sábado, 3 de março de 2012

A Lotaria dos Detalhes e o Ostracismo de Saviola

Num jogo com duas equipas pouco interessadas em arriscar muito, pressionantes, subidas, mas raramente querendo fazer da bola aquilo que ela deve ser, num jogo em que as preocupações em não perder a bola em construção, e em que o medo dos desequilíbrios defensivos superou a necessidade de promover a imaginação e a criatividade ofensiva, num jogo em que houve um equilíbrio de forças muito constante, a vitória poderia pender para qualquer um dos lados. Neste tipo de jogo, os detalhes fazem a diferença, e - pode de facto dizer-se - foram os detalhes que definiram a vitória do Porto na Luz: os comportamentos defensivos inadequados de Emerson nos dois primeiros golos, o fora-de-jogo no terceiro, as lesões de Aimar e Garay, a expulsão de Emerson, o único lance em que o Benfica não conseguiu impedir a transição do Porto ter dado golo, etc..

Mas a derrota no jogo (e quem sabe no campeonato) tem de começar a explicar-se muito antes. É que não é por acaso que a equipa encarnada acabou à mercê dos detalhes. Tudo começou há muito tempo, e culmina agora. Jesus tem vários méritos, mas teve sempre o defeito de ter como principal paixão a vertigem e a intensidade. Esse era o defeito principal do seu Benfica no primeiro ano, defeito que, por não ter corrigido no segundo, lhe valeu o desastre que valeu. Este ano, tentou corrigi-lo, mas não soube nunca como o fazer. Passou a não correr tantos riscos em construção, numa primeira fase, com uma circulação mais à largura e mais paciente nessa primeira fase, e tentou trazer densidade e argumentos físicos ao meio-campo. O problema, no entanto, é que Jesus, como em muitos outros casos, pareceu identificar o problema certo nos sítios errados, ou de modo errado. O problema da intensidade e da vertigem não está só nos desequilíbrios defensivos que provoca, não está só no risco que promove; está também, e talvez acima de tudo, na incerteza ofensiva que gera. E a verdade é que, se numa primeira fase, o Benfica actual parece mais calmo e maduro do que antes, se parece mais capaz de controlar a forma como se desequilibra quando ataca, no último terço continua a equipa febril e viciada em intensidade que sempre foi na era de Jesus. As competências ofensivas da equipa encarnada continuam assim demasiado dependentes da intensidade que a equipa conseguir impor ao jogo (levando o jogo para velocidades de execução que acentuem a desigualdade individual), da inspiração individual, e dos atributos técnicos e físicos dos seus atacantes. Continua a ser dada pouca importância à imaginação, à criatividade, à inteligência, e às combinações colectivas.

O problema mais curioso de Jesus, como disse, parece ser a incapacidade para perceber mais concretamente aquilo que até consegue intuir. Isso é extraordinariamente fácil de compreender no que diz respeito aos jogadores que aprecia. É que Jesus parece muitas vezes gostar dos jogadores certos, mas pelas razões erradas. E isso é determinante. Durante muito tempo, acreditei que Aimar só continuava a ser aclamado entre os adeptos porque Jesus o percebia como poucos treinadores em Portugal o perceberiam, e lhe dava bastante protagonismo no seu modelo por essas razões. Achava que um jogador com as suas debilidades físicas depressa seria ostracizado por qualquer outro treinador. Por aqui, o Gonçalo sempre discordou de mim, e sempre achou que a reputação de Aimar era a principal razão para Jesus lhe dar a atenção e o crédito que lhe dava. Sensivelmente a meio da época passada, comecei a torcer o nariz à minha crença, e hoje estou certo de que o Gonçalo tem razão. Jesus não gosta de Aimar pelo melhor que ele tem, por aquilo que de melhor pode oferecer à equipa; gosta dele porque tem qualidade e a qualquer altura pode inventar uma jogada soberba. Ou seja, o que Jesus espera que Aimar dê à equipa é um momento ou outro de génio, que é mais ou menos o que toda a gente acha que Aimar pode dar. A colocação do argentino preferencialmente mais perto das zonas de decisão assim o comprova. Eu, por outro lado, acredito que Aimar podia dar muitas outras coisas, nomeadamente a capacidade de circulação e progressão em zonas mais baixas, melhor capacidade para sair de zonas de pressão, competência em espaços curtos e entre linhas adversárias, etc.. Aimar é muito mais do que o último passe ou dois ou três apontamentos por jogo. E não perceber isso é determinante. É determinante porque implica não perceber o que falta verdadeiramente à equipa. Aliás, este problema de Jesus estende-se a muitos outros jogadores. Gosta de Nolito pela agressividade e pelo repentismo do espanhol, e não pela forma como antecipa os comportamentos dos colegas e como lê linhas de passe; gosta de Cardozo pelos golos que marca e pela estampa física do paraguaio, e não pela forma como se relaciona com os colegas, sobretudo quando serve de apoio vertical e referência para tabelas; gosta de Saviola pelo oportunismo do argentino e não pela inteligência na movimentação e na decisão. É também por isso que valoriza tanto jogadores que deixam muito a desejar, em alguns aspectos relevantes do jogo. O caso evidente é o de Emerson, mas poderia estender o argumento a Rodrigo, por exemplo, que anda por estes dias quase que criminosamente sobrevalorizado.

De resto, a melhor explicação possível para mais uma época falhada - a confirmar-se o falhanço - é a mesma que tenho dado há já muito tempo. Desde o primeiro ano de Jesus que defendia que os principais argumentos ofensivos do Benfica consistiam nas combinações curtas, que na altura ocorriam quase que exclusivamente quando Aimar e Saviola coabitavam. Aos poucos, Jesus foi abdicando disso. Também aqui não percebeu a importância vital de um argentino para a produção do outro. Aimar e Saviola passaram a estar em campo à vez, até que, finalmente, o segundo deixou de ser opção. O ostracismo de Saviola, tão simplesmente isto, é a principal causa da derrota de ontem. Evidentemente, nada mudaria se Saviola estivesse dentro de campo ontem. O que quero dizer é que há uma relação causal entre uma equipa ser incapaz de não ficar à mercê da lotaria dos detalhes e o processo de ostracismo a que o argentino foi votado. Ao conceder a Saviola o papel de quinta opção, quando necessariamente teria de ver nele a primeira solução para o seu ataque, Jesus pôs um ponto final na dúvida acerca da sua capacidade para perceber de que maneira a sua equipa poderia ser mais competente em termos ofensivos. Ao prescindir de vez de Saviola, mostrou que não é excepcionalmente diferente de vários outros treinadores de competências razoáveis. O seu Benfica é competente em muitas coisas em que outras equipas são competentes; o que não tem é aquela genialidade que só poderia ter (e que teve, ainda que acidentalmente, na primeira época) se tivesse em campo, em simultâneo, pelo menos dois ou três jogadores capazes de se entender entre si na perfeição. Ao contrário de outras competências colectivas, a criatividade do colectivo não resulta da soma da criatividade de que é capaz cada um dos seus elementos, mas da forma como eles se relacionam criativamente entre si. Ao ostracizar Saviola, Jesus ostracizou também a criatividade do seu Benfica. E ficou, por isso, à mercê daquilo de que todos os outros treinadores medianos ficam à mercê.

P.S. Não se fique com a impressão de que, por ter sido omitida, a opinião sobre Vítor Pereira e o futebol praticado pelo seu Porto foge ao crivo crítico desta análise. Nem se pense que essa opinião é especialmente mais moderada do que esta que fica. Haverá oportunidade para falar disso noutra altura, mas não é por ter ganho ontem, nem por se preparar para ser campeão, que Vítor Pereira passa a merecer mais que a mediania em que tento inserir Jorge Jesus. Aliás, talvez fosse até excessivamente prestigiante, se aí o inserisse. Aquele futebol chocho e fraco de ideias não merece, pelo menos da minha parte, especial homenagem.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Académico

Fez ontem notícia que o professor Jorge Castelo, académico reputado e comentador televisivo nas horas vagas, iria integrar a equipa técnica de Ricardo Sá Pinto. Os que acham que os académicos estão subvalorizados incharam imediatamente, apoiaram a decisão, e desejaram boa-sorte ao senhor professor. Os que acham que aos académicos faltam competências de campo torceram o nariz. Como é sabido, acho que a competência de um treinador, ou de quem quer que trabalhe numa equipa técnica, tem pouco a ver com ser ou não ser académico. Há coisas que a academia dá que a experiência de campo jamais pode dar; mas há coisas que a experiência de campo dá que nenhuma academia é capaz de simular. Nem o supra-sumo dos académicos, por si só, é garantidamente competente, nem aquele que absorveu melhores experiências de campo o pode ser. Dirão os mais incautos que alguém que reúna competências académicas e científicas e experiência de campo está mais apto do que quem só reúna uma delas. Subjaz a quem assim pensa o mesmo erro: o de presumir que a competência de alguém depende necessariamente de qualquer coisa tão circunstancial e breve como a experiência passada directamente relacionada com o jogo. A competência depende de muita coisa, e de muita coisa da qual não se estaria certamente à espera que pudesse depender. Sim, dificilmente poderá haver um bom treinador que não tenha competências futebolísticas relevantes, que não tenha aprendido o que normalmente se aprende em cursos de treinador, mas isso é uma infimíssima parte daquilo que produz um bom treinador. A sua competência depende de conhecimentos futebolísticos, mas depende também de inteligência em bruto, de bom senso, de conhecimento prático, de capacidade de reflexão, de espírito crítico, etc. Pode ser que isto surpreenda alguém, mas estou em crer que, bem mais importante do que conhecer as coisas que o professor Jorge Castelo divulga nos seus livros, é mais determinante à formação da personalidade de um bom treinador conhecer toda a obra de Dickens, ou a teoria da evolução de Darwin. O que causa estranheza nesta afirmação é que parece que Dickens e Darwin, embora francamente mais geniais do que o professor Jorge Castelo, parecem ter menos a ver com futebol do que o professor. Evidentemente, a aplicação ao futebol do que se pode aprender com os primeiros não é clara, ao passo que a aplicação ao futebol dos ensinamentos do professor Jorge Castelo, bons ou maus, é directa. O que estou a sugerir, porém, é que as competências de um bom treinador dependem menos das coisas que aprendeu sobre o jogo e que pode aplicar directamente ao seu trabalho do que propriamente de tudo o resto que lhe molda o carácter. Sim, estou plenamente convencido que um treinador que nunca leu Jorge Castelo pode ser mais competente do que todos aqueles que o leram. Isto porque a competência em futebol não é determinada pela soma das coisas que se leu a respeito de futebol, tal como a competência de um político não é determinada pelas coisas que sabe acerca de política. Serve esta introdução não só para baixar as expectativas em relação ao que se segue, como para, de um modo enviesado, preparar o leitor para a amostra de disparates que um académico reputado pode fazer publicar num livro.

Ao falar sobre o professor Jorge Castelo, podia evidentemente falar de lambe-botice. Não é nada que não me desse um certo prazer, como facilmente perceberá o leitor. Mas achei que teria mais piada, pelo menos desta vez, dar relevância à nova aventura desportiva a que o académico se atira agora partilhando um exercício que descobri ser muitíssimo interessante. Consiste o exercício em abrir ao acaso o livro Futebol - A Organização Dinâmica do Jogo, de 2004, da autoria do professor Jorge Castelo, em citar aquilo que se encontrar na página em que o livro inadvertidamente se abrir, em comentar o que se vir escrito, e em repetir o procedimento enquanto me apetecer. Parece aborrecido? Estou em posição de prometer que será bem divertido. Peço ainda atenção não só para o conteúdo das citações, como para a forma das mesmas, pois que no português utilizado (nomeadamente na colocação das vírgulas) se evidenciam desde logo alguns dos problemas no modo de pensar do dito académico. Tentarei ainda sublinhar aquilo que for mais interessante, em cada uma das citações, para facilitar a compreensão das mesmas.

1. [pp.181]

"Se não for possível retardar o contra-ataque ou, o ataque rápido do adversário, logo após a perda da posse de bola, é fundamental:

A) Criar as condições mais favoráveis, para enfraquecer o diminuto espírito colectivo deste método ofensivo, por forma a que não haja qualquer tipo de possibilidade (veleidade) dos adversários poderem cimentar esses propósitos em qualquer momento do jogo. Inclui-se neste âmbito, a impossibilidade de se utilizar a segunda vaga de ataque.

B) Desgastar psicologicamente os adversários, evitando que estes possam pôr em prática os seus comportamentos táctico-técnicos, em especial, os atacantes sobre quem recai a organização deste método de jogo. À medida que os procedimentos de suporte a estes métodos ofensivos se tornam ineficazes, os atacantes descrêem das suas próprias capacidades diminuindo gradualmente a sua actividade de jogo."

Observações: Ou seja, para parar um contra-ataque adversário, diz-nos o académico, há que a) criar condições favoráveis para pará-lo (que raciocínio formidável!!), ou então b) correr atrás dos adversários a raspar com um garfo num prato para "desgastar psicologicamente os adversários", que acabam inevitavelmente por descrer "das suas próprias capacidades". É ou não é um método defensivo brilhante? Eu avisei que isto ia ser divertido. Mas há mais, e logo na mesma página.

2. [pp.181] [Sobre procedimentos para prevenir o contra-ataque]

"Quando de posse de bola a equipa deverá:

A) Manter uma organização defensiva de base (...)

B) Marcar individual e agressivamente, todos os jogadores que não estejam directamente empenhados na defesa da sua própria baliza. Nestas circunstâncias, devem-se utilizar os melhores defesas em termos individuais ou, criar condições de superioridade numérica, no caso da equipa adversária contar com jogadores de elevada capacidade táctico-técnica individual ofensiva (resolução de situações de 1x1)"

Observações: Para o professor Jorge Castelo, portanto, a equipa que ataca e tem a posse de bola deve guardar, apesar de ter a bola, dois ou três defesas para "marcar individual e agressivamente" alguns adversários. Levando à letra, enquanto 7 ou 8 atacam, 2 ou 3 defendem, enquanto 7 ou 8 andam à procura de dar linhas de passe, oferecer coberturas, etc., 2 ou 3 andam atrás de adversários que, por sua vez, andam atrás de quem tem a bola. Isto é jogar futebol ou é jogar à apanhada?

3. [pp.274]

"Denominamos de superfície de contacto, a parte do corpo que entra voluntariamente em contacto com a bola, que em si oferecer uma multitude de superfícies, consoante esteja animada ou não. Podemos, estabelecer dois aspectos fundamentais no que diz respeito à superfície de contacto com a bola:

1) Quanto maior for a superfície de contacto, maior é a precisão da acção.2) Quanto menor for a superfície de contacto, maior é a potência, que se poderá imprimir à bola."

Observações: Em primeiro lugar, parece que, para o professor Jorge Castelo, a bola não é redonda, pois oferece "uma multitude de superfícies". Às vezes o português é traiçoeiro, mas neste caso não ponho as mãos no fogo. Quanto à teoria de que, quanto maior a superfície de contacto, maior a precisão, quanto menor, maior a potência, tenho a dizer que o professor é capaz de não ter equacionado todas as possibilidades. Será que um remate com a ponta de um dedo é mais potente do que um remate com o peito do pé? Será que um passe com as costas é mais preciso do que um passe de bico? Será que a precisão e a potência têm alguma coisa a ver com a superfície de contacto? Cheira-me que a teoria não é boa! Continuemos, porque isto promete.

4. [pp.312]

"As combinações tácticas podem ser classificadas em:

1) Combinações Simples (combinações a dois ou "passa-e-sai"): (i) o portador da bola fixa a acção do adversário directo (penetração), (ii) executa um passe a um companheiro, que consubstancia um deslocamento ofensivo de apoio, seguido de um deslocamento imediato (passar e mover), para um espaço ou posição facilitadora e favorável para receber a bola.

2) Combinações directas (um-dois ou passa-e-sai): (i) o portador da bola fixa a acção do adversário directo (penetração), (ii) execução de um passe a um companheiro que consubstancia um deslocamento ofensivo de apoio, seguido de um deslocamento imediato (passar e mover) para um espaço ou posição facilitadora e favorável para a recepção da bola e, (iii) devolução da bola ao portador inicial.

3) Combinações indirectas (combinações a três jogadores). A utilização de combinações simpes (a dois), são muitas vezes difíceis de concretizar, face às grandes concentrações de jogadores ou à falta de espaços livres. São assim fáceis de anular sempre, que a cobertura defensiva é assegurada. De modo a garantir um maior desequilíbrio na organização defensiva, integra-se mais um jogador, realizando uma combinação a três, que abre mais possibilidades. Em função da iniciativa (selecção de uma opção), da circunstância (local da acção espaço) e, da colocação ou posicionamento do adversário directa (penetração), (ii) executa um passe a um companheiro, que realiza um deslocamento ofensivo de apoio, seguido de um deslocamento imediato (passar e mover) para um espaço ou, posição facilitador e favorável para a recepção da bola, e (iii) devolução da bola, não ao portador inicial, mas a um 3º jogador cuja situação favorável resulta de um benefício directo (fruto da acção que desencadeou) e, um benefício indirecto (fruto da acção desenvolvida pelo primeiro portador da bola)."

Observações: Devo confessar que foi sem fôlego que terminei de citar isto. A minha pergunta é: por que é que o professor Jorge Castelo, para designar as acções de passe e tabela, precisou de escrever tanto e em grego? Para mim, é um mistério. Apesar disso, ficamos a saber que, para Jorge Castelo, quando há pouco espaço e uma tabela não resolve o problema, pode uma equipa surpreender tudo e todos com a inclusão de um terceiro elemento na acção ofensiva. Combinações entre três jogadores? Por esta é que uma defesa não esperava!

5. [pp.320]

"As formas de se conseguirem mais situações de bola parada, são as seguintes:

1) Passar a bola para o espaço nas "costas" da defesa adversária. Os passes para o espaço nas "costas" dos defesas causam-lhes sempre problemas, porque partem para uma posição desconfortável, tendo que rodar em direcção à sua própria baliza.

2) Através de cruzamentos. Os cruzamentos para as "costas" da defesa, especialmente para a zona central causam um desconforto enorme aos defesas. Na maioria dos casos, estes ao deslocarem-se em direcção à sua própria baliza, intervêm sobre a bola enviando-a para lá da linha final.

3) Através da acção de dribles. Os atacantes, ao optarem por uma situação de 1x1 na zona ofensiva, poderão retirar grandes dividendos, através de situações (de pontapés livres directos ou indirectos) muito vantajosas para a sua equipa.

4) Pressionando os defesas. Quando a bola é introduzida nas "costas" da organização defensiva, os atacantes devem pressionar constantemente os adversários (mesmo que estes cheguem primeiro), disputando com eles a bola, diminuindo-lhes o tempo e o espaço para a poderem jogar. Esta limitação (em termos de tempo e espaço), determina que a execução técnica tenha que ser perfeita, logo, se os defesas não estão confiantes da sua capacidade, frequentemente entram em "pânico". Neste sentido, embora pareça estranho, todos os defesas devem estar marcados por um atacante, os quais mesmo não tendo a certeza de chegar primeiro à bola, devem tentar disputá-la com o defesa adversário.

5) Rematando. Quanto mais uma equipa rematar, mais oportunidades tem de criar situações secundárias de remate. Algumas advêm de ressaltos e outras de pontapés de canto. As equipas devem estar preparadas para rematar em qualquer oportunidade, sobre esta pressão os defesas têm mais probabilidades de cometer erros e, originar mais situações de bola parada."

Observações: Não sei muito bem por que é que será útil a uma equipa saber por que métodos é que se podem obter mais lances de bola parada, mas Jorge Castelo parece pensar que sim. Dá-nos 5 formas de aumentar os lances de bola parada, e quase todos com coisas engraçadíssimas pelo meio. Acredita o professor, por exemplo, que a equipa deve tentar muitos passes para as costas dos defesas, pois estes sentem-se sempre desconfortáveis com isso. Um passe para as costas da defesa é, por isso, como um cisco no olho: é desconfortável e incomoda. Aliás, se após um passe para as costas dos defesas, esses defesas forem pressionados e não estiverem "confiantes da sua capacidade", são bem capazes entrar em pânico, como nos informa. Uma bola nas costas da defesa, seguida de pressão, é para os defesas como tentar escapar de um navio a naufragar. É claro que isso deve ser explorado por uma equipa. Conclui, por isso, o professor Jorge Castelo, que "embora pareça estranho, todos os defesas devem estar marcados por um atacante". Caro professor, não parece; é mesmo estranho. Se todos os defesas estiverem marcados por um atacante, quem é que faz o passe? E para quem? Para um atacante que estiver ao pé de um defesa, por estar a marcá-lo? É de mim ou há qualquer coisa nesta teoria que não bate certo? Como se não bastasse, Jorge Castelo acredita ainda que os atacantes devem forçar situações de 1x1, tal como "devem estar preparados para rematar em qualquer oportunidade". Não sei bem de que modo rematar serve para ganhar livres ou cantos, mas a ideia de que uma equipa deve rematar em qualquer oportunidade é suficientemente estúpida para que não a mencione. Então e se, por exemplo, se der uma situação de 2x0? É uma boa oportunidade para rematar, e, segundo Jorge Castelo, uma equipa deve rematar. Aproveitar a superioridade numérica não só não pode fazer tanto sentido, para o académico, como rematar, como ainda reduz a possibilidade de se ganhar uma bola parada. Formidável!

6. [pp.89]

"Os jogadores deverão tentar objectivar o golo, o maior número de vezes possível. Para isso é importante que estes reflictam correctamente a concepção e o método de jogo, previamente preconizado pela equipa."

Observações: Segundo o professor Jorge Castelo, portanto, uma equipa de futebol é uma espécie de cão com cio: qualquer que seja a situação, quaisquer que sejam as circunstâncias do jogo, o importante é "objectivar o golo". Eu diria que o académico, neste aspecto em particular, parece um velho jarreta a falar.

7. [pp.157] [Sobre os aspectos favoráveis da marcação homem a homem]

"Os aspectos favoráveis do método individual são os seguintes:

1) Possibilidade de se anular um jogador de grande capacidade táctico-técnica, por um jogador de menores recursos. Esta diferença de capacidades é compensada por outras características, tais como a perseverança, o empenho e a vontade, mas também pelo facto de os procedimentos defensivos serem mais fáceis de executar que os procedimentos ofensivos.

2) Estabelece missões facilmente compreendidas no plano táctico, por parte dos jogadores, pois, cada um pode concentrar a sua atenção e esforço num só adversário, numa só missão.

3) Transmite, quando é eficazmente aplicado, uma autoconfiança de extrema importância no desenrolar do jogo, porque a defesa ganha mais duelos do que perde. Simultaneamente verifica-se um desmerecimento por parte dos atacantes, que vão desacreditando das suas reais possibilidades.

4) Provoca um desgaste táctico-técnico, físico e principalmente psicológico aos jogadores sujeitos a este tipo de marcação, pois estão sujeitos de forma contínua e permanente a uma marcação impiedosa e agressiva. Mesmo nas situações em que o defesa perde momentaneamente o contacto com o atacante, este continua a reagir e a proceder, como se tivesse efectivamente marcado. Com efeito, após algum tempo de jogo, o atacante desenvolve nele próprio um constrangimento psicológico, que o leva a actuar como se tivesse marcado, quando na realidade não está. Estas situações são bem visíveis no comportamentos dos pontas-de-lança, que ao receberem a bola de costas para a baliza adversária, ao serem pressionados pelo defesa central, a devolvem quase de imediato ao companheiro em apoio frontal. Todavia, nos casos em que não estão pressionados têm a tendência de executar a mesma resposta táctico-técnica, em vez de rodarem e direccionar os seus comportamentos para a baliza adversária.

5) Reduz a iniciativa do adversários que está sob influência deste tipo de marcação, pois nunca tem espaço e tempo para exprimir as suas capacidades táctico-técnicas.

6) Consegue-se permanentemente um certo equilíbrio numérico em qualquer situação momentânea de jogo em qualquer espaço.

7) Potencializa-se a sua eficácia, quando utilizado, logo, após a equipa ter conseguido o golo. Aumenta-se assim, o carácter perturbador da situação, em que a equipa para além de sofrer o golo, está perante um obstáculo adicional, que se consubstancia por uma marcação mais agressiva e individualizada."

Observações: E quando se pensava que a jarretice não podia ir mais longe, eis que o professor nos surpreende. Eu chamaria atenção para os pontos 4) e 7), que consistem em argumentos sofisticadíssimos para a utilização deste método defensivo. Mas antes de falar deles, gostaria de falar de outras coisas. Para o professor Jorge Castelo, este é o método melhor para anular "um jogador de grande capacidade táctico-técnica", coisa de que, por exemplo, Maradona, um dos jogadores com maior "capacidade táctico-técnica" da História, discordava. Gostaria ainda de falar do substantivo "desmerecimento", coisa que acontece aos atacantes quando marcados individualmente (caro professor, não quereria antes dizer "esmorecimento"?), e do verbo "ter" em vez do verbo "estar", em frases como "como se tivesse efectivamente marcado" e "que o leva a actuar como se tivesse marcado, quando na realidade não está". Sem sombra de dúvida, uma boa prova da imensa categoria deste académico respeitado. Sigamos agora para o prometido. Acredita Jorge Castelo que a marcação ao homem desgasta psicologicamente o jogador que sofre essa marcação e, não satisfeito com isso, acredita também que esse desgaste dá lugar a um "constrangimento psicológico" que o leva a comportar-se em todas as ocasiões como se estivesse marcado. Significa isto que, para Jorge Castelo, um jogador de futebol, quando marcado em cima durante algum tempo, passa a comportar-se como o cão de Pavlov, reagindo à ausência da marcação do mesmo modo que reagiria à sua presença. Podemos, portanto, concluir que o enormíssimo académico tem um jogador de futebol em tão boa conta como um rato de laboratório, como alguém cuja capacidade de decisão é facilmente manipulável. Eu não sei que jogos o professor tem visto, mas eu não me lembro de nenhum avançado que, ficando inesperadamente isolado frente ao guarda-redes, voltasse para trás apenas porque não era normal dispor de uma situação como essa, estando mais habituado a outro tipo de comportamento. Este é, aliás, um bom exemplo daquilo que dizia ao início, acerca de as competências de um bom treinador dependerem acima de tudo de coisas que têm pouco a ver com conhecimentos futebolísticos. Se o professor Jorge Castelo procurasse aperfeiçoar os seus conhecimentos em áreas que nada têm a ver com o futebol, se soubesse, por exemplo, que um ser humano adulto e perfeitamente racional dificilmente responderia condicionadamente como o cão de Pavlov, não publicaria disparates como estes. Mais chocante ainda é achar que este método defensivo é especialmente eficaz a seguir a um golo obtido. Parece presumir o académico que defender ao homem, além de criar problemas de raciocínio aos adversários, ainda os desmotiva, sobretudo a seguir a situações em que a perda de motivação se torna mais plausível, como seja um golo sofrido. Além, portanto, de servir para transformar homens em asnos, defender ao homem é também útil para deixá-los melancólicos e abatidos. Permitam-me a analogia: defender ao homem, para o professor Jorge Castelo, é mais ou menos como um navio pirata em que os piratas, depois de pilharem os navios que abordam, não só embebedam os marinheiros do navio abordado, deixando-os incapazes de responder racionalmente, como também lhes levam toda a água potável, fazendo-os acreditar que não têm possibilidade nenhuma de sobreviver. É claro que um método defensivo deste tipo não dá hipóteses nenhumas. Perante tamanhos benefícios, nem sequer consigo perceber como é que caiu em desuso.

Enfim, já vai longa a amostra. O professor Jorge Castelo defende isto e muito mais. Para o que interessa, isto basta. Este senhor vai agora trabalhar num dos clubes mais importantes do país. E não publicou isto há 30 anos, como se poderia pensar. Publicou-o há 8, o que significa que dificilmente pensará de modo diferente. Para aqueles que defendem a aposta incondicional em académicos, o meu conselho é que é reflictam um pouco antes de falar. A academia não pode, obviamente, ser representada por um único exemplo, ainda que esse seja o mais reputado dos exemplos, mas também não pode, por si só, ser uma fonte de saber incontornável. A principal diferença do professor Jorge Castelo para o comum dos treinadores é a de ter reputação. Nos dias que correm, por mais disparates que se digam, por mais pateta que se seja, a reputação, o nome, os rótulos, e a capacidade de dar palmadinhas nas costas das pessoas certas, são os atributos mais importantes para se chegar longe. Em vez de se contratar competência, contratam-se aparências. O académico agradece, engorda os bolsos, acrescenta uma linha ao currículo, e os estúpidos continuam a bater-lhe palmas, quem sabe esperando que um dia os recompense o académico, lembrando-se deles em qualquer ocasião de necessidade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma Crise ou um Desejo?

Se, por um lado, o recente distanciamento entre os dois principais candidatos ao título em Espanha tem motivado os disparates habituais daqueles que têm por santo protector José Mourinho, suscitou, por outro, a ideia de que o Barcelona se encontra em crise. Para quem não vê os jogos, e olha apenas para os resultados, talvez seja esta a impressão que dá. Para aqueles que se acham muito espertos e que perdem horas a fio a tentar perceber o jogo, é no mínimo inaceitável que pensem desse modo. Falar em crise interna é absurdo, precisamente porque os resultados negativos dos catalães são relativamente fáceis de explicar. Começo pelo recente jogo em Pamplona, diante do Osasuna. Num campo com aquelas condições, a vantagem que o Barcelona tem em qualquer jogo por trocar a bola com facilidade entre as linhas adversárias fica imediatamente posta de lado. Num terreno em que era praticamente impossível jogar ao primeiro toque com o mínimo de segurança, o Barcelona não pôde exercer o seu habitual jogo de posse com a mesma qualidade. Se juntarmos a isso o facto de Xavi, Iniesta, Fabregas e Busquets não terem alinhado, ficamos praticamente com a explicação de que precisamos. Sem estes, o meio-campo do Barça, que é o sector mais importante no modelo da equipa, não podia necessariamente ter o mesmo rendimento, sobretudo em termos de criatividade. Juntemos a isto a ausência de Keita, na Taça das Nações Africanas, e temos que Guardiola teve de fazer alinhar Mascherano no meio-campo, pela primeira vez esta época. O argentino não só compromete incrivelmente em termos ofensivos, como é uma nulidade em termos posicionais, e teve responsabilidades directas em todos os golos sofridos. Significa isto que o Barcelona está em crise?

Para mim, a diferença no campeonato (que estará praticamente ganho pelo Real), pode ser facilmente explicada, sem recorrermos à ideia de que há alguma crise. Principalmente porque não há crise nenhuma. A explicação não é linear, obviamente, mas ainda assim fácil de obter. Veja-se o tempo de utilização dos jogadores. No Real, Mourinho raramente mexeu no seu onze. Guardiola tem optado por outra estratégia. Callejon, Altintop, Granero e Nuri Sahin, por exemplo, têm menos minutos de utilização do que Isaac Cuenca, que seria, à partida, apenas a quinta opção para as alas. Christian Tello, Sergi Roberto, Jonhattan dos Santos e Gerrard Deulofeu têm sido presença praticamente assídua na convocatória. As lesões de Villa, Afellay, Pedro, Xavi, Fabregas, Iniesta e Busquets têm, evidentemente, possibilitado que assim seja. Mas o importante é que Guardiola não tem forçado os mais conceituados a jogar sistematicamente. Faz isto com que, ao fim de alguns jogos, o Real consiga manter a consistência, e o Barça não. Agora, falar de crise quando os maus resultados do Barcelona foram quase sempre obtidos em jogos em que se verificaram muitas ausências parece-me estúpido.

No campeonato, o Real encarou cada jogo como uma final, e não facilitou minimamente. Pôde dar-se a esse luxo por várias razões: porque não teve, tirando Ricardo Carvalho e, mais recentemente, Di Maria, lesões em jogadores fulcrais (no Barcelona, Afellay, Villa e Pedro praticamente ainda não jogaram; Piqué e Puyol passaram os primeiros dois meses de competição parados ou a adquirir ritmo; Alexis, Fabregas, e Iniesta já tiveram lesões que os obrigaram a parar várias semanas; Xavi tem sido gerido a pinças; Keita esteve um mês ausente), porque o grupo da Liga dos Campeões era ridiculamente acessível, e até porque foram eliminados da Taça do Rei (os últimos 5 pontos que o Barça perdeu foram em jogos três dias antes ou três dias depois de compromissos a meio da semana para a Taça do Rei). O Real apostou forte no campeonato, e tem conseguido manter-se na frente, muitas vezes com vitórias alicerçadas numa força de vontade francamente assinalável. O Barcelona já ganhou 2 competições, continua na Taça, e acabou por perder pontos importantes no campeonato. Não há crise nenhuma. Há pontos decisivos perdidos, que a juntar à campanha praticamente imaculada do Real explicam tudo.

Para os que acreditam na ideia de uma crise, o conselho que dou é que vejam os jogos do Barcelona, e não apenas os resultados ao domingo à noite. E lembrem-se também de que era de crise que se falava há quatro anos, quando o Barcelona (na altura no primeiro ano de Guardiola) somou apenas um ponto nas primeiras duas partidas na liga. Se tivessem visto os jogos nessa altura, como se vissem os jogos agora, pensariam talvez duas vezes antes de falar em crise. Eu, que vi os jogos todos do Barcelona esta época, ainda não vi um único jogo em que os catalães não merecessem a vitória. Um único. Ainda não vi um jogo em que a equipa não conseguisse encontrar maneiras de resolver os seus problemas, um único jogo em que pudesse dizer que o adversário tivesse conseguido manter os catalães desinspirados e longe das imediações da sua baliza, como por exemplo o Hércules conseguiu em Camp Nou o ano passado. Repito, ainda não vi um único jogo em que o resultado não devesse ser favorável à equipa de Guardiola. Como é óbvio, houve jogos menos bons, jogos em que a equipa se "pôs a jeito", jogos em que facilitou. Nesses jogos, ao contrário do que aconteceu com o seu rival, o Barcelona perdeu pontos. Mas, em todos eles, tal como perdeu pontos por um ou outro detalhe, podia facilmente não os ter perdido, e era até isso o mais provável. Aconteceu frente à Real Sociedad, por exemplo, em que a seguir a uma primeira parte de domínio absoluto, com 2-0 ao intervalo, a equipa entrou para a segunda parte desconcentrada, acabando por consentir o empate. Aconteceu contra o Getafe e contra o Osasuna, em que o estado do relvado não ajudou. Aconteceu também contra o Atlético de Bilbao, debaixo de uma tempestade que fez com que o jogo não fosse fácil de jogar. Mas, em qualquer um destes jogos, mesmo tendo o Barcelona jogado menos do que poderia, jogou mais do que o suficiente para vencer.

Tal não se pode dizer, por exemplo, do Real Madrid, que chegou já a golear em jogos em que, francamente, nem empatar merecia. O futebol é assim mesmo, e o que é facto é que a equipa de Mourinho tem sabido contrariar a pouca inspiração que tem denotado em muitos jogos com uma força de vontade e uma mentalidade incríveis. Se me perguntassem, diria que não acreditava que uma equipa conseguisse ganhar sistematicamente tendo como principal arma uma mentalidade vencedora, mas a verdade é que o Real, que em alguns jogos até tem apresentado bastante qualidade, tem vencido muitos apenas pelo "querer". Perdi mesmo já a conta dos jogos em que o Real arrancou a perder, fez uma primeira parte miserável, e acabou por dar a volta na segunda, sem apresentar um grande futebol, mas com uma força anímica muito grande. Foi assim com o Levante, este fim-de-semana, por exemplo, se bem que ter ficado a jogar contra dez ajudou. Tal e qual foi o jogo com o Atlético de Madrid, em que goleou, é verdade, mas em que, até aos 20 minutos (antes do golo do empate e da expulsão do guarda-redes colchonero) estava a ser completamente manietado e perdia por 1-0. Há duas semanas, com o lanterna vermelha Saragoça, em casa, podia facilmente ter perdido pontos, tal foi o mau futebol que apresentou. Frente ao Maiorca, igual: começou a perder, a jogar muito mal, e acabou por dar a volta na segunda parte, já perto do final, quase só pelo esforço. Frente ao Atlético de Bilbao, levou mesmo um banho de bola (o golo do 2-1 é obtido na sequência de duas faltas evidentes, e a seguir ocorre mais uma expulsão, o que permite ao Real voltar a golear). Aliás, a quantidade de jogos que a equipa tem resolvido após expulsões de adversários também ajuda a explicar a regularidade das vitórias. Frente ao Valência, mais um jogo em que o Real não conseguiu ter o controlo e venceu quase miraculosamente, depois de um jogo magnífico dos comandados de Unai Emery. Frente ao Espanhol, venceu por 4-0, mas passou o jogo a sofrer, com a equipa catalã sempre muito melhor, em quase todos os momentos do jogo. Bastava o Real ter perdido pontos nalguns destes jogos menos conseguidos para que agora o campeonato continuasse em aberto, e não se falasse agora em crise no Barcelona. Como, apesar de o Barcelona continuar a controlar muito melhor as suas partidas do que o Real, acabou por ter deslizes que os madrilenos não tiveram, e que se explicam principalmente porque nem tudo é controlável num jogo de futebol, acha-se que os pontos que o Barcelona perdeu demonstram que a equipa tem estado pior no campeonato. Pois não tem. Tem estado bem melhor do que o Real Madrid, até. Simplesmente, tem tido lesões que os madrilenos não têm tido, tem feito uma gestão de esforço que os outros não têm feito, tem tido infortúnios, etc.. E tudo isso são detalhes suficientes para que exista uma distância pontual que não condiz com a qualidade de jogo que as duas equipas têm apresentado.

Por fim, queria ainda chamar a atenção para duas coisas. O Real está empenhadíssimo em vencer o campeonato, e é muito difícil a uma equipa como o Barcelona, que ganhou tudo o que havia para ganhar nos últimos tempos, ainda por cima de forma categórica, manter os índices de concentração tão altos como no passado. Em certos momentos isolados dos jogos (início e final das partidas, após uma vantagem dilatada, etc.), a equipa tem denotado algum relaxamento. Em termos de concentração competitiva, neste momento, o Real Madrid é superior, o que não é nada de extraordinário. A meu ver, esse tem sido o principal factor para que a equipa de José Mourinho tenha mantido a regularidade de vitórias. No Barcelona, quando muito explicará um ou outro deslize, como o que aconteceu ante a Real Sociedad. O que quero com isto dizer é que esse é um factor circunstancial, que advém do facto de o Real estar há muito tempo sem vencer o campeonato, do facto de não conseguir vencer o Barcelona, e do facto de querer recuperar a dignidade perdida. Estas circunstâncias permitem a campanha da equipa. Sem elas, o Real é o mesmo Real do ano passado, com o mesmo tipo de problemas ao nível da qualdidade do jogo: trata-se de uma equipa fortíssima do ponto de vista individual, muito bem trabalhada em transição, mas com problemas a nível de organização ofensiva (acho que tem melhorado nos últimos tempos, e a meu ver porque Kaká e Granero têm jogado mais, em detrimento de Khedira, Lass e Di Maria). Em organização, o Real já tenta mais penetrações pelo meio, e já privilegia mais o toque curto e o passe vertical, mas continua a não ser capaz de invadir blocos baixos com facilidade. A sua força, neste momento específico do jogo, tem sido essencialmente a alma guerreira da equipa, assim como a qualidade individual dos seus jogadores.

Uma última coisa, apenas a respeito da gestão do plantel. Guardiola, mesmo numa época em que o Real Madrid não tem cometido erros, não tem tido quaisquer problemas em lançar vários jovens: Cuenca, Tello e Sergi Roberto, principalmente, já para não falar de Thiago. Tratam-se de jovens com qualidade, mas que, se não tiverem a oportunidade de jogar com o mínimo de regularidade, nunca se afirmarão. Isto para dizer que, ao contrário de Mourinho, que está principalmente interessado em engordar o currículo, em vencer no presente, Guardiola tem de juntar às ambições presentes a ideia de clube e de futuro que não preocupa o português. A curto prazo, isso pode ter ajudado a custar este campeonato ao catalão, mas dará certamente dividendos no futuro. Também por isso, não posso deixar de presenteá-lo com o meu largo aplauso pela coragem. E, acima de tudo, é mais uma lição para clubes que acham que apostar na formação é apenas arranjar maneira de ter os melhores miúdos do bairro a jogar pelos seus escalões mais jovens. O Sporting, acima de qualquer outro clube em Portugal, deveria aprender com o que Guardiola está a fazer em Camp Nou. A sede de títulos não pode nunca pôr em causa a ideia de futuro de um clube, e se há jovens com potencial para servir esse clube, esses jovens devem ser lançados sem medo, mesmo que, a curto prazo, a equipa se ressinta dessa aposta. O futuro desses jovens, e o contributo que darão à equipa, justificará certamente o risco.

Para finalizar, agora sim, não concordo, de maneira nenhuma, que se associe aos resultados internos do Barcelona uma crise. Esses resultados têm explicação fácil, e qualquer pessoa justa que tenha visto os jogos das duas equipas que lideram o campeonato dirá que a qualidade que os catalães têm apresentado em campo continua a ser bem superior. Significa isto que o Barcelona, podendo não vencer este campeonato, continua a ser a melhor equipa do mundo, a larga distância dos outros, e continua a ser o principal candidato a ganhar tudo o resto. A única coisa em que o Real de Mourinho tem sido superior tem sido na determinação em vencer. E isso, desculpem-me o cepticismo, é muito pouco. As pessoas que falam em crises têm teorias acerca das oscilações de forma das equipas. Mas até nisso este Barcelona é diferente de todas as outras equipas, no presente e no passado. É que não houve nunca uma equipa que estivesse tão imune a crises, a oscilações de forma, a perdas de motivação, como esta. Tem isso a ver, também, com o próprio modelo de jogo, que exige dos jogadores uma concentração que outros modelos não exigem. Pode haver momentos de descontracção pontuais, mas não há, nem nunca houve, e, arriscaria, não haverá tão depressa, uma perda de motivação ou de concentração significativa que faça com que a equipa fique mais perto de perder os seus desafios. Não há crise nenhuma na Catalunha. Há, talvez, isso sim, um desejo enorme fora dela de que essa crise de facto exista. Infelizmente, para os que a desejam, estão equivocados. Mesmo perdendo uma ou outra competição, ainda demorará algum tempo para que a hegemonia de Guardiola e dos seus pupilos possa realmente ser posta em causa.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

O conceito de Busquets

Se tivesse de escolher um jogador que melhor expressa os conteúdos do nosso blogue seria sobre este que a minha opção recairia. E o facto de Guardiola vir a público reconhecê-lo como o melhor médio do mundo é mais revelador do conceito de futebol que envolve o Barcelona de Guardiola do que propriamente das qualidades de Busquets.

É sinónimo de não fazer a mínima ideia do futebol que o actual Barça pratica estranhar ou não compreender as palavras de Pep. O futebol catalão assenta em predicados intelectuais, numa abordagem diferente e superior ao jogo, rompendo com os requisitos tradicionais para a prática do mesmo sobrepondo-lhe a condição de jogo à de desporto. Os argumentos físicos e técnicos diluem-se no caractér decisivo que a capacidade de deliberar adquire, em torno da qual gira todo este modelo: a necessidade de cada jogador se relacionar da melhor forma com os colegas em função de uma ideia de jogo, assente principalmente em conceitos colectivos, que guia o todo no qual está inserido, obriga-o a depender sobretudo da sua capacidade de decisão, não das caracteristicas que lhe permitissem vencer mais duelos individuais.

É a capacidade de perceber qual a melhor linha de passe a criar ou a respeitar, compreender o que cada momento do jogo pode oferecer sem que o equílibrio colectivo seja colocado em causa, que mais importa. Por isso, muitos apelidam o jogo da equipa de Guardiola de aborrecido. E percebe-se que o apelidem assim: a maneira como a equipa aborda o jogo, com todos os jogadores, ou quase todos, conscientes de que o importante, a cada instante, é tomar a melhor opção possível, impede que assistamos a jogos divididos, ou com uma grande intensidade física. Isto para além de que um jogo baseado em trocas de bolas aparentemente inconsequentes irrita naturalmente os mais pragmáticos e simplistas. É porque o modelo catalão exige dos seus jogadores acima de tudo uma capacidade de decisão óptima que um avançado não se precipita na procura do golo, nem um médio na conquista de uma assistência. Daí que a sublimação dos atributos individuais que permite a cada jogador forçar as conquistas a que cada posição, tradicionalmente, está associada, seja tão irrelevante.

Numa equipa que utiliza essencialmente o toque curto, em função dos apoios que constantemente são criados, a capacidade técnica que o passe longo requer, por exemplo, torna-se supérflua; um jogador que seja muito evoluído tecnicamente e forte nos duelos individuais, mas que não tenha a capacidade de tirar partido da dúvida que o posicionamento dos seus colegas impõe ao adversário, não saberá tirar o melhor proveito daquilo que o colectivo lhe oferece nem saberá potenciar devidamente as suas capacidades, desenrolando as suas movimentações de forma aleatória e provocando desequilíbrios na própria estrutura da equipa. E assim, finalmente, chegamos a Busquets. O número 16 blaugrana não apresenta dotes técnicos extraordinários. Tão pouco é um jogador muito forte nos duelos individuais. No entanto, a forma como lê o jogo, a maneira como consegue criar linhas de passe e antecipar as que os seus colegas vão desenhar, colocam-no num patamar superior.

O crescimento deste jogador, como o já foi referido um sem número de vezes aqui, apenas seria possível neste Barcelona, no de Guardiola, num paradigma que percebesse que a excelência em futebol depende acima de tudo da capacidade intelectual dos seus intervenientes, só assim permitindo levar ao limite a sua vertente colectiva, desprezando as valências exclusivamente individuais. Podemos assim entender as palavras de Guardiola, se as interpretarmos como uma sinédoque, não apenas como um elogio a um jogador, mas também como um elogio ao futebol que o seu conjunto pratica: não é apenas Busquets que é o melhor médio do mundo; é o futebol que este Barcelona conceptualiza, única razão pela qual Busquets se tornou no que é hoje, que é o melhor futebol do mundo e de todos os tempos.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Domingos e a Coragem

Não sabendo a melhor forma de iniciar este post, entre uma coisa boa e outra má opto pela boa: vou começar por falar da expulsão de Kompany no recente derby para a Taça de Inglaterra. A estupefacção que me assaltou ao dar conta da expulsão do jogador do Manchester City em nada se relaciona com um possível desacordo no que toca à medida sancionada pelo Sr. Chris Foy, mas sim com o facto de um árbitro em Inglaterra ter tido a coragem de expulsar um jogador nestas circunstâncias. A intenção do central do City foi jogar a bola, dizem uns; ele nem tocou no Nani, apregoam outros; e que dizer daqueles, mais dedicados ao ramo da psicologia e do comportamento humano, berrando a quem quer que deles discorde, a suprema prova do crime: o Nani nem sequer reclamou.

Não discuto nenhum destes factos: realmente, Kompany apenas tocou na bola; acredito que apenas quisesse jogar a bola, e não me pareceu encontrar na figura de Nani esboço de protesto. No entanto, não há uma conjugação possível destas premissas que, na forma de um argumento, possa colocar em causa a legitimidade da expulsão. Kompany entra a pés juntos numa bola dividida, não manifestando qualquer tipo de respeito pela integridade física de um colega de profissão (que, diga-se de passagem, escapou impune porque abdicou de dividir o lance, face à entrada do central belga). A ele apenas lhe importou ganhar o duelo, independentemente da abordagem e das consequências da mesma. Isto não é uma caça às bruxas, até porque é um central que aprecio. Daqui decorre que este comentário não tem um cariz pessoal, mas sim particular; e, se assim é, é-o porque este caso, e a respectiva sanção, tem tanto de correcto, como de raro. São poucos os árbitros que têm a coragem expulsar jogadores em lances semlhantes, o que muito agrada a Pepe, bem sei, embora nem tanto àqueles que realmente gostam de jogar futebol. Como tal, decerto que entradas como estas se propagarão pelos estádios, inibindo os artistas mas alegrando os cuteleiros. Mas, ainda assim, indignando meio-mundo, é bom que de quando em vez alguém alie bom-senso a coragem, e mande um tipo destes tomar um duche frio.

Passemos agora à coisa má. Renato Neto, ou talvez Domingos. Quem sabe se os dois. Renato Neto, pelo jogo horrível; Domingos, por lhe ter permitido fazer um jogo horrível. Vamos por partes. Apresenta o Sporting este ano um excelente plantel. Não sei se será o melhor dos últimos dez anos, mas é, sem qualquer dúvida, um dos melhores: Schaars, Elias, Matías Fernandez, Izmailov, André Martins, Pereirinha, Onyewu, Rinaudo, Carriço, Ínsua, Wolfswinkel, Rodriguez, Carrillo, Jeffrén, etc. (e um Patrício que finalmente se justifica como titular), são jogadores que conferem qualidade e quantidade a Domingos. Não me revejo nas escolhas que Domingos faz, nem tão pouco na maneira como a equipa evoluiu, principalmente no plano ofensivo: os ataques fazem-se quase sempre pelos corredores laterais, tornando-se uma equipa demasiado previsível, facto que, timidamente, é disfarçado pela qualidade dos jogadores à disposição do treinador. No entanto, mesmo tendo em conta a minha incredulidade em Domingos, nada me preparou para a opção que tomou para o embate frente aos dragões; e as consequências só não tomaram proporções desastrosas porque encontrou um Porto muito debilitado, sem imaginação, a anos-luz do Porto da época passada.

O posicionamento horrível de Renato Neto criou um enorme espaço entre o meio-campo e a defesa leonina. É verdade que o Porto nunca soube aproveitar esse mesmo espaço, mas isto não escamoteia a péssima opção de Domingos, assim como não dilui a fraquíssima exibição do novo 31 de Alvalade. Talvez dando conta disso, Domingos lançou Matías e Izmailov, na segunda parte, baixando Schaars e Elias para um duplo pivô, ganhando com esta opção mais qualidade no passe, e uma melhor gestão do espaço. Acredito, e por momentos cheguei mesmo a acreditar que tal fénomeno seria possível, que a melhor solução para o sábado passado passasse pelo recuo de Schaars para trinco, colocando Matías e Elias como médios-ofensivos. Mas também era pedir de mais, bem sei...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Carrosséis Imaginários e a Desmarcação como Engodo

Não há equipa, actualmente, que promova discussões teóricas tão interessantes como o Barcelona. Toda a revolução conceptual que a equipa de Guardiola encetou, sobre a qual parece agora haver consenso, embora há três anos, quando o sugerimos aqui, ninguém acreditasse nisso, deu ocasião a várias ideias acerca das suas virtudes. Uma delas, muito comum, tem a ver com a ideia de carrossel. Para muita gente, onde este Barcelona se distingue é na dinâmica circular que os seus jogadores apresentam, no exercício de um carrossel, ao estilo do futsal, que faz com que os jogadores não tenham posições fixas no terreno, baralhando as marcações. Escusado será dizer que discordo disto, como aliás o título do texto o sugere. Na minha opinião, não existe qualquer carrossel. E, apesar de concordar que a dinâmica da equipa é fortíssima, faz-me sempre confusão que se defenda a dinâmica como uma virtude porque me parece sempre que as pessoas que falam de dinâmica usam a palavra para designar qualquer coisa que não percebem bem. Aqueles que dizem que a dinâmica deste Barcelona é fantástica parecem-me sempre, por isso, pessoas que são capazes de reconhecer que a equipa é extraordinária, mas que, por não perceberem ao pormenor o que a torna extraordinária, usam uma palavra de um modo vago para explicarem a elas próprias o desconforto que sentem. A teoria do carrossel vem na sequência disto.

Não sou especialista em futsal, nem percebo o suficiente do jogo para ter opiniões interessantes acerca dele, pelo que me absterei de falar dele em pormenor. No entanto, não posso deixar de referir que o futsal, nem que seja pelas dimensões do campo e pelo número de jogadores em cada equipa (o que faz com que a interacção entre jogadores e entre equipas seja diferente de um jogo em que o número de jogadores é diferente), é um jogo muito diferente do futebol. Como se joga com os pés e como muitas das regras são semelhantes às do futebol, as pessoas têm a tendência a achar que são jogos parecidos. Eu acho que as parecenças são superficiais, e que, no que há de essencial, o futebol é tão distinto do futsal como do basquetebol. É também por isso que a ideia de que este Barcelona tenta emular o carrossel que tipicamente as equipas de futsal utilizam me parece francamente absurda. No futsal, a ideia de cobertura (ofensiva ou defensiva) muito provavelmente não faz sentido (ou tem um sentido muito diferente); no futebol é fundamental. Para ser justo, as pessoas não acham que o Barcelona utilize um carrossel em que todos os seus jogadores intervêm. Mas muitas acham que, pelo menos do meio-campo para a frente, é assim que a equipa joga, sendo por isso que causa tantos problemas aos adversários. Se o Barça utilizasse um carrossel, pelo menos do meio-campo para a frente qualquer jogador poderia passar por qualquer posição. E isso não é verdade. Ninguém vê o médio defensivo à frente dos médios ofensivos. Ninguém vê o extremo a fazer cobertura ao médio defensivo. Saber aproveitar os espaços interiores é muito mais importante do que fazer a equipa circular como um carrossel.

Falar em carrossel para definir o futebol do Barcelona ou é falso ou profundamente vago. E por isso absurdo. Resulta essencialmente de as pessoas perceberem que a equipa de Guardiola se movimenta de forma esquisita, para aquilo que é normal, e de darem demasiada importância a isso. Outro dia, quando via o clássico contra o Real Madrid, disse-me uma das pessoas com quem via o jogo que parecia que o passe nunca era feito para o jogador que se desmarcava. Não vale a pena falar do privilégio que é ver futebol com quem consegue fazer observações deste tipo. Mas é muito mais relevante, e sobretudo muito mais concreto, falar disto do que falar de carrosséis imaginários. Esta, sim, é uma observação sobre a qual vale a pena reflectir, e que pode explicar muito melhor o que é esta equipa. Durante décadas, aceitou-se quase religiosamente a ideia de que o portador da bola devia respeitar a desmarcação do colega, endossando-lha. O Barcelona de Guardiola também veio quebrar com esse preconceito, e usa a desmarcação como ilusão, para sugerir uma hipótese de passe que depois não utiliza. O trabalho sem bola, seja para a receber, seja para atrair atenções, é fundamental nesta equipa. E esse trabalho sem bola é muito mais complexo do que um mero carrossel em que os jogadores se movimentam em círculo, complementando-se uns aos outros. Não é raro que um avançado baixe para que dois médios entrem nas costas; não é raro que um extremo faça uma diagonal para o lateral receber na profundidade; não é raro que um jogador se movimente horizontalmente entre linhas para que um médio, vindo de trás e com um movimento vertical, receba a bola no exacto local de onde o colega partiu.

Quando se fala em sistemas tácticos sem avançados, dá-me, por isso, vontade de rir. Do facto de o Barcelona entrar em campo sem jogadores com características de avançados não se segue que não jogue com avançados. O que define um avançado é a posição relativa aos colegas em que joga, não as suas características. Quando se diz que a revolução operada por Guardiola consistiu principalmente na utilização de um modelo de jogo sem avançado, ou num modelo de jogo sem avançados, erra-se grosseiramente. Guardiola jogou sempre com avançados, ainda que avançados com movimentações e características diferentes das que habitualmente os avançados têm. Aquilo que me parece, de facto, revolucionário na dinâmica desta equipa não tem, portanto, a ver com um sistema táctico sem avançados, nem com um modelo de jogo semelhante a um carrossel, mas sim com uma certa arte de atacar. Tal como me parece que a equipa usa a bola como um engodo, para puxar os adversários para onde deseja e para arranjar os espaços que pretende, parece-me que usa igualmente a desmarcação como engodo, para sugerir linhas de passe que não utiliza e para levar adversários a tentar antecipações que não ocorrerão. Ao fazê-lo, causa necessariamente a ilusão de que os seus jogadores se movimentam sem lei, como se não tivessem posições, e de que a dinâmica da equipa assenta nessa desordem. Ora, a desordem é apenas aparente, e serve para levar as defesas adversárias a desorganizarem-se. O Barcelona é organizadíssimo. E é por sê-lo que aproveitam de forma tão sistemática a desorganização que os movimentos sem bola dos seus jogadores causam nas defesas contrárias. Se jogassem em carrossel, como muitos acham, o Barcelona seria uma equipa muitíssimo mais previsível, mais fácil de parar, e muito mais permeável em termos defensivos.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Certezas (25)

Não é propriamente uma novidade, mas há muito que merecia a honra de ser falado aqui. Não o fiz antes essencialmente porque queria perceber melhor qual seria o seu enquadramento no plantel da sua equipa, este ano, até porque tinha ideias a esse respeito. O seu valor é inquestionável e serão poucos os que acharão alguma novidade nesta referência. Não é, como o seu ídolo, Xavi, um jogador tão inteligente e criterioso no momento do passe. Nem me parece que seja em fases de construção tão prematuras que pode fazer a diferença. Claro que pode jogar aí, e claro que aparecerá sempre em zonas baixas, mas a sua qualidade de drible, sobretudo, merece um aproveitamento diferente. Não o considero tão rápido a ler o jogo como outro colega com quem cresceu e com quem coabitou no meio-campo, Jonathan dos Santos, mas parece ter maiores recursos que o mexicano, e uma personalidade mais forte. É atrevido, tem uma capacidade técnica invulgar, e é assaz inteligente para jogar em qualquer posição do meio-campo, mas é entre linhas, enfiado entre as defesas contrárias que gostaria de vê-lo mais vezes. É fortíssimo no último passe, muito criativo, e individualmente desembaraça-se de situações difíceis sem problemas. Como médio, não tem ainda a maturidade nem a qualidade para poder ombrear com os habituais titulares, e ficaria durante muitos anos na sombra deles. Mas encostado à esquerda, como no último jogo, partindo depois para dentro, ou à frente dos dois médios, percorrendo sem bola os espaços entre os médios e os defesas adversários, oferecendo-se para tabelas curtas e puxando as marcações adversárias para onde interesse à equipa, acho que tem tudo para crescer. Em qualquer uma dessas posições, a sua responsabilidade é menor, e as suas melhores qualidades podem continuar a ser trabalhadas. O seu treinador não parece concordar, utilizando-o quase sempre como médio-ofensivo, mas nunca como aquele jogador que joga à frente dos médios, menos posicional, deambulando pela frente de ataque com menores amarras, mais preocupado em solicitar linhas de passe do que em ter ele a bola. Agora que é claro que Guardiola valoriza como ninguém a utilização de jogadores com características de médios nas posições mais ofensivas do seu modelo, assim como valoriza a criação de espaços ofensivos, os movimentos sem bola dos atacantes, a utilização da bola como um engodo, cabe-lhe talvez a missão de fazer de Thiago Alcântara um jogador mais decisivo na manobra ofensiva da equipa, especialmente naquilo que se passa no último terço do terreno, precisamente onde os espaços são mais curtos, a quantidade de vezes que se toca na bola é menor, e a técnica individual mais preponderante.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A Sorte e os Problemas Digestivos

Sou o primeiro a reconhecer que a sorte desempenha um papel muitas vezes decisivo numa partida de futebol, e sou também o primeiro a dizer que aquilo que muitas vezes parece competência tem muito mais a ver com sorte do que com outra coisa. Não é raro uma equipa dominar um jogo, fazer tudo bem feito, mas não ser capaz de marcar, e sofrer um golo por um escorregão, ou por um ressalto impróprio. Em futebol, a sorte é muitas vezes negligenciada, e é muitas vezes o factor chave no desfecho de um jogo. Como dou tanta importância à sorte, sempre acreditei num modelo de jogo que procurasse depender o menos possível das incidências da mesma. Esse modelo, está claro, passa necessariamente por ter mais tempo a bola, por jogar o mais curto possível, com os jogadores próximos, por abdicar da vertigem de um jogo de transições constantes, pela paciência, pela calma, pela frieza e pelo raciocínio. Em suma, um modelo que, nos dias que correm, o Barcelona de Guardiola tão bem põe em prática. E é sobretudo por acreditar que um jogo jogado nestas coordenadas se defende o melhor possível desse factor a que se chama "sorte" que discordo inteiramente das observações de José Mourinho no final da partida do passado fim-de-semana, que explicou o resultado do clássico dizendo que fora a sorte a ditá-lo.

Os argumentos de Mourinho dizem sobretudo respeito aos golos falhados por Ronaldo, quando estava 1-0 a favor dos merengues e quando estava 2-1 a favor dos catalães, e ao segundo golo do Barcelona. Não sei muito bem se faz sentido falar em sorte e não em aselhice ou em falta de pontaria, no primeiro caso. De qualquer maneira, justificar a derrota baseando-se em dois golos falhados, quando o Barcelona teve o triplo das oportunidades para marcar, não me parece que faça muito sentido. Sim, Ronaldo poderia ter feito o 2-0. Mas se Ronaldo falhou um golo que, no entender de Mourinho, faria com que a partida, com 2 golos de vantagem para os da casa, se tornasse diferente, minutos antes Casillas tinha livrado o Real do golo do empate, após lance de Messi. Se Mourinho falasse do falhanço de Ronaldo, mas se lembrasse da defesa de Casillas, a partida não ficava assim tão diferente quanto isso. Se Ronaldo falhou o 2-1, numa cabeçada a responder a um cruzamento, que por si só não é um lance de execução tão fácil como isso, quantos lances não tinha já o Barcelona tido para ampliar a vantagem? E se pode Mourinho justificar a derrota recorrendo a falhanços ofensivos, é legítimo ignorar que chegou à vantagem após um erro não-forçado do guarda-redes adversário? É engraçado que se justifique a derrota deste modo quando o único golo que se conseguiu se deveu unicamente a um lance infeliz do adversário, um lance em que não só há um mau passe a propiciar a recuperação da bola numa zona perigosa, como dois ressaltos que favorecem claramente os merengues. Enfim, por aqui me parece plausível sugerir que as observações finais de Mourinho não foram proferidas num total bem-estar digestivo.

Mas falemos do lance do segundo golo do Barcelona, lance que, no entender de Mourinho, determinou o resultado e que foi fruto unicamente da sorte. Disse Mourinho que não houve talento, que não houve competência, que não houve erros defensivos, que a bola entrou apenas porque a sua equipa teve azar. Bom, em primeiro lugar, não é nada certo que Casillas fosse capaz de defender o remate de Xavi, caso a bola não desviasse no defesa do Real, enganando-o. Mas o importante do lance parece-me estar antes do desvio decisivo em Marcelo. Esquece-se Mourinho, e esquecem-se aqueles que concordam com ele, de que o lance nasce após a insistência, tão habitual nos catalães, de entrar no bloco adversário recorrendo a tabelas curtas, colocando os jogadores próximos uns dos outros; esquece-se de que o alívio de Coentrão, que leva a bola até Xavi, é forçado pela excelência do lance em si, e que, sem esse alívio, Fabregas ficaria isolado na cara de Casillas; esquece-se de que a bola sobra para uma zona onde o Barcelona, pela forma como joga, tem constantemente superioridade numérica; esquece-se de que o Barça, nessa jogada, envolve 7 jogadores no processo ofensivo (Abidal, Fabregas, Iniesta, Alexis, Daniel Alves, Messi e Xavi), com 5 jogadores para lá da linha da grande área e outros 2, Messi e Xavi, logo à entrada dela; esquece-se, no fundo, de que tudo o que precede o desvio decisivo é fruto da excelência do modelo catalão, e é, por conseguinte, fruto de talento, competência individual e qualidade colectiva. Sorte? Sim, mas antes de haver sorte há todo um conjunto de condições que propiciam o aparecimento dessa sorte. Não é por acaso que os jogadores catalães parecem ganhar mais ressaltos que os outros, deixando jogadores como Fábio Coentrão com os nervos em franja. Jogam mais juntos, posicionam-se melhor, e, por arrasto, protegem-se melhor da contingência da sorte.

Outra das coisas que explica o sucesso catalão, e que explica também por que razão falar de sorte, neste caso, não é legítimo, é o que fez Valdés ao longo do jogo. O seu erro, na sua primeira intervenção, foi decisivo para o Real ganhar vantagem, mas nem por isso se atemorizou. Continuou a arriscar, a procurar os colegas, mesmo quando o passe envolvia perigos, porque desse risco depende muito do jogo catalão. Guardiola foi claro: prefere que Valdés insista em fazer aquilo, mesmo havendo a possibilidade de isso originar erros decisivos. E prefere que se cometam erros assim porque não o fazer implica comprometer todo o jogo da equipa. O Barcelona, mesmo oferecendo um golo dessa forma, não mudou a sua identidade; manteve-se fiel aos seus princípios e procurou jogar como sempre joga, sabendo que só assim é superior. O golo de Xavi e o domínio catalão dependeram desse tipo de insistência muito mais do que dependeram da sorte. A sorte criou-a o Barça, ao jogar como joga. Na primeira parte, não foi capaz de ser tão dominador como é costume, e errou muitos passes (embora mais por intranquilidade do que por acção do adversário). Mas a segunda parte foi avassaladora. Sorte? Pelo que aconteceu na segunda parte, sorte teve o Real de o resultado não ser mais expressivo e de a humilhação em sua casa não ter sido maior.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Lições de Mestre (9)

A pergunta que lanço é: a quem pertence o golo, neste lance? O lance é o do primeiro golo do Bayern de Munique, este fim-de-semana, frente ao Werder Bremen. Contra-ataque, dois para dois, e Ribery a resolver. Terá sido assim? A meu ver, metade do golo, no mínimo, é da responsabilidade de Thomas Müller. E o extraordinário é que o é sem sequer ter tocado na bola, em todo o lance. Exagero meu? Não creio. Sem a movimentação de Müller, e aquela movimentação em particular, tenho sérias dúvidas de que o francês conseguisse solucionar o lance do mesmo modo. É por estas e por outras que os marcadores dos golos recebem excessivos louvores pela introdução da bola na baliza. A acção dos colegas (e nem sempre acções com bola) é determinante para que a jogada acabe no fundo das redes. Sempre! Para meu espanto, a movimentação de Müller foi uma das coisas que o comentador desportivo de serviço enalteceu, após o lance. Não sei se terá, de facto, percebido a influência da mesma no desfecho do lance, mas ter, pelo menos, reparado nela é já algo digno de nota.


szólj hozzá: Bayern Munich 1-0 Werder Breme

A jogada é rápida, e assim que Ribery recebe a bola no centro, Müller, que era o jogador mais adiantado e estava descaído para a direita, espera pelo colega, vem para o centro, e passa-lhe nas costas. Esta movimentação é quase absurda, para muitos. Mas é a coisa mais correcta a fazer, numa jogada deste género. Normalmente, faz-se quando dois jogadores estão lado a lado, e aquele que está sem bola passa por trás do que a conduz. Mas quando o jogador sem bola está mais avançado (e é o único nessa posição favorável), é raro esperar, recuar, e passar por trás do portador da bola. É também por isso que o que Müller fez é tão extraordinário. Depois, foi o que se viu. Ao passar por trás de Ribery, cria um momento de indefinição no defesa, que ficou sem saber se Ribery ia fazer o passe, ou se ia driblar para dentro. É esse momento de hesitação que quem conduz a bola deve tentar aproveitar, e foi isso que Ribery fez. Muitas vezes, acha-se que o portador da bola deve obrigatoriamente respeitar a movimentação de um colega nas costas, e dar-lhe a bola. Discordo disto. A movimentação nas costas não serve para dar uma solução de passe obrigatória; serve para deixar o defesa momentaneamente indeciso. Pode parecer que Ribery se desembaraçou facilmente do defesa que lhe saiu ao caminho, e que finalizou sem oposição porque não foi importunado devidamente. Mas tal não foi o caso. A movimentação de Müller criou um momento de hesitação, um momento em que o defesa teve de tentar adivinhar as intenções do francês, e isso foi-lhe fatal. Ficou imediatamente fora do lance, e não pôde importunar o portador da bola. Sem a movimentação de Müller, o defesa aguardaria a acção de Ribery, esperaria pela iniciativa do francês, e reagiria em conformidade. Talvez desse golo na mesma, mas é certo que não remataria tão à-vontade, nem gozaria da aparente liberdade para concluir o lance de que gozou. Metade do golo, se não mais, é do alemão, mas isso, por mais que se enalteça, jamais entrará nas contas de quem interpreta o rendimento de um jogador sem ter em conta a forma como interage com os companheiros.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

O Clássico e os Detalhes

Não tenho muito a dizer do clássico do passado fim-de-semana, a não ser que, embora emotivo, embora bem disputado, não foi propriamente bem jogado. Ambas as equipas arriscaram o menos possível, e o que acabámos por ter foi um jogo dividido, com muitas disputas de bola, muita luta, muito choque, e pouco futebol. O número de passes acertados foi certamente baixo, e as duas equipas preferiram sempre jogar no erro adversário. Ainda assim, nenhuma delas se entregou às evidências, procurando condicionar a posse adversária o melhor possível. Num jogo com estas características, diria eu, os detalhes são importantes, claro. E foi num detalhe, num lance de bola parada, que tudo se decidiu. Mas os detalhes não ocorrem apenas porque sim. O Benfica venceu num detalhe, mas foi também a equipa que mais fez para contar com a benesse dos "detalhes".

É evidente que a vitória podia ter sorrido a qualquer uma das equipas, e que, mesmo estando onze para onze, não houve uma superioridade significativa, em termos da quantidade de oportunidades de golo, dos encarnados. O resultado mais justo, mesmo sem contar com o que o Sporting fez após a expulsão de Cardozo, talvez até fosse o empate. Mas o jogo do Benfica, ainda que sem a qualidade desejável, procurou o mínimo de racionalidade. Fosse por a bola ter chegado mais vezes a Aimar do que a Matías Fernandez, fosse porque Witsel, Aimar e Gaitan se entenderam melhor entre eles, fosse porque os hábitos encarnados são diferentes, a verdade é que o futebol do Benfica foi menos precipitado. O Sporting nunca se interessou por construir fosse o que fosse. Apostou numa pressão alta, excessivamente condicionada pelas referências ao homem, a meu ver, e por conduzir os seus ataques após recuperações de bola, o mais rapidamente possível. Tudo o que vimos, do lado dos leões, foram solicitações dos homens mais adiantados, cruzamentos largos para a área, correrias de Capel, movimentos verticais de Elias e Schaars, e pouquíssima imaginação. É verdade que conseguiu criar algumas oportunidades nestas condições, mas também é verdade que não foi capaz, precisamente por causa deste tipo de decisões, de criá-las em condições minimamente favoráveis.

Como disse anteriormente, a diferença entre as equipas não se traduziu em número de oportunidades de golo. As melhores oportunidades que o Benfica criou foram ou de bola parada, ou após recuperações ou perdas do adversário (lances de Cardozo e de Rodrigo, por exemplo). Mas sentiu-se sempre que o Benfica chegava às imediações da área leonina em melhores condições, que trabalhava melhor os lances, que era mais criterioso, que se preocupava mais em fazer as coisas de modo racional. A sofreguidão leonina podia ter conduzido a outro resultado, até porque a racionalidade dos encarnados não foi assim tão concludente, mas a verdade é que essa mesma sofreguidão condicionou a equipa, e tem de ser introduzida na conversa sobre detalhes. O jogo decidiu-se num detalhe, sim, mas a própria estratégia de Domingos implicava a aceitação de um jogo decidido pela "lotaria" dos detalhes e deixava a equipa menos preparada para os mesmos.

Fala-se demasiado em detalhes, como se os detalhes merecessem uma análise à parte do resto do jogo. Mas a verdade é que, para que uma partida se decida num detalhe, algo tem de acontecer para que esses detalhes se possam verificar. A meu ver, o principal mérito do Benfica na partida foi precisamente o modo racional como tirou partido da sofreguidão do Sporting. Nem sempre o fez bem, obviamente, e tenho até dúvidas de que o tenha feito conscientemente. Mas fê-lo, nem que tenha sido apenas pelas características dos seus jogadores. Jogando com isso, puxou convenientemente o jogo para o tipo de decisões que mais lhe eram favoráveis, e fez pender os pratos da balança para o seu lado. O jogo foi, de facto, repartido em termos de oportunidades de golos, em termos de emoção junto às balizas, mas foi melhor controlado pelo Benfica. A decisão do mesmo através de um detalhe não pode por isso ser demasiado restrita. Decidiu-se num detalhe, sim. Mas um detalhe que o resto do jogo e o comportamento das duas equipas em campo potenciou.

P.S. Não se tem falado muito da ausência de Saviola do onze encarnado, e tem-se gabado o Benfica desta temporada mais do que me parece razoável. De facto, o melhor Benfica da época foi o dos primeiros jogos, altura em que o argentino ainda fazia parte das primeiras opções de Jorge Jesus. Como sempre disse aqui, a principal arma encarnada no primeiro ano de Jesus, aquilo que introduzia diversidade na equipa, eram as combinações curtas entre Aimar e Saviola, assim como a liberdade de que os dois gozavam no modelo de jogo. No segundo ano, Jesus procurou potenciar em excesso aquilo que a equipa já fazia bem, e deu menos liberdade à criatividade dos dois argentinos, evitando até, o mais possível, que os dois jogassem em simultâneo. Esta época acentuou apenas essa tendência. O Benfica deste ano ganhou alguma inteligência e capacidade de gestão de ritmos com os reforços (sobretudo Witsel, Bruno César e Nolito), mas perdeu ainda mais criatividade no último terço do terreno. Parece uma equipa menos dependente das correrias de outrora, menos interessada em jogar a uma velocidade altíssima, mais competente a gerir a bola em zonas baixas do terreno, mas é uma equipa menos forte a penetrar em blocos mais densos, menos imaginativa. Privar as pessoas daquilo de que Aimar e Saviola, juntos, são capazes, é hoje o maior crime de Jorge Jesus.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Utilidade Invisível de um Avançado

Para muita gente, o papel de um avançado resume-se a fazer golos, e a avaliação do seu rendimento depende exclusivamente desse factor. Para outros, mais moderados, o avançado deve fazer golos, mas deve também ser capaz de oferecer outras coisas à equipa. Para um terceiro grupo de pessoas, nas quais me incluo, um avançado, como aliás qualquer outro jogador, deve essencialmente ser alguém que oferece coisas à equipa, sendo os golos que marca um mau critério para lhe definir o rendimento sobretudo porque, dependendo do modelo de jogo da equipa, dos companheiros, daquilo que lhe é pedido, etc., tal competência pode não ser o que de mais importante tem para dar. No Real Madrid, por exemplo, acredito que Cristiano Ronaldo tem tendência a render mais quando Benzema joga (em vez de Higuain), pois o tipo de movimentos e de preocupações do francês facilitam as características do português. E isto mesmo durante os largos meses em que Benzema não fazia golos. O rendimento de um avançado, portanto, não pode ser avaliado nem pela quantidade de golos que marca, nem pela quantidade de outras coisas que oferece à equipa, mas pela forma como se enquadra nessa equipa, pela forma como, de acordo com o tipo de coisas que oferece, facilita ou dificulta o rendimento colectivo. É por pensar no rendimento colectivo e só nele que, por norma, avalio rendimentos individuais de modo muito diferente da grande maioria das pessoas. E é por essa razão que, uma vez mais, quero falar de Hélder Postiga.

Tal como nunca achei Benzema um mau finalizador, não acho sequer que Postiga o seja, como o sabe quem acompanha este blogue. Falha tantos golos como qualquer outro avançado de renome, e se não marca mais é essencialmente porque não está tantas vezes como outro tipo de avançados em posição privilegiada para o fazer. Sobre golos, aliás, a sua prestação na selecção sempre desmentiu a teoria de que era perdulário. E, aliás, a sua prestação em Espanha, até ao momento, tem sido boa para calar certas vozes. Recentemente, outra crítica lhe tem sido feita: a de que está constantemente fora-de-jogo. O que é curioso é que não me lembro de alguém criticar isto em Liedson, que era apanhado em fora-de-jogo muito mais vezes do que Postiga, e que era apanhado essencialmente por distracção, ao contrário do português. A meu ver, releva esta crítica essencialmente de dois tipos de coisas: um preconceito generalizado contra o jogador, e a incapacidade de analisar ao pormenor os lances em que tem sido apanhado em fora-de-jogo. Sobre a primeira dessas coisas, é pouco interessante falar. Postiga pertence ao tipo de jogadores sobre os quais as opiniões que se formam dependem de uma opinião pública negativa previamente formada. Como tenho pouca paciência para demover multidões, e como já escrevi o suficiente, no passado, acerca dos equívocos generalizados em relação ao jogador, não vou voltar ao assunto. Sobre a questão do fora-de-jogo, é verdade que Postiga, nos últimos tempos, tem sido apanhado muito mais vezes em fora-de-jogo do que antigamente. Mas é preciso analisar as situações e perceber os porquês dos factos. Tal como, na época passada, passou a rematar mais do que rematava porque Paulo Sérgio, inclusive publicamente, lhe ordenou que o fizesse, modificando-se portanto de maneira a tentar responder às críticas, parece-me que esta situação advém precisamente de uma tentativa de se tornar mais próximo dos golos, de procurar mais certos movimentos nas costas dos defesas, de modo a criar melhores condições de finalização para si. E da mesma forma que não se critica que Inzaghi, em 6 lances, tenha de ser apanhado 5 vezes em fora-de-jogo para poder usufruir de um sexto lance em condições de finalização privilegiadas, acredito que é injusto criticar Postiga pelas mesmas razões. Veja-se o quarto golo frente à Bósnia. Postiga tem arriscado mais certos movimentos, e isso tem feito com que esteja a ser apanhado em fora-de-jogo mais vezes. Mas se calhar também tem tido mais rendimento em termos de golos porque tem arriscado mais esse tipo de movimentos. Por isso, convém que as críticas se decidam. Se gostam de um avançado que faz golos, que joga no limite do fora-de-jogo para poder estar mais perto dos golos, então não podem criticá-lo por estar precisamente a fazer isso. Se não se importam com os golos que um avançado faz, então deixam-no em paz quando não faz golos.

Voltemos bruscamente ao tema do texto, que tem essencialmente a ver com o tipo de coisas que um avançado pode oferecer a uma equipa, mas das quais as pessoas raramente se apercebem. Diz o Filipe Vieira de Sá, para quem o Postiga, pelas acusações praticamente diárias, deve ser presença assídua nos seus pesadelos, o seguinte acerca do avançado da selecção nacional:

"Os avançados são quem tem menor participação no jogo colectivo, o que é normal, mas na Selecção a sua acção não tem conduzido, nem a qualquer ocasião criada, nem tão pouco a um acréscimo positivo na fluidez de jogo. Ou seja, o contributo positivo do ponta de lança, na Selecção, tem-se resumido à finalização, e apenas à finalização."

Para o Filipe, o avançado, no modelo de jogo da selecção, tem pouca participação no jogo colectivo porque as acções sem bola, as movimentações, as acções com bola longe da baliza, e tantos outros pormenores aparentemente irrelevantes, não entram nas contas que faz para atribuir rendimentos individuais. Como discordo disto, e como acho que Ronaldo e Nani têm tudo a ganhar com a utilização de um ponta-de-lança que se preocupe com movimentos interiores, que sirva de apoio vertical aos médios, e que saia da sua posição, arrastando consigo adversários, é natural que tenha uma opinião diferente. O lance que trago, e a interpretação que vou dar do mesmo, têm por fim, essencialmente, mostrar como há mais do que golos, assistências, e coisas vistosas que devem entrar na análise do rendimento de um avançado, tornando ainda claro por que razão é Postiga útil a esta equipa, como o seria a muitas outras, caso houvesse uma percepção melhor das coisas extraordinárias que tem para oferecer.


szólj hozzá: 3-1

Que eu tenha conhecimento, não se elogiou, no lance do terceiro golo da selecção, senão o passe de Moutinho e a conclusão de Ronaldo. De facto, quem vê o jogo, está atento à bola, e é por esses dois jogadores que ela passa até chegar ao fundo das redes. Evidentemente, tanto um como outro, definiram bem a jogada, e são os principais responsáveis pelo lance. Mas, e agora pergunto eu, não haverá quem tenha facilitado que aquilo acontecesse como aconteceu? Isto é, será o mérito apenas dos dois jogadores, ou terá havido alguém que, muito discretamente, sem tocar nem sequer se ter aproximado da bola, tenha permitido à equipa gozar daquela oportunidade? A meu ver, isso é inequívoco. Estou a falar, naturalmente, de Postiga. Quando a bola está a ser disputada no meio-campo, já Postiga, tendo percebido o espaço que havia entre os médios e os defesas bósnios, se disponibilizara, ocupando esse espaço, para vir receber a bola, na eventualidade de um colega ter tempo e espaço para executar o passe na sua direcção. Ao mesmo tempo, inadvertidamente ou não, o seu posicionamento baixo criou hesitação no defesa central que estava mais perto de si. Foi por isso que Ronaldo, ao receber o passe de Moutinho, se isolou de imediato, porque o defesa, hesitando entre dar um passo à frente para apertar Postiga e ficar recuado, vigiando o posicionamento de Ronaldo, acabou por reagir demasiado tarde. Ao se colocar onde se colocou, ao perceber o espaço que deveria ocupar e ao se disponibilizar para o fazer, muito antes de ser evidente que a equipa ia ficar com a bola, Postiga forçou a indecisão do defesa, o que, por sua vez, facultou a Ronaldo o espaço suficiente para arrancar sozinho para a baliza. Se, por outro lado, Postiga tivesse ficado enfiado entre os centrais, se não estivesse interessado naquele espaço, o defesa, até porque tinha a ajuda do outro central, facilmente se teria concentrado apenas em Cristiano Ronaldo, e nunca ficaria para trás apenas com o passe de Moutinho.

Naquilo que Postiga fez, porém, ninguém reparou. Como não tocou na bola, como Moutinho nem sequer olhou para ele, para a grande maioria das pessoas não teve qualquer acção no lance. Para mim, que não vejo as coisas com a mesma linearidade, teve, e teve muita. Não digo que se tenha posicionado com a intenção de dificultar o comportamento ao defesa. Mas, porque estava preocupado com a equipa, com o dar o apoio certo, com a ocupação do espaço certo, naquele momento, acabou por ajudar a equipa, mesmo que o seu posicionamento entre linhas não tenha sido utilizado para fazer passar a bola. A simples colocação correcta em campo de Postiga, naquele momento, permitiu à equipa (sim, à equipa!), que os dois jogadores que intervieram activamente no lance gozassem das condições ideais para criar uma ocasião de golo. E isto, porque é invisível, é para muitas análises uma acção inútil. É por estas e por outras que as análises que estão preocupadas apenas com acções com bola são redutoras. Neste caso específico, sem ter tocado na bola, sem sequer ter estado perto da zona por onde a bola passou, Postiga foi decisivo para o desfecho do lance. De resto, é este um bom exemplo, a meu ver, de como um avançado não precisa de fazer golos, nem precisa de assistir os colegas para que estes façam golos, nem precisa de ganhar bolas de cabeça, nem precisa de ir ao choque com os defesas, nem precisa sequer, cúmulo dos cúmulos, de tocar na bola para ser útil, enquanto avançado, às necessidades da equipa. A utilidade de um avançado, e aliás de qualquer jogador, nem sempre é visível a olho nu, nem se caracteriza por acções evidentes. E é por isso que o rendimento individual não pode ser condignamente avaliado senão tendo em conta toda a utilidade, visível e invísivel, que esse indivíduo tem na obtenção do rendimento colectivo.

domingo, 13 de novembro de 2011

João Pereira e a Melhor Oportunidade da Bósnia

Há quem ache que João Pereira é isto e aquilo, o melhor lateral-direito de Portugal e arredores, um lateral moderno, veloz, agressivo, intenso, que dá profundidade ao corredor. Não alinho em tais disparates. Reconheço que pode ser uma mais valia colectiva em termos de profundidade, se a equipa o souber potenciar, como por exemplo era Bosingwa no Porto, mas pouco mais. Com bola, raramente decide pelo melhor e só a sua boa capacidade técnica faz com que se safe minimamente. Sem bola, então, é francamente mau. Defensivamente, por exemplo, e apesar de jogar há vários anos em equipas em que se exige dos defesas que saibam ocupar os espaços e relacionar-se com os colegas a cada momento, de ter tido treinadores tão exigentes a esse respeito como são Jorge Jesus e Domingos Paciência, continua muito displicente.

O início de época no Sporting, apesar de pouca gente parecer ter reparado, foi desastroso, com a grande maioria dos golos sofridos pela equipa a resultarem de maus ajustamentos defensivos precisamente de João Pereira, de erros que, a este nível, normalmente se pagam caros. Quis-se justificar o mau início leonino com os bodes expiatórios do costume, a falta de eficácia, a baixa estatura dos centrais, a inexperiência dos jovens, o Carriço, o Postiga, etc., e ignoraram-se todas as asneiras de João Pereira. Não é, contudo, sobre o início de época do Sporting que quero falar. Há dias, referi os erros de principiante de Bosingwa, e muitos podem achar que a minha opinião acerca do melhor lateral direito português coincide com a de Paulo Bento. Não coincide. Acho que, defensivamente, tanto um como outro são jogadores banalíssimos, que cometem erros que ao mais alto nível não se deviam cometer, e que estão sobrevalorizados por isso mesmo. São rápidos, e muitas vezes isso ajuda a compensar o mau posicionamento, os disparates e as distracções. Mas cometem demasiados deslizes para o que se deve exigir em equipas de topo. Aliás, o melhor lateral-direito português, em meu entender, é Sílvio.



O lance que trago ocorre aos 80 minutos do jogo com a Bósnia (aliás, quanto mais perto do final da partida, maior me parece a tendência de João Pereira para errar), aos 9:15 do vídeo, e resulta naquele que foi, talvez, o principal lance de perigo dos bósnios, a par de outro lance pouco tempo depois. A bola vem da esquerda para um jogador bósnio que ocupa um espaço entre linhas, e este, de primeira, isola o avançado. João Pereira está 3 metros atrás da linha defensiva portuguesa, e é ele quem coloca o avançado em jogo, e quem permite que os bósnios transformem um lance aparentemente controlado numa ocasião clara de golo. É verdade que Pepe sai à última da hora (embora Pepe não deva ser exemplo para ninguém), mas, num lance que é conduzido pela esquerda, a responsabilidade do lateral-direito (assim como da linha defensiva), é perceber a referência dada pelo lateral-esquerdo. Se Coentrão e Bruno Alves estão adiantados, e a jogada é conduzida pelo lado deles, Pepe e João Pereira têm de subir para a linha destes. Não o fazendo, permitem que um avançado que se coloque entre Bruno Alves e Pepe adquira uma vantagem decisiva no caso de a bola ser metida pelo meio. João Pereira, provavelmente preocupado com o jogador bósnio que andava ali perto, não percebeu a referência defensiva certa, e ficou 3 metros atrás da linha defensiva. Não subindo no terreno, não só não ajudou a apertar o espaço onde a bola entra em primeiro lugar, permitindo, juntamente com Pepe, que houvesse um espaço entre o meio-campo e a defesa para os bósnios aproveitarem (há também responsabilidades do meio-campo, e nomeadamente de um jogador que não fecha tão dentro quanto devia), como possibilitou que o avançado bósnio escapasse por entre os centrais, pelo simples facto de estar a colocá-lo em jogo.

É por este tipo de lances, frequentíssimo para quem acompanha com atenção os jogos de João Pereira, que não consigo compreender como é que, hoje em dia, havendo tanta informação, havendo tanta preocupação com o detalhe, tanto interesse em questões tácticas, se continua a achar que João Pereira é isto e aquilo, só porque sabe correr, sabe mostrar os dentes, e sabe dar dois toques numa bola. O futebol, pelo menos o futebol moderno, é mais, muito mais, do que velocidade, força de vontade e habilidade. Numa selecção que aspira a pertencer, se não a mais, a um segundo grupo de selecções candidatas a vitórias em certames internacionais, não pode dar-se ao luxo de ter entre os seus titulares indiscutíveis alguém que comete erros sistemáticos deste tipo, erros básicos que podem prejudicar todo o trabalho feito em 90 minutos. E é por ter jogadores como este, jogadores que ombreiam com os melhores do mundo em termos técnicos e em termos atléticos, mas que possuem carências intelectuais relevantes, e por ter não um, mas vários destes jogadores entre os seus titulares, que não me parece que Portugal deva aspirar a tanto quanto tem aspirado nos últimos anos. Sim, em termos atléticos e em termos técnicos, Portugal está entre os melhores do mundo. E, sempre que conseguir levar um jogo para a dimensão física do mesmo, terá possibilidades de vencer qualquer outra selecção. Mas em termos intelectuais está mais perto de uma selecção sul-americana do que do rigor e da eficiência das maiores potências europeias. Temos hoje mais jogadores conceituados do que, por exemplo, há dez anos, mas esquecemo-nos que os jogadores que temos hoje se distinguem por atributos muito diferentes. Apesar, por isso, de mais reputada, de ter mais jogadores espalhados pelos melhores clubes europeus, parece-me esta selecção bem mais pobre do que algumas selecções anteriores. Se continua a ser suficiente para marcar presença nos maiores torneios de selecções, creio que sim. Mas sobre isso tiraremos todas as dúvidas dentro de poucos dias.