quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Ricardo Carvalho: o Patriotismo e o Respeitinho

Estava à espera de alguém com uma opinião tão lúcida como esta dissesse alguma coisa para falar do assunto, mas pelo vistos estava difícil. Vamos por partes. Há duas razões para toda a histeria em torno do caso, e duas causas para que todos, ou quase todos, apontem agora o dedo ao jogador português: a falta de respeito enquanto membro de uma equipa, e essa coisa esquisita a que chamam patriotismo. Sobre a falta de respeito, falarei no final, até porque é sobre isso que há mais a dizer, e é sobre isso que todas as análises não-hipócritas ao caso devem incidir. Mas, para já, quero falar em patriotismo. Eu percebo por que razão é que um bolo, para saber bem, precisa de levar açúcar. Também percebo que, para cantar, é preciso ter boa voz. O que eu não percebo, e dificilmente virei a perceber, é por que razão é que a qualidade de uma pessoa depende, entre outras coisas, evidentemente, dessa virtude a que chamam patriotismo. Não sou, nem nunca fui, que me lembre, patriota. E acho, como Oscar Wilde achava, que o patriotismo é a virtude dos infames. Por que razão absurda é que uma pessoa tem de nutrir sentimentos pela nação em que, por mera contingência, nasceu? Não percebo, nem nunca percebi, o que é o amor à pátria. Honestamente. Nutro sentimentos por um ou outro sítio onde morei, por uma cidade, vá, pelas pessoas com quem me cruzei, etc. Mas pela pátria? Eu nem sei o que a pátria é! Sei que tem uma bandeira, que tem um "território", que tem oito ou nove séculos de História. Tirando isso, pouco ou nada sei. Ser, por outro lado, uma entidade abstracta, também não ajuda. Como é que se tem amor por coisas abstractas? Até consigo perceber que alguém possa ter amor por um escaravelho, por uma mesa de cabeceira, sei lá. Acho difícil é ter amor pela filosofia de Platão, ou pelo conceito de Infinito. A meu ver, o patriotismo não é senão uma parvoíce religiosa que, como todas as parvoíces religiosas, serve meramente para domesticar os impulsos anti-gregários das pessoas. Como já devem ter percebido, não acho que faça qualquer sentido o argumento de que o que Ricardo Carvalho fez foi errado porque faltou ao respeito à pátria, precisamente porque a pátria não é nada. Como é que se falta ao respeito a uma coisa que não existe? Aliás, ganharia o meu respeito o jogador que, em início de carreira, renunciasse à selecção por achar hipócrita representar algo pelo qual não nutrisse qualquer tipo de sentimentos. Isto tudo para dizer que as pessoas que acham que o Ricardo Carvalho desrespeitou os portugueses porque desrespeitou a selecção se enganam ao achar que há algum tipo de relação entre a selecção e o país. Pois não há. No fundo, isto não passa de um argumento puritano, um argumento que consiste em achar que existe sacralidade no mundo, um argumento de gente católica que, não sabendo muito bem porquê, acha condenável o comportamento do jogador.

Católico é também o "respeitinho" com que dizem que todos se devem comportar. É outra das ideias que nunca me entrou na cabeça, mas admito que faça ligeiramente mais sentido que o argumento do patriotismo. Para muitos, Ricardo Carvalho é um subordinado e, como todo o subordinado, deve respeitar os superiores. Pois é esta relação hierárquica que não faz sentido nenhum, a meu ver. O respeito não é do tipo de sentimentos que se tem sem qualquer espécie de reciprocidade. Não acredito mesmo que haja uma única pessoa que respeite quem não a respeita. Por isso, não é o tipo de coisa que se possa exigir numa relação hierárquica. Numa relação desse tipo, pode exigir-se obediência, nunca respeito. E é isso que está errado nesta história toda. Para mim, não se tratou de um problema de falta de respeito, nem do jogador para com a equipa técnica, nem da equipa técnica para com o jogador. Tratou-se, sim, de um conflito acerca de um ideal de liderança. Ao chegar a Inglaterra, disse Mourinho que os jogadores ingleses, por oposição aos latinos, que precisam de acreditar na competência do líder, são obedientes por natureza e aceitam a liderança com base numa relação hierárquica estipulada a priori. Significa isto que há, pelo menos, dois tipos de liderança bem distintos: uma liderança de tipo militar, com superiores hierárquicos e subordinados de quem se exige obediência absoluta e cumprimento de ordens, e uma liderança menos conservadora, cooperante, assente na ideia de que os liderados têm um papel a desempenhar na liderança. Conta ainda Mourinho que, desde cedo, percebeu que o fosso que se criava entre treinador e jogadores não era benéfico, que ao contrário de Van Gaal, que não se relacionava com os jogadores senão enquanto general das tropas, ele ia na parte de trás do autocarro com os jogadores, confraternizava com eles, partilhava problemas, etc.

É fácil de perceber que estou a distinguir o tipo de liderança de Paulo Bento do de Mourinho, e que considero que Paulo Bento lidera muito mais à Van Gaal. Para Mourinho, nada excede ou está acima do grupo, e nada importa mais que o grupo. Paulo Bento, pelo contrário, lidera pela força, pela exigência incondicional, pela imposição de regras. Mesmo que as regras, como o próprio já o disse, não sejam impostas ditatorialmente, mas confiando e responsabilizando. Garantiu Paulo Bento que não entra nos quartos dos jogadores, para ver se estão deitados às horas certas, que não controla o que comem, etc. Mas isso não faz dele um líder menos autoritário. Não são as regras que dita, mas a posição de superioridade em que se coloca que fazem dele o tipo de líder que é. Quero com isto dizer que o tipo de liderança de Paulo Bento sempre me pareceu deste género: tem pulso forte, exige acima de tudo respeito e profissionalismo, é contra vedetismos, etc. Não que isto seja mau por si, mas há jogadores que têm feitios que não são compatíveis com isto. E, muito sinceramente, acho que este tipo de liderança deixou de ser a mais adequada. O jogador de futebol não é hoje o que era há duas ou três décadas, tem uma exposição mediática, um orgulho e uma vaidade que não tinha antes. E, sobretudo, tem opiniões próprias, está muito mais informado, percebe muito melhor intenções e competências técnicas. Perante este cenário, o único tipo de liderança que, a meu ver, faz sentido, nos dias que correm, é uma liderança que se exerça pela competência. Os jogadores precisam de sentir que aquele que conduz o leme tem competência para o fazer, que não faz as coisas porque lhe apetece, porque tem autoridade para as fazer, porque tem "feelings", mas que dá satisfações, justifica decisões, pede conselhos, que exige dos jogadores que compreendam as suas opções, os seus exercícios, as suas estratégias; os jogadores precisam, actualmente, de um treinador que mantenha com eles uma relação horizontal, que se coloque ao nível deles e assuma que os próprios jogadores, porque são eles que têm de interpretar no campo o que lhes vai ser pedido, podem ter opiniões melhores, podem sentir coisas que o façam mudar de estratégia, etc.

Paulo Bento não é nada disto. Acha, porque era assim que as coisas funcionavam há uns anos, porque foi assim que foi educado enquanto jogador, que um treinador não tem que dar satisfações, que um treinador está numa posição hierárquica superior, que a relação entre jogadores e treinador é uma relação vertical. Creio que esse tipo de liderança pode ter efeitos positivos sobretudo em jogadores humildes, em jogadores a quem lhes interesse ver um líder forte, um líder inabalável, um líder em quem possam sentir fé. Não creio, porém, que tenha o mesmo efeito em jogadores mais inteligentes, em jogadores menos conservadores, em jogadores com opiniões mais bem formadas e personalidades mais fortes, em jogadores que creiam mais na competência do que na fé. Neste tipo de jogadores, mais irreverentes por natureza, não creio que o tipo de liderança que Paulo Bento preconiza funcione bem. Não foi por acaso que se incompatibilizou com quem se incompatibilizou no passado, precisamente os jogadores do Sporting menos capazes de aceitar a sua liderança incondicional: Beto, não por irreverência, mas por ser o capitão e estar acostumado a certas regalias, mas essencialmente Carlos Martins e Vukcevic, jogadores mais irreverentes, com feitios especiais, que precisam de estímulos de outro tipo. Paulo Bento "premiou" frequentemente excelentes exibições de Vukcevic sentando-o no banco no jogo seguinte. Não querendo discutir opções técnicas (e terá sido por uma questão de opção técnica), isso só pode funcionar com alguém que aceita servilmente as ordens de um superior. Com jogadores de personalidades tão vincadas, é natural que não desse bom resultado. E é aqui que é importante chegar: nem sempre a opção técnica deve ser o primeiro critério de um treinador. Quando a opção técnica põe em causa a integridade do grupo e a confiança no líder, então talvez não seja a melhor opção técnica. Nesta situação concreta, Paulo Bento teria de "mostrar" ao jogador que tinha gostado do que ele tinha feito pondo-o a jogar. Compare-se com o exemplo de Benzema, no Real Madrid. Mourinho teve de recorrer ao francês na segunda metade da época passada, por força da lesão de Higuaín. O francês demorou a justificar a aposta, mas acabou por ser importante para a equipa, sobretudo na fase final da temporada. Este ano, voltou a começar bem a época. Mourinho não pode, simplesmente, tirá-lo sem mais nem menos da equipa, apesar de Higuaín, no passado, lhe ter dado garantias de um rendimento superior. Estaria a minar a confiança que o jogador deposita em si, e até a confiança do grupo.

Quando Paulo Bento fala em responsabilidade, esquece-se que a responsabilidade não é unilateral, que têm tantas resposabilidades os jogadores como os treinadores. O seu tipo de liderança é mais autoritário do que imagina precisamente porque "exige" responsabilidade incondicional, ou exige-a a troco de uma alegada "confiança" no atleta. O problema é este, é não perceber que os atletas se estão borrifando para a gratuidade da "confiança". Aquilo por que deveria trocar a responsabilidade deles não era pela liberdade que lhes concede, mas sim pela sua própria responsabilidade. Para exigir que os jogadores lhe devam responsabilidade, precisaria de lhes demonstrar que ele próprio é responsável. E isso faz-se com pequenas coisas, todas elas intimamente relacionadas com competências de treinador: reconhecendo de que modo pode estimular cada atleta, percebendo particularidades de feitios, tratando cada jogador de forma diferente, consoante a sua personalidade, conversando, justificando as suas decisões, pedindo opiniões, dando satisfações, aproximando-se dos jogadores, entrando na sua intimidade, falando acerca dos seus problemas, etc. Com Ricardo Carvalho, por exemplo, talvez tivesse bastado conversar, talvez tivesse bastado informá-lo previamente acerca das intenções da equipa técnica, talvez tivesse bastado explicar-lhe quais as razões técnicas pelas quais se achava melhor jogarem Pepe e Bruno Alves. Negligenciou-se a personalidade individual de um atleta e deu no que deu. E não foi por acaso que aconteceu com Ricardo Carvalho: tratava-se de um jogador inteligentíssimo, com uma personalidade muito forte, e certamente com opiniões muito claras acerca do jogo; tratava-se de um jogador habituadíssimo (cresceu assim) à liderança de Mourinho, que é o completo oposto da de Paulo Bento. Eu não advinharia isto, mas agora que aconteceu, parece-me absolutamente natural que tenha acontecido. Há um conflito evidente de gerações, e um conflito acerca de ideias de liderança. A falta de respeito de que Ricardo Carvalho se disse vítima não foi originada por não ser opção para o Chipre; foi por essa decisão ter sido tomada arbitrariamente, sem que se lhe dessem satisfações, e principalmente por perceber que o treinador acha, por princípio, que os jogadores têm de respeitar as suas decisões e não merecem saber as razões dessas decisões. Mais do que uma questão de falta de respeito (quer do treinador para com o jogador, quer do jogador para com o treinador) creio que este episódio foi resultado de uma incompatibilidade acerca de um ideal de liderança.

Muito resumidamente, usar o patriotismo e o respeitinho para argumentar que Ricardo Carvalho se comportou indevidamente é um equívoco. E a mim irrita-me que a opinião pública seja tão favorável, neste caso, mas também na grande maioria destes casos, ao treinador e não ao jogador. Sempre que há episódios de insubordinação, o réu é invariavelmente o jogador. Eu, que nunca fui treinador, mas que tenho uma experiência, enquanto jogador, suficientemente consolidada, fico normalmente do lado dos jogadores, neste tipo de casos. E isso não por me conseguir colocar no papel de uns e não de outros, mas porque percebo a frustração que existe em de ter de reconhecer liderança a alguém só porque sim. De um treinador um jogador inteligente espera competência, ideias, e muita responsabilidade. Se, em vez disso, percebe autoritarismo, caprichos e obsolescência, é natural e absolutamente legítimo que lhe perca o respeito. Este caso explica-se muito mais por estas coisas do que propriamente por um acto irreflectido e por uma atitude injustificável.

P.S. Para a opinião pública que, apressadamente, se colocou do lado de Paulo Bento, tenho uma pergunta que talvez incomode: e se, em vez de Ricardo Carvalho, a coisa tivesse sucedido com Cristiano Ronaldo? Eu sei que a probabilidade de o Ronaldo ir para o banco é menor, mas imaginem a possibilidade. Imagine-se que passava pela cabeça de Paulo Bento deixar Ronaldo no banco porque achava que era melhor opção ele não jogar, e imagine-se que Ronaldo, não gostando da ideia, até porque o treinador não a justificara, decidia abandonar o estágio. Muito sinceramente, gostava de ver se, nessa altura, vinham com patriotismos e respeitinhos. Aliás, actos de insubordinação de Ronaldo foram coisas que não faltaram na era de Queiroz. E não me lembro de alguém se colocar do lado de Queiroz nessa altura.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Abidal, Fabregas, a Vaidade e o 343 Losango de Guardiola

Queria começar por dizer que este texto é uma fusão de dois outros, um sobre a vaidade de um jogador de futebol, outro sobre o sistema táctico testado por Guardiola no primeiro jogo do campeonato. Tendo em comum o serem sobre o Barcelona, aproveito para falar das duas coisas ao mesmo tempo. Começando pela questão da vaidade, creio que haveria bastante a dizer nesse sentido. Vou tentar ser o mais resumido possível. Para muitos, sobretudo para aqueles que têm predilecção por ideais católicos, a ideia de um jogador vaidoso é pouco agradável. A vaidade é, para a grande maioria destas pessoas, sinónimo de egocentrismo, de falta de humildade e de incapacidade de sacrifício. Não concordo com isto, embora ache que há certos tipos de vaidade que signifiquem exactamente isso. Para mim, a vaidade é das coisas mais importantes num futebolista, para não dizer em qualquer pessoa que tenha ambições de qualquer tipo. Não obstante, há jogadores que usam a vaidade como um fim em si mesmo, e nestes, de facto, o atributo não é minimamente saudável: um caso flagrante será o de Mario Balotelli.

Não é destes, porém, que pretendo falar. Podia falar do caso de Diogo Rosado, jovem jogador emprestado pelo Sporting ao Feirense, que ainda há pouco mais de uma semana deu um recital na Luz, mas creio que, também nisto, é em Barcelona que os exemplos melhor frutificam. Compare-se o futebol de Eric Abidal há dois anos com o seu futebol actual. Tirando as parecenças morfológicas, eu diria imediatamente que se trata de outro jogador. A "lavagem cerebral" a que foi sujeito modificou-o radicalmente. E estamos a falar de um jogador na fase final da sua carreira profissional, um jogador que acumulou hábitos e vícios ao longo de todo o seu percurso. Abidal era um lateral certinho, forte do ponto de vista atlético e muito concentrado. Subia pela certa, arriscava pouco, e garantia à equipa solidez. Nos primeiros dois anos de Guardiola, não se modificou significativamente, e cheguei a sugerir que Maxwell era melhor opção que o francês, sobretudo pelo jogo interior que possibilitava. No final da segunda época e, sobretudo, no início da terceira, Maxwell "ganhou" o lugar de lateral esquerdo, e Abidal passou a ser mais utilizado como central do que como lateral. Penso que essas duas coisas terão influenciado decisivamente a mente de Abidal. Primeiro, terá percebido por que razão um jogador francamente mais débil do ponto de vista físico e menos sólido defensivamente lhe tinha roubado o lugar; depois, forçado a jogar numa posição que não era a sua, obrigado a pensar de uma maneira diferente, uma vez que o Barcelona força a saída pelos seus centrais e exige que estes entreguem sempre jogável, Abidal terá começado a modificar os seus hábitos e as suas crenças. Sensivelmente a meio da época passada, e ainda a central, Abidal revolucionou-se. E, de lá para cá, tem sido sempre a melhorar. Agora, joga com uma classe que não tinha, tanto a central como a lateral, deixou de esticar o jogo no extremo ou de devolver ao central; agora, fica com ela, vem para dentro, joga no meio, provoca o adversário que o vem pressionar, arrisca dentro da área, faz "cabritos" no meio de uma multidão. Num ano, motivado pelas circunstâncias que referi acima, Abidal compreendeu que lhe faltava, para poder servir esta equipa ao máximo, adquirir uma vaidade que nunca tivera. E hoje é, de longe, o melhor lateral esquerdo do plantel (para não ir mais longe), porque percebeu que este modelo de jogo exige de cada uma das suas unidades um certo envaidecimento.

Outro bom exemplo é o de Cesc Fabregas. Quem via Fabregas a jogar o ano passado, e sobretudo se se tivesse deliciado com o seu futebol no passado, percebia nele uma tristeza qualquer. A sua enorme qualidade continuava lá, mas havia qualquer coisa em Fabregas que se atrofiara. A meu ver, o espanhol foi melhorando progressivamente o seu futebol precisamente até à época transacta. É verdade que foi fustigado por algumas lesões, e que a época não lhe correu da melhor maneira, mas a sua evolução estagnou, a meu ver, por outras razões. É sabido que Fabregas ambicionava voltar à Catalunha no início da época passada, e que ter permanecido em Londres não o terá deixado satisfeito. Mas o que perdeu, penso, foi uma certa alegria em jogar. E perdeu-a porque percebeu que o seu futebol só poderia evoluir verdadeiramente no ambiente que o Barcelona de Guardiola propiciava. O que desapareceu, na época anterior, foi a sua vaidade de jogar, a vaidade de ser cada vez melhor. E desapareceu, em meu entender, porque percebia que, para se tornar cada vez melhor, para poder potenciar ao máximo as suas qualidades, teria de mudar de ares. Ainda que o Arsenal seja das equipas que mais privilegia o tipo de futebol de que gosta, era na Catalunha que iria encontrar dez almas-gémeas, dez colegas dentro de campo que compreendem tudo o que faz. Sem a vaidade. que só jogando num modelo como o do Barcelona, poderia voltar a ter, Fabregas acomodou-se, e, não fosse a mudança para Espanha esta época, acredito que pararia de evoluir. Na Catalunha, ainda é cedo para perceber até onde pode chegar. Mas é certo que está no local mais propício para continuar a sua afirmação enquanto jogador.

Sobre vaidade, é tudo. Ou quase tudo. Podia acrescentar, fazendo a ponte do tema anterior para o que se segue, que só com onze jogadores a quem foi incutido um certo tipo de vaidade era possível uma equipa jogar, com sucesso, num esquema táctico tão arrojado como o 343 losango. À demonstração de força do Real Madrid no sábado, com uma vitória categórica por 6-0 no terreno do Saragoça (e foram 6, mas podiam ter sido 10), uma demonstração de força que, apesar de tudo, carece de consolidação, uma vez que o adversário facilitou em demasia o trabalho dos merengues, respondeu o Barcelona com uma das maiores lições tácticas dos últimos 20 anos. Pela frente, não tinha um adversário desorganizado, que defendia apenas com cinco jogadores, que não formava uma linha defensiva, que não tinha preocupações com coberturas, que não juntava os sectores, como o teve o Real Madrid no dia anterior. Tinha, sim, o quarto classificado do ano passado, uma equipa muito bem organizada, com excelentes princípios de jogo, com os sectores bem juntos, colectivamente forte. E o que fez Guardiola? Aproveitou as ausências forçadas de alguns titulares do sector defensivo para testar o seu 343, com que jogará certamente muitas vezes esta época. Os resultados do teste, adiante-se, não poderiam ter sido melhores.

O sistema não é um 343 vulgar, ou seja, um 343 em linha, nem o 343 utilizado por Marcelo Bielsa na selecção chilena, que, embora em losango, utilizava alas. É um 343 losango à Cruyff, no Barcelona, e à Van Gaal, no Ajax, um sistema que caiu em desuso nos últimos 15 anos, principalmente, a meu ver, pelos excessivos riscos de uma linha de 3 defesas, e pela natural evolução táctica do jogo. Hoje em dia, com a evolução que o jogo teve, só uma equipa muito competente a pressionar pode dar-se ao luxo de jogar neste esquema sem correr sistematicamente o risco de ver os avançados adversários enfrentar os seus 3 defesas. Por essa razão, desapareceram praticamente os sistemas tácticos com 3 defesas. Mas, se há equipa em que isso parece poder ser uma realidade, essa equipa é o Barcelona. Mas quais são as vantagens deste sistema táctico, em relação ao habitual 433, ou 442 losango? A meu ver, são vários. Não falando da saída de bola, aquando do pontapé de baliza, que passa a ter pontos de referência diferentes, creio que é a nível de pressing e a nível de formação de apoios em zonas mais ofensivas que se encontram as principais vantagens. Neste esquema, a pressão é mais alta, feita com mais homens na zona da bola, e é mais eficaz a constranger toda e qualquer circulação baixa. Contra equipas que preferem sair a jogar, que gostam de trabalhar o jogo, como o Villareal, penso que os resultados só podem ser positivos, como foram. Falta testar contra equipas que joguem mais directo, contra adversários que não tenham a preocupação de construir desde trás. Mas mesmo aí, penso, a profundidade não fica mais desguarnecida por se jogar com uma linha defensiva de três jogadores e não com uma linha de quatro, desde que a equipa recupere toda em bloco. Além disso, e porque as coisas estão ligadas, ao jogar assim o Barcelona "arrasta" sistematicamente mais adversários para zonas recuadas, tornando menos eficaz a resposta destes quando recuperam a bola. No que diz respeito aos apoios, em situação ofensiva (e aqui parece-me, de facto, a grande virtude do sistema), o Barcelona passa a jogar não só com um jogador a entrar nos espaços entre linhas, como até aqui, mas com dois. Formando um losango no meio-campo, ganha uma estrutura de apoios de maior densidade, e torna ainda mais fácil o futebol de toque curto da equipa, em organização ofensiva, e a tendência para fazer da bola um engodo. Contra o Villareal, foi assustador o modo como a equipa encostou literalmente o adversário à sua área, mesmo tendo este o desígnio de não fazer descer a linha defensiva abaixo de um determinado ponto. O Barcelona só jogou 60 minutos (a partir daí descansou com bola), acumulou uns impressionantes 71% de posse de bola contra a melhor equipa espanhola, a seguir aos catalães, a trabalhar a bola, venceu por 5-0, mas, mais do que isso, empurrou ostensivamente uma das equipas mais bem preparadas em termos tácticos para onde bem lhe apeteceu. O domínio foi, por isso mesmo, avassalador. Mais até do que esta equipa já nos tinha habituado. É uma demonstração inequívoca de força, sim, mas, mais do que isso, é mais uma lição táctica, mais uns quantos preconceitos quebrados, mais uma manifestação de como há ainda caminhos por desbravar, em termos conceptuais, no que diz respeito ao jogo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Oportunidades de Golo

É vulgar que o principal critério usado para justificar o mérito de um resultado sejam as oportunidades de golo criadas por uma equipa, quando cruzadas com as oportunidades de golo criadas pelo adversário. E é comum que se defenda que a equipa que mais justifica a vitória seja a que mais oportunidades de golo consegue criar. Embora concordando que as oportunidades de golo criadas por uma equipa digam algo acerca da sua produção ofensiva, e que as oportunidades de golo concedidas ao adversário digam algo acerca da sua produção defensiva, discordo deste critério. Para além do problema óbvio do critério utilizado para avaliar aquilo em que consiste uma oportunidade de golo, parecendo difícil, em muitas situações, dizer se um determinado lance constitui ou não uma oportunidade, a minha discordância diz respeito sobretudo à quantificação da coisa. O que quero dizer é que as oportunidades de golo não sao todas iguais, que há diversos factores que devem ser pesados, e que me parece perfeitamente defensável que uma equipa que crie uma oportunidade de golo mereça mais a vitória do que outra que consiga criar dez. Deste ponto de vista, o critério que estou a defender é um que substitua a análise quantitativa das oportunidades de golos criadas pelas duas equipas por uma análise qualitativa.

Não é isto, como é fácil de perceber, uma conversa sobre vitórias morais. O argumento consiste essencialmente em defender que há equipas que, por mais perto que andem da baliza adversária, por mais que rematem, por mais que metam a bola na área, não fazem o suficiente para criar verdadeiras oportunidades de golo. Cruzamentos para área, a pedir uma resposta de cabeça, sobretudo quando a densidade populacional na área é grande e sobretudo quando o adversário está de frente para a bola e organizado, raramente são oportunidades de golo claríssimas. Mesmo originando confusão, mesmo causando calafrios, mesmo que um avançado consiga cabecear e levar a bola a passar perto da baliza, mesmo que o guarda-redes a defenda. A menos que o avançado cabeceie em condições favoráveis, com espaço e tempo para escolher o sítio para onde quer enviar a bola, dificilmente concordaria que um desvio de primeira, no meio da confusão, equivalha a uma oportunidade de golo clara. Há equipas que conseguem ter um caudal ofensivo grande, que conseguem passar grande parte do desafio no meio-campo adversário, mas que têm pouca imaginação nas imediações da área e as oportunidades que criam são invariavelmente deste tipo, que dependem mais de um desvio feliz do que do talento finalizador, da frieza, da qualidade do avançado. Quando se diz, portanto, que uma equipa conseguiu criar lances suficientes para vencer um jogo, é preciso primeiro ver que tipo de lances foram esses, de que condições aquele que finaliza dispôs para finalizar, quais as probabilidades de êxito de cada acção, etc..

A meu ver, uma equipa que não seja capaz de deixar aquele que finaliza numa posição frontal para a finalização, com espaço e tempo para poder decidir minimamente para que lado quer enviar a bola, seja através de um passe de ruptura pelo corredor central, com o avançado a desmarcar-se nas costas da defesa, seja através de um cruzamento recuado, junto à linha de fundo, seja através de uma tabela, seja através de um cruzamento para a zona entre o guarda-redes e a defesa, uma equipa que não seja capaz de criar situações de golo deste tipo, que todos os lances de perigo que cria são provenientes de lances de bola parada, de cruzamentos a pedir um desvio no meio da confusão, de remates de meia-distância, de ressaltos, uma equipa que, no fundo, não seja competente a propiciar situações de finalização favoráveis, pode criar dezenas de oportunidades, mas as probabilidades de ser bem sucedida manter-se-ão reduzidas. Fala-se excessivamente de problemas de eficácia, quando uma equipa não marca golos, mas domina os jogos e até consegue fazer com que a bola ronde a baliza adversária. Cada vez mais discordo do tema da conversa. O problema dessas equipas não está na eficácia, não está nos golos que podia marcar mas que não marca; o problema está antes, está no tipo de oportunidades que cria. Quando se diz, por isso, que uma equipa tem tido azar, que os postes ou os guarda-redes adversários têm estado insuperáveis, que os seus finalizadores não andam inspirados, que bastava que uma bola entrasse para que tudo fosse diferente, talvez fosse melhor analisar bem o tipo de oportunidades que se têm criado. É que o problema, na maior parte das vezes, não está na falta de eficácia, mas na falta de imaginação em tudo o que antecede o momento em que é preciso ser eficaz. Se se souberem criar situações mais favoráveis, verdadeiras situações, diria até, depender-se-á menos da eficácia. É evidente que estas equipas podem ganhar muitos jogos sem criar oportunidades de golo em melhores condições. Mas dependerão mais daquilo que não podem controlar, da sorte de um desvio instintivo do avançado não ir direito ao guarda-redes, por exemplo. O que estou a afirmar é que não é o volume do jogo, a capacidade para fazer a bola rondar a baliza adversária, a criação de quaisquer situações de perigo, que reduz a dependência de uma equipa da sua eficácia ofensiva; é, isso sim, a capacidade de criar "certas" oportunidades de golo. E o vocábulo "certas" é aqui - perdoem-me a redundância - o mais acertado: pode ter não só a função de pronome indefinido, significando "determinadas", como de adjectivo, significando "verdadeiras". Na minha opinião, portanto, o melhor remédio para os problemas de eficácia de uma equipa raramente é a substituição de um finalizador por outro ou raramente consiste em qualquer afinação do momento de finalização. Pelo contrário, problemas de eficácia resolvem-se criando condições para que não se dependa tanto de momentos de finalização pouco favoráveis. A menos que se trate de um caso de aselhice colectiva - e tal pode eventualmente acontecer - nenhuma equipa perde sistematicamente pontos por falta de eficácia no momento de atirar à baliza. Jogue-se bem e criem-se oportunidades de golo a sério, que os problemas resolver-se-ão por si mesmos.

Para terminar, o texto tem uma aplicação universal e abstracta, mas há dois bons exemplos recentes com que posso ilustrar o que estou a dizer. O início de época do Sporting trouxe ao de cima, para muita gente, determinados problemas de finalização da equipa. A fraca produção de golos - dizem - sobretudo com tanto volume de jogo ofensivo, só tem justificação pela falta de pontaria dos avançados. Discordo inteiramente disto. O problema do início de época do Sporting, a meu ver, está muito mais relacionado com o que antecede esse momento de finalização. Quantos lances conseguiu o Sporting produzir em que aquele que finaliza o faz em posição frontal, com espaço para escolher o lado para onde enviar a bola? Quantas vezes se isolaram os avançados do Sporting? Quantos cruzamentos rasteiros, a pedir um gesto técnico mais simples que o cabeceamento? Quantas verdadeiras oportunidades de golo teve o Sporting até agora? Domingos, a maior parte dos comentadores futebolísticos e alguns feiticeiros garantem que a equipa tem produzido inúmeras oportunidades evidentes de golo. Eu conto pouquíssimas. Nos dois jogos do campeonato, então, conto apenas duas, uma que deu golo de Postiga, contra o Olhanense, mas que foi anulado, outra em que o defensor do Beira-Mar cortou o remate de Capel em cima da linha de golo. O resto são respostas a cruzamentos ou remates à entrada da área, a maior parte das quais em condições francamente deficientes. O segundo exemplo é o jogo de ontem da Supertaça Europeia. Foi sugerido que o Porto merecia vencer, pois criou mais oportunidades que os catalães. Mesmo em número de ocasiões, duvido que isto seja muito exacto. Mas o que me impressiona é a ausência de espírito crítico da análise. Sejamos honestos: o Porto não criou uma única ocasião de golo flagrante. Fez alguns remates de longe, um ou dois mais promissores, teve um cruzamento em que Valdez falhou o tempo de saída da baliza e Mascherano cortou de cabeça, e pouco mais. O Barcelona, sem ter feito um grande jogo, teve 5 ou 6 oportunidades bem mais significativas, e é inquestionável que tenha merecido vencer o troféu. Nada disto tira mérito ao que o Porto fez, principalmente em termos defensivos. Defensivamente, o comportamento da equipa foi exemplar: controlou a posse catalã recorrendo a uma estratégia de pressão muito bem planeada, manteve os sectores juntos, a resposta colectiva aos momentos de pressão foi incrivelmente boa, e conseguiu mesmo provocar erros na construção do adversário que poderiam ter ocasionado lances de perigo a seu favor. Infelizmente, sobretudo em ataque organizado, a equipa voltou a denotar uma esterilidade preocupante, e foi absolutamente inconsequente. Fica, apesar de tudo, o exemplo a seguir da estratégia sem bola.

sábado, 20 de agosto de 2011

Contra Argumentos Não Há Factos

"Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica."

Fernando Pessoa, "Crónicas da Vida que Passa",
publicado in O Jornal, a 18 de Abril de 1915.

Vem isto a propósito de mais um esplendoroso exercício de reflexão estatística executado pelo Filipe Vieira de Sá. Pretende o Filipe, de calculadora em punho, demonstrar que o Postiga não presta para nada, e que o Sporting é menos eficaz com ele em campo. E com que critérios pretende ele justificar tal ideia? Um só: a diferença entre os golos marcados pelo Sporting com ele em campo e os golos marcados sem ele. Um só critério! Isto vindo de quem se diz mestre da estatística? É preciso alguma boa-vontade para não rirmos de tal infantilidade. Mas já lá vamos. Conclui assim o Filipe a sua análise: "Apresento apenas os dados, que são factuais, e espero que eles possam contribuir para alguma coisa. Porque deviam." Os dados (que são factuais, como tão bem enfatiza o Filipe) mostram que o Sporting marca mais golos quando o Postiga não joga. E como são factuais - como o Filipe faz questão de frisar - não se pode duvidar de que contenham qualquer verdade. Se os dados são factuais - como o Filipe diz que são - pode-se concluir 1) que o Sporting marca de facto menos golos com o Postiga em campo, 2) que, por marcar menos golos com ele em campo, é menos forte com ele em campo, 3) que, por marcar menos golos com ele em campo, joga pior com ele em campo, e 4) que, por o Sporting marcar menos golos com o Postiga em campo, o Postiga não presta para nada e deveria ser substituído. É esta a linha de raciocínio do Filipe, que não pode estar errada porque se baseia na factualidade - como tão bem nos fez saber.

Comecemos pela citação de Fernando Pessoa. Baseia-se a teoria do Filipe, assim como todas as suas ideias recentes, na premissa de que, "contra factos não há argumentos", ou seja, de que os factos, tais quais se deram, são auto-explicativos e prevalecem sobre qualquer argumentação. Ora, como diz Pessoa, não é assim que o mundo funciona: é precisamente contra factos que há argumentos. Os matemáticos (e os patetas também) levarão as mãos aos cabelos, com tal afirmação. Isto porque vêem o mundo através do papel quadriculado em que fazem contas, e acham que o mundo é universalmente explicado pela matemática. Estão enganados. Os factos, propriamente, não são nada. Não existem factos, se quiserem. O principal erro dos matemáticos é pensar o contrário, é pensar que existe uma coisa empírica que se dá, a que chamam facto, e que a interpretação desse facto acontece posteriormente. Todo o facto é já uma interpretação. E interpretar o mundo matematicamente é só uma maneira de interpretá-lo, não a maneira mais eficaz. Como diz Pessoa, "os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos". O que permite a Pessoa dizê-lo é o critério de verdade utilizado em cada uma destas duas coisas: no caso dos argumentos, o critério de verdade é a lógica; no caso dos factos o critério será outra coisa qualquer, provavelmente a matemática. É por isso que apresentar factos e pressupor a impossibilidade de refutação do que quer que esses factos permitam concluir é uma falácia. Mais uma, de tantas que o Filipe comete. Os factos não têm lógica, e querer concluir o que quer que seja com base numa coisa que não tem lógica parece-me um salto de fé muitíssimo arriscado. Diz o Filipe, noutro texto, o seguinte: "Entendo a avaliação que faço como extremamente sólida por ser baseada em factos de longo prazo". E melhor frase não poderíamos encontrar. A razão pela qual acha o Filipe que as suas avaliações são sólidas é o serem baseadas em factos. Como se viu acima, todas as suas avaliações se baseiam então em coisas ilógicas, coisas que carecem de interpretação e que, por si, não têm conteúdo cognitivo nenhum. Por conseguinte, nenhuma das suas avaliações é sólida, como acredita. Falta-lhe a lógica que só a capacidade argumentativa - coisa que aboliu do seu raciocínio - poderia dar. Sem ela - coitado - é um matemático frustrado a mostrar que sabe fazer contas de dividir.

Passemos agora para aquilo que, concretamente, quer o Filipe demonstrar com este exercício em particular, e preocupemo-nos com o método utilizado, pois é no método que estão todos os equívocos que determinam a natureza equivocada das conclusões. A conclusão final, a de que o Postiga não presta para nada e deve ser substituído para que o Sporting fique mais forte, baseia-se em, pelo menos, dois dogmas: 1) que a quantidade de golos que uma equipa marca é directamente proporcional à sua força global; 2) que há necessariamente uma relação de natureza causal entre a acção de um jogador e o rendimento de uma equipa. Penso que o primeiro dogma não coloca grandes problemas (o próprio Filipe não acreditará nisso, e só terá fechados os olhos a esta objecção evidente por lhe dar jeito para as conclusões que queria tirar), e não vou falar dele. Quanto ao segundo, há coisas a dizer. A grande maioria das opiniões sobre futebol consiste em afirmar que se devia trocar o jogador A pelo jogador B, pois este oferece maior rendimento. Isto não faz sentido de muitas maneiras, mas não faz sentido essencialmente porque não há uma relação causal entre o rendimento individual de um jogador e o rendimento da equipa em que actua. O rendimento de uma equipa não pode ser medido pela soma dos rendimentos individuais, e é perfeitamente possível que, ao substituir um jogador A, com um rendimento individual fraco, um jogador B, que consiga um rendimento individual óptimo, faça com que o rendimento colectivo decresça. Permitam-me o seguinte exemplo: o rendimento individual do Ronaldo, em Madrid, é brilhante. E o rendimento colectivo do Real é maior com ele em campo. Mas transfira-se o Ronaldo para Barcelona e o seu rendimento individual chocará necessariamente com os interesses colectivos. Em Barcelona, imaginando que lhe dariam a liberdade para fazer o que faz em Madrid, Ronaldo manteria um rendimento individual altíssimo, contribuiria até individualmente para parte do rendimento do Barcelona, mas prejudicaria, no limite, o rendimento da equipa, porque lhe modificaria certas particularidades. A optimização do rendimento colectivo não depende da optimização do rendimento individual de cada uma das unidades que compõem o colectivo, mas sim da adequação do que cada uma dessas unidades faz aos interesses colectivos. É isto, essencialmente, que continua a não entrar nas cabeças das pessoas que acham que falam "colectivamente" de futebol.

Transpondo para o caso concreto do Postiga, o equívoco do Filipe está em presumir que um jogador transforma a sua qualidade individual em rendimento colectivo qualquer que seja o ambiente. Se o Postiga tem características complemente incompatíveis com as coisas que o colectivo privilegia, é natural que o rendimento do colectivo seja superior quando, em vez do Postiga, jogar alguém que se enquadra melhor naquilo que o colectivo faz. Isso não significa que esse seja melhor jogador, nem significa, sequer, que seja melhor para o colectivo cujo rendimento ajuda a melhorar. O Postiga pode fazer tudo bem feito, pode fazer coisas complicadíssimas, que poucos têm qualidade para fazer, mas, se a equipa não fizer uso dessas coisas, nada do rendimento colectivo será afectado por isso. Por exemplo, o Postiga ganha a bola no meio de dois adversários, tem um trabalho desgraçado a segurá-la, espera por colegas e entrega de frente no médio. Se o médio, a seguir, jogar longo a solicitar a entrada de um extremo e a jogada se perder, todo o trabalho do Postiga, bom ou mau, acabou por não contribuir para nada. Se calhar, nesse caso específico, em vez de ter alguém que fosse capaz de fazer o que Postiga fez, seria melhor ter um avançado que saltasse apenas à bola e que, sem se desgastar a protegê-la e a esperar pelos colegas, fosse imediatamente para a área. No caso de uma equipa que não priviligie o tipo de coisas em que o Postiga pode contribuir, não me faz confusão que o Postiga não seja o avançado que mais contribui para o rendimento colectivo. O problema, porém, é pensar que quem está mal é o Postiga. Se o Sporting pratica um futebol de equipa pequena, se não procura combinações curtas, se não faz um jogo de posse e circulação, se insiste em cruzar de longe para a área, se procura um futebol mais objectivo, é natural que um jogador de equipa grande, que é forte sobretudo a fornecer à equipa condições para jogar como uma equipa grande, não contribua significativamente para o rendimento dessa equipa. Mas - repito - o mal está na equipa, não no jogador. Resumindo, consiste o segundo dogma em presumir que, quando um jogador é bom, é bom em qualquer equipa, em qualquer modelo, com quaisquer tarefas, e que contribui necessariamente para o rendimento da equipa. Como é óbvio, não é assim que as coisas funcionam.

Depois de demonstrado o carácter dogmático da análise do Filipe (ele que tanto se diz contra os dogmatismos), vou agora enumerar os vários problemas metodológicos que se podem registar neste caso concreto. 1) Os 5 jogadores comparados são Cardozo, Lisandro, Liedson, Falcao e Postiga. Os primeiros 4 foram titulares indiscutíveis desde que chegaram a Portugal; Postiga, no Sporting, foi-o apenas na época passada. Os outros 4 jogaram quase sempre os 90 minutos; Postiga, mesmo quando titular, foi substituído bastantes vezes. Seria bem mais interessante e honesto fazer as continhas utilizando os minutos em que os jogadores estiveram em campo, e não os jogos em que foram utilizados. Apesar de tudo isto, o Filipe faz uso das três épocas em que Postiga esteve no Sporting. E ainda tem moral para dizer que as coisas que apresenta são factuais? É uma factualidade, no mínimo, muito duvidosa. Se calhar, mais de metade dos 68 jogos que o Filipe diz que o Postiga jogou jogou-os apenas parcialmente. 2) O segundo problema deriva do primeiro: pela inconsistência da utilização não se pode aferir nada. Nas primeiras duas épocas, Postiga era tão criticado e jogava tão pouco que, quando jogava, dificilmente podia render ao máximo. Mais uma vez, utilizar épocas em que o jogador, por factores extrínsecos à sua qualidade, não estava no seu melhor, comparando-o com 4 jogadores que nunca tiveram esse tipo de problemas, é no mínimo injusto. 3) Uma coisa que gostava que o Filipe fizesse com a sua calculadora especial era as mesmas continhas, mas em jogos da selecção. Será que Postiga, num ambiente diferente, num ambiente que, pelo menos com Paulo Bento, arriscaria dizer que lhe é mais favorável, continuava a ser um jogador que prejudicasse o rendimento da equipa? Tenho as minhas sérias dúvidas. 4) Nos resultados obtidos, o Filipe justifica o facto de o Porto render menos com Falcao do que sem ele com a pouca consistência dos 10 jogos em que ele não jogou. Eu entendo e aceito a justificação. Mas por que é que não se lembrou, de igual modo, o Filipe de justificar os resultados do Postiga com a pouca consistência dos jogos das duas primeiras épocas? Porque, uma vez mais, lhe dava jeito que não o fizesse. A inconsistência dos objectos de análise depende por isso da honestidade intelectual do Filipe, que é pouca.

Para terminar, e porque o texto já vai longo, queria voltar à ideia de Pessoa de que os factos não interessam para nada, e que são os argumentos que devem ser respeitados. Além de ter ficado evidente que o método usado pelo Filipe para o apuramento de factos carece de precisão, ficou também demonstrado - e bem demonstrado - que as suas conclusões dependem de premissas que o próprio não justifica. Os argumentos, ao contrário dos factos, ajudam a perceber como é que as coisas se passam e por que é que se atingem determinadas conclusões. Por ignorar os argumentos, e só dar atenção a factos, não percebeu o Filipe a natureza ilógica daquilo que estava a fazer. Sem a lógica dos argumentos, o seu raciocínio ilógico invariavelmente o conduz para conclusões precipitadas. Neste caso, o principal erro esteve em presumir que o rendimento colectivo ajuda a perceber rendimentos individuais. Noutros casos, erros parecidos ocorrerão.

Sobre a forma como o Filipe conduz discussões, tenho também algumas coisas a dizer. Ao contrário do Filipe, que prefere as bicadas subtis, sem outra justificação que não a tentativa de ridicularização, a minha intenção não é contestar a proposta dele através da troça, mas através da discussão. Ao contrário do Filipe, a quem interessa apenas a sua perspectiva, valorizo acima de tudo a troca de ideias. É por isso que, ao contrário do Filipe, cito as ideias dele, rebatendo-as com as minhas; é por isso também que nunca fugi a uma discussão, nem recusei comentários. Consiste o método de discussão do Filipe em apresentar contas de matemática para mostrar como tudo o que não tenha matemática é falso. E ainda diz que não é um rapaz dogmático! Está certo. O meu método é diferente: consiste em mostrar, pela lógica, que certos argumentos fazem mais sentido que outros. Por outras palavras, os interesses do Filipe são religiosos: pretende vender uma certa fé, partindo, como parte qualquer religião, de determinados dogmas que carecem de prova. A minha posição é distinta. O único dogma é não haver dogmas. Os meus interesses, se não científicos, são intelectuais. Não defendo o que defendo porque sim; defendo-o por isto ou por aquilo, consoante o argumento. O Filipe defende o que defende porque os números - a suprema divindade da religião a que dá corpo - lhe dizem que tem de defendê-lo, mais ou menos como um cristão defende o Cristianismo porque um livro grosso contém a palavra divina e é sacrilégio duvidar dela. As matematiquices do Filipe fazem dele, portanto, um fundamentalista. Como todos os fundamentalistas, parece uma pessoa honesta e liberal, desde que não discordem da sua fé, fé essa que, no seu caso, é a matemática.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mourinho e a Pré-História

Como espectáculo, a Supertaça de Espanha foi emotiva e disputada; como jogo de futebol, foi uma partida de fraca qualidade, com muita precipitação, muito choque, uma equipa claramente abaixo das suas capacidades físicas e outra a roçar o absurdo, em alguns aspectos. Enfim, para muitos, terão sido mais dois grandes duelos. Para mim, foi a confirmação de que o Real de Mourinho dificilmente beliscará a hegemonia do Barcelona de Guardiola nos tempos mais próximos. É quase unânime que o Real esteja cada vez mais forte, e cada vez ameace mais o domínio blaugrana. Pessoalmente, acho isso um disparate. Acho que a estratégia é cada vez mais primitiva e depende cada vez mais ou da desinspiração do adversário, ou da leviandade da arbitragem, ou da sorte.

Já a época passada parecia notar-se a tendência para aquilo de que vou falar de seguida, mas estes dois jogos foram bem mais elucidativos a esse respeito. No mesmo dia, portanto, em que um treinador pré-histórico apurou uma selecção portuguesa para uma final de um campeonato do mundo, provando que o futebol é, de facto, o desporto dos pobres, Mourinho, provavelmente o treinador que mais revolucionou a profissão que exerce, e provavelmente o treinador que mais fez pela modernização dos treinadores portugueses, voltou à Pré-História. Não vi ainda ninguém referi-lo - o que me choca, de algum modo - mas a estratégia do Real Madrid, nos dois jogos, passou por uma marcação homem a homem (sim!, homem a homem) no campo todo. É verdade que não havia acompanhamentos ao longo de todo o campo, e que havia permutas de marcação quando um jogador entrava no espaço de um colega, mas a estratégia passou por haver um jogador madrileno em cima de um catalão, em qualquer zona do campo. Tem sido gabada a pressão alta que o Real Madrid impôs, mas não se tem percebido em que tem consistido. A pressão consiste em encostar, um a um, em cada um dos adversários. Isto não é pressão; é estupidez. E só pareceu dar alguns frutos porque os jogadores do Barcelona, em largos momentos da eliminatória, deram a impressão de ainda estarem de férias.

Este tipo de jaimepachequice tem uma virtude, se é que se pode chamar a isto virtude: potencia os confrontos individuais e, quando uma equipa é (ou está) fisicamente muito superior à outra, pode ter efeitos. De facto, se há altura da época em que o Real Madrid podia, com esta estratégia, vencer o Barcelona, era agora. É no início da época que a diferença de agressividade é mais relevante, pelo simples facto de os indíces físicos de uma equipa que assenta a sua ideia num jogo técnico, nesta altura da época, não lhes permitir explorar todo o seu potencial. Sem capacidade para fazer das suas armas uma mais-valia, perante a agressividade do adversário, o Barcelona concedeu assim mais perdas de bola do que é hábito. É coisa, porém, que não se repetirá no futuro, quando a equipa estiver melhor preparada do ponto de vista físico. O que estou a defender é que a estratégia do Real aparentou ser boa porque a altura da época assim o propiciou. Mas, mesmo tendo-o propiciado, não foi suficiente, o que por si só é até irónico.

Sempre que a pressão homem a homem que o Real exercia conseguia evitar que o Barcelona saísse a jogar, roubando a bola em zonas altas, o Real parecia conseguir ameaçar os catalães. Mas sempre que não o conseguia, sempre que os catalães, pondo o seu jogo de passe curto em acção, conseguiam sair da primeira zona de pressão, o que tinham a seguir era um amontoado de jogadores completamente desorganizados. Por norma, o Barcelona trabalha os seus ataques, lateraliza, especula, etc. Contra um Real Madrid completamente desorganizado, preocupado em marcar homem a homem, sempre que um jogador catalão se soltava, fruto da dinâmica colectiva, ou fruto de uma acção individual, ficava com uma auto-estrada à sua frente, bastando à equipa um ou dois passes para criar uma situação de perigo. Estando a equipa fisicamente no seu melhor, este tipo de coisas tenderá a acontecer mais vezes, e arriscaria a dizer que, entrando Mourinho com esta estratégia no próximo jogo, o mais provável é sair goleado outra vez. O lance mais paradigmático é aquele em que Messi, estorvado já por Pepe, finaliza descaído para a esquerda, com boa intervenção de Casillas. A forma como Messi fica com uma avenida à sua frente, no corredor central, com Pepe e Sergio Ramos, os últimos dois homens, abertos a toda a largura do campo, demonstra bem a falta de organização defensiva da equipa neste último jogo. Sempre que o Barcelona conseguiu soltar um jogador, o Real passou mal, pois teve de ajustar marcações e estava constantemente onde os jogadores do Barcelona queriam que estivesse. Se o resultado não foi mais desnivelado e se o Real pareceu sempre capaz de disputar o resultado, tal deveu-se - como já disse - ao facto de o Barcelona não estar ainda num momento em que consiga potenciar essas situações.

No melhor livro sobre futebol escrito em português, é Mourinho quem é o herói da coisa. Nuno Amieiro, defendendo um conceito de zona que considero absolutamente certeiro, exemplifica por norma com o Porto de Mourinho. Bem sei que as pessoas gostam da versatilidade de Mourinho, mas abdicar de um princípio que lhe foi tão caro desde sempre, e que lhe fez até a fama, é das coisas menos nobres, para não dizer estúpidas, que podia fazer. Percebo a necessidade de, a cada pontapé de baliza catalão, fazer cair um jogador em cada um dos centrais, e outro no médio-defensivo que entra no meio, de modo a evitar que o Barça comece a construir logo desde trás, mas fazer um acompanhamento directo a cada uma das individualidades catalãs, ao longo de todo o campo, não é nunca a melhor forma de tentar parar o Barça. Nem mesmo com a impunidade sobre a violência das entradas. É que basta uma distracção, ou que um catalão consiga desembaraçar-se individualmente do seu opositor, para que toda a estratégia deixe de ter sentido. Em termos defensivos, o Real foi tacticamente uma desgraça, pois os jogadores estavam posicionados onde havia jogadores catalães e não onde deveriam. Mas a verdade é que toda a gente gabou a forma como a equipa da capital conseguiu manietar o Barcelona. É por estas e por outras que afirmo que as pessoas não vêem os jogos; ouvem os barulhos e vêem cores e traços no ecrã que depois interpretam de modo aleatório.

Antes de terminar, um pormenor a que não se prestou atenção. Ao vir para a segunda parte, o Barcelona passou a bater os pontapés de baliza para a frente, abdicando de sair a jogar. Para quem diz que Guardiola não tem versatilidade, eis um exemplo de como estão errados. Apercebendo-se de que a capacidade ofensiva do Real dependia exclusivamente das bolas que conseguia roubar em zonas altas, e percebendo que a sua equipa não está numa fase da equipa em que consiga superar a agressividade dessa pressão, e que estava a ter dificuldades para ultrapassar essa primeira zona de pressão e começar a construir, Guardiola, em vantagem, ordenou que os pontapés de baliza fossem batidos para o meio-campo. Com isto, até pode ter permitido ao Real ganhar quase todas as primeiras bolas, e até pode ter facultado a bola ao adversário, mas preveniu-se contra o único modo de perder o desafio. É que, com bola, o Real nunca teve clarividência para superar a equipa catalã, estando esta organizada defensivamente. Na segunda parte, tirando lances de bola parada, o Real não foi ameaçador. E não o foi porque deixou de poder contar com o único meio pelo qual estava a sê-lo: a recuperação da bola em zonas altas, apanhando o adversário desorganizado. Para aqueles que consideram Guardiola demasiado agarrado aos seus ideais, ficou a boa resposta; do banco, percebeu onde estava a força do adversário, e abdicou de um dos princípios que lhe é mais caro para poder contrariá-la.

P.S. Que mais é preciso que Pepe faça para que alguém decida que está na hora de bani-lo do futebol? Se há cães que vão para abate por serem demasiado perigosos, por que razão não há matadouros para gente como ele? Estão à espera que parta os dentes a quem? Ao Messi? Sem exagero algum, nos últimos 6 duelos entre as duas equipas, Pepe fez o suficiente para ser expulso, no mínimo dos mínimos, 20 vezes. E o atrasado mental do Pedro Henriques, a comentar o jogo, ainda conseguiu ver, num lance em que o Pepe só olha para o Piqué, e voa direito a ele com o cotovelo armado, que o Busquets é que empurrou o Pepe na direcção do central catalão. Haja paciência para tanta imbecilidade!

domingo, 14 de agosto de 2011

O Futebol e a Falácia da Selecção Natural

Num recente artigo no Letra 1, espaço que me parece ter bastante qualidade e que aproveito para publicitar, argumenta Filipe Vieira de Sá, com base numa analogia que, apesar de interessante, carece de justificação, que o futebol, tal como o jogo da evolução das espécies, não converge para um ideal de perfeição. O que pretende, ao argumentá-lo, é defender a ideia de que, em futebol, não há uma fórmula que garanta o sucesso, e que esse sucesso depende, isso sim, da capacidade adaptativa da "espécie" ao "meio", sendo por isso natural que à "espécie dominante" de hoje se suceda amanhã outra "espécie dominante", melhor adaptada. Como é sabido, até porque escrevi coisas nesse sentido muito antes de o Barcelona de Guardiola ser a "espécie dominante" que é hoje, o tema interessa-me muitíssimo, e sustento uma opinião contrária à do Filipe. De um modo muito resumido, que espero sustentar melhor daqui para a frente, entendo o Barcelona de Guardiola como um salto evolutivo gigantesco (coisa de que falei aqui) e, em muitos aspectos, decisivo. Contra esta ideia, defenderia o Filipe, se bem lhe entendo o argumento, que não existem, em futebol, saltos evolutivos decisivos, e que aquilo que a "espécie dominante" faz hoje define o "meio" ao qual quem vem atrás deverá adaptar-se, superando-o.

Importa, em primeiro lugar, referir que não creio que exista perfeição, nem fórmula que garanta sucesso continuado. Acredito, porém, que existem maneiras melhores de jogar do que outras, maneiras que garantam mais vezes o sucesso, e que o modelo futebolístico posto em prática pelo Barcelona ultrapassa, em qualidade, tudo o que foi feito antes. Penso assim por uma razão simples, porque o futebol é um jogo e, como qualquer jogo, possui um conjunto de regras que lhe limita as possibilidades. O jogo do galo, para dar o exemplo de um jogo simples, cujo conjunto de regras impõe limites óbvios, acaba invariavelmente empatado, sempre que jogado por dois jogadores minimamente conscientes das possibilidades ao seu dispor. Há jogos, obviamente, mais complexos (sendo o futebol um caso evidente), jogos em que as possibilidades são muito maiores, mas, no limite, passa-se o mesmo. Todo o conjunto de regras fixo, que é aquilo em que consiste, por definição, qualquer jogo, é um "meio" ao qual se adaptam melhor os que possuírem as características mais adequadas ao conjunto de regras com que se define esse "meio".

O que, em primeira instância, trai o raciocínio ao Filipe é que o "jogo" da evolução das espécies não esteve, ou não está, ao contrário de um jogo como o futebol, sujeito a um conjunto de regras fixas, e que é isso, no limite, que permite afirmar que não há perfeição que sirva de critério. Aliás, ao contrário do futebol, em que se foram descobrindo formas melhores de se contrariarem as imposições do "meio", e em que as "espécies dominantes" se sucederam por desenvolverem, por reacção ao meio, características mais adequadas ao conjunto predefinido de regras do meio (houve poucas alterações significativas às regras, ao longo da História do Jogo), no jogo da evolução das espécies são, por norma, as alterações no meio, ou seja, as alterações nas "regras do jogo", que ditam a melhor adequação de um certo conjunto de genes a esse meio. Para fornecer disto ilustração, recorro ao exemplo clássico das borboletas brancas antes da industrialização em Manchester. A borboleta de cor branca, que predominava naquela zona antes da industrialização, deu lugar, em menos de um século, ao predomínio de uma espécie de cor negra não por esta ter vencido a batalha da evolução, mas porque o meio o impôs. O que se passou foi que, antes da industrialização, a borboleta branca predominava por estar melhor "adaptada" às imposições do meio, por se confundir melhor com a vegetação da zona, assim escapando mais facilmente aos predadores. Mudando o meio, mudou-se também a facilidade que estas borboletas tinham para escapar aos predadores. Com a fuligem e a rápida mutação da cor da vegetação local, a borboleta negra passou a ter melhores características para escapar à predação e, ao fim de algumas gerações, passou a ser a espécie dominante. O que este caso evidencia é que, no que diz respeito à luta pela sobrevivência, são essencialmente as mutações no meio que determinam a sucessão das espécies. Aliás, é por isso que se chama "selecção natural", por as espécies que sobrevivem serem seleccionadas naturalmente, pelas contingências do meio, pelo Acaso. No que diz, portanto, respeito ao jogo da evolução das espécies, não se pode dizer que exista mérito evolutivo, pois a evolução depende integralmente das condicionantes exteriores. Tal não é o caso do futebol, em que a evolução se fez principalmente por as espécies terem modificado a maneira como reagiam às condicionantes exteriores que, salvo raras excepções, permaneceram inalteradas.

A analogia utilizada pelo Filipe é, assim, falaciosa. E é-o simplesmente porque um jogo como o futebol não está sujeito à inconstância regulativa a que o jogo da evolução esteve. Há, todavia, usos interessantes a fazer dessa analogia. Quando Darwin chegou às Galápagos, descobriu que a fauna e a flora das ilhas era radicalmente diferente de tudo o que conhecia. Isto permitiu-lhe conjecturar que o isolamento insular determinara um jogo evolutivo totalmente distinto do que se passara noutras zonas do globo. Ou seja, num meio com regras diferentes, princípios evolutivos diferentes. Encontrou ali espécies que não existiam em nenhum outro local simplesmente porque o meio lhes permitira a subsistência. O que quero sugerir com este exemplo é que, mesmo no mundo natural, se o meio for relativamente inalterável, há a tendência para certas espécies subsistirem ininterruptamente. A conclusão óbvia a tirar é a de que, se as espécies que melhor se adaptam às características de um meio tiverem a possibilidade de permanecer nesse meio, sem que haja alterações no sistema de regras do mesmo, a tendência é o domínio dessas espécies não mais ser posto em causa.

Além de tudo isto, parece esquecer-se o argumento do Filipe de que há uma espécie que venceu já o jogo da evolução das espécies: o homem. E não só o venceu como já nem sequer o joga. De tal modo a vitória foi clara que é a única espécie que está livre das imposições do meio. É evidente que o homem não é uma criatura perfeita, e que teria dificuldades em sobreviver em determinados habitats, mas é a criatura que melhores características reuniu para fazer face às características gerais do meio em que habita e que controla plenamente: o planeta. A lei do mais forte e a selecção natural deixaram de se aplicar ao homem há muito tempo, e a menos que se dê uma mudança radical no meio, um cataclismo qualquer que destrua os pilares civilizacionais em que nos constituímos, não me parece crível que o homem venha algum dia a perder o estatuto de espécie dominante. O argumento que estou a fazer consiste em afirmar que não é preciso ser perfeito, no sentido utópico da palavra, para se vencer definitivamente o jogo da evolução; basta possuir as características - ou construi-las - que melhor se adequam às imposições do meio. No caso do homem, esse jogo começou a ser ganho no momento em que se começou a civilizar. Civilizar-se, aliás, significa precisamente desobedecer à lei do mais forte. Assim, ao desobedecer à mais profunda lei da natureza, adaptou-se o homem o melhor possível ao conjunto de regras que constitui o meio em que habita, e não mais ficou sujeito à dança da sucessão de espécies dominantes. Pode dizer-se, inclusivamente, que o homem não é sequer a espécie dominante do planeta, mas a espécie vencedora. Seria "dominante" se fosse aquela que, temporariamente, melhor se adapta ao meio. Mas, neste momento, é muito mais do que isso: é aquela que controla o meio e que dita as regras do jogo.

Deixem-me agora recuperar o argumento do Filipe acerca da sucessão de "espécies dominantes" em futebol, para mostrar como o argumento "mete a pata na poça" e torna clara a falácia a que se oferece. Segundo o Filipe, o que se passa em futebol é que o "meio" é definido por aquilo que fazem as "espécies dominantes", e que as restantes espécies se adaptam não ao conjunto de regras de que estão rodeadas, mas sim às características evolutivas da "espécie dominante". Segundo, portanto, o Filipe, a evolução em futebol depende de reacções não ao meio, mas às espécies que habitam o meio. Não é assim que funciona o jogo evolutivo das espécies, e, como tal, toda a sustentabilidade do argumento, que consiste na analogia com a teoria da "selecção natural", se desmorona. Parece-me, porém, que boa parte da confusão do argumento consiste em confundir a teoria geral da selecção natural com a luta particular que se dá no interior de um organismo, entre um hospedeiro e um parasita. É que, a dada altura do seu texto, dá o Filipe a entender que as restantes espécies, para sucederem ao domínio catalão actual, precisam agora de vacinar-se contra a doença viral que é o Barcelona. E, de repente, aquilo que era uma teoria simpática e promissora, consistindo numa analogia com a teoria da selecção natural, passa a ser uma coisa esquisita que consiste em aproximar a espécie dominante numa determinada altura da História do Futebol de um vírus para o qual ainda não se formaram anticorpos que o debelem. No final do seu texto, portanto, a teoria da sucessão das espécies dominantes em futebol é fundamentalmente uma analogia com a relação entre organismos hospedeiros e organismos parasitários: a vacina que debela a "espécie dominante" do vírus sucede ao vírus; gerações depois, tendo certas espécies secundárias do vírus sobrevivido ao ataque da vacina, um novo vírus volta a suceder à vacina; nova vacina, consistindo agora em anticorpos contra este novo vírus, volta a suceder ao vírus; e por aí em diante. O artigo, principiando com uma premissa que, como demonstrei, é falaciosa, acaba pois a falar de uma coisa completamente diferente, embora igualmente falaciosa, como adiante tornarei claro.

Como organismos parasitários que são, os vírus precisam de organismos hospedeiros que lhes suportem a existência. Ainda que, aparentemente, estejam em competição com eles, não é verdade que façam parte do mesmo jogo a que os outros estão entregues. Os vírus não são espécies que compitam com outras espécies, que façam parte da luta entre espécies da qual só as mais adaptadas ao meio saem vencedoras; os vírus são, isso sim, parte das imposições do meio. Podem, eventualmente, destruir uma espécie ou, pelo menos, contribuir para que perca o seu estatuto de espécie dominante, mas nunca poderão usurpar-lhe o trono, pois dependem dela. Na luta pela sobrevivência, um vírus, embora sendo um organismo vivo, funciona mais como um factor externo (como a falta de alimento, a temperatura, etc.) do que como uma espécie que compete directamente com aquela que ataca. Neste sentido, a luta entre um hospedeiro e um parasita, que é aquilo que, no entender do Filipe, caracteriza a evolução em futebol, é completamente distinta da luta entre espécies pelo estatuto de "espécie dominante". Já demonstrei acima como a primeira analogia era falaciosa, como não funcionava comparar o que se passa em futebol com o que se passa no jogo da evolução. Se, por outro lado, pretender o argumento do Filipe defender-se com a analogia dos vírus e das vacinas, pior ainda. Os vírus não têm interesses evolutivos idênticos às outras espécies; a sua existência depende necessariamente da existência de espécies que lhes são superiores. Por aqui se percebe que o argumento não tem ponta por onde se lhe pegar.

Resumindo, a analogia de que o Filipe faz uso, entre futebol e evolução, tem vários problemas. O primeiro problema é que são jogos diferentes, consistindo o primeiro num jogo com regras fixas, enquanto o segundo é um jogo de regras variáveis. O segundo problema é ignorar que, no jogo da evolução, é o meio que estipula a evolução e a sucessão de espécies, e que não há propriamente adaptação, no sentido preciso do termo; no futebol, não: são as espécies que aprendem a adaptar-se ao meio em que habitam. Em terceiro lugar, há o problema de não perceber que, fixando-se um determinado conjunto de regras durante um determinado período de tempo, num determinado meio com várias espécies, a tendência é surgir uma espécie dominante, que é aquela que nasce com as características que mais se adequem às características fixas do meio. O quarto problema consiste em esquecer, talvez deliberadamente, que houve uma espécie que venceu já o jogo da evolução, espécie essa que já nem sequer está sujeita à variabilidade das características do meio, tal é o seu domínio. O quinto problema é a confusão entre luta entre espécies e luta entre hospedeiros e parasitas, que são coisas diferentes, obedecendo a contingências diferentes. Com tantos problemas, a coisa mais simpática que se pode fazer é condescender, dizendo que a analogia não funciona e o argumento não é bom.

Aquilo em que o Filipe crê, muito teoricamente, é que não há modos melhores do que outros de jogar futebol. O argumento que usa para justificar essa crença é, como se viu, altamente falacioso. Por conseguinte, não justifica coisa nenhuma. Só o faria se o futebol fosse, tal como o jogo da evolução, um jogo de regras flutuantes, que mudassem consoante as marés. Como não é, a comparação entre as duas coisas é um artifício falso e barato, que não serve de grande coisa. Por aqui se percebe que a sua crença, sem um argumento a sério que a justifique, não passa de uma crença tola, como qualquer crença que se possa ter, por mais absurda que seja. Crê nisto, portanto, o Filipe religiosamente, que é a única maneira de crer numa coisa que não faz sentido nenhum. O futebol é um jogo e, como qualquer outro jogo, por mais complexo que seja, tem necessariamente de possuir maneiras de se jogar melhor. O xadrez é um jogo igualmente complexo e, actualmente, evoluiu até um ponto em que os melhores jogadores têm uma vantagem quase decisiva por começarem o jogo com as brancas. Aliás, a própria ideia de evolução implica melhorar de algum modo: evolui a criatura que melhora a sua relação com o meio em que se predispõe a evoluir. Toda a História do Futebol é uma história de evolução neste sentido. Não é lícito afirmar, apenas porque sempre houve, até aqui, maneiras melhores de se jogar o jogo do que maneiras anteriores, que continuem a haver, ad eternum, formas de melhorar que se oponham a formas anteriores. O futebol constitui-se por um sistema rígido de regras (ao contrário do que acontece, por exemplo, em arte), e a tendência é, por isso, para que a evolução tenha um limite. De resto, nada disto implica, como é óbvio, que formas piores de jogar o jogo não possam vencer, pontualmente, formas melhores. Mas formas melhores ganharão mais vezes: e é esse o ponto de tudo isto.

Por fim, e já que se falou bastante de espécies dominantes, talvez fosse bom que certas pessoas percebessem que as espécies dominantes dos que falam de futebol não são aquelas que vêem mais jogos, nem aquelas que comentam mais jogos, nem aquelas que fazem mais continhas de algibeira, nem aquelas que apagam mais comentários, mas sim as que melhor desenvolvem as capacidades críticas, naturalmente adequadas ao seu objecto de estudo, que lhes permitam o domínio. Isso faz-se, mais do que perdendo tempo com asneiras do tipo das que falei acima, cultivando o espírito crítico, treinando as competências argumentativas, aceitando o desafio de discussões teóricas, etc. Sem isto, e por mais minúcia que se ponha em tudo o resto, não passará quem o faz de um coitadinho a quem muito se aplaude o esforço para memorizar a matéria que sai no teste, de modo a transitar de ano e a continuar a sua sofrida sobrevivência até ao fim da escolaridade obrigatória, repousando depois.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Miguel Rosa e os Glutões

Comissões, comissões e mais comissões - eis o que interessa aos glutões. Como é possível que, no estado actual da economia mundial, e sobretudo num defeso em que os principais clubes europeus têm optado por políticas de contratação bem mais conservadoras, os três maiores clubes portugueses se preparem para adquirir, em conjunto, perto de meia centena de jogadores? Não duvidando da qualidade de algumas dessas contratações, o excesso denuncia outras intenções que não o simples reforço dos respectivos plantéis. À cabeça de tudo isto está o Benfica. É claro que há ali jogadores talentosos, e que o plantel sairá reforçado por alguns daqueles atletas. Mas à custa de quê? Sem exagero, dois terços das contratações servirão mais para encher os bolsos de alguém do que para reforçar o que quer que seja. Que equipa é que contrata 3 guarda-redes na mesma época? Que equipa europeia, mesmo em tempo de pré-época, conta em simultâneo com seis laterais esquerdos? Claro que a lista de dispensas demora a ser feita, e que no final o plantel será emagrecido. Mas esta política de contratar por contratar não parece servir ninguém (nem Jesus, nem o Benfica) a não ser agentes externos ao jogo. Não quero, porém, entrar em especulações escusadas, nem me apetece muito falar de coisas que não digam propriamente respeito ao jogo. Dito isto, importa mencionar o caso de Miguel Rosa.

Para muita gente, é um jovem desconhecido. Não para mim. Não foi aqui antes mencionado por desconfiar que o seu trajecto a nível sénior dependeria de muita coisa que o jogador não podia controlar. Não me enganei. Ainda assim, e sobretudo porque os primeiros anos como profissional o justificam, creio que merecia o salto que esteve perto de se realizar. Miguel Rosa é um médio ofensivo, ou médio interior, que pode alinhar na direita, por exemplo, com muitíssima qualidade. Não é um criativo por excelência, um jogador de último passe, de drible fácil, mas é incrivelmente correcto nas suas acções, bom tecnicamente e inteligente. Não é um médio de trabalho, mas muitíssimo compridor das suas funções, abnegado, humilde. Talvez o pudesse comparar a Pereirinha, não tão virtuoso e veloz, mas talvez mais cerebral. Acho-o muito parecido também com Rúben Amorim, embora seja ligeiramente mais ofensivo. Aliás, jogou essencialmente nas costas do avançado, no Belenenses e no Carregado. Para mim, foi o melhor jogador que saiu das camadas jovens encarnadas nos últimos 5/6 anos, a par talvez de Nélson Oliveira. É melhor do que André Carvalhas (um novo Hélio Roque que era, para muitos, o melhor jogador encarnado do seu ano e que, entretanto, como seria de esperar, desapareceu do mapa); melhor do que David Simão, que apesar de ser um ano mais novo, teve a sua oportunidade na primeira liga bem mais cedo; bem melhor do que Romeu Ribeiro, a quem foram inexplicavelmente dadas muito mais oportunidades; e melhor do que Miguel Vítor ou Roderick Miranda, que são jogadores excessivamente valorizados. Como disse, não destaquei Miguel Rosa anteriormente porque tinha muitas dúvidas quanto ao seu aproveitamento futuro. É que, já nos escalões mais novos, ficava a impressão de que não o apreciavam condignamente. A maturidade que tinha a jogar, a inteligência, a excelência do critério, nada disso chegava. Preferia-se a extravagância de outros. E a falta de extravagância, estando nós, ainda por cima, a falar do Benfica, antecipava que não fosse aproveitado.

Certo é que as três épocas de segunda liga não fizeram com que Miguel Rosa se resignasse. No Estoril e no Carregado foi uma mais-valia. No Belenenses, confirmou-se como uma certeza. Tanto é que foi eleito o melhor jogador do segundo escalão português esta temporada. Ainda antes do troféu, anunciava o jogador, confessando que Rui Costa lhe garantira o regresso à Luz, que iria integrar o plantel encarnado no ano seguinte. Surpreendeu-me a notícia, sobretudo por duas razões: pela precocidade do seu anúncio, pouco tempo depois de a época transacta terminar, e por ter conhecimento de certos atritos entre o Benfica e a família do jogador. O que é certo é que Miguel Rosa iniciou mesmo os trabalhos de pré-temporada, sendo antes utilizado numa campanha, ao lado de Nélson Oliveira, Rúben Pinto e David Simão, para promover a ideia absolutamente falsa de que, esta época, o Benfica iria apostar na prata da casa. Enfim, em pouco tempo se percebeu que, afinal, o jogador não iria fazer parte dos planos do clube, e que nem na pré-época iria poder mostrar serviço. Começaram a surgir notícias de empréstimos a clubes da primeira liga e acabou novamente recambiado para o Belenenses. Para ser honesto, o desaproveitamento de jovens de qualidade não é coisa que me espante. Mas há qualquer coisa esquisita neste caso. Repare-se só no seguinte exemplo: André Almeida foi recrutado ao Belenenses e posteriormente emprestado ao Leiria; Miguel Rosa, que não só jogava no mesmo Belenenses, como foi o melhor jogador do Belenenses e o melhor jogador de toda a segunda liga, vai voltar a ser emprestado a uma equipa da segunda liga. Que sentido é que isto faz? Não haveria mercado para o jogador na primeira liga? E, mais do que isso, por que é que não parece haver interesse do Benfica em valorizar o jogador, emprestando-o a um clube mais competitivo?

É aqui que entram os glutões. Sim, o mesmo tipo de gente que tem tudo a ganhar com a contratação de camionetas de jogadores parece ter o poder para marginalizar o jogador e assim satisfazer a sua vontade como bem lhe apeteça. Convenhamos, Miguel Rosa volta este ano ao Belenenses por uma única razão: porque alguém não quer que ele venha a ter o sucesso que promete ter. A notícia que veio a público dava conta do interesse de Miguel Rosa permanecer perto de casa, e de ter recusado sistematicamente todas as propostas de clubes da primeira liga que apareceram (mais tarde, apareceu uma notícia contraditória, em que Miguel Rosa dizia que fora o Benfica que preferira emprestá-lo ao Belenenses). Francamente, isso não cheira nada bem, ainda por cima quando uma das propostas era do Vitória de Setúbal, que não é muito mais longe do que o Seixal. O pai do jogador afirma que foi o Benfica que recusou as propostas do Nacional, do Vitória de Setúbal, do Olhanense e do Feirense, forçando-o ao empréstimo ao Belenenses (acrescentou, aliás, que o Benfica lhe sugeriu, como única alternativa ao Belenenses, ficar uma época inteira a treinar sozinho). Não é por ser a versão do pai do jogador, mas por ser logicamente a mais inteligível, que é, a meu ver, a versão que faz mais sentido. As pessoas acham que é absurdo, por ser contra os interesses do clube o Benfica preferir emprestá-lo a um clube da segunda liga, mas a verdade é que é contra os interesses do clube ter praticamente 50 jogadores a fazer a pré-época e foi isso que se passou. O que se acontece é que, mesmo que estas coisas sejam contra os interesses do clube, favorecem os interesses de alguém. E é isso que está aqui em causa. Nenhuma das duas versões do caso, 1) ter sido o jogador a preferir a segunda liga, por poder ficar perto de Lisboa, e 2) ter sido o Benfica a preferir o Belenenses, parecem lógicas, porque não o são. O que falta nesta equação é a vontade de alguém que não serve nem o clube nem o jogador.

Em campo, além de virtuosíssimo, Miguel Rosa é um jogador trabalhador, abnegado, lutador. O seu benfiquismo é inatacável - basta ver como agradeceu ao Benfica, de forma até pouco razoável, o prémio de melhor jogador da segunda liga. A acusação de falta de profissionalismo, num jogador com este tipo de características, não faz sentido nenhum. Argumentam os que consideram que o responsável pela situação foi o Miguel Rosa que os clubes a que esteve ligado são todos da zona de Lisboa: Estoril, Carregado e Belenenses. E argumentam ainda que o Benfica teria todo o interesse em valorizá-lo na primeira liga. Sobre o primeiro argumento, sinceramente, não acho que haja nada de extraordinário. Ter Miguel Rosa preferido o Carregado a outra equipa da segunda liga não é nada de esquisito. E o certo é que ficar perto de casa, sobretudo quando as alternativas não são de nível superior, não me parece um mau critério. Esteve em três clubes da zona de Lisboa porque havia clubes da zona de Lisboa interessados nele. Ponto final. Nada nesse argumento joga a favor da teoria de que Miguel Rosa não tem ambição. Quanto ao segundo argumento, de facto faz sentido. Mas faz sentido, como disse acima, se acharmos que são apenas os interesses do Benfica que estão em jogo. E claramente não são. Já há alguns anos que tenho conhecimento dos problemas entre alguns dirigentes do Benfica e a família de Miguel Rosa (isto explica, aliás, que não tenha tido, nos últimos anos, o mesmo tipo de projecção pública que outros miúdos). O que me parece que terá acontecido foi que Rui Costa, de boa fé e reconhecendo-lhe o talento que tem, o contactou de maneira a que ele integrasse o plantel na época seguinte. A forma como Miguel Rosa anunciou a coisa indicava até que não ia fazer apenas a pré-época, mas concedo, ainda assim, que fosse apenas para isso que foi contactado. O problema é que nem a pré-época lhe permitiram. Que explicação há para isto? A meu ver, a entrada em cena de alguém que não quer o jogador no Benfica por razões pessoais, e por cima de quem a decisão de Rui Costa terá passado. Não sei quem será essa pessoa (ou pessoas), mas, por tudo o que sei, acerca do jogador, acerca do seu valor, acerca do caso em si, acerca dos problemas passados com a família, acerca da índole de grande parte dos dirigentes desportivos, esta conclusão é claríssima: Miguel Rosa volta agora para o Belenenses não porque não tem mercado na primeira liga, não porque o Benfica não está interessado em valorizá-lo, não porque é irresponsável e não tem ambição, não porque tem uma namorada em Lisboa e quer ficar perto dela (estes são os argumentos mais comuns), mas porque alguém, alguém com poder suficiente na estrutura do clube, tem problemas pessoais com ele ou com a família dele. Aliás, basta que se conheça minimamente os meandros do futebol para chegar a esta conclusão. E agora, para terminar, queria apenas lançar uma perguntinha, uma perguntinha que, por reunir indícios suficientes para que justifique que seja colocada, não é apenas uma perguntinha arbitrária e infundada. Como é que se chama o ex-gestor do futebol de formação do Benfica (curiosamente numa altura em que Miguel Rosa era juvenil e júnior e que, segundo consta, chegou a ser visto em altercações com o pai de Miguel Rosa), que regressou à estrutura encarnada para exercer a função de director do futebol profissional precisamente poucos dias antes de Miguel Rosa ser novamente escorraçado do clube? Uma pista: tem o mesmo nome de um parasita que costuma ser portador de doenças.

P.S. Muito do trabalho de casa em torno da discussão acerca das razões para o regresso do jogador ao Belenenses, principalmente no que diz respeito à posição do pai de Miguel Rosa nesta questão, foi feito no fórum do Ser Benfiquista.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lições de Mestre (8)

Este texto não estava previsto, mas seria estúpido não aproveitar a oportunidade. E já que também não estava previsto que o jogador ficasse no plantel, junta-se tudo para falar de algo que merece ser falado, apesar de a minha opinião acerca do assunto ser já sobejamente conhecida. O que trago é uma jogada a acabar o jogo de apresentação do Sporting, frente ao Valência, e, a meu ver, um dos lances que melhor definem aquilo que, para mim, significa o termo "classe", quando aplicado ao jogo. Antes de falar daquilo que quero, vou perder algum tempo com a consequência que o lance teve, ou seja, com a possibilidade de cruzamento em zona muito mais privilegiada e com o lance de perigo criado pela equipa. Como o Jorge D. escreve neste texto, um cruzamento é como outro passe qualquer. Apesar de ouvirmos recorrentemente que uma equipa deve chegar à linha para cruzar, não creio que cruzar deva ser uma tarefa, nem individual nem colectiva, a ter em conta numa equipa de futebol. Depende da circunstância, das probabilidades de êxito, do posicionamento dos colegas em função do posicionamento defensivo do adversário. Nunca percebi a ideia de chegar à linha e cruzar lá para dentro, mesmo quando o jogador que cruza - o que é raro - olha para a área antes de cruzar. Entre outras coisas, o lance que trago mostra como um jogador com uma inteligência muito acima da média entende aquilo de que se está a falar. Por duas vezes podia ter cruzado, uma com o pé esquerdo, outra com o pé direito. Tinha colegas na área, arranjou espaço para o fazer, e era o que quase toda a gente achava que deveria ter feito. Ninguém o criticaria, como ninguém critica quem quer que seja que cruze uma bola para a área, por menos sentido que faça cruzar nessa ocasião. Quanto a mim, desde que pegou na bola que percebi que não era assim que iria terminar o lance. E percebi-o por uma única razão, porque sabia que o portador da bola se chamava Pereirinha.



Não sei se é possível definir melhor aquilo que entendo por "classe" como aquele atributo que é comum a um jogador de futebol e a um toureiro. Nos dias que correm, privilegia-se a intensidade, o fazer as coisas com a concentração máxima, o empenho, o esforço. Um jogador com classe é normalmente hostil a fazer as coisas com os dentes cerrados. Não é que não possa fazê-lo também, mas é algo que lhe macula a imagem. Fazer as coisas com calma, como se o gesto técnico mais complicado do mundo fosse a coisa mais fácil para aquela criatura, é o que define essa pessoa. Dá sempre a impressão de que se manda no jogo, de que os adversários são bonecos que se tira da frente sem grande esforço. Um jogador com classe faz as coisas difíceis parecerem fáceis, faz as coisas com graciosidade, dando a impressão de que, se as faz assim, com aquele desprezo todo, talvez pudesse fazer muito mais, se de facto se empenhasse. A meu ver, um dos principais problemas do futebol actual é não se priviligiar a classe acima de qualquer outro atributo. Imagine-se uma equipa em que os jogadores fazem tudo com classe e tem-se o Barcelona. Só para demonstrar o quão importante pode ser a valorização de tal atributo, olhe-se, por exemplo, para o que era Abidal antes de perceber que, ostentando classe, era muito mais jogador. Antes era um jogador cinzento, eficaz a defender, mas banalíssimo com bola. Agora parece um médio criativo a jogar a defesa, a parar a bola dentro da área defensiva, com vários adversários à ilharga, a dar toques em zonas perigosas, a sair a jogar onde mais ninguém se arriscaria a sair a jogar. Agora que descobriu o que é ter classe, parece outro jogador. Isso conseguiu-o porque o ambiente que o rodeia lhe mostrou que não há outro atributo mais importante que esse.

Muito sinceramente, o mais difícil, em qualquer arte, é fazer as coisas mais difíceis dando a impressão de que são fáceis. Em futebol não é diferente. É por isso que um jogador que consegue ter pormenores de classe não pode ser um jogador banal; é por isso que alguém que faz aquilo que Pereirinha fez neste lance tem de ser valorizado acima de qualquer outro jogador. Não está em causa o excelente trabalho a livrar-se dos dois primeiros jogadores, mas essencialmente a forma como os toureou posteriormente, como ameaçou cruzar e pôs a bola entre os dois, solicitando o colega nas costas deles. E não o fez de uma forma simples; fê-lo de tal maneira bem feito que, apesar de não ter dado velocidade à bola, os dois adversários ficaram sem capacidade de reacção. A isto chama-se classe. Tomou a melhor decisão, permitiu a um colega ficar numa posição bem mais privilegiada para cruzar do que a que tinha, e ainda humilhou dois adversários. Nas bancadas, o público gostou da faena. Mas, apesar de ter entusiasmado as bancadas como mais ninguém naquela noite, duvido que alguém se lembre de dizer que Pereirinha merecia mais a titularidade do que dois Joões Pereira. O que Pereirinha fez não está ao alcance de muitos. Mas há palermas que o acham banal, palermas para os quais nem sequer devia entrar nas contas de Domingos. Pois eu digo que, para além de Postiga e Matías Fernandez, ninguém tem mais classe que ele naquele plantel. O futebol tinha tanto a ganhar se as pessoas se deixassem de preocupar com atributos cristãos como a transpiração e a dedicação, e passassem a perceber o que distingue um grande jogador de futebol de um atleta medíocre que se esforça.

P.S.: Ao terminar o texto e ao rever o lance, percebi que um dos dois jogadores do Valência toureados era Daniel Parejo, um dos jogadores actualmente com mais classe no futebol espanhol. Um toureiro a tourear outro - não podia ser mais perfeito.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lições de Mestre (7)

Para muita gente, o lance capital do jogo de ontem da Luz foi o segundo golo do Benfica, da autoria de Gaitán. Com efeito, o remate é extraordinário, a bola entra na gaveta, e parece ter propiciado maior espectacularidade do que qualquer outro lance do jogo. Não estou de acordo, porém, que esse tenha sido o lance mais interessante da partida. A meu ver, há no primeiro golo um momento francamente superior a esse, um momento que passou praticamente despercebido, o que muito me espanta. O remate de Nolito, de facto, não é tão vistoso como o de Gaitán, mas não é pela finalização do lance que creio que ele mereça verdadeiro destaque. Já o passe de Aimar é das coisas mais sublimes que já se fizeram nos relvados portugueses. Numa altura em que parece que cada vez mais se gosta de arrancadas de pessoas incríveis, de lances individuais extraordinários, de grandes aberturas, de gente que corre feita doida, de malabarismos e excentricidades de putos de rua, as pessoas deviam pôr os olhos neste lance aparentemente trivial. Quando se diz que há poucos que conseguem resolver os jogos sozinhos, esquecem-se de quem consegue fazer coisas destas. Sem exagero algum, aquele passe equivale a uma arrancada em que se tiram quatro ou cinco jogadores da frente e se deixa um colega isolado frente ao guarda-redes. Aquele passe é puro génio. Em tudo, na execução, que é dificílima, mas sobretudo na concepção, transformando um lance totalmente inócuo numa ocasião clara de golo. Não é para todos.



O Benfica não jogou bem e só justificou a vitória após o primeiro golo. Até aí, além de dar muitíssimo espaço e de ter os sectores excessivamente separados, em momento ofensivo, e em momento defensivo, mostrou poucas ideias colectivas. Talvez isso se deva à fase da época em que se encontra, e que por isso seja injusta a acusação. Talvez. Mas pouco importa. O Benfica não fez um bom jogo, mas Aimar apareceu no momento certo. Não é também exagero dizer que resolveu o desafio, e provavelmente a eliminatória. E ninguém parece ter dado por isso. Tal como ninguém parece ter dado por ele na primeira parte, repetindo as alarvidades que António Tadeia ia proferindo no comentário ao jogo, dizendo que estava desinspirado e desaparecido da partida, só porque não o via fazer coisas perto da área adversária. Aimar fez uma boa primeira parte, ao contrário do que essas parvoíces todas fizeram crer, e fez também o que mais ninguém em Portugal tem competência para fazer: resolveu um jogo sem que percebessem que o fez. Sem que nada o fizesse prever, sobretudo porque Nolito fora desarmado e a jogada parecia condenada a voltar ao início, Aimar sacou um coelho da cartola e isolou o espanhol. Com um passe inesperado, com a parte de fora do pé e sem o equilíbrio mais adequado para o fazer, num gesto técnico ao alcance apenas dos predestinados, concebeu a melhor ocasião de golo dos encarnados até à altura. Mas, mais do que essa execução soberba, fenomenal foi a percepção que teve do lance. Nolito iniciou a desmarcação, sim, mas era de todo improvável que se criasse um espaço tão favorável no seio da defesa turca. O problema é que os turcos não esperavam que alguém, na posição em que Aimar estava e virado como estava para a linha lateral, fosse capaz de colocar a bola com tanta facilidade, e de primeira, no coração da área. Relaxaram, imaginando o cenário mais provável de Aimar rodar para trás, reiniciando a construção ofensiva, e não previram a possibilidade oposta, a de que, com um só passe, um jogador transformasse um lance perdido numa ocasião soberana.

Repito, este lance devia ser colocado na mesma prateleira de jogadas individuais em que se tiram quatro ou cinco jogadores da frente. Isto porque, na verdade, Aimar ultrapassou sozinho quatro jogadores, aqueles que ficaram batidos pelo passe maravilhoso do argentino. Para muitos, ser criativo é ter um leque de fintas vasto, ser capaz de se desembaraçar individualmente de vários adversários, fazer macacadas com os pés, etc.. Agora pergunto: há alguma coisa que demonstre melhor o que é verdadeiramente a criatividade do que inventar uma jogada com um só gesto técnico, como foi o caso? Criatividade é isto, é ser capaz de imaginar uma coisa que mais ninguém imaginou. Termino com uma afirmação controversa, sobretudo para os que gostam de músculos e remates de meio-campo: Aimar é o melhor jogador a jogar em Portugal. E não estou certo de me lembrar de outro que, no passado, tenha sido tão bom quanto ele.

P.S.: No final da partida, Jorge Jesus justificou a timidez em apostar em Nolito, neste início de temporada, dizendo que o espanhol opta excessivamente pelos lances individuais, e que precisa de perceber melhor o jogar da equipa. Francamente, não me parece que Jesus esteja a avaliar bem as competências de Nolito. Sim, tem facilidade de drible e até procura bastante o um para um. Mas não o faz mais do que Gaitán, por exemplo, e sobretudo não o faz em ocasiões em que não deve necessariamente fazê-lo, como o argentino. Mas nem é por aí. Ninguém, à excepção de Aimar e Saviola, que são de outra galáxia, a esse respeito, é tão forte sem bola, em momento ofensivo, como Nolito. A forma como percebe o momento certo em que deve procurar a desmarcação e a forma como tem a preocupação constante de fornecer uma linha de passe ao portador da bola, coisas que certamente o modelo catalão em que jogava potenciou, dão-lhe competências colectivas que poucos jogadores no plantel possuem. Ao dizer o que disse, Jesus parece estar unicamente preocupado com acções com bola. Se é verdade que, nas suas acções com bola, Nolito pode ainda melhorar as suas competências colectivas, embora não me pareça que, para já, elas sejam excessivamente erráticas, aquilo que faz sem bola justifica amplamente a sua titularidade. O que me leva para outra questão, com que termino: por que ordem de ideias é que se começa a gerar o consenso de que Alex Witsel será titular desta equipa? Acredito que venha a ser muito útil, sim, mas titular? No lugar de quem? Aimar? Gaitán? Nolito? Isto sem contar com Carlos Martins, Bruno César e Enzo Pérez. A época é longa e o belga terá certamente muitos minutos de utilização, mas não me parece, pelo menos para já, apesar de lhe reconhecer qualidades, que seja imprescindível no Benfica mais forte.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Certezas (23)

A recente e, por que não, surpreendente transferência deste jogador para Inglaterra veio apressar a necessidade de escrever este texto. Dele há a dizer, em primeiro lugar, que foi o jogador que mais me impressionou no europeu sub-20 do ano passado. Senhorial, com um sentido posicional perfeito e uma simplicidade de processos ao nível de poucos, destacou-se mais pela sobriedade e pelas capacidades de liderança do que pelos atributos atléticos que também possui. Não sendo extraordinariamente alto, é no entanto muito forte fisicamente. Isso não o impede, como é hábito acontecer, de ser tecnicamente evoluído e de privilegiar o intelecto. Jogando na posição de médio defensivo, sente-se confortável com o papel posicional que desempenha, sendo especialmente forte nas coberturas ofensivas e defensivas, aparecendo invariavelmente perto dos médios mais avançados em todas as situações do jogo. Com bola, é também muito bom. Não exagera no passe à distância, nem parece ter necessidade de fazê-lo para se impor, e percebe bem as reais necessidades da equipa, a cada momento. Apesar de não usar o passe longo com frequência, tem uma facilidade de passe invejável e muito critério quando tem de entregar a bola. Percebe que a sua posição não implica apenas recuperar e entregar, e toma invariavelmente boas decisões, não deixando de procurar soluções verticais, com passes entre linhas, quando assim se exige. Antes de se confirmar que o seu futuro passaria afinal por Inglaterra, foi conjecturada a sua vinda para Portugal, para um dos três grandes. Se na altura pareceu claro que não era do interesse do seu clube um empréstimo a uma equipa portuguesa, o que fazia antever uma aposta, pelo menos a médio prazo, neste jogador, não deixa de ser para mim uma surpresa o desfecho do caso. Aliás, imaginei mesmo que, no início da época que agora acabou, pudesse vir a integrar os trabalhos da principal equipa com alguma frequência, e perspectivei que se tornasse rapidamente o substituto de Sergio Busquets, com quem o compararia, se tivesse de compará-lo com alguém. A chegada de Mascherano acabou, contudo, por lhe dificultar a ascensão, e sai agora de Barcelona, rumo a Londres, por uma quantia quase irrisória, tendo em conta o seu enormíssimo valor. Demorei este texto por querer vê-lo noutro contexto que não a selecção de sub-20 e o Barcelona B, mas a perspicácia de André Villas-Boas impede agora que continue a fazê-lo. É hora, pois, de lembrar que na Catalunha mora (ou morava) mais um incrível médio defensivo, um jogador que, apesar de possuir uma fisionomia bem diferente de Busquets ou Guardiola, muito mais condizente com um médio de choque, acaba porém por cultivar um perfil idêntico àqueles de quem herdou o talento. Pode ser que Camp Nou não venha afinal a ser o palco onde futuramente evidenciará as suas qualidades, mas isso não impedirá que Oriol Romeu venha a ter a grandeza que se lhe adivinha...