segunda-feira, 7 de maio de 2012

Gràcies Pep!

É talvez ainda cedo para que se perceba verdadeiramente o que se passou nestes 4 anos, e acredito que há pouca gente, neste momento, consciente do que isto representou para a História do jogo. Tal como a 14 de Julho de 1789, Luís XIV escrevia no seu diário a palavra "Rien", a grande maioria dos amantes de futebol não estará a par da Bastilha que Guardiola e os seus pupilos tomaram. Por esta ou por aquela razão, ainda que admirados com o que esta equipa fez, não entendem a revolução a que deu lugar. À distância, todos os grandes momentos da História da Humanidade nos parecem grandes o suficiente para que as pessoas que os tenham vivido tenham sabido aproveitá-los. Mas quantas das pessoas que os viviam estariam conscientes da sua importância futura? Saberia, quem conversava com Sócrates em Atenas, o privilégio que tinha? Conheceriam os marinheiros a bordo da Santa Maria as repercussões daquela viagem histórica? Que espécie de sentimentos guardariam os espectadores do "The Globe", em Londres, depois de cada representação? Hoje em dia, as suas vidas parecem-nos invejáveis pelo simples facto de que puderam desfrutar de momentos irrepetíveis. Vistos à escala a quem têm de ser vistos, estes 4 anos propiciaram-nos coisas muito semelhantes, e o seu impacto na História do Futebol depressa se evidenciará.


 
Pessoalmente, poder ter assistido ao futebol apresentado por esta equipa foi um dos maiores privilégios da minha vida, e só posso agradecer a oportunidade. Quando Guardiola, na época de 2008/2009, pegou no leme catalão, poucos o conheciam e poucos esperariam o que se viria a passar. Muitas das ideias que defendíamos aqui, já na altura, não tinham materialização prática, e nenhuma equipa, até então, jogava o tipo futebol que acreditávamos ser o mais eficaz. No início dessa época, José Mourinho rumava a Itália, e tínhamos bastantes expectativas em relação ao seu trabalho. O Porto de Mourinho, assim como o seu Chelsea dos primeiros dois anos, jogava de modo muito interessante, e esperávamos que, em Milão, tentasse levar mais longe algumas das suas ideias mais antigas. Infelizmente, Mourinho tinha mudado a sua maneira de pensar. A mentalidade competitiva falou mais alto, e o querer ganhar a todo o custo sobrepôs-se à ideologia anterior. No ano anterior, o modelo ofensivo de Frank Rijkaard tinha-se desmoronado com a deterioração das capacidades individuais de alguns dos principais jogadores da equipa, mostrando que os feitos alcançados dependiam excessivamente da competência individualizada dos atletas ao seu dispor. Nessa época de 2008/2009, talvez mais do que nunca, imperava no futebol mundial a ideia, contra a qual sempre quisemos lutar, de que as capacidades individuais são o que, no limite, distinguem uma grande equipa, e a ideia, ainda mais rudimentar, de que os atributos atléticos são os mais relevantes numa modalidade que está a chegar ao ponto máximo da sua evolução.

Inesperadamente, portanto, começou a aparecer na Catalunha, em jogadas reais, aquilo que nos ia na cabeça. Ainda me lembro da primeira troca de ideias que eu e o Gonçalo tivemos a respeito da equipa de Guardiola: "Aquilo é a nossa praia!", disse um para o outro. E era! E foi-o sendo cada vez mais, à medida que os jogadores iam interiorizando melhor e melhor a radical diferença do que estavam a fazer. Guardiola ainda não deveria ter 6 meses ao comando dos catalães e já era para nós o melhor treinador da História do Jogo. Isto pela simples razão de que fora o primeiro a conseguir que os seus jogadores jogassem de modo sistemático da maneira que nós acreditávamos ser a melhor para se jogar futebol. Por esta altura, talvez só Xavi e Iniesta entendessem a proposta de Guardiola na sua plenitude. Era por isso que, nessa altura, só entre eles se passasse o tipo de coisas que, mais tarde, se começou a passar entre todos os jogadores em campo. A pouco e pouco, o modelo foi ganhando consistência, sofisticou-se o mais possível, e foi nesta quarta época que atingiu o seu zénite. Na hora da despedida, Guardiola agradeceu aos jogadores por terem posto em campo aqueles lances que antes só podia imaginar. Foi precisamente a quantidade e a qualidade desses lances que Guardiola só podia imaginar que esta equipa foi melhorando ao longo das quatro épocas. Hoje em dia, não podiam melhorar mais. E Guardiola sentiu que tinha o dever cumprido. Agora pode talvez ficar em casa, enquanto outro lhe segue os passos, com a certeza de que poderá continuar a ver aquilo que antes não podia.

Guardiola justificou a decisão de terminar o vínculo contratual que o ligava ao Barcelona com a necessidade de descanso. Visivelmente, já não se entusiasmava como antes, já não vivia intensamente os jogos como no passado. O que Guardiola não disse, mas que talvez lhe estivesse na cabeça, é que o cansaço se devia também ao sucesso. Não falo do sucesso a nível de conquistas, mas num outro sucesso maior. Para muitos, Guardiola ficará na História do Futebol pelos 13 (ainda poderão ser 14) títulos em 4 épocas. Para mim, os seus maiores feitos são outros. Guardiola mudou o jogo! Os seus jogadores interpretavam tão bem aquilo que ele idealizara que sentiu que não tinha mais nada para lhes ensinar. Podia continuar a acumular títulos, mas corria o risco de criar habituações perniciosas. Ao contrário de outros, que usam como estímulo a conquista de troféus, os records, os adversários impossíveis de vencer, Guardiola tinha por estímulo a revolução que levou a cabo. Terminada que está essa revolução, decidiu recolher-se, e merece todo o respeito pela coragem com que o fez. Como bem disse, precisa de sentir novamente que o futebol precisa dele. Talvez nessa altura, com outro projecto, com outras aspirações, regresse para revolucionar mais um pouco. Pessoalmente, não tenho curiosidade nenhuma em saber o que fará noutras paragens. Isto é, gostaria de vê-lo a treinar outra equipa, mas não me preocupa que não o faça. Aquilo que deu ao futebol nestes 4 anos é tão importante que, mesmo que não volte a treinar, terá dado mais do que qualquer treinador em 30 ou 40 anos de carreira. Mal ou bem, Guardiola deixou para a posteridade lições suficientes para que o futebol do futuro não precise de regressar ao tempo das cavernas.

Disse acima que os seus maiores feitos não foram os títulos, e é nisso em que acredito. Ganhar coisas todos ganham. Ganhar muitas coisas também há quem o faça. Mas mesmo os mais titulados dos treinadores, em muitos e muitos anos de carreira, não foram capazes de fazer as coisas que Guardiola fez nestes 4 anos. E é disso que quero falar até ao fim. Terá dito José Mourinho que venceu uma das melhores equipas da História, e que com isso provou que não há só uma maneira de jogar futebol. Que há muitas formas de ganhar e de jogar futebol parece-me inequívoco. Que haja muitas formas de exercer o tipo de supremacia que o Barcelona de Guardiola exerceu nestes quatro anos é que me parece mais difícil de sustentar. Sim, Mourinho ganhou. Como já o havia feito com o Inter de Milão. Mas o Barcelona de Guardiola fez algo muito mais importante do que simplesmente ganhar. Além de ter ganho sistematicamente, fez coisas que nenhuma outra equipa na História do Jogo conseguiu fazer. É esse o legado de Guardiola. Ganhar todos podem fazê-lo. E Mourinho até é dos que ganha muito. Mas revolucionar o jogo como este Barcelona fez não está ao alcance de qualquer um. É claro que não há um só tipo de futebol vencedor. Mas há um só tipo de futebol que, para além de habilitar quem o pratica a vencer, o habilita a ficar na História do Futebol bem acima de qualquer outra equipa. Deixo abaixo algumas evidências daquilo que nos legou esta equipa, coisas que nunca tinha visto acontecer noutros sítios e noutros contextos, e coisas que não voltarão a acontecer tão depressa. São estas coisas que diferenciam esta equipa de qualquer outra. No dia em que houver outra equipa a conseguir estes feitos, então talvez possamos conversar.

1. POSSE DE BOLA

Nunca tinha visto uma equipa passar 4 anos seguidos sem ter menos de 50% de posse de bola num jogo, nem nunca tinha visto uma equipa conseguir médias de posse de bola a rondar os 70%.

2. PASSES COMPLETADOS


Nunca tinha visto o guarda-redes de uma equipa realizar mais passes do que a maioria dos jogadores adversários, nem nunca tinha visto um só jogador ter mais passes completados que a equipa adversária inteira (ainda na recente meia-final da Liga dos Campeões com o Chelsea, no jogo da segunda mão, Xavi fez mais passes do que toda a equipa inglesa).

3. GOLEADAS


Nunca tinha visto uma equipa com capacidade para golear quem quer que fosse o adversário (em Espanha, nenhuma das principais equipas escapou a goleadas com 5 ou mais golos), nem nunca tinha visto uma equipa capaz de vencer por 7-0 em terreno alheio, num jogo da Liga, perfazer 73% de posse de bola, com apenas 4 titulares em campo. Aconteceu a semana passada, diante do Rayo Vallecano (Pinto, Montoya, Puyol, Mascherano, Adriano, Busquets, Keita, Thiago, Pedro, Alexis e Messi foram os onze que entraram em campo).

4. GOLOS


Nunca tinha visto uma equipa marcar tantos golos através de combinações colectivas, nem nunca tinha visto uma equipa funcionar de modo tão exemplar que propiciasse ao seu melhor jogador a possibilidade marcar mais de 70 golos, em jogos oficiais, numa só época.

5. ESTILO

Nunca tinha visto uma equipa capaz de criar um estilo tão distinto (um estilo que, ao mesmo tempo, todos gostariam replicar e ninguém se atreve a fazê-lo), nem nunca tinha visto uma equipa a dominar tão claramente os seus adversários, pondo-os sistematicamente à rabia.


















6. TRANSCENDÊNCIAS

Nunca tinha visto 2 só jogadores conseguirem furar entre 8 ou 9 adversários bem fechados, recorrendo a tabelas sucessivas, nem nunca tinha visto 2 ou 3 jogadores conseguirem superar sistematicamente 5 ou 6 adversários através de combinações entre eles.

7. LIÇÕES

Nunca tinha visto uma equipa a destruir tantos preconceitos acerca do jogo como esta (o de que não se pode sair a jogar quando se é pressionado; o de que não se deve arriscar atrás; o de que se deve cruzar a bola para a área quando se chega à linha de fundo; o de que se deve aproveitar sempre o espaço em transição; o de que se deve ter, pelo menos, alguns jogadores altos e fortes em campo; o de que não se deve ter mais do que um médio criativo em campo ao mesmo tempo; o de que se deve adaptar pelo menos parte do modo de jogar ao adversário que se enfrenta; o de que se deve jogar pelas alas quando o meio está fechado; o de que uma equipa se deve compor de jogadores para defender e de jogadores para atacar; o de que cada jogador deve ter uma função específica em campo; o de que o ponta-de-lança deve servir essencialmente para marcar golos; o de que coisas inconsequentes, como tabelas sem progressão ou passes para jogadores rodeados de adversários, devem ser evitadas; o de que se deve rematar à baliza sempre que se tem possibilidade; o de que se deve variar entre o passe curto e o passe longo; o de que o futebol moderno tornou utópico jogar apenas com 3 defesas; o de que o portador da bola deve respeitar sempre a desmarcação do colega, passando-lhe a bola; o de que a vaidade é um atributo a eliminar numa equipa de futebol; o de que a força ofensiva de uma equipa depende da soma da competência individual dos seus atacantes; o de que, com bola, a equipa deve fazer campo grande, espalhando os seus jogadores o melhor possível pelo terreno de jogo; o de que se deve jogar sempre com a máxima intensidade possível; o de que os extremos devem estar o mais abertos possíveis; etc.), nem nunca tinha visto uma equipa forçar a que os teóricos do jogo reformulassem tanto as suas teorias acerca do mesmo.


8. MONSTRUOSIDADES

Nunca tinha visto uma equipa gerar tantos anticorpos, assustado tanta gente, e motivado tanto esforço para ser derrubada, nem nunca tinha visto uma equipa promover tantos debates teóricos, e motivar tanta discussão em torno da melhor estratégia com que pudesse ser derrotada.

9. APOIO INCONDICIONAL


Nunca tinha visto 90 mil pessoas, instantes depois do golo que impedia a equipa de chegar à final da Liga dos Campeões, três dias depois de a equipa ter também perdido o campeonato para o rival de Madrid, juntar as vozes e, em coro, entoar: "Olele, olala, ser del barça es el millor que hi ha!", nem nunca tinha visto uma equipa ficar em segundo lugar no campeonato, e celebrar tanto quanto a que ganhou o título (aconteceu na despedida de Guardiola, este fim-de-semana).



10. REVOLUÇÃO

Nunca tinha visto nada destas coisas, nem nunca tinha visto uma equipa revolucionar tanto esta modalidade. É este o legado de Guardiola. Que se aprenda alguma coisa com ele! O Entre Dez, que faria justiça à decisão de Guardiola emulando-a, decide por enquanto permanecer activo, a fim de que se possam continuar a educar os espíritos mais difíceis de convencer. Agora que Guardiola mostrou que é possível jogar desta maneira, é também mais fácil pensar no jogo como sempre exigimos que se pensasse. A revolução está feita. Resta-nos continuar a defender-lhe a necessidade.

Gràcies Pep! Torna Aviat!

35 comentários:

Frederico disse...

Graciès Nuno por mais um post delicioso e continuares a mostrar o que é verdadeiramente o futebol!

Uma das coisas que continuo a não perceber - vamos ver isto evidenciado nas próximas semanas - é como golos de livre directo estão sempre no top do melhor golo e aqueles golos de empurrar após 3 ou 4 tabelas nunca aparecem...

Diogo Cruz disse...

Excelente, mais uma vez.
Qual a tua opinião sobre o Tito?

masterzen disse...

Caro Nuno,
Sou um grande adepto do Barcelona, e sigo com muita regularidade o teu blog, quando te referes ao dogma de quando o meio estar fechado deve-se jogar pelas alas, o Barcelona também o fazia, a diferença é que não o fazia por obrigação do conceito mas por leitura do momento, o jogar com alas bem abertos e sempre encostados a linha, levava a que a defesa se esticasse de linha lateral a linha lateral, muitas vezes a bola entra ali para depois voltar ao meio, mas muitas vezes entra ali e se a situação de jogo assim o indicar é por ali que se segue,quantas vezes entrou este ano Cuenca ou Daniel Alves pela linha e seguiu em drible para dentro da área. O que eu axo que não existe é o ser obrigado a jogar pela linha.
Depois queria-te ajudar com mais coisas que normalmente não se vê:

- Jogar com um falso nove que aparece lá, mas que ao contrário de todos os outros marca e marca sem parar.

- Percentagem de decisões certas tomas por toda a equipa, parecem que estão a ver o jogo de cima.

- Colocação de médios a jogar a centrais o que somado a ter um defesa direito que podia ser um "10" na maior parte das equipas, dá quase 10 jogadores de campo com características de médio.

- Marcação dos cantos para trás, não apenas para centrar o que quase todas as equipas do mundo fazem porque a defesa em zona se desposiciona, mas para aproveitar a colocação automática dos adversários dentro da área o que permite circular a bola em frente da área e procurar situações de golo iminente.

- Nunca viste a melhor equipa do mundo a atacar ser ao mesmo tempo a melhor equipa do mundo a defender. Todos falam da posse e circulação mas muito poucos falam da DEFESA do Barcelona.

- Nunca viste um treinador em 4 anos lançar 20 jovens vindos da Cantera.

E olha já me aborrece de dizer coisas que tu nem eu nem ninguém tinha visto mais.

Abraço,

Obrigado PEP

Nuno disse...

Frederico, pois, é verdade. Acho que isso se explica porque as pessoas medem a qualidade de um golo unicamente pelo remate final, ou pelos últimos gestos técnicos. Enfim...

Diogo, não tenho propriamente uma opinião. Não sei aquilo em que acredita, não sei que ideias tem para o futuro, não sei de que modo é respeitado pelos jogadores. O que eu faria, se estivesse no lugar dele, era reforçar o plantel de modo cirúrgico, obrigando os jogadores a adaptar-se a 2 ou 3 reforços importantes, fazendo com que não se acomodassem àquilo que têm. Ia buscar 2 defesas (1 central (Thiago Silva ou Verthongen) e 1 lateral esquerdo (Jordi Alba ou Gareth Bale), e o Van Persie. Tratava ainda de dispensar o Mascherano e o Adriano, e emprestava jogadores como o Tello e o Afellay. Não sei também quais são os planos para o Villa e para o Abidal, pelo que tentaria ainda recuperar o Oriol Romeu e o Bojan. Mas depende muito do que quiser implementar. Acho importante, sobretudo para que os jogadores adquiram respeito e um certo sentido de responsabilidade, que não tente "apenas" continuar o trabalho do Guardiola. É importante que os jogadores sintam que há ideias próprias e que vale a pena esforçar-se para as compreender.

masterzen, claro. O preconceito de usar a linha de que falava é algo muito comum na praça portuguesa. O Barcelona usa as linhas, mas apenas como meio para abrir espaços centrais, e não como fim em si mesmo. Ou leva a bola aos flancos para a trazer de novo para o meio, ou leva-a, já no último terço, para chegar à linha e voltar para trás. Nunca conduz o jogo pelas linhas, e raramente tem promove acções individuais descontextualizadas. O Cuenca, e sobretudo o Tello abusam delas, mas mais por defeito da sua juventude. E, sim, a principal diferença é usarem a linha apenas quando a situação de jogo a isso convida.

E depois, sim, podíamos estar aqui para sempre a falar das coisas que nunca se tinham visto num campo de futebol.

Mike Portugal disse...

Atenção a uma coisa Nuno. Enquanto que ao Pep, quando ele iniciou no Barcelona não lhe exigiram títulos, ao Mourinho foi o inverso. O Mourinho foi contratado para ganhar títulos e não para fazer a equipa jogar um futebol bonito. E mesmo assim ele conseguiu meter a equipa a marcar muitos golos e a dar várias goleadas.
No dia em que uma equipa não lhe exigir títulos e se contentar com futebol bonito, acredita que ele fará isso.

Dito isto, o sistema de Pep é único e (embora não original no seu todo) tem uma eficácia tremenda, usando os jogadores corretos para o mesmo. Mas ao contrário do que pensas eu acredito que o Ronaldo poderia perfeitamente encaixar neste sistema de Pep, desde que treinado o tempo suficiente. Ele já mostrou que tem gosto pelo treino e com a devida motivação conseguiria fazer de "Villa". Esta equipa do Barça com Messi e Ronaldo seria imparavel.

E também ao contrário de ti eu estou desejoso de ver o Pep a treinar já para o ano uma equipa de outro campeonato, já que não acredito que ele se fique por Espanha. Talvez ele pudesse revolucionar um pouco o futebol em Inglaterra. Por exemplo agarrar num Arsenal que tem jogadores bons para o sistema dele e transforma-lo num verdadeiro candidato ao título com o seu futebol de tiki taka.

Luís Garcia disse...

Mike o Ronaldo não encaixava no Barcelona, assim como o Ibra, Eto'o, Ronaldinho e Deco não encaixaram na equipa de Guardiola. A necessidade de protagonismo iria acabar por criar instabilidades no balneário. Por isso é que eu acho que o Neymar ainda não foi para o Barcelona, eles ainda não têm a certeza se ele era capaz de se inserir na balneário catalão.

A equipa do Barcelona é das equipas mais fechadas que já vi, e principalmente com o Guardiola, as contratações são analisadas mil e uma vezes, são precisas algumas qualidades humanas para se poder encaixar ali. Se virem bem, o Dani Alves e talvez o Busquets são os únicos jogadores que destoam um bocado do resto do grupo.

O melhor exemplo de como é que funciona a mentalidade na equipa de Guardiola é o Mascherano: pagou parte da sua transferência, ficou a primeira metade da primeira época no banco e quando foi chamada para uma posição que não era a dele, cumpriu e acabou por ganhar uma final de uma Champions. Na época a seguir quando voltou para o banco, disse numa entrevista que Piqué e Puyol é que eram os donos do lugar.

Convido-vos para passaram pelo nosso blogue:

http://bolacolabatata-frita.blogspot.pt/2012/05/ratos-desertores-e-macas-podres.html

Batalheiro disse...

Obrigado Nuno e Gonçalo por terem expandido a minha compreensão do jogo.

Ao Nuno, por ser quem escreve de forma mais regular, pergunto, mais uma vez, para quando esse livro? Tens tudo para o fazer: conhecimento, opiniões originais e acima de tudo qualidade de escrita e "voz" literária.

Espero que o Tito Villanova seja o Bob Paisley deste Barcelona (o Pep é o Shankly claro).

Tenho algum receio que o exemplo deixado por este Barcelona, apesar de ter sido absolutamente devastador, venha a ser esquecido (tal como o Ajax e a Holanda de 1970 não fizeram escola.)

Blessing Lumueno disse...

Bom dia,

Primeiro post que leio deste blog por recomendação de um amigo,

Desde já dizer que foi uma óptima leitura e que me agradou quase tudo o que li,

Agrada-me a vossa visão sobre o jogo é muito parecida a minha, mas discordo quando dizem que por Guardiola ter conseguido passar a sua visão do futebol aos jogadores o faça o melhor treinador da história,

Sou também treinador de futebol e como ninguém adoro Guardiola, as dinâmicas que desenvolveu para a sua equipa e compreendo a sua dificuldade em fazê-lo pois não é fácil convencer os jogadores de que passar bem a bola, fazer futebol de passito a passito é tão importante quanto fazer um golo,

É admirável que os jogadores do Barcelona gostem tanto de ter a bola como de marcar um golo e é esse o estilo de jogo que aprecio, com total domínio de jogo,

Grande questão que eu coloco é: Quantos e quantos treinadores não conseguiram passar as suas ideias aos jogadores, meter o seu modelo de jogo em prática, desmistificar muitos mitos do jogo, quebrar muitos preconceitos e bruxas velhas??? Quantos??? Quantos não revolucionaram o jogo da mesma forma que Guardiola o Fez? Armadilhas de fora-de-jogo? Pressing Zonal? Distribuição mais equilibrada de jogadores em campo? Sair a jogar? Basculações ofensivas e defensivas? Compactação zonal? Variações de corredor? Largura no campo para abrir espaços? Combinações como forma de ultrapassar adversários? Quantos foram esses treinadores? Quem foram eles? São os melhores da história do jogo?

Esses conceitos Guardiola usa no seu modelo de jogo! Todos eles... Apenas acrescentou o amor pela bola com principal característica da sua equipa, e sei o quão difícil isso é porque os jogadores têm uma tendência suicida para se lançarem ao golo tão precipitadamente que na maior parte das vezes acabam por perder a bola sem que consigam ter criado uma situação ou até meia situação de golo!

Mas desses todos aspectos importantes que falei, que são utilizados por todas as equipas do mundo incluindo o Barcelona de Guardiola, foram lançados e utilizados por outros treinadores que Revolucionaram o jogo... Então quantos treinadores melhores da história temos?

Como tu me sinto um privilegiado por ter assistido a este Barça de Guardiola...

Mas me sinto igualmente privilegiado por ter assistido a todas equipas de Mourinho, por um simples motivo... É uma máquina de adaptação!

É a par de Guardiola o melhor do mundo.

É um génio e a maior parte da malta não sabe, mas revolucionou completamente a metodologia de treino, e nessa área desmistificou também muitos paragidmas e treina de forma diferente, metodologicamente, que 99% Dos outros treinadores... Se quiserem saber mais sobre isso posso passar-vos algumas informações...

Mourinho compreendeu para que equipas ia, quais eram as dificuldades, cultura vigente e desenvolveu um modelo de jogo diferente para cada uma delas com sucesso.

Não acho que essa seja a melhor forma de treinar, pois acredito em só uma forma de jogar tal como Guardiola.

Mas como treinador compreendo a dificuldade de criar diferentes modelos e implementa-los com sucesso tal como Guardiola implementou o seu.

Não podemos esquecer que muitos treinadores tal como Guardiola fizeram o jogo crescer e evoluir e o facto de tal como vocês eu ser um grande adepto do seu modelo não me faz pensar em melhor da história apenas porque muitos, muitíssimos mudaram a história do jogo apenas não tivemos possibilidade de assistir a isso.


Agradeço mais uma vez a bela leitura com que me prendaram, vou segui-los com atenção assiduamente, ganharam mais um leitor e adepto ao vosso blog,

Cumprimentos,

Blessing Lumueno

Ministro disse...

Granda boazona!!!!

Pedro disse...

Não concordo com o ponto 9. Não é coisa única e já vi bem mais em clubes muito menos conquistadores. Não duvides que os culés estão a festejar os titulos e não os conceitos. Depois de tudo o que ele conquistou esta festa, esta despedida, são perfeitamente normais. Comparando, nunca vi um estádio inteiro a entoar o nome do treinador mais vezes do que qqr jogador ou mesmo do clube. E já vai em três equipas diferentes, três públicos diferentes, a mesma reacção.

Qt ao resto, nada a dizer.

PS: O que achas do triunfo dos "toscos" Simone, Di Matteo e Conti ? ☺

Nuno disse...

Mike, o Ronaldo poderia encaixar, quando muito, como encaixou o Alexis, mais pela profundidade que poderia dar como 9, soltando Messi, do que propriamente no lugar de Villa, a extremo. E depois, claro, a questão do protagonismo seria importantíssima, como o Luis Garcia refere.

Batalheiro, talvez haja surpresas daqui a uns meses.

Blessing Lumueno, o jogo, como qualquer outra actividade, avança de revolução em revolução. Normalmente, estas revoluções são pequenas insignificâncias, e o avanço vai sendo gradual e lento. O que me parece é que Guardiola revolucionou muita coisa de uma assentada, o que se comprova por a sua equipa apresentar um estilo de jogo completamente definido, muito facilmente identificável quando comparado com outras equipas. Claro que aproveitou muito do que já tinha sido feito e muitas das revoluções anteriores, mas aquilo que fez foi incrivelmente mais significativo do que qualquer outra revolução de que me lembre. Houve outras importantes, algumas das quais referiste, mas nunca uma equipa se tinha diferenciado tanto do que fazem os seus pares como esta.

De resto, o Mourinho é um excelente treinador. Ninguém me verá dizer o contrário. Mas acho que, quando comparado com o Guardiola, não contribuiu tanto para a evolução do jogo. A maior revolução que protagonizou, a meu ver, foi em termos de metodologia de treino, e isso é, pelo menos conceptualmente, bem menos relevante do que isto que este Barça faz.

Por fim, ficamos obviamente contentes com a presença e com a satisfação.

Nuno disse...

Pedro, estou a falar de um momento concreto. O Torres faz o segundo em Camp Nou, a poucos minutos do apito final. Acaba ali a eliminatória. E o que fazem os 90 mil? Mostram apoio incondicional. Não me estou a referir aos cânticos que também entoaram no final do jogo. Estou a falar do que fizeram 10 segundos depois de Torres fazer o golo. Nunca vi nada assim. Em lado nenhum. Se tiveres um exemplo concreto para mostrares que estou errado, gostaria muito de saber qual. A minha explicação para isto é simples: aqueles adeptos, apesar de frustrados, reconheceram, mesmo de cabeça quente, que a equipa foi infinitamente superior, e que, apesar de estar naquele momento com campeonato e liga dos Campeões perdida, era de algum modo a melhor do mundo. Aqueles adeptos, ainda que inconscientemente, perceberam que o estilo venceu. Se estivesse a falar dos cânticos após o jogo, ou dos festejos no final da época com a despedida do Guardiola, talvez se pudesse pôr a questão de estarem a festejar tudo o que, durante aqueles 4 anos, aquela equipa tinha conquistado. Naquele momento concreto, pelo contrário, estavam a celebrar o estilo.

O ponto 9 falava de 2 coisas. A primeira é a que vai acima. A segunda é sobre a despedida de Guardiola. O que disse é que nunca vi uma equipa ficar em segundo e celebrar tanto. Não tem nada a ver com o que fizeram com o Mourinho. O nome do Mourinho foi pronunciado no San Siro a meio de uma época que estava a correr horrivelmente, depois de o Mourinho ter ganho tudo no ano anterior. Em Stamford Bridge, foi pronunciado essencialmente para provocar o Villas-Boas. Ou seja, o nome do Mourinho é que foi evocado por causa dos resultados. Aliás, no Bernabéu, tanto já foi cantado o seu nome quanto já foi assobiado, quando as coisas não corriam bem. Com o Mourinho é que os adeptos reagem à maré dos resultados.

Quanto ao triunfo dos toscos, depende. Em Itália, a Juventus foi a equipa que, a meu ver, melhor futebol apresentou ao longo da época. Foi consistente e regular, mesmo não tendo as armas individuais do Milan. Em termos colectivos, eram os mais organizados, quer a defender, quer a atacar. Quanto aos outros, o único sucesso que têm tido é em provas a eliminar. E em provas a eliminar tudo pode acontecer. O Atlético de Madrid tem um plantel muito bom, e qualquer um se arriscava a ganhar uma competição como a Liga Europa. No campeonato, que é a prova em que se exige mais das competências colectivas da equipa, não está a fazer nada de especial. O futebol da equipa é medíocre, e não fosse a abundância de qualidade individual, duvido que se falasse agora neles. Quanto ao Chelsea, enfim, o sexto lugar diz muito. Na Europa, nem contra o Benfica convenceram. Di Matteo tem jogado à italiana, e isso em provas a eliminar pode ser decisivo, se tudo correr bem. Em provas de regularidade, vale o que vale. É por isso que medir as competências de um treinador apenas pelos títulos que consegue ganhar não faz sentido.

Pedro disse...

Nuno, ainda recentemente os adeptos do Liverpool abafaram os do Chelsea em Wembley na final da Taça de Inglaterra estando a perder e já impossibilitados de dar a volta ao resultado.

Quando falo nos cânticos a Mourinho é enquanto ele lá está. Estava no Chelsea e eles cantavam por ele, em Milão idem e agora em Madrid.

Blessing Lumueno disse...
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Blessing Lumueno disse...

Percebo teu ponto de vista. Mas coloco uma questão... Que aspectos revolucionários são esses , especificamente, que ele trouxe ao jogo? Qual é a novidades ou quais são?

Luís Garcia disse...

Blessing Lumueno acho que o aspecto mais revolucionário foi conseguir aliar o futebol espectáculo à eficácia e à conquista de troféus, quer em provas de regularidade, quer em provas a eliminar.

O Barcelona com Guardiola venceu 3 campeonatos em 4 possíveis. Os analistas mais conceituados do mundo na sua maioria partilhavam a mesma opinião: eliminar o Barcelona a 2 mãos é quase impossível.

O Barcelona venceu dominando todos os aspectos do jogo. Um dos melhores exemplos deste domínio futebolístico foi a final da Champions de 2011. Desde a posse de bola, consentida ou não pelos adversários, até ao ritmo de jogo, em que os jogadores do Barça aceleravam e abrandavam o jogo ao seu critério.

Acho que este é um dos maiores méritos de Guardiola, proporcionou o futebol mais perto da perfeição que eu já vi (ainda só tenho 24 anos) e conseguiu ao mesmo tempo conquistar 13 troféus.

Acho que Mourinho comparado com Guardiola tem uma muito maior capacidade de adaptação. No entanto, Guardiola vai ser sempre maior que Mourinho numa coisa: na valentia.. O Barça do Pep foi a primeira equipa que eu vi a jogar em 3-3-4! 3 defesas e 4 avançados!
Quando vi nem queria acreditar, só tinha visto isto na Playstation.

Luís Garcia disse...

PS: O jogo do Barcelona a jogar em 3-3-4 a que me refiro, foi o último Barça - Getafe (4-0).

Se quiserem passem por:

http://bolacolabatata-frita.blogspot.pt/2012/05/ratos-desertores-e-macas-podres.html

Blessing Lumueno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro disse...

"acho que o aspecto mais revolucionário foi conseguir aliar o futebol espectáculo à eficácia e à conquista de troféus"

Eu concordo. O futebol do Barça era fabuloso, a todos os níveis. Mas essa é uma declaração nada consensual pq muitos reclamam do jogo "feio" do Barça que "dá para adormecer", etc.

Concordo em tudo com o que este modelo de jogo trouxe ao futebol mas, repetindo-me, acho que muito se deve á qualidade dos jogadores. O Barça fez o que fez pq tem jogadores geniais na aplicação daquele modelo. Sem eles o sucesso teria sido muito inferior. É por isso que mesmo fazendo escola tenho sérias dúvidas que alguma vez seja repetido com este sucesso. O Bilbao tem semelhanças, joga muito à bola, mas na hora H falha pq, individualmente, falta aos jogadores aquela qualidade de finalizar o que a equipa constroi.

Blessing Lumueno disse...

Ah é o que digo.

Portanto como o futebol espectáculo, te agrada mais (assim como a mim) que outro tipo de futebol, dizes ser a maior revolução de sempre.

Outros treinadores conseguiram passar exactamente um modelo de futebol que também permitia esse domínio só que jogado de formas diferentes. Mas como te agrada mais, assim como a mim, um futebol de toque curto e de paciência esperando sempre que com as trocas de bola se desposicione o adversário, dizes ser a maior revolução de sempre.

Já o Barcelona de Cruyff conseguiu aliar vários aspectos de jogo de forma brutal a dominar quase todos os aspectos do jogo como este Barça.

Sim o Barça esteve perto da perfeição, mas isso não existe, porque perfeito seria eles seguirem o seu modelo de jogo e caso a equipa não fosse eficaz e fosse condicionada pela equipa adversária, arranjar uma forma, sem fugir muito dele (deixar de ter massivamente posse de bola) penetrar na defensiva adversária.

O não ter plano B, como foi aqui elogiado não é bom! Um treinador deve preparar a sua equipa para tudo! Obviamente que 95% do trabalho deve ser com base nas nossas ideias e no que acreditamos ser o melhor para nós, mas os outros 11 do outro lado condicionam a nossa acção então a equipa deve estar dotada de todo tipo de capacidade para resolver os problemas do jogo.

O melhor treinador da história, tal como melhor jogador não existe, porque todos eles trazem novidades que vão sendo utilizadas pelas equipas no futuro.

Aliás volto a frisar que este Barcelona de novidade só trás mesmo o amor a bola igual ao amor pelo golo, como não me farto de descrever, pois todas as outras características do seu modelo foram invenções e novidades, vincadas e marcadas por equipas de outros treinadores.

O 3-3-4 Também não é novidade, basta que para isso se lembre que Co Adriense passou pelo Porto e começou a jogar assim muitas vezes... Exemplo época 2005/2006 a partir da jornada 21. Nos jogos em casa, antes disso jogava em 3-4-3 com o césar peixoto a fazer o quarteto do meio campo...
O Porto alinhava num jogo por exemplo contra o Braga que empatou 1-1 em casa com: Helton, P Emanuel, Bosingwa, Pepe/ P Assunção, Lucho, R Meireles / Quaresma, Adriano, Benni Mccarthy e Ivanildo...

Guardiola trouxe uma novidade? Sim
Trouxe um modelo de jogo que privilegia a qualidade ao invés da quantidade? Sim
MAs já o Arsenal de Wenger privilegiava a qualidade ao invés da quantidade e ganhou muitos campeonatos assim inclusivé taças Uefa... Claro que não era melhor equipa que este Barça, mas a qualidade de jogo também não é novidade. Também não restam dúvidas de que estes executantes do Barça são melhores do que todos os que o Arsenal teve (requisito mais que necessário para que o jogo tenha qualidade), excepção ao Bergkamp e Henry claro.
Mas porquê que essa "única" novidade, reitero amor pela bola igual ao amor pelo golo, é então a melhor novidade de sempre que faz dele melhor da história?

Simplesmente porque vos agrada mais a vocês do que as outras. Assim como me agrada mais a mim... Mas o facto de ser treinador faz-me pensar que sem todas as outras revoluções esta equipa de Guardiola era impossível... E Portanto todas as revoluções são igualmente importantes portanto não fazem do seu criador o melhor da história.

E sim Guardiola é valente porque ataca sempre e defende-se do adversário porque tem sempre Bola. Mas isso, como digo, não faz dele melhor que Mourinho. Admiro muito os dois, e me identifico na forma de pensar mais com Guardiola pela crença infinita "numa" só ideia, "num" só modelo num futebol de ataque. São os dois melhores treinadores do mundo actualmente sem dúvida!

Cumprimentos

11 de Maio de 201

Nuno disse...

Pedro diz: "Nuno, ainda recentemente os adeptos do Liverpool abafaram os do Chelsea em Wembley na final da Taça de Inglaterra estando a perder e já impossibilitados de dar a volta ao resultado."

Pedro, eu não sei se estás a perceber o que estou a dizer. Estou a falar do momento concreto em que toda a gente se apercebe de que acabou, de que as esperanças de vencer a eliminatória ruiram. Não tem nada a ver com o teu exemplo. Aliás, o que não falta, em Inglaterra, são exemplos de claques que cantam quando a sua equipa está a perder (embora o teu exemplo nem seja bom, porque o Liverpool lutou pelo jogo até ao fim). Mas, um estádio inteiro, em uníssono, cantar o que cantaram em Camp Nou? Não são gritos, não são aplausos, não são manifestações ruidosas de apoio, e não são pessoas a tentar incentivar uma equipa. São manifestações de respeito, no momento exacto em que se toma consciência da derrota, pelos derrotados. É completamente diferente.

"Quando falo nos cânticos a Mourinho é enquanto ele lá está. Estava no Chelsea e eles cantavam por ele, em Milão idem e agora em Madrid."

Isso, de facto, é extraordinário, mas explica-se sobretudo por o Mourinho ser muito carismático. Aconteceu também com o Guardiola. E aconteceu com o Conte, este ano, por exemplo. Isso é extraordinário, mas vai sendo visto. 90 mil a mostrar respeito por uma equipa no momento em que a equipa é derrotada é que nunca tinha visto. E isso só foi possível pelo estilo de futebol que jogaram.

"O Bilbao tem semelhanças, joga muito à bola, mas na hora H falha pq, individualmente, falta aos jogadores aquela qualidade de finalizar o que a equipa constroi."

Pedro, eu gosto do modelo do Bilbao, e até tem semelhanças com o do Barça, mas é muito diferente noutros aspectos. Não se trata só de uma diferença dos jogadores. O modelo do Bilbao é muito mais vertical do que o do Barça. A equipa sabe trabalhar bem para arranjar espaços, mas além de o fazer sempre a uma velocidade alta, não é capaz de ser paciente, de entrar e sair dos blocos, de ir à linha e voltar. Além de que, defensivamente, está a anos de luz do modelo catalão. Não é só uma questão de qualidade individual.

Nuno disse...

Blessing Lumueno diz: "Percebo teu ponto de vista. Mas coloco uma questão... Que aspectos revolucionários são esses , especificamente, que ele trouxe ao jogo? Qual é a novidades ou quais são?"

Blessing, são, por exemplo, todas aquelas coisas de que falei no ponto 7. O conceito de "amor pela bola" pode resumir tudo isso, talvez, mas não dá conta da especificidade de cada uma das coisas que eles revolucionaram. E foram imensas.

"Portanto como o futebol espectáculo, te agrada mais (assim como a mim) que outro tipo de futebol, dizes ser a maior revolução de sempre."

Não, nada disso. Eu não concordo com a ideia do Luis Garcia de que o grande mérito é aliar futebol espectáculo a resultados. Eu não sei o que é futebol espectáculo. O grande mérito da equipa é jogador constantemente bem. Mas bem não é bonito. É bem. Melhor que os outros. É a maior revolução de sempre porque é aquela em que se verificaram maiores diferenças para o que se fazia antes.

"Outros treinadores conseguiram passar exactamente um modelo de futebol que também permitia esse domínio só que jogado de formas diferentes."

Isto não é verdade. Nunca uma equipa dominou tanto, de forma tão sistemática, e durante tanto tempo como este Barcelona. É que nem sequer houve equipas que se tivessem aproximado do tipo de domínio que este Barça exerceu. É um tipo de domínio que depende do estilo. O Barça vai à Rússia jogar com o Rubin Kazan com 11 putos e manda no jogo, com 70% de posse de bola, goleando. Em casa do Rayo Vallecano, ainda não há 2 semanas, com 7 suplentes, foi lá dar 7 e fez 73% de posse de bola. Diz-me que outra equipa foi algum dia capaz de fazer isto com segundas linhas? Uma das felicidades do Real Madrid, este ano, foi não se terem lesionado ao mesmo tempo 3 titulares. Um jogo em que não pudessem jogar, por exemplo, Benzema, Ozil e Xabi Alonso, seria o cabo das tormentas. Isso nunca aconteceu com o Barça, que tem um modelo que lhe permite deixar de fora 3 ou 4 peças importantes sem quase perder qualidade.

"Já o Barcelona de Cruyff conseguiu aliar vários aspectos de jogo de forma brutal a dominar quase todos os aspectos do jogo como este Barça."

O Barça do Cruyff terá sido o salto evolutivo anterior. Mas compará-lo com este Barça é subestimar a equipa de Guardiola. O próprio Cruyff reconheceu isso sem dificuldade. Aquele Barça não tinha a cultura de posse deste. Nem perto.

"O não ter plano B, como foi aqui elogiado não é bom! Um treinador deve preparar a sua equipa para tudo!"

A teoria do plano B é uma parvoíce. O plano B, para muitos, passava por ter um avançado alto, capaz de fazer a diferença no jogo aéreo. Imaginemos que as coisas não corriam bem ao Barça, e o Guardiola optava por esse plano B. No momento em que o fizesse, teria de abdicar de boa parte dos seus princípios de jogo, teria de passar a cruzar para a área, teria de passar a privilegiar outras coisas que não as tabelas. Ou seja, no momento em que o plano B fosse activado, o Barça deixava de ser o Barça. Ora, se tu próprio concordas que a forma de jogar do Barça é a melhor que há, deixar de jogar dessa forma não te parece um mau plano? A mim parece. O melhor plano B possível, quando o plano A é o melhor que há, é não haver plano B.

Nuno disse...

"Aliás volto a frisar que este Barcelona de novidade só trás mesmo o amor a bola igual ao amor pelo golo, como não me farto de descrever, pois todas as outras características do seu modelo foram invenções e novidades, vincadas e marcadas por equipas de outros treinadores."

Não concordo com isto. Aliás, essa ideia de amor pela bola, por si só, é muito vaga. O Guardiola podia não fazer mais nada, passar o ano inteiro a dizer que os jogadores amassem a bola, que se não trabalhasse especificamente os melhores modos de materializar esse amor, isso não se manifestava. O que é importante, nesta equipa, não é a ideia romântica, é a passagem dela à prática. E isso só se faz percebendo exactamente que tipo de coisas é que a equipa deve cultivar, a tabela, o passe curto, o toca e devolve, o uso da bola como engodo, os apoios constantes, os triângulos constantes, etc..

De resto, comparar isto com o Arsenal de Wenger é quase ultrajante. O Arsenal, a espaços, consegue jogar bem. Mas é a espaços. Além de defender mal, tem um problema grande de não saber gerir os ritmos de jogo, de não ser capaz de cultivar a bola em todos os momentos, etc. O Arsenal de Wenger e o Bilbao de Bielsa até são dos modelos que mais admiro, mas, repito, estão a anos de luz do Barcelona de Guardiola. Não faz o mínimo sentido compará-los.

Blessing Lumueno disse...

Já tinha visto equipas destruir esses conceitos do teu ponto 7, alias nenhum deles é novidade volto a frisar. Talvez todos em conjunto sejam, mas nenhum deles é novidade. Aquilo que faz com que todos em conjunto te façam achar melhor que outros, é a singularidade a particularidade do teu cérebro.Ou seja tu vivenciaste e experienciaste o futebol de forma diferente de todos os outros o que faz com que acredites num modelo de jogo com esses conceitos, tal como eu. É o que nos faz afirmar que o modelo é melhor que outros. Mas analisa bem os conceitos e vê que nenhum deles é novidade.

"É a maior revolução de sempre porque é aquela em que se verificaram maiores diferenças para o que se fazia antes."

Volto a discordar Nuno. Maiores diferenças? Analisa o modelo de jogo de Mourinho no Porto e Chelsea e vais ver que todos esses conceitos que a equipa de PeP tem, ele também o tinha! Exceptuando claro a dinâmica de posse de bola e é aí e só aí que surgem as maiores diferenças.

"isto não é verdade. Nunca uma equipa dominou tanto, de forma tão sistemática, e durante tanto tempo como este Barcelona. É que nem sequer houve equipas que se tivessem aproximado do tipo de domínio que este Barça exerceu. É um tipo de domínio que depende do estilo. O Barça vai à Rússia jogar com o Rubin Kazan com 11 putos e manda no jogo, com 70% de posse de bola, goleando. Em casa do Rayo Vallecano, ainda não há 2 semanas, com 7 suplentes, foi lá dar 7 e fez 73% de posse de bola."

Porto do Mourinho versão 2002/2004 Lembro uma meia final da Champions contra o Depor fora de casa vai ver essa estatística. A superioridade do Porto de Mourinho, em posse de bola era evidente! Claro que não com os canteranos, mas lembro que Derlei era fundamental e lesionou-se e C. Peixoto quando se estava a fazer fundamental também, esse Porto era esmagadoramente superior em quase todos os apectos de jogo, jogava melhor que as outras equipas também de forma sitemática, ganhou troféus. Mas era diferente, claro!. Devido a dinâmica de posse de bola!!!

"O Barça do Cruyff terá sido o salto evolutivo anterior. Mas compará-lo com este Barça é subestimar a equipa de Guardiola."

Não estou a subestimar nada, estou a dizer que este Barça é diferente pela dinâmica de posse de bola e só! obviamente que essa dinâmica da algumas características especiais a equipa mas é essa a singularidade deste barça.Estou a tentar mostrar que cada revolução é uma revolução e nenhuma é melhor que outra independente de gostarmos mais ou não. Se a questão for por bater record de golos, ou dar mais goleadas ou criar mais situações claras de golo, ganhar mais troféus ou fazer mais pontos já existe/iram melhor/es, mas acho que não estás a ir por aí. Por isso não vou também.

Blessing Lumueno disse...

"A teoria do plano B é uma parvoíce. O plano B, para muitos, passava por ter um avançado alto, capaz de fazer a diferença no jogo aéreo. Imaginemos que as coisas não corriam bem ao Barça, e o Guardiola optava por esse plano B. No momento em que o fizesse, teria de abdicar de boa parte dos seus princípios de jogo, teria de passar a cruzar para a área, teria de passar a privilegiar outras coisas que não as tabelas. Ou seja, no momento em que o plano B fosse activado, o Barça deixava de ser o Barça. Ora, se tu próprio concordas que a forma de jogar do Barça é a melhor que há, deixar de jogar dessa forma não te parece um mau plano? A mim parece. O melhor plano B possível, quando o plano A é o melhor que há, é não haver plano B."

Amigo, o jogar bem como dizes, consiste em os jogadores resolverem os problemas que o jogo trás da melhor forma possível. Pois se os resolvermos da melhor forma é sinal que estamos a jogar melhor que eles, pois estamos a resolver problemas melhor que eles. Todos os jogos trazem constantemente problemas, todos eles diferentes, por isso existe o modelo de jogo que é a chave para que todos os jogadores ganhem uma forma comum de os resolver. O barcelona é a melhor equipa do mundo a jogar porque faz quase tudo, como equipa. A velocidade colectiva é simplesmente estonteante e permite resolver a "maioria" dos problemas que o jogo trás. No entanto existe algo que se chama criatividade. Pode ser dividida em dois: Pode ser intra ou extra-modelo de jogo. Aquelas arrancadas que o messi faz de um lado a outro do campo, da defesa ao ataque, a driblar, sem passar a bola a ninguém fazem parte da criatividade extra-modelo de jogo do Messi. E quando ele faz essas arrancadas que é em 5% das vezes tu não dizes que destoam do modelo de jogo e que o Barça deixa de ser Barça por isso! Os cruzamentos do D Alves, os Remates de longe do mesmo e as vezes do Xavi ou Fabregas são coisas que eles fazem 5% das vezes. São formas que os jogadores arranjam (tal como descrevi Messi acima)para resolver problemas específicos do jogo. porquê que nesses lances o Barcelona deixa de ser barça? E nos Lances individuais de messi não? É que esses também são lances individuais só que apresentados de forma diferente dos de Messi.
Isso é ter um plano B e estar pronto para qualquer eventualidade do jogo...



Essa é complicada de explicar a não ser que o vivesses na prática. Mas te garanto que a chave é a ideia romântica sim, pois é a partir dela que se desenvolvem esses metódos que descrevem e garanto ainda mais que se a ideia não fosse tão romântica e tão extrema quanto o que te digo este Barça não seria tão forte em posse bola tantas vezes e os jogadores não iriam, nunca, desenvolver tal obsessão pela bola.

Não falo do Arsenal de hoje, falo do Arsenal de "ontem" e sim era uma máquina de triturar sitemática! Acontece que os executantes não são os mesmos e a Dinâmica de posse de bola é diferente, também porque o seu treinador não tem, lá está, a novidade que o Guardiola traz: Obsessão pela bola!


Abraço

Pedro disse...

Nuno, achas que aquele público repetia o acto se o Barcelona não tivesse ganho o que ganhou nestes 4 anos? É aí que tens de reflectir... Pode-se dizer que aquilo é único pq nunca um treinador saíu desta forma após tamanhas conquistas. Agora se ele não ganha aquele público não ía festejar o modelo de jogo. Disso podes tu ter a certeza,

O que eu acho é que é necessário existir uma relação directa entre modelo de jogo e qualidade de jogadores. O modelo até pode lá estar mas sem jogadores como Iniesta, Xavi e Messi duvido que o Barça fosse tão superior aos demais. E se calhar isso seria suficiente para pôr em causa toda a qualidade do modelo.

Não me custa nada acreditar que até tu dirias que ainda faltava qqr coisa ao modelo...pq a concretização (e não falo só do golo mas do passe, da tabelinha, da desmarcação, etc) não seria tão perfeita.

Cusca Endiabrada disse...
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Nuno disse...

"Já tinha visto equipas destruir esses conceitos do teu ponto 7, alias nenhum deles é novidade volto a frisar. Talvez todos em conjunto sejam, mas nenhum deles é novidade."

1) Que outra equipa alguma vez entrou em campo numa meia-final da Liga dos Campeões apenas com um jogador (dos 10 de campo) com mais de 1,80m?

2) Que outra equipa viste tu forçar tanto o jogo pelo meio, e com sucesso?

3) Que outra equipa viste tu a usar fazer passes inconsequentes, para jogadores que não podem progredir com a bola, apenas para iludir o adversário?

4) Que outra equipa usa de forma sistemática a tabela, seja para penetrar num bloco defensivo, seja para sair a jogar desde a pequena área?

5) Que outra equipa viste tu actuar sem um único defesa de raiz?

São só 5 exemplos, mas há muito mais coisas que nenhuma outra equipa alguma vez fez. O ponto essencial é que este Barcelona fez coisas que nunca ninguém tinha feito, fez coisas de modo sistemático que outros tinham feito pontualmente e acidentalmente, e fez juntou muito destas coisas ao mesmo tempo. No fim, por causa destas 3 coisas, acabaram por ter um modelo completamente distinto. Mas o que o faz distinto é a enormidade de pequenas coisas que ou nunca tinham sido feitas, ou tinham sido feitas isoladamente.

"Analisa o modelo de jogo de Mourinho no Porto e Chelsea e vais ver que todos esses conceitos que a equipa de PeP tem, ele também o tinha! Exceptuando claro a dinâmica de posse de bola e é aí e só aí que surgem as maiores diferenças."

Os 2 anos no Porto e os primeiros 2 anos do Chelsea foram os anos em que o Mourinho pôs as suas equipas a jogar de modo mais ofensivo. Mas, ainda assim, nada a ver com este Barça. Tu estás a reduzir centenas de coisas àquilo a que chamas "dinâmica de posse de bola". O que eu estou a dizer é que isso é vago. O que faz a diferença são as pequenas coisas que permitem que a equipa tenha essa dinâmica: as tabelas, os apoios, as inconsequências, o uso da bola como engodo, os triângulos constantes, o privilégio pela decisão, etc.

"Estou a tentar mostrar que cada revolução é uma revolução e nenhuma é melhor que outra independente de gostarmos mais ou não."

O problema é que isto não é verdade. Há revoluções mais importantes que outras, em qualquer actividade. A revolução industrial, que não foi uma revolução com um período de tempo definido, foi das maiores revoluções de sempre da História da Humanidade. Isto porque mudou drasticamente o conceito de civilização. Hoje em dia, consegues perfeitamente ver que o mundo era de uma maneira antes do século XVIII, e é de outra depois dele. Evidentemente, houve descobertas importantes antes da Revolução Industrial que a permitiram. Mas nenhuma delas teve a importância daquela. Em futebol, como em qualquer actividade, passa-se o mesmo. Quando apareceram equipas a jogar à zona, revolucionou-se por completo o modo de defender, por exemplo. Os líberos deixaram de fazer sentido, por exemplo, depois disso. Este Barcelona mudou tanto o jogo que é quase absurdo não reparar que se trata de uma revolução óbvia, a maior de sempre do jogo.

Nuno disse...

"Aquelas arrancadas que o messi faz de um lado a outro do campo, da defesa ao ataque, a driblar, sem passar a bola a ninguém fazem parte da criatividade extra-modelo de jogo do Messi."

Blessing, eu nunca vi o Messi fazer uma arrancada que não fosse contextualizada. As arrancadas do Messi são consequência da desorganização que a equipa do Barcelona provoca nas defesas contrárias. Nunca viste o Messi pegar na bola e tentar resolver os problemas sozinhos. Quando pega na bola e arranca, já houve um trabalho colectivo qualquer que o fez perceber que aquele é o momento de arrancar. A prioridade do Messi é sempre o colectivo, e mesmo quando arranca sozinho está a jogar colectivamente. É também por isso que, na selecção, o Messi é muito mais incipiente. Tem muito mais dificuldades em identificar os momentos em que deve arrancar ou não. Os 5% de que falas não destoam do modelo porque fazem parte do modelo. Aliás, o jogo do Barcelona é de tal modo consistente que é raríssimo ver alguma coisa que não faça parte do modelo. As tentativas de lançamento longo do Mascherano são a excepção. De resto, há dias em que o Dani Alves cruza quando não deve. Mas já pensaste que não há outro jogador que cruze, no Barça? Nenhum outro. Os cruzamento do Dani Alves a que te referes são parte do modelo, e ocorrem sempre em situações idênticas. Ocorrem depois de a bola vir muito rapidamente da esquerda para a direita, e servem para tentar apanhar a defesa na altura precisa em que está a bascular. Fazem parte do modelo; não são excepções. Como não são excepções os remates de que falas. Ninguém remata de longe no Barça. Os poucos remates que acontecem à entrada da área acontecem após combinações que permitem haver espaço e condições para o remate. Nunca rematam, por exemplo, após um ressalto, como outra equipa qualquer. Estás a identificar como excepções aquilo que faz parte do modelo. E isso não tem nada a ver com plano B. Quando as pessoas se queixam de o Barça não ter plano B, é de o Guardiola não introduzir mudanças significativas no jogar da equipa (um ponta-de-lança de área, por exemplo). Mas essas mudanças significativas, para resultarem, mudariam por completo o jogar do Barça. Não há plano B que não destruísse o plano A. O mais que ele pode fazer é introduzir jogadores com características diferentes, que sem entrar em conflito com o modelo acrescentem alguma coisa ao mesmo. Vou-te dar um exemplo. O Tello, contra o Real Madrid, foi usado precisamente para tentar surpreender. É um jogador de movimentos de ruptura, e não de movimentos de aproximação, e um jogador que privilegia a individualidade mais do que qualquer outro no plantel do Barça. A ideia era, por um lado, manter a defesa do Real aberta, e por outra, forçar a bola a entrar entre o Pepe e o Arbeloa. O resultado foi que o Barça conseguiu 2 oportunidades claras com movimentos desse tipo, mas perdeu fio de jogo. O Guardiola arriscou perder parte da sua identidade ao instituir um plano B, e o Barça, mesmo tendo sido superior, jogou pior do que é habitual. Mas olha que isso do plano B não é diferente nos melhores treinadores. O Mourinho também não tem plano B. As diferenças que impõe ao modelo vêem todas das características específicas dos jogadores. Vulgarizou-se a ideia de que ter um plano B é bom, mas a minha opinião é a de que, quem está preparado para passar a um plano B é porque não tem um bom plano A.

Quanto ao Arsenal de "ontem", muito sinceramente, não o acho tão interessante como o Arsenal dos últimos anos. Tinha melhores jogadores, e tinha uma equipa mais competitiva, quando comparada com os adversários, mas o futebol que produzia não se comparava ao que produziu nos últimos 4/5 anos.

Nuno disse...

Pedro, ninguém está a dizer que, sem os resultados, aquilo também acontecia. O que estou a dizer é que aquilo não tem apenas a ver com os resultados.

Claro que existe relação directa entre modelo e resultados. Mas também existe modelo independentemente dos jogadores. Dou-te novamente o exemplo do jogo na Rússia com o Rubin Kazan. Sem titulares, com muitos miúdos, o Barça foi lá golear e, acima de tudo, impor o seu estilo. Se queres reflectir sobre alguma coisa, reflecte sobre isso. É claro que, com esses jogadores, ia perder mais jogos, pois nos detalhes eles não têm as competências dos melhores. Mas, pelo estilo, impor-se-iam quase sempre ao adversário que teriam pela frente. E isso é meio caminho andado para a vitória. Com certeza que não seriam tão perfeitos, mas teriam as bases para o ser. É a diferença do Barça antes de Guardiola para o Barça do Guardiola. Os jogadores eram os mesmos. Mas agora tinham um estilo que era a alavanca decisiva para que, depois, pela genialidade de cada um, as coisas se resolvessem.

Batalheiro disse...

Nuno, fico à espera dessas novidades.

Em relação à discussão que por aqui vai tenho apenas uma pergunta:

Concordo que o Barcelona de Pep apresentou uma proposta revolucionária. Mas a minha dúvida é, será que vai ser seguido? Re-interpretado? Imitado de alguma maneira? Porque em 4 anos eu ainda não vi, nem de perto nem de longe, uma tendência... ou um "movimento" de treinadores que utilizem estes conceitos de jogo... porque será? Dificuldade de interpretação dos mesmos? Ignorância pura? Demasiada pressão para obter resultados JÁ?

Nuno disse...

Sim, é um dúvida legítima, Batalheiro. Para já, acho que o Tito Villanova não vai desvirtuar significativamente a coisa. E portanto o Barça de Guardiola vai continuar por mais uns tempos na memória das pessoas. Concordo contigo que não há tendência para imitar o Barça. Mas há, aqui e ali, a percepção de que seria bom perceber e reproduzir algumas das coisas desta equipa. Por exemplo, o Wenger evoluiu como treinador depois de olhar para o Barça do Guardiola. O próprio Ferguson reconheceu certas propriedades que talvez gostasse de reproduzir no seu Manchester. Mas o maior impacto, parece-me, poderá verificar-se até nos jogadores. Se calhar há mais jogadores que aprenderam com o modo de jogar deste Barça do que treinadores. E isso também é bom. É humano tentar imitar os melhores e, inconscientemente, o futebol destes rapazes ensinou certos jogadores a lidarem com certos problemas de maneira diferente. A evolução de que falo tem - parece-me - sobretudo a ver com isso. De modo quase intuitivo, procura-se mais a tabela, o passe vertical, os apoios próximos, o passe curto. Não se deve negligenciar a aprendizagem comportamental intuitiva. O que me parece que o futebol vai herdar é essencialmente a capacidade de decisão desta equipa, que depende muito daquilo outros jogadores aprenderam a ver estes a jogar.

De resto, acho que sim, acho que há poucas equipas a manifestarem estes conceitos de jogo por essas razões. A maior parte dos treinadores é resultadista, e não tem confiança suficiente nos seus conhecimentos para arriscar tentar pôr uma equipa a jogar assim. Querem competitividade e negligenciam a qualidade. Outros não acreditam, pura e simplesmente, que esta seja a melhor maneira de jogar, e acabam por tentar construir um modelo adequado aos jogadores que têm. E outros, mais idealistas, são capazes de tentá-lo, mas de forma errada, não conseguindo, no final, aplicar praticamente aquilo em que tinham pensado.

Mas, repito, em todas as actividades evoluímos por imitação. Antes do Maradona, ninguém pensava que era possível fintar toda a gente numa cabine telefónica e ninguém pensava que era possível fazer certas coisas com a bola. Hoje em dia o que não falta por aí são jogadores habilidosos. Bastou aparecer um que mostrasse como é que se fazia para que os outros pudessem copiá-lo. É o comportamento, em termos de decisões, destes jogadores que vai permitir que as gerações seguintes façam do jogo em geral uma coisa mais evoluída e mais parecida com o futebol desta equipa. Não tenho dúvidas disso.

Nuno disse...

E uma coisa controversa: o próprio Real do Mourinho, em uma ou outra especificidade, aprendeu, do primeiro para o segundo ano, com o Barça do Guardiola. A forma como os 4 da frente combinavam entre si, em ataque posicional, foi a principal melhoria da equipa, de um ano para o outro, e isso teve muito a ver com o que o rival fazia. Não é, nem de perto, nem de longe, uma mudança significativa, mas em muitos momentos conseguiram sair de buracos estreitos como não conseguiam antes. E tudo graças a trocas de bola rápidas e curtas, a tabelas, a apoios próximos.