho de 2008) (post Ronda Final):

[sobre a França no Euro 2008]
"ESTE GAJO NAO SABE O Q DIZ!!!! A FRANÇA JOGOU MT BEM SÓ TEVE AZAR!!!"

25) Costa (decora o nome, cromo) (30 de Junho de 2008) (post Final e mais coisinhas):

"Ó palhaço, quem disse que o Pelé é dispensável? Se o fosse, o Quaresma há muito que já tinha ido para o Inter, não achas? Além disso, o que se fala é de um empréstimo, não de uma cedência definitiva."

(Nota: Professor Karamba e as suas adivinhações prodigiosas.)

E é isto: humor de qualidade, poderes de adivinhação prodigiosos e análise futebolística extremamente requintada. Falar de futebol a rir - eis o lema deste espaço e de todos os seus intervenientes.

domingo, 18 de Outubro de 2009

Simplesmente... Viana.

Um dos melhores jogadores portugueses da sua geração (e só não o considero o jogador mais importante do campeonato porque na Luz moram dois argentinos que são para lá de extraordinários). Ignorado pelo clube que o lançou para a alta roda do futebol, Hugo Viana foi parar a Braga. Na altura, as alarvidades que se disseram sobre o assunto multiplicaram-se: fosse porque era lento, ao contrário do velocíssimo Zizou, ou porque não se encaixava bem no modelo do Sporting, nem em qualquer um dos grandes, etc., a estupidez dos argumentos só encontrava par no talento que Viana teimava em espalhar pelos relvados, semana após semana.

Realmente, tenho de concordar que um jogador como Hugo Viana não faz o menor sentido num modelo como o Sporting: uma equipa que despreza a bola, que apela única e exclusivamente ao espírito de sacrifício dos seus jogadores, enfim, um modelo que ao invés de elevar os seus jogadores apenas os rebaixa não é, com toda certeza, o mais indicado para um jogador com o potencial de Hugo Viana, pois quanto maior é o potencial de um jogador sob o jugo daquela igreja maior é a atrocidade cometida contra o futebol. Se não, vejamos os casos de Pereirinha, Romagnoli, Farnerud, etc. Portanto, não será de todo disparatado dizer que a miopia que o "empurrou" para Braga foi a grande responsável pelo excelente campeonato que o Braga está a realizar. É verdade que a equipa minhota "parece" trabalhar sob a luz certa: tem um treinador que apela, de forma positiva, ao orgulho dos seus jogadores, dá importância à posse de bola, para além de conceder a liberdade necessária aos seus jogadores. No entanto, não é uma equipa muito organizada, e nem sempre se consegue apresentar com os sectores unidos, quer a atacar, quer a defender. Domingos parece um treinador com grande potencial, (tal como parecia Bento, há três anos) mas ainda é cedo para perceber se os motivos para jogar como pretende são os mais correctos. Falta perceber se os erros que comete não passam disso mesmo, ou se são sinais inequívocos de uma fraqueza que o tempo não tardará a pôr a descoberto, essa vertigem pela fé no resultado, sem se interessar, ou perceber, como o alcança. Por agora, com a liberdade concedida a Hugo Viana, Domingos não tem de se preocupar ora com a qualidade de jogo da equipa, ora com a menor valia (individual) dos argumentos da equipa arsenalista.

Hugo Viana é um caso raro de evolução. Poderia ser a esta altura mais bem-sucedido, isto se não se tivesse transformado naquilo que é hoje: um jogador muito inteligente que conhece todos os "cantos" do jogo, que percebe as necessidades da equipa, que mede cada acção que toma com uma gravidade que não se esgota na execução do passe ou do drible. E como seria fácil, para um jogador como Hugo Viana, focar-se apenas e só nas suas qualidades individuais. Bastava "apregoar" a toda a hora a facilidade com que a qualidade do seu passe longo se manifesta, forçando com isso um maior número de passes de risco e conseguindo um maior número de assistências, ainda que isso, muito provavelmente, se viesse a revelar contraproducente para a equipa. Poderia também, como muitos dos ídolos (com pés de barro) cá do burgo, procurar incessantemente, e a qualquer custo, obter o golo através de acções individuais. Decerto que a esta hora a sua conta pessoal seria bem mais atractiva; talvez até pudesse ser titular na selecção de todos vós. Mas de certeza que o Braga não seguiria invicto, com um registo impressionante, como líder do campeonato. Por isto tudo, não me parece exagerado dizer que, a par de Aimar e Saviola, Hugo Viana é, sem qualquer ponta de dúvida, a figura maior deste campeonato.

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Os energúmenos

Há pouca coisa em mim - confesso - que me cause mais repulsa que a estupidez do ser humano. Tolero, com facilidade, coisas que maior parte das outras pessoas não tolera, mas sou incapaz de conviver ou de aceitar sequer gente estúpida. Quando essa estupidez, então, me afecta directamente, quer pondo em causa aquilo que sei, quer arrogando-se de franca sabedoria, germinam em mim incontroláveis vontades de desdenhar. O escrúpulo é a ferramenta que usamos para aceitar a opinião alheia, mesmo quando ela não nos satisfaz. Contra estúpidos, porém, é frequente que perca a capacidade de manter os escrúpulos. É a esses doutores que este texto se dirige, na forma de uma lista de propriedades das suas doutas competências intelectuais. São, por isso, verdadeiros energúmenos:

1. Os que acham que a agressividade é uma coisa meramente mental e que para se tornar agressivo basta haver força de vontade.

2. Os que acham que o espírito de sacrifício é a maior virtude de um jogador.

3. Os que acham que o respeito se ganha exigindo-o arbitrariamente e não por demonstração de competência.

4. Os que querem bolas na linha só porque ouviram dizer que se deve jogar pelos flancos.

5. Os que protegem a humildade em vez do talento e os que dispensam os mais talentosos jogadores apenas porque não souberam lidar com o seu feitio.

6. Os que acham que podem justificar as suas ideias dizendo que aquilo que defendem está escrito em "livros" e que, como tal, não pode ser questionado, quando facilmente são desarmados se pensarmos que o livro mais influente na cultura ocidental se baseia na existência de uma entidade que, obviamente, não existe.

7. Os que não percebem que os jogadores mais competentes e através dos quais melhores resultados se podem extrair não são aqueles que dão tudo de si em termos físicos, mas sim aqueles que dão tudo de si em termos intelectuais, procurando perceber e melhorar as suas competências, não se limitando apenas a esticar ao máximo as suas competências actuais.

8. Aqueles que criticam um jogador por inventar e que aplaudem outro quando este faz algo simples, mas previsível.

9. Os que, com uma equipa cujas maiores virtudes são as competências técnicas e intelectuais, acham que os ingredientes necessários para vencer um adversário cujas principais características são a agressividade e a força são precisamente a agressividade e a força.

10. Os que não percebem que a impetuosidade não se contraria com impetuosidade, mas com inteligência, calma e qualidade de passe.

11. Os que não percebem que os melhores jogadores são os que tentam fazer as coisas mais difíceis e que, no meio de cinco adversários, dominar no peito, proteger a bola, metê-la no chão e dar num companheiro de modo a que a equipa possa começar a construir é muito mais difícil do que ir às alturas ganhar uma bola de cabeça cujo destino passa a ser absolutamente imprevisível.

12. Os que preferem jogadores que não compliquem àqueles que, sabendo das dificuldades, procuram ainda assim fazer coisas difíceis por perceberem que o êxito nas mesmas implica ganhos relevantes para a equipa.

13. Os que preferem jogadores velozes mas ineptos a jogadores lentos mas talentosos.

14. Os que têm Diogo Rosado e Fábio Paim no plantel e não os aproveitam, deixando-os no banco e utilizando outros como Wilson Eduardo.

15. Os que pensam que a qualidade de um avançado se determina pela quantidade de golos que marca e depois não têm capacidade para explicar por que é que o melhor avançado da Liga tem um quarto dos golos do melhor marcador da Liga.

16. Os que acham que o momento de atirar à baliza é mais importante que qualquer outro momento de jogo, usando o extraordinário argumento de que, no futebol, a conclusão é mais importante que a introdução e que o desenvolvimento apenas porque sim.

17. Aqueles que pensam que é possível criar jogadas de finalização de forma constante utilizando, em todo o processo ofensivo, apenas três ou quatro toques.

18. Os que ainda não perceberam por que razão é que o Braga, não sendo uma equipa especialmente bem organizada, nem especialmente agressiva, nem especialmente bem preparada fisicamente, está em primeiro no campeonato.

19. Os que acham que pedir atitude aos jogadores é uma fórmula mágica para os motivar e ignoram que a motivação só pode ser fruto do reconhecimento de competência.

20. Todos aqueles que, enfim, não privilegiam as características certas, aqueles que não percebem que tipo de carácter os seus jogadores devem possuir, aqueles que valorizam excessivamente as trivialidades, aqueles que acham que uma equipa deve ser composta por onze monges franciscanos, aqueles que acham que a simplicidade per si é louvável e que o futebol é um jogo simples, aqueles que não conhecem o episódio bíblico de David e Golias e acham que, para se vencerem Golias, se deve ser parecido com Golias, aqueles que não percebem que o próprio conceito de jogo implica que haja formas mais eficazes do que outras de se vencer e que, de maneira nenhuma, todas as estratégias são aceitáveis, etc...

sexta-feira, 2 de Outubro de 2009

Estilo de jogo

Muito se discute sobre a eficácia do estilo de jogo que priviligie a posse de bola. Talvez porque se confunda muitas vezes equipas com estilo de jogos semelhantes, mas que estão subjacentes a ideias e interpretações do jogo bastante diferentes. Vemos, por exemplo, conjuntos que gostam de ter bola para poderem retirar o máximo proveito dos malabaristas que proliferam no seio da equipa, outras porque a sua carga "histórica" a isso os obriga, e outros, como o caso do Barcelona, que o fazem não por causa dos jogadores que possuem, mas porque a posse de bola, e aquele estilo de jogo apoiado, de toque curto e seguro, são a "trave-mestra" de todo o seu futebol. Independentemente dos jogadores.

No entanto, apesar da importância dos motivos que sustentam um estilo de jogo, até a filosofia de jogo mais evoluída precisa de uma estrutura que lhe permita de forma inequívoca demonstrar toda a sua magnitude e superioridade perante as outras interpretações do jogo. Daí a importância do sistema táctico: não é indiferente, como muito boa gente apregoa. As dinâmicas realmente importam, mas a dinâmica está intimamente relacionada com a estrutura da equipa. O sistema táctico deverá permitir que as dinâmicas necessárias à concretização do nosso modelo de jogo sejam alcançadas compreendendo todos os momentos do jogo de forma una, contínua e equilibrada. Procura-se desta forma minimizar a nossa exposição a desequilíbrios (ofensivos e defensivos, em qualquer uma das fases de transição) inerentes única e exclusivamente ao nosso modelo de jogo.

Não possuo dados que me possam garantir quais as directrizes que sustentam o modelo de jogo do Arsenal, isto é, se a qualidade da posse de bola é o sintoma da "doença" certa, mas podemos constatar, nos jogos que temos observado neste início de temporada, uma consistência e equilíbrio inéditos que estão intimamente ligados ao sistema táctico adoptado por Wenger nestes jogos: o 4x3x3.

A valência desta filosofia vai muito para lá dos factores estéticos. O toque curto requer que a equipa jogue coesa, com os seus sectores juntos. Os próprios jogadores beneficiam de uma "rede" de apoios próximos que assim lhe oferecem mais opções, dificultando a acção defensiva do seu adversário. A esta imprevisibilidade contrapõe-se muitas vezes o risco que corremos de, com tantos passes, perdermos a bola em zonas proibidas. A verdade é que este argumento não só é falacioso como também ignora outra característica das equipas cujo modelo, desde que bem orientadas, assenta nesta filosofia: a capacidade de reagir de forma rápida e intensa aos momentos de transição, não só defesa/ataque, mas essencialmente ataque/defesa. O elevado número de jogadores na zona onde eventualmente a equipa perda a posse da bola, fruto do estilo de jogo baseado em apoios próximos, permite uma resposta mais rápida e eficaz sobre o adversário que havia recuperado o esférico. Mais, o facto de os sectores terem de jogar juntos retira espaço entre linhas para a equipa adversária se movimentar.

Posto isto, facilmente percebemos a importância de uma equipa como o Arsenal optar por jogar num sistema que lhe permite apresentar uma melhor ocupação dos espaços, benificiando de um maior número de linhas, não premitindo desta maneira tanto espaço e liberdade aos seus adversários, principalmente na transição ataque/defesa.

Beneficia o Arsenal com esta alteração, assim como os jovens que militam no clube londrino. Ramsey, Song, Vela, etc., vão poder exponenciar, ainda mais, todas as características, moldadas em função do estilo de jogo que "sustenta" o conjunto de Wenger. O treinador francês promove o desenvolvimento das tomadas de decisão nos seus jogadores, fruto da filosofia que implantou nos gunners. A constante criação de várias soluções em cada jogada obriga os seus jogadores a analisar um grande conjunto de variáveis. Desta forma, a regular necessidade de decidir entre as várias opções que lhe são "sugeridas" serve como um estímulo indispensável para a evolução intelectual dos seus jogadores. Agora, porém, com uma sistema mais equilibrado e racional, estes jogadores já não ficam obrigados a utilizar a sua mais valia para colmatar as lacunas do sistema táctico, encontrando ao invés um aliado não só na sua evolução como jogadores, mas também no seu caminho rumo ao sucesso.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Patetice

O pouco tempo disponível, nos últimos dias, não tem permitido actualizar, com a regularidade desejada, este espaço. Como tal, e correndo o risco de repetir algumas coisas de textos recentes, queria deixar apenas um pequeno vídeo que ilustra algumas das coisas que se andaram a dizer aqui sobre David Luiz. É imperial, segundo alguns, é irrepreensível, segundo outros, é até o melhor central do mundo a sair a jogar, segundo os mais ousados. Os óculos vermelhos ou as emoções míopes levam a opiniões desta espécie e fazem com que se ignorem tendências comportamentais evidentes.

David Luiz esteve ligado, e muito directamente, a todos os golos que o Benfica sofreu até ao momento, em jogos oficiais. Frente ao Marítimo, uma entrada irresponsável dentro da área dá o penalty que Alonso converte; frente ao Poltava, os dois golos ocorrem pelo seu lado, sendo que a sua ausência, no primeiro, e sua movimentação, no segundo, propiciam tal coisa; contra o Setúbal, incorre em excesso de confiança e permite que Hélder Barbosa se antecipe; contra o Leiria, comete um auto-golo num lance controlado, quando não tem ninguém por perto e não necessitava de arriscar um corte difícil. Dito isto, haverá defensores do jogador que dirão que são lances pontuais e que, para azar dele, têm tido as piores consequências que poderiam ter. É uma hipótese. Infelizmente, não é a verdadeira. David Luiz comete bastantes mais erros do que aqueles que provocam dissabores à equipa. Este vídeo é sobre o lance que poderia ter dado a vantagem à União de Leiria e que poderia ter feito com que o resultado final fosse bem diferente.

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Quando Pateiro pega na bola, Shaffer está adiantado e é David Luiz quem cobre provisoriamente o lado esquerdo. Pateiro dribla Javi Garcia e, nesse mesmo momento, David Luiz desata a correr desalmadamente para trás. Será que se lembrou que tinha uma coisa importantíssima para dizer a Quim? Será que estava a ter um ataque epiléptico? Será que o neurónio esquerdo informou o direito de que correr estupidamente na direcção contrária à do local da bola provoca extraordinárias sensações de prazer? Todas estas hipóteses são plausíveis e, em abono da verdade, podem servir para desculpar o comportamento esquisito de David Luiz. Aquilo que não pode deixar de se notar é que a reacção do jogador é uma reacção anormal. O normal seria responder precisamente da maneira oposta, havendo para isso até duas possibilidades. Poderia ter atacado o portador da bola, obrigando-o a voltar para trás, a tentar o drible ou a soltar a bola, sabendo de antemão que a única opção de passe era Carlão e o mesmo iria demorar a reocupar uma posição legal, ou poderia simplesmente ter-se mantido naquela zona, fechando o corredor e aguardando que Javi Garcia ocupasse o espaço central de modo a equilibrar a equipa. David Luiz fez o oposto: correu para trás, como que fugindo do portador da bola, e para o meio, abrindo uma avenida para que o atacante leiriense progredisse até ao momento de cruzar. Um lance de clara superioridade numérica da defesa encarnada foi assim transformado na melhor ocasião dos leirienses na segunda parte. A abordagem perfeitamente disparatada de David Luiz ao lance denota uma dificuldade particular do jogador em entender quando é que deve atacar o portador da bola e quando é que deve esquecê-lo. Há ainda a possibilidade da opção de David Luiz ter sido condicionada pela movimentação de Carlão, o que é igualmente grave. Nesse caso, David Luiz estaria naquela zona apenas porque Carlão lá estava e, assim que este se moveu nas suas costas, foi atrás dele, acabando depois por perceber que talvez fizesse falta no meio. Qualquer que tenha sido a razão que fez com que David Luiz tivesse cometido este enorme erro, é certo que errou e que fez precisamente o contrário do que deveria fazer. Embora seja mais comum errar ao contrário, tentando atacar o portador da bola quando deve ficar quietinho, a fonte do erro é a mesma: uma má leitura das necessidades colectivas e da adequação das suas acções ao momento concreto da jogada. Aos seus problemas posicionais, de excesso de confiança, de má decisão com bola e de impetuosidade excessiva, acresce assim um que, de certo modo, se relaciona com todos os outros, a patetice. E, como ficou evidente, essa patetice não é minimamente pontual. Acontece recorrentemente e muitas vezes em prejuízo da equipa. Não querer ver isto, retendo na memória apenas o fulgor com que joga, é um problema de falta de juízo tão grande como a falta de juízo que, jogo após jogo, David Luiz faz questão de demonstrar.

quinta-feira, 17 de Setembro de 2009

Bruno Alves, Chygrynskiy e o que significa sair a jogar

Desde, pelo menos, o início do defeso que se falou, com insistência de pregador, que Bruno Alves interessava ao Barcelona. Confesso que esse interesse me pareceu, desde logo, estranho. Não que não fosse possível Bruno Alves sair para um grande clube europeu. A sua reputação, ainda que ache que esteja sobrevalorizada, faz com que os melhores clubes europeus possam olhar para ele como um possível reforço. O problema não estava em Bruno Alves, mas no Barcelona. Isto porque o Barcelona de Guardiola privilegia centrais que pouco ou nada têm a ver com Bruno Alves. É fulcral, nos centrais de Guardiola, uma capacidade para sair a jogar bem acima da média. Os centrais do Barcelona, por aquilo que Guardiola pretende, têm de ter, por principais características, uma capacidade técnica, um poder de decisão e uma segurança no passe notáveis. Isto porque interessa à equipa, numa primeira fase de construção, preservar a posse de bola e progredir no terreno de forma apoiada. Por exemplo, enquanto teve Rafa Marquez e Piqué, Guardiola não utilizou Puyol a central, deixando-o no banco ou fazendo-o alinhar a defesa esquerdo. Puyol é um excelente central, um líder em campo, o melhor representante da alma culé na formação do Barcelona, o mais experiente dos centrais, mas mesmo assim não é das primeiras opções para Guardiola. A razão está no facto de Puyol não ter certas características tão apuradas quanto as suas características defensivas. Piqué e Marquez são menos agressivos, menos rápidos sobre a bola, menos impetuosos, mas possuem atributos técnicos e, sobretudo, intelectuais que lhes permitem, com bola, oferecer algo à equipa quando em construção. A capacidade de passe à distância dos dois é notável, mas não é o único factor a ter em conta. Ambos sobem notavelmente bem com a bola e ambos conseguem encontrar com facilidade um companheiro a quem entregar a bola. Isto é importantíssimo na manobra ofensiva do Barcelona. Ora, em que medida é que Bruno Alves se encaixava nisto? Não se encaixava, de modo nenhum. Bruno Alves não é um defesa que saiba subir com a bola, que encontre soluções de passe com relativa facilidade ou que seja tecnicamente desenvolto. Melhorou substancialmente, ao longo dos últimos anos, a sua capacidade de colocar a bola à distância, mas isso é muito pouco para aquilo que é exigido a um central inserido num modelo de jogo como o do Barcelona. Quando se falava, por isso, do interesse do Barcelona em Bruno Alves, só poderia estar a especular-se. Ora, a especulação advém de certos factos que, por inferência, levam a certas ideias. Beguiristain ter-se-á encontrado com os representantes do jogador e do Porto e isso terá levado a crer a muita gente que o Barcelona estaria interessado em Bruno Alves. De facto, é possível que o Barcelona, na pessoa de Beguiristain, tenha manifestado vontade de contratar o português. O problema aqui é, porém, a pessoa Guardiola. Duvido seriamente que algum dia Guardiola tenha dado o aval para a contratação de Bruno Alves. Aliás, compreende-se facilmente a indefinição nas negociações pela discordância entre Beguiristain e Guardiola. O treinador catalão terá sempre preferido o ucraniano Chygrynskiy e recusado sempre Bruno Alves por via dessa preferência. A dada altura, disse-se que o principal entrave no negócio entre Porto e Barcelona eram os 25 milhões pretendidos pelos dragões, quantia demasiado alta para aquilo que o Barcelona estaria disposto a desembolsar por um central. A verdade, contudo, é que o Barcelona acabou por pagar exactamente isso pelo ucraniano, refutando portanto essa hipótese. Se Bruno Alves não foi para Barcelona, foi porque não interessou a Guardiola.

Por que preferia Guardiola Chygrynskiy a Bruno Alves? É possível que haja quem diga que eles são parecidos e que a idade do ucraniano acabou por ser o factor decisivo. Obviamente, Chygrynskiy tem nos seus 22 anos uma vantagem em relação ao portista, mas discordo totalmente da ideia de que sejam parecidos. A opção de Guardiola não teve a ver com factores extrínsecos como a idade e a margem de evolução, mas sim com características do próprio jogador. Embora tenham alturas parecidas, creio que Bruno Alves faz desse factor uma arma maior que o ucraniano. O problema é que a capacidade aérea dos seus defesas não é uma das coisas mais importantes para Guardiola. Chygrynskiy, apesar de grande, não foi contratado pela sua estatura. A obsessão de Guardiola por ele tem a ver com a sua capacidade técnica, com o facto de ser exímio no passe longo e com a facilidade que tem em sair a jogar, tudo características adequadas ao perfil dos defesas centrais pretendidos pelo treinador catalão. Chygrynskiy é muito mais "macio" que Bruno Alves, não é impetuoso, não é ríspido. No entanto, é muito seguro defensivamente, muito calmo a jogar, posicionando-se normalmente bem e contribuindo com bastante classe na construção ofensiva. Antes da Supertaça Europeia, Guardiola falou da sua obsessão por Chygrynskiy e disse que, além de um defesa central muito bom, como havia muitos, era um central com as características certas para o Barcelona, sendo raro encontrar defesas tão bons com essas características. Parece óbvio, portanto, que a obsessão de Guardiola se explica pelo facto de considerar que não havia grandes alternativas a Chygrynskiy, que os defesas de classe mundial que possuíam as características por ele pretendidas não eram assim tantos. Ou seja, para Guardiola, sempre terá sido Chygrynskiy ou ninguém. Não faria sentido, até, contratar um central se o mesmo não viesse trazer algo de diferente. O Barcelona tinha até, antes da contratação do ucraniano, um excesso de centrais: Marquez, Piqué, Puyol, Henrique e o jovem Muniesa, se não contarmos com Gabriel Milito para já. O problema é que, destes, só Piqué tem qualidade suficiente e é, ao mesmo tempo, o tipo de central que Guardiola prefere, tendo em conta que Marquez iniciaria a época lesionado. Contratar Bruno Alves seria apetrechar-se com algo que já existe, quer em Puyol, quer em Milito, quer até em Cáceres, que mais tarde viria a ser emprestado. Viria trazer apenas quantidade e não diversidade.

A discussão em torno das valências de Bruno Alves e Chygrynskiy pode ser transportada para o futebol português e é possível tentar comparar jogadores segundo as suas capacidades para sair a jogar. Antes, porém, é preciso definir com exactidão o que significa sair a jogar. Sair a jogar tem pouco a ver com correr com bola, com tentar driblar adversários ou com ser capaz de colocar a bola à distância com facilidade. Sair a jogar tem a ver com classe, com elegância, com certeza no passe, com inteligência. Um central bom a sair a jogar raramente tem de tirar adversários do caminho recorrendo ao drible. Faz-me por isso alguma confusão que se afirme que David Luiz é bom a sair a jogar porque de vez em quando galga trinta metros com a bola numa corrida desenfreada e enfrenta os adversários utilizando o seu drible. Um central que drible é um central pouco precavido. Sempre. Sair a jogar não tem a ver com isto. Tem a ver com o privilegiar um desarme em vez de um corte, de modo a que a equipa possa automaticamente reiniciar o ataque; tem a ver com o jogar de cabeça levantada, procurando o melhor colega a quem dar a bola; tem a ver com o perceber quando há espaço para progredir individualmente com a bola e quando não há; tem a ver com o saber pesar as vantagens e as desvantagens de uma subida no terreno; tem a ver com o entender qual a melhor solução para a equipa em cada momento. Quem é, segundo estes parâmetros, melhor a sair a jogar? David Luiz ou Sidnei? Pepe ou Zé Castro? John Terry ou Ricardo Carvalho? Miguel Vítor ou Daniel Carriço? As minhas escolhas ficam invariavelmente pelas segundas opções.

quinta-feira, 10 de Setembro de 2009

A Falta de Escola de Liedson

O lance em questão corresponde à única jogada de perigo criada pela selecção nacional no jogo de ontem frente à Hungria, um lance em que Ronaldo recebe um passe longo após uma recuperação de bola e conduz a bola, com um adversário pela frente, ao longo de quase todo o meio-campo húngaro. Do lado direito, creio ser Deco quem acompanha a jogada, também ele vigiado por outro adversário. Fica a faltar Liedson, que no momento da recuperação, para variar, não estava no sítio certo, estando bastante recuado. Ainda assim, inicia rapidamente a corrida para acompanhar o ataque e para criar superioridade numérica. O que não explicaram a Liedson, porém, foi que para criar superioridade numérica não basta ter mais homens na jogada; é preciso que a movimentação desses homens seja a mais adequada. Logo após a conclusão do lance, os comentadores de serviço gabaram o pique de Liedson, a disponibilidade do luso-brasileiro para chegar à frente com tanta rapidez. Confesso que este tipo de elogios gratuitos à estupidez me provoca uma certa indignação. Liedson corre, é verdade, mas corre a direito. Para quê? Não sei bem. Nem ele o sabe, certamente. Correr a direito, naquela situação, entrando numa zona entre os dois defesas húngaros, foi a pior opção que poderia ter tomado. A opção correcta, essa, era outra. E era fácil de ter sido tomada, tivesse Liedson aquilo a que vulgarmente se chama "escola".

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Ronaldo não foi imediatamente no drible, esperou por reforços. Isso daria tempo a Liedson para passar nas suas costas. Esse simples movimento, não obrigando Ronaldo a dar-lhe a bola, deixaria o defesa húngaro à ilharga de Cristiano sem saber o que fazer e o português com mais opções do que a iniciativa individual. A partir do momento em que Liedson passasse nas costas de Ronaldo, o jogador português que conduzia a bola passava a ter duas opções: soltar para Liedson ou tentar ele a finalização. Isto faria com que a oposição do defesa húngaro fosse menos sólida e a finalização tivesse mais possibilidades de êxito, caso essa fosse a opção de Ronaldo. Liedson deveria ter feito uma diagonal para passar por trás de Ronaldo e não ter corrido em frente feito doido. É esta a diferença entre um jogador de futebol e um tipo que aprendeu a jogar à bola enquanto trabalhava num supermercado; é a diferença entre um jogador de futebol e um rapaz com boa vontade que de vez em quando até está no sítio certo.

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Os erros de David Luiz

Anda para aí muito boa gente deslumbrada com os desempenhos de David Luiz, como se se tratasse do novo Beckenbauer. David Luiz tem qualidades, mas continua a ter defeitos que teima em não corrigir. Mais estranho do que o entusiasmo dos adeptos, é a insistência de Jorge Jesus no jogador, quando Sidnei lhe é francamente superior. Sidnei não comete erros posicionais, não é impetuoso em excesso e não inventa, sendo muito mais seguro a sair a jogar. Aliás, este é outro dos erros em que se insiste. Considera-se que David Luiz é forte a sair a jogar, mas a única coisa em que ele é forte é em fazer disparates. Sair a jogar não significa ser melhor tecnicamente, não significa ser capaz de conduzir a bola para o ataque; significa saber escolher o colega certo a quem endossar a bola, significa desarmar no sentido de ficar com a posse de bola e não de a cortar para fora, significa tomar boas decisões e não somente ter a capacidade de colocar a bola à distância. Nisto tudo Sidnei é bem superior a David Luiz. Ainda assim, o principal problema de David Luiz é em termos defensivos, na quantidade de erros que continua a cometer. E há quem se atreva a comparar-lhe os erros aos de Daniel Carriço, provavelmente o melhor central a actuar em Portugal.

Este texto tem, por isso, a pretensão de revelar alguns dos erros recentes do brasileiro, erros graves que não têm a ver, como muitos julgam, com o facto de jogar a lateral e não a central. Os seus erros têm a ver com índices de concentração, com sentido posicional, com capacidade para se manter emocionalmente estável, com precipitações, com excesso de confiança, etc. E têm acontecido ora quando joga a lateral, ora quando joga a central. Recupero, então, as últimas duas partidas do Benfica (em Poltava e na Luz contra o Setúbal), por ter estado ligado aos três golos sofridos pelos encarnados nesses desafios. Houve ainda outro lance no jogo frente ao Vitória que não deu em golo por mero acaso e no qual David Luiz, após um passe de Di Maria - creio -, passe bastante arriscado, é certo, abordou o lance de forma excessivamente passiva, deixando a bola passar-lhe por trás e sendo captada pelo avançado setubalense que, depois, driblou o central encarnado, acabando, no entanto, por chutar por cima. De qualquer modo, não consegui arranjar imagens do lance, pelo que não falarei mais dele.

Vamos então aos lances:

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1. O lance corresponde ao primeiro golo do Vorskla. Em jogada de contra-ataque do Vorskla Poltava, conduzido pela direita, David Luiz, a actuar a lateral-esquerdo nesse jogo, está estranhamente do lado direito do ataque. O que estava lá a fazer não sei. Sei que não estava onde devia e o Poltava ataca por onde ele deveria estar, obrigando toda a equipa do Benfica a um reajustamento que permite que o lance na área seja disputado apenas pelo avançado ucraniano que faz o golo e por Luís Filipe. É certo que Moreira não fica bem na fotografia, mas David Luiz é o primeiro a comprometer. Além disto, a forma como não acompanha a jogada, sendo que lhe era possível ter chegado à area, ainda que pelo lado direito, denota a pouca preocupação com o papel defensivo que deveria estar a desempenhar. Para acabar em beleza, alguém lhe chama a atenção e é possível vê-lo, no final da jogada, no canto superior esquerdo, protestando com esse alguém.

2. No segundo golo, o mau posicionamento de David Luiz é ainda mais gritante. Inicia a jogada estranhamente metido para dentro e bem à frente da linha de defesa. Depois, reage a um passe na zona central, abrindo ainda mais o buraco que criara do seu lado. Como é óbvio, a bola entra na direita, onde não está ninguém, obrigando Sidnei a corrigir essa lacuna e ficando a defesa desprotegida. O cruzamento acaba por encontrar um avançado ucraniano, que se antecipa a Luis Filipe e faz golo. Javi Garcia ainda tenta ocupar um lugar central, mas David Luiz nem se preocupa em ocupar, pelo menos, a posição de Javi Garcia, que lhe fora fazer a dobra. O lance denota, uma vez mais, displicência, falta de concentração e uma péssima tomada de decisão.

3. A culpa do golo do Vitória de Setúbal pode bem ser atribuída a Quim, que sai dos postes quando não o deveria ter feito. Mas David Luiz é o primeiro responsável, pois tem o lance controlado, mas, por excesso de confiança, demora a atacar a bola e, quando o faz, já Hélder Barbosa lá chegara. Poderia ter resolvido facilmente o lance quer passando de cabeça para César Peixoto, quer aliviando mais prontamente a bola. Mas não o fez. Confiou demasiado na sua capacidade de reacção e acabou por facilitar.

4. O quarto lance nada tem a ver com David Luiz. Penso que os três anteriores chegam e sobram para que se reflicta um pouco sobre a sua pretensa qualidade. É o lance do quinto golo do Benfica ante o Vitória de Setúbal e é para mim uma ilustração perfeita daquilo que foi o jogo da Luz. Tinha dito que Saviola foi a chave do desafio e que, pela sua movimentação, desconcertou toda a defesa sadina. Nesta jogada, é evidente o porquê dessa minha afirmação. O lance começa com um passe de Luisão para Di Maria, que cruza para Cardozo ajeitar para Ramires. Repare-se, em primeiro lugar, no espaço que há entre os defesas sadinos e o meio-campo, permitindo a entrada de Ramires. Repare-se igualmente no espaço que há entre cada um dos defesas sadinos. Isto só é possível porque Carlos Azenha veio à Luz defender primitivamente homem a homem. Mas repare-se agora onde está Saviola. Atrás de Di Maria. E perto dele - incrível! - o seu marcador directo. O mais caricato do lance é ver Di Maria pronto a cruzar, com um defesa perto dele, enquanto o marcador directo de Saviola, em vez de estar a olhar para o lance e perceber como se deveria posicionar em função do mesmo, anda à procura de Saviola, virando várias vezes a cabeça para ver se o pequeno argentino não lhe escapava. Nos dias que correm, este comportamento defensivo é ridículo. Este lance demonstra inequivocamente que as razões pelas quais o Vitória foi humilhado na Luz não tiveram nada a ver com a inexperiência dos jogadores nem com qualquer aspecto emocional relacionado com o desenrolar do desafio. Teve a ver, exclusivamente, com a abordagem táctica ao jogo por parte do seu treinador. Se os jogadores estão preocupados com homens em vez de estarem organizados, o único responsável é o treinador. Carlos Azenha não o quis admitir. Falou em desorientação dos jogadores após o terceiro golo. Qual desorientação? Os jogadores já entraram em campo desorientados. E entraram desorientados porque tinham de andar a perseguir individualidades. A movimentação de Saviola, fugindo das zonas de finalização e com isso arrastando os defesas que deveriam ocupar esses espaços, foi por isso a chave da partida.

quinta-feira, 3 de Setembro de 2009

Coisas por dizer

O período de férias impediu que pudesse falar de certas coisas, bem como concluir certas discussões. Ficaram pendentes, entre outras, discussões sobre aquilo que significa um central ser bom a sair a jogar (que não tem nada a ver com o ter boa qualidade de passe ou ser capaz de transportar e progredir com a bola), assunto que retomarei noutro texto, e discussões sobre a legitimidade da opinião, sendo que, para muitos, é consequência de qualquer regime democrático o poder dizer-se disparates. A cada um destes assuntos dedicarei, brevemente, um texto, mas para já importa falar do que se passou esta semana, pois há muito a dizer.

1. Começando pelo que se passou em Portugal ou com os clubes portugueses, uma palavra para a eliminação do Sporting ante uma Fiorentina a jogar muito mal e outra para o Nacional, que conseguiu eliminar o Zenit da Liga Europa. O Sporting confirmou o terrível início de época e, ironicamente, foi mesmo um dos jogadores a quem menos se podem apontar defeitos quem acabou por estar ligado ao golo de Jovetic. Do Nacional, não vi nada, mas este Zenit, sem as principais figuras e sem o treinador Dirk Advocaat, é certamente uma equipa bem diferente e muito menos forte do que o era há um ano.

2. Continuando no Sporting, Liedson voltou aos golos antes da estreia pela selecção nacional. Agora já ninguém se lembra que não marcava desde Maio e já é novamente o maior avançado de todos os tempos. Mesmo que tenha falhado golos escandalosos, lances esses que, se fossem protagonizados por Nuno Gomes, mereceriam ingente reprovação.

3. O Porto também venceu e há quem diga que Varela já começa a mostrar credenciais. Não sei se é pelo facto de ter participado no primeiro golo, no qual cruza sem olhar, ou se é por ter marcado o segundo, num lance em que o defesa esquerdo da Naval ficou a dormir. Neste tipo de jogos, contra adversários incompetentes a defender como o caso da Naval, jogadores explosivos como Varela têm facilidade em encontrar os espaços para poderem executar. O problema será quando estes espaços não existirem. Aí, Varela será só mais um.

4. O Benfica goleou o Setúbal. Desde cedo, antes mesmo do segundo golo, que me pareceu que o desfecho final seria algo parecido com o que aconteceu. As razões eram óbvias. Jesus não iria pedir nunca para os seus pupilos abrandarem e os erros de organização da equipa sadina eram gritantes. Há quem diga que as bolas paradas definiram o jogo. Discordo inteiramente disso. Antes dos lances que deram os golos, já o Benfica demonstrara conseguir penetrar com facilidade na defesa sadina, abrindo espaços graças à falta de educação táctica do conjunto liderado por Carlos Azenha. É verdade que o factor emocional terá ajudado ao desnivelamento do resultado, mas não foi a principal causa. O principal problema setubalense teve a ver com a forma como abordou o jogo. Interessado em marcações individuais, abdicou da organização própria. Sem talento, sem capacidade para sair das zonas de pressão e sem competência para fechar os espaços, a equipa sadina andou de um lado para o outro atrás dos jogadores do Benfica. É natural que uma equipa dinâmica, com jogadores que, sem bola, procuram os espaços livres, consiga arrastar um adversário que se preocupa com os adversários directos. Desconfio até que esta será a primeira de várias goleadas ao longo da época. Naval, Académica, Belenenses e Leixões, sobretudo pelo modo como jogam, são as equipas na calha para o que se segue.

5. Uma das coisas que Carlos Azenha disse quando chegou a Setúbal foi que ia defender à Sacchi. Marcações individuais é o antónimo disso. Mais um que pensa que ler é saber o significado das palavras que vêm escritas nos livros...

6. Se, como treinador, a sua competência não poderia ter ficado mais abalada, como líder poderia ter-se salvado. Optou por não o fazer. Em vez de defender os jogadores, em vez de poupá-los o mais possível à humilhação de modo a recuperá-los e a transmitir-lhes confiança, Carlos Azenha optou por sacudir a água do capote e colocou as culpas num plantel inexperiente, em jogadores de escalões secundários e na incapacidade dos mesmos para aguentar a pressão. Chamou-lhes , no fundo, incompetentes, mentalmente fracos e imaturos. Boa!

7. O melhor em campo, apesar dos três golos de Cardozo e das três assistências e um golo de Aimar, foi Javier Saviola. As movimentações sem bola do pequeno argentino foram perfeitas. Às vezes, parecia que arrastava meia-equipa sadina, abrindo espaços para os colegas, e ainda ficava sozinho. Foi muito por causa da sua movimentação que o Setúbal, apostando em marcações individuais, se desorganizou defensivamente. Sem Saviola, a história teria certamente sido outra.

8. O Braga continua líder e parece jogar cada vez melhor. Domingos, enquanto treinador, sempre me pareceu pouco coerente. As suas equipas tanto tinham coisas fantásticas como denotavam erros de principiante. O seu trabalho na Académica e no Leiria não foi perfeito, embora também não tenha sido fraco. Para já, o seu Braga está a jogar bem. Vamos ver no que dá. As minhas desconfianças começam, contudo, no facto de a aposta em Rodrigo Possebon não ser clara.

9. Hugo Viana está de volta. A pergunta que fica é: se o Sporting andava atrás de um médio, se não tinha muito dinheiro para gastar e se Hugo Viana até manifestou interesse em vestir a camisola verde e branca, por que razão não foi o escolhido?

10. Em Espanha, o Barcelona entra a ganhar com tranquilidade. Já o Real, superou o Deportivo com muitas dificuldades. Pellegrini vai ter muito que fazer para conseguir estar à altura de Guardiola. É sugestão minha que poderia começar por confiar mais em Gago, provavelmente o melhor médio-defensivo da actualidade.

11. O Barcelona conquistou a Supertaça Europeia num jogo de sentido único. O Shaktar interessou-se apenas em defender e o Barcelona mandou no jogo do princípio ao fim. Em muitos momentos, porém, não conseguiu ser rápido na circulação de bola de modo a aproveitar o espaço entre os diferentes elementos ucranianos. Como tal, não conseguiu muitas ocasiões de golo. A ausência de Iniesta deixa o Barça menos criativo e Ibrahimovic está ainda longe da forma física ideal. Valeu um lance de entendimento entre Messi e Pedro, lance que é um exemplo de como o Barcelona é uma equipa e não um conjunto de jogadores. Depois do golo, destaque para a forma como o Shaktar não conseguiu ter bola durante os cinco minutos que faltavam. Mais nenhuma equipa no mundo consegue trocar a bola durante tanto tempo quando o adversário precisa dela.

12. Em Itália, o Inter de Mourinho começou mal, mas compensou goleando o rival de Milão. O primeiro golo é uma obra-prima e um exemplo de como o futebol se joga pelo meio e não insistentemente pelas alas. A circulação rápida da bola e a movimentação constante dos jogadores acabou por abrir espaços para a entrada de um dos médios, neste caso, Thiago Motta, que só teve que escolher um lado. O Inter deste ano promete reavivar tudo o que de bom José Mourinho conseguiu ao serviço de Porto e Chelsea.

13. A Juventus continua a ser, para mim, o principal adversário doméstico do Inter. Desta feita, venceu sem apelo nem agravo a Roma e Diego, o tal que era fraquinho, foi o herói da partida.

14. Em Inglaterra, atenção ao Arsenal. Wenger parece ter deixado de lado, de vez, o 442 clássico. Com isso, deitou fora a principal fonte de problemas do futebol da sua equipa. A jogar em 433, com a filosofia de jogo que sempre revelou, este Arsenal será certamente mais consistente. Para já, um arranque de campeonato impressionante, com duas goleadas, só travado por um resultado injusto em casa do campeão. Em termos individuais, só um idiota poderia dizer que este Arsenal tem argumentos para rivalizar com Chelsea, Liverpool e Manchester, mas em termos colectivos é a equipa mais interessante em Inglaterra. A jogar assim, num 433 com um médio-defensivo nas costas de dois jogadores mais ofensivos e com dois extremos com liberdade para virem para o meio, o Arsenal mantém a dinâmica ofensiva que sempre possuíu sem se desequilibrar constantemente, como acontecia antigamente. Joga assim de forma mais pausada e não sempre em constante velocidade. O futebol é mais atractivo e mais seguro, ao mesmo tempo. Com o regresso de Nasri e Rosicky, se não abandonar estas ideias, o Arsenal tem tudo para fazer uma grande época.

15. O Chelsea lidera e mantém viva a candidatura ao título. O Liverpool começou mal e o Manchester não está em grande forma. O City terá muitos problemas ao longo do campeonato, assim como o Tottenham, que para já ocupa o segundo lugar, com os mesmos pontos que o Chelsea. Vai ser, porém, o campeonato mais interessante dos últimos anos.

16. Em França, Lisandro tem-se fartado de marcar golos. Mas o que é espantoso é mesmo como Cissokho é titular em vez de Grosso. Ferrara é que não desperdiçou a oportunidade de resgatar o internacional italiano e a Juventus arrecada mais uma boa contratação.

17. Na Alemanha, o Bayern de Van Gaal não começou bem, mas Robben veio dar uma injecção de qualidade e já valeu uma vitória. Espera-se um resto de época interessante.

18. Curiosidade de última hora: alguém sabe onde anda Co Adriaanse? Pista: foi campeão na última época, uma vez mais, e o seu nome continua a rimar com competência. Pena é que haja incompetentes, mesmo entre os holandeses, que tenham tanta ou mais reputação. Estou a falar de um que, por acaso, até lidera o campeonato holandês.

sexta-feira, 21 de Agosto de 2009

O Incrivelmente Ridículo Hulk

Tem vindo a crescer, com a importância dada a Hulk no Porto, a indignação contra a forma como o futebol do brasileiro não é protegido pela arbitragem. Começou com a frase importada de uma situação passada com Mantorras, "Deixem jogar o Hulk!", e culminou com a crítica à expulsão do brasileiro na primeira jornada da Liga. Não vi as imagens do primeiro amarelo, por isso não sei com que justiça o viu. Já o segundo é bem mostrado e o único culpado da sua exibição é o próprio Hulk. Não me vou deter, porém, neste jogo e nesta expulsão. Interessa-me, isso sim, debater os protestos de Hulk e de Jesualdo Ferreira, as alegações de que o futebol de Hulk deve ser protegido.

Em primeiro lugar, o árbitro não tem que proteger ninguém. Um árbitro deve ser isento e não a Madre Teresa de Calcutá. A única coisa que tem de fazer é aplicar leis. A aplicação correcta das leis encarregar-se-á de proteger quem tem de ser protegido. Assim, os jogadores mais imaginativos, tecnicamente mais dotados, de drible curto, capazes de esconder melhor a bola, serão sempre mais protegidos, porque serão inevitavelmente travados pela força ou pela transgressão das leis. Uma boa arbitragem protegerá assim, por consequência da aplicação das regras de futebol e não por qualquer diligência de índole caridosa, aqueles que merecem ser protegidos, aqueles que não têm outros argumentos além dos futebolísticos. Ora, não é, de todo, o caso de Hulk. É aqui que começa o ridículo da questão.

Ao contrário do que se pensa e do que se afirma em praça pública, com pompa e orgulho de gente pobre, o futebol não é um jogo de contacto. Muitos dirão que futebol não é basquetebol e que pode haver contacto. A resposta a estes é simples: vão às leis! A única carga permitida é a carga de ombro. E porquê? Porque é uma carga em condições iguais, assente numa superfície de corpo idêntica e em condições de equilíbrio semelhantes. Tirando a carga de ombro, todo o contacto que, de algum modo, perturbe o equilíbrio do jogador em posse da bola deve ser punido. Quem disser o contrário, não sabe o que é futebol. Não implica isto que não possa haver contactos, que um defesa não possa tocar no avançado, que não se possa encostar nele. Pode, evidentemente. O que não pode é usar esse contacto para ganhar vantagem na discussão pela bola; não pode desequilibrar minimamente o adversário para que este execute deficientemente; não pode agarrá-lo minimamente para que perca tempo de execução; não pode, em suma, fazer nada que não seja tentar recuperar a bola. Os melhores defesas são precisamente aqueles que não fazem uso do choque, são os que têm melhor tempo de desarme, os que são mais velozes e perspicazes a ganhar posição, os que percebem mais rapidamente as intenções do adversário, os que se conseguem antecipar melhor, os que lêem melhor as possibilidades de êxito das suas acções.

Aquilo que não se percebe em relação ao contacto é que ele não é uma possibilidade em futebol; é tão-somente uma consequência. Não é permitido usar o contacto físico para ganhar posição ou para ganhar qualquer tipo de vantagem. No entanto, há e deve haver contacto. Mas apenas como uma consequência natural de uma luta saudável pela melhor posição. Para dar um exemplo concreto, dois adversários acorrem a uma bola e um deles acaba por ocupar a melhor posição em primeiro lugar. É natural que, dada a proximidade dos dois, aconteça um contacto entre eles, mas esse contacto é consequência dessa disputa de bola. Em momento algum o contacto deve ser utilizado para ganhar vantagem na disputa da bola. É - repito - apenas uma consequência natural dessa disputa. Logo, todo o contacto que não seja resultado de uma consequência natural deve ser punido.

Isto não vale apenas para os defesas. É também para os atacantes. Em diversos momentos, numa disputa entre um atacante e um defesa, o defesa consegue ocupar a melhor posição face à bola. Se o atacante usar o contacto para recuperar essa posição e manter a posse de bola, deve ser punido tal como um defesa que use o contacto para ganhar posição o deve. É aqui que entra o futebol de Hulk. Hulk, pelas suas características, não é um jogador de drible curto e não tem uma capacidade extraordinária para proteger e esconder a bola. As suas virtudes são a velocidade e a força física. Consegue evitar os adversários muito mais graças às suas capacidades atléticas do que à sua capacidade técnica. Não é, por isso, um jogador que evite o choque. Ele é até uma das suas maiores armas. Assim sendo, a principal razão para que as suas lamentações não façam qualquer sentido é que aquilo de que se queixa é precisamente aquilo que lhe permite ser o que é.

Hulk queixa-se que os defesas não o deixam jogar quando é ele quem, pelo seu estilo de jogo, promove o contacto, quando é ele quem precisa dos duelos físicos para impor o seu futebol. Queria o quê? Que saíssem da frente e não o perturbassem? O futebol é um jogo para futebolistas, não para camiões TIR. Para progredir individualmente com a bola não basta metê-la para a frente e passar por cima de quem se coloca no meio do caminho. Hulk queixa-se também que os árbitros lhe assinalam muitas faltas. Maior parte delas são, de facto, falta. Mais uma vez, parece que queria que fossem criadas leis especiais em que só era falta quando fosse cometida sobre ele. Resulta disto que Hulk me parece não ter noção de quão ridículo é. O seu futebol vive da força e não me parece que o consiga perceber. Julga-se Maradona, certamente. Mas tem pouco a ver com o astro argentino. É que esse levava porrada porque saía do meio de três adversários com a bola controlada sem lhes tocar. Hulk sai do meio de três adversários pondo a bola para o lado e correndo ou deitando-os abaixo. O seu futebol vive da força e precisa até dela. Como tal, maior parte dos lances são disputados no máximo, sendo por isso muitas vezes impossível fugir ao contacto. É natural, por isso, que cometa muitas faltas, porque joga no limite, e que muitas vezes vá ao chão, porque tenta furar, sem arte, por onde nem Maradona se atreveria a passar. A única protecção de que Hulk necessita, portanto, é a de poder passar a entrar em campo conduzindo um carro blindado. Seria certamente mais difícil derrubá-lo.

Se o incrível Hulk me parece incrivelmente ridículo ao julgar que não o deixam jogar, já Jesualdo me parece desonesto. Fala em "falta de coragem para aplicar as leis" e imagina que Hulk esteja mesmo a ser prejudicado. O que queria Jesualdo? Que os adversários se pusessem em fila e abrissem o mais possível a defesa para não incomodar o brasileiro. O futebol não é um jogo de contacto, mas um jogo de posição. Os defesas têm por competência ocupar, a cada instante, a melhor posição possível de modo a vedar o caminho da baliza ao adversário. Se, por acaso, o adversário tem um tipo de futebol que consiste em tentar passar por cima dos outros, os defesas não têm a culpa. Ainda não vi nenhuma entrada à margem das leis sobre Hulk que não tivesse sido punida condignamente, ainda não vi entradas para aleijar sobre o brasileiro, ainda não vi nada que não fosse a normal função de um defesa. Hulk é que julga que é um comboio. E Jesualdo ajuda, fazendo "Puh-puh, pouca terra, pouca terra..."

quinta-feira, 20 de Agosto de 2009

Elogio a Paulo Bento

Nos primeiros anos como técnico leonino, Paulo Bento iludiu como treinador: personalidade, coragem e uma primeira época (de raiz) em que, para além de ter vencido a Taça e lutado pelo campeonato até ao último minuto, a equipa jogava bem (não dava "show" como o Sporting de 2004/2005, mas apresentava um futebol mais equilibrado, que lhe permitiu, aliás, bater-se de igual com os grandes da Europa). Na Champions, o único resultado verdadeiramente decepcionante foi a derrota, em casa, num jogo em que tudo correu mal aos leões, contra o Spartak; nos confrontos com o Bayern e o Inter, cujos resultados, nos quais saiu derrotado pela margem miníma, não espelharam a qualidade demonstrada pelo conjunto leonino (sendo que, contra os bávaros, o conjunto orientado por Bento só não saiu vitorioso de um desses jogos por manifesta infelicidade).

No entanto, existiam alguns pormenores que, para o Entre Dez, eram incompreensíveis: a insistência num jogador como Liedson, o "abrir mão" de um jogador como Deivid, a aposta (demasiado) tímida em Pontus Farnerud, o esquecimento a que vetou um talento como Diogo Tavares, etc. Tudo isto eram pontos negativos mas, tendo em conta os outros factores, aparentemente positivos, o saldo da balança na apreciação ao treinador era, à partida, extremamente positivo.

Na segunda época, os equívocos continuaram, se bem que misturados com opções que eram, aparentemente, sinónimo de estarmos perante a solução ideal para um clube como o Sporting: se a opção por Gladstone não dizia nada de bom deste treinador, já a chamada de Paulo Renato e Pereirinha, a meio da época, parecia uma demonstração de que Bento prentendia tirar todo o proveito dos produtos da academia de Alcochete. Já a opção por Purovic e a justificação para a mesma, a necessidade de ter um jogador diferente para poder abordar de uma forma mais directa alguns adversários durante os jogos, até se poderia entender, com alguma boa vontade, como um raciocínio inteligente, uma forma dinâmica de ler as várias dificuldades com que uma equipa como o Sporting, muito provavelmente, se iria deparar. Mas nada disso fazia sentido. Mais do que isso, demonstrava de forma dissimulada, é certo, uma tendência para abdicar de uma das maiores virtudes do Sporting2006/2007: a qualidade (e quantidade) na posse e circulação da bola. O Sporting, na época 2007/2008, passou a jogar com uma maior ansiedade na procura do golo, tentando chegar mais rápido à baliza adversária, e isto à custa de um posicionamento mais largo da equipa no campo. O Sporting apresentou-se com os sectores mais afastados tanto em largura como em profundidade. Este facto veio promover uma maior dependência das acções individuais por parte dos seus jogadores. Com um futebol mais partido, a formação leonina passou a sentir, progressivamente, grandes dificuldades perante equipas que optassem por dividir o jogo contra os comandados de Bento: por não se remeterem a uma estratégia essencialmente defensiva (em alguns casa até acontecia exactamente o contrário) conseguiam exponenciar as debilidades que o "novo" modelo de Bento apresentava. Esta época foi ainda uma época que ficou marcada pelo reforço da equipa sportinguista por uma das maiores promessas dos ultimos anos: Bruno Pereirinha. As primeiras aparições de Bruno Pereirinha não me desiludiram em nada. Antes pelo contrário, apresentou maturidade e concentração, virtudes que, aliadas à inteligência que possuía e aos atributos físicos e técnicos que já havia demonstrado ao serviço quer dos juniores, quer do Olivais e Moscavide, indicava que a breve prazo o mundo se iria surpreender com mais um grande talento leonino. No entanto, nada disto se confirmou. A época leonina não confirmou tudo o que de bom a anterior tinha prometido e nem o facto de a equipa se cruzar perante adversários de inesquestionável menor valia lhe permitiu alcançar resultados de destaque nas competições europeias. Nas competições internas, salvou-se a conquista (de mais uma) Taça de Portugal, com o mais improvável dos heróis, visto que no campeonato as reais hipóteses de o Sporting lutar pelo título ficaram afastadas muito antes do térmito deste.

A terceira época de Bento foi apenas o corolário de todos os erros que o caminho pelo qual optara necessariamente implicaria: 442 clássico, sectores ainda mais afastados, a opção por jogadores que privilegiam o jogo directo, decréscimo acentuado da qualidade de jogo e das reais hipóteses de o Sporting se assumir candidato ao que quer que seja. Uma época patética sem nível, de constantes humilhações, em que até os seus jogadores entraram numa fase de regressão. Moutinho estagnou, e quem o viu no primeiro ano, com Peseiro, decerto não imaginava que continuasse, por esta altura, a um nível semelhante; Veloso, entre conflitos, e um modelo de jogo que não lhe permite evoluir na compreensão do jogo, perdeu todo o brilho que ostentava na sua época de estreia ao mais alto nível; Djálo, um jogador que se apresentou como um jogador com mais do que apenas velocidade, na companhia de um jogador como Liedson, que pretende resolver tudo sozinho em vez de procurar o colectivo, está cada vez mais parecido com o Levezinho, mas sem o capital de confiança que este tem; Pereirinha é o pior caso: ultimamente até na capacidade de decisão parece ter regredido, ja para não falar na gritante falta de confiança de que padece; Adrien, apesar da forte personalidade e de toda a qualidade que possui, vê-se privado de oportunidades devido a uma anedota como é o caso de Rochemback; Patrício será o único que se poderá sentir grato a Bento: apesar de se poder discutir se, por esta altura, Patrício beneficiaria se tivesse sido emprestado nos seus primeiros anos como sénior, a verdade é que a aposta de Bento, lentamente, começa a surtir efeito; Daniel Carriço, apesar de a grande generalidade das pessoas lhe reconhecerem muita qualidade e uma enorme importância na defesa leonina, não vê ser "explorada" toda a sua qualidade, nomeadamente no que toca à sua competência a sair a jogar; André Marques é talvez o que menos se ressente, mas a época ainda agora começou, por isso, ou algo de extraordinário altera a perspectiva de Bento, ou ainda vamos ver um André bem pior do que já vimos.

Finalizando: o caminho de Bento vai de encontro à maioria dos adeptos do futebol em geral e do Sporting em particular. Admito que, pela perspectiva que eles têm do futebol, vendo-o como um desporto que depende de uma série de desempenhos individuais que se vão somando aleatoriamente, o clube de Alvalade até nem está assim tão bem como isso. Mas se o enfoque do treinador se colocasse sobre a capacidade de os seus jogadores se relacionarem e combinarem a sua interpretação do jogo de forma una e colectiva, aí o clube de Alvalade seria dos mais fortes a nível Europeu. Não teríamos Liedson, Rochemback, etc., e teríamos de ter Farnerud, Romagnoli, Custódio, Hugo Viana, etc., o que para o adepto comum seria motivo de um tristeza inefável. O Sporting, porém, encontrar-se-ia neste momento perante um futuro (e provavelmente um passado recente) bem mais próspero.

sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

Defeso, Pré-Época, Novidades, Trafulhices e Mau Jornalismo

1. Lisandro e Lucho foram embora e com eles a capacidade de o Porto ser imprevisível. Agora sim, que ruíu o que restava do legado que Jesualdo encontrou quando chegou ao Porto, o treinador portista terá um teste a valer. Perder Lucho e Lisandro num ano não é o mesmo que perder Pepe, Paulo Assunção ou Quaresma. Lucho e Lisandro eram o motor da equipa, os jogadores mais importantes no desenvolvimente ofensivo do modelo e os principais responsáveis por o Porto não ser apenas a equipa rectilínea de transições velozes que Jesualdo pretende. Lucho e Lisandro conferiam ao modelo imprevisibilidade, espontaneidade, inteligência, variedade. Sem eles, o Porto não será só menos forte na soma das individualidades; será sobretudo menos forte colectivamente, pois eram os elementos que tornavam o colectivo de Jesualdo, reduzido a movimentações rápidas e previsíveis, numa equipa menos vertical, menos refém das transições. Arrisco mesmo a dizer que, tirando um ano em que Quaresma foi determinante individualmente, muito do que Jesualdo conquistou se deveu à possibilidade de contar com estes dois jogadores. Sem eles, a história será outra.

2. Para já, pelo início de temporada, mantém-se a impressão de que Jesualdo não sabe contratar. Falcão e Valeri serão jogadores a rever, mas parecem-me pouco capazes de fazer esquecer os dois argentinos que viajaram para França, sobretudo naquilo que de colectivo estes podiam oferecer. Quanto a Belluschi, aprecio algumas das suas qualidades, embora fique muito a dever, por exemplo, aos criativos dos rivais. O problema é que me parece que o argentino não tem nada a ver com o modelo de Jesualdo. E, ao contrário do que dizem, Jesualdo não adapta o modelo às características dos jogadores que tem. O modelo é rígido e só na frente conhece algumas variações. Tirando os três atacantes, que pelas suas características podem movimentar-se de forma diferente, do meio-campo para trás Jesualdo é inflexível. É por isso que jogadores menos tácticos e de toque mais curto, capazes de desequilibrar em espaços mais curtos, mas menos frios a jogar, têm poucas possibilidades de vingar. Veja-se os casos de Leandro Lima ou de Luis Aguiar. No modelo de Jesualdo, não há espaço para verdadeiros criativos. Os seus médios têm de ser competentes em transição, agressivos, capazes de definir com velocidade. Belluschi, por isso, terá dificuldades para se impor, uma vez que não é um jogador para um futebol tão veloz e objectivo como pretende Jesualdo. Quanto às restantes contratações, Álvaro Pereira é suficientemente bom para ser titular e dar alguma qualidade ao lado esquerdo da defesa. Mas Varela e Miguel Lopes são anedotas. Se pensarmos em Guarín, em Tomás Costa, em Kazmierczak, em Nélson Benitez e em tantos outros, vemos que Jesualdo, ao longo destas épocas, contratou essencialmente mal. Analisando concretamente, temos Rolando e Cissokho, que são jogadores razoáveis e que jogavam porque não tinham concorrência à altura, Fernando, que só encaixou na equipa porque não havia ninguém para o lugar e se conseguiu impor a Pelé e a Guarín, Rodriguez, que já tinha mostrado todo o seu valor no Benfica, e Hulk, que é um jogador que vale pelas suas qualidades individuais e que, por isso, não requer muita atenção. Jesualdo é competente na forma de trabalhar, mas é francamente fraco a avaliar jogadores e tem tido alguma sorte em poder contar com o poderio financeiro do clube.

3. Por falar nisso, para onde foi desta vez o Pelé? E, já agora, uma vez que era, a par do grande médio-centro formado no Guimarães, a grande estrela da selecção de sub-21 da altura, para onde vai também Manuel da Costa? Estes dois colossos continuam a sua descida vertiginosa em direcção ao esquecimento. O Entre Dez bem avisou...

4. Ainda no Porto, cheira-me que este ano o lema vai ser: "Passem ao Hulk que ele resolve..." O problema é mesmo que a única coisa que ele resolve fazer é não passar a ninguém e continuar a estragar jogadas de ataque. Se é verdade que as suas qualidades individuais poderão solucionar alguns problemas ofensivos, não é menos verdade que o Porto será menos equipa, será muito mais previsível e estará dependente da inspiração de um jogador. Será muito pouco... E será sobretudo a confirmação de que o modelo de Jesualdo se baseia nas individualidades e não no colectivo...

5. Por fim, o caso Cissokho. Vender Lucho e Lisandro pelas quantias conseguidas é normal. Vender Cissokho por 15 milhões é estupidamente absurdo. O senegalês é um jogador mediano, que soube ocupar um lugar para o qual não havia concorrência, mas que tem ainda muito a melhorar. Soube cumprir os princípios defensivos exemplarmente, apesar de um início um tanto ou quanto displicente, e valeu-se da sua melhor característica, a força. É um jogador capaz de ser regular, mas sobre o qual não antevejo um futuro brilhante que justifique um investimento tão arriscado quanto o do Lyon. Dito isto, não é possível esquecer todo o processo negocial. O Lyon foi a primeira equipa a mostrar interesse no jogador, mas não ia além dos 7 ou 8 milhões de euros, quantia muito mais consentânea com o valor e com o potencial de Cissokho. O Porto, procurando esticar a corda, ia adiando o negócio. E, de repente, aparece o Milan a oferecer o dobro pelo mesmo jogador. Ninguém com um mínimo de imaginação terá ficado indiferente a este brusco e peremptório interesse do Milan. A primeira coisa que pensei foi que isto era um esquema para que o Lyon decidisse oferecer a mesma quantia. Mas a verdade é que o negócio se consumou. Não querendo acreditar, imaginei ingenuamente que o jogador chumbaria nos testes médicos e voltaria ao Porto, valorizado por uma oferta que afinal não passara de um embuste para fazer crer a terceiros que o jogador tinha mercado e valia o dobro daquilo por que estava a ser pretendido. Quando saiu a primeira notícia sobre os testes médicos falhados, percebi que aquilo que pensara na forma de um gracejo, na forma de uma tentativa de justificar algo que me parecia absurdo, estava afinal bem próximo da realidade. Por coincidência, imaginara exactamente aquilo que veio a acontecer. As razões que me levaram a imaginar o sucedido não poderiam diferir, por certo, das razões que fizeram com que isso acontecesse de facto. Não tenho dúvidas que o interesse manifestado pelo Milan nos dias seguintes não foi mais do que uma forma de reforçar a ideia de que o clube italiano estivera mesmo interessado no lateral do Porto. E o Lyon acreditou. E aceitou pagar o dobro daquilo a que estava disposto. Qualquer pessoa dotada de bom senso perceberá que o Milan nunca esteve interessado em Cissokho. Além da desculpa esfarrapada dos dentes e da oferta repentina e descabida pelo jogador, razões suficientes para fazer desconfiar qualquer pessoa, a equipa italiana, depois de gorado o negócio, não procurou contratar outro lateral-esquerdo. Ora, estavam dispostos a dar 15 milhões de euros por um lateral e afinal nem sequer precisavam de laterais? Não faz sentido. É por demais evidente que o Milan e o Porto negociaram uma transferência fictícia de maneira a valorizar Cissokho para que o único e verdadeiro interessado no jogador, o Lyon, ficasse com a impressão de que havia emblemas dispostos a pagar 15 milhões e que o jogador talvez valesse assim tanto. Expus esta ideia ainda o Lyon não tinha avançado para a contratação de Cissokho, logo após o senegalês ser rejeitado pelo Milan, e houve quem achasse ridículo que um jogador que tinha chumbado nos testes médicos pudesse ficar valorizado. A mim, contudo, parece-me ridículo o contrário, tendo em conta que o jogador sempre esteve apto para jogar futebol. O interesse do Milan - repito - foi uma ficção, uma impostura, e teve a finalidade de impressionar e de acirrar o interesse do Lyon. Tendo em conta a actual conjuntura legal que envolve as negociações de atletas, este embuste, mais do que o reflexo da capacidade negocial dos dirigentes portistas, consiste numa actividade fraudulenta que merecia uma investigação cuidada.

6. O Sporting, ao contrário dos seus rivais, não contratou muito. Matías Fernandez, Saleiro e Caicedo renderam Romagnoli, Derlei e Tiuí. Não tenho nada contra a política financeira e desportiva do clube de Alvalade e acho até absurdo argumentar que tem menos meios que os rivais. Não tendo um poderio financeiro tão elevado, tem uma formação mais competente, o que compensa. E o valor do plantel, por causa disso, não se ressente. Aliás, o plantel leonino não é inferior ao do Porto, por exemplo. Desculpabilizar campeonatos mal conseguidos por incapacidade de competir com o Porto é ridículo. Revela um comportamento hipócrita e tacanho. Se o Sporting não tem conseguido competir com o Porto, é porque não tem sido tão competente. Afirmar que Paulo Bento tem feito o possível e repetir chavões como "sem ovos não se fazem omeletas" é uma atitude bem portuguesa que revela conformismo e servilismo. O Sporting tem argumentos tão ou mais válidos que os rivais, tem "ovos" de categoria com os quais pode fazer "omeletas" formidáveis. Quem pensa o contrário, engana-se.

7. Pela pré-época leonina, auguro uma época sombria. Paulo Bento tem perdido, gradualmente, as suas melhores características. O jogo do Sporting, agora, resume-se a um marasmo sem explicação. Não há motivação, não há alegria. E assim é difícil que haja vontade. O problema do Sporting - repito - é de liderança. Não tem a ver com liderança, porém, no sentido psicológico. Tem a ver com o saber extrair dos atletas o seu melhor, de ser capaz de puxar pela sua vaidade, pelo seu brio. E isso não se faz apenas com um discurso de líder. Faz-se sobretudo usando um modelo de jogo no qual os atletas ao seu dispor se sintam valorizados. No actual modelo, uma coisa feia, rectilínea, que tem por fim chegar à frente o mais depressa possível, que valoriza essencialmente a velocidade e a força física, que pretende jogar apenas pelas alas e não pelo meio, os virtuosos, os inteligentes, os criativos estão amordaçados. O Sporting é, dos três grandes, a equipa com mais jogadores cuja principal característica é a inteligência. Deveria aproveitar esse facto para praticar um futebol inteligente, de posse e circulação de bola, e não o contrário. Pratica um futebol de distrital, um futebol de equipa pequena. Por essa razão, os jogadores entram em campo com os colossos europeus a pensar que lhes são muito inferiores. Daí os desastres com o Bayern; daí o facto de jogadores como Pereirinha e Djaló permanecerem acanhados; daí a estagnação de Moutinho e Veloso; daí a pouca preponderância de Romagnoli e Matías Fernandez; daí a aparência de que Liedson é Deus.

8. As exibições com o Twente foram das piores que vi desde que Paulo Bento assumiu as rédeas da equipa. E não acredito que o Sporting melhore muito ao longo da época. Não acho Paulo Bento péssimo, mas neste momento é prejudicial ao Sporting. Enquanto não sair, a equipa não ganhará nada de importante, permanecerá amarrada a ideias que não podem vingar e os jogadores não evoluirão. Uma vez que a política do Sporting necessita da valorização dos seus activos, Paulo Bento já nem sequer é o homem certo à frente do leme. Os primeiros jogos do campeonato e a eliminatória com a Fiorentina deveriam servir para se reflectir sobre o futuro do Sporting, até porque, muito provavelmente, esses jogos comprometerão toda a temporada.

9. Liedson leva mais de 500 minutos sem marcar, não é? Isso dá o quê, 6 jogos? E Postiga foi o melhor marcador da equipa na pré-época, não foi? E quem é que Paulo Bento tirou para fazer entrar Caicedo, o rapaz que ainda não marcou um golo esta temporada e que não ganhou um lance durante o jogo, ou o melhor marcador da equipa na pré-temporada? É por haver estes tipo de indiscutíveis que há "azias" permanentes no balneário. É de todo irresponsável e errado censurar Miguel Veloso, Djaló ou Vukcevic por ficarem chateados por não jogar. A responsabilidade não é deles; é de Paulo Bento e das suas ideias preconcebidas.

10. No Benfica, nem tudo são rosas, apesar de o início de época ser auspicioso. A indefinição quanto ao guarda-redes titular, a incapacidade de se perceber que Sidnei é evidentemente o melhor central encarnado e que David Luiz, neste momento, não só não pode ser lateral como não tem lugar a central, as desconfianças em relação a Shaffer, o melhor defesa-esquerdo a actuar em Portugal, a discrepância entre o aplauso constante a Javi Garcia e o apupo permanente a Yebda, quando são jogadores de um nível idêntico, um melhor posicionalmente, outro mais ágil e agressivo e tecnicamente superior, a dificuldade que se adivinha em gerir expectativas quando há jogadores de estatuto idêntico que vão ficar necessariamente de fora (entre Carlos Martins, Ruben Amorim e Ramires só vai jogar um), o excesso de avançados, etc., são alguns dos problemas individuais que poderão comprometer a temporada. Há que ter em conta essas coisas no momento de elevar as expectativas.

11. Outro problema, para mim o principal em termos colectivos, está relacionado com o sistema táctico e com a abertura que se nota no meio-campo. O Benfica de Jesus, ao contrário do que tem sido apontado, não joga em 442 losango, mas sim em 4132, com Aimar a jogar na mesma linha dos interiores. Não sendo alas, estes dois homens jogam então necessariamente mais abertos do que num 442 losango, em que seriam responsáveis mais pelo trabalho interior do que pelo exterior. No Benfica de Jesus, esta amplitude permite à equipa maior largura, mais velocidade, mas compromete o centro do terreno e os apoios pelo miolo. Além de a ligação entre meio-campo e ataque não ser garantida com tanta facilidade, pois o 10 joga mais afastado da dianteira, o que afasta os sectores e prejudica necessariamente a pressão, a equipa perde ainda um apoio frontal, um homem a aparecer frequentemente no espaço entre linhas, tão útil no futebol moderno. Sem isso, o Benfica terá de ser constantemente dinâmico, terá de cair na vertigem de jogar sempre com uma intensidade elevadíssima e será incapaz de controlar o ritmo de jogo quando lhe convier que este seja mais pausado. O Benfica será, por isso, uma equipa muito dependente dos dois momentos de transição e aí terá de se defender com a sua capacidade posicional. Se o posicionamento de um médio-defensivo garante o equilíbrio em relação à defesa, é à frente dele e sobretudo ao lado que me parece que há espaços indevidos. Os interiores, sendo responsáveis pelo trabalho exterior, não estão constantemente a fechar no meio e isso, sobretudo em transição, pode ser fatal. Nesta pré-época, o principal problema defensivo do Benfica foi precisamente o espaço entre o médio-defensivo e os outros três médios, coisa que, não sendo corrigida, pode trazer amargos de boca nada agradáveis.

12. Escalpelizados os principais defeitos do Benfica de Jesus, resta uma palavra de apreço pelo futebol praticado, provavelmente o melhor nesta década para os lados da Luz. Considero o Benfica o principal candidato ao título esta época. Individualmente, tem um plantel fortíssimo. Colectivamente, tem o homem certo à frente do leme. E a concorrência parece bastante debilitada, seja o Porto pelo muito músculo e pouca cabeça, seja o Sporting pela incapacidade de compreender a força do seu plantel.

13. Para os detractores de Aimar, esta será uma época de poucas palavras. O argentino é o jogador mais talentoso do campeonato português e, inserido num modelo de jogo que potencia o verdadeiro talento, vai certamente encantar. A inteligência de Jesus começou a ser revelada no preciso momento em que reconheceu que Aimar era o jogador mais importante da equipa, entregando-lhe a batuta e construindo o resto em função da sua existência.

14. Aimar e Saviola formarão a dupla mais temível da Liga Portuguesa. A importância da relação entre dois ou mais jogadores costuma ser pouco valorizada. Já referi que essa era a principal arma do Porto nas últimas épocas e que Lisandro e Lucho se entendiam como ninguém. Agora que saíram de Portugal e que, no Sporting, Paulo Bento insiste em não aproveitar a capacidade intelectual dos seus jogadores para criar duplas ou triplas que se entendam muito bem, é no Benfica e nesta dupla de argentinos que reside o grupo de jogadores que melhor se entende no futebol português. É de assinalar a facilidade com que jogam um com o outro, caindo às vezes no exagero saudável de trocarem a bola entre si num espaço de três metros, enquanto os adversários andam à rabia.

15. Das restantes equipas da Liga, destaco Braga e Vitória de Guimarães, por me parecerem aquelas que reúnem melhores elementos a nível individual. Com Madrid, Possebon, Hugo Viana, Mossoró, Alan e Linz, Domingos Paciência está obrigado a fazer um grande trabalho. De igual modo, com Custódio, Desmarets, Nuno Assis, Rui Miguel, Jorge Gonçalves e Douglas, Nelo Vingada também não se poderá queixar de falta de qualidade do meio-campo para a frente. O Marítimo de Carlos Carvalhal, pela competência que lhe reconheço, terá também uma palavra a dizer no que diz respeito aos lugares europeus. Estou com alguma curiosidade para ver o que Jorge Costa fará neste regresso à primeira Liga, pelo que não sei até que ponto o Olhanense não será uma surpresa agradável. O Nacional é um clube estável e ocupará, por certo, posições confortáveis. O Vitória de Setúbal, a Naval, o Rio Ave, o Leiria, o Belenenses, o Paços, a Académica e o Leixões parecem-me as equipas mais débeis e prevejo que sairão deste grupo as duas despromovidas.

16. Em Inglaterra, o Manchester perdeu Ronaldo e Tevez de uma assentada. Vieram Owen e Valencia, o que deixa a equipa bastante inferiorizada. Poderá ser a época de explosão de Nani, mas creio que o reinado dos Red Devils estará ameaçado. Liverpool e Chelsea são, para mim, os principais favoritos à conquista do campeonato.

17. O Arsenal de Wenger reúne talento que nunca mais acaba, mas o sistema táctico manter-se-á o principal problema do treinador francês. As saídas de Adebayor e Touré não são graves, se pensarmos que há Fabregas, Rosicky, Nasri, Arshavin, Van Persie, Walcott, Eduardo e Carlos Vela, mas teriam de ser incluídos num modelo que os beneficiasse... Na rigidez de um 442 clássico, não há médios vocacionados para preencher tanto espaço, nem tantos criativos como Wenger tem ao seu dispor usufruem da liberdade que seria desejável.

18. O Manchester City contratou muito, mas mantém um treinador incompetente. Apesar de ter contratado bastante para o ataque, a defesa não está mal apetrechada. Zabaleta, Micah Richards, Kompany, Touré e Wayne Bridges deverão conferir qualidade ao sector. No meio-campo, há também alguns jogadores de qualidade, como Gareth Barry ou Martin Petrov. Mas Robinho, Santa Cruz, Adebayor e Tevez mereciam um treinador a sério.

19. Em Itália, continua a revolução de mentalidades. Ainda há muita gente que acredita que o futebol italiano é fechado, mas a verdade é cada vez menos condizente com esse preconceito. Há muito que o futebol italiano deixou de ser defensivo e este ano parece-me que se dá mais um passo rumo à desacreditação de tais ideias. Mourinho jogará de forma completamente diferente, pressionando provavelmente muito mais alto, e, contratando convenientemente para o meio-campo, terá equipa para lutar novamente pela Liga dos Campeões.

20. A Juventus será talvez o mais sério rival do Inter. Diego, Tiago, Camoranesi e Filipe Melo seriam as minhas escolhas para o meio-campo. Del Piero e Amauri constituíriam a dupla ofensiva. Não esquecer Giovinco, que este ano deverá aparecer em força.

21. O Milan de Leonardo parece-me estar um pouco abaixo da concorrência. A chegada de Huntelaar trará qualidade ao ataque, mas, pelo que pude ver na pré-época, os processos ofensivos passam muito por esperar que Ronaldinho esteja inspirado. Se Beckham regressar a Milão, como se diz, um 442 losango com Pirlo, Beckham, Seedorf, Ronaldinho, Huntelaar e Pato, bem trabalhado, seria demolidor.

22. Em Espanha, as contratações milionárias do Real Madrid fizeram furor. O Barcelona será novamente campeão e o resto é conversa.

23. Dispensar Huntelaar e Van der Vaart é uma palermice. Se acrescentarmos a esta lista a pouca vontade de Pellegrini em contar com Sneijder, Robben, Guti ou até mesmo Gago, parece-me evidente que o Real vai ser uma equipa de gente com músculos, mas sem muitas ideias. E duvido que Kaká consiga compensar tanta desorientação. Depois, contratar Granero, um jovem da cantera que regressou este ano do Getafe que pouco ou nada vai jogar e ceder o jovem Daniel Parejo, um jogador muito mais talentoso e com uma margem de progressão assombrosa, revela muito do que é este clube. Em resumo, o Real contratou em demasia e terá muitos problemas em formar uma equipa.

24. O Barcelona manteve a estrutura e contratou pouco e bem, como se recomenda. Não será por acaso que as duas contratações dos catalães, Maxwell e Ibrahimovic, passaram pelo Ajax. Também não é por acaso que Bruno Alves não foi para Barcelona e que Guardiola tenha optado por fazer regressar o central brasileiro Henrique. E também não é por acaso que o Barcelona se manterá como o mais forte candidato à vitória na Liga dos Campeões.

25. Para finalizar, um pequeno aparte sobre um momento da pré-época. Gosto de defender quem merece ser defendido e atacar quem merece ser atacado. Del Piero falhou um penalty na final da Peace Cup e a Juventus acabou por não ganhar a competição. Aos risos, que são naturais, juntou-se a estupidez de quem gosta de ser estúpido e falou-se em um dos piores penalties de sempre. A estupefacção tomou conta de mim. É verdade que Del Piero falhou, mas o penalty não foi mal marcado. Antes pelo contrário, Del Piero fez tudo o que o que deveria ter feito. Repare-se que ele modifica a corrida no momento anterior ao remate, tentando enganar o guarda-redes. Tecnicamente, não foi displicente. Ele sabia exactamente o que ia fazer e a sua ideia era fazer o guarda-redes cair para um lado e chutar para o meio. Aliemos a isto o facto de o guarda-redes, nas quatro penalidades anteriores, ter sempre tentado adivinhar o lado para onde o avançado ia chutar. Del Piero esteve certamente com atenção a isso. Sabia que o guarda-redes preferia adivinhar o lado e não haveria melhor forma de convertê-lo do que chutando para o meio da baliza. Tendo em conta que Del Piero raramente bate para o meio, o penalty foi até imprevisível. Por paradoxal que pareça, o guarda-redes defendeu a bola porque foi burro. E com a burrice dos outros é difícil de contar. Se o guarda-redes fosse inteligente, jamais decidiria ficar quieto. O que ele imaginou foi que Del Piero, por ser um craque, iria tentar bater à Panenka. Mas isso não é ser esperto. É ser burro. Porque Del Piero nunca bate à Panenka. Teve sorte e a bola bateu-lhe nos pés. Às vezes os burros têm sorte. E os comentadores, sem se darem ao trabalho de raciocinar, nem perceberam que o penalty foi bem batido, quer em termos de decisão, quer em termos técnicos, e que não houve displicência alguma. Houve sim sorte do guarda-redes. Catagolar um penalty bem batido que não deu golo porque o guarda-redes teve sorte como um dos piores penalties é uma doença grave. Ou então é aquele impulso de homem das cavernas de relatar factos surpreendentes aos outros, de contar histórias mirabolantes, como se conhecer tais histórias fizessem essas pessoas mais sábias, e que conduzem ao exagero de falar de coisas normais como se fossem coisas extraordinárias. Veja-se o que a redacção do Mais Futebol escreveu a seguir: "Curiosamente aquele não era mesmo o momento de Del Piero: para além de falhar o penalty, o internacional italiano falhou também a «recarga» - que de qualquer forma não ia valer, mas que fez em desespero de causa." Pois, o que o Del Piero queria era mesmo fazer a recarga. Claro. Nem estava irritado por não ter marcado nem nada. Ele queria mesmo era fazer a recarga... E chamam a isto jornalismo? Isto não é jornalismo; isto são bandalhos a dizer asneiras...

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

O que é um Lateral?

É já excessivamente sabido que, na concepção peculiar que temos do jogo por aqui, nenhum jogador, em nenhuma posição salvo talvez a de guarda-redes, tem funções específicas. Como concebemos uma equipa como um colectivo perfeito, toda e qualquer função deve ser do colectivo. A cada elemento do colectivo resta agir de acordo com a posição em que joga. Assim, ninguém tem a função de marcar golos, ou de pautar o jogo ofensivo da equipa, ou de recuperar bolas, ou de marcar adversários. Todas as funções são da responsabilidade do colectivo, entidade abstracta que consiste na relação entre os elementos que o compõem. Não estou a dizer com isto que essas funções devem ser alcançadas pela soma do esforço de cada um dos elementos. É mais do que isso. Devem-no ser pela própria relação entre os elementos. Perceber isto pode parecer simples, mas acredito que não é. Para dar um exemplo prático, sempre que se diz que o jogador mais criativo de uma equipa deve jogar mais recuado, em zonas de menor densidade, para poder pegar no jogo, comete-se necessariamente o erro de pensar que, por ser o jogador mais habilitado a conduzir os ataques da sua equipa, deve jogar onde o pode fazer com mais à-vontade. Discordo inteiramente disto. Isto é atribuir a esse jogador um determinado papel dentro do conjunto. Nenhum criativo deve ser responsável por assumir a condução do jogo ofensivo. Isso é tarefa do conjunto. Da mesma maneira, sempre que se diz que um jogador, em trabalho defensivo, deve ocupar uma determinada zona, está a atribuir-se a esse jogador a responsabilidade de vigiar uma zona específica. Não concordo com essa forma de defender. Nenhuma zona é da responsabilidade de ninguém, como nenhum adversário é da responsabilidade de ninguém. Defender à zona não tem nada a ver com cada jogador ter uma zona para vigiar. Tem a ver com relacionar-se correctamente com os colegas, com a bola, com a baliza e com o espaço.

Dados estes exemplos e tendo-se explicado sucintamente a ideia de nenhum jogador ter funções em campo, gostaria de partir para o caso particular dos laterais. Para muita gente, um lateral deve ter tarefas como subir pela faixa, cruzar, dobrar os centrais, etc. Não concordo com esta visão redutora da coisa. Um lateral, como outro jogador qualquer, tem por missão ocupar a sua posição e tomar a melhor decisão a cada momento. As suas tarefas são, pois, coisas gerais, que se pedem a todos os jogadores. A diferença está no facto de o seu espaço de acção não ser o mesmo. Assim, é a posição em relação aos colegas que é diferente. E é, portanto, o espaço geográfico que deve ocupar que determina o seu comportamento e não o contrário. Se é lateral, deve ser o último a fechar, na linha defensiva, quando a jogada se desenrola do lado contrário; deve ser ele a pressionar o portador da bola quando a jogada se desenrola do seu lado; deve servir de apoio recuado quando um colega tem a bola no seu flanco; deve dar profundidade quando a jogada se desenrola do lado contrário; etc. Ou seja, toda a sua acção é determinada não por ter tarefas específicas, mas por jogar numa posição que o obriga a agir de determinada maneira porque se relaciona de determinada maneira com o resto da equipa. Ora bem, assim sendo, um lateral competente tem pouco a ver com um jogador potente fisicamente que consiga percorrer quilómetros pela faixa, ou com um jogador muito dotado tecnicamente, ou com um jogador que saiba cruzar como ninguém. Um lateral competente será aquele que se relacionar bem com a equipa, com a estrutura em que está inserido; será aquele que souber ser um apoio recuado quando um companheiro tem a bola na faixa, à sua frente; será aquele que souber dar profundidade quando é necessário dá-la; será aquele que souber fechar no meio quando o adversário ataca pelo lado contrário ao seu; será aquele que souber ocupar espaços em rearranjos defensivos motivados pela deslocação de um colega em acção de pressão; e será sobretudo aquele que, com bola, melhor servir as intenções de posse e circulação de bola da equipa em acção ofensiva.

Sem querer menosprezar as preocupações defensivas de um jogador, é em acção ofensiva que me parece importante interpretar a qualidade de um jogador. Isto porque, numa equipa que queira mandar no jogo, que queira assumir as despesas da partida, maior parte do tempo será passado em acção ofensiva. No que diz respeito, portanto, a um lateral, parece-me fulcral não só a capacidade de se movimentar sem bola, fornecendo apoios ou explorando a profundidade, como principalmente aquilo que faz quando tem a bola nos pés. Se a ideia, numa equipa que quer mandar no jogo, passa por ter, em quantidade e em qualidade, a bola, todos os jogadores devem ter por princípio a acção de preservar a posse de bola. Assim, com bola, um lateral deve ter por principal prioridade o vir para dentro, o jogar no meio, o dar nos médios. Ao contrário da grande maioria dos laterais, que prefere jogar ao longo da linha (o que dificulta significativamente a recepção de bola e prejudica a preservação da mesma), o lateral competente é aquele que pouco ou nada joga pela linha, que prefere jogar curto no meio, num médio ou no trinco. Dessa forma, a equipa em posse vai a um lado, regressa ao meio, vai ao outro, regressa ao meio. E com isto obriga o adversário a oscilar, abrindo espaços para progredir. Os laterais, numa equipa que jogue assim, deverão, por isso, ter por principal acção jogar para dentro e não insistir pela linha. Um lateral que o faça recorrentemente será sempre mais competente, do ponto de vista ofensivo, do que um lateral possante, bom no drible, capaz de acções individuais notáveis. O que está aqui em jogo é a competência colectiva do lateral em contraste com a sua competência individual. Privilegiar a sua competência colectiva é o modo de manter a coerência quanto à inexistência de funções em cada jogador da equipa.

Recuperando as principais características daquilo que considero um lateral competente, temos que deve ser 1) sem bola, um jogador capaz de perceber o espaço que deve ocupar em função dos colegas, seja em acção defensiva a fazer coberturas ou em acção ofensiva a fornecer apoios ou a dar linhas de passe e 2) com bola, um jogador interessado em manter a posse de bola, um jogador que jogue curto e para o meio. Dito isto, é para mim absolutamente incompreensível a desconfiança generalizada em relação ao lateral esquerdo argentino do Benfica, Shaffer. Desde o primeiro jogo de pré-época que Shaffer me impressionou pela positiva. Além dos atributos técnicos inegáveis e de a cruzar ser, provavelmente, o melhor lateral que passou pelo campeonato português nos últimos cinco anos, Shaffer revela preocupações colectivas acertadas e possui essa virtude, tão rara actualmente, de ter por primeira opção jogar para dentro, para um médio que vem buscar ou para o trinco poder rodar o jogo. Sem bola, é também perfeito a dar profundidade pelo seu corredor e funciona muito bem como apoio recuado quando é preciso. É verdade que, em termos defensivos, ainda pode melhorar, mas não tenho dúvidas que é, talvez a par de Fucile, o melhor lateral em Portugal no que diz respeito à qualidade que confere à posse e circulação de bola da sua equipa.

Jorge Jesus parece não confiar no argentino, possivelmente por ser para ele imprescindível que o seu lateral seja perfeito a defender. Mas além de perder tudo o que de bom, em termos ofensivos, Shaffer pode dar, e que é muito, não me parece convincente que o exemplo seja David Luiz, que a defender, como lateral, é uma perfeita anedota. César Peixoto será, provavelmente, aquele que merecerá a confiança imediata de Jesus. Admiro muitíssimo o ex-bracarense e acho que pode ser uma mais-valia para o Benfica, mas tenho sérias dúvidas que consiga dar ao Benfica o mesmo que Shaffer dá (sem contar com o potencial de evolução do argentino). E, depois, resta ainda saber se, em acção defensiva fará assim tanta diferença. Até porque aquilo que falta a Shaffer (e que não é assim tão grave quanto se tem dito) é o mais fácil de corrigir, isto é, o seu comportamento sem bola, quando tem de dar atenção apenas ao movimento dos colegas e perceber a evolução defensiva da estrutura em que está inserido. Seria mais grave se faltasse a Shaffer perceber o que é correcto fazer quando se tem a bola, pois as variáveis são maiores. Mas nisso o argentino parece-me insuperável. Peixoto é um jogador mais vertical e as suas rotinas de jogo são as de um médio ou de um extremo. É pouco provável que, enquanto lateral, tenha a preocupação de jogar para dentro tão acentuada quanto Shaffer. E isso prejudicará necessariamente a posse de bola encarnada. Se esse prejuízo será decisivo ou não, logo se verá.

terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Sporting e a Formação: que Futuro?

Depois de ver o jogo entre o Barça "B" e a equipa principal do Tottenham pergunto-me sobre o que é que é preciso mais para se perceber que o Barcelona vale pela filosofia de jogo, pelo modelo implantado desde as camadas jovens, e não pelas individualidades (estas, e o respectivo desempenho, sim, são influenciadas pelo modelo implementado).

Neste jogo, vimos um Barcelona "mandão", que só não o venceu por manifesta infelicidade. Nomes como o de Montoya, Fontás, Victor Sanchez, Oriol, etc., não envergonharam em nada o campeão da Europa. E isto tudo porque existe uma grande afinidade e identificação com os mecanismos e padrões da equipa. Por isso, o Barça é a melhor escola do Mundo! Porque a formação catalã é contextualizada, eles formam jogadores para jogar na sua equipa principal e não nos seus adversários. Com isto quero dizer que os seus jogadores são "formatados" segundo as características da filosofia de jogo adoptada pelo clube, de tal forma que estes jogadores, muito provavelmente, só conseguem explorar todo o seu potencial no Barça.

Em Portugal muito se fala da formação do Sporting; se por um lado se admite que é a melhor em Portugal, por outro critica-se o facto de nos séniores não se utilizar o mesmo sistema táctico dos escalões de formação.

Realmente, devo admitir que deveria existir um padrão que servisse quer os esclões jovens, quer os séniores. Mas esse padrão deverá ir muito para lá do sistema táctico. Deverá compreender, também, o mesmo estilo e modelo de jogo. Isto permitiria ao clube, por um lado, executar uma selecção (e evolução) mais correcta dos seus jovens jogadores; por outro, facilitaria a introdução dos jovens talentos no plantel principal (fruto da identificação dos jogadores com o modelo que vão encontrar).

Assim, o Sporting não só não salvaguarda os interesses do seu maior activo, a formação, como não consegue evoluir no futebol sénior através da exploração do filão que tem na Academia. Promovendo ingressos de elementos juniores na equipa principal de forma anárquica, não consegue explorar todo o potencial dos jogadores que vão sendo formados.

Não existe um padrão e, por isso, tão depressa se forma jogadores como Diogo Tavares, Ricardo Nogueira, Carlos Saleiro, e outros como Silvestre Varela, Wilson Eduardo, André Cacito, etc. Se os primeiros são jogadores que se poderiam associar a grandes escolas como a do Ajax e Barcelona, devido à capacidade de perceber o jogo e ao facto de privilegiarem soluções colectivas, em detrimento das individuais, os jogadores do segundo grupo são exactamente o oposto: primitivos, o seu único proposito é explorar as suas caracteristicas físicas para o seu sucesso individual, relegando para segundo plano os movimentos colectivos.

Esta esquizofrenia não só é prejudicial para os elementos da formação leonina como impede que o aproveitamento desses elementos contribua, da melhor forma possível, para a evolução da equipa principal de Alvalade. E o Aurélio Pereira, infelizmente para o Sporting, não é eterno...

sexta-feira, 31 de Julho de 2009

Romagnoli, Matías Fernandez e o Colectivo do Sporting

O Sporting arranca para a nova temporada com apenas duas ou três caras novas. No onze inicial, aparece apenas Matías Fernandez, que rende Romagnoli. O chileno tem classe que nunca mais acaba, é inteligente, rapidíssimo a executar, raramente complica e, mesmo assim, o Sporting é ofensivamente uma nulidade. O que é que está mal? Aqueles que insistem em encontrar bodes expiatórios nas individualidades e não nas relações que as individualidades mantém com o colectivo jamais chegarão a conclusões plausíveis. Pessoalmente, o mau futebol deste início de temporada da equipa leonina não me surpreende minimamente, pois radica num problema que não é novo e que é de natureza exclusivamente colectiva. Mudar argentinos por chilenos, por isso, é como mudar, na confecção de um bolo, ovos podres por leite estragado. O resultado será sempre uma dor de barriga.

O objectivo deste texto é, pois, afirmar que o problema do passado do Sporting não foi a falta de qualidade individual, pois ela abunda, mas sim a falta de qualidade colectiva, e afirmar ainda que, não tendo havido modificações na filosofia de jogo, o Sporting deste ano padecerá do mesmo mal e que, apesar de ser mais forte no drible do que Romagnoli, Matías Fernandez sofrerá o mesmo tipo de problemas que o argentino, pois estará à mercê da mediocridade do colectivo. Individualmente, o plantel do Sporting é mais rico que o do Porto. Já o era no ano passado. No entanto, no plano colectivo, a equipa comandada por Jesualdo Ferreira é muito superior. E isso faz toda a diferença.

Mas quais são, afinal, os problemas colectivos do Sporting e de que maneira é que esses problemas afectam o desempenho individual dos jogadores? Há quem ache que o losango serve essencialmente fins defensivos, ou seja, que serve para preencher melhor os espaços centrais, ajudando a que a equipa tenha uma maior concentração de jogadores no meio. Isso não é verdade. O losango é das tácticas que melhor se adequa a quem pretende jogar de forma apoiada, a quem privilegia a circulação de bola e o passe curto, a quem pretende progredir no terreno de forma faseada, calmamente, com segurança. Porquê? Porque gera uma maior quantidade de apoios próximos, porque tem os seus elementos mais juntos, capazes de fornecer apoios curtos mais rapidamente. Bem explorado, o losango, porque cria três linhas diferentes só no meio-campo, permite, em posse, um melhor preenchimento dos espaços entre as linhas do adversário, o que possibilita que a qualidade da posse de bola seja melhor e mais eficaz. Essa potencialidade, contudo, não é explorada pelo losango de Paulo Bento. Aliás, o discurso recorrente do treinador leonino detém-se sobre a importância da exploração dos corredores laterais, quando toda e qualquer boa circulação de bola tem de fugir o mais possível dos corredores laterais.

É aqui que reside o primeiro problema, problema esse que não é só de Paulo Bento, mas da grande maioria das pessoas que falam de futebol. Convencionou-se dizer que toda e qualquer equipa que queira atacar bem tem de fazê-lo pelos corredores laterais. Isto é das coisas mais estúpidas que há. É sempre mais fácil asfixiar o ataque adversário quando este é conduzido pelas linhas do que pelo meio. Porquê? Porque a linha lateral funciona como um defesa. Ora, Paulo Bento, quer pelo discurso, quer pelas suas ideias, não percebe isto. É por isso que, de ano para ano, pretendeu do seu losango mais amplitude; é por isso que o sistema alternativo é um 442 clássico, com alas abertos; é por isso que a única coisa verdadeiramente colectiva que o Sporting teve consigo foram aquelas movimentações horizontais de Romagnoli, a criar superioridade numérica num flanco de forma a que a equipa conseguisse chegar à linha de fundo forçando a passagem pelo corredor lateral. O primeiro problema do Sporting é não perceber que não se deve atacar pelos corredores laterais. Os corredores laterais servem para chamar o adversário e para depois, desbloqueando a situação e voltando ao meio, rodar rapidamente o jogo levando a bola para zonas de menor densidade; servem para ir lá e voltar. Sempre. É por isso que não interessa muito que os defesas laterais sejam, do ponto de vista individual, muito fortes. Porque os laterais devem ser sobretudo competentes a jogar para dentro, quando o jogo está do seu lado, de modo a fazer a bola regressar ao meio, e inteligentes a ocupar os espaços vazios quando o jogo está do outro lado, de modo a permitir à equipa largura e profundidade.

Ao contrário, portanto, do que deveria ser, o princípio ofensivo de base do Sporting passa por insistir nos corredores laterais, quer através de combinações entre o lateral e o interior desse lado, quer através de pontapés ao longo da linha a explorar a entrada de um dos avançados, quer através da insistência pelo lado fechado do jogo, quando a bola vem ao trinco ou a um central e, em vez de ir para o outro lado, regressa ao sítio de onde viera, princípio básico que o Sporting não cumpre, certamente por instrução técnica. Assim, a equipa fica refém de duas ou três movimentações típicas, fáceis de anular, com os jogadores que recebem a bola sempre de costas para a baliza e asfixiados contra as linhas laterais. Atrevo-me a dizer que, com bola, o Sporting de Paulo Bento é das equipas que pior ocupa os espaços ofensivos, insistindo em entrar por onde há mais gente e tornando o jogo muito pouco fluido. Acresce a este problema, relacionado inteiramente com ele, tudo o resto. Por causa disto, o Sporting não troca bem a bola; não consegue explorar as zonas onde há mais espaços; não utiliza passes verticais a solicitar os avançados ou o médio-ofensivo, que poderiam funcionar como "pivot", jogando de costas e servindo de frente; tem o losango sempre muito aberto, para ocupar o melhor possível os espaços laterais, o que descuida o centro e não propicia apoios curtos; cai num excesso de objectividade absurdo que tem como principais evidências os pontapés longos dos centrais, a incapacidade de lateralizar o jogo ou de trocar calmamente a bola e a pressa de chegar à frente. A melhor maneira de demonstrar isto é recorrer à memória. Quantas vezes os avançados do Sporting aparecem isolados frente aos guarda-redes adversários? Quantas vezes aparecem em zona de finalização os médios? Quantas vezes se desbloqueiam situações ofensivas pelo meio recorrendo a uma simples tabela? As oportunidades de golo do Sporting resumem-se a remates de longe ou a cruzamentos, quer de fora, quer da linha final para trás. E isso é muito pouco. E é, sobretudo, previsível. Contra equipas que se fecham bem atrás, então, é estupidamente ineficaz.

Estes são os problemas colectivos do Sporting. Falta então explicar como é que estes problemas condicionam as individualidades. Alguns desses condicionamentos já foram referidos. Resumindo-se o jogo do Sporting a procurar as faixas, os processos ofensivos envolvem menos participantes, o que deixa inevitavelmente alguns elementos da equipa esquecidos nas zonas onde a bola não chega. É por isso que, aparentemente, há jogadores a "esconderem-se" do jogo. De igual modo, explorando as linhas laterais a todo o comprimento, os jogadores que recebem a bola raramente estão de frente para o jogo e, por norma, estão pressionados contra essa mesma linha lateral. Isso dificulta a manobra individual. Indo agora a cada uma das posições em campo, vemos que os jogadores que mais facilmente se destacam, por terem mais bola, são os centrais e o médio-defensivo. Os laterais, por exemplo, e falando apenas no plano ofensivo, dificilmente podem ter protagonismo porque actuam numa zona sobrepovoada, numa zona que deveria ser explorada quando não tem ninguém, mas que o é sistematicamente. Os interiores, que deveriam ser jogadores de equilíbrios, de apoios, têm um papel que depois entra em conflito com as necessidades defensivas da equipa. Supostamente, são eles que devem dar profundidade e largura ao meio-campo, são eles que são incumbidos do trabalho exterior e de povoar as alas. Isso torna-se excessivo e desgastante tendo em conta que, depois, defensivamente, o que lhes é pedido é que fechem no meio. Sofrem portanto um desgaste desnecessário e ocupam zonas, em termos ofensivos, que não os beneficia. Quanto aos avançados, têm a dupla missão de se movimentarem horizontalmente para servirem de referência mais avançada junto a uma linha, recebendo a bola sempre de costas e contra a linha, e de estarem na área para finalizar. Isto é de tal maneira redutor que passam maior parte do tempo sem bola ou recebem-na sempre em condições muito difíceis. Não havendo passes verticais centrais, a explorar o posicionamento ofensivo do avançado de costas para a baliza, os avançados estão sistematicamente fora do jogo ou são solicitados de uma forma que lhes dificulta a acção. É por isso que Liedson parece que é melhor que os outros, porque acrescenta às tarefas que lhe são dadas (e que o deixariam, certamente, menos em jogo) uma auto-iniciativa que, para muita gente, é louvável, tentando estar mais em jogo correndo para tudo o que é sítio e desdobrando-se em tarefas que não deveriam ser as dele. Quanto ao médio-ofensivo, e aqui reside a razão para Romagnoli e Matías Fernandez renderem menos do que poderiam, é a maior vítima desta forma de jogar. Não havendo exploração do espaço central e estando os interiores tão abertos para possibilitar superioridade numérica junto às linhas, a bola não só não entra no médio-ofensivo regularmente, o que poderia facilitar a progressão da equipa por entre as linhas defensivas do adversário, como, mesmo quando entra, não há apoios próximos dele de modo a que este possa jogar de frente e não seja obrigado a rodar. Assim, o médio-ofensivo, supostamente o jogador mais imaginativo da equipa, torna-se uma referência meramente ocasional e que, quando solicitado, fica invariavelmente entregue a si próprio. Sendo este um jogador que, pela natureza da posição que ocupa, recebe maior parte das bolas de costas para o jogo, só se tornaria rentável se tivesse , com frequência, companheiros perto de si com quem tabelar. Isso não acontece e, mesmo sendo possuidor de uma técnica acima da média, de nada adianta. A Matías Fernandez, por isso, antevejo a mesma queda na banalidade que ostracizou Romagnoli. O problema, obviamente, não é dele, como não o era de Romagnoli. Aliás, o argentino, sempre que a equipa jogou bem, foi fundamental. O problema é, isso sim, de um colectivo cujo tipo de preocupações condena quem quer que jogue ali. O médio-ofensivo, bem como boa parte dos elementos que actuem do meio-campo para a frente, será sempre, dentro desta filosofia de jogo, um jogador abaixo das suas potencialidades. O Sporting de Paulo Bento é, pois, um caso claro de como o colectivo ofusca as individualidades, um caso de como as amarras tácticas prejudicam ostensivamente cada um dos jogadores e também um caso exemplar de obsessão excessiva com coisas erradas.

sexta-feira, 24 de Julho de 2009

10 Pérolas

Um dos desportos preferidos deste espaço é confessadamente comentar opiniões alheias. A opinião, porque diz mais da pessoa que a tem do que propriamente daquilo a que se destina, é usualmente uma fonte de curiosidade para mim. No que diz respeito ao futebol, sobretudo porque quase todo o mundo parece que pensa que pode ter opiniões, todos os dias se dizem quantidades de lixo absurdas. Não leio jornais desportivos porque os jornalistas desportivos não percebem de desporto e tento, ao máximo, seleccionar aquilo que melhor qualidade apresenta. No entanto, e porque é impossível fugir a todas as atrocidades que são ditas, sobretudo quando ditas em espaços com alguma responsabilidade, não consigo conter um certo repúdio pelo que é dito e germina em mim uma vontade irrepremível de troçar de certas coisas. Já aqui foram alvo de chacota opiniões de alguns notáveis da nossa praça, jornalistas, comentadores e treinadores, principalmente. Desta vez, o alvo é uma coisa que não sei definir, sobretudo por não saber quem é e que profissão exerce, mas que escreve com habitual regularidade e ignominiosa facúndia no já reputado jornal online Academia de Talentos.

Antes de me dedicar ao que concretamente me proponho, gostaria de deixar algumas palavras, em jeito de preâmbulo, do maior génio português de todos os tempos e que se adequam com profícua clareza ao texto que se segue e que respondem, com subtileza e mordacidade, às previsíveis críticas que se seguirem.

"(...) A crítica, de resto, é apenas a forma suprema e artística da maledicência. É preferível que seja justa, mas não é absolutamente necessário que o seja. A injustiça, aliás, é a justiça dos fortes. No fundo, isto é tudo bondade. (...) A justificação última da crítica assim bem entendida é o satisfazer a função natural de desdenhar, função tão natural como a de comer e que é de boa higiene do espírito satisfazer cuidadosamente. Quem sente vontade de desdenhar não deve atar-se à cobardia de julgar isso feio, nem vender-se à infâmia de ir desdenhar o que os outros desdenham, abdicando assim da sua individualidade, gregário. (...) Buscar o conforto no desprezo é não só o nosso dever para com o desprezo, mas também o nosso dever para com nós próprios. Espetar alfinetes na alma alheia, dispondo esses alfinetes em desenhos que aprazam à nossa atenção futilmente concentrada, para que o nosso tédio se vá esvaindo - eis um passatempo deliciosamente de crítico, ao qual juramos fidelidade."

(Fernando Pessoa, «Balança de Minerva - Aferição», 1913)

A selecção que faço dos ditos de Pedro Fajardo - é assim que se chama a criatura que dará alma aos parágrafos que se seguem - peca, certamente, por escassa. A partir do momento em que comecei a acompanhar, com relativa frequência, o que era escrito no Academia de Talentos, deparei-me com várias pérolas e não pude deter fortes risadas e irónicos assentimentos de cabeça. Nem todas tiveram origem na mesma pessoa, é certo, até porque o nível de conhecimentos e de capacidade analítica das pessoas que por ali escrevem, apesar do interesse dos conteúdos e da temática, é bastante curto. Mas as opiniões de Pedro Fajardo sempre me pareceram, existindo um concurso de opiniões absurdas, as mais promissoras. De futebol, esta pessoa perceberá pouquíssimo. Terá o mérito de gostar do jogo. Ou de pensar que gosta, pois não sabe o que é o jogo e, caso o soubesse, talvez não gostasse dele.

Antes ainda de passarmos às suas pérolas, ficam algumas opiniões curiosas de outras pessoas que por lá escrevem.

1. Gil Nunes, tendo que constituir uma equipa ideal de juniores 2008/2009, exibiu a seguinte formação: Ruca na baliza, Cedric, Nuno Reis, Roderick e Mário Rui na defesa, Leandro Pimenta, André Martins e Diogo Rosado no meio-campo, Diogo Viana, Nélson Oliveira e Wilson Eduardo na frente. Para o banco relegou Victor Golas, Josué Pesqueira, Ishmael Yartey, Sagna, Pedro Mendes, Henrique Dinis e Danilo Pereira. Não acompanhei todo o campeonato, mas posso falar da fase final e do talento, em termos absolutos dos jogadores. Começo pelos centrais. Nuno Reis é um bom jogador, mas não incluir Pedro Mendes nos titulares é parvoíce. Roderick não tem classe nem para o banco. Mário Rui é um trauliteiro. Quanto ao meio-campo, é absurdo pensar-se em Leandro Pimenta. Sobretudo quando se esquece David Simão,(Benfica), Diogo Amado (Sporting), Ricardo Dias (Porto) ou André Almeida (Belenenses), sendo que todos eles nem como suplentes foram considerados e qualquer um deles, na selecção de sub-19, tem presença mais assídua. Outro que foi esquecido foi Rabiu Ibrahim (Sporting). Mas lembrou-se de Danilo Pereira, claro. Não se ter lembrado de Lassana Camará já é uma conquista. No ataque, referenciar Diogo Viana e Wilson Eduardo é de loucos. Juntando os neurónios dos dois dava para aí inteligência para um infantil. É até ultrajante estes jogadores serem incluídos numa formação e Josué Pesqueira e Yartey não o serem. Para culminar, Gil Nunes aventa dois nomes para melhor jogador da época: Nuno Reis e Roderick Miranda. Pois, está bem! Nem Josué Pesqueira, nem Diogo Rosado, nem André Martins, nem Rabiu Ibrahim, nem Nélson Oliveira... Talento que é bonito não... O que é bom são centrais duros... Não sei, mas apostaria que Gil Nunes, quando jogava à bola, era o que punha mais adversários a sangrar.

2. Paulo Matias escreve sobre o preconceito que há contra jogadores africanos e a suspeita que muitos deles não tenham a idade correspondente ao escalão em que jogam. Faz então uma defesa dos jogadores africanos, ignorando, por certo, a certeza do teste do pulso e o facto de ser conhecido publicamente que muitos deles têm idades "ilegais", e pergunta:

"Será justo colocarmos em causa o talento de jogadores como Valdomiro Lameira "Estrela", Pape Bakary, Sancidino Silva, Armindo Bangna "Bruma", Carlos Mané, ou os irmãos Edilino Ié, e Edgar Ié
, entre muitos outros que existem nos mais variados clubes Portugueses, apenas porque neste momento exibem uma superioridade física ou intensidade de jogo totalmente diferente dos seus colegas do mesmo escalão? E se quando chegarem ao futebol sénior a superioridade continuar?"

Eu respondo. Sim, será justo. Sobretudo se se souber que o talento deles não é bem talento porque têm mais três ou quatro anos. Não conheço maior parte dos nomes citados por Paulo Matias, embora os ache divertidos, sobretudo aqueles irmãos, mas conheço o primeiro. A alcunha dele é "Zé Estrela" e jogou há uns anos num certo torneio da Pontinha, despontando porque tinha mais meio-metro que os outros miúdos. Na altura achei suspeito. Mais tarde, confirmei que a sua idade não era condizente com o escalão em que jogava. E a diferença não era só de um ano ou dois. Continua Paulo Matias, dizendo, perguntando:

"Nem de propósito, existem actualmente três jogadores que se têm evidenciado nos juniores do Benfica e que certamente já sentiram este tipo de reacções em Portugal, são eles Danilo Pereira, Lassana Camará e Ishmael Yartey. Será alguém capaz de ignorar o talento que estes jovens têm demonstrado na equipa de juniores do Benfica?"

Eu sou capaz. E sou capaz sobretudo porque, tirando Yartey, que tem qualidade, os outros dois são miseráveis. Nem quero saber das idades deles. É mesmo de falta de talento que falo. Basicamente, o que Paulo Matias defende é que factos afinal são preconceitos. Nem vou voltar a falar no avançado ganês de 22 anos que o Benfica o ano passado tinha nos juniores, porque não vale a pena. Além disso, parece defender também que os africanos, quaisquer que sejam, têm talento. Eu não tenho a certeza, mas nos diccionários costuma dizer que "preconceito" significa conceitos formados previamente. Ora, achar que todo o africano é ostracizado porque tem mais talento é que é capaz de ser uma forma de preconceito. E de estupidez, já agora.

3. Nuno Valente faz uma análise ao Benfica/Porto, a contar para a penúltima jornada da fase final do campeonato de juniores deste ano e destaca Nélson Oliveira e Ruca como os melhores em campo. Ruca é o guarda-redes do Porto e parece-me um bom guarda-redes. Mas os guarda-redes normalmente só são destacados ou quando os restantes jogadores são mesmo muito maus ou quando fazem grandes exibições. O argumento de Nuno Valente é que Ruca teve excelentes intervenções. É verdade que o Benfica passou muito mais tempo no meio-campo do Porto, mas criou pouquíssimas situações de perigo e Ruca não fez nenhuma defesa difícil, limitando-se a demonstrar alguma segurança (nem sempre) na resposta a cruzamentos. Só percebo esta análise do ponto de vista de um benfiquista ferrenho, que tentou justificar a má exibição da equipa encarnada e o mau resultado com uma exibição imaculada do guardião adversário. Ora, isto não faz justiça ao que se passou. Sobretudo quando em campo esteve Josué Pesqueira, de longe o jogador mais adulto e mais talentoso do Porto, autor do golo da sua equipa e responsável por tudo o que de bom em termos ofensivos a equipa produziu. Na análise individual a Josué, Nuno Valente diz o seguinte:

"Sempre muito influente, quase todas as jogadas de ataque passaram pelos seus pés. Muito esclarecido, sabe bem como tratar a bola, e foi dele o golo, na conversão da grande penalidade."

Parece elogioso, não parece? Mas não é. É só uma forma simpática de dizer que jogou mais ou menos. Isto porque depois diz isto de Diogo Viana:

"O melhor jogador portista, a par de Ruca, foi dos seus pés que saíram os lances mais perigosos de todo o encontro para a sua equipa. Ganhou a grande penalidade, em mais um lance onde foi notória a sua velocidade e foi sempre o mais esclarecido do ataque portista."

Ora, Diogo Viana fez um jogo horripilante. Dos seus pés não saiu um único lance de perigo, como parece querer convencer-nos Nuno Valente, decidiu sempre mal, tentou virar-se sempre para o seu adversário, quando recebia a bola, mesmo que estivesse apertado, e foi sempre anulado por um rapaz de seu nome Mário Rui, que bate em tudo o que mexe. Não ganhou a grande penalidade, porque quem a cometeu é que foi burro que nem uma porta. E dizer que foi o mais esclarecido, quando não sabe o que é um companheiro de equipa e o único argumento que tem é correr é das coisas mais patéticas que se pode dizer.

4. Chegamos finalmente às pérolas de Pedro Fajardo. Sobre Pedro Mendes, um central tecnicamente muito dotado, com uma capacidade para sair a jogar absolutamente notável e igualmente muito forte em termos defensivos, estando sempre concentrado e tendo uma leitura perfeita dos lances, diz o seguinte:

"Pedro Mendes é um central diferente, cuja evolução a nível técnico tem (aparentemente) encantado os responsáveis leoninos."

É um central diferente? Diferente de quê, amigo? Diferente dos outros ou diferente daquilo que tu achas que é um central? Não é diferente, não. É melhor.

"Acredito muito no seu potencial, mas acho que ainda tem de crescer fisicamente, assim como em alguns aspectos competitivos, para revelar todo o seu potencial."

Pois, estava-se mesmo a ver. O problema é o físico. Para Pedro Fajardo, um bom jogador é só um jogador com potencial. Enquanto não tiver físico, não tem qualidade, tem só potencial. Pedro Mendes não precisa de físico nem precisa de ser mais competitivo do que é. Isto porque competitividade não é agressividade; é concentração, inteligência, precisão, capacidade de melhorar. E ele tem isso tudo.

"Quando souber aplicar o seu físico, no que lhe será muito importante habituar-se ao duro jogo das divisões inferiores, Pedro Mendes poderá aliar os pezinhos de lã com que sempre pretende jogar, para se tornar num central completo."

Ficamos a saber que um central completo é aquele que sabe aplicar o físico. O Baresi, o Maldini, o Laurent Blanc e o Beckenbauer não eram completos. Mas o que eu gosto mesmo é da ideia de ser importante, para um jogador como este, o "duro jogo das divisões inferiores", como se passar pelos escalões inferiores fosse um ritual de passagem, em que um miúdo aprende a ser homem, sendo que homem é, entenda-se, alguém que sabe usar a força, que é viril, que bate nas mulheres. Está certo... Fico com a sensação que Pedro Fajardo é um homem das cavernas...

"Quanto a mim, Nuno Reis mereceria passar imediatamente para o escalão sénior (inclusivamente, parece-me, um defesa mais maduro que Pedro Mendes)."

Nuno Reis é o companheiro de defesa de Pedro Mendes, no Sporting e na selecção. Sabem por que é que parece a Pedro Fajardo que Nuno Reis é mais maduro? Não adivinham? Eu digo: porque é mais agressivo. Faz todo o sentido. Maturidade é agressividade, aliás. Não está em causa o valor dos dois jogadores. São ambos bons. Mas Pedro Mendes tem mais maturidade, até porque é um ano mais velho, e tem características que Nuno Reis não tem e que podem ser uma enorme mais-valia. Mais uma vez, Pedro Fajardo faria bem se estivesse calado...

5. Pedro Fajardo também tem opiniões sobre Wilson Eduardo, o que é sempre bom. Diz ele:

"Pouco mais posso acrescentar ao que já disse sobre Wilson. Posso apenas esperar que esteja em (mais uma) tarde inspirada e que os seus colegas saibam canalizar muitas bolas para aquele flanco esquerdo, onde cairá inevitavelmente."

Deve ser azar meu. É que ainda não presenciei nenhuma tarde inspirada do Wilson Eduardo. Apenas momentos exasperantes de burrice e toneladas de bolas perdidas. Enfim, Wilson Eduardo é aquele jogador que não tem nada de bom, além da velocidade. Corre com os braços junto ao corpo, não vê os companheiros, não tem talento e nem sequer faz muitos golos. É um caso gritante de parvoíce generalizada, continuar a achar que este rapaz tem algum futuro. Mas Pedro Fajardo não se fica por aqui e compara-o a Ricardo Nogueira:

"E para quem estava habituado a ver Ricardo Nogueira falhar golos em barda nos juniores (suportado por uma geração excepcional, entre os quais estavam o Daniel Carriço, Adrien Silva, João Gonçalves, etc.), ver o Wilson jogar era um pouco pouco como rever o tipo de avançados que se iam criando nas camadas jovens do Sporting: fortes tecnicamente (sempre superiores aos seus adversários) e extremamente perdulários. Por isso, com Wilson muitas vezes meti as mãos à cabeça e pensei "avançado que é avançado não pode falhar golos assim". Até aquele (belo) jogo em Guimarães em Junho de 2007, em que Wilson não foi somente mortífero, mas revelou também as características que poderão projectá-lo bem alto no futebol: velocidade, técnica, remate e diagonais de fazer os adversários perder a cabeça."

Mais uma vez, Pedro Fajardo demonstra que não sabe o que é futebol. Um avançado não tem que marcar golos para ser excelente. Comparar Ricardo Nogueira, que nem sequer era perdulário, a Wilson Eduardo é doentio. Dizer então que Wilson Eduardo é forte tecnicamente quando fica a milhas de Ricardo Nogueira neste aspecto é deficiência mental. Mas Wilson Eduardo convenceu Pedro Fajardo quando foi mortífero num determinado jogo. Pois... É uma qualidade do caraças, ser mortífero. Para Pedro Fajardo, o ideal de avançado é um escorpião. Afinal de contas, é mortífero...

"Prestes a cumprir os seus dois últimos jogos no escalão júnior, não sabemos ainda o que o futuro imediato reservará a Wilson Eduardo. A julgar pelas elogiosas comparações que lhe vão fazendo (entre ser parecido com o Liedson e ter características semelhantes ao Thierry Henry) seria de esperar que o mais velho dos irmãos Eduardo saltasse directamente para o plantel principal."

A comparação com Liedson pode ser válida, tirando o facto de não marcar muitos golos (o que afinal é a única razão pela qual o Liedson tem a reputação que tem), pois o estilo é semelhante. Agora, não sei é se é uma comparação elogiosa. A mim parece-me exactamente a razão pela qual Wilson Eduardo é horrível. É mau em tudo o que o Liedson é mau e é mau também naquilo em que o Liedson é bom. Corolário: não presta para nada.

6. Mais recentemente, fala Pedro Fajardo de Marco Matias, um extremo que pertence aos quadros do Sporting, saído da fornada de juniores do ano passado. Não é muito talentoso, embora seja forte no um para um, graças ao seu poder de arranque e à técnica que possui. Mas não é daqueles jogadores que consiga resolver jogos sozinho e não é, seguramente, um jogador de grande futuro a nível nacional. Ainda assim, Pedro Fajardo pensa que ele seria bom para integrar o plantel leonino esta época, mesmo não jogando o Sporting com extremos. Diz o seguinte:

"Sejamos objectivos, a principal razão para que tenha pensado em Marco Matias durante esse jogo contra o 13.º classificado da Championship da época transacta, não se prende com as qualidades deste jogador - que acompanhei durante duas épocas nos escalões de formação do Sporting. Deveu-se antes à falta de largura e jogadores que tenham capacidade para assumir o risco do 1x1 no futebol do Sporting. Marco Matias, tal como Yannick Djaló, são dois representantes de uma escola de extremos que não encontra espaço para jogar no 11 principal do clube. Mas essas são outras questões."

Pois, eu sei que questões são essas. Pedro Fajardo quer extremos à força toda, mesmo que não os haja. Pertence àquele grupo de gente que continua a achar que o Sporting produz os melhores extremos do mundo e que, por isso, devia jogar com extremos, mesmo quando não há um de jeito desde o Nani. E como quer extremos e não os há a não ser banais, acredita que a banalidade de Marco Matias pode ser útil.

"As suas características não se fazem: há poucos jogadores com a sua capacidade individual, há ainda menos com capacidade para fintar em progressão, há falta de largura no futebol do Sporting. Marco Matias não seria titular perante consagrados como Marat Izmailov, Yannick Djaló, Simon Vukcevic ou Bruno Pereirinha, caso o Sporting alinhasse num 4-3-3, mas seria uma belíssima solução para ir oferecendo minutos, porque poderia, com um golpe de asa, decidir uma partida."

Pedro Fajardo nem sequer sabe o que é capacidade individual. Marco Matias é do nível de Bruno Gama, Vieirinha, Candeias, David Caiado e outros que nunca hão-de jogar a um bom nível porque simplesmente só têm de bom o um para um, não sendo porém excepcionais nesse aspecto. E decidir um jogo num golpe de asa é para jogadores fora-de-série, não para jogadores medianos.

"Num plantel que se quer de soluções, Marco Matias seria uma óptima oportunidade para que o Sporting voltasse a colocar o seu nome na esfera dos extremos decisivos. As orientações actuais, contudo, são outras."

Cá está. Pedro Fajardo quer é que o Sporting volte a colocar o seu nome na "esfera dos extremos decisivos", mesmo quando eles não existem. E nem percebe que o problema não são as "orientações actuais". O problema é mesmo a falta de qualidade dos extremos que têm aparecido nos últimos anos.

7. Pedro Fajardo tem ainda opinião sobre Celestino, mas desta vez deixa no ar um indelével sabor a esquizofrenia. Diz o seguinte:

"E, por isso, começo com a conclusão: não vejo no Pedro Celestino as qualidades necessárias para se tornar um jogador de top nacional."

Eu também não. Até aqui tudo bem.

"parecendo paradoxal (prometo que não é), é por isso que Pedro Celestino poderia ser uma solução para o Sporting."

Então?? Que é que se passou? Parecendo paradoxal?? Não... É mesmo paradoxal, pá! Então não tem valor e poderia ser uma solução para o Sporting? Nunca se virá a tornar um jogador de topo nacional e o Sporting deve prolongar o vínculo com ele e até integrá-lo no seu plantel? Que é que se passa? Queres explicar? E ele explica:

"face aos lamentos de Paulo Bento relativamente à indisponibilidade de Marat Izmailov, diria que Celestino era mesmo a solução óbvia."

Primeiro não tinha valor; depois já podia ser solução; agora já é a "solução óbvia". É óbvio que isto não faz sentido nenhum.

"E porquê? Em primeiro lugar, haveria que partir do princípio que o treinador do Sporting admitia mudar o modelo de jogo consoante as características dos seus jogadores. Se assim fosse, Celestino poderia revelar-se uma boa solução no plantel para preencher as posições 6 e 8 num 4-3-3, quer nos jogos em que se desejasse oferecer músculo (saído do banco) à equipa, quer nos jogos em que, a perder, se pretendesse libertar mais os alas para tarefas ofensivas e aproveitar a boa qualidade de passe que possui."

Ah!! Era solução se Paulo Bento decidisse mudar o modelo de jogo. Faz todo o sentido, agora. Acho que o Sporting também devia modificar a cor dos equipamentos, só mesmo para satisfazer a vontade a Pedro Fajardo, que parece um rapaz dado a caprichos. Mas ele continua. E fala da altura em que conheceu Celestino e do que escreveu sobre ele:

"E como a internet tem destas coisas, é curioso constatar qual foi a primeira impressão que me deixou. Aqui a está: "Celestino é um médio forte, difícil de se lhe roubar a bola, mas como 10 não pode jogar pois não transporta a bola e não a vai buscar". Conforme também mencionei, "talvez possa ser interessante colocá-lo numa ala." É curioso constatar que, com apenas 90' de observação (ou sou muito teimoso ou...) mudei muito pouco de opinião sobre o ‘Celeste'."

Isto é formidável. Primeiro, Pedro Fajardo relaciona a força com a facilidade que tem para preservar a bola, como se uma coisa fosse a consequência da outra. Celestino nunca foi especialmente forte a preservar a bola, apesar de ser forte. Mas como Pedro Fajardo acha que a força faz com que se segure melhor a bola, tem estas ideias. Erradas, obviamente. De seguida, diz que como 10 não pode jogar porque não transporta a bola e não a vai buscar. Ficamos a saber que, para Pedro Fajardo, só pode jogar a 10 alguém que transporte a bola. Aimar, Lucho, Diego, Xavi, Iniesta, Fabregas, Deco, Lampard e Gerrard jamais poderão jogar a 10. Conforme também mencionou, achava que poder-se-ia colocá-lo numa ala. E, apesar de Celestino nunca ter jogado na ala e de ele próprio ponderar que ele jogue como 6 ou 8, acha que mudou pouco a sua opinião sobre Celestino. A mim parece-me que ele não sabe o que é uma opinião. Além de raramente ter opiniões acertadas. Como prémio final, ainda se refere de forma carinhosa e ligeiramente homoerótica a Celestino, usando um nome de mulher ao tratá-lo por "Celeste".

8. No mesmo texto em que se refere a Celestino, Pedro Fajardo fala da equipa de juniores do Sporting em que Celestino jogou do seguinte modo:

"Já por aqui referi quando o bichinho dos jogos da formação germinou para mim: falava-se de uma imbatível geração (1989) de juvenis e de uma de juniores (1987) que passeava pelos relvados portugueses. Nessa formação de juniores jogavam alguns que já tinham sido, inclusivamente, chamados ao plantel principal: Rui Patrício era o guarda-redes, André Marques o defesa esquerdo, Zezinando o trinco, Bruno Pereirinha 8 ou extremo, David Caiado era extremo e Tomané avançado. Todos eles, durante essa temporada, haviam sido chamados - uma vez ou outra - a sentar-se no banco de suplentes do Sporting e mesmo a actuar alguns minutos. Nessa equipa falava-se muito de dois outros jogadores: João Martins (o mano mais novo de Carlos, que por essa altura ainda jogava de leão ao peito) e de Fábio Paim. Foi assim que, cheio de curiosidade, comecei a acompanhar os jogos do Pedro Celestino."

Acho engraçado que tenha começado a acompanhar os juniores do Sporting nessa altura, que refira vários jogadores dessa geração e que não mencione o melhor deles todos, Diogo Tavares, que por acaso até foi o melhor marcador do campeonato de juniores desse ano e que foi frequentemente o melhor marcador do escalão em que jogava e que era titularíssimo da selecção. É sobretudo engraçado que mencione Tó Mané, quando este jogador não jogava para jogar Diogo Tavares. E se calhar vale a pena dizer ainda que Daniel Carriço já despontava ao lado de Paulo Renato e que André Nogueira era um lateral-direito notável, como nunca mais se viu nenhum nos juniores do Sporting. Mas Pedro Fajardo não viu essas coisas. Viu outras.

9. Pedro Fajardo revela ainda uma paixão especial por mais um jogador banal, elevando-o ao Olimpo das estrelas da formação do Sporting como se se tratasse do Hércules de Alcochete. Falo de Bruno Matias. Diz ele o seguinte:

"Sobre Bruno Matias: "A dispensa de Bruno Matias (um jogador muito superior, por exemplo, a Carlos Saleiro) também nos diz algo sobre o método e sobre a estratégia."

Pedro Fajardo acha que Bruno Matias é superior a Carlos Saleiro. A razão, imagino, prende-se com a capacidade concretizadora que ele diz que Bruno Matias tinha nos juvenis. Esquece-se é que Saleiro é mais jogador em tudo o que importa: é mais inteligente, é melhor de costas para a baliza, compreende melhor o jogo e tem atributos colectivos que Bruno Matias nunca terá. Continua ele:

"E, para qualquer sportinguista, a dispensa de Bruno Matias deve ser vista com preocupação. Porque, além de William Owuso e de Wilson Eduardo, só se vislumbram atacantes com potencial para serem de primeira linha nos Juvenis B (Altair Jr. e Betinho). Passará algum tempo até que o Sporting tenha outra geração excepcional."

Em tão poucas linhas, Pedro Fajardo consegue dizer asneiras que dão para um ano. Diz que é preocupante a dispensa de Bruno Matias, quando é um jogador claramente abaixo da média, e depois refere que sobram William Owuso e Wilson Eduardo, que também não são grande espingarda. Parece-me é que os padrões de Pedro Fajardo ficam um pouco abaixo do desejado. Finalmente, remata com a esplêndida advertência de que vai demorar para haver outra geração excepcional. E a verdade é que a geração de Bruno Matias, Marco Matias e William Owuso foi a menos excepcional dos últimos cinco anos. Não é engraçado, o Pedro Fajardo?

10. Mas Pedro Fajardo também tem opiniões sobre o Benfica. Diz ele:

"O Sport Lisboa e Benfica dispõe de um lote de jogadores de excelente qualidade, onde pontifica a qualidade técnica de Nélson Oliveira, a velocidade de Ishmael Yartey, a solidez ofensiva de David Simão, Leandro Pimenta e Lassana Camará, devidamente reforçada pela irreverência e singularidade do ex-leão Mário Rui."

Pedro Fajardo adjectiva elogiosamente alguns jogadores do Benfica. Mas colocar no mesmo prato os primeiros três com os seguintes é estúpido. Além disso, se há coisa que o David Simão tem não é solidez ofensiva. É tecnicamente bom e tem boa visão de jogo, mas falta-lhe clarividência e sobretudo muito velocidade de execução. Leandro Pimenta e Lassana Camará, então, são ofensivamente patéticos, um por falta de talento, o outro por falta de talento e por falta de tudo o que seja atributo para jogar futebol. Resta Mário Rui, que é péssimo a todos os níveis, mas que Pedro Fajardo considera possuir irreverência e singularidade. Mário Rui cerra os dentes em todas as jogadas e distribui fruta até na bola. Há quem lhe chame parvoíce. Pedro Fajardo prefere chamar-lhe singularidade. É capaz de ter razão...

E com estas dez pérolas me fico. Pedro Fajardo, esse, por certo continuará a presentear o mundo do jornalismo retrógrado com opiniões e disparates fabulosos, capazes de encher páginas e de motivar risadas e boa disposição a quem, por ter massa encefálica própria de um ser humano normal, consegue perceber coisas para além do óbvio e distinguir a qualidade da mediocridade.

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Técnica: um Atributo Mental

Serve o presente texto de argumento contra a ideia de que é possível perder técnicas. Nele tentarei expor aquilo que entendo por técnica e rebater a ideia, aparentemente querida de muita gente, de que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, perdeu atributos técnicos. A extensão do mesmo resulta da complexidade do assunto e da dimensão filosófica pela qual decidi enveredar.

Coisas que não se esquecem


Por que razão, depois de aprendermos a andar de bicicleta, nunca mais desaprendemos? Por que é que, depois de se aprender a fazer malabarismo com três bolas, nunca mais se desaprende? Como é que conseguimos falar ao telefone e conduzir ao mesmo tempo? Por que é um canhoto consegue escrever tão bem com a mão esquerda e parece um deficiente mental com a direita? A resposta a estas perguntas tem um denominador comum: a técnica. Aprendemos uma técnica e, ao contrário do que querem crer algumas pessoas, nunca mais a voltamos a perder. Ter uma técnica ou ser capaz de uma habilidade consiste num processo de aprendizagem mental, processo esse que, uma vez concluído, fica "gravado" em nós, muito possivelmente na parte subconsciente do nosso cérebro. O acesso a essa "gravação", nestes casos, será imediato e instintivo. Executamos todas estas técnicas sem raciocinar, sem pensar se o estamos a fazer bem, mas de uma maneira natural. Isto ainda que, numa determinada altura da vida, não fôssemos capazes de fazê-lo. Noutros casos mais complexos, o acesso à "gravação" pode ser mais demorado e pode requerer, por falta de prática, uma determinada afinação.

No caso do futebol, a aquisição da técnica é um processo gradual, de constante modificação e aperfeiçoamento da relação entre indivíduo e bola, que é obviamente influenciado pelo crescimento do corpo. Durante o crescimento, a relação com os objectos tem de ser constantemente reavivada, pois o corpo, conforme vai crescendo, vai alterando a forma como reage aos estímulos. Ao contrário do que muita gente pensa, ser alto não é sinónimo de ser tosco. É verdade que o facto de ter um centro de gravidade mais baixo permite outras coisas aos jogadores, mas permite sobretudo agilidade, velocidade de reacção. É perfeitamente possível que um jogador alto seja tão dotado tecnicamente quanto um jogador baixo e há inúmeros casos de jogadores prodigiosos a nível técnico que não tinham um centro de gravidade baixo: Zidane, Riquelme, Ibrahimovic. Assim, a técnica não depende de uma certa estrutura morfológica, mas sim de um processo aquisicional. O facto de os jogadores altos, de uma maneira geral, terem menores competências técnicas não se explica pelo seu corpo, mas sim pela forma como o seu corpo cresceu. É portanto uma questão do foro da história do crescimento e da relação que se mantém, ao longo do crescimento, com o corpo. Maior parte dos jogadores grandes que são toscos terão tido, por certo, um crescimento gradual. Uma vez que o seu corpo cresceu de forma progressiva, não se estabelecia durante muito tempo de maneira a que desse tempo ao atleta para perceber exactamente como o seu corpo funcionava, o que, por fim, gerou um futebolista com competências técnicas abaixo do desejado. Por outro lado, os atletas cujo crescimento foi mais abrupto, tiveram mais tempo, em cada uma das fases de crescimento, para se relacionar com o seu corpo e para adquirir uma técnica aceitável. Por exemplo, dificilmente o crescimento de Ibrahimovic terá sido uma coisa gradual. O mais certo é ter crescido por etapas, muito de cada vez, o que lhe deu tempo para se aperceber das faculdades motoras ao seu dispor e para desenvolver uma competência técnica que, de outro modo, não poderia desenvolver.

Ter técnica é, pois, ter adquirido uma determinada competência mental. Aceder a essa competência mental, porém, não é um processo automático e depende muito da natureza da própria competência. No caso de andar de bicicleta, provavelmente porque envolve menos coisas e porque o aperfeiçoamento é menos exigente, temos poucos problemas, mesmo que o nosso corpo sofra modificações significativas. No caso do futebol, porque envolve muito mais coisas, porque implica não só a relação com o próprio corpo como a relação com uma bola e com um jogo muito específico e complexo, o acesso à técnica pode ser mais complicado. Mas detenhamo-nos, para já, em dois exemplos: bater livres e fazer truques com a bola. Estes dois exemplos são peculiares porque eliminam boa parte das variáveis que tornam o futebol um jogo cuja competência técnica depende de muita coisa. No caso dos livres, um jogador aperfeiçoa a sua técnica ao longo da carreira. Aperfeiçoar a técnica de bater livres é aperceber-se, gradualmente, das melhores condições para ter êxito nessa actividade. Ao longo do processo de aprendizagem, o jogador vai retendo as condições ideais de equilíbrio, a posição do corpo no momento de tocar na bola, o ponto específico da bola no qual deve acertar, a potência que deve dar ao remate, etc. Essa retenção nunca mais desaparece, embora o seu acesso possa não ser imediato. A interrupção da prática constante de bater livres pode tornar o acesso às condições ideais para o fazer mais complicado. Mas, nesse caso, é uma questão de retomar a prática constante, que "aviva" de certo modo a "gravação" do processo técnico. É por isso que, mesmo em idades avançadas, em idades em que já perderam grande parte das faculdades físicas, maior parte dos exímios marcadores de livres continuam exímios marcadores de livres. Lembremo-nos de André Cruz, por exemplo. Não passa pela cabeça de ninguém, certamente, que David Beckham algum dia deixe de ser periogoso a bater livres, sofra o seu corpo as alterações que sofrer (desde que essas alterações não impeçam que continue apto para praticar futebol ao mais alto nível). De igual modo, fazer truques com uma bola depende de uma aquisição técnica que não se volta a perder. Fazer a chamada "volta ao mundo" só custa antes de sabermos fazê-la. Depois de aprendermos a técnica, sai naturalmente, porque "gravamos" as condições ideais para a sua execução. Nestes dois casos específicos, a execução perfeita pode ser afectada pela ausência de prática, mas nunca existe um esquecimento do que foi adquirido mentalmente.

A aquisição de uma técnica é, por isso, segundo esta defesa, um processo irreversível. Uma vez adquirida, temo-la para sempre. O que pode mudar é o acesso a essa técnica, sendo que este pode ser influenciado pela regularidade do acto de aceder a essa técnica, ou seja, a prática dessa técnica, ou pela modificação dos estímulos que nos fazem aceder à técnica. Um atleta, ao modificar o seu corpo, modifica a relação que tem com ele. Por outras palavras, modificará a forma como capta os estímulos exteriores. Ora bem, era aqui que pretendia chegar. Um jogador, ao modificar o seu corpo, não perde faculdades técnicas. O que acontece é que põe em conflito uma determinada "gravação", ajustada para responder de determinada maneira em função de um conjunto de estímulos específico, com um corpo que, por estar diferente, é estimulado de forma diferente. O novo conjunto de estímulos, uma vez que é diferente, não conduz à mesma "gravação" e tem de haver, nesta altura, uma readaptação da "gravação" ao novo conjunto de estímulos. Essa readaptação não constitui necessariamente, todavia, uma perda da "gravação" anterior. Trata-se somente de um ajuste.

Terá Cristiano Ronaldo perdido Técnica?

Dito isto, há quem defenda, muito seriamente, que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, tornando-o mais potente, perdeu faculdades técnicas. Por tudo o que foi dito acima, não concordo com isto. Perdeu, certamente, alguma coisa, mas nada do que perdeu é técnica. Terá perdido agilidade, capacidade de reacção, reflexos. Nada disto é técnica. São coisas, é certo, que podem participar do acesso à técnica. Mas não são a técnica em si. Podem facilitar a sua execução, mas não são, em concreto, a técnica. Aliás, no caso de Cristiano Ronaldo, a importância destas faculdades na sua técnica era até diminuta. A sua técnica nunca foi apurada ao ponto de necessitar do máximo de agilidade ou do máximo da capacidade de reacção imediata. Nunca foi forte, por isso, em espaços curtos; o seu drible curto estava pouquíssimo trabalhado, a sua capacidade para proteger a bola em condições espaciais reduzidas nunca foi relevante, etc. Assim, a perda necessária de algumas dessas características terá até tido uma participação diminuta na readaptação dos novos estímulos corporais à técnica pré-existente.

Ronaldo não perdeu a técnica que tinha, nem sequer perdeu capacidade individual, o que é muitas vezes confundido com "técnica". E isto por uma razão simples: aquilo que perdeu não era, já antes, predicado necessário na capacidade individual que tinha. A sua capacidade individual era manifestada mais pela potência do que pela agilidade ou pela velocidade de reacção. A competência individual de Ronaldo sempre dependeu da sua potência muscular e não dos seus atributos técnicos. Há, de facto, diferenças, mas elas não têm necessariamente a ver com técnica. O Ronaldo de antes fazia meia-dúzia de truques quando encarava os adversários no um para um, mas o factor que desequilibrava era sempre a sua explosão, a velocidade com que saía do drible. E isto ele não perdeu. Pelo contrário, a sua potência muscular actual permite-lhe ser mais forte até neste pormenor. A única diferença é que agora, antes de fazer valer a sua potência muscular, já não recorre a tantos malabarismos. E não porque não seja capaz de fazê-los (ainda que, muito provavelmente, a velocidade com que os executava não possa ser a mesma), mas antes porque percebeu a pouca importância dos mesmos no desfecho do duelo individual. Aquilo que mudou em Ronaldo foi o seu comportamento perante as situações. Ao ganhar experiência, percebeu que o recurso determinante era a forma como saía do drible e não tudo o que antecedia esse momento. Por isso, passou a conceder cada vez menos espaço aos artifícios técnicos e a dar prioridade ao arranque, à explosão, à mudança de velocidade, à velocidade de ponta. Nada disto implica que tenha perdido técnica.

Tem sido usada, para reforçar a tese de que que Cristiano Ronaldo perdeu competências técnicas, a entrevista de Nuno Amieiro a Vítor Frade, publicada no blogue Falemos de Futebol. Não tenho quaisquer problemas com as concepções teóricas veiculadas nessa entrevista e concordo que a aquisição de algumas coisas implica a perda de outras. Mas não considero que isso se passe ao nível da técnica porque simplesmente considero a técnica como um atributo próprio (ainda que, na sua formação, possa ser influenciado por um conjunto de atributos) e não uma soma de atributos. Tentando ser o mais analítico possível, aqueles que defendem que a alteração de atributos como a agilidade, a força, a velocidade, a potência muscular, os reflexos e a capacidade de resposta a estímulos, só para dar alguns exemplos, alteram a competência técnica do atleta não podem crer que exista uma coisa chamada "técnica". Essas pessoas acham que a "técnica" é uma substância predicada pela soma dos seus atributos, sendo esses atributos os acima mencionados. Neste sentido, a técnica seria uma entidade abstracta e o atleta mais competente a nível técnico seria aquele que reunisse o melhor equilíbrio entre os diferentes atributos mencionados. Ao contrário desta hipótese, considero a técnica um atributo em si e não uma substância. Isto é, para mim, a técnica é um atributo como os outros, conquanto de natureza diferente. É esta diferença de natureza que é necessário investigar.

A natureza relacional da Técnica

Atributos como a agilidade, a força, a potência muscular e afins são atributos que podem ser treináveis não-especificamente. Isto é, dependem apenas do indivíduo. Por outro lado, uma técnica, qualquer que seja, depende sempre da relação entre um indivíduo e um objecto. Equilibrar pratos no nariz, andar de bicicleta ou dançar requerem técnicas que só podem ser treinadas com o objecto sobre o qual se debruçam, respectivamente pratos, bicicletas e ritmos musicais, e também sob uma determinada forma de usar esses objectos. Nesse sentido, enquanto os outros atributos são especificamente atributos corporais, uma técnica é um atributo mental cuja execução é mediada pelo corpo. Adquirir uma técnica é, por isso, diferente de adquirir agilidade ou velocidade. Fica, portanto, evidente que a natureza de uma técnica é diferente da natureza de outro tipo de atributos. Falta explicar por que razão considero que essa diferença de natureza não faz da técnica uma substância predicada por vários atributos, mas sim um atributo como tantos outros. Se a técnica fosse uma substância, isto é, uma entidade abstracta que mais não é que um conjunto de vários atributos arranjado de uma forma específica, teria de poder ser treinável de forma descontextualizada, isto é, sem a presença do objecto sobre o qual essa técnica se debruça. Mas ninguém aprende uma técnica sem prática. Para aprender a técnica de andar de bicicleta é preciso andar de bicicleta. Logo, se aprender uma técnica depende do contacto com o objecto sobre o qual essa técnica se debruça, é impossível que ela seja apenas a soma de determinados atributos que não têm uma relação específica com esse objecto. Pelo contrário, a técnica é um atributo mental que se origina pela prática, isto é, que radica unicamente na relação entre indivíduo e objecto. Todo o ser humano adulto aprendeu, em determinada altura da vida, a andar. Andar é uma técnica porque consiste unicamente na relação entre um indivíduo e uma superfície. E é nessa relação e não nos dois pólos (indivíduo e objecto) que jaz a competência técnica.

Ao contrário, portanto, de muitos outros atributos, a técnica é essencialmente um atributo mental, um atributo cuja natureza é relacional e não intrínseca. Para que tudo isto seja coerente, tenho de defender que nenhuns dos atributos mentais são perecíveis. É o que pretendo. A técnica é um atributo semelhante à memória. Quando dizemos que memorizamos algo estamos a mentir. Memorizamos, isso sim, uma impressão de algo. E uma impressão é a relação entre um indivíduo e o algo que impressiona. A natureza da memória é, pois, igualmente relacional. Será que as memórias se perdem? Não creio. Acredito que retemos toda a experiência que acumulamos, (ou grande parte dela, pelo menos) ainda que não tenhamos consciência disso e ainda que certas coisas sejam mais difíceis de relembrar do que outras. Quando achamos que algumas das nossas memórias são pouco claras, não será apenas o acesso a elas que é deficiente? Há técnicas, como a hipnose, que nos permitem aceder a lembranças a que, de outra forma, nunca conseguiríamos aceder. Será, por isso, pelo menos legítimo afirmar que o que se modifica com o tempo é o acesso à memória e não a memória em si. E o mesmo se poderia passar com uma técnica: aquilo que se altera ou danifica é o acesso à técnica e não a técnica em si. O funcionamento de uma memória é assim muito semelhante ao funcionamento de uma técnica. Se exercitarmos recorrentemente uma memória, mantemos intacta a relação entre indivíduo e objecto. Da mesma maneira se mantém intacta essa relação, se exercitarmos recorrentemente uma técnica. Indo mais longe, possuir uma técnica consiste em possuir uma memória de uma relação entre o indivíduo e o objecto sobre o qual se debruça a técnica. Possuiremos sempre essa técnica, embora seja possível que nem sempre a tenhamos afinada, pelas mais variadas razões.

Há, porém, uma diferença relevante entre memórias e técnicas. Ao contrário do que acontece com uma memória, exercitar uma técnica depende daquilo que medeia a relação entre indivíduo e objecto, ou seja, o corpo. Seria possível, portanto, defender que, sendo o corpo precisamente o instrumento pelo qual se estabelece a relação entre indivíduo e objecto, relação essa que é a própria essência da técnica, qualquer alteração nesse instrumento resultaria numa necessária alteração da técnica. Discordo. A técnica mantém-se intacta. O que se modifica são os estímulos. Pensemos no exemplo de um pintor que tem por hábito pintar ora com os dedos ora usando pincéis. Se, por questões profissionais, estiver um ano a pintar com pincéis, perderá o jeito, a habilidade, a técnica de pintar só com os dedos? É óbvio que não. Poderá a sua prática estar enferrujada, mas a técnica não a perde, seguramente. E não consistirão, porventura, pintar com pincéis e pintar com os dedos duas técnicas diferentes, podendo o pintor dominar as duas? Penso que não. E penso que não porque o objecto sobre o qual se debruça a técnica de pintar não é nem o lápis, nem o pincel, nem os dedos. A técnica de pintar consiste na relação entre pintor (indivíduo) e tela (objecto). Os dedos e os pincéis são o corpo, isto é, aquilo que medeia a relação entre pintor e tela, sendo que o pincel é uma extensão do corpo na mesma medida em que uma caneta é uma extensão do corpo na técnica de escrever. Dito isto, é evidente que pintar com os dedos produz efeitos diferentes de pintar com pincéis. Mas o que produz esses efeitos diferentes é tão-somente a execução da técnica, que tem logicamente de ser diferente, pois é mediada de forma diferente. Assim, uma mesma técnica pode ter diferentes execuções, consoante o instrumento (e as potencialidades desse instrumento) através do qual se materializa a sua execução, mas não se modifica. Isto não implica que quem domina uma técnica seja capaz de executá-la das mais variadas formas. Como já ficou dito acima, uma técnica não se aperfeiçoa descontextualizadamente, mas pela prática. E praticar é executar a técnica, dependendo a execução do instrumento que se usa.

Ora bem, um pintor que tenha passado toda a vida a pintar com os dedos terá dificuldades, no imediato, em exprimir a sua técnica através do uso de um pincel. Mas aprender a usar um pincel não é o mesmo que aprender uma técnica. É uma questão meramente instrumental e requer apenas uma ligeira habituação. É certo que as potencialidades de pintar com pincéis são diferentes das potencialidades de pintar com os dedos, mas a técnica de desenho será igual nos dois casos. O que varia é a forma como essa técnica é colocada em prática e não a técnica em si. Um jogador de futebol, ao "engrossar", modifica a relação que tem com o corpo. Perde agilidade, reflexos, rapidez de execução. Ou seja, altera o instrumento através do qual executa a técnica que possui. Mas nada disto é técnica. A perda destas coisas pode implicar uma execução deficiente da técnica que possui, já que essa técnica está programada para reagir a estímulos diferentes daqueles que agora são captados. Mas da perda dessas coisas não se segue uma perda de técnica. O que ocorre é um conflito, um desajuste entre um conjunto de estímulos desconhecido e uma técnica conhecida e preparada para um determinado conjunto de estímulos específico. Este novo conjunto de estímulos, embora desconhecido, não irá requerer uma nova aprendizagem e não irá produzir uma nova técnica. Isso seria admitir que a mais pequena transformação corporal destruiria por completo a técnica pré-existente. O que vai acontecer é que este novo conjunto de estímulos irá ter de aprender a aceder à técnica já existente. Dessa aprendizagem, dessa habituação, não resultam perdas de técnica, pese embora as potencialidades não sejam as mesmas. Tal como um pintor, ao pintar com os dedos, não tem ao seu dispor as mesmas potencialidades que tem ao pintar com pincéis, um jogador de futebol, ao "engrossar", tem potencialidades diferentes. Provavelmente, não conseguirá executar aquilo que tem em mente com tanta rapidez, pois possuirá menos flexibilidade. Mas também é provável que consiga executar aquilo que tem em mente com mais potência. Assim, não é a técnica que se perde ou se altera; o que sofre modificações é a forma como essa técnica é executada. A execução de uma técnica corresponde àquilo a que chamei "acesso" a uma técnica. Esse acesso pode ser dificultado por ausência de prática, que no fundo é tornar menos presente a relação entre indivíduo e objecto, ou por alterações no indivíduo ou no objecto, o que implica alterações na relação entre os dois. Ultrapassar esta última dificuldade implica, como tentei demonstrar, um ajuste. "Engrossar" não implica, portanto, uma perda de competência técnica, mas um ajuste dessa competência técnica, ajuste esse que só pode ser conseguido pela prática da técnica. Ajustar uma determinada competência técnica passa então por aplicar a técnica pré-existente aos novos estímulos propiciados pela nova relação entre indivíduo e objecto.

Técnica e Talento

Falta dedicar, por fim, algumas palavras em relação à diferença entre técnica e talento. Por técnica entendo, como penso ter ficado claro, a relação de um indivíduo com um objecto, relação essa que é orientada para uma determinada finalidade. Assim, o mesmo indivíduo e o mesmo objecto podem originar técnicas diferentes, mediante a finalidade a que se proponha a própria técnica: um homem pode relacionar-se de diferentes maneiras com uma caneta, consoante o fim a que se proponha, e desenvolver a técnica da escrita, a técnica do desenho, a técnica de equilibrar canetas no nariz, etc. Uma vez que a essência de qualquer técnica é precisamente o ser uma relação específica e contextualizada entre um indivíduo e um objecto, possuir uma técnica é possuir um atributo diferente de atributos como a velocidade, a agilidade, a força, etc. Estes atributos são treináveis por si, podendo ser adquiridos através de um treino analítico, descontextualizado. Como defendi, uma técnica, por ser essencialmente uma relação entre coisas, é um atributo mental, atributo esse cujo aperfeiçoamento não está, de maneira nenhuma, dependente da quantidade existente dos outros atributos. Pode ser que, por esta altura, para muita gente, a noção de talento entre em conflito com a noção de técnica. Não creio que exista problema algum. Uma técnica consiste numa relação simples entre um indivíduo e um objecto; um talento consiste numa relação complexa entre um indivíduo e um objecto e uma situação. Assim, o talento será igualmente um atributo mental, ou seja, será um atributo da mesma natureza que a técnica. Mas será um atributo mental de natureza complexa, que envolverá, mais do que a relação entre um indivíduo e um objecto, a relação entre estes dois e uma situação complexa. Assim, de uma pessoa que sabe andar de bicicleta diz-se que tem técnica para tal, mas não se diz que tem talento. Andar de bicicleta requer técnica, não talento. Andar sobre uma corda, equilibrar pratos, fazer malabarismo são técnicas, não talentos. Aliás, nenhuma arte circense requer talento. É por isso que são artes menores, quando comparadas com as grandes artes. O mesmo se aplica a um guitarrista. É perfeitamente possível que consiga desenvolver uma técnica perfeita e que consiga tocar guitarra de uma forma exemplar. Mas isso não basta para ser talentoso. Através do uso dessa técnica será capaz de imitar os grandes guitarristas, mas é possível que não consiga criar nada de verdadeiramente grandioso. Isto porque o talento para a música é muito mais do que o domínio perfeito da relação entre o indivíduo e uma guitarra.

Contribuem para o desenvolvimento de um talento não só a técnica, mas também outros atributos mentais, como a inteligência, a criatividade, o conhecimento, a intuição, etc. Há inúmeros casos de pessoas que possuem uma técnica perfeita mas que não são minimamente talentosas. Um exímio falsificador de quadros tem de ser alguém possuidor de uma técnica perfeita, mas não é, se não for capaz de produzir arte sua com relativo valor, um artista talentoso. Também no desporto há exemplos destes. Os Globetrotters são tecnicamente perfeitos e conseguem fazer coisas em basquetebol que não está ao alcance de todos. Mas terão talento para jogar basquetebol? Isto é, conseguiriam ser tão competitivos como os melhores jogadores de basquetebol? Em futebol, são incontáveis as pessoas que são capazes de fazer truques com a bola e que dominam com perfeição a relação com a bola. Mas para serem talentosos teriam de saber jogar futebol, e muitas destas pessoas não o sabem. Falcão, o mais reputado jogador de futsal do planeta, é tecnicamente perfeito, domina a relação com a bola como poucos. No entanto, o seu talento para jogar futebol de 11 é diminuto, não obstante ser um muito talentoso jogador de futsal. É possível concluir, portanto, que ao contrário da técnica, o talento não depende apenas de uma relação específica, orientada para uma determinada finalidade, entre indivíduo e objecto, mas de uma relação entre essa relação e uma situação complexa que exige uma competência diferente de uma competência técnica. Adquirir um talento depende por isso, muito mais do que do domínio da relação com um objecto, de uma determinada percepção de uma situação complexa. Nesta percepção intervem, muito mais do que quaisquer competências técnicas, todo o intelecto. É por isso que um talento é uma capacidade complexa, passível de ser adquirida apenas pela experiência da situação complexa em questão, e nunca uma predisposição inata. Na sua aquisição influem muitas coisas, nenhuma delas possível de desenvolver na ausência da situação complexa que o determina. Há, para finalizar, ainda outra diferença importante entre uma técnica e um talento. Uma técnica, sendo a relação entre um indivíduo e um objecto, é mediada por um corpo, ou seja, a sua execução depende de um corpo que a concretize. Um talento não tem esta dimensão; não se executam talentos. A execução tem um papel relevante numa técnica, mas não o tem num talento. O xadrez é tipicamente um desporto para o qual não existe uma técnica relevante, mas para o qual é necessário talento, ou seja, formas eficazes de perceber coisas. Assim, ao contrário da técnica, que é um atributo mental que se concretiza pela acção de um corpo num objecto, o talento é um atributo mental puro, desenvolvido independentemente do corpo e do objecto e em função de uma situação complexa.

 
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