segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A Decisão de Talisca

Não é novidade, para quem visita este espaço com regularidade, que a velha máxima do chutar sempre que possível é algo que não me agrada particularmente. Ora, não é por o lance terminar com a bola no fundo da baliza adversária que um remate, quando se pedia outra acção, passa a ser uma boa decisão. O lance a que me reporto é o do segundo golo do Benfica no Dragão. Não obstante já muita coisa ter sido dita sobre o clássico e não obstante o mesmo ter acontecido há já algumas semanas, creio que o lance é especialmente útil para aquilo que proponho. A jogada terminou com Lima a empurrar a bola para a baliza deserta de Fabiano, mas foi tudo menos uma boa jogada. E, sobretudo, foi tudo menos uma boa decisão de Talisca, que continua a gozar de enorme admiração por parte da massa adepta dos encarnados sem que o justifique propriamente. Não querendo falar de Talisca em termos genéricos, até porque isso daria pano para mangas, posso dizer, essencialmente, que o seu perfil de decisão deixa muito a desejar. À excepção dos índices competitivos que tem conseguido apresentar, o que é notável para um jovem acabado de chegar à Europa vindo de um campeonato em que a competitividade é bem diferente, e à excepção de competências técnicas que muito decorrem desses índices competitivos admiráveis, Talisca não tem mostrado grande coisa. Não tem, aliás, mostrado - e isso parece-me claro - nada que justifique a euforia que se tem criado à sua volta. Mais uma vez, não fora os golos decisivos que marcou, e que muito se deveram, essencialmente, à capacidade competitiva que lhe reconheço, e não se falava dele como se fala actualmente. Mais uma vez, um ou dois lances por jogo são suficientes para a generalidade das pessoas formarem uma opinião. Mas, passando à frente, o que fez de errado Talisca no lance do segundo golo encarnado?



O remate em zona frontal é sempre apetecível, e é uma boa solução quando há espaço e, sobretudo, quando não há desequilíbrios causados pela movimentação dos colegas. Ora, é isso mesmo que Talisca não respeita, ou que pelo menos ignora. Ao contrário de muita gente, não creio que um jogador deva respeitar obrigatoriamente movimentações de colegas nas costas. Mas deve, pelo menos aproveitá-las. Depois do passe de Gaitan para Talisca, Enzo Perez apressa o passo para passar nas costas de Talisca de modo a criar superioridade numérica no flanco esquerdo, onde a defesa portista estava descompensada. Talisca não tinha que ter esperado por Enzo para lhe dar a bola, mas tinha que ter esperado por ele para jogar com a superioridade que ele ia criar e à qual os adversários iriam ter de reagir. Quando Talisca recebe o passe de Gaitan em zona central, tem à sua frente um defesa que o impede de progredir. Depois de contemporizar, por força dessa oposição, fica com mais um médio portista à ilharga. É nesta altura, quando já está francamente apertado, quando perdeu algum enquadramento para o remate e já sem sequer o equilíbrio perfeito, que se decide pelo remate, ignorando que o seu compasso de espera tanto permitira a aproximação de adversários como permitira o início da desmarcação de Enzo. Ao receber a bola, Talisca apercebeu-se que tinha apenas um adversário pela frente e que, possivelmente, teria espaço para rematar. Desde que recebeu a bola, não pensou em mais nada. Durante o tempo que perdeu a preparar esse remate, deveria ter mantido em aberto a possibilidade de tomar outra decisão.  Como tinha a ideia formada, não pensou em mais nada. Podia ter inclusivamente jogardo curto, entre linhas, em Gaitan, mas nem o viu. A melhor decisão, porém, era sempre esperar por Enzo, que ia criar o desequilíbrio na esquerda. Bastava a Talisca ter esperado mais um pouco e poderia jogar com essa desmarcação. Podia fazer o passe para que Enzo cruzasse já dentro da área (ou até para que pudesse rematar) ou podia jogar com essa desmarcação de outra maneira, esperando que Danilo se desposicionasse ao tentar adivinhar um eventual passe para Enzo. Como não pensou nisso, e como tinha o remate na cabeça desde que recebeu a bola, decidiu mal. Que o lance tenha resultado em golo não apaga a má decisão. Note-se, de resto, que o remate não saiu muito potente, como era natural que saísse nas condições em que se encontrava (tinha vários adversários à frente, a bola estava demasiado debaixo do seu próprio corpo, e o enquadramento não era perfeito), e que só um frango monumental de Fabiano, que defendeu com a cara, permitiu que aquela má decisão se transformasse numa recarga de Lima. Para muita gente, Talisca fez bem em chutar, uma vez que deu golo. O problema, no entanto, é o do costume: em situações idênticas, não só um remate naquelas condições dificilmente resultará em golo como a decisão de rematar naquelas condições e com um desequilíbrio prestes a ser criado por um colega dificilmente será a melhor decisão. 

10 comentários:

Gonçalo Ruivo disse...

Nuno, queres rir alucinadamente?

http://lastrategieblog.wordpress.com/

Nuno disse...

O gajo é tão mau. Quer exemplificar uma tese e acaba por exemplificar a tese contrária.

Gonçalo Ruivo disse...

não deve / pode! ter mais de 12 ou 13 anos lol coitado... mas dá para rir muito

DC disse...

Totalmente de acordo. Qualquer um dos golos do Benfica no Dragão foi 90% demérito defensivo do Porto.

Quanto ao Talisca, não gosto do toque de bola, não gosto do facto de não temporizar, não gosto do perfil de decisão. Vive, para já, da fama que o golo dá.

Futebol Táctico disse...

Já disse várias vezes que quando Talisca parar de marcar deixa de jogar no Benfica.

Roberto Baggio disse...

Talisca ainda não mostrou nada de extraordinário, de facto.

Maria disse...

O que eu aprecio neste blogue é a capacidade que o autor tem de ir contra o senso comum de uma forma racional, sustentada e, até mesmo, científica! Aguardo sempre com grande expectativa cada novo texto e nunca para de me surpreender. Obrigado

Quanto ao texto, o Talisca, parece-me, tem qualquer coisa de Ramires. Não aprecio muito o estilo mas é um jogador importante na organização ofensiva que Jesus preconiza e será ainda mais no futuro próximo.

Lucas Favero disse...

e ai nuno,
o que acha de Neymar no Barcelona?
me parece que a cada jogo tem evoluído, procurando tabelas.
quando participa do jogo interior com messi, infesta e cia, acho que tem sido criativo, o problema me parece que a orientação de luis henrique são os extremos jogarem bem abertos e isso atrapalha a equipa um pouco.

Nuno disse...

Lucas Favero, sim. Concordo com tudo. Como tive oportunidade de dizer, o Neymar parece-me que começou a mudar, enquanto jogador, quando o Barça humilhou o Santos. A resposta dele foi perceber que o futebol era mais do que números de circo e isso foi fundamental. Ainda cai em excessos, de vez em quando, mas é hoje um jogador muito diferente do que era. E daqui a uns anos será ainda melhor. Infelizmente, chegou ao Barcelona numa altura em que, por se achar que o modelo de Guardiola já tinha dado o que tinha a dar, se começou paulatinamente a mudar os princípios de jogo da equipa. Hoje, o Barcelona é muito menos uma equipa de toque curto, de tabelas rápidas e triangulações sistemáticas do que era com Guardiola e com Tito Vilanova. E é pena, porque isso faria com que evoluísse muito mais. No modelo de Luis Enrique, Neymar está constantemente aberto, à espera da bola para depois vir para o meio, para desequilibrar individualmente ou procurar uma tabela com o apoio frontal. É-lhe pedido muito pouco, por exemplo, sem bola.

Zizou disse...

Peço desculpa pelo off-topic, mas venho aqui recomendar a todos os interessados em desenvolver um pensamento cada vez mais profundo sobre a criatividade um livro que acabei de ler.

"Creativity, Inc.: Overcoming the Unseen Forces That Stand in the Way of True Inspiration"

Foi escrito por Ed Catmull, co-founder da Pixar.

http://www.amazon.com/Creativity-Inc-Overcoming-Unseen-Inspiration/dp/0812993012

Leitura obrigatória para qualquer gestor de pessoas, independentemente da área em que esteja envolvido.

Um grande abraço e um bom ano a todos os membros do Entre Dez.

Zizou