Foi um ano esquisito, e o blogue seguiu menos o campeonato nacional do que em anos anteriores. Ainda assim, fica a sugestão do onze ideal, em 343 losango, só para dificultar, e respectivos suplentes:
Guarda-Redes: Rui Patrício
Defesas: Luisão, Garay e Otamendi
Médio Defensivo: Fernando
Médios Interiores: Axel Witsel e Lucho Gonzalez
Médio Ofensivo: Pablo Aimar
Extremos: James Rodriguez e Nolito
Avançados: Lima
Treinador: Leonardo Jardim
Suplentes, em 442 losango:
Guarda-Redes: Artur Moraes
Defesa Direito: Maxi Pereira
Defesa Esquerdo: Ínsua
Defesas Centrais: Daniel Carriço e Rolando
Médio Defensivo: Custódio
Médios Interiores: João Moutinho e Hugo Viana
Médio Ofensivo: Matías Fernandez
Avançados: Hélder Barbosa e Cardozo
Treinador: Pedro Martins
Menções Honrosas:
Rinaudo, apesar de um primeiro terço de campeonato muito bom, Elias e Schaars, apesar da regularidade e da consistência do seu jogo, e Ricky van Wolfswinkel, apesar de reunir algumas das qualidades mais apreciadas aqui num avançado, acabam por ser vítimas do mau campeonato do Sporting. Anderson Santana foi talvez o lateral esquerdo que mais impressionou, mas o seu desaparecimento sensivelmente a meio do campeonato também não ajudou. Hulk, como sempre, misturou lances individuais decisivos com um comportamento muitíssimo inconstante e, a maioria das vezes, prejudicial às aspirações colectivas. Bruno César foi um dos jogadores mais interessantes no Benfica desta temporada, mas o excesso de jogadores para o meio-campo fez com que fosse difícil de inclui-lo. Gostaríamos ainda que Pereirinha, André Martins, Saviola, Kléber, Josué e Diogo Rosado, entre outros, tivessem sido mais utilizados. Estariam certamente entre os eleitos, se assim fosse. Menção ainda para Carrillo, Ewerton, Mossoró, Adrien Silva, Marinho, Yazalde, e Hugo Vieira.
O que é ser adepto? Em grande medida, é ser alguém que gosta especialmente de um clube, tendencialmente de modo irracional, e que se regozija com a vitória desse clube. Há, no entanto, um problema. De que serve uma vitória a um adepto? Isto é, por que razão uma vitória do clube de que gosta o deixa tão contente? Numa guerra, vencer o inimigo implica necessariamente evitar a aniquilação, ou a subjugação. Vencer, nesse caso, é sobreviver. Mas, em futebol, não é assim. Qual é o objectivo ulterior da vitória? Um só: sentir que se é melhor do que os vencidos. O Chelsea acabou de se sagrar campeão europeu, e muitos londrinos sentirão neste momento que são os melhores do mundo. Senti-lo-ão, sim, mas porque são estúpidos. Um adepto inteligente, havendo-o por aí, só poderia sentir vergonha, nesta altura. Aliás, a capacidade de sentir vergonha nos momentos certos é, não raro, um sintoma de inteligência.
Dir-me-ão que isto não tem nada a ver com inteligência. Respondo que defender a prática da celebração de vitórias recorrendo à estupidez em que consiste o exercício é provavelmente uma defesa idiota. Os adeptos do Chelsea que festejam hoje a vitória do seu clube são como jogadores de casino a quem saem os dados certos, com a diferença significativa de que, depois da jogada certeira, não ganham dinheiro nenhum. O que se festeja hoje em Londres é, à falta de melhor, a irracionalidade própria. Aquelas pessoas celebram porque estão convencidas - a cultura em que nasceram educou-as assim - de que as vitórias, por si só, merecem celebração. Mas não há razão nenhuma para que assim seja. Só há um tipo de sítios em que imagino que as coisas se festejem por si só: os hospícios. Londres é hoje um hospício gigante em que os doidos, apenas porque sim, apenas porque há qualquer coisa dentro deles que os faz sentirem-se embriagados de felicidade, festejam a sua doidice. Ser adepto, como é normalmente entendido, é pouco mais do que ser doido.
Ganhar, por si só, não é nada. A vitória só faz sentido enquanto materialização de uma certa superioridade. O que deve ser festejado, quando se festeja uma vitória, não é a vitória, mas a superioridade que essa vitória materializou. Quando a vitória cai do céu, quando não materializa rigorosamente coisa nenhuma, festejá-la é um absurdo. Assim é neste momento. O Chelsea não foi superior a ninguém, e a vitória que alcançou é ridícula. Festejar essa vitória é como ser muçulmano e festejar o triste episódio do World Trade Center em 2001. Pensando bem, aquilo que celebram as pessoas que celebram vitórias como a do Chelsea é o Acaso; celebram o terem tido sorte, o ter-lhes protegido os interesses qualquer força inexplicável. A conclusão surpreendente é estas pessoas celebrarem afinal o não terem livre-arbítrio. Não é extraordinário? Eis a melhor definição possível de um adepto: indivíduo que, por gostar irracionalmente de algo, reconhece inadvertidamente que esperar a morte é o único objectivo da sua vida.
Depois de, em Camp Nou, o Barcelona jogar e o Real Madrid vencer; depois de, outra vez em Camp Nou, o Barcelona jogar e o Chelsea vencer; depois de, em Bucareste, o Athletic de Bilbao jogar e o Atlético de Madrid vencer; eis que, em Munique, o Bayern jogou e o Chelsea venceu. Às vezes, no futebol, são os que menos fazem por isso que ganham. Este ano, sobretudo nesta fase final da época, aconteceu mais vezes do que é normal. É por isso um ano desastroso para o futebol. De tempos a tempos, acontece um ano assim. E o que dizer agora de André Villas Boas e de Di Matteo? Digo o mesmo que disse há uns anos de Juande Ramos e Harry Redknapp. Na altura, disse que o Tottenham não quisera crescer para onde podia. Harry Redknapp devolvera os resultados imediatos ao clube, mas o clube não tinha por onde crescer. Com o orçamento e o grupo de jogadores que o Tottenham tem, hoje em dia, não ser capaz de lutar pelo título é mau. Continua atrás do principal clube londrino, e vai tendo, no máximo, uma ou outra vitória circunstancial. Ao fim destes anos, confirmou-se a previsão: o Tottenham tem a força máxima que poderia ter com a qualidade do plantel que tem, mas estagnou enquanto colectivo. Preferiram-se os resultados a curto prazo, e não o projecto de longo termo. O Chelsea que Villas Boas desejava talvez desse frutos sustentados daqui a uns anos. Os jogadores não quiseram, e estou certo de que os adeptos estão, neste momento, felizes com a substituição de treinador. Ganharam um título muito importante, mas comprometeram, na minha opinião, o futuro. O Chelsea foi campeão europeu, mas, extraordinariamente, deu um passo atrás. De vez em quando, também acontece. É estranho pensar assim, mas é o único pensamento correcto. Ganhar nem sempre é dar um passo em frente. Por mais paradoxal que pareça, ao sagrar-se campeão europeu, o Chelsea tornou-se um clube mais fraco do que era.
É talvez ainda cedo para que se
perceba verdadeiramente o que se passou nestes 4 anos, e acredito que há
pouca gente, neste momento, consciente do que isto representou para a
História do jogo. Tal como a 14 de Julho de 1789, Luís XIV escrevia no
seu diário a palavra "Rien", a grande maioria dos amantes de futebol não
estará a par da Bastilha que Guardiola e os seus pupilos tomaram. Por
esta ou por aquela razão, ainda que admirados com o que esta equipa fez,
não entendem a revolução a que deu lugar. À distância, todos os grandes
momentos da História da Humanidade nos parecem grandes o suficiente
para que as pessoas que os tenham vivido tenham sabido aproveitá-los.
Mas quantas das pessoas que os viviam estariam conscientes da sua
importância futura? Saberia, quem conversava com Sócrates em Atenas, o
privilégio que tinha? Conheceriam os marinheiros a bordo da Santa Maria
as repercussões daquela viagem histórica? Que espécie de sentimentos
guardariam os espectadores do "The Globe", em Londres, depois de cada
representação? Hoje em dia, as suas vidas parecem-nos invejáveis pelo
simples facto de que puderam desfrutar de momentos irrepetíveis. Vistos à
escala a quem têm de ser vistos, estes 4 anos propiciaram-nos coisas
muito semelhantes, e o seu impacto na História do Futebol depressa se
evidenciará.
Pessoalmente,
poder ter assistido ao futebol apresentado por esta equipa foi um dos
maiores privilégios da minha vida, e só posso agradecer a oportunidade.
Quando Guardiola, na época de 2008/2009, pegou no leme catalão, poucos o
conheciam e poucos esperariam o que se viria a passar. Muitas das
ideias que defendíamos aqui, já na altura, não tinham materialização
prática, e nenhuma equipa, até então, jogava o tipo futebol que
acreditávamos ser o mais eficaz. No início dessa época, José Mourinho
rumava a Itália, e tínhamos bastantes expectativas em relação ao seu
trabalho. O Porto de Mourinho, assim como o seu Chelsea dos primeiros
dois anos, jogava de modo muito interessante, e esperávamos que, em
Milão, tentasse levar mais longe algumas das suas ideias mais antigas.
Infelizmente, Mourinho tinha mudado a sua maneira de pensar. A
mentalidade competitiva falou mais alto, e o querer ganhar a todo o
custo sobrepôs-se à ideologia anterior. No ano anterior, o modelo
ofensivo de Frank Rijkaard tinha-se desmoronado com a deterioração das
capacidades individuais de alguns dos principais jogadores da equipa,
mostrando que os feitos alcançados dependiam excessivamente da
competência individualizada dos atletas ao seu dispor. Nessa época de
2008/2009, talvez mais do que nunca, imperava no futebol mundial a
ideia, contra a qual sempre quisemos lutar, de que as capacidades
individuais são o que, no limite, distinguem uma grande equipa, e a
ideia, ainda mais rudimentar, de que os atributos atléticos são os mais
relevantes numa modalidade que está a chegar ao ponto máximo da sua
evolução.
Inesperadamente,
portanto, começou a aparecer na Catalunha, em jogadas reais, aquilo que
nos ia na cabeça. Ainda me lembro da primeira troca de ideias que eu e o
Gonçalo tivemos a respeito da equipa de Guardiola: "Aquilo é a nossa
praia!", disse um para o outro. E era! E foi-o sendo cada vez mais, à
medida que os jogadores iam interiorizando melhor e melhor a radical
diferença do que estavam a fazer. Guardiola ainda não deveria ter 6
meses ao comando dos catalães e já era para nós o melhor treinador da História do Jogo. Isto
pela simples razão de que fora o primeiro a conseguir que os seus
jogadores jogassem de modo sistemático da maneira que nós acreditávamos
ser a melhor para se jogar futebol. Por esta altura, talvez só Xavi e
Iniesta entendessem a proposta de Guardiola na sua plenitude. Era por
isso que, nessa altura, só entre eles se passasse o tipo de coisas que,
mais tarde, se começou a passar entre todos os jogadores em campo. A
pouco e pouco, o modelo foi ganhando consistência, sofisticou-se o mais
possível, e foi nesta quarta época que atingiu o seu zénite. Na hora da
despedida, Guardiola agradeceu aos jogadores por terem posto em campo
aqueles lances que antes só podia imaginar. Foi precisamente a
quantidade e a qualidade desses lances que Guardiola só podia imaginar
que esta equipa foi melhorando ao longo das quatro épocas. Hoje em dia,
não podiam melhorar mais. E Guardiola sentiu que tinha o dever cumprido.
Agora pode talvez ficar em casa, enquanto outro lhe segue os passos,
com a certeza de que poderá continuar a ver aquilo que antes não podia.
Guardiola
justificou a decisão de terminar o vínculo contratual que o ligava ao
Barcelona com a necessidade de descanso. Visivelmente, já não se
entusiasmava como antes, já não vivia intensamente os jogos como no
passado. O que Guardiola não disse, mas que talvez lhe estivesse na
cabeça, é que o cansaço se devia também ao sucesso. Não falo do sucesso a
nível de conquistas, mas num outro sucesso maior. Para muitos,
Guardiola ficará na História do Futebol pelos 13 (ainda poderão ser 14)
títulos em 4 épocas. Para mim, os seus maiores feitos são outros.
Guardiola mudou o jogo! Os seus jogadores interpretavam tão bem aquilo
que ele idealizara que sentiu que não tinha mais nada para lhes ensinar.
Podia continuar a acumular títulos, mas corria o risco de criar
habituações perniciosas. Ao contrário de outros, que usam como estímulo a
conquista de troféus, os records, os adversários impossíveis de
vencer, Guardiola tinha por estímulo a revolução que levou a cabo.
Terminada que está essa revolução, decidiu recolher-se, e merece todo o
respeito pela coragem com que o fez. Como bem disse, precisa de sentir
novamente que o futebol precisa dele. Talvez nessa altura, com outro
projecto, com outras aspirações, regresse para revolucionar mais um
pouco. Pessoalmente, não tenho curiosidade nenhuma em saber o que fará
noutras paragens. Isto é, gostaria de vê-lo a treinar outra equipa, mas
não me preocupa que não o faça. Aquilo que deu ao futebol nestes 4 anos é
tão importante que, mesmo que não volte a treinar, terá dado mais do
que qualquer treinador em 30 ou 40 anos de carreira. Mal ou bem,
Guardiola deixou para a posteridade lições suficientes para que o
futebol do futuro não precise de regressar ao tempo das cavernas.
Disse
acima que os seus maiores feitos não foram os títulos, e é nisso em que
acredito. Ganhar coisas todos ganham. Ganhar muitas coisas também há
quem o faça. Mas mesmo os mais titulados dos treinadores, em muitos e
muitos anos de carreira, não foram capazes de fazer as coisas que
Guardiola fez nestes 4 anos. E é disso que quero falar até ao fim. Terá dito José Mourinho que
venceu uma das melhores equipas da História, e que com isso provou que
não há só uma maneira de jogar futebol. Que há muitas formas de ganhar e
de jogar futebol parece-me inequívoco. Que haja muitas formas de
exercer o tipo de supremacia que o Barcelona de Guardiola exerceu nestes
quatro anos é que me parece mais difícil de sustentar. Sim, Mourinho
ganhou. Como já o havia feito com o Inter de Milão. Mas o Barcelona de
Guardiola fez algo muito mais importante do que simplesmente ganhar.
Além de ter ganho sistematicamente, fez coisas que nenhuma outra equipa
na História do Jogo conseguiu fazer. É esse o legado de Guardiola.
Ganhar todos podem fazê-lo. E Mourinho até é dos que ganha muito. Mas
revolucionar o jogo como este Barcelona fez não está ao alcance de
qualquer um. É claro que não há um só tipo de futebol vencedor. Mas há
um só tipo de futebol que, para além de habilitar quem o pratica a
vencer, o habilita a ficar na História do Futebol bem acima de qualquer
outra equipa. Deixo abaixo algumas evidências daquilo que nos legou esta
equipa, coisas que nunca tinha visto acontecer noutros sítios e noutros
contextos, e coisas que não voltarão a acontecer tão depressa. São
estas coisas que diferenciam esta equipa de qualquer outra. No dia em
que houver outra equipa a conseguir estes feitos, então talvez possamos
conversar.
1. POSSE DE BOLA
Nunca
tinha visto uma equipa passar 4 anos seguidos sem ter menos de 50% de
posse de bola num jogo, nem nunca tinha visto uma equipa conseguir
médias de posse de bola a rondar os 70%.
2. PASSES COMPLETADOS
Nunca tinha visto o guarda-redes de uma equipa realizar
mais passes do que a maioria dos jogadores adversários, nem nunca tinha
visto um só jogador ter mais passes completados que a equipa adversária
inteira (ainda na recente meia-final da Liga dos Campeões com o Chelsea,
no jogo da segunda mão, Xavi fez mais passes do que toda a equipa
inglesa).
3. GOLEADAS
Nunca tinha visto uma equipa com capacidade para golear
quem quer
que fosse o adversário (em Espanha, nenhuma das principais equipas
escapou a goleadas com 5 ou mais golos), nem nunca tinha visto uma
equipa capaz de vencer por 7-0 em terreno alheio, num jogo da Liga,
perfazer 73% de posse de bola, com apenas 4 titulares em campo.
Aconteceu a semana passada, diante do Rayo Vallecano (Pinto, Montoya,
Puyol, Mascherano, Adriano, Busquets, Keita, Thiago, Pedro, Alexis e
Messi foram os onze que entraram em campo).
4. GOLOS
Nunca tinha visto uma equipa marcar tantos golos através de
combinações colectivas, nem nunca tinha visto uma equipa funcionar de
modo tão exemplar que
propiciasse ao seu melhor jogador a possibilidade marcar mais de 70
golos, em jogos oficiais, numa só época.
5. ESTILO
Nunca
tinha visto uma equipa capaz de criar um estilo tão distinto (um estilo
que, ao mesmo tempo, todos gostariam replicar e ninguém se atreve a
fazê-lo), nem nunca tinha visto uma equipa a dominar tão claramente os
seus adversários, pondo-os sistematicamente à rabia.
6. TRANSCENDÊNCIAS
Nunca
tinha visto 2 só jogadores conseguirem furar entre 8 ou 9 adversários
bem fechados, recorrendo a tabelas sucessivas, nem nunca tinha visto 2
ou 3 jogadores conseguirem superar sistematicamente 5 ou 6 adversários
através de combinações entre eles.
7. LIÇÕES
Nunca
tinha visto uma equipa a destruir tantos preconceitos acerca do jogo
como esta (o de que não se pode sair a jogar quando se é pressionado; o
de que não se deve arriscar atrás; o de que se deve cruzar a bola para a
área quando se chega à linha de fundo; o de que se deve aproveitar
sempre o espaço em transição; o de que se deve ter, pelo menos, alguns
jogadores altos e fortes em campo; o de que não se deve ter mais do que
um médio criativo em campo ao mesmo tempo; o de que se deve adaptar pelo
menos parte do modo de jogar ao adversário que se enfrenta; o de que se
deve jogar pelas alas quando o meio está fechado; o de que uma equipa
se deve compor de jogadores para defender e de jogadores para atacar; o
de que cada jogador deve ter uma função específica em campo; o de que o
ponta-de-lança deve servir essencialmente para marcar golos; o de que
coisas inconsequentes, como tabelas sem progressão ou passes para
jogadores rodeados de adversários, devem ser evitadas; o de que se deve
rematar à baliza sempre que se tem possibilidade; o de que se deve
variar entre o passe curto e o passe longo; o de que o futebol moderno
tornou utópico jogar apenas com 3 defesas; o de que o portador da bola
deve respeitar sempre a desmarcação do colega, passando-lhe a bola; o de
que a vaidade é um atributo a eliminar numa equipa de futebol; o de que
a força ofensiva de uma equipa depende da soma da competência
individual dos seus atacantes; o de que, com bola, a equipa deve fazer
campo grande, espalhando os seus jogadores o melhor possível pelo
terreno de jogo; o de que se deve jogar sempre com a máxima intensidade
possível; o de que os extremos devem estar o mais abertos possíveis;
etc.), nem nunca tinha visto uma equipa forçar a que os teóricos do
jogo reformulassem tanto as suas teorias acerca do mesmo.
8. MONSTRUOSIDADES
Nunca tinha visto uma equipa gerar tantos anticorpos, assustado tanta
gente, e motivado tanto esforço para ser derrubada, nem nunca tinha
visto uma equipa promover tantos debates teóricos, e motivar tanta
discussão em torno da melhor estratégia com que pudesse ser derrotada.
9. APOIO INCONDICIONAL
Nunca tinha visto 90 mil pessoas, instantes depois do golo
que impedia a equipa de chegar à final da Liga dos Campeões, três dias
depois de a equipa ter também perdido o campeonato para o rival de
Madrid, juntar as vozes e, em coro, entoar: "Olele, olala, ser del barça
es el millor que hi ha!", nem nunca tinha visto uma equipa ficar em segundo lugar no campeonato, e
celebrar tanto quanto a que ganhou o título (aconteceu na despedida de
Guardiola, este fim-de-semana).
10. REVOLUÇÃO
Nunca
tinha visto nada destas coisas, nem nunca tinha visto uma equipa
revolucionar tanto esta modalidade. É este o legado de Guardiola. Que se aprenda alguma coisa com ele! O Entre Dez, que faria justiça à decisão de Guardiola emulando-a, decide por enquanto permanecer activo, a fim de que se possam continuar a educar os espíritos mais difíceis de convencer. Agora que Guardiola mostrou que é possível jogar desta maneira, é também mais fácil pensar no jogo como sempre exigimos que se pensasse. A revolução está feita. Resta-nos continuar a defender-lhe a necessidade.
É o que me surge, ao vislumbrar a primeira página do jornal deste Sábado: " Desgaste provocado pelo português decisivo para o adeus do catalão" ou " Aposta do Real Madrid no projecto Mourinho provocou rombo no porta-aviões culé" foram as frases que me arrebataram a atenção. Já é sobejamente conhecida a fidedignidade de grande parte dos artigos deste jornal, mas ainda assim, perante tamanha estultícia, nem o parco respeito que destilo pelo jornal A Bola me prevenira para a sua parangona. Piorou, no entanto, a minha incredulidade, ao ler as linhas que se encerravam sobre a despedida de Pep.
Miguel Correia assinou a crónica ataviada das seguintes pérolas: "uma certeza: um dos aspectos que mais terá contribuído para o desgaste do ainda responsável pelo Barcelona terá sido a guerra de palavras protagonizada por José Mourinho, treinador do Real Madrid, mind games tanto do agrado do técnico português e aos quais Josep Guardiola esquivou-se permanentemente, direcionando o seu discurso,educado, sempre noutras direções. Mas há quem defenda que, afinal, o técnico, que ainda não digeriu o último desaire contra o Real, atirou a toalha para o chão, temendo que, na próxima época, Mou ganhe os títulos mais importantes, uma atitude bem diferente da que mostrou na sua carreira de jogador, isto é, nunca se rendia as adversidades".
Tanta patetice deixou-me perdido, confesso. Não percebia se isto se tratava de uma peça humorística, ou se era apenas idiotice do Sr. Miguel Correia. Idiotice, afinal. Acho piada uma pessoa aludir a uma suposta cobardia de Guardiola, sendo que ele próprio,o Sr. Miguel Correia, abafado que está nesse lamaçal, inventa personagens para assim poder, da forma mais cobarde possível, apelidar Pep de cobarde. Depois, a convicção que coloca numa crença absolutamente idiota, quase religiosa, de que Guardiola está desgastado pela sua relação com Mourinho. Ele, Pep, que nunca adaptou a sua equipa a terceiros, que se centrou única e exclusivamente no aperfeiçoamento do seu modelo, encontrava-se desgastado pela acção de terceiros? Que estupidez!
Um aparte, em que prometo ser breve, sobre Mourinho e Ronaldo. Que são, cada um no seu espaço, elementos de enorme valia, ninguém dúvida, mas esta coisa absurda de os colocar acima de todos só porque são portugueses não encerra em si mesma a mais caluniosa das ofensas? Não será este tipo de xenofobismo a forma mais primitiva de, na sua miserável existência, se sentirem minimamente importantes? Se Mozart teve piolhos, estas pessoas dariam tudo para trocar a sua vida pela desses parasitas.
Depois, na sua habitual crónica, surge Luís Freitas Lobo. Freitas Lobo faz-se acompanhar sempre de uma elegância tremenda, evitando ao máximo melindrar quem quer que seja; porém, encontrei na crónica deste Sábado elemento que justificam reparos. Na sua coluna de opinião, intitulada "As verdades do Futebol", Freitas Lobo dá a entender que a abordagem efectuada pelo Chelsea foi meritória. Isto porque, no seu entender, os 73% de posse de bola do Barcelona estiveram sempre controlados, apesar de 2 bolas no ferro, duas enormes defesas de Petr Cech, (e já nem vale a pena abordarmos o que se passou na primeira mão). Mais, a diferença que Freitas Lobo apregoa deste Barcelona para o que venceu na época passada assenta, segundo ele, na estrutura. Critica o 343 de Guardiola, defendendo que "nenhuma equipa no futebol moderno resiste a este desequílbrio posicional", ignorando o que na realidade contribuiu para o falhanço deste ano, para além de circunstâncias relacionadas com o lado caótico do jogo, como o acaso, ou seja: as opções infelizes que o próprio Guardiola reconheceu ter tomado, assim como aquelas de que ele não falou, como seja o caso de Piqué.
O cronista português podia ter abordado a "aparente má época de Guardiola" através das suas opções, mas quis encontrar uma justificação mais elaborada, o que resultou num redundante engano. Mais, ao afirmar que nenhuma equipa no futebol moderno está preparada para o desequilibrio estrutural de que fala, Freitas Lobo ignora o essencial sobre esta equipa: as regras que se aplicam ao restante universo futebolístico não se podem notar na equipa catalã; as regras são diferentes, por que um diferente paradigma assim o obriga. No futebol moderno, como ele defende, a tendência empurra as equipas para atribuirem uma maior importância aos factores físicos. Esse nunca foi um ponto importante na equipa de Guardiola, e, apesar disso, esta "inferior" equipa, no que aos aspectos físicos diz respeito, dominou o futebol mundial nos últimos 4 anos ao mesmo tempo que lançou mais de 20 miúdos na ribalta. Não sei a partir de que data devemos começar a definir o "futebol moderno", mas esta supremacia contraria, de forma clara, a sua sugestão de que o sucesso na Europa responde a uma superioridade física de umas equipas sobre outras.
Termino com uma frase de bancada, com que ele nos brinda, na sequência da que já salientei sobre a mudança de estrutura no conjunto catalão: "Realidade tática agravada com o facto de, contra o Real, forte no jogo aéreo, o central eleito(Puyol) ter apenas 1.78metros". Não sei o que dizer, nem consigo encontrar no jogo contra o Real indícios de que o que é defendido nesta frase encerra o mais ínfimo sentido. À excepção dos últimos 10 minutos, em que existiu algum desnorte do Barcelona, o Real não conseguiu beliscar sequer a superioridade do seu adversário. As melhores oportunidades de golo, de todo o jogo, foram as duas do Barcelona. Os golos do Real resultam de erros a que nada corresponde a baixa estatura de Puyol (o primeiro golo surge de um ressalto, e no segundo Valdés não está isento de culpas), e, sendo assim, não consigo descortinar a relevância dos centimetros a menos de Puyol.
Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho eliminou o Barcelona, publicou o Entre Dez um texto em que defendia a equipa blaugrana. Não o fez por despeito, mas porque, apesar da eliminação, a equipa manteve a sua identidade, a sua honra, e jogou o melhor que pôde, não vencendo apenas por manifesta falta de sorte. Hoje, após a eliminição ante o Chelsea, repete-se o exercício. No final do jogo, as estatísticas deram 27% de posse de bola ao Chelsea. As estatísticas estão erradas. Desconheço quais os critérios para medir a posse de bola, mas o Chelsea não teve nem 20% de posse. Como é óbvio, a posse de bola não justifica nada, e muitos poderão dizer que o Barça não soube materializá-la em oportunidades. Mas isso também é falso. O Barcelona teve, nada mais, nada menos, do que oito oportunidades claras de golo, ao longo do jogo. Os postes, Petr Cech, e a sorte, protegeram o Chelsea.
Ao longo da partida, Luis Freitas Lobo foi gabando a estratégia do Chelsea. Há cinco anos, Luís Freitas Lobo percebia qualquer coisa de futebol. Hoje em dia é acéfalo. Não sei o que terá acontecido entretanto, mas a verdade é que não sabe o que diz. Há-de haver uma explicação clínica. Aliás, quando o Barcelona fez o primeiro golo, disse Luís Freitas Lobo que estava reposta a lógica na eliminatória. Como é que ele pode dizer isso, quando defendeu que o Chelsea tinha merecido o resultado da primeira mão? Luís Freitas Lobo diz aquilo que os resultados exigem que diga. Se o Barcelona tivesse marcado mais do que o Chelsea, diria que o Barcelona jogou bem, e que vencera a eliminatória quem mais merecera. Como não foi o que aconteceu, foi o Chelsea que mais mereceu. Repito: isto é conversa de gente com problemas na cabeça. Os resultados são o que são, mas nem sempre espelham o que se passa em campo. E o que se passou em campo, nesta eliminatória, foi que o Barcelona esmagou o Chelsea. "Estratégia" é saber defender para atrair o adversário, e depois lançar os ataques. Defender com nove jogadores dentro da área não é "estratégia". É fé. E, às vezes, porque o jogo dá-se a isto, a fé pode vencer a competência. Foi o que aconteceu. Em condições normais, o Barcelona venceria a eliminatória com a facilidade com que venceu o Bayer Leverkusen. Acontece que, juntando-se várias anormalidades (13 oportunidades claras de golo, e apenas 2 golos; 4 bolas nos postes; 3 oportunidades de golo do adversário e 3 golos sofridos; erros de Mascherano), uma eliminatória em que uma equipa esmagou a outra acabou por permitir que a equipa esmagada passasse à final. Pode acontecer. Não é muito normal, mas pode acontecer.
Há que notar que, assim que Fernando Torres marcou o golo do empate, que punha um ponto final na eliminatória, os adeptos entoaram, em coro, o hino do Barcelona. Não sei se não será algo inédito num campo de futebol. Desconfio que sim. É costume dizer que, em Inglaterra, os adeptos aplaudem a equipa mesmo quando esta perde. Isso acontece principalmente porque os adeptos são, na sua grande maioria, estúpidos. Aplaudem porque notam que a equipa se esforçou. Não reparam que, apesar do esforço, jogaram miseravelmente. Hoje, em Camp Nou, os adeptos aplaudiram por outra razão. Aplaudiram porque o orgulho na sua equipa é tanto que supera a frustração de não marcar presença na final de Munique. Isso é inédito. E só podia ser alcançado num clube com um projecto deste tipo, e com um modelo de jogo que, mesmo nos jogos em que o resultado não é favorável, deixa a certeza de que se jogou o melhor que era possível. Hoje, o Barcelona foi derrotado, principalmente porque o futebol permite que o melhor seja derrotado. Mas venceu de outra maneira, novamente. E é por ter vencido dessa maneira que é seguro que seja novamente o principal favorito a conquistar o troféu na época seguinte. Sim, o Barcelona não vai revalidar o título de campeão europeu. Mas continua a ser a melhor equipa do mundo. De longe.
Quando, há dois anos, o Inter de Mourinho derrotou o Barça, apontaram-se defeitos à equipa, apontaram-se erros a Guardiola, etc.. O Entre Dez optou por outro discurso, o mesmo por que opta agora. O Barcelona perdera porque, mesmo sendo o melhor, às vezes perde-se. A terceira época de Guardiola mostrou que tínhamos razão. Apesar de ter sido derrotado, continuava a ser a melhor equipa do mundo, e continuava a ser a equipa que melhor jogava, e que melhores condições reunia para ganhar as competições que disputava. Hoje, que se repetiu o azar de o Barcelona não passar à final da Liga dos Campeões, repetem-se as razões, e repetem-se as nossas previsões. Trata-se da melhor equipa do mundo, da única equipa de que tenho conhecimento que conseguiu aterrorizar o mundo do futebol. Para mim, por exemplo, este é o melhor ano, em termos de qualidade de jogo, da era Guardiola. Aceito que, defensivamente, a equipa não tem estado tão bem como já esteve, embora muito por culpa pelas ausências sistemáticas de Piqué e Abidal. Mas, ofensivamente, foi o ano em que a equipa melhor jogou. Duvido que a maioria das pessoas que me lêem consigam perceber o que digo, sobretudo porque a equipa não vai ganhar o que ganhou noutros anos, mas é assim que penso. Em termos de jogo, a equipa aprendeu a desenvencilhar-se de situações mais difíceis, e tornou-se ainda mais confortável a jogar da maneira que joga. Se, noutros anos, havia equipas que conseguiam dificultar o trabalho aos jogadores catalães, este ano não houve uma única que o conseguisse.
E o Real Madrid, no passado fim-de-semana? Tenho lido várias coisas acerca do jogo de Camp Nou que o Real ganhou, e continuo sem perceber a análise das pessoas. O Real ganhou como o Chelsea ganhou: porque teve sorte. E a sorte, por vezes, protege quem menos faz por ela. Era difícil de prever que o Barça tivesse azar três vezes seguidas, mas aconteceu. Teve azar, e teve o Mascherano em campo. A primeira oportunidade do Real Madrid, no sábado, foi a do segundo golo, aos 70 e tal minutos. Depois, tem outra mesmo a acabar, numa altura em que, aí sim, já havia algum desnorte dos catalães. O Barcelona, mesmo não tendo jogado bem, teve 4 oportunidades flagrantes de golo (uma de Dani Alves, uma de Xavi, e duas de Tello). Somando isso ao facto de os dois golos do Real terem sido precedidos de falta (para não falar no fora-de-jogo no primeiro golo), como é que se pode ser hipócrita ao ponto de dizer que o Real venceu de forma justa e foi a melhor equipa em campo? Ou estão mal habituados, tanto é o domínio dos catalães, ou são, pura e simplesmente, desonestos. Guardiola e Iniesta têm razão no que dizem: o Barcelona não jogou tão bem como é costume, é verdade, mas ainda assim foi superior ao Real Madrid e foi a equipa que mais fez por vencer. A haver um vencedor justo, esse tinha de ser, obviamente, o Barcelona. Mas, como o futebol não se faz de justiça, o Real ganhou. Como hoje o Chelsea ganhou. Acontece.
Por fim, gostaria ainda de falar de Mascherano. Tenho batido na mesma tecla, mas acho que tenho de fazê-lo novamente. Mascherano já tinha sido o responsável no golo sofrido frente ao Milan. Frente ao Chelsea, foi o responsável directo pelos dois golos (não conto o de Fernando Torres, que ocorre numa altura em que o Barça tentava tudo por tudo para apertar o cerco ao Chelsea). Em Stamford Bridge, reage mal ao lance e invade o espaço de Puyol, em vez de oferecer uma cobertura, e quando se apercebe não se reposiciona bem, não cortando a linha de passe possível para Didier Drogba. Em Camp Nou, é ele quem sai da sua posição para ir perseguir Lampard até à linha de lateral, abrindo um buraco desnecessário no centro da defesa que Busquets não conseguiu cobrir a tempo. Frente ao Real, é ele quem falha a cobertura no lance de Ronaldo. É verdade que Adriano vai fechar ao meio quando tinha Busquets ao seu lado, melhor posicionado para o fazer, e isso permite que a bola entre em Ozil. Mas, indo a bola para a linha, Mascherano só tinha que bascular. Além de não perceber o que Ozil ia fazer, que era óbvio, estava praticamente a meio do meio-campo, a mais de 20 metros de Busquets, que é quem sai ao alemão. Se, no meio-campo, é o que é, a defender, por ter menos bola, sempre pareceu o argentino um estorvo menor. O que é certo é que, a jogar com três defesas, a equipa fica mais exposta, e as carências intelectuais de Mascherano mais visíveis. O Barcelona também pagou por isso, e é bom que Guardiola o perceba. Aliás, com Piqué em campo, desconfio que o Barcelona estaria neste momento na final de Munique, e o Real em pânico por estar com um ponto apenas de avanço no campeonato. Às vezes, também é tão simples quanto isto.
Quando se fala, por isso, em passagens de testemunho, e em mudanças de ciclo, apetece dizer às pessoas para terem juízo. Quando virem uma equipa a ser capaz de vergar outra como o Barcelona faz sistematicamente com os seus adversários, ou quando virem uma equipa a ser, por pouco que seja, superior aos catalães no terreno de jogo, aí, sim, atirem foguetes. É que, até à data, o Barcelona ainda só perdeu competições por questões acidentais, e ainda não jogou um único jogo, com quem quer que seja, em que se pudesse dizer honestamente que o adversário foi superior. Há coisas que têm de ser revistas, nomeadamente o reforço do sector defensivo, mas não tenho dúvidas de que a equipa de Guardiola continuará a ter a hegemonia que teve até aqui. E é sobretudo disso que se trata, quando se defende esta maneira de jogar. É que, mesmo perante dois ou três desaires sucessivos, fica sempre a sensação de que é impossível acontecer muitas mais vezes o que aconteceu esta semana.
Para o Entre Dez, o trabalho de Marcelo Bielsa em Bilbao não é necessariamente motivo de surpresa. Quem se habituou a seguir este blogue, sabe que não é de agora a admiração pelo treinador argentino. Com ou sem resultados, as equipas de Marcelo Bielsa sempre impressionaram. E essa impressão, não os resultados obtidos, é que deve ser o critério decisivo para se aferir a qualidade de um treinador. No início da época, estive para escrever sobre o campeonato espanhol em geral, sobre a crescente qualidade de algumas equipas de segunda linha, e sobre os treinadores responsáveis por essa qualidade. Acabei por não o fazer, e houve coisas que ficaram por dizer sobre treinadores como Unai Emery, ou Mauricio Pochettino. Não são os únicos, mas são os que talvez mais me agradam, de todas aquelas equipas que lutam por um lugar europeu. À excepção de Marcelo Bielsa, claro, que é de outro campeonato.
Na antevisão do jogo de hoje, Ricardo Sá Pinto colocou-o ao nível de Guardiola e de Mourinho. É difícil fazê-lo unicamente porque não tem o palmarés, a nível de títulos, dos outros. Mas as suas equipas raramente desiludem. E, tendo em conta que oferecem sempre um futebol de qualidade, eu diria que o trabalho dele merecia outra atenção. Disse dele, recentemente, Guardiola que se tratava do melhor treinador do mundo. Exagerava, talvez, mas homenageava um dos seus principais mentores. Para mim, que tenho uma ideia de futebol muito específica, e acho que os grandes treinadores da História do jogo são, não aqueles que conquistaram mais coisas, mas sim aqueles que fizeram evoluir a concepção do jogo e deixaram maior legado em termos teóricos, Marcelo Bielsa tem necessariamente de ser colocado ao lado dos principais treinadores, de César Luis Menotti, de Rinus Michels, de Johan Cruyff, de Arrigo Sacchi, e, sim, de José Mourinho e Pep Guardiola. É esta a estima que tenho por Bielsa, estima essa que o futebol do Athletic de Bilbao, esta época, não tem de maneira nenhuma decepcionado.
Como todas as ideias revolucionárias, as ideias de Bielsa requerem tempo para serem implementadas. Os jogadores bascos terão demorado a interiorizar tudo o que deles passou a ser exigido, com Bielsa, mas, agora que a época se aproxima do fim, este Bilbao - e este é o melhor elogio que se lhe pode fazer - é a equipa que vi jogar que mais se aproxima do Barcelona de Guardiola. Em Old Trafford, frente a um todo-poderoso Manchester United, sem estratégias de gente pequena, assumiu o jogo, pegou na bola, e fez com que os ingleses andassem a correr atrás dela. O golo de Óscar de Marcos é um excelente exemplo daquilo que, ofensivamente, esta equipa sabe fazer, mas houve, durante o jogo, vários momentos ainda mais brilhantes. Ferguson ficou deslumbrado e reconheceu, no final da eliminatória, que era um regalo poder ver o Athletic de Bilbao a jogar futebol. De uma equipa que se encolhia, como todas as equipas de nível médio-baixo, perante adversários todos poderosos, o Bilbao de Bielsa transformou-se numa equipa que controla qualquer adversário. Isso só é possível de uma maneira: querendo sempre a bola. É esse o principal traço fisionómico desta equipa: ter bola. Falta-lhe, é certo, muito para fazer com a bola o que os jogadores catalães fazem, mas tem, pelo menos, a consciência de que, para o jogo que pretende, um jogo em que é o adversário que tem de se adaptar a si e não o contrário, ter a bola é o mais importante princípio de jogo.
Montado em 433, o Bilbao de Bielsa joga sempre em função da bola, e obriga os adversários a jogar sempre em função deles. Ofensivamente, é uma equipa poderosíssima precisamente porque é das melhores do mundo a trocar a bola, a arranjar espaços de penetração centrais. O trabalho de desmarcação, a preocupação com os apoios interiores, a dinâmica sem bola do ataque, tudo isso oferece ao portador da bola mais soluções do que normalmente se tem. Aos seus pupilos ensinou Marcelo Bielsa a importância do papel da decisão. Aprenderam a tabelar, a devolver o passe, a jogar curto, a sair de zonas de pressão em posse, deixando presos ao relvado três ou quatro adversários. Por vezes, quando se intranquilizam, esquecem tudo isto. Mas, se, porventura, estiverem concentrados, conscientes do que têm de fazer, é muito difícil superar-lhes o jogo.
Entre várias revoluções, fez Marcelo Bielsa de Javi Martinez um central. Quando tantos adaptam defesas a médios-defensivos, adaptar um médio-defensivo (ainda por cima um dos principais esteios da equipa e um dos maiores valores do futebol espanhol na sua posição de origem) a central diz mais de um treinador do que qualquer linha de currículo. Como fez Guardiola com Mascherano, ao perceber que não tinha qualidade para jogar no meio-campo catalão, Bielsa transformou um médio-defensivo de combate num defesa central competente. E, para a posição de médio-defensivo, escolheu um jogador muito diferente de Javi Martinez, Ander Iturraspe, um jogador inteligente, bom de bola, capaz de se posicionar, mas franzino e pouco dado ao choque. Para além de Javi Martinez e de Iturraspe, destaco, no que diz respeito ao sector recuado, o lateral-direito Iraola. Depois, do meio para a frente, não há um único jogador que não me pareça francamente dotado. Ander Herrera chegou esta época a Bilbao, mas a sua competência a meio-campo é inegável. É o cérebro desta equipa, e espera-se muito da sua evolução. Ao seu lado joga normalmente Óscar de Marcos. Embora os seus movimentos sejam muito diferentes dos de Ander Herrera, a sua posição de base é no meio-campo. Partindo daí, invade normalmente espaços verticais, aproveitando os abaixamentos e os movimentos interiores quer do ponta-de-lança, quer dos extremos. Raramente é ele quem aparece entre linhas, e é a ele que, normalmente, é mais difícil atribuir um lugar no esquema de Bielsa. Depois, o trio da frente, com Susaeta e Muniain nas alas. Não podiam ser jogadores mais diferentes, mas igualmente competentes. Susaeta é, para mim, a principal revelação desta equipa. Não sendo um prodígio em termos de técnica, é porém inteligentíssimo. É um exemplo extraordinariamente feliz de como um extremo não precisa de ter argumentos individuais notáveis para ser um grande extremo.
Quanto a Iker Muniain, é simplesmente a maior esperança do futebol basco. Com apenas 19 anos, é ele quem assume, muitas vezes, as rédeas do jogo basco. Quando apareceu, com 17 anos, era um jogador vertical, um jogador de drible, sempre preparado para enfrentar o seu opositor directo na linha. Hoje em dia, sobretudo pelo que Bielsa fez dele, é um jogador muito diferente. Partindo da linha, raramente aposta no um para um. Vem para dentro, procura espaços interiores, e só força o drible como recurso. Muito por causa dessa evolução intelectual, Marcelo Bielsa costuma também apostar nele no meio, nas costas do avançado, no lugar de De Marcos, quando as coisas exigem alteração. Quando assim é, costuma entrar para a ala esquerda outro jogador que me parece bastante habilidoso: Ibai Gomez. Finalmente, na frente, Fernando Llorente. De Llorente, o melhor que posso dizer é que gosto dele ainda ele não era conhecido. Numa selecção espanhola de sub-20 que, em 2005, não chegou mais longe porque Lionel Messi, sozinho, não permitiu, em onde pontificava Cesc Fabregas, havia dois jogadores muito subvalorizados que me impressionaram desde logo: um deles, que nem sequer era titular nessa selecção, era David Silva; o outro, o avançado Fernando Llorente. Desde então, Llorente tem confirmado tudo o que esperava dele. É o protótipo daquilo que deve ser um avançado grande, alguém que sabe jogar de costas para a baliza, que se sabe movimentar, que percebe as movimentações dos colegas, etc.. Quando se fala em Llorente, fala-se normalmente na sua temível capacidade no jogo aéreo, ou nos seus dotes de finalizador. Para ser sincero, esses são os seus atributos menos importantes.
É difícil falar da qualidade desta equipa sem uma maior contextualização de imagens, pois as suas principais virtudes estão na dinâmica, sobretudo com bola, que consegue imprimir. Ainda assim, penso, é importante perceber que é uma equipa capaz de arranjar espaços onde eles não existem, uma equipa que assume sempre o jogo, e uma equipa não entrega o destino à inspiração individual nem ao acaso. O seu principal ponto fraco é a nível defensivo. Desde que conheço Bielsa que sei que não gosta de treinar defensivamente. É um partidário da criatividade, e preferiu sempre perder tempo com a parte criativa do jogo, entregando o trabalho defensivo ao esforço individual dos seus jogadores. Há quem ache que o Bilbao de Bielsa defende ao homem, com referências individuais claras. Baseiam-se estes iluminados em vídeos que encontraram que o confirmam. Acontece que esses vídeos dizem respeito a um jogo específico, um jogo de características únicas e que não se voltou a repetir. Foi o jogo em San Mamés, com o Barça. Nesse jogo, sim, a estratégia defensiva basca pareceu passar por perseguir individualmente os jogadores catalães. Não sendo perfeita a forma como o Athletic de Bilbao defende, não é, contudo, assim tão primitiva. O que se passa é que Bielsa, ao contrário do que parece ser agora consensual, opta por não colocar em fora-de-jogo os adversários. Assim, o Bilbao não defende numa linha de quatro, com os jogadores alinhados uns pelos outros, e vai-se afundando no campo à medida que a bola se aproxima da baliza. Acontece também que o Bilbao, ao contrário de muitas outras equipas, não utiliza uma zona defensiva expectante. Esteja a bola onde estiver, quando está no meio-campo defensivo, o comportamento do Bilbao é sempre feito numa zona pressionante. O que isto significa é que não há nunca momentos de expectativa, momentos de organização zonal; há sempre reacção. Assim, é natural que vejam os iluminados jogadores sistematicamente atrás de jogadores adversários, emparelhados. O Bilbao defende sempre em reacção, sempre em zona pressionante, e isso parece-lhes, a eles, sempre desorganização. Os únicos problemas, a meu ver, nisto tudo, são o facto de abdicarem de uma linha defensiva que lhes permitisse jogar com o fora-de-jogo, e a forma como a equipa activa essa zona pressionante, muito mais preocupada em estar em cima de cada adversário do que em cortar linhas de passe. Ainda assim, diria que podia ser bem pior. O facto de defender sempre em zona pressionante acaba por compensar os defeitos posicionais, e os espaços que inevitavelmente concedem.
De resto, a campanha basca fala por si. As meias-finais da Liga Europa, sobretudo se tivermos em conta que eliminaram equipas como o Manchester United, o Shalke 04, ou mesmo o PSG, são qualquer coisa de inédito, mas é preciso não esquecer que vão disputar a final da Taça do Rey com o Barcelona, e que, no campeonato, estão na luta por um lugar de acesso à Liga dos Campeões do ano que vem. Trata-se de um ano brilhante para o clube, algo que dificilmente aconteceria se Bielsa não estivesse ao comando desta equipa. Há quem ache que a força da equipa está, acima de tudo, na mentalidade competitiva. Essas pessoas estão, obviamente, enganadas. A mentalidade sempre foi a grande arma do clube basco, mas, sem mais nada, nunca passou de um clube de terceira dimensão, que umas vezes lutava pela Europa e outras para não descer. A mentalidade sempre lhes permitiu ser uma equipa difícil de ultrapassar. Mas foi a competência de Bielsa que lhes deu o empurrão decisivo. Com Bielsa, deixaram de ser essa equipa que tudo o que podia fazer era cerrar os dentes, disputar cada lance como se fosse o mais importante da vida, e esperar que o suor chegasse para vencer, e passaram a ser a equipa que troca a bola, que controla o jogo, que obriga o adversário a correr. Com Bielsa, adquiriram faculdades que nunca tinham tido, faculdades que, associando-se à mentalidade que sempre tiveram, permitem sonhar com títulos e deslumbram meio mundo.
Pelo comportamento recente das duas equipas, espera-se no jogo de hoje uma equipa a atacar e a outra, com um bloco baixo e numa atitude expectante, a defender muito perto da sua baliza. Ontem, num jogo de características semelhantes às que espero hoje, a equipa que mais fez por ganhar acabou por perder. O futebol tem destas coisas, e muitas vezes a História escreve-se por quem menos faz para a escrever. Acontece. O que não pode ficar por dizer é que, tal como ontem, a única razão para que a equipa que defendeu (e que não defendeu sequer muito bem) ter superado a equipa que atacou (e que atacou bem) foi o factor "sorte". Hoje até pode acontecer o mesmo, porque todos, mesmo aqueles que esperam que as vitórias caiam do céu, se arriscam a vencer desde que estejam em campo. Mas os que merecem o Olimpo não são os que ganham; são os que fazem o que é certo para ganhar. Como o Barcelona de Guardiola ontem fez, acredito que o Bilbao de Bielsa hoje o fará.
Para muitos, uma tabela é uma coisa relativamente banal, um truque com o qual se pode desequilibrar de vez em quando. Para alguns académicos, é uma forma muito útil de ultrapassar um adversário. Poucos há, no entanto, que vêem numa simples tabela mais do que isto. E, não raro, diverte-se muita gente a criticar aqueles que as procuram em demasia. Nos últimos quatro anos, uma equipa há que tem mostrado a todos que há ganhos extraordinários em cultivar a tabela. Falo, obviamente, do Barcelona de Guardiola, que parece cada vez mais proficiente a usar a tabela como forma de progredir no terreno e de penetrar nas defesas contrárias. Ainda assim, e apesar de muitos já reconhecerem as virtudes catalãs, a tabela continua a ser algo que as equipas procuram pouco, seja em que zona do terreno for. Apesar de tudo o que este Barcelona tem evidenciado, continua a pensar-se que a tabela só tem utilidade em situações de dois para um, ou em situações de clara vantagem numérica, ou em zonas com espaço suficiente para a executar. Discordo disto. E, para ilustrar a minha discordância, trago quatro lances em que uma simples tabela entre dois jogadores foi o suficiente para fazer ruir uma defesa inteira.
1. Para dizer a verdade, no primeiro destes lances há um terceiro interveniente, precisamente o que recebe o último passe para finalizar (neste caso, Messi). Mas é irrelevante que assim seja, para o que pretendo mostrar. O lance é o do quarto golo da já longínqua goleada imposta ao Villareal em Camp Nou, no início desta época. Apesar da finalização de Messi, e do passe extraordinário de Iniesta a isolar o companheiro, num lance que parece uma criança a brincar com um ioiô, aquilo para que quero chamar a atenção é para a tabela entre Iniesta e Thiago Alcântara, tabela essa que precede o passe. Thiago invade o espaço entre a linha defensiva e a linha de meio-campo, e até tem um adversário à ilharga, protegendo esse mesmo espaço. Praticamente nenhum jogador faria o que Iniesta fez, pondo nesse mesmo espaço a bola, porque Thiago não beneficiria em nada de receber ali a bola, já que ficaria rodeado de adversários. Acontece que este Barcelona usa a bola como engodo como nenhuma outra equipa, e o simples colocar da bola num espaço preenchido por adversários oferece ao adversário a tentação de recuperá-la, desposicionando-se. Repare-se que, no momento em que a bola se dirige para Thiago, há três jogadores do Villareal (os que estavam mais perto de Thiago) que saem ligeiramente das suas posições para se aproximarem do jogador que vai receber a bola naquele espaço. Parecendo que não, um pequeno passe aparentemente inútil e inofensivo, provoca desequilíbrios estruturais decisivos. Thiago dobra imediatamente o passe, entregando a bola novamente em Iniesta, mas tudo é agora diferente. Uma simples tabela vertical, sem progressão de qualquer espécie, serviu para desestabilizar a organização defensiva do adversário: um dos centrais avançou no terreno, criando um espaço nas suas costas, entre o outro central e o lateral; o médio que estava a acautelar o espaço entre linhas deslocou-se para a esquerda, abrindo uma linha de passe pelo centro; e o médio que estava mais perto de Iniesta afastou-se dele o suficiente para lhe permitir um passe em condições. Resta dizer que Messi interpretou isto de forma impressionante, e desmarcou-se precisamente para onde se devia desmarcar, recebendo o passe de Iniesta. O que me parece importante perceber neste lance não é tanto a extraordinária capacidade que os jogadores do Barça têm para inventar estes lances, mas mais a importância de algo aparentemente inútil, como seja um passe para um jogador que não pode senão devolver a bola ao colega que a passou. Sem o passe para Thiago, e a respectiva devolução, o Barcelona não teria sido capaz de criar as condições ideais para construir uma situação de perigo. É por isso que Guardiola dá tanta importância ao espaço. Em ataque organizado, tudo o que uma equipa tem de fazer é criar espaços. Para criá-los, tem de forçar o adversário a concedê-los. E a única forma de forçar um adversário que se posiciona bem em termos defensivos a concedê-los é fazendo coisas como esta, fazendo a bola entrar e sair em zonas que os adversários têm obrigatoriamente de fechar. É por isto que o futebol de toque curto, de passe e recepção, que caracteriza esta equipa não serve apenas, como muitos julgam, para adormecer o adversário, para esperar pelo momento certo para desferir o ataque, para não perder a bola à toa. Quem pensa assim não percebe nada deste Barcelona. É claro que fazer um uso cuidado da bola, como esta equipa o faz, é também uma forma de cínica de defender. Mas é muito mais do que isso, como este lance mostra. É a forma mais eficiente de atacar.
2. O segundo lance ocorreu na primeira mão da recente eliminatória frente ao Milan, a contar para os quartos de final da Liga dos Campeões. O lance acabou por não dar golo, mas foi notável o que Xavi e Messi fizeram. Quando Xavi recebe a bola, o Milan tem 9 jogadores atrás da linha da bola (os quatro defesas, os quatro médios, e Robinho), todos eles concentrados no meio. Com a invasão do espaço defensivo e uma simples tabela com Messi, Xavi termina o lance na cara do guarda-redes. Ou seja, dois jogadores e uma tabela chegaram para suplantar 9 adversários e criar uma situação clara de golo. No momento em que a tabela tem lugar, há 8 jogadores do Milan num raio de 5 metros. Se isto não é algo extraordinário, não sei o que dizer. É importante dizer que o Milan defende este lance o melhor que é possível defendê-lo, numa estrutura de quatro médios em linha. Ou seja, não há espaço suficiente entre a linha defensiva e a linha de meio-campo para que o adversário consiga fazer entrar um passe vertical, deixando um jogador receber a bola nesse espaço. O problema é que, se por alguma razão o portador da bola consegue entrar entre dois médios, como foi o caso, é um dos defesas que tem de sair para lhe obstruir a passagem. Se, nessa altura, o portador da bola tiver sido acompanhado por um colega que, a seu lado, lhe sugere uma tabela, então esse defesa acaba por ser facilmente ultrapassado. A meu ver, este lance resulta por duas razões essenciais: o facto de o Milan estar a defender em duas linhas apenas, e o facto de os jogadores catalães (neste caso, Messi) perceberem a utilidade de fornecer apoios próximos ao portador da bola. Repare-se que, assim que Xavi invade o espaço central, Messi inicia um movimento idêntico, aproximando-se dele, e adivinhando que o colega ia precisar da sua tabela. Qualquer outra equipa do mundo, perante a concentração de adversários naquele espaço central, procuraria atacar pelos flancos. Só este Barcelona é que tem a capacidade de identificar estas possibilidades de penetração centrais e só este Barcelona é que sabe o que é preciso para que essas penetrações possam ser bem sucedidas.
3. O terceiro lance é da última jornada da Liga Espanhola, e foi, na verdade, o lance que me motivou a escrever este texto. Por tudo o que disse acerca dos dois lances anteriores, é evidente que penso que este tipo de lances é aquilo que mais elogios merece, em futebol. Também por isso, e numa jornada em que voltou a haver um desses lances formidáveis em Camp Nou, merece ampla reprovação a generalização dos elogios aos golos que Cristiano Ronaldo marcou frente ao Atlético de Madrid. É claro que as pessoas, quando vêem um golo, tendem a prestar atenção apenas ao remate, ao sítio onde a bola entra, ao efeito da bola, à potência do remate, etc.. Nesse sentido, é muito mais fácil reparar nos golos de Ronaldo do que num golo deste tipo. Como acho que a avaliação da qualidade de um golo deve ter em conta muito mais que o remate final, os golos de Ronaldo, ainda que de belo efeito, não são para mim motivo de espanto. São resultado de alguém que tem, de facto, uma técnica de remate estupenda, e são bons golos. Mas não são golos extraordinários. E falar de qualquer um desses golos quando na mesma jornada Messi fez um golo dez vezes melhor parece-me estúpido. É mais ou menos como elogiar um general que venceu uma batalha por ter melhor artilharia do que o inimigo e ignorar outro general que venceu a sua batalha apenas com infantaria, mas fazendo uso de estratégias criativas para evitar a artilharia do inimigo. Ronaldo marcou um golo num remate à entrada da área, sem oposição, com um pontapé que fez a bola entrar a meio da baliza. A execução do seu remate foi extraordinária, mas o grau de dificuldade do lance era relativamente baixo. Tal não foi o caso do golo de Messi, em que, mais uma vez, dois jogadores apenas e uma tabela chegaram para vencer a oposição de 7 adversários. No início da jogada, Iniesta dá a bola a Messi, e entra no bloco defensivo do Getafe. Messi espera que Iniesta apareça entre os quatro defesas e os três médios, e faz um passe vertical, iniciando de imediato um movimento na direcção do passe. De calcanhar, Iniesta amortece a bola para que Messi, que vinha na sua direcção, a apanhe em posição privilegiada. Uma simples tabela e Messi ultrapassa três médios e ainda fica com a linha de quatro defesas decisivamente desposicionada. Depois, foi só dominar e rematar; o trabalho mais difícil estava feito. A reacção de Guardiola ao golo diz tudo: dois dos seus pupilos, com uma simples tabela, como se fosse a coisa mais simples do mundo, tinham acabado de vencer a oposição de 7 adversários. Isto, sim, é um golo memorável!
4. Para o fim deixei o meu preferido, um golo de Iniesta frente ao Viktoria Plzen, na fase de grupos da edição deste ano da Liga dos Campeões. Ao contrário do que aconteceu nos três primeiros lances, neste lance são duas as tabelas, o que torna a coisa ainda mais complexa e difícil de realizar. Iniesta dá em Messi, que devolve a Iniesta. Com esta primeira tabela, o adversário que saíra a Iniesta inicialmente é ultrapassado. Quando Iniesta recebe a devolução, tem à sua frente um novo adversário, e aproxima-se rapidamente um terceiro pela sua esquerda. De primeira, Iniesta volta a devolver a Messi, afastando de si as atenções o suficiente para se voltar a desmarcar. Messi, que em toda a jogada funcionou como mero apoio, e praticamente não teve que se mexer, volta a jogar de primeira, desta vez para as costas do segundo opositor, entre ele e outro defesa, deixando Iniesta só com um adversário pela frente. O resto foi a habilidade individual de Iniesta a fazer. Com duas tabelas, sempre ao primeiro toque, dois jogadores ultrapassaram quatro adversários, e entraram numa estrutura defensiva bastante compacta e com coberturas suficientes para inutilizar a grande maioria dos ataques de qualquer adversário. O que este lance evidencia, talvez mais do que qualquer outro dos anteriores, é precisamente o porquê de uma tabela, de uma combinação entre dois jogadores, ser algo tão difícil de parar. Quando Iniesta endossa a bola a Messi, as atenções dos adversários, fossem eles quem fossem, centram-se em Messi e não em Iniesta, pois é Messi quem vai receber a bola. Isto dá tempo suficiente para Iniesta se movimentar para o espaço que pretende, sem que nenhum adversário o impeça. Preocupados momentaneamente com o receptor, perdem de vista aquele que fez o passe. Por mais que não quisesse, é assim que reage instintivamente qualquer defesa. Se, depois disto, Messi jogar de primeira em Iniesta, as atenções viram-se para o catalão, e é Messi quem fica livre para voltar a receber. Quando chegam a Iniesta, já este voltou a dar a bola a Messi, e as atenções voltam a virar-se para o argentino, permitindo a Iniesta uma segunda desmarcação.
Ao tabelarem, os jogadores que o fazem estão sempre à frente dos defesas que reagem à tabela. Sabendo disso, os jogadores catalães usam e abusam da tabela para iludir os adversários. Tais quais os mais competentes jogadores de xadrez, estão várias jogadas à frente dos adversários. Enquanto que, no momento seguinte ao primeiro jogador soltar a bola, os defesas estão preocupados com aquele que vai receber o passe, a jogada, para quem ataca, já está a desenrolar-se no momento posterior, no momento em que o primeiro jogador vai receber a devolução. É este o poder incomparável de uma tabela. Nenhuma outra equipa no mundo o sabe usar tão bem, e é também por isso que nenhuma outra equipa no mundo tem a capacidade deste Barcelona para entrar em blocos defensivos compactos. Cultivar, portanto, a tabela, é aquilo em que muitos treinadores deveriam procurar trabalhar, se querem realmente aproveitar alguma coisa dos ensinamentos desta equipa. Isso e perceber que, mais do que ensinar cada jogador a posicionar-se em relação aos restantes, trabalhar tacticamente é acima de tudo fazer compreender a cada jogador a mente dos colegas. Por outras palavras, criar onze almas gémeas. Tentarei voltar a este assunto brevemente.
P.S. Entretanto, pensar que há treinadores que, para criar dificuldades em certos exercícios de treino, determinam, por regra, que não se devolva a bola a quem fez o passe, parece adquirir toda uma nova dimensão. Para ser sincero, 99% dos exercícios de treino da grande maioria dos treinadores são absolutamente inúteis. Para quem treina convencionalmente, um exercício com o constrangimento de não se poder passar a bola a quem fez o passe anterior é sempre apetecível: é diferente, causa estranheza, implica obrigar os jogadores a pensar bem antes de passar. Esquecem-se é que o que deviam estar a fazer era a criar condições para que os jogadores precisassem cada vez de menos tempo para pensar antes de agir. Até nesse sentido, devolver a bola a quem fez o passe inicialmente é uma solução confortável. Mas negligenciar tudo o que uma tabela pode oferecer a uma equipa, apenas para incrementar a dificuldade do exercício, só mesmo na cabeça de alguém que não sabe o que é o jogo.
Mascherano diz-se feliz por fazer parte da História, e tem razões para isso. Afinal, se não fosse por ele, talvez o Milan nunca reentrasse no jogo. É inegável que o golo de Nocerino nasce depois de um bom trabalho de Robinho, e de uma excelente assistência de Ibrahimovic. Mas será que a bola chegaria a Nocerino em boas condições de finalização se todos se tivessem comportado adequadamente? Não. E quem falhou foi precisamente Mascherano. Para muitos, o que digo pode ser trivial, pois são capazes de perceber que é o argentino quem coloca em jogo o italiano, no momento do passe de Ibrahimovic. Mas os erros de Mascherano no lance não se limitaram à forma desajustada como respondeu ao mesmo na altura do passe decisivo.
A meu ver, o erro de Mascherano começa bem antes, ao abordar a recepção de Robinho, a meio do meio-campo defensivo, de forma imprudente. O brasileiro estava de costas, rodeado por adversários, sem apoios por perto, e o comportamento correcto consistiria em obrigá-lo a jogar para trás. Mascherano, porém, não é um jogador inteligente neste tipo de abordagem. Para muita gente, tem características defensivas óptimas, pois é muito agressivo, "morde" constantemente os calcanhares aos adversários, etc. Mas também para se ser competente defensivamente é preciso decidir bem. E, muitas vezes, ao contrário do que se pensa, a melhor decisão do jogador que sai ao portador da bola passa por não lhe querer roubar a bola. Este é um bom exemplo. O que Mascherano deveria ter feito, já que foi ele que saiu para ocupar o espaço central, era ficar em contenção, esperar que Dani Alves e Messi bloqueassem a possibilidade de passe lateral a Robinho, e "forçar" a que o brasileiro voltasse para trás. Mascherano não ficou em contenção, procurou ir para cima de Robinho para desarmá-lo, e foi "comido" com toda a facilidade do mundo. Ingenuamente, o argentino ficou batido e Robinho com o espaço central para progredir. Estava criada a superioridade. O lance acabou como acabou, mas poderia ter acabado com uma simples tabela com Ibrahimovic. Não satisfeito ainda com isso, Mascherano ainda viria a colocar Nocerino em jogo, não respeitando (quase que pornograficamente, tantos foram os metros) a linha defensiva que os seus colegas tinham delineado. Dois erros graves que foram decisivos para que o Milan empatasse a partida e para que, mais tarde, se argumentasse que houve um momento em que a eliminatória parecia pender para o lado italiano. Após quase dois anos, Mascherano continua a não perceber o que é jogar nesta equipa, e continua a ser o elo mais fraco de um conjunto muito acima da média. Mesmo não jogando na sua posição de origem, onde este tipo de comportamentos errados, aliados à sua incapacidade, em posse, para perceber os espaços certos onde a bola deve entrar, seriam ainda mais prejudiciais à equipa, Mascherano continua a ser um corpo estranho neste modelo de jogo. E ontem, de facto, ia entrando na História, mas pelas razões erradas.
Entretanto, a final de Munique começou a ser jogada logo após a partida, e já houve responsáveis madrilenos a aproveitar-se das queixas italianas (absurdas, diga-se) para preparar o eventual embate frente ao Real. As jogadas de bastidores deram resultado no passado, e são a arma mais forte até hoje apresentada pela equipa de Mourinho para parar a equipa catalã, pelo que seria natural que tal acontecesse. Quanto aos casos de arbitragem, e àqueles que se insurgiram de imediato contra o alegado favorecimento aos catalães, repete-se a história do monstro a que já muitas vezes aludi. Não me lembro de outra equipa, na História do jogo, que tenha criado tanto medo nas pessoas. Qualquer coisinha, por mais irracional que seja, serve para tentar destruir o monstro medonho em que a equipa de Guardiola se transformou. As pessoas não compreendem esta equipa, não compreendem por que é tão forte, por que não há ninguém capaz de derrubá-la, e querem à força que ela caia. Por causa dessa vontade, repetem imbecilidades. E aproveitam-se de um jogo em que foram assinaladas duas grandes penalidades, coisa pouco comum, para se atirarem ao ar; e aproveitam qualquer lance, por mais claro que seja, para pôr em causa a competência do monstro.
A qualquer uma destas pessoas poderia facilmente fazer recordar as razões de queixa que os catalães tinham na primeira mão. Mas nem vale a pena. É que qualquer dos lances que protestam, no jogo de ontem, foi claramente bem assinalado: qualquer um dos penáltis é claríssimo, sendo que o primeiro só por misericórdia é que não valeu igualmente a expulsão de Antonini; o alegado penálti sobre Ibrahimovic só é penálti na cabeça dos que querem à força que o seja; e o lance em que Robinho fica isolado, de longe o meu preferido, só não vê que a bola foi amortecida nos braços do brasileiro, coisa que o beneficiou, quem não quiser ou por má fé decida não ver. O jogo de ontem teve casos não porque, de facto, os tenha tido, mas porque as pessoas querem à força que os jogos do Barcelona tenham casos. Querem justificar aquilo que não compreendem, e precisam de algo (arbitragens) que lhe confira racionalidade. Se isto já é estúpido no comum adepto, é muito grave num jornalista. A falta de ética profissional de alguns dos jornalistas da Sporttv, no que diz respeito às analises dos jogos do Barcelona, tem-se vindo a acentuar nos últimos tempos, e ontem, após o jogo, atingiu proporções obscenas. Não obstante Luís Freitas Lobo se recusar a comentar a arbitragem, chegando aliás a dizer que ela nunca poderia justificar um jogo tão desnivelado, o jornalista de serviço insistiu, outra e outra vez, procurando forçar a interpretação de que o jogo tinha sido resolvido pelos homens do apito. Apesar de estúpido, a insistência condiciona a opinião do espectador, sobretudo daquele espectador que não tem opinião própria. A ética jornalística não existe apenas porque é giro que exista; existe porque a opinião jornalística influencia a opinião pública e porque o jornalista é um profissional com mais responsabilidades do que o comum cidadão. Num país a sério, depois do exercício de irresponsabilidade profissional de ontem, a carreira deste senhor estaria, no mínimo, em risco. Como não é esse o caso, a demonstração de valores patrióticos no acto de protestar subtilmente contra os rivais dos portugueses em Madrid até fica bem vista. De resto, o jogo esteve sempre controlado pelos catalães, e é quase criminoso dizer, num jogo com aquelas características, que a arbitragem desempenhou um papel importante. Francamente, é preciso ser idiota para ter uma interpretação da partida tão profundamente errada.
Tinha pensado escrever sobre o assunto na altura, há coisa de um mês, mas a falta de tempo acabou por impedir que o fizesse. Acontece que o próprio Cristiano Ronaldo escolheu recentemente o golo que resultou desse mesmo lance como o mais bonito que marcou ao serviço do Real Madrid. Não podendo deixar passar esta segunda oportunidade, serve este texto para distinguir um grande golo de um golo fortuito, uma genialidade de um coice. Falo, claro está, do golo de Cristiano Ronaldo no terreno do Rayo Vallecano, que na altura garantiu mais três pontos à equipa de José Mourinho.
O espanto com a definição do lance tem sobretudo a ver com a imprevisibilidade do seu desfecho. E é por aqui que começo. De facto, ninguém esperava que Ronaldo, de costas, sem se virar, tentasse alvejar a baliza. Por si só, a imprevisibilidade é, obviamente, uma grande arma. Na minha opinião, no entanto, essa imprevisibilidade só deve ser alvo de admiração se de facto lhe corresponder algo genial, algo que surpreendesse o adversário fosse qual fosse o desfecho. O que estou a tentar dizer é que não é a imprevisibilidade do desfecho que merece reconhecimento, mas a imprevisibilidade da acção em si. E, honestamente, o golo de Ronaldo só gerou admiração porque a bola, realmente, entrou na baliza. Se não tivesse entrado, como seria o mais provável, a tentativa não seria senão um disparate de todo o tamanho.
Disse Ronaldo que "foi o que deu para fazer no momento e felizmente deu tudo certo". Para ser honesto, sim, há que reconhecer a parte da felicidade. É que, em 100 lances iguais, dificilmente o resultado seria o mesmo. Além de que não era bem tudo o que dava para fazer no momento. Após um canto, a bola acaba por sobrar para Ronaldo que, de costas para a baliza, e com meia-equipa do Rayo Vallecano atrás de si, se lembra de tentar, ainda assim, fazer golo. Ao seu lado, bem melhores colocados, tinha Pepe e outro colega. Mesmo achando que um passe naquela zona encontraria oposição, poderia sempre conservar a bola, esperar por um apoio mais sólido, por um colega em melhores condições. Ronaldo não pensou assim. Pensou que teria mais sucesso dando um coice na bola e entregando o lance aos caprichos dos deuses; pensou que, mesmo com cinco ou seis jogadores no enfiamento do lance, um coice tinha boas probabilidades de levar a bola a entrar na baliza. É óbvio que não tinha. É óbvio que tomou uma má decisão. E é óbvio que a bola só entrou porque teve toda a sorte do mundo. Às vezes acontece. O que não dá é para eleger um golo de coice, totalmente fortuito, como "um golo muito bonito".
Isto das más decisões tem obviamente muito que se lhe diga. Para aqueles que não lhes dão importância, o que interessa é que a bola entrou, o que interessa é que o resultado dessa decisão, por imprevisível, foi bonito. O problema dessas pessoas é a importância excessiva que dão ao resultado das acções, e não às acções em si. A probabilidade de aquele coice dar golo era baixíssima. Diria até que a probabilidade de aquele coice dar golo era mais baixa do que se Ronaldo tivesse dado um pontapé na direcção de Casillas, de modo a iniciar nova jogada de ataque do Real. No entanto, deu golo. Será isso motivo de aplauso? A meu ver, não. Da mesma forma que um autogolo não é festejado como um grande golo, um golo fortuito também o não deveria ser. Mas como foi de calcanhar, como ninguém esperava aquilo, transformou-se uma banalidade num lance de génio. Ronaldo não foi genial; foi disparatado. Acontece que em futebol, por vezes, um disparate é facilmente confundido com uma genialidade.
O golo de Ronaldo garantiu a vitória do Real Madrid, em mais um jogo francamente mau do Real Madrid. Como em muitos outros jogos desta época, o Real voltou a vencer sem fazer o suficiente para isso. O próprio Mourinho reconheceu que o resultado mais justo, nessa partida, teria sido o empate. Aliás, já nos descontos, o Rayo Vallecano desperdiçou um lance óptimo para empatar a partida, com um avançado a falhar a emenda a menos de um metro da linha de golo, sem ninguém pela frente. O coice de Ronaldo é pois a melhor imagem possível de muito do que tem sido a época do Real Madrid. É verdade que, em muitos jogos, o Real jogou bem e mereceu vencer. Ainda no passado fim-de-semana, frente à Real Sociedad, mereceu amplamente o resultado obtido. Mas as exibições da equipa não foram minimamente regulares, ao contrário do que o ciclo de vitórias consecutivas sugeria. Em muitas ocasiões, o Real venceu apenas porque sim, porque os adversários falharam em momentos chave, porque os árbitros ajudaram, porque as vicissitudes do acaso estiveram do seu lado, porque, substituindo-se à inspiração, um coice qualquer fez entrar uma bola que não entraria de outro modo.
Já o disse várias vezes, e volto a dizê-lo: acho difícil que uma equipa, sobretudo num campeonato como o espanhol e com um adversário como o Barcelona, consiga ser campeã dependendo tanto e tantas vezes de factores como estes, mas a verdade é que, quando o Real venceu esse jogo (na altura, mantendo a distância de dez pontos), pensei que talvez aquele coice fosse o sinal de que, esta época, tudo os protegeria. Como é evidente, há sempre excepções à regra, e se, depois de ganhar vários jogos que não merecia, até com um coice o Real evitava perder dois pontos, talvez fosse prudente reconhecer que, este ano, mesmo não o merecendo, o ceptro iria para Madrid. Algumas semanas depois, porém, o Real começou a perder os pontos que deveria ter começado a perder há muito mais tempo. Em mais dois jogos em que não fez absolutamente nada para sair vencedor, eis que viu a vantagem emagrecer para 6 pontos (sabendo ainda que tem de ir a Camp Nou). Se, na altura, aquele coice me fez pensar que este ano nada os faria cair, agora já não tenho tantas certezas. Sendo verdade que o Barcelona tem no próximo fim-de-semana, entre dois jogos europeus difíceis com o Milan em 6 dias, a recepção sempre perigosa ao Athletic de Bilbao, o calendário do Real Madrid até à deslocação à Catalunha é muito mais complicado: deslocação a Pamplona para defrontar o Osasuna, actual sexto classificado (onde o Barça, por exemplo, perdeu), recepção ao Valência, e deslocação ao Vicente Calderón, três dias apenas depois do jogo com o Valência, para enfrentar um Atlético de Madrid muitíssimo agressivo, desde que Diego Simeone tomou o comando da equipa. A menos que mantenha a vantagem actual de 6 pontos até ir a Camp Nou, o que implicaria passar com distinção em qualquer um dos jogos acima referidos, o campeonato está agora longe de estar decidido. Mais do que nunca, até porque o Real terá ainda de ir a Bilbao, a equipa de Mourinho precisa de coices como o do jogo com o Rayo Vallecano para continuar a ser o principal favorito à vitória final. O mês de Abril será, para essas contas, certamente decisivo.
Não está em questão a relação entre o lance e o resultado final, nem sequer me parece que isso possa servir de justificação, quando haviam sido criadas tão poucas oportunidades de golo até ao momento. O empate penaliza a pouca imaginação da equipa de Jorge Jesus, e não creio que mereça, como talvez tenha merecido noutras ocasiões, referências ao trabalho do árbitro. Se o Benfica deixou pontos em Olhão, foi principalmente porque não conseguiu contrariar o bloco baixo e a agressividade defensiva do adversário. Uma vez mais, a importância de ter alguém em campo que sabe movimentar-se entre linhas, arrastar marcações, jogar ao primeiro toque, tabelar, e encontrar espaços rapidamente em zonas muito densas foi amplamente negligenciada por Jorge Jesus. Quando se preferem atributos individuais a atributos colectivos, a equipa fica mais refém das individualidades, e com menos capacidade para ultrapassar estratégias deste tipo. Não é novo, e um lance de bola parada até podia ter resolvido a coisa, mas é uma tendência que se acentua de jogo para jogo, fruto daquilo em que a equipa se tem gradualmente vindo a transformar.
Interessa, apesar de tudo isto, analisar a expulsão de Aimar, principalmente pela estupidez das opiniões acerca do lance. A menos que Aimar tenha músculos que um ser humano normal não tem, não consigo perceber como é que se pode acreditar que tenha pontapeado propositadamente o seu adversário. Eu gosto de acreditar que as pessoas, antes de falar, antes de emitirem opiniões, usam a cabecinha. Se calhar é ingenuidade minha. A verdade é que, para a grande maioria, como o pé de Aimar foi embater na coxa de Rui Duarte, só pode ter sido intencional. Não sei se as pessoas estão cientes de que, muitas vezes, o que acontece não é planeado mentalmente. Se calhar não estão. O lance explica-se facilmente. Aimar e Rui Duarte disputam uma bola com força, acertando nela praticamente ao mesmo tempo. Com a força do impacto, as pernas de cada um deles sofrem movimentos inesperados, que nenhum deles controla. Por força do embate, Rui Duarte, por exemplo, perfez praticamente 180º em torno do seu pé de apoio. O mesmo aconteceu à perna de Aimar, que acabou por ir tocar em Rui Duarte, valendo-lhe a expulsão. Vendo o lance calmamente na repetição, é perfeitamente claro que Aimar não estica a perna para lhe acertar, que o seu pé bate na coxa de Rui Duarte unicamente por força do impacto anterior. Francamente, acho até fisicamente impossível alguém conseguir pontapear outro após um impacto daqueles. João Capela, porém, não teve dúvidas, e achou que Aimar tentou deliberadamente agredir o seu adversário.
As opiniões dos que viram as repetições são estúpidas o suficiente, mas não são de alguém com responsabilidades. O árbitro da partida, porém, é um agente responsável. E a sua responsabilidade não termina com a responsabilidade de ter os olhos bem abertos. Um árbitro não deve apenas assinalar o que vê com os olhos. Deve interpretar. Jorge Jesus tocou, a meu ver, num ponto relevante: Aimar não é o tipo de jogador que agrida outros. Podia acontecer, mas a pouca frequência devia pelo menos fazer pensar João Capela. Não fez. Viu um pé na coxa e achou que só podia ser agressão. Mais uma vez, falta à grande maioria dos árbitros aquilo que me parece mais importante não só num árbitro, mas num ser humano: bom senso. Com um pouco de bom senso, facilmente suspeitaria de que aquilo que os seus olhos tinham visto tinha de ter outra explicação. Como não tem bom senso, João Capela (e a grande maioria dos árbitros) agiu maquinalmente, analisando o lance como o analisaria qualquer instrumento mecânico que para o efeito de analisar lances destes se criasse. E Aimar, num lance incrivelmente fortuito, sem maldade alguma, foi expulso como se tivesse cometido uma atrocidade. A reacção que se seguiu é a normal em quem se sente injustiçado.
O que me impressiona é que, por exemplo, Javi Garcia repita entradas maldosas e francamente arrojadas jogo após jogo, sem que seja punido por isso, e Aimar, ao primeiro lance em que o seu pé toca num adversário não mereça sequer o benefício da dúvida. O futebol continua a ser extraordinário a esse respeito. Basta lembrar como Bruno Alves raramente era expulso, ou basta até lembrar a indignação dos jogadores e treinadores do Real Madrid pela expulsão de Sérgio Ramos no último encontro (e até pelo amarelo a Pepe), frente ao Villareal, depois de uma entrada absurda do mesmo. Para mim, o que é claro é que jogadores maldosos, que entram à bola para aleijar ou intimidar adversários, continuam a ser estupidamente protegidos, enquanto outros, fortuitamente, continuam a ser injustiçados. A protecção e a injustiça não são deliberadas, claro. Resultam da falta de bom senso da grande maioria dos árbitros. Se tivessem bom senso, interpretariam melhor cada lance, perceberiam melhor as intenções dos jogadores em cada lance, etc. Os árbitros estão demasiado atentos ao que vêem, ao resultado de um choque, ao que acontece, e negligenciam invariavelmente o que motiva o que acontece. Em lances como o de ontem, há que analisar a intenção do jogador e não a sua acção. Isto porque a acção pode não ser intencional. O mesmo acontece com quedas na área, que muitas vezes podem não ser motivadas pela intenção de enganar o árbitro. Com um pouco de bom senso, João Capela facilmente perceberia que o lance de ontem foi normalíssimo, que o pé de Aimar ter tocado em Rui Duarte foi obra do acaso. Mas, já se sabe, bom senso é coisa que falta a muita gente, não apenas a um árbitro. Basta ver como a sua decisão foi considerada acertada por quase toda a gente. Assim se mede a estupidez de uma espécie.
A manifestação de uma sinfonia sem Maestro. Esta é a melhor definição do jogo preconizado pelo Barcelona de Guardiola. É, sem qualquer dúvida, a equipa que mais análises à sua abordagem ao jogo promove, sendo sujeita a inúmeros crivos. No entanto, pretendo abordar a construção da identidade do conjunto orientado por Guardiola numa perspectiva temporal intrínseca e exclusiva do futebol manifestado pelos catalães.
Não raras vezes, distinguimos uma faúlha de civilização por entre a animalidade que sobrevive, no estado de selvajaria, ou assim muito próximo, nas equipas de futebol. Não passam de farrapos, porém, sobranceiros à gestão primitiva, os exemplo de que falo: quatro ou cinco jogadores, se tivermos sorte, que, de forma descontínua, emprestam algo de sofisticado aos conjuntos onde se encontram, criando a ilusão de que algo diferente se passa; são sociedades secretas, ou a isso dão ares, facilmente perecendo à tirania estulta dos resultados. Do efeito colateral das suas acções individuais, encontramos este vislumbre, mas apenas se houver um número razoável de elementos, porque se não... bem, se não, nem esse vislumbre apreciamos. E isto, apesar de trágico, não acrescenta nada de novo ao que temos escrito, bem sei, mas cuja presença neste texto se apresenta como evidente.
Não é novidade a nossa insubordinação contra a definição vigente do conceito colectivo que prospera no futebol; não acredito que a esmagadora maioria dos treinadores exorcize o desempenho individual em si mesmo, ou seja: apesar de pedirem aos seus elementos que joguem de forma colectiva, analisam, e tomam decisões sobre os jogadores em função dos seus desempenhos individuais, daquilo que de explícito sobra do comportamento destes em acções concretas. E este problema advém da forma descontinuada como lêem o jogo, como o conceptualizam.
Daqui surge o primeiro obstáculo ao aparecimento da identidade no colectivo. A identidade de uma equipa não é apenas uma imagem que se cria e se impôe àquele conjunto de jogadores; tem de nascer do eco que esta imagem, esta filosofia, provoca nos jogadores. Daí a necessidade de construir um jogar "inteiro", uma intenção deliberada de construir a cada instante, a cada relacionamento com o jogo e as suas idiossincrasias, uma nova imagem do mesmo, mas que essa imagem seja sempre orientada ao estilo pretendido; é necessário que as acções sejam coerentes, que adquiram um pulsar distinto e exclusivo à filosofia que orienta cada momento, cada acção de cada elemento, permitindo uma concertação conciliadora entre os vários espaços temporais do jogo. Este é o primeiro passo para a construção de um "eu" numa equipa de futebol.
Uma identidade que ressoe em cada movimento e em cada decisão tomada.
Para equipas que assumem posturas incoerentes, ignorantes das consequências que os seus movimentos num dado momento do jogo vão promover no instante que precedem, não aceito que se fale em identidade colectiva. A identidade de uma equipa obriga a que se exija exactamente o oposto, que a cada opção tomada no presente se repercuta uma intencionalidade das situações que se criaram no passado. Necessita-se de um construir, de um sentir o jogo, tendo presente que cada decisão não se esgota em si própria, não só no mero desenvolvimento e encadeamento das acções colectivas, mas na construção de um padrão reconhecido pelos seus elementos, emergindo deste um sentimento de conhecimento, fundamental à emergência de uma identidade. A partir desta sugestão, pode-se, de forma errónea, pensar que então todas, ou quase todas, as equipas têm identidade definida: a grande maioria dos treinadores trabalha de forma minuciosa a disposição que pretende, assim como os movimentos que quer ver incluídos para diversos momentos do jogo. Nada mais errado. Isto não passa da delimitação da própria equipa, um esboço do ambiente ideal para que os propósitos sejam realçados, permitindo aos jogadores comportamentos mais objectivos, pragmáticos; almeja-se, deste modo, um equilíbrio estrutural que lhes permita tirar o máximo partido das características das partes que compõem o todo. Isto nos casos mais evoluídos, claro está. O facto de o jogo ser demasiado rico para se poder compreender todas as situações que ele nos oferece, impede porém que estes comportamentos disposicionais ofereçam ao conjunto, da parte dos seus constituintes, uma invariância de comportamentos suficientemente estável para a criação de uma identidade. A equipa quer marcar golos, também não os quer sofrer; reconhece com alguma iminência a possibilidade destas duas partes do jogo, mas não é capaz de planear, com antecedência, quando confrontada com um dado novo no jogo, uma forma de, mantendo em mente estas duas partes do jogo, preservar comportamentos que respeitem a filosofia de jogo anteriormente idealizada. E é neste aspecto "fracturante" que encontro a maior resistência à emergência de uma perspectiva colectiva.
A posse de bola, como potenciador de um pulsar invariável.
Nem sempre, de forma deliberada, quando se atinge algo de extraordinário, é ao mais brilhante alvo que se dirigem as intenções dos homens. Tão pouco sei se este é um desses casos ou não. Contudo, uma coisa é certa, a diferença que o futebol de Guardiola ostenta em relação a toda e qualquer abordagem jamais feita assenta, se não em absoluto, pelo menos em grande parte, neste aspecto: um respeito inefável pela posse de bola. A bola é o centro de todas as decisões, é a constante que permite ao jogar do Barcelona edificar a sua maior vitória: a obtenção de uma consciência, o construir de uma verdadeira identidade colectiva. Todas as decisões, movimentos, a própria disposição da estrutura, etc., enfim, todos os aspectos do jogar de Guardiola, incutem a cada elemento do seu conjunto a consciência do valor determinante da posse da bola, incomparavél a qualquer outro aspecto do jogo. A invariância deste sentimento, perante algo que é intrínseco ao próprio Futebol, a bola, permite-lhes alcançar uma perspectiva ubíqua, obrigando-os (aos jogadores, e ao próprio treinador) a abordar cada nova circunstância do jogo, cada contingência do mesmo, com uma grande coerência e respeito pelos tempos e momentos de jogo que se sucedem.
Os sentimentos e decisões após o relacionamento da estrutura colectiva com um acaso do jogo, em função da partilha de um valor que é intemporal no jogo, o valor da posse da bola, e a necessidade de a preservar, promove uma similiaridade de respostas entre os seus elementos, reconhecendo estes, entre eles, perante as várias situações com que se deparam, uma abordagem semelhante da parte dos seus colegas. Derivando da antecipação similar partilhada por cada elemento em cada momento do jogo, esta Constância permite à equipa promover disposições coerentes, mesmo perante um jogo tão propício ao acaso como o futebol. Associando esta peculiaridade a um Reconhecimento Inteiro do Jogo, assistimos ao nascimento de uma identidade verdadeiramente colectiva, algo que até aos dias de hoje é inédito.
Pela primeira vez, na minha opinião, a abordagem ao jogo é despida de funções específicas: não existem uns para defender, outros para marcar, outros para assistir, etc. E, por mais paradoxal que isto possa parecer, alcança-se com o melhor futebol do mundo, com o que mais encanta, ou assim devia ser, o fim do romance, do misticismo que envolve o Número Dez: Acabou-se o espaço dos jogadores que resgatam a equipa da mediocridade, que pensam, em exclusivo, ou quase, o futebol do conjunto que o alberga. É, no entanto, uma extinção que serve e sublima a própria génese do conceito, catapultando-o para um “organismo” que o exponencia a limites que o transcendem.
Num jogo com duas equipas pouco interessadas em arriscar muito, pressionantes, subidas, mas raramente querendo fazer da bola aquilo que ela deve ser, num jogo em que as preocupações em não perder a bola em construção, e em que o medo dos desequilíbrios defensivos superou a necessidade de promover a imaginação e a criatividade ofensiva, num jogo em que houve um equilíbrio de forças muito constante, a vitória poderia pender para qualquer um dos lados. Neste tipo de jogo, os detalhes fazem a diferença, e - pode de facto dizer-se - foram os detalhes que definiram a vitória do Porto na Luz: os comportamentos defensivos inadequados de Emerson nos dois primeiros golos, o fora-de-jogo no terceiro, as lesões de Aimar e Garay, a expulsão de Emerson, o único lance em que o Benfica não conseguiu impedir a transição do Porto ter dado golo, etc..
Mas a derrota no jogo (e quem sabe no campeonato) tem de começar a explicar-se muito antes. É que não é por acaso que a equipa encarnada acabou à mercê dos detalhes. Tudo começou há muito tempo, e culmina agora. Jesus tem vários méritos, mas teve sempre o defeito de ter como principal paixão a vertigem e a intensidade. Esse era o defeito principal do seu Benfica no primeiro ano, defeito que, por não ter corrigido no segundo, lhe valeu o desastre que valeu. Este ano, tentou corrigi-lo, mas não soube nunca como o fazer. Passou a não correr tantos riscos em construção, numa primeira fase, com uma circulação mais à largura e mais paciente nessa primeira fase, e tentou trazer densidade e argumentos físicos ao meio-campo. O problema, no entanto, é que Jesus, como em muitos outros casos, pareceu identificar o problema certo nos sítios errados, ou de modo errado. O problema da intensidade e da vertigem não está só nos desequilíbrios defensivos que provoca, não está só no risco que promove; está também, e talvez acima de tudo, na incerteza ofensiva que gera. E a verdade é que, se numa primeira fase, o Benfica actual parece mais calmo e maduro do que antes, se parece mais capaz de controlar a forma como se desequilibra quando ataca, no último terço continua a equipa febril e viciada em intensidade que sempre foi na era de Jesus. As competências ofensivas da equipa encarnada continuam assim demasiado dependentes da intensidade que a equipa conseguir impor ao jogo (levando o jogo para velocidades de execução que acentuem a desigualdade individual), da inspiração individual, e dos atributos técnicos e físicos dos seus atacantes. Continua a ser dada pouca importância à imaginação, à criatividade, à inteligência, e às combinações colectivas.
O problema mais curioso de Jesus, como disse, parece ser a incapacidade para perceber mais concretamente aquilo que até consegue intuir. Isso é extraordinariamente fácil de compreender no que diz respeito aos jogadores que aprecia. É que Jesus parece muitas vezes gostar dos jogadores certos, mas pelas razões erradas. E isso é determinante. Durante muito tempo, acreditei que Aimar só continuava a ser aclamado entre os adeptos porque Jesus o percebia como poucos treinadores em Portugal o perceberiam, e lhe dava bastante protagonismo no seu modelo por essas razões. Achava que um jogador com as suas debilidades físicas depressa seria ostracizado por qualquer outro treinador. Por aqui, o Gonçalo sempre discordou de mim, e sempre achou que a reputação de Aimar era a principal razão para Jesus lhe dar a atenção e o crédito que lhe dava. Sensivelmente a meio da época passada, comecei a torcer o nariz à minha crença, e hoje estou certo de que o Gonçalo tem razão. Jesus não gosta de Aimar pelo melhor que ele tem, por aquilo que de melhor pode oferecer à equipa; gosta dele porque tem qualidade e a qualquer altura pode inventar uma jogada soberba. Ou seja, o que Jesus espera que Aimar dê à equipa é um momento ou outro de génio, que é mais ou menos o que toda a gente acha que Aimar pode dar. A colocação do argentino preferencialmente mais perto das zonas de decisão assim o comprova. Eu, por outro lado, acredito que Aimar podia dar muitas outras coisas, nomeadamente a capacidade de circulação e progressão em zonas mais baixas, melhor capacidade para sair de zonas de pressão, competência em espaços curtos e entre linhas adversárias, etc.. Aimar é muito mais do que o último passe ou dois ou três apontamentos por jogo. E não perceber isso é determinante. É determinante porque implica não perceber o que falta verdadeiramente à equipa. Aliás, este problema de Jesus estende-se a muitos outros jogadores. Gosta de Nolito pela agressividade e pelo repentismo do espanhol, e não pela forma como antecipa os comportamentos dos colegas e como lê linhas de passe; gosta de Cardozo pelos golos que marca e pela estampa física do paraguaio, e não pela forma como se relaciona com os colegas, sobretudo quando serve de apoio vertical e referência para tabelas; gosta de Saviola pelo oportunismo do argentino e não pela inteligência na movimentação e na decisão. É também por isso que valoriza tanto jogadores que deixam muito a desejar, em alguns aspectos relevantes do jogo. O caso evidente é o de Emerson, mas poderia estender o argumento a Rodrigo, por exemplo, que anda por estes dias quase que criminosamente sobrevalorizado.
De resto, a melhor explicação possível para mais uma época falhada - a confirmar-se o falhanço - é a mesma que tenho dado há já muito tempo. Desde o primeiro ano de Jesus que defendia que os principais argumentos ofensivos do Benfica consistiam nas combinações curtas, que na altura ocorriam quase que exclusivamente quando Aimar e Saviola coabitavam. Aos poucos, Jesus foi abdicando disso. Também aqui não percebeu a importância vital de um argentino para a produção do outro. Aimar e Saviola passaram a estar em campo à vez, até que, finalmente, o segundo deixou de ser opção. O ostracismo de Saviola, tão simplesmente isto, é a principal causa da derrota de ontem. Evidentemente, nada mudaria se Saviola estivesse dentro de campo ontem. O que quero dizer é que há uma relação causal entre uma equipa ser incapaz de não ficar à mercê da lotaria dos detalhes e o processo de ostracismo a que o argentino foi votado. Ao conceder a Saviola o papel de quinta opção, quando necessariamente teria de ver nele a primeira solução para o seu ataque, Jesus pôs um ponto final na dúvida acerca da sua capacidade para perceber de que maneira a sua equipa poderia ser mais competente em termos ofensivos. Ao prescindir de vez de Saviola, mostrou que não é excepcionalmente diferente de vários outros treinadores de competências razoáveis. O seu Benfica é competente em muitas coisas em que outras equipas são competentes; o que não tem é aquela genialidade que só poderia ter (e que teve, ainda que acidentalmente, na primeira época) se tivesse em campo, em simultâneo, pelo menos dois ou três jogadores capazes de se entender entre si na perfeição. Ao contrário de outras competências colectivas, a criatividade do colectivo não resulta da soma da criatividade de que é capaz cada um dos seus elementos, mas da forma como eles se relacionam criativamente entre si. Ao ostracizar Saviola, Jesus ostracizou também a criatividade do seu Benfica. E ficou, por isso, à mercê daquilo de que todos os outros treinadores medianos ficam à mercê.
P.S. Não se fique com a impressão de que, por ter sido omitida, a opinião sobre Vítor Pereira e o futebol praticado pelo seu Porto foge ao crivo crítico desta análise. Nem se pense que essa opinião é especialmente mais moderada do que esta que fica. Haverá oportunidade para falar disso noutra altura, mas não é por ter ganho ontem, nem por se preparar para ser campeão, que Vítor Pereira passa a merecer mais que a mediania em que tento inserir Jorge Jesus. Aliás, talvez fosse até excessivamente prestigiante, se aí o inserisse. Aquele futebol chocho e fraco de ideias não merece, pelo menos da minha parte, especial homenagem.