Segunda-feira, 6 de Maio de 2013

Criatividade e Decisão

Podem já não ser os melhores, como parece ter afirmado Piqué. Seguramente que não o são, pois já não conseguem manter os índices competitivos de outrora, deixaram de acreditar nas suas competências, os processos defensivos parecem mais enferrujados do que nunca e, ofensivamente, parece haver um défice claro de imaginação, com os jogadores aparentemente cansados, não do ponto de vista físico, mas mentalmente, como se passassem por um esgotamento de criatividade. Tudo isto aceito sem dificuldades, e reconheço que, em muitos casos, é o suficiente para que se perca a superioridade que se tinha. O que não aceito é que se considere que esta equipa já não tem nada do que a distinguiu nos últimos anos. Podem não ser capazes de manter a concentração durante os 90 minutos e cometer mais erros do que cometiam, mas continuam a fazer coisas que mais nenhuma equipa tem a capacidade de fazer. A prova disso é o quarto golo este fim-de-semana, frente ao Bétis.



Barcelona 4-2 Real Betis 05.05.2013 ourmatch.net por ourmatch

Podem ter mais dificuldades do que tinham a criar condições para que este tipo de lances ocorram, mas continuam a inventar soluções como mais nenhuma equipa o faz. Quando se fala em criatividade, fala-se usualmente em habilidade individual ou em poder de finta. Para mim, criatividade é isto. Nada disto, talvez à excepção do passe de calcanhar de Iniesta, parece difícil de fazer, do ponto de vista técnico. E, no entanto, é de uma sofisticação inacreditável. O lance começa quando Iniesta, um médio, percebendo que tem de facilitar a vida ao companheiro que conduz a bola, Messi, invade um espaço que não é o seu, entre a linha defensiva adversária e a linha de médios, à frente da linha da bola, oferecendo um apoio frontal ao portador da bola. A intuição de Iniesta parece simples, mas é o que muitas vezes é negligenciado em posse; consiste em perceber que, movimentando-se como se movimentou, aumenta as soluções de passe curto do companheiro e, por conseguinte, as possibilidades de decisão que este terá ao seu dispor. No momento em que Messi conduz a bola, dá-se também outra coisa, as diagonais dos extremos, aproximando-se do centro do jogo e do portador da bola. Messi conduz, Iniesta aproxima, Messi toca no apoio frontal e, agora, a jogada está praticamente concluída. Sim, faltam ainda dois passes e a conclusão, mas o mais difícil está feito. A bola entrou no apoio frontal e Messi aproximou-se. A partir desse momento, Iniesta tem duas soluções, uma mais óbvia do que a outra, mas as duas igualmente boas. Podia, ao invés de solicitar Alexis Sanchez de calcanhar, ter simplesmente tocado de frente para Messi. Messi, seguramente, tocaria de primeira em Tello, que ficaria em posição privilegiada ou para finalizar, ou para cruzar para Alexis, que entretanto entrava no outro lado, ou para cruzar atrasado, para Messi ou Iniesta. Fosse qual fosse a decisão de Iniesta, a probabilidade de a jogada terminar com a bola dentro da baliza, após o passe de Messi para Iniesta, era gigantesca. Criatividade é isto, é conseguir criar condições colectivas para que se tenha sucesso, é ser capaz de fabricar espaços e contextos de decisão ideais. É nisto que esta equipa é inigualável, e foi isto que Guardiola ensinou estes jogadores a fazer. Se Tito Vilanova percebesse o que tem em mãos, perceberia talvez que, do ano passado para este, o que mudou essencialmente foi a capacidade de fabricar colectivamente estes momentos. Actualmente, ainda que o faça, a equipa fá-lo apenas esporadicamente, e provavelmente mais por auto-recreação do que por exigência do treinador. Como o faz menos vezes, encontra-se mais vezes à mercê do que a rodeia, aos erros individuais, aos detalhes imponderáveis, à própria necessidade de se motivarem, etc.. E, por isso, cria a ilusão, mesmo nos próprios jogadores, de que já não são superiores.

Quarta-feira, 24 de Abril de 2013

Desnorte

O futebol é um jogo peculiar. Uma das coisas que o torna tão distinto de outros jogos (da grande maioria, aliás), é ser um jogo em que, tipicamente, o número de golos, para cada um dos lados, é reduzido. Esse simples facto faz com que seja mais frequente que uma equipa teoricamente mais fraca consiga derrotar uma equipa teoricamente mais forte. Ou melhor, o facto de o futebol ser peculiar dessa maneira faz com que o resultado de um jogo dependa mais dos detalhes do que outros jogos, o que, por sua vez, faz com que, para que equipas teoricamente menos fortes consigam vencer ocasionalmente alguns jogos, por vezes basta serem felizes num ou noutro detalhe. Outro aspecto desta peculiaridade tem a ver com o modo como as equipas reagem emocionalmente a resultados adversos. Ao contrário de jogos em que há muitos golos ou a pontuação é alta, estar em desvantagem tem um peso emocional muito maior, em futebol. Isto porque, dependendo o futebol tanto dos detalhes, e sabendo a equipa que se encontra em desvantagem que, para recuperar, dispõe de uma quantidade reduzida de oportunidades, sentir o tempo a passar é francamente menos confortável do que noutras modalidades.

É muito frequente, a este respeito, que comentadores desportivos e analistas profissionais cheguem à conclusão, após o término de uma partida, que um resultado desnivelado espelha a supremacia do vencedor sobre o vencido, evidenciada desde o primeiro ao último minuto, negligenciando os diferentes momentos anímicos das equipas, e a forma como a marcha do marcador influenciou esse próprio resultado final. Não é raro, por exemplo, que um golo a uma determinada altura da partida modifique por inteiro o que estava a ser o jogo, e que, portanto, tudo aquilo que acontece depois desse golo mereça a consideração dos efeitos que esse golo produziu. Muitas equipas estão a jogar bem até ao momento em que fazem um golo e depois, relaxando, acabam por permitir ao adversário que melhore o seu futebol. E, ao contrário, acontece o mesmo. Que análise merece um jogo em que uma equipa domina os primeiros 80 minutos, mas que, por ficar reduzida a dez jogadores nessa altura, num lance em que o guarda-redes comete uma falta dentro da área sobre o avançado adversário, acaba por sofrer 3 golos nos últimos 10 minutos, perdendo sem apelo nem agravo? Perde bem? Merece o adversário todos os louros por 10 minutos caprichosos? Evidentemente que não. Em futebol, como disse um dia Jorge Jesus, é possível a uma treinador de uma equipa que acaba de ser goleada afirmar, sem estar a faltar à verdade, que a sua equipa foi superior.

Vem isto a propósito, claro está, da goleada imposta pelo Bayern de Munique ao Barcelona. Muitas coisas podem ser ditas sobre o jogo: sobre a apatia incompreensível de Tito Vilanova, sobre a força bávara, sobre a condição física de Messi, sobre o terreno de jogo, sobre a arbitragem, sobre o fim do projecto catalão, etc.. Pessoalmente, tenho algumas opiniões sobre cada uma dessas coisas, mas não é disso que quero falar. Prefiro falar sobre desnorte emocional e sobre resultados que não espelham o que se passa em campo. Já noutras ocasiões abordei, muito ao de leve, este assunto. Num dos casos, defendi que a única análise séria de uma partida que tinha tido, claramente, duas fases distintas, separadas por um momento crucial que modificou a forma como as equipas passaram a encarar os minutos que faltavam, era aquela que se focasse na primeira dessas fases. A grande maioria das pessoas achou que não podia separar fases, o que me faz, confesso, alguma confusão. O futebol, como disse anteriormente, é um jogo peculiar; o resultado final define-se, muitas vezes, num ou noutro lance; é natural, pois, que cada um dos lances decisivos tenha um impacto emocional enorme nos atletas. Sim, em futebol, nenhuma análise que negligencie isto, e nenhuma análise que não contemple a possibilidade de fases radicalmente distintas do jogo, é uma análise séria.

Para muitos, hoje, na Baviera, o Barcelona foi atropelado pelo Bayern. Para mim, que não modifico as minhas leituras constantemente, esteja o resultado favorável a uma equipa ou a outra, a única coisa que foi atropelada hoje foi o bom senso. Até ao minuto 50, altura em que o Bayern fez o segundo golo, que ocasiões de golo houvera realmente? O que fizera o Bayern até então, para além de defender? De que modo incomodara o Barcelona, em contra-ataque, ou no que quer que fosse? Até ao segundo golo, a melhor equipa em campo foi o Barcelona. Teve dificuldades no último terço do terreno, é certo, não conseguindo tantas combinações como habitualmente, mas estava a fazer o seu jogo e estava a conseguir precaver-se das investidas do adversário. Fortuitamente, até porque a regularidade dos dois primeiros golos (já para não falar da do terceiro, que é escandalosa) é bastante duvidosa, viu-se a perder por dois golos e começou a perder a concentração. Ainda assim, os minutos que se seguiram não foram necessariamente maus. É verdade que a equipa passou a jogar menos pacientemente e que passou a esticar, ocasionalmente, o jogo, e também é verdade que passou a não ser capaz de controlar as investidas germânicas, sucedendo-se alguns lances de relativo perigo, coisa que até então não tinha acontecido. Mas o momento decisivo foi o do terceiro golo, numa altura em que o Barça crescia e acabara de ter duas oportunidades claríssimas de golo, ambas pelo jovem Marc Bartra. Com o terceiro golo dos alemães, o Barça perdeu finalmente o norte e, a partir daí, sim, o Bayern foi claramente superior. Aconteceu isto ao minuto 73. Significa isto que, dos 90 minutos que uma partida tem, as descrições megalómanas que por aí fora se têm repetido apenas contemplam 17 minutos, mais ou menos 20% de toda a partida. A imagem que fica é a última, e as pessoas têm facilidade em descrever 90 minutos de acordo com o que viram nos últimos minutos da partida. São mentirosos, ou simplesmente estúpidos, mas é assim que são, para infelicidade dos que o não são.

Os últimos minutos da partida, sim, foram penosos para o Barça. Foram-no porque a equipa perdeu toda a concentração, porque Tito Vilanova não soube segurar emocionalmente a equipa, porque não mexeu tacticamente com o jogo, nem sequer trocou unidades, à excepção da entrada de David Villa no final, porque os jogadores sentiram que a eliminatória começava a escapar-lhes definitivamente das mãos. Mas, tirando esses minutos de desnorte e, aceite-se, aquilo que se passou depois do 2-0, foi o Barcelona assim tão inferior ao Bayern? Em quê? Não o foi, como não o tinha sido frente ao Milan, quando perdeu por 2-0 em San Siro. Simplesmente, os resultados não espelham o que se passa em campo. Muitas vezes, são fruto de um conjunto de factores. Hoje, o Bayern goleou o Barcelona por várias razões, e nenhuma delas implica que tenha sido, em termos gerais, superior ao seu adversário. Goleou o Barcelona por 4-0 porque marcou nas duas primeiras ocasiões que teve, e em lances, no mínimo, duvidosos; goleou porque, quando o jogo já estava mais equilibrado, teve a felicidade de fazer o terceiro, logo após 2 oportunidades claríssimas do Barcelona, e, uma vez mais, após beneficiar de um erro crasso da equipa de arbitragem. E fez o quarto e deu a imagem de superioridade que deu, nos últimos minutos, porque tudo o que se passou antes condicionou emocionalmente a equipa catalã. Tão simples quanto isto. Hoje, o Barcelona foi superior até ao momento em que se desnorteou, precisamente por essa superioridade não estar a ser traduzida numericamente. Não invalida isto que o Bayern não tenha feito um bom jogo, e que não seja a melhor equipa europeia a seguir aos catalães, e que não pudesse ganhar na mesma uma partida que, afinal, não dominou, mas que soube disputar. Não me falem é em superioridade, porque isso é, além de falso, absurdo.

P.S. Sim, o desnorte e a falta de motivação, no final da partida, era tal que era Xavi quem andava a pressionar lá à frente; sim, David Villa evidenciou algum mau ambiente no balneário catalão, ao entrar contrariado; sim, Messi não deveria ter jogado só porque é Messi; sim, Valdez facilitou muito, para não variar; sim, Alexis é horrível e já há muito que o clube deveria ter tentado encaixar dinheiro com ele; sim, Tito Vilanova não tem ideias nenhumas; tudo isto foi mau, e pede reflexão. Mas, num jogo desta importância, ainda por cima quando não tem sido opção senão em jogos em que é preciso fazer descansar titulares, e perante um resultado final tão adverso, que Marc Bartra tenha feito a exibição personalizada que fez só pode ser bom sinal. É também por isto que o projecto catalão não acaba aqui. Aliás, numa época em que aconteceram tantas coisas imprevistas, em que há uma mudança de treinador, em que o novo treinador atravessa uma doença complicada, em que a cada eliminatória europeia e a cada clássico caseiro se falava do fim da hegemonia, muito conseguiu esta equipa. Nem sempre se pode ganhar, e este ano reuniram-se muitas condições para que tal não fosse possível, inclusivamente a lesão de Messi nesta fase da época. Que sobreviva a isto tudo o aparecimento de mais um talento para o futuro, um talento que, havendo coragem, já há muito que deveria ter assumido um lugar no eixo da defesa, parece-me bom. Oxalá não seja feito bode expiatório, e oxalá se perceba que a pequena revolução que é preciso executar no plantel (e na equipa técnica, já agora) passa por dispensar alguns jogadores que não têm condições para continuar (Adriano, Mascherano, Alexis) e permitir a dois ou três jovens (Bartra, Sergi Robert e Cuenca) uma utilização mais sistemática.

Segunda-feira, 22 de Abril de 2013

Cumprir Estratégias

Não é uma coisa recente (nem são poucos o que assim pensam) avaliar qual das duas equipas esteve melhor num determinado desafio consoante aquilo a que se vulgarizou chamar a "estratégia" com que entram na partida. Não é raro, por exemplo, que o treinador de uma equipa pequena que entra para defender durante 90 minutos e tentar um ou dois contra-ataques, e que perde por 1-0, no único lance em que o adversário conseguiu criar, afirme que a sua equipa merecia outro resultado. Tal afirmação faz sentido se se considerar que o jogo, à excepção desse lance, correu exactamente de acordo com a estratégia delineada. O que não faz sentido é que o mérito de uma vitória dependa de qualquer estratégia, seja ela qual for. O Barcelona de Guardiola, pela capacidade inigualável de empurrar os adversários para a sua defesa, fomentou, como nenhuma outra equipa, estratégias adversárias desse tipo, e não foram poucas as vezes que se defendeu que os adversários do Barcelona, mesmo concedendo 6 ou 7 situações de golo, e não fazendo senão 1 ou 2 contra-ataques no jogo inteiro, mereciam vencer. O erro, obviamente, está em acreditar que uma equipa merece vencer se conseguir cumprir a estratégia com a qual se comprometera no início da partida, qualquer que seja essa estratégia.

Num jogo em que uma equipa assume as despesas do jogo, procurando construir desde a sua defesa, em futebol apoiado, e a outra joga em reacção, procurando forçar o erro do adversário para depois, com poucos passes, chegar à área adversária, é natural que pareça que a segunda consegue cumprir a sua estratégia e a primeira não. Isto porque a estratégia da segunda é de muito mais fácil cumprimento. Para que ela se cumpra, basta que consiga pressionar bem, roubar duas ou três bolas, fazer dois ou três passes, e atacar sempre com o adversário desposicionado. Se a equipa que assume o jogo encontra alguns problemas em materializar o seu futebol em oportunidades de golo, se consegue manobrar a bola nos dois primeiros terços do terreno, mas encontra algumas dificuldades (naturais, pois o espaço é francamente menor) no último terço do terreno, é fácil para quem está de fora conjecturar que essa equipa, ao contrário da equipa adversária, não está a ser capaz de cumprir a estratégia com que partiu para o jogo. Num jogo com estas características, é quase consensual dizer-se que está a jogar melhor quem está a defender, porque o adversário não está a conseguir penetrar na sua defesa, e porque até já se conseguiram ligar uns quantos contra-ataques. E, no entanto, raramente se fala do que a equipa que ataca está a fazer bem, apesar das dificuldades que está a encontrar no último terço do terreno.

Vem isto a propósito do derby desta noite e dos disparates dos responsáveis do Sporting, embora possa e deva ter uma aplicação mais geral, até porque a partida de hoje não foi desta falácia o melhor exemplo. Em primeiro lugar, o Benfica não fez um jogo extraordinário (o que não é nada de novo) e errou muitos passes, sobretudo antes do primeiro golo. Não está, por isso, em causa, a desinspiração dos encarnados. Mas acreditar que o Sporting, que jogou (como as equipas de Jesualdo, diga-se) em reacção, merecia vencer parece-me absurdo. A estratégia de Jesualdo foi cumprida na perfeição, é verdade, mas para que o Sporting tivesse jogado melhor do que o Benfica era preciso que cumprimentos de estratégias fossem coisas mais eficazes do que as estratégias em si. O Benfica trabalhou mais o seu jogo e, mesmo não tendo jogado bem, procurou construir as suas situações de golo o melhor que sabe. Mesmo estando a falhar naquilo a que se propunha, estava a fazer o que tinha a fazer. E nas duas vezes, em todo o jogo, que a coisa correu bem, ou seja, nas duas jogadas, em todo o desafio, com cabeça, tronco e membros, fez dois golos. Poder-se-á dizer que duas jogadas em 90 minutos é pouco, ainda assim. Com certeza que o é. Mas são duas jogadas a mais do que aquilo que fez o adversário. E o Sporting até teve lances de perigo. O que não conseguiu foi construir uma jogada decente. A estratégia que tão bem cumprida foi, aliás, inviabilizava à partida que a equipa conseguisse construir jogadas decentes. Jogadas decentes, de resto, são coisas que estratégias como a que Jesualdo apresentou, e que tão bem cumpridinha foi, não permitem.

Não está em causa a seriedade com que o Sporting jogou, nem algumas das coisas que alguns dos seus jogadores conseguiram fazer, em termos estritamente individuais. Está em causa, sim, a estratégia colectiva e a relação entre essa estratégia e o resultado final. Colectivamente, o Sporting fez pouquíssimo para que merecesse mais. Defendeu-se razoavelmente bem, soube pressionar em algumas zonas, mas, ofensivamente, a estratégia era simplesmente apanhar o Benfica desposicionado, após a perda da bola. Tudo o que fez fê-lo, por isso, em esforço, envolvendo poucas unidades e sempre de acordo com o espaço que o Benfica concedeu. Não criou uma única ocasião de golo em condições favoráveis, e pouco mais fez do que adiar o golo adversário. Jogar futebol é mais do que definir e cumprir estratégias. E não basta a uma equipa, para merecer a vitória, que defina e cumpra uma estratégia, qualquer que seja essa estratégia. Se, pura e simplesmente, essa estratégia não for grande coisa, que importa que a consiga cumprir? Por outro lado, mesmo sem cumprir estratégias, mesmo que pareça que não esteja a ser capaz de realizar tudo aquilo a que se propõe, mesmo que, aparentemente, o seu futebol pareça inconsequente e o adversário pareça estar a levar a melhor, de acordo com a contra-estratégia que definiu, uma equipa pode estar a jogar bem melhor do que o seu adversário. Ter cumprido ou não ter cumprido estratégias é, pois, um critério falacioso para definir quem jogou melhor, e alegar que a equipa cumpriu exactamente o que tinha em mente é pouco relevante para aferir a qualidade do seu jogo.

Quarta-feira, 3 de Abril de 2013

Freitaslobices

A primeira pergunta que se impõe é: o que é que é preciso para que Luís Freitas Lobo esteja calado? Tempos houve em que o poeta - desculpem - o comentador desportivo Luís Freitas Lobo dizia coisas interessantes e que valiam a pena ser escutadas; hoje em dia só diz disparates. Se não está a falar da alma da bola, ou a fazer a mesma metáfora pela décima sétima vez, está a dizer banalidades acerca do jogo. O seu discurso, que começou por ser diferente, por ser mais informado do que o da maioria, é hoje em dia insuportável. Não aprendeu nada, não evoluiu rigorosamente nada. Transmite banalidades e embrulha-as num palavreado tão imbecil quanto escusado. Para o plantel do PSG, então, tem uma autêntica antologia de poemas. Pastore é - não me perguntem porquê - uma pantera cor-de-rosa. De Beckham fala mais do penteado, da idade, da qualidade de passe, e do pretenso bom posicionamento do que da qualidade em termos de decisão que oferece à equipa, que é quase tudo o que importa. Sobre Lucas, sempre que este toca na bola, diz que "joga muito". Já o sabíamos, mas o senhor insiste em dizer-nos, e sempre com as mesmas palavras. Matuidi - aprendi ontem - é um alicate em forma de jogador de futebol. E sobre o jogo, senhor Freitas Lobo, tem alguma coisa a dizer?

Não há muito tempo, falou-se na possibilidade de Luís Freitas Lobo, assim como Tomaz Morais, vir a colaborar no Sporting. Num clube que agoniza, que melhor maneira de reerguê-lo do que contratar uma pessoa que percebe de râguebi e outra que se distingue por fazer metáforas enquanto comenta jogos de futebol? Ou a direcção do Sporting pensa que o problema do clube tem a ver com falta de habilidade para a placagem e incapacidade para brincar com palavras, ou então tal possibilidade não faz sentido nenhum. Cultivou-se a ideia de que Freitas Lobo, por conhecer muitos jogadores desconhecidos da grande maioria do público, devia ter competências para colaborar na prospecção de jovens craques, e seria para essas funções que seria eventualmente contratado. Mas conhecer muitos jogadores resulta de ver muito futebol, não de saber alguma coisa de futebol. As pessoas que não sabem como é que funciona o departamento de recrutamento de um clube - a grande maioria das pessoas - acha que Freitas Lobo até pode dar um bom prospector para o Sporting. Isto é estúpido de muitas maneiras, mas vou referir apenas algumas. Em primeiro lugar, se há coisa em que o Sporting ainda continua a ser muito forte é na prospecção e no recrutamento, e é bom que a nova direcção, que deve vir com ideias reformistas, tenha isto em mente, se não quiser destruir a única coisa que pode ainda fazer regressar o clube ao convívio dos grandes do futebol português, ou seja, a sua formação. Em segundo lugar, pressupõe esta ideia uma outra, muito disseminada, de que o senhor Aurélio Pereira e mais dois ou três colaboradores são os responsáveis por todos os talentos descobertos pelo Sporting. Um segredinho: para um clube se manter tão forte no recrutamento, durante tanto tempo, é preciso bem mais do que um par de olhos e jeitinho para o negócio. Por fim, a ideia de que identificar grandes quantidades de jogadores se relaciona de algum modo com capacidade para distinguir potenciais craques é absurda. Para que Freitas Lobo me fizesse acreditar que, de alguma maneira, tem competência para tal, teria primeiro de saber fazer distinções finas entre atletas, de saber caracterizar-lhes correctamente as virtudes e, sobretudo, de não pôr todos e mais alguns dentro do mesmo saco. Para Freitas Lobo, tudo o que tem duas pernas, tem menos de 20 anos e joga futebol é potencialmente um craque. Assim também a minha avô. Identificar potencial é muito mais do que catalogar tudo e mais alguma coisa. Para se perceber que Freitas Lobo não tem a mínima vocação para isto, embora se lhe reconheça que vê muito futebol e conhece muitos jogadores, bastava que se fosse ver o que disse de jovens jogadores há cinco anos. Lembram-se do que dizia acerca de Pelé? Eu lembro-me.

De resto, nos últimos jogos que vi do PSG comentados por Freitas Lobo, o amor por Matuidi é quase pornográfico. No PSG, é certo, podia apaixonar-se quase por qualquer jogador. Que se tenha apaixonado por Matuidi diz muito do que é Freitas Lobo. Matuidi é um jogador banalíssimo, um médio como há às centenas até nas distritais, um médio cuja melhor característica é a disponibilidade física. Para muitos, é preciso um Matuidi para suportar tantas estrelas. Para esses, o choque ontem foi Ancelotti ter apresentado tantos craques e apenas um Matuidi. Para mim, que reconheço a Ancelotti muitas qualidades, o único pecado foi ter jogado com Matuidi e não com Verratti. O PSG foi talvez a equipa que vi que melhor jogou, em cinco anos, contra este Barcelona. Ajudou, é certo, o facto de o Barcelona não ter jogado bem e de não ter forçado muito. Mas o PSG fez o que poucas equipas tentam fazer: tentou ficar com a bola, quando a conquistava. Para isso foi fundamental a qualidade técnica e intelectual do onze escolhido. Questionou-se muito a utilização de David Beckham, mas este fez um jogo exemplar, a coordenar os ritmos da equipa. Como de resto o fez Pastore. Lucas, pela facilidade de drible e pela forma como segura e conserva a bola, também foi precioso. O PSG conseguiu dividir o jogo com o Barça não porque Matuidi esteve em todo o lado, como Freitas Lobo não se cansou de dizer, mas porque soube trocar e preservar a bola quando a tinha. Fez um jogo exemplar porque juntou vários jogadores fortíssimos a conservar a bola e/ou a decidir, no momento do passe. Matuidi, nesse aspecto, era o parente pobre daquela equipa. Servia para morder calcanhares, como se essa fosse uma grande virtude, mas não servia para mais nada. Freitas Lobo insistiu, do princípio ao fim, que Ancelotti devia ter no meio-campo outro jogador como Matuidi, que devia trocar Beckham por Chantôme ou Verratti. Na base desta insistência está a ideia de que competia aos homens do meio-campo serem pressionantes. E é isso que não percebo. Pressionar verticalmente, pelo meio, este Barcelona é das coisas mais estúpidas que se pode fazer. Dois Matuidis a pressionar resultariam inevitavelmente em espaços entre os dois Matuidis e os defesas, principalmente porque este PSG se apresentou num 442 clássico. Felizmente, Ancelotti não é parvo, e Beckham ocupou sempre os espaços deixados por Matuidi, quando este saía para ir transpirar para cima de um dos médios catalães. Freitas Lobo não percebe, ao fim destes anos todos, que o futebol não é um jogo de individualidades, e que trabalhadores não servem para compensar craques, nem criativos servem para compensar trabalhadores. Cada acção individual só faz sentido colectivamente. O que Freitas Lobo valoriza nas acções de Matuidi é aquilo que elas têm de individual, não os efeitos colectivos que produzem. Gosta de Matuidi porque Matuidi se destaca dos outros por correr mais, bater mais, e estar mais em jogo. Não percebe que cada acção dele tem milhares de consequências que não vê, e que muitas das coisas boas que um jogador faz só são boas porque os colegas fazem muitas outras coisas que beneficiam a acção do colega. Matuidi não contribuiu em nada para a organização defensiva dos franceses, que foi boa (bem melhor, por exemplo, que a do Milan, que tanta gente gabou), e muito menos contribuiu para o que de bom a equipa fez com bola. Por tudo isto, Freitas Lobo é pouco mais do que o representante supremo do chico-esperto que se acha moderníssimo, mas que afinal continua a acreditar que ser responsável e eficaz em termos defensivos é estar constantemente em cima do adversário, pressionar agressivamente e batalhar por cada bola como se fosse a última.

Quarta-feira, 6 de Março de 2013

A Imponderabilidade dos Detalhes

Para muitos, o futebol distingue-se de outros desportos por ser um jogo de detalhes, isto é, porque os detalhes, ao contrário do que acontece em outras modalidades, podem ajudar a definir um vencedor. É verdade que, sendo o jogo de futebol um jogo com poucos golos, com "pontuações" baixas, quando comparado com outros jogos, tal distinção faz algum sentido. Mas não faz menos sentido pensar que são precisamente as equipas que mais fazem para depender menos dos detalhes que melhor estão preparadas para o sucesso. Parece haver, portanto, duas maneiras de reagir a esta crença: acreditar na fatalidade de que os jogos se definem pelos detalhes e trabalhar de modo a que a equipa esteja o melhor preparada para lhes responder, ou acreditar que os detalhes, podendo definir um vencedor, dificilmente o definem a longo prazo, e trabalhar de modo a que a imprevisibilidade dos detalhes tenha a menor relevância possível.

Por cá, como deve ser sabido, acreditamos mais na segunda solução. Que muitas vezes, sobretudo ao mais alto nível, os jogos se definem por um erro circunstancial, um mero acaso, uma má decisão do árbitro, uma precipitação, ou um golpe de génio, é evidente. Que a melhor maneira, porém, de responder a isso passe pela preocupação em estar o melhor preparado para esses momentos é que já não me parece tão evidente. Ninguém, no seu mais perfeito juízo, pode acreditar que consegue controlar todos os detalhes do jogo, e muito menos pode um treinador achar que, por mais que treine certas situações, os seus jogadores não vão falhar nesse mesmo aspecto. Sempre me pareceu cobarde condenar um golo falhado com a baliza aberta, ou um penalty mal batido. Erros acontecem, e todos os jogadores, por melhores que sejam, erram. Alguns acreditam que, se trabalharem muito, os jogadores erram menos. Tenho as maiores dúvidas de que muito treino implique melhorias a esse nível. Os lances são, sistematicamente, diferentes; as situações de jogo sistematicamente atípicas. Na minha opinião, treinar o detalhe é absolutamente inútil. Treinar a equipa, então, para que faça a diferença nos poucos momentos em que se define o jogo, negligenciando tudo o resto, parece-me francamente retrógado.

Dito isto, não acredito que seja assim que José Mourinho trabalha. O seu Real Madrid, no entanto, é talvez das equipas que mais parece depender da lotaria do detalhes, actualmente. Foi assim nas últimas semanas, sobretudo na eliminatória da taça do Rei frente ao Barcelona, e na eliminatória contra o Manchester United, mas tem sido assim também desde que chegou a Espanha. Não acreditei, por isso, no final da primeira época, que pudesse ganhar uma competição de regularidade, como o campeonato interno, em que os detalhes acabam por não ser tão determinantes quanto numa competição a eliminar, mas a verdade é que a equipa se conseguiu superar, encarando cada jogo como uma final, mantendo índices de concentração sempre elevados. Como disse também atempadamente, tal só foi possível porque a motivação de bater o Barcelona para a Liga era enorme. Sem isso, não teriam sido capazes de vencê-la, precisamente porque não são uma equipa para ganhar regularmente, como o exige um campeonato interno. Conseguiram superar-se no ano passado, mas não demoraria para que voltassem ao que verdadeiramente são: uma equipa de grandes jogos, de competições a eliminar. O fraco campeonato do Real Madrid não é, por isso, minimamente surpreendente. Este é que é o verdadeiro Real Madrid, não o do ano passado. É um Real Madrid banal numa competição de regularidade, que perde pontos e joga mal com adversários acessíveis, mas um Real Madrid muito competitivo sempre que o desafio é maior. Foi assim que Mourinho preparou a equipa desde que chegou, e é agora, ao final de três anos, que ela melhor espelha o trabalho a que foi sujeita.

Hoje, em Old Trafford, jogou-se o jogo para o qual o Real Madrid de Mourinho foi preparado desde o princípio, um jogo tacticamente fechado, que desde cedo se percebeu que penderia para o lado dos que falhassem menos, e que se resolveria pelos detalhes. O Manchester nunca pareceu muito incomodado em conceder a iniciativa ao adversário, até porque tinha a vantagem na eliminatória, e o Real ia tentando, com pouquíssimo engenho, e mais preocupado em aproveitar uma distracção de um adversário, uma bola parada, um lance de génio de algum dos seus jogadores. Até à expulsão de Nani, o Real Madrid nunca conseguiu criar as suas próprias situações de golo. Nunca conseguiu modificar as coordenadas do jogo estabelecidas pela equipa inglesa. Nunca conseguiu transformar um jogo fechado, que só se modificaria naturalmente na sequência de um detalhe, num jogo que se pudesse decidir por outra coisa que não por um detalhe. É este, aliás, o código genético desta equipa. Foi assim que foi eliminada o ano passado pelo Bayern, e era assim que, muito provavelmente, ia ser eliminada este ano nos oitavos de final, não fosse precisamente o detalhe de uma expulsão absurda a modificar a partida.

Há boas probabilidades de, nos próximos dois anos, José Mourinho não dizer uma única palavra acerca de um certo escândalo num certo estádio inglês, como tantas vezes disse acerca de um outro escândalo num outro estádio inglês, mas hoje o seu Real apurou-se porque foi feliz nos detalhes. Era, aliás, a única forma de se ter apurado, tivesse sido um detalhe externo ao jogo, como uma decisão de um árbitro, tivesse sido, pura e simplesmente, um lance de bola parada, uma escorregadela de um defesa, um erro infantil de alguém que não costuma errar. Foi assim que eliminou o Barcelona da taça do Rei, e foi assim que eliminou hoje o Manchester. Foi feliz nos detalhes. Isto porque, nesta história dos detalhes, tem mais sucesso quem é mais feliz, não quem é verdadeiramente melhor. O Real Madrid, hoje, foi feliz. O ano passado, diante do Bayern, não o foi. Como de resto, raramente o foi, desde que Mourinho chegou a Espanha, com o Barcelona. Mourinho preparou a equipa para ser competitiva, e é-o. Mas não a preparou para saber contornar a imponderabilidade dos detalhes. Se hoje foi feliz, amanhã pode não sê-lo, como não o foi no passado. É tudo uma questão de felicidade, e isso é pouco, numa equipa como aquela. Pode, com certeza, chegar para ganhar a Champions, mas uma competição como esta, como o Chelsea demonstrou o ano passado, é tão imponderável que isso não significa nada. O jogo medíocre da equipa hoje em Old Trafford, incapaz de tomar as rédeas da partida, de obrigar o adversário a desmontar a defesa, pode, pelo resultado final, ter deixado os merengues muito felizes, mas demonstrou também, muito claramente, a vulgaridade de que é feita: tirando a qualidade do plantel, que não tem comparação com nenhum outro plantel no mundo, à excepção, talvez, do plantel catalão, o Real de Mourinho é uma equipa como tantas outras. E é pena que o seja.

Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2013

O Lance que define o Jogo

Aviso: este texto é só para gente honesta! Os desonestos podem guardar as discordâncias para si, pois elas serão fruto não do que aqui vai escrito, mas da desonestidade que possuem.

A história do jogo divide-se em 2 partes, antes e depois do minuto 57. Depois do minuto 57, a eliminatória estava resolvida, e não me parece justo explicar resultados quando a desconcentração de uns e a falta de pressão a que outros passam a estar sujeitos é evidente. Para gente honesta, explicar o jogo é explicar os primeiros 57 minutos. Nesses 57 minutos, quem foi superior? Para os desonestos, mas também para os que acham que explicar o jogo é reparar nos lances dos golos, o Real foi superior, porque marcou 2 golos. Eu discordo, primeiro porque sou honesto, e segundo porque tenho argumentos para provar quer a minha honestidade, quer a minha razão. Em que é que o Real foi superior? Defendeu razoavelmente bem, sim. E mais? Mais nada. Rigorosamente mais nada. Em 57 minutos, o Real teve um único lance de perigo, o do segundo golo. O primeiro golo nem sequer se pode dizer que seja um lance de golo e só um erro infantil de Piqué o permitiu; resulta de um pontapé ao longo da linha, com o Ronaldo a receber, completamente desapoiado, de costas para a baliza, e que era fácil de defender, caso Piqué assim o tivesse desejado. Bastava ter dado a linha a Ronaldo desde início, e de não ter provocado o um para um. Quanto ao Barcelona, pelo contrário, teve 4 ou 5 ocasiões muito boas para marcar, e não o conseguiu fazer. Se o tivesse feito, em qualquer um desses lances, alguém acha que o jogo tinha sido o mesmo? O lance que definiu o jogo foi, pois, o lance do segundo golo. Definiu-o e é a melhor ilustração possível do que foi a partida. Analisemo-lo.

FC Barcelona - Real Madrid 57' Gol Cristiano... por realmadridplay

4 são os momentos do lance: um toque de calcanhar de Xabi Alonso, ao calhas, que faz a bola seguir para Khedira; um alívio sem nexo de Khedira que põe a bola na frente de Di Maria; um drible desajeitado e lento de Di Maria na sequência do qual se isola, porque Puyol escorrega; defesa de Pinto precisamente na direcção de Ronaldo, que não teve dificuldades para finalizar. A jogada define-se em 4 momentos, e em nenhum deles se pode dizer que os jogadores do Real tiveram qualquer espécie de mérito. Alguém acha que qualquer um destes 4 momentos se treina? Que qualquer uma destas coisas resultam de aprendizagem? Pedro Henriques falou da qualidade do passe de Khedira. Qualidade? Passe? Haja paciência! O alemão nem faz um passe, nem olha para onde vai pôr a bola. Miguel Prates, por sua vez, gabou a "decisão genial" de Di Maria. Decisão? Genial? Podia alguém ser mais imbecil? A jogada acabou com a eliminatória, pois o Barcelona passava a precisar de marcar 3 golos, mas, mais do que isso, ilustrou o que foi a partida: uma equipa a jogar futebol (menos bem, é certo, do que nos habituou), a criar oportunidades de golo (lance de Pedro e Messi a abrir; Fabregas falha o remate já dentro da área, sem oposição, em zona frontal, depois de um cruzamento da direita; livre directo de Messi a centímetros do poste; remate de Busquets à entrada da área para defesa de Diego Lopez e recarga de Fabregas evitada in extremis por Varane, e isto depois de dois remates dentro da área, de Xavi e de Iniesta, que batem em Sergio Ramos; remate de Iniesta, após pontapé de canto, na zona de penalty que bate em Sergio Ramos) e outra sem conseguir incomodar significativamente o adversário, que resolve a eliminatória após um erro de um defesa que raramente erra e após um lance absolutamente fortuito. Pelo que foram estes 57 minutos, há alguém honesto que consiga dizer honestamente que o Real Madrid fez por merecer esta vitória?

P.S.: Nem tudo é mau para o Real Madrid. Varane é um defesa extraordinário. Não, certamente, por aquilo que as pessoas gostam nele: a velocidade, o jogo aéreo, a virilidade, etc.. É extraordinário porque, apesar de não ser excepcional com bola, consegue aliar índices de concentração altíssimos e uma maturidade acima da média, para a sua idade, a uma inteligência notável na forma como interpreta os lances defensivos. Há um lance, hoje, que o define, e que devia servir de lição a Piqué. É no início da segunda parte. Messi recupera uma bola, vira-se e fica apenas com Varane e Sergio Ramos pela frente. Vendo que a ajuda vem a caminho (vêm 3 jogadores do Real atrás de Messi), Varane oferece literalmente a sua direita, onde faltava Arbeloa, obrigando Messi a seguir para lá. A partir daí o lance está ganho. Messi só tem aquela solução e a Varane basta acompanhar, à devida distância, o argentino, sabendo ainda que tem a cobertura do outro central à sua esquerda, caso Messi ainda passasse por ele. Muito provavelmente, se em vez de Varane fosse Pepe ou Sergio Ramos, a opção teria sido forçar o um para um, ou, quando muito, esperar pela decisão de Messi. E teriam assim aumentado as hipóteses de Messi ser bem sucedido. Varane antecipou a decisão do argentino e deu-lhe o lado antes de ele poder fazer alguma coisa. É assim que se defende um lance de uma para um, quer se tenha apoio, quer não. Se Piqué o tivesse feito, no lance do penalty, se tivesse tomado a decisão antes de Ronaldo o enfrentar, dificilmente o lance terminaria como terminou. Como no lance de Messi, Ronaldo não tinha apoio, e só poderia fazer estragos se desequilibrasse no um para um. A Piqué bastava não provocar o um para um, oferecer o seu lado esquerdo ao português, conduzindo-o para a linha de fundo, que a jogada, provavelmente, terminaria sem perigo.

P.S.2.: Há quem veja em dois maus resultados seguidos sinais inequívocos de que a forma de jogar do Barça mudou. Esquecem-se é de que, ainda há 2 semanas, no Barnabéu, só não ganhou um jogo em que cilindrou o Real porque falhou uma quantidade absurda de golos; esquecem-se é de que estão a fazer um campeonato melhor, em termos de pontos e em termos de produção ofensiva, do que em qualquer ano de Guardiola. O problema destas pessoas é interpretarem a qualidade geral da equipa, que não é muito diferente do que era, de acordo com um ou outro jogo ou até, o que é mais grave, de acordo apenas com um ou outro pormenor de um ou outro jogo.

Quinta-feira, 21 de Fevereiro de 2013

Factores Externos e Arruaça

Sabe quem lê este blogue que, embora acredite que há formas de jogar melhores do que outras, considero legítimas todas as estratégias de jogo. Uma equipa que queira defrontar outra defendendo os 90 minutos dentro da sua área, pode fazê-lo. Não considero que seja anti-jogo, porque o jogo, e as leis que o regulam, assim o permitem. Cabe à equipa que ataca encontrar soluções para contornar essa postura. Para fazer frente ao Barcelona, não são poucas as equipas que optam por esta estratégia, o que, antes de qualquer outra coisa, só demonstra a absoluta superioridade dos catalães. Apesar disso, o Barcelona não tem tido especiais dificuldades em fazer frente a equipas que actuem desse modo. Já sentiu problemas e já perdeu jogos contra equipas que se fecharam lá atrás, e já sentiu problemas e já perdeu jogos contra equipas que pressionaram mais à frente. Não me parece, por isso, apesar de lhe reconhecer legitimidade, uma estratégia especialmente inteligente. Depende do que se queira. Normalmente, quem actua com as linhas tão recuadas, quer apenas impedir que o adversário marque, e tem uma fé danada na boa fortuna.

Nada disto, como disse, é ilegítimo. Mas quando se junta esta estratégia (que tem como especial virtude reduzir espaços entre o sector defensivo e o sector intermediário e reduzir espaços entre cada um dos defensores) a factores externos tudo é diferente. O estado deplorável do relvado de San Siro, conciliado com a estratégia ultra-defensiva do Milan, não foi apenas uma forma (na minha opinião, ilegal) de travar o Barcelona. Foi um atentado ao futebol. O que o Milan fez foi cobrar um bilhete de futebol a milhares de pessoas para que as pessoas fossem ver uma coisa que não era futebol. É fraude. Que o Milan não ia jogar futebol já provavelmente todos desconfiariam. Que o Barcelona também não o pudesse fazer, porque o relvado foi especialmente preparado para esse efeito (e o Milan tem sido reincidente nisto), é outra história. Não consigo sequer perceber como a UEFA permitiu que o jogo se jogasse ali, tendo até em conta que, já este ano, jogos houve que não se jogaram porque o terreno de jogo não estava praticável (particularmente por força de certos fenómenos atmosféricos). O futebol é o único jogo colectivo que conheço em que o terreno de jogo não é igual de jogo para jogo, e isso é absurdo. Seja pela diferença inacreditável entre dimensões mínimas e dimensões máximas, seja pela falta de relva ou pelo seu tamanho, seja pelo que for, o terreno de jogo é diferente de estádio para estádio, e as equipas tiram partido disso. Ou seja, tiram partido de um factor externo ao próprio jogo, o que altera significativamente aquilo que o jogo depois é. É inadmissível que, a este nível, as equipas não sejam obrigadas a ter medidas-padrão nos seus campos, que não tenham de ter  a relva obrigatoriamente cortada num determinado tamanho, e que não sejam forçadas a ter maiores cuidados com o seu estado. Se os clubes são castigados por não garantirem as medidas de segurança exigidas pela UEFA e por determinados comportamentos de claques, por que razão não são castigados por, sistematicamente, falsificarem o jogo e, por conseguinte, prejudicarem o espectáculo, mexendo na forma como os factores externos o influenciam? Se a desculpa é a incapacidade de manter a relva sempre em bom estado, façam como em alguns países em que o Inverno é mais rigoroso e construam relvados sintéticos. Há-os actualmente com qualidade, e o espectáculo agradece.

Na minha opinião, adulterar os factores externos, como fez o Milan ontem, é um acto intimidatório. É basicamente o mesmo que fazer com que cada um dos seus jogadores entre com um alfinete em campo para o espetar secretamente nos adversários em certos lances. É arruaça, e é ilegal. A atitude dos italianos, ontem, foi a de um bando de arruaceiros. Não a dos jogadores; a do clube. Quem quer que hoje celebre a derrota do Barcelona - e há-os a rodos - não celebra apenas isso; celebra também a arruaça. Mais até do que noutras ocasiões, as pessoas que hoje estão felizes com o que se passou ontem em Milão não são adeptas de futebol. Não o são porque não podem sê-lo, porque ontem não se jogou futebol, e porque o Barcelona que precisam de ver destruído não foi derrotado por uma equipa de futebol. Foi derrotado por arruaceiros. Ontem foi, possivelmente, o jogo mais fraco que vi o Barcelona jogar nestes últimos 5 anos. Mas nem o Barcelona, por falta de inspiração ou demérito, nem o Milan, pelo que quer que tenha feito, foram responsáveis por isso. O jogo foi paupérrimo porque os factores externos não favoreciam o espectáculo e a estratégia do Milan encarregou-se de torná-lo impossível. O Milan nem sequer defendeu bem. Limitou-se a colocar 9 homens sistematicamente atrás da linha da bola (e um décimo bem perto), todos ao monte à frente da baliza, e nem precisou de estar bem organizado porque o relvado não permitia ao Barcelona as habituais trocas de bola rápidas em espaços curtos. O Milan também não atacou bem. Aliás, nem atacou, propriamente dito. Limitou a lançar um jogador, às vezes acompanhado por um segundo, e a ter o Pazzini lá na frente, mas sempre em desvantagem numérica. Não conseguiu lançar um único contra-ataque perigoso, e marcou porque sim, porque o jogo tem incidências estranhas que às vezes resultam em golo. Em abono da verdade, esta é provavelmente a pior equipa da História do Milan, e está agora numa posição incrivelmente privilegiada para derrubar aquela que é a melhor equipa da História do jogo. Tal posição só é possível, ao contrário daquilo que tem sido dito a respeito dos méritos de uns e dos deméritos de outros, porque ontem não se jogou futebol.

Numa altura em que se fala tanto em certos problemas relacionados com o futebol, aquilo que me apetece dizer é que as pessoas deviam ter juízo. Em vez de estarem preocupados com comportamentos racistas de certos idiotas, deviam preocupar-se, isso sim, com os verdadeiros problemas do futebol, que dizem respeito unicamente à influência que os factores externos continuam a ter na definição de resultados. Reduzam essa influência e o espectáculo será garantidamente melhor. Se não o fizerem, se permitirem que certos erros de arbitragem (erros que seriam facilmente evitados) continuem a ocorrer, se permitirem que os clubes continuem a definir o estado da relva e o tamanho do terreno de jogo, se permitirem que certos índices de agressividade continuem a ser legais, então o futebol continuará a ser o jogo primitivo que tem sido até aqui. Este Barcelona mostrou muitas coisas. Mas mostrou uma que me parece importantíssima. Mostrou que o jogo, enquanto jogo, tem muito por onde evoluir, que é possível contornar todas as estratégias defensivas possíveis, desde que se tenha uma capacidade colectiva, em termos ofensivos, extraordinária. E, ao mostrá-lo, mostrou por arrasto que é em termos ofensivos, essencialmente, que há aspectos em que o jogo pode continuar a progredir. Tal evolução não deveria poder ser interrompida, mas arrisca-se a sê-lo. Para ser sincero, não consigo perceber a felicidade de ninguém que goste de futebol em relação ao jogo de ontem. O que aconteceu foi um atentado, e atentados não deveriam deixar ninguém feliz. É claro que há seres irracionais que ficam felizes com atentados, como muitas comunidades islâmicas após o 11 de Setembro, mas não devia ser assim. Infelizmente, em futebol, continua a preferir-se a arruaça à excelência: era assim há umas décadas, é assim nos dias de hoje. Quanto mais penso nas diferenças entre o futebol de alto nível e o futebol de bairro, mais certezas tenho de que, pelo menos no que diz respeito a quem assiste ao jogo, é tudo a mesma coisa. A maioria dos adeptos de futebol é um adepto de bairro; tem tanta inteligência e tanto bom senso quanto a mãe desdentada que pragueja contra o árbitro por lhe ter expulsado o filho por este ter cuspido em três adversários, ou quanto o bêbedo que se debruça para acertar no fiscal de linha com um guarda-chuva. Para a maioria dos adeptos de futebol, desde que o resultado final seja o que desejam, tudo é permitido. Por eles, a vitória devia ser dada por estipulação, antes sequer de haver jogo. Por eles, não havia sequer jogo; havia só vitórias. A maioria dos adeptos de futebol não gosta de futebol; gosta que lhes aconteça o que lhes dá prazer. Vão ao futebol porque, vivendo em civilização, é dos poucos meios que têm para serem os arruaceiros que afinal são. A maioria dos adeptos de futebol pertence por natureza, ainda que não por lei, a um curral. Era a chafurdar que deviam passar os seus dias; não em estádios.

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2013

A Mania da Objectividade

Uma das principais razões - talvez mesmo a principal - pelas quais a esmagadora maioria das equipas de futebol por esse mundo fora não joga bem é, a meu ver, a objectividade. Não é, aliás, infrequente ouvirmos dizer de uma equipa que mastiga muito o jogo no meio-campo que tem falta de objectividade. Comentadores, treinadores, jogadores, todos sem excepção reconhecem que, quando uma equipa não consegue criar perigo, quando joga demasiado para trás, quando perde tempo a encontrar boas soluções de passe, revela falta de objectividade. Para quase toda a gente, joga bem quem procura constantemente a baliza, quem vai para a frente, quem não perde tempo com inutilidades, quaisquer que elas sejam. Pessoalmente, aborrece-me que dois jogadores que põe quatro ou cinco adversários à rabia, desposicionando-os, desgastando-os, e mantendo a bola, sejam criticados por não serem objectivos. Aborrece-me porque esses jogadores fazem sozinhos o que uma equipa inteira não é capaz de fazer. E, invarialmente, são eles quem estão errados, na opinião de quase toda a gente.

Como sabe quem lê este blogue, considero haver pouquíssima gente que saiba realmente alguma coisa de futebol. Uma das razões pelas quais penso assim é precisamente a ideia praticamente consensual de que todas as acções em campo devem ser objectivas, sejam elas quais forem. Como também deve ser sabido, é costume não concordar com muitas das ideias praticamente consensuais acerca de futebol. Para mim, nenhuma acção em campo deve ser objectiva. Nenhuma! Não o deve porque, embora o jogo tenha um objectivo, cada uma das acções pode apenas ter um objectivo circunstancial. A ideia de que uma equipa deve ser sempre objectiva tem origem precisamente na falácia que consiste em achar que uma acção isolada tem de ser executada em função de um objectivo geral. Pois não tem. O futebol é essencialmente um jogo não-objectivo, nesse sentido. Não é esgrima, nem remo. Em esgrima, não se pode não ser objectivo. Todas as acções são ou para se defender, ou para atacar o adversário. Em remo, não se pode simplesmente não remar, ou remar em círculos. Mas futebol não é isto. É um jogo de tipo diferente. Quando uma equipa só tem em mente ser o mais objectiva possível não tem praticamente nada. Só volta para trás em casos extremos, quando encurralada junto a uma linha, ou quando lhe interessa queimar tempo; só sai a jogar quando o adversário não faz pressão alta; só faz um passe curto quando não tem ninguém na frente que possa correr feito parvo.

É talvez do feitio do que é moderno achar que tudo o que é objectivo é bom. E, por isso, acções cujo fim não seja claro são imediatamente consideradas acções erradas. Acontece em futebol, mas acontece também em muitas outras coisas. É essa a razão pela qual, por exemplo, se aceita geralmente que as Humanidades não merecem um investimento idêntico ao que merecem as Ciências ditas concretas. É também por isso, por exemplo, que se acha que crises económicas se combatem essencialmente com ideias económicas, como se a Economia não fosse influenciada senão por si mesma. Vivemos num tempo em que, habituados pela estupidez das opiniões públicas, achamos que tudo se resolve com um plano bem definido, com metas bem definidas, com continhas bem feitas. Achamos que, se tivermos um objectivo claro, se fizermos tudo o que está ao nosso alcance para atingir esse objectivo, e, se não nos desviarmos do plano e do objectivo do plano, acabamos por ser bem sucedidos. E ignoramos que, muitas vezes, desviarmo-nos de planos e de objectivos é a atitude mais correcta. É um vício científico, um vício que tem por modelo uma mentalidade matemática. Aprendemos a fazer contas quando somos pequenos, e não só nos julgamos imediatamente inteligentes como julgamos que todos os porblemas se resolvem matematicamente, ou seja, juntando parcelas, fazendo contas, e obtendo resultados. Pois nenhum problema complexo se resolve matematicamente, e nenhum problema humano, por assim dizer, pode ser solucionando com habilidades matemáticas. A atitude matemática que estou a atacar consiste em considerar que a execução de meia-dúzia de passos correctamente, e pela ordem correcta, conduz necessariamente ao resultado desejado. Nada no mundo que seja minimamente complexo se resolve assim, e uma das formas de estupidez, porventura a mais moderna das estupidezes, consiste em pensar que sim.

O futebol é demasiado complexo para que possa ser jogado objectivamente, matematicamente, com sucesso. E é por ser tão complexo que um conceito como "objectividade" é absurdo. A maior parte dos treinadores treina a sua equipa, portanto, para fazer coisas absurdas. É por isso que o jogo é tão mal jogado por esse mundo fora; é por isso que os melhores jogadores, os criativos, os inteligentes, os que pensam por si, recebem pouca atenção. Os treinadores querem animais irracionais que repitam o lhes mandam fazer, que joguem sempre em função de um plano de jogo, que façam, em qualquer situação, aquilo que são treinados para fazer, quer a situação convide a isso, quer não. Tais treinadores não sabem o que é futebol. Um treinador a sério não tem um plano de jogo. Isto é, porventura, radical de mais para que alguém o perceba. Deixem-me remodelá-lo: um treinador a sério, um treinador que saiba o que é o jogo, que perceba que, como outras coisas, o futebol é um jogo demasiado complexo para que o conceito de "objectividade" faça sentido, um treinador que compreenda que o futebol é essencialmente um jogo de situações atípicas, irrepetíveis, e que os seus jogadores não são executantes de um plano, mas seres pensantes, agentes que têm de decidir o que é melhor em cada situação, está-se nas tintas para aquilo a que vulgarmente chamam "planos de jogo". Planos de jogo são coisas de gente idiota que acha que o futebol é um jogo de planos.

O futebol é um jogo em que o plano se elabora constantemente, a cada alteração das circunstâncias de jogo. Antes de uma equipa poder ser objectiva, ou seja, antes de poder materializar o seu futebol numa oportunidade de golo, tem de criar condições para que possa sê-lo.  E isso leva, na maioria das vezes (dependendo, claro está, da forma como o adversário defende), muito tempo. A maior parte das equipas salta este passo, ou ignora-lhe a importância. Se virem uma brecha na frente, não hesitam em tentar um passe de morte, por menores que sejam as probabilidades de sucesso de tal passe. Crê-se que todas as veleidades concedidas pelo adversário, todos os espaços, toda a liberdade ao atleta que conduz a bola deve ser encarada como uma oportunidade de criar imediatamente uma situação de golo. Poucas são as equipas que encaram o jogo como uma sucessão, por vezes muito numerosa, de micro-acções. E é por isso que, por exemplo, a criatividade é um atributo tão pouco procurado. Quando se acha que o jogo é essencialmente objectivo, jogadores que saibam pensar, que saibam imaginar melhor do que os outros, não são especialmente diferentes. Veja-se o caso de Modric, no Real Madrid. É um exemplo, mas haveria muitos outros. No Real, Mourinho pretende dele o que pretendia de Sneijder no Inter: últimos passes. É por isso que Modric não rende o que podia render. O mesmo acontece com Özil. Mourinho acredita na objectividade do jogo, e embora seja, porventura, o melhor treinador do mundo a preparar a sua equipa em função dessa objectividade, reduz dramaticamente o potencial dela ao acreditar nisso. Modric é um criativo. Estaria como peixe na água numa equipa que trabalhasse muito o jogo a meio-campo, com passes curtos, tabelas, movimentos entre linhas, apoios e coberturas próximas. Como o encarregam de uma função, como fazem dele alguém que, a todo o custo, tem de solicitar os atacantes em condições ideais, corta-se-lhe a imaginação. Pedem-lhe que execute meia-dúzia de coisas e que não faça outras tantas, quando ele estaria bem se não lhe dissessem coisa alguma. Em cada lance que intervém, tem de agir de acordo com as instruções que tem. É obrigado, por isso, a agir quase automaticamente, a repetir certos movimentos, a tentar sistematicamente coisas idênticas. Quando resulta (o que acontece devido à sua qualidade), corresponde ao que esperam dele. O problema é quando não resulta, o que acontece muitas vezes, pois o sucesso de tal futebol não depende só dele. Aí, acusam-no de estar pouco inspirado, e não pensam sequer na possibilidade de a falta de inspiração ter sido causada pelas instruções que tem.

Nunca fui o maior admirador de Sneijder, mas deixei de gostar definitivamente dele precisamente no ano em que muitos achavam que ele merecia a bola de ouro, isto é, no ano em que foi campeão europeu no Inter. Deixei de gostar dele exactamente porque o seu futebol era mecânico: recebia a bola, rodava e tentava um último passe. Falhava trinta passes por jogo, mas eventualmente acertava um ou outro. Evidentemente, com a mecanização da equipa, as acções de Sneijder até tinham alguma eficácia. Por outro lado, na sua selecção, a jogar da mesma maneira, só a prejudicou. Para Mourinho, o seu médio de ataque é uma espécie de quarter-back, e é essa ideia que não aceito. Nenhum jogador de futebol, pelas particularidades do próprio jogo, pode ter uma função específica como têm os jogadores de futebol americano. O futebol é um jogo de decisões, um jogo de criatividade, e é a criatividade, e só ela, que deve ser cultivada. Modric e Özil, em abono da verdade, são muito mais criativos do que Sneijder alguma vez foi. Sneijder era um executante extraordinário, mas nunca me pareceu o mais criativo dos jogadores. O croata e o alemão renderiam muito mais se estivessem numa equipa que preconizasse um modelo de jogo menos objectivo, se lhes fosse pedido não uma série de tarefas, mas apenas que criassem, consoante as circunstâncias, e de acordo com a posição relativa em que fossem colocados no campo. Hoje em dia, com a cientificidade a que se aproximou o futebol, vive-se uma autêntica mania da objectividade. E os melhores jogadores, aqueles que arranjam soluções de que ninguém estava à espera, aqueles que são capazes de criar a partir do nada, que solucionam problemas absolutamente inéditos, sem nunca terem sido preparados para solucioná-los, acabam ostracizados no meio de tanta objectividade. E nem sequer se percebe que, juntando meia-dúzia de jogadores criativos e deixando-os encarregues apenas de criar se fica, ainda que de forma menos óbvia, bem mais perto dos objectivos a que se propõe qualquer equipa de futebol do que cultivando um ideal de objectividade que apenas coarcta o potencial criativo de uma equipa.

Segunda-feira, 21 de Janeiro de 2013

O Tottenham de Villas-Boas

André Villas-Boas foi um dos treinadores que mais nos impressionou nos últimos anos. Em poucas semanas, quando chegou à Académica, revolucionou o estilo de jogo da equipa. Os seus jogadores, com poucos treinos, mostravam organização, qualidade de jogo e personalidade de equipa grande. Depois, ao longo da época, a qualidade foi aumentando; tirando os desafios contra os grandes, era sempre a sua Académica quem dominava os jogos pela posse. Ainda assim, faltava imaginação no meio-campo. Assumimos que faltasse por não haver qualidade individual suficiente. No Porto, a história foi obviamente outra. Um ano extraordinário, em que ganhou tudo, bateu records, e ainda fez de Hulk um jogador ligeiramente menos auto-centrado. Mas mesmo o seu Porto não convenceu totalmente. Era uma equipa muito bem organizada, com alguns mecanismos ofensivos muito bem trabalhados, mas excessivamente vertical. Assumimos, uma vez mais, que tal fosse consequência da presença de Hulk, em quem Villas-Boas sempre apostou incondicionalmente, e assumimos também que o ocaso de Belluchi, na segunda metade da época, fosse motivada pela lesão que sofreu em meados da mesma. No Chelsea, modificou as suas ideias assim que as coisas começaram a correr mal e, em abono da verdade, é difícil fazer uma análise justa ao seu desempenho não sabendo quanto do mesmo foi minado pela pressão do grupo de jogadores. No Tottenham, portanto, tinha Villas-Boas o seu derradeiro exame. Numa equipa de segunda linha, com um plantel interessantíssimo e um orçamento bastante apetecível, sem a pressão de ter de vencer nada, tinha Villas-Boas todas as condições para apresentar as suas ideias.

A decepção não pode ser, por isso, maior. Interessa-me pouco que o Tottenham esteja à frente de equipas como o Arsenal e o Liverpool, por exemplo: o futebol praticado pela equipa é deprimente. Interessa-me pouco, também, que a equipa demonstre carácter e ambição, que discuta até ao fim o resultado com o campeão em título, que não baixe os braços, que denote uma enorme vontade. Só a qualidade do futebol me interessa. E essa é francamente má. Sim, há organização, há competência táctica, há trabalho de casa feito. O que não há é um pingo de imaginação. A equipa de Villas-Boas é cinzenta, joga mecanicamente. Não tem ideias, e não procurou cortar com nada do que se continua a fazer em Inglaterra. Villas-Boas tem provavelmente o plantel atleticamente mais refinado, das 6 equipas de topo do futebol inglês. Tem laterais que parecem cavalos, tem médios fortes do ponto de vista físico, e muito dinâmicos, tem talvez a dupla de extremos mais veloz da competição. Mas não tem um único jogador de futebol. No início da época, à inevitabilidade de perder Modric, o seu médio mais interessante, juntou Villas-Boas a dispensa de Van der Vaart e Kranjcar. Para o meio-campo, foi buscar Dembélé e Dempsey, dois bons jogadores, física, táctica e tecnicamente, mas a quem falta criatividade. Juntou a toda esta modificação a ostracização ainda de Scott Parker, o único médio com ideias diferentes. O único central de jeito que tem veio-lhe parar às mãos quase por acaso, uma vez que estava contratado antes de Villas-Boas ter assinado, e não é uma aposta clara, jogando até a defesa-esquerdo quando Assou-Ekotto não pode. Falo de Jan Verthongen, obviamente. De resto, André Villas-Boas nunca pareceu muito preocupado com o facto de ter uma dupla de centrais de estacas, joguem Dawson, Caulker, Kaboul ou Gallas. Na direita, Kyle Walker é o tipo de lateral vistoso, que corre muito, que é agressivo, que disputa todos os lances como se fossem o último da sua vida, mas que comete, pelo menos, cinco erros graves por jogo, e faz disparates atrás de disparates, quando tem a bola. Villas-Boas nunca pareceu muito preocupado com isso, e Kyle Walker continua o dono indiscutível da posição. Não sei se Villas-Boas teve ou não responsabilidades na dispensa de Corluka, mas o croata é vinte vezes melhor que Walker.

Na frente, Jermaine Defoe tem sido o dono do lugar de ponta-de-lança. É um jogador vertical, que serve apenas para solicitações nas costas da defesa e jogo de área. Não tem qualidade nos apoios, e é um avançado a quem falta qualidade para jogar numa equipa que procure um futebol interior, de posse, paciente. Aaron Lennon é um extremo velocíssimo, mas que não sabe o que é uma equipa. Nunca achei que pudesse vir algum dia a aprender a jogar com os colegas, e o seu jogo esta época parece-me ainda mais deficiente. Quando sai do drible na linha, já tem a jogada toda na cabeça; não há uma única ideia ali. Ou vai forçar o um para um para fora até cruzar, ou vai driblar para dentro até ter espaço para rematar. Ontem, frente ao Manchester United, há um lance que o define. Finta para dentro, arranja espaço na zona frontal, e a sua acção faz com que os defesas de Alex Ferguson ajustem o seu posicionamento, vedando a zona central, o que cria um buraco que deixa Dempsey completamente isolado. Ao chegar à zona de tiro, com dois adversários pela frente, bastava encostar no colega, que ficava com De Gea só pela frente. Lennon, porém, já tinha executado tudo na sua cabeça, e rematou, sem consequências. Para que serve toda aquela velocidade, toda aquela qualidade técnica, toda aquela explosão, aquela capacidade de drible, se não consegue adequar isso às necessidades da equipa? Lennon pode fintar o seu opositor directo vinte vezes por jogo, pode pôr as bancadas ao rubro, pode, sozinho, criar situações de perigo, que a equipa nada ganha com isso. O único jogador que me agrada no Tottenham é Gareth Bale, mas também ele parece embriagado pelo individualismo táctico em que se joga. Na verdade, em ataque organizado, este Tottenham parece uma equipa de miúdos a jogar na rua: o primeiro que apanha a bola tenta fuçar até conseguir alguma coisa. Fazem isto Lennon, Bale, Dembelé e Defoe, à vez. Se recebem de costas, tentam virar-se. Ninguém dobra o passe, ninguém joga nos apoios recuados, ninguém pára quieto um segundo, para perceber qual é a melhor solução, por que zonas deve a bola correr. Não admira que o Tottenham tenha especiais dificuldades contra equipas que se fecham lá atrás; a bola não circula, a equipa progride quase sempre através do transporte, quase não há jogo entre linhas.

Este Tottenham tem uma atitude competitiva interessante, tem jogadores abnegados, lutadores, tacticamente responsáveis. Falta-lhe, porém, aquilo a que quase ninguém dá valor: criatividade. Em tempos, julguei que Villas-Boas desse valor a isso. O seu discurso, e algumas das ideias que algumas das suas equipas apresentaram, levavam a crer que fosse diferente. Não é. É mais um treinador, de uma vaga de treinadores modernos, que tem métodos de trabalho interessantes, que é competente a organizar as suas equipas, mas que não é especialmente distinto de ninguém. O seu Tottenham é a prova clara disso. Villas-Boas preza a organização, a agressividade defensiva, a responsabilidade táctica, e a intensidade de jogo acima de coisas como a imaginação, a criatividade e as ideias. Pode ter agradecido a Guardiola quando ganhou a Liga Europa, mas não me parece que tenha aprendido nada com ele. Se houve coisa que Guardiola ensinou foi que a intensidade e a agressividade estavam sobrevalorizadas. Villas-Boas estava no sítio certo para mostrar que Guardiola tinha razão: o futebol inglês. Em Inglaterra, qualquer equipa que saiba pausar o jogo, que saiba trocar a bola calmamente, que saiba gerir o ritmo da partida, que saiba chamar o adversário e fazer a bola entrar no seu bloco, é rainha. Villas-Boas transformou a sua equipa para ser o oposto disto, para ser uma equipa que mordesse os calcanhares a todos os adversários. Com isso, pode bem causar problemas até aos candidatos ao título, mas jamais fará do Tottenham uma equipa grande. O quarto lugar que ocupa é o melhor que poderá almejar, e é já muito. Tal posição depende dos índices de concentração e da mentalidade competitiva da equipa, que tem sido alta. Mas está à mercê dos resultados. Uma equipa que suporta o seu futebol na mentalidade agressiva com que joga depende sempre dos resultados para ser capaz de manter a mentalidade. No dia em que as coisas começarem a correr mal, o futebol do Tottenham deixa de produzir resultados, e Villas-Boas falhará. É esse o triste fim daqueles que vendem a alma ao diabo ao trocar a qualidade pela competitividade.

Domingo, 30 de Dezembro de 2012

Gente Irritante e Coisas Ilógicas

Ser mais irritante do que João Querido Manha, e dizer tantos disparates quantos o do comentador residente da TVI, não é obra ao alcance de qualquer um. Basta, a título de exemplo, lembrar o que disse hoje tal senhor, a respeito do futebol apresentado pelo Sporting. Segundo João Querido Manha, Adrien Silva e os extremos leoninos estavam muito apagados. Tendo em conta que passou o jogo a elogiar Ricardo Esgaio, ou não percebeu que Esgaio era um dos extremos, ou referia-se apenas a Jéffren. E é aqui, precisamente, que está o problema. É que, se o Sporting fez alguma coisa de interessante, sobretudo na primeira parte, fê-lo exactamente por força das acções de Adrien e Jéffren, de longe os únicos jogadores em campo que mostraram algumas ideias. João Querido Manha não viu isso, como não vê, geralmente, grande coisa, e distorceu de tal modo o que se passou que não compreendeu que os jogadores que, na sua opinião, estavam menos inspirados, eram afinal os que estavam mais inspirados. Podia alguém perceber menos de futebol?

Comecei, porém, por falar em irritação, e por dizer que bater João Querido Manha nesse particular não é fácil. Não é fácil, mas é possível, como o deixou bem claro, também hoje, mas umas horas antes, João Gonçalves, comentador da Sporttv, durante o desafio que opôs o Norwich City ao Manchester City. Durante a partida, fui percebendo nos comentários ao jogo uma certa embirração, aparentemente gratuita, com um jogador que não conhecia, o lateral direito do Norwich, Russell Martin, hoje em campo porque o habitual titular se encontrava lesionado. Tantos foram os reparos às acções de Martin em campo, na maioria dos casos quando nada se justificava, que comecei a prestar atenção ao desempenho do jogador. Não me pareceu extraordinário, mas também não me pareceu abaixo do exigível para uma equipa como o Norwich. Aliás, comparado com os dois centrais, era um prodígio. João Gonçalves, porém, insistia. A dada altura, sempre que tocava na bola (acho que às vezes bastava aparecer no ecrã), João Gonçalves dizia que era "fraquinho", que tinha medo de subir, que fazia asneira atrás de asneira. E o jogador, para quem o via sem os óculos especiais ou os estupefacientes de João Gonçalves, não fazia nem mais nem menos do que a maioria dos seus colegas. Percebi, por fim, que era qualquer embirração estúpida, que João Gonçalves tinha acordado de manhã, tinha ido ver a convocatória do Norwich, e tinha decidido, talvez por lotaria, que ia dizer mal daquele jogador em particular. Depois de perceber isto, pensei: "Bonito, bonito, era o rapaz marcar um golo". Só para ver como reagia quem tanto mal dele dizia. E, às vezes, desejar coisas apenas para ver gente estúpida envergonhada com a própria estupidez não é um desporto inútil. Hoje, pelo menos, não foi. É que, passados 5 minutos, Russell Martin marcava mesmo o segundo golo do Norwich na partida. Quando João Gonçalves se apercebeu da coisa, calou-se durante alguns segundos, e depois lembrou-se de se safar dizendo que, às vezes, o futebol tem destas coisas e o improvável acontece. Talvez por ainda me não me ver satisfeito, quem quer que exerça vontades sobre o que se passa no mundo decidiu que João Gonçalves ainda não tinha o que merecia. E eis que, alguns minutos mais tarde, o improvável voltou a acontecer: Russell Martin fazia o terceiro do Norwich e o segundo da conta pessoal. João Gonçalves riu-se, resignado com o que lhe acontecia. E o que lhe aconteceu foi simples: escolheu um jogador que não costuma jogar, ainda por cima um lateral direito, num jogo contra uma equipa bem superior, em que a probabilidade de cometer erros era algo elevada, escolheu um jogador a dedo com quem pudesse embirrar durante todo o jogo, na esperança de que, no final da partida, pudesse dizer que tinha percebido desde o início que o rapaz não era suficientemente bom para o nível que lhe era exigido, passando assim por alguém que percebe muito do que está a dizer. Infelizmente, o tiro saiu pela culatra, e a esperteza de João Gonçalves deixou antes a nu a sua falta de carácter.

Não tanto falta de carácter, mas falta de inteligência é coisa que abunda na arbitragem pelo mundo fora. E não me refiro apenas a árbitros; as próprias leis são, muitas deles, profundamente ilógicas. Por que raio parece indiscutível que agredir seja mais grave do que uma entrada por trás? Não faz sentido. Quando, então, alguém agride um adversário porque este acabou de ter uma entrada violenta e o primeiro é expulso por agressão e o segundo vê apenas um mísero amarelo, não há uma profunda injustiça em causa? Falo disto porque é algo que defendo há já muito tempo e porque, hoje, também no jogo entre o Norwich e Manchester City, voltou a acontecer. Nasri foi atropelado, quando se preparava para receber a bola, por uma entrada de Bassong que o virou ao contrário, mas que o podia ter deixado inutilizado durante muito tempo. Percebendo o que acontecera, e o perigo que acabara de correr, levantou-se irreflectidamente e foi tirar satisfações do adversário. Encostou-lhe a cabeça, e parecia com vontade de ir mais longe. Não chegou propriamente a agredir, mas terá tido vontade, e ainda fez uma meia-tentativa, meio fruste, de dar uma cabeçada. Tal tentativa, ou o que quer que tenha sido, valer-lhe-ia a expulsão. Quanto a Bassong, ficou em campo, como não podia deixar de ser, com apenas um amarelo. Para a esmagadora maioria das pessoas, tal desfecho foi normal e condizente com as acções de cada um dos jogadores: um cometeu uma falta dura; o outro agrediu, ou tentou agredir, sem bola, um adversário. O problema de quem pensa assim é que não pensa assim. Deixem-me explicar: quem pensa assim por eles é o mundo que os rodeia. Acham que tal desfecho é normal porque estão habituados a que seja isso que acontece em situações idênticas. Mas que alguma coisa seja habitual não implica que seja correcta.

Imaginemos que Nasri agrediu mesmo, para facilitar a explicação. Que acção é mais danosa à integridade física do jogador: uma entrada violenta numa jogada, ou uma cabeçada no nariz? Que acção merece maior punição: uma entrada violenta que pode inutilizar um adversário, ou uma agressão que não põe em risco a integridade física de ninguém e não é senão uma reacção perfeitamente compreensível de alguém que acabou de ser vítima de uma entrada que o podia inutilizar? Que pessoa merece maior castigo: quem comete uma entrada dessas, ou quem, por sentir ameaçada a sua integridade, reage intempestivamente a essa entrada? E, já agora, que acção é mais cobarde: aproveitar o pretexto da disputa da bola para aleijar a sério um adversário pelas costas, ou agredi-lo frente a frente, em condições iguais? Como quer que se coloque a pergunta, parece-me óbvio que nada justifica que o segundo agressor mereça maior punição do que o primeiro. Na minha perspectiva, nem sequer merecem punição igual. Nunca compreendi muito bem aqueles jogadores que ficam muito ofendidos quando alguém os agride frontalmente (não falo de pisões, de cuspidelas, nem do que quer que seja feito sorrateiramente). Enquanto jogador, sempre fiquei muito mais ofendido com adversários que tinham entradas violentas, fossem elas deliberadamente maldosas ou simplesmente irresponsáveis, do que com adversários que me tentavam agredir. A menos que fosse alguma coisa muito grave (e a maioria das agressões, em futebol, não são graves), agressões não põem em causa a possibilidade de se continuar a jogar. E esse é que deveria ser o critério. Nasri - deixem-me dizê-lo - tinha toda a legitimidade para agredir o seu adversário. Mais do que isso: tinha legitimidade para agredi-lo e, fosse qual fosse a punição que sofresse, teria de ser menor que a do seu adversário. Lembrando-me de uma situação parecida famosa, num encontro entre o Barcelona e o Athletic de Bilbau, Maradona foi vítima de uma autêntica caça ao homem durante todo o jogo. A caça durou até à altura em que o argentino perdeu a cabeça e respondeu a uma entrada por trás que o poderia ter aleijado gravemente (e ele tinha vindo de uma lesão recentemente) com uma agressão que desencadeou uma batalha campal. De quem foi a culpa daquilo? Dos jogadores do Athletic e do árbitro da partida (ou das próprias leis do jogo, que não protegem quem deviam). A agressão de Maradona, como a de Nasri, é perfeitamente aceitável. E é por isso que não acho que agressões deste tipo (isto é, agressões que sejam consequência ou de outras agressões ou de coisas deste tipo) devam ser punidas do mesmo modo que faltas em jogo. O que estou a dizer pode parecer profundamente radical e ilógico, mas, pensem bem: que razão lógica há para que um jogador mereça a punição de não poder continuar a jogar só porque agrediu alguém que fez algo que poderia ter a consequência de impedir que ele continuasse a jogar? Coisas deste tipo deveriam merecer punições de outro tipo; nunca cartões vermelhos como os que merecem aqueles que motivaram a agressão.

Domingo, 23 de Dezembro de 2012

Quiz (2)


1. Qual foi a primeira equipa italiana a marcar presença numa final da Taça dos Campeões Europeus?

2. Nos Jogos Olímpicos de 1996, em Atlanta, Portugal fez uma campanha extraordinária, ficando no 4º lugar, atrás de Nigéria, Argentina e Brasil. Quem compunha a equipa técnica que comandava essa selecção?

3. Em toda a História do Barcelona, qual foi o jogador que mais vezes foi expulso?

Sábado, 8 de Dezembro de 2012

Górgias

Uma das coisas engraçadas de um ser humano adulto, saudável e que vive em sociedade é o ter com quem falar acerca do que bem lhe apetecer. Acho muito bem que o possa fazer. É pena, porém, que seres humanos adultos, saudáveis e que vivem em sociedade não tenham por hábito falar em São Tomás de Aquino, ou discutir entre si os pressupostos teóricos da Teoria da Relatividade. É verdade que não o fazem ou por não saberem nada do assunto, ou porque, mesmo que calhem a sabê-lo, dificilmente estarão constantemente rodeados de quem também o saiba. Como acham, contudo, que devem conversar sobre alguma coisa, decidem escolher assuntos sobre os quais toda a gente acha que sabe alguma coisa. E, ainda que de Filosofia ou de Física Teórica poucos saibam falar, muitos são os assuntos que, normalmente, se consideram acessíveis a toda a gente. De música, de política e, claro está, de futebol, todos acham que sabem qualquer coisa. Dirá quem assim pensa que é natural que assim seja. Música, política e futebol são coisas simples, para as quais basta ter vista (ou audição, no caso da música). São assuntos que não exigem reflexões profundas, que não exigem conhecimentos abstractos, sobre os quais somos bombardeados todos os dias, e sobre os quais, mesmo que inconscientemente, formamos opiniões. Devo dizer que, obviamente, não concordo com isto. O pressuposto errado é o de que há assuntos cujo conhecimento requer esforços intelectuais profundos e assuntos cujo conhecimento é imediato. E a ideia de que se possa conhecer empiricamente o que quer que seja  é suficientemente absurda para que não mereça reprovação.

Para dizer a verdade, conheço tanta gente que sabe falar de São Tomás de Aquino quanta a que sabe falar de futebol. Não significa isto que conheça muita gente que saiba falar de São Tomás; pelo contrário, conheço é poucas que saibam falar de futebol. A principal diferença é que, embora o número dos que sabem falar de uma coisa e de outra seja sensivelmente o mesmo, o número dos que não sabem falar de futebol mas que, ainda assim, insistem em fazê-lo é bem maior do que o número dos que não sabem falar de São Tomás mas falam. Como referi acima, assim é porque se julga que futebol, ao contrário de São Tomás, é coisa de que se pode saber empiricamente. Como nos conta Platão, dos idiotas que, por saberem uns truques de retórica, julgavam que podiam falar de todos os assuntos melhor até do que os especialistas em tais assuntos, tratou exemplarmente Sócrates quando se encontrou com Górgias. Tipicamente, pessoas como Górgias não sabem nada de nada, não têm qualquer arte; mas, como falam, por exemplo, de medicina para plateias de não-médicos, podem persuadir essa plateia. Para Sócrates, tais pessoas eram nocivas à cidade, e aquilo que faziam, disseminar opiniões, era uma das actividades menos nobres que conhecia. A prática da lisonja, se aplicada aos Górgias que falam hoje sobre futebol, encontraria extraordinária manifestação no blogue 442. Aqui fala-se de futebol como as massas gostam que se fale; é-se clubista, fala-se de escândalos e de controvérsias públicas, dizem-se banalidades e contam-se mentiras acerca de tudo e mais alguma coisa. Tal como Sócrates, acho que pessoas como as que por lá falam fazem mais mal do que bem. Os disparates que dizem e a lisonja que praticam são consequência da sociedade livre em que habitam. Mas a liberdade de que gozam não os isenta de serem estúpidos. Tal estupidez reside (e para isso serviu o primeiro parágrafo) em acharem que percebem de futebol só porque têm olhos e já viram muitos jogos. Aliás, também falam de música, de vez em quando. Acontece, todavia, que perceber de futebol não depende nem do tempo que se despende a ver futebol nem da capacidade de visão de ninguém; depende, sim, de saber pensar, como aliás depende qualquer tipo de conhecimento, a respeito de qualquer outra coisa. O que estou a afirmar, para quem ainda não percebeu, é que os palermas do 442, que a dada altura da vida terão percebido que eram demasiado estúpidos para que pudessem falar de assuntos mais complexos e acharam que se deviam dedicar a assuntos mais simples, não percebem que o assunto de que tratam é tão complexo como aqueles dos quais, por serem estúpidos, decidiram não falar. Perceber de futebol, perceber a sério de futebol, é tão complicado como perceber de Filosofia ou de Física Teórica. E todos aqueles que acham o contrário (e são muitos), como reconhecem que são demasiado estúpidos para falar de coisas complicadas, mas conservam, ainda assim, o desejo de dar à língua, devotam-se a falar de assuntos sobre os quais, no entender deles, é fácil ter opiniões. Tal como, para Sócrates, a sociedade seria melhor se as pessoas passassem mais tempo caladas, o debate sobre futebol seria bem melhor se não existisse.

Vem isto a propósito de uma recente opinião do Master Kodro no seu clube de sofistas da bola, a respeito do jogo que opôs o Barcelona ao Benfica. Diz o seguinte este Górgias de meia-tigela, acerca daquilo a que decidiu chamar "a pureza do sistema":

"o Barcelona, na primeira parte, foi um buraco defensivo. Parece que não é preciso esperar para ver o que será o trabalho de Guardiola noutro lado. Ontem, com muitos outros nomes, já se conseguiu perceber onde é que começa e acaba o peso do sistema e o dos nomes que brilhantemente o interpretam."

Implícita no comentário está a ideia, aliás bem consensual, de que o trabalho de Guardiola dependeu praticamente apenas dos jogadores que interpretavam o seu modelo. Como é sabido, discordo inteiramente disto. E confesso que, pelo contrário, se houve coisa que ficou bem visível no jogo de quarta-feira foi que o modelo catalão tem tanta força que sobrevive à ausência dos seus melhores intérpretes. O nosso Górgias acha que um jogo serve de exemplo para alguma coisa; acha que problemas defensivos, ainda por cima apenas manifestos na primeira parte, permitem fazer inferências gerais; e acha ainda que o trabalho de Guardiola, que já não tem nada a ver com este Barcelona, tem a ver com o que se passou na quarta-feira. Se isto não são três ideias das mais estúpidas que se podem ter, não sei o que serão. Disse-se, acerca do jogo, que o Benfica dispôs de oportunidades suficientes para ganhar o jogo, que o Benfica foi superior ao Barcelona, e que o Barcelona, sem as suas principais pedras, foi uma equipa banal. O que posso dizer disto é que é uma idiotice pegada. Não sei que jogo viram estas pessoas, mas sendo verdade que o Benfica podia ter ganho (houve até quem dissesse que podia ter goleado), não é menos verdade que o Barcelona também o podia (aliás, o Barça teve mais oportunidades claras do que o Benfica). Na segunda parte, o Benfica não existiu. E, mesmo na primeira, as oportunidades que conseguiu criar foram mais a partir de erros catalães do que propriamente depois de jogadas desenhadas com critério. O Barcelona, com dez suplentes em campo e um que costuma ser titular mais vezes do que os outros (David Villa) a fazer um frete, com metade da equipa a rondar os 20 anos, a jogar a feijões, contra uma equipa que pressionou alto, teve 72% de posse de bola (e não foi só na sua defesa, como o disse Jorge Jesus), criou variadíssimas ocasiões, e, não obstante alguns erros defensivos, quase sempre erros individuais (de Montoya e de Adriano, a maioria das vezes), controlou amplamente a partida. Mas, ainda assim, há quem ache que o jogo tornou evidente que o sistema não tem nada a ver com o sucesso de Guardiola. Perdoe-se-lhes a estupidez.

Quanto ao que diz o nosso Górgias, é razoável que se lhe conceda que os suplentes do Barcelona não façam um Barcelona tão forte quanto o fariam os titulares. Mas também não sei em que equipa do mundo é que tal acontece. O que sei é que, mesmo com os suplentes, mesmo com uma base de miúdos, mesmo contra uma das 20 melhores equipas da Europa, o Barcelona impôs o seu estilo. Sim, teve alguns erros defensivos, é verdade. Mas, talvez o Górgias não tenha visto os jogos do Barcelona esta época, erros defensivos (sobretudo quando Piqué e Puyol não são a dupla de centrais) têm sido coisas que têm acontecido muito. Achar que permitir 4 ou 5 oportunidades a um adversário tornam evidente que um modelo de jogo não presta, quando o mesmo modelo lhes permitiu 72% de posse de bola contra uma equipa que pressionou alto (não foi o Celtic, enfiado na toca), ou seja, uma posse de bola sempre dentro do bloco do adversário e não à volta, é francamente estúpido. É evidente que, com estes jogadores, o modelo não é tão forte. Mas isso não invalida que, por si só, o modelo não tenha virtudes que nenhum outro tem. Também concordo com o Górgias: não é preciso esperar pelo próximo trabalho de Guardiola. Mas, ao contrário dele, não acho que seja preciso esperar por tal coisa não porque o jogo desta semana tenha evidenciado alguma coisa, mas porque não preciso de ver outra equipa a jogar à Barcelona para perceber que o que Guardiola fez não foi simplesmente adequar um conjunto de jogadores ao modelo que melhor os servia. Os estúpidos precisam invariavelmente de ver coisas e de verificar hipóteses. E mesmo os estúpidos que dizem que já não precisam de verificar nada dizem-no depois de terem verificado alguma coisa (ou julgam que verificaram). Também assim se distingue quem deveria estar calado.

Antes de terminar, 2 reflexões:

1) Pedro Henriques passou o jogo a dizer que aquele Benfica era mais forte do que aquele Barcelona. O Pedro Henriques, para além de estúpido, também é um bocado Górgias. Há 2 coisas a dizer sobre isto. A primeira é que, ao contrário do que Pedro Henriques pensa, o valor de uma equipa não é simplesmente a soma do valor absoluto de um jogador. Mas também não vou argumentar contra alguém que passou o jogo a dizer que era preciso marcar individualmente no meio-campo, pois o Barcelona tinha superioridade numérica nessa zona. As jaimepachequices não merecem esforços deste tipo. A segunda coisa é que, aceitando ainda assim o argumento de Pedro Henriques de que o valor de uma equipa depende da soma do valor das suas unidades, não é claro que aquele Benfica fosse assim tão superior àquele Barcelona. Disse o antigo defesa-esquerdo de segunda categoria, entretanto promovido a comentador e a macaquinho amestrado, que o único jogador do onze catalão que encaixava no onze benfiquista era David Villa. Será que ele viu Puyol em campo? E Song? E Thiago Alcântara? Será que Melgarejo é melhor do que Planas? E não era o Benfica que andava atrás do Tello? Se calhar ficava por aqui. Não, não fico. O André Gomes até tem qualidade, mas dizer que o Thiago Alcântara, o Rafael Alcântara, e sobretudo o Sergi Roberto não jogavam no seu lugar é no mínimo falta de medicamentos. Pelo contrário, eu é que vejo muito poucos jogadores do Benfica que pudessem tirar o lugar aos que jogaram na quarta-feira pelo Barcelona: Artur, Garay e Nolito seriam os únicos.

2) Há quem critique Rodrigo por não ter passado a bola a Nolito, na primeira grande ocasião do jogo. Gosto muito de gente que gosta de certos jogadores, mas que depois os critica por fazerem aquilo que sempre fizeram, ou seja, tomar más decisões. Se gostam de um tipo que é rápido e tem um bom pé esquerdo, e se o preferem ver em campo a alguém como Saviola, que não parecia fazer a diferença em termos individuais, não podem gostar apenas das coisas boas que ele tem. Têm de gostar de tudo. O Rodrigo sempre foi isto e nunca será outra coisa. Se dão tanta importância aos seus atributos técnicos e físicos, não podem ser incoerentes ao ponto de lhe criticarem aquilo em que nunca foi bom. Se gostam de ananás, não podem criticar um vendedor de ananás por não vender alperces no dia em que há apetite por alperces. Eu, que nunca gostei dele, estou à vontade para dizer mal do rapaz. É um jogador banalíssimo, que tem apenas uma característica interessante: as diagonais nas costas da defesa a solicitar o último passe. Tirando isso (o que dá para aí 99% do jogo), Rodrigo é banal. As suas decisões raramente são boas, e nunca jogaria numa equipa como eu entendo que uma equipa deve ser. O pai de Rodrigo veio defender o filho, tentando isentá-lo com uma frase maravilhosa, dizendo que ele não vira Nolito. Se não fizesse parte de um jogador de futebol ver os colegas, sobretudo em lances como este, tal frase podia ser uma boa desculpa. Como faz, não é desculpa nenhuma; é estupidez. Prova que o pai de Rodrigo não sabe que jogo o filho joga. Tal como o filho, de resto.

Domingo, 25 de Novembro de 2012

O Talento e os Instintos

No passado, algumas das maiores discussões neste blogue tiveram a ver com a ideia de instintos. Para muitos, o talento de um extraordinário jogador de futebol não se explica; é algo que nasceu com ele, e que, potenciado pela prática, cresceu até se tornar no que é hoje. Por cá, tentámos sempre dissuadir as pessoas deste género de explicação, argumentando que o talento, qualquer que seja, não é inato, mas antes o resultado manifesto de um processo de aprendizagem, muitas vezes inconsciente, que decorre ao longo da vida. Aqueles que acreditam na primeira teoria têm invariavelmente uma crença naquilo que consideram ser "instintos" que nós não temos. É precisamente esta crença que importa, portanto, rebater, agora que me apetece voltar ao assunto. Ora, uma das objecções à ideia de que os seres humanos não têm instintos propriamente ditos (para além, evidentemente, de instintos primitivos como o instinto de sobrevivência) é a observação de comportamentos instintivos em espécies animais. Dirá quem creia em instintos que, se os animais os têm, os seres humanos também os devem ter. O problema é que há pelo menos 150 anos de pensamento filosófico e científico que está a ser ignorado, quando se pensa assim.

De maneira a poder explicar a sua teoria acerca da evolução de todas as espécies, Charles Darwin precisava de mostrar que certos instintos (às vezes extraordinariamente sofisticados) em certos animais não podiam ser características próprias com as quais tinham sido expressamente criados. De acordo com os criacionistas, certos comportamentos de certas espécies, sobretudo comportamentos muito complexos, só podiam ser justificados se se considerasse que tais espécies haviam sido desenhadas originalmente para se comportarem assim, agindo, portanto, por instinto. Como Darwin precisava de refutar a ideia de que as espécies tinham sido criadas tal como, no seu tempo, eram, precisava também de refutar a ideia de que os instintos eram características especiais não adquiridas pela espécie ao longo da sua evolução. Aquilo que, para muitos, eram comportamentos inexplicáveis, teria de ser explicado, por isso, à luz da teoria da Selecção Natural. Todo o comportamento instintivo (ou aquilo a que chamamos comportamento instintivo) era resultado de um longo processo de evolução, sempre a favor do benefício para a espécie. Um dos exemplos mais difíceis de explicar era o das abelhas. Para muita gente, terem as abelhas a habilidade quase matemática de construir uma colmeia de tal modo que esta comportasse a maior quantidade possível de mel com o menor dispêndio de cera possível era sinal de que tinham sido criadas providencialmente. Para Darwin, no entanto, tal habilidade não era resultado de um instinto providencial, mas sim de um processo de selecção que, em cada geração, extinguira as abelhas menos aptas a sobreviver, dando origem a uma espécie com maiores probabilidades de prevalecer:

"(...) as I believe, the most wonderful of all known instinct, that of the hive-bee, can be explained by natural selection having taken advantage of numerous, successive, slight modifications of simpler instincts; natural selection having by slow degrees, more and more perfectly, led the bees to sweep equal spheres at a given distance from each other in a double layer, and to build up and excavate the wax along the planes of intersection. The bees, of course, no more knowing that they swept their spheres at one particular distance from each other, than they know what are the several angles of the hexagonal prisms and of the basal rhombic plates. The motive power of the process of natural selection having been economy of wax; that individual swarm which wasted least honey in the secretion of wax, having succeeded best, and having transmitted by inheritance its newly acquired economical instinct to new swarms, which in their turn will have had the best chance of succeeding in the struggle for existence." (Charles Darwin, On the Origin of Species, ch.VII)

Sendo que, para suportar uma grande quantidade de abelhas durante o inverno, é indispensável uma grande quantidade de mel, e sendo que a segurança de uma colmeia depende de uma grande quantidade de abelhas, fica em posição favorável, na luta pela sobrevivência, a colmeia em que, no processo de construção dos favos que a compõem, se gastar menos mel (a cera da construção resulta da segregação de mel). Diz Darwin, por isso, que é flagrantemente vantajoso que uma abelha, através de uma pequena modificação dos seus instintos, seja levada a construir as células da colmeia o mais próximo possível umas das outras, contribuindo para economizar cera. De um modo, em grande medida, arbitrário, o enxame cujas abelhas precisem, portanto, de segregar menos cera será o mais bem sucedido. Ao fim de algum tempo, será a descendência desse enxame que, por estar assim favorecida, prevalecerá. Assim se foi refinando a espécie, e assim se tornou no que é hoje. Aquilo que a caracteriza, e que temos tendência a chamar "instinto", por não compreendermos de onde vem a sua sofisticação, é afinal tão-somente uma característica que, ao longo da evolução da espécie, foi sendo aprimorada pelas próprias leis da natureza e pela necessidade de sobrevivência a que todas as espécies se vêem sujeitas. Aos poucos, abelhas com "instintos" menos favoráveis foram desaparecendo, sendo por isso natural que as espécies prevalecentes apresentem "instintos" que nos parecem hoje tão aperfeiçoados.

Quando, muito genericamente, se fala em "instinto" animal, esquece-se de que aquilo de que se está a falar é fruto de um longo processo evolutivo, de uma complexa luta pela sobrevivência, e não propriamente uma característica providencial. Por força desse esquecimento, acredita-se muitas vezes que tenham sido igualmente providenciados aos seres humanos certos instintos. Ora, se, tal como nos animais, nenhum ser humano alguma vez nasceu com instintos especiais para o que quer que seja, se todos os seus "instintos" foram adquiridos ao longo da sua evolução enquanto espécie, e sempre em função de necessidades de sobrevivência, e se, por fim, desde que há civilização e, portanto, desde que a luta pela sobrevivência deixou de ser o motor evolutivo da espécie, a tendência evolutiva da humanidade, propriamente dita, já não é a da descendência daqueles que, em cada geração, reúnem o conjunto de características mais favoráveis à sobrevivência, então não há diferença substancial, em termos de "capacidades inatas", entre um etrusco, por exemplo, e um homem do século XXI.

O principal corolário desta demonstração de que, instintivamente, somos substancialmente iguais uns aos outros e iguais, pelo menos, aos nossos antepassados dos últimos 4000 anos, é o de que, a respeito de actividades mais complexas, é essencialmente aquilo que fazemos em vida e não as características especiais com que nascemos que determinam as distinções particulares entre indivíduos. Evidentemente, há dentro da espécie não só grupos étnicos com algumas características bastante distintivas como também, dentro de cada grupo étnico, indivíduos com características específicas que os distinguem uns dos outros. Igualmente evidente é que tais características permitem a certos grupos étnicos que se distingam em certas actividades, assim como permitem a certos indíviduos distinção noutras. Mas em actividades complexas, em actividades cujo desempenho requer muito mais do que o aperfeiçoamento de certas características biológicas (que são distintas de indivíduo para indivíduo), em actividades em que é o intelecto, e o uso que se faz dele, que determina quais os indivíduos que melhor a desempenham, tais distinções dentro da espécie são absolutamente insignificantes. Em actividades a respeito das quais costumamos falar de talento, ou génio, como sejam, por exemplo, actividades artísticas, filosóficas, ou científicas, o que distingue os melhores dos outros é o percurso de vida com que se definem. Mozart não se distingue de Salieri por ter nascido com um dom maior, por os deuses gostarem mais dele, ou por saber mais de música. Distingue-se porque a vida de Mozart (e tudo o que ela inclui) foi diferente da vida de Salieri. Só isto. De igual modo, o talento de um jogador de futebol é o resultado de quem ele é, de tudo o que aprendeu e apreendeu a respeito de futebol, mas também do conjunto de experiências que, para o mal ou para o bem, o modificaram. O talento de Messi não nasceu com ele; começou, sim, a ser desenvolvido bastante cedo (o que, para um jogador de futebol, costuma ser determinante) e foi sendo trabalhado ao longo da sua vida, muitas vezes inconscientemente, através de resposta a estímulos de ordem futebolística ou não. Os instintos de Messi são, por assim dizer, a face visível desse talento; são as respostas que dá consoante aquilo que foi apreendendo ao longo da vida, dentro e fora do campo. E, embora praticamente instantâneas e embora aparentemente irreflectidas, essas respostas são o culminar de tudo o que viveu, de tudo o que experimentou, dos erros que cometeu, das coisas que descobriu, etc.. O talento não é senão uma construção altamente complexa, e os mais talentosos são não os que gozam de qualquer coisa indefinida com a qual nasceram providencialmente, mas aqueles cujas respostas melhor evidenciam a solidez de tal construção.

 
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