quinta-feira, 9 de julho de 2020

O Benfiquista Primário

Para quem não sabe, o benfiquista primário é aquele tipo de benfiquista que, não perdoando as derrotas, considera que um mau resultado é motivo para despedir o treinador por justa causa e que, não sabendo saborear as conquistas a não ser enfrascando-se, considera que qualquer marreco que consiga um bom resultado ao leme do clube tem o que é preciso para ser treinador do seu Benfica. Como os critérios científicos de que se serve são os nervos provocados pelo mau futebol da equipa ou a bebedeira a que se entrega por causa das vitórias dela, possui a triste característica de não conseguir distinguir um treinador de um garrafão de aguardente. Há desta espécie de adeptos em todos os clubes, claro, mas há pouco mais de um ano deu-se o caso de ter travado uma discussão com um benfiquista primário que era mesmo benfiquista e era mesmo primário. A discussão foi sobre o Benfica de Bruno Lage, e o artista assinava mesmo como Benfiquista Primário. Tudo começou a propósito de um texto escrito no encerrar da época transacta, no qual sugeria com a brandura que me era possível na altura que a equipa benfiquista, não obstante o título de campeão nacional recentemente averbado, a recuperação inacreditável que concretizara e o número de golos marcados, cumprira apenas os requisitos mínimos. Para o Benfiquista Primário, a ideia de que essa equipa de Bruno Lage mantinha muitos dos defeitos da equipa de Rui Vitória era um ultraje. Afinal, cilindrara vários adversários, atingira um número de golos marcados extraordinário e conseguira recuperar uma desvantagem pontual muito considerável. Comparar Bruno Lage a Rui Vitória, ainda por cima numa altura em que ainda se lançavam os foguetes da festa, só podia ser a brincar. Escuso de dizer que não era, como escuso de dizer que a comparação parece agora mais consensual do que parecia. O tempo, como aliás a sobriedade, costuma ajudar a distinguir treinadores de garrafões de aguardente.

Como há memórias que envelhecem bem, talvez a melhor maneira de caracterizar o estado de embriaguez com que o Benfiquista Primário se apresentou nessa discussão seja mostrar o que disse. Comecemos com uma frase pouco controversa: 

Benfiquista Primário: "Bruno Lage está na linha de Guardiola, Sarri, Paulo Fonseca".

Cara!!... Esta interjeição é difícil de definir. Significa pasmo, incredulidade, vergonha alheia, tudo ao mesmo tempo. Pensem na cara que fazem quando alguém diz alguma coisa consensualmente absurda, que vos provoca embaraço e para a qual não encontram palavras. É a essa cara que isto se refere. É no fundo a versão figurativa, e por isso mesmo mais plena de sentido, das reticências quando usadas para designar perplexidade ou estupefacção... Que é como quem diz: 'tudo bem, coiso e tal, mas agora tragam o colete de forças aqui para o garoto não arrancar a própria língua.' Malucos à parte, que tal se deixássemos o Benfiquista Primário explicar o seu ponto de vista?

Benfiquista Primário: "Os médios-centro nunca entram no bloco adversário? Só passaram a estar posicionados já no segundo espaço, na saída de bola, sempre uns metros à frente da primeira linha defensiva do adversário".

Sabiam que havia um segundo espaço num campo de futebol? Eu não sabia, mas fiquei a saber. E também fiquei a saber que há um primeiro espaço, até porque era difícil haver segundo sem haver primeiro. Estamos sempre a aprender. Querem ouvir mais? Eu quero.

Benfiquista Primário: "Não sabes o que é o segundo espaço? Na primeira fase de construção, em organização ofensiva, o Benfica de Lage tem saída a dois, com os centrais bem abertos no primeiro espaço, e os médios-centro já bem dentro do bloco adversário, nas costas da sua primeira linha de pressão. E por dentro do bloco continuam depois, na segunda fase de construção e na fase de criação - até para preparação da forte reacção à perda que a equipa tem...".

Cá está. Primeiro há um primeiro espaço, depois há um segundo espaço. Não há que enganar. Afinal também não era assim tão difícil de compreender. Mas deixemos o Benfiquista Primário continuar a explicação.

Benfiquista Primário: "Dentro do bloco são os segundo e terceiro espaços - replicando a tua elegância, se calhar é melhor voltares à escola e depois retomamos a discussão dos médios-centro e o bloco adversário".

Ah, o terceiro espaço... faltava o terceiro espaço. Surpreendemente, vem a seguir ao segundo. Então, fora do bloco adversário há um espaço, e dentro do bloco há mais dois, é isso? Eu por acaso já estive em campos de futebol, e pareceu-me sempre que havia mais do que três espaços. Não sei, três parece-me pouco. Mas se calhar é porque preciso de voltar à escola, para aprender a contar espaços. E sobre a dinâmica ofensiva do Benfica de Bruno Lage, o que é que o Benfiquista Primário teria a dizer?

Benfiquista Primário: "O jogo entre-linhas de Pizzi e João Félix manda um abraço".

Abraço entregue. É pena é que o jogo entre linhas do Benfica tenha emigrado para Madrid, e que agora só mande abraços à Magui. E mais sobre a dinâmica ofensiva do Benfica de Bruno Lage, ó Benfiquista Primário?

Benfiquista Primário: "O Benfica de Bruno Lage é sim equipa de posse e critério, em organização ofensiva. Que sai a jogar desde trás, com jogo apoiado que liga os três corredores, com sucessivas coberturas ofensivas a assegurar progressão e dinâmica, com o princípio do terceiro homem sempre presente e muita dialética jogo interior/exterior e ataque à profundidade/jogo entre-linhas".

Muita dialética, sim senhor. Futebol que é bonito é que não se viu. Jogo interior mas também exterior, ouvistes? Ataque à profundidade, mas com jogo entre-linhas, estás a perceber, ou quê? E que mais? Usava um líbero avançado? Circulava à largura por dentro do bloco? O Benfica de Bruno Lage era uma espécie de caldeirada, é isso?

Benfiquista Primário: "Ah, portanto para ti, não é uma equipa de posse, mas também não é uma equipa de transições. Então é o quê para ti o modelo de Lage? Não me digas que achas que o Lage não tem um modelo e filosofia de jogo bem definidos?!?".

Era menino para dizer isso, por acaso.

Benfiquista Primário: "Quanto a mim, se há equipa nos últimos anos em Portugal com um modelo e uma identidade bem vincados, é o Benfica de Bruno Lage".

Cara!!...

Benfiquista Primário: "O teu único argumento para negar que o Benfica de Lage é uma equipa de posse é o Rio Ave ter tido bola contra nós e o Benfica ter estado confortável".

Não é bem o único argumento. Mas ter menos bola do que uma equipa do Daniel Ramos é um sinal de qualquer coisa. É como vermos fumo numa moita ao longe em pleno verão. Talvez não seja má ideia chamar logo os bombeiros. Mas podemos fechar os olhos, claro. O que não podemos é reclamar que o fogo nos apanhou de surpresa. Mas o Benfiquista Primário tem uma explicação para isto. Querem saber qual é?

Benfiquista Primário: "Esse jogo foi o penúltimo da recta final decisiva: a equipa, cheia de putos, estava a sentir muito a pressão das últimas jornadas; o empate servia o objectivo prioritário do título... e provavelmente, na altura a que te referes, já estávamos a ganhar. É lícito que, nesse contexto todo, uma equipa de posse siga outras nuances estratégicas, em função do objectivo primordial. Sim, estratégicas... por mais que vociferes, a dimensão estratégica é uma realidade, que em nada põe em causa o modelo".

Homossexual?!? Eu?! Então eu, que até sou casado e tenho filhos, ia agora ser homossexual?? Só porque uma vez, num campo de férias, meti a boca na flauta do senhor Cândido? Então mas agora é assim? Já não se pode ser apanhado às tantas da noite no Lux a mamar na boca dum matulão, é?

Benfiquista Primário: "Acho que nas primeiras 4-6 semanas de BL tivemos vários jogos atípicos para o Benfica - jogos mais difíceis do que o habitual em PT em que se antecipava mais divisão de posse de bola e iniciativa do que acontece na maioria dos jogos nacionais - estou a falar do clássico da Taça da Liga, das duas deslocações em Guimarães e da eliminatória com o Galatasaray. Ora, nesses jogos, por ter tão pouco tempo de treino e porque sabia que não ia ser possível ainda monopolizar a posse de bola nesses jogos, o Benfica usou e muito bem, realmente, a pressão alta e as recuperações altas, tendo conseguido muitos 'lances de notoriedade' (para usar o 'jargão do LE') - oportunidades de golo flagrantes e vários golos decisivos marcados - nesse momento do jogo, nesses jogos mais divididos. Estes lances e golos nesse momento do jogo fizeram muita gente rotular o Benfica de BL como uma equipa de pressão alta e transição ofensiva/contra-pressão e contra-transição ofensiva. Rótulo esse que depois não actualizaram quando, com o passar do tempo e com outros jogos contra equipas mais fracas, o Benfica foi se 'desKloppizando' progressivamente, e progressivamente se 'Guardiolizando'!...".

Ó São, já te explique mil vezes que o Vítor Hugo não significa nada para mim. Eu era muito jovem, era inexperiente, e estava a atravessar uma fase difícil. Aconteceu, mas foram só umas férias de verão. O Vítor Hugo é um homem bonito e delicado. Ajudou-me muito nessa fase. E prontos, aconteceu, quis experimentar. Mas foram só dois meses... Pelo amor dos nossos filhos, ó São, acredita em mim...

Benfiquista Primário: "Um processo que ainda está em curso. Deixem o Bruno Maurizio Lage Sarri Guardiola trabalhar na pré-época e verão!..."

Cara!!... 

Benfiquista Primário: "Para mim, é um modelo de posse de bola que: 1) ainda está a ser trabalhado e vai melhorar ainda bastante na próxima época...".

Cara!!

Benfiquista Primário: "... e 2) não despreza as oportunidades de ataque rápido quando há boas condições de tempo e/ou espaço".

Todos temos amigos que não acreditam em Deus, mas que não excluem a hipótese de ele existir e, pelo sim, pelo não, cumprem todos os preceitos e mais alguns, rezam, vão à igreja, procuram ser virtuosos e praticar o bem, etc.. Não vá o diabo tecê-las... E sobre as semelhanças e as diferenças entre o Benfica de Bruno Lage e o Benfica de Rui Vitória, o que será o que o Benfiquista Primário tem para dizer?

Benfiquista Primário: "As semelhanças, no essencial, do modelo de Bruno Lage com o modelo de RV? Sem dúvida: são tão próximos como o Bernie Sanders e o Bolsonaro".

Muito bem! O Benfiquista Primário começa por aceitar a eventual semelhança dos dois modelos de jogo de modo irónico e zás!, duas referências a políticos de quadrantes ideológicos opostos, para sugerir que não há nada que os aproxime. Belo recurso retórico, sim senhor! A habilidade com que manipula criativamente o potencial linguístico ao seu dispor é digno de nota. E por que razão é que não há nada que aproxime os dois modelos? Porque o modelo de Bruno Lage é muito mais sofisticado, ora essa... Mas quão sofisticado ao certo, querem saber?

Benfiquista Primário: "Bruno Lage está na linha de Guardiola, Sarri, Paulo Fonseca".

Já tinha metido aqui esta, não já? Vale sempre a pena recordar... O que é bom nunca é de mais, não é assim? Mas avancemos...

Benfiquista Primário: "... a principal diferença para o modelo de RV: desapareceu a obsessão, que chegava a ser patética, pelos corredores laterais, e foi levantada a abertamente patética 'proibição' de utilizar o corredor central, o jogo interior e os espaços entre-linhas - o deprimente Benfica de RV construía e criava sempre por fora do bloco adversário (o que isso me exasperava)".

Desapareceu?! Se calhar alguém telefonou para a polícia a gozar. Há gente danada para a patifaria... Se calharam ligaram para a polícia a dizer que tinha desaparecido a proibição de utilizar o corredor central, o jogo interior e os espaços entre linhas, e o Benfiquista Primário acreditou que era a sério. Acontece aos melhores. Se calhar os autores do telefonema até andaram a colar panfletos em postes de electricidade, a pedir ajuda a quem pudesse avistar a proibição de utilizar o corredor central, ou a prometer uma recompensa a quem encontrasse a proibição de utilizar o corredor central. É capaz de ter sido isso, é...

Benfiquista Primário: "As diferenças abissais nos resultados não surgem do nada: são efeito das drásticas melhorias na qualidade do futebol apresentado, na sofisticação, robustez e tipo de modelo de jogo, na perspicácia e acerto estratégico para cada jogo - e também, claro, do que ambos destacam, mas com um peso relativo quanto a mim excessivo: a 'libertação' dos jogadores e a recuperação da alegria de jogar e da confiança".

Portanto, em 2019, o futebol do Benfica de Bruno Lage era sofisticado e robusto e Bruno Lage era perspicaz e revelava acerto estratégico. Depois, aí por volta de Janeiro, Bruno Lage teve uma trombose. Os infortúnios acontecem, e cabe-nos a nós aceitá-los. Assim é a vida, concordemos ou não. Mas que raio de jogos é que o Benfiquista Primário andou a ver?

Benfiquista Primário: "Isto foi visível mesmo com jogos de três em três dias, com pouquíssima disponibilidade para treinos aquisitivos de modelo de jogo".

Portanto, não havia tempo para treinar, mas ainda assim o Benfiquista Primário achava que a caldeirada que lhe davam a comer de três em três dias era resultado das ideias implementadas por Bruno Lage. Bela forma de dar corda às ideias. Só faltava apostar que o tempo lhe daria razão...

Benfiquista Primário: "Para o ano, depois de o Bruno Lage ter uma pré-época para treino aquisitivo de modelo, retomamos este debate e veremos então se ainda achas que o Benfica de Bruno Lage é uma equipa de transições...".

Cara!!...

Infelizmente, não creio que o debate venha a ser retomado. O tempo desempenha um tipo de arbitragem que nem os malucos costumam conseguir contestar. Há um ano, quando a discussão se desenrolou, sugeria eu ao Benfiquista Primário o seguinte: "Quando o ímpeto desta época se perder, quando a motivação e a confiança começarem a faltar, quando algumas das peças-chave não puderem dar o seu contributo, quando os adversários tiverem ideias um bocadinho melhores do que as actuais, vai-lhe acontecer o que aconteceu ao Rui Vitória". E não é que aconteceu mesmo? E era preciso ser bruxo para adivinhar este desfecho? Ou será que qualquer pessoa com dois olhos, e sem a casmurrice do Benfiquista Primário, ou a do Ferrão da Rua Sésamo, o adivinharia com facilidade? Fica a pergunta. Adeus e boa tarde!

8 comentários:

Anónimo disse...

Em primeiro lugar queria saudar o teu artigo do final do ano passado.

Sendo benfiquista e estando nessa altura fascinado com o momento que a equipa atravessava na altura, senti na altura que foi muito por força das circunstâncias (de cada jogo e da época) que a situação se inverteu. O sucesso de muitos dos jogos foi resultado ou de boas iniciativas individuais, e de muitos erros do adversário (achando tambem que há algum mérito na forma como o Benfica pressionava e capitalizava esses erros (jogo dos 5-0 na supertaça à cabeça)).

A maior ironia é que este ano parece-me até que houve mais mérito do Lage na maneira como a equipa criava oportunidades do que na época anterior. Com a entrada do chiquinho no onze, e com o aparecimento do taarabt no centro do terreno eu via mais frequentemente a equipa a criar oportunidades através do centro do terreno do que em anos anteriores.

Claro está que sinto também que era o próprio lage o primeiro a boicotar isso. Se a equipa não estava a ganhar ao intervalo ele parecia que rasgava os planos e a equipa desistia de ter calma. (O próprio chiquinho saltou fora do onze, sendo o único jogador na minha opinião capaz de fazer aquele papel com alguma qualidade - isto sem contar com o RDT que me parecia o jogador mais diferenciado no ataque do Benfica e que foi encostado porque se faziam capas de jornal em agosto porque não marcava golos).

Não sei se era porque as boas decisões dele seriam fruto do acaso, ou se pura e simplesmente ele cedeu à pressão de mudar para ganhar. Ou se o erro foi pura e simplesmente perder a equipa. Gostava de saber se achas que houve momentos nesta época em que a equipa apresentou processos que dessem a entender que havia algum dedo dele ou se achas que tudo o que viste na era lage foi individual.

Rui Pedro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro disse...

Uma coisa o benfiquista Primário tinha razão "deixem o homem fazer a pré época e verão". E vimos. E não foi bom.
Aliás, o jogo da supertaça revela bem tudo o que disseste no outro post, goleámos 5-0 a malta ficou eufórica mas poucos perceberam que tivemos muita sorte.
O primeiro golo, depois do sporting falhar lances bem mais fáceis de finalizar, é um bom exmeplo de como o futebol tem umas particularidades muito tipicas. Pizzi despeja para a área obrigando Rafa a um esforço para apanhar a bola. Golo. Pizzi elogiado pelo magnifico passe. Caminho aberto para a goleada. Lage e equipa brutais.

Curiosamente a época, internamente, começa bem e até se pensa que o pior Benfica da década terá finalmente a mais confortável conquista de campeonato na história recente do clube. Mas bastou o primeiro percalço para começar a hecatombe histórica.

Pelo meio há tempo para a malta do garrfão dizer que um jogador como Weigl não presta.

Nuno disse...

Anónimo diz: "A maior ironia é que este ano parece-me até que houve mais mérito do Lage na maneira como a equipa criava oportunidades do que na época anterior. Com a entrada do chiquinho no onze, e com o aparecimento do taarabt no centro do terreno eu via mais frequentemente a equipa a criar oportunidades através do centro do terreno do que em anos anteriores."

Eu só não considero isto mérito do Lage porque se percebeu bem que ele não compreendeu nunca o que é que um e outro podiam dar à equipa. Ele teve mérito a recuperar o Taarabt, mas nunca percebeu que era o jogador mais eficaz a ligar o meio-campo ao ataque. Demorou a fixá-lo a titular, chegou a metê-lo nas alas ou a segundo avançado, etc. E com o Chiquinho igual. Trouxe-o para o onze depois de não conseguir fazer de RdT o substituto de Félix, e assim que o Rafa regressou o Chiquinho deixou de ser opção. Como marcava poucos golos, o Lage não percebeu o contributo que ele dava.

"Gostava de saber se achas que houve momentos nesta época em que a equipa apresentou processos que dessem a entender que havia algum dedo dele ou se achas que tudo o que viste na era lage foi individual."

Nunca vi evolução. E não a via, na minha opinião, porque a preocupação dele é exclusivamente com a estratégia. Ele considera que preparar uma equipa de futebol é prepará-la para o jogo seguinte, e por isso trabalha em função do jogo seguinte, mudando o que é preciso mudar consoante o adversário. O modelo dele resume-se à posição das peças em campo, e pouco mais. Joga em 442 sempre, mas os comportamentos dos jogadores variam consoante o adversário. Às vezes a equipa tenta ter bola, outras vezes não. Às vezes pressiona alto, outras vezes não. E assim por diante. É conforme o adversário e aquilo que o treinador entende ser importante para cada jogo. Achar que uma equipa se constrói a mudar comportamentos todas as semanas, enfim...

Pedro diz: "Pelo meio há tempo para a malta do garrfão dizer que um jogador como Weigl não presta."

Qualquer jogador, numa equipa colectivamente à deriva, fica desprotegido. Normalmente, aqueles que se fazem valer dos recursos individuais, são os que menos afectados são por essa desprotecção. O Weigl é um jogador incrível, mas num colectivo fraco a sua qualidade não sobressai. E há mais casos. O Florentino é um caso idêntico, para a mesma posição. Mas há outros. O apagão do Ferro é gritante, por exemplo. O Pizzi fez uma época desastrosa, apesar dos números.

José Miguel disse...

Nuno, se me permites a pergunta, exceptuando JJ que nome achas que funcionaria no comando técnico do Benfica, tendo em conta que teria que ser alguém que utilizasse as camadas jovens mas com uma estratégia a longo prazo?

Nuno disse...

José Miguel, há alguns nomes que talvez não fossem má ideia serem equacionados. Mas, pensando na ideia de projecto, acho que faz sentido começar a pensar na prata da casa. Disse na altura que o Lage era a escolha certa para substituir o Rui Vitória precisamente por isso. Independentemente das suas competências tácticas, era a pessoa que fazia sentido na altura, tendo em conta justamente a ideia do projecto. Conhecia os miúdos muito bem, está por dentro da realidade da formação do Benfica, conhece o clube, e estava na altura de ser promovido. Dando continuidade a esse pensamento, fazia sentido que o próximo treinador da equipa principal fosse o Renato Paiva. Não vai ser, porque agora o Vieira considera que a longo prazo foi um erro apostar no Lage. Mas, se o que interessa é o projecto, se o que interessa é um determinado modo de "jogar à Benfica", faz sentido ir promovendo treinadores que se identificam com os valores do clube e que conhecem bem as gerações que aí vêm, mesmo que não se acerte sempre. E com a diferença de que o Renato Paiva é muito mais interessante, do ponto de vista das ideias, do que o Bruno Lage.

José Miguel disse...

Sim entendi o teu ponto de vista... Acho que apostas no "cavalo mais rapido" neste momento. Mas pode ser que o JJ peça dinheiro a mais, o Vieira desista e acabe por apostar no Renato...
Problema é que talvez o treinador por si só não consiga ser o milagreiro e resolva todos os problemas.

Pedro disse...

Nuno, qual a tua opinião sobre a transição de treinadores das camadas jovens para equipas principais?

Ou seja, pegando no exemplo do Lage e do Renato, ambos reconhecidos como excelentes treinadores de formação e que, naturalmente, terão aspirações aos grandes palcos. Mas, na visão do Benfica, vale o risco de perder um treinador top de formação para uma incognita na equipa principal que, falhando terá o custo adicional de dificilmente voltar à formação?

Fará sentido ao Benfica pagar bem aos Renatos e Lages para os manterem na formação garantindo qualidade? Ou a aposta na transição é e será sempre inevitável e de procurar?