quinta-feira, 21 de abril de 2011

A Moral da Derrota

Após o Barcelona ter consolidado a vantagem no campeonato, arrumando porventura a discussão do mesmo, eis que Mourinho, num golpe de asa, arrebata a Taça do Rei. Apesar de ser o terceiro troféu mais importante, é aceitável que, neste momento, antes do duelo decisivo da Liga dos Campeões, Barça e Real se encontram empatados em conquistas. O jogo de ontem foi diferente do jogo do campeonato, em que o Barcelona foi claramente superior em todos os aspectos. Na final da Taça do Rei, o Real optou por pressionar mais alto e, não obstante a utilização quase criminosa de Pepe nas costas de Ronaldo, conseguiu condicionar, durante praticamente toda a primeira parte, o futebol de posse dos catalães. Neste particular, duas notas importantes. Havendo natural mérito na forma como o Real pressionou, a forma agressiva como o fez voltou a ser exagerada (Xabi Alonso, Arbeloa, Khedira e Pepe, pelo menos, fizeram o suficiente para serem expulsos). Além disso, desgastaram-se de tal modo que, na segunda parte, previsivelmente sofreriam as consequências. Se é verdade que a primeira parte correu de feição ao Real e a estratégia de Mourinho parecia ter sido em cheio, faltando apenas o golo, não é menos verdade que as consequências de tal estratégia poderiam ter sido muito danosas.

Assentou a estratégia do Real em condicionar o jogo do Barça através de uma pressão homem a homem intensíssima, procurando roubar a bola em zonas altas e, através de uma transição rápida, criar ocasiões de golo. O Real criou, desta maneira, 3 ou 4 situações interessantes, embora uma apenas clara. O problema é que isto só foi possível, primeiro, às custas de um desgaste que traria implicações para o segundo tempo e, segundo, porque o Barcelona não foi tão forte como é hábito a escapar à pressão alta dos seus adversários. É de registar, aqui, a presença de Mascherano a central e, mais importante, a ausência de Valdez, fundamental na forma como a equipa sai a jogar quando os seus centrais são pressionados. Agora, o que é importante perceber é que, apesar de o Real ter criado tantas oportunidades quantas aquelas que o Barcelona criou na segunda parte, apesar de se poder dizer que, em termos de oportunidades, as equipas dividiram o jogo, estando o Real por cima no primeiro tempo e o Barcelona no segundo, não é lícito concluir que o jogo foi repartido. Isto porque não joga melhor quem cria mais oportunidades de golo. A relação causal entre qualidade de jogo e quantidade de oportunidades de golo é uma das falácias preferidas dos dias que correm. O contra-argumento fácil de fazer é o seguinte: cada oportunidade de golo do Barcelona vale três ou quatro do adversário, independentemente do perigo que causam.

A última afirmação é controversa, mas verdadeira. A razão para o ser advém do facto de as oportunidades criadas por um estilo de jogo de transição serem quase todas em esforço, dependerem da espontaneidade, dos reflexos e - por que não? - da sorte do jogador. Ronaldo teve dois lances, na primeira parte, em que poderia ter marcado. Mas em ambos o gesto é dificílimo. A probabilidade de êxito, em qualquer uma das oportunidades de golo, é por isso muito reduzida. Tirando o lance de Pepe, as oportunidades de golo do Real foram todas lances de pouca probabilidade de êxito. Na segunda parte, o Barcelona teve ocasiões soberanas de golo, e na sua grande maioria foram ocasiões em que os jogadores tinham maiores condições de êxito. Pinto não fez nenhuma defesa incrível; Casillas fez três, pelo menos. Tem isto a ver com o tipo de futebol praticado pelas duas equipas. O Barcelona cultiva um jogo de posse que pretende não apenas ter a bola, mas usá-la para criar as melhores condições possíveis de finalização. O Real cultiva o estilo contrário. Esta diferença, no entanto, não é apenas estílistica. Tem consequências relevantes. Do facto de os dois estilos, tão diferentes entre si, conseguirem produzir situações de golo em quantidade idêntica não se segue que consigam produzir condições de finalização idênticas. Foi por esta simples razão que o Barcelona foi muito superior, uma vez mais, ao Real Madrid; é que, na verdade, criou muito melhores condições para sair vitorioso desta final.

O desfecho da partida foi favorável ao Real Madrid, mas mais uma vez Mourinho foi incapaz de derrotar os catalães nos noventa minutos (aliás, a vitória no prolongamento é praticamente o mesmo que a vitória nos penalties e, mais importante, será perceber que o empate foi tudo o que o Real conseguiu). Todos saúdam o técnico português e a estratégia montada, agora que conseguiu ganhar um troféu. Mas esquecem-se do que é verdadeiramente importante. Mourinho ganhou, mas as probabilidades de êxito mantiveram-se inalteráveis. Ganhou um jogo porque nem sempre o melhor ganha, porque nem sempre quem tem mais probabilidade de ganhar o consegue. O Barcelona manteve-se fiel a si mesmo, manteve a bitola elevada e manteve a convicção de que mais vale criar poucas oportunidades, desde que boas, do que muitas oportunidades em condições de finalização deficientes. Não fez o seu melhor jogo e teve até uma primeira parte pouco conseguida, mas manteve a sua identidade e manteve-se, por isso, dependente de si próprio. O Real de Mourinho utilizou uma estratégia reactiva, muito bem mecanizada, com os jogadores muito concentrados e compenetrados, colectivamente bem organizados. Tudo isto é verdade. Mas a estratégia utilizada, apesar de tudo aquilo que possibilita, continua dependente de muitas coisas, da desinspiração do adversário, da leviandade da arbitragem, do aproveitamento do pouco que se cria, da sujeição ao desgaste da segunda parte, etc.. E bastaria ao Barcelona, perante esta estratégia, ter optado na primeira parte por uma circulação menos assertiva da bola, uma circulação mais segura, menos vertical, procurando menos vezes entrar nas linhas do adversário, uma circulação que visasse pôr os adversários a correr atrás da bola, para provocar na equipa do Real o mesmo desgaste que sofreram, mas em segurança, sem arriscar perdas comprometedoras. O campeonato, a prova mais justa para aferir a verdadeira qualidade das equipas, demonstrou já que a diferença entre os dois conjuntos é assinalável. Vencer uma prova a eliminar é uma casualidade que, por o futebol ser o desporto que é, pode sempre ter lugar. A probabilidade de vitória, porém, continua a pender para os catalães, porque o futebol que praticam está menos dependente de circunstâncias alheias a si mesmo.

Diz-se normalmente que vitórias morais não servem de nada. Discordo totalmente disto. A moralidade está em perceber que, apesar de não se vencer um determinado jogo ou um determinado troféu, a probabilidade de tal vitória se manteve intacta. E isto só é possível se se mantiver o estilo de sempre. Quando Cruyff atacou Mourinho por não ser um treinador de futebol, mas um treinador de títulos, deveria ter explicado que tal não era apenas por questões estéticas. É verdade que Mourinho é, de facto, o melhor a adaptar a sua equipa às necessidades da circunstância e nenhuma outra equipa é capaz de sacrificar tanto da sua identidade sem prejuízo quanto a dele. Mas o preço a pagar por isso é a incapacidade de competir numa prova de regularidade com uma equipa que não o faça. O Barcelona não se vende pelas circunstâncias. Talvez com isso se sujeite a perder um ou outro troféu, face àquilo que o futebol é, mas estará sempre mais perto de ganhá-los do que os seus adversários. Em competições que dependem menos de jogos circunstanciais, como seja um campeonato nacional, isso é por demais evidente. E tal como antevi, há tempos, Mourinho modificou a sua mentalidade para vencer mais provas a eliminar, perdendo com isso capacidade de competir em provas de regularidade. O Real Madrid goza hoje a conquista de um troféu e, finalmente, uma conquista sobre o Barcelona de Guardiola. Mas não está mais próximo da competência dos catalães do que estava no início da época. Pode ter ganho uma taça, mas continua a ter menos probabilidades de ganhá-las.

P.S. É no mínimo irónico que uma taça que tenho sido ganho ao atropelo tenha sido, ela própria, atropelada. Os deuses têm, de facto, um sentido de humor de louvar.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Dois Defesas Australopitecos

São dois os casos, dois os jogos, dois os exemplos. O primeiro, na passada quarta-feira, no jogo que opôs o Shalke 04 ao Inter de Milão. A referência é ao primeiro golo e o ponto é sustentar a ideia antiga, já aqui expressa noutras ocasiões, de que Lúcio, apesar de um defesa muito agressivo e até rápido para a envergadura física que possui, é forte para jogar num bloco baixo, mas não tem condições nenhumas para fazer parte de uma defesa que pretenda jogar mais subida. É que, quando tem de ocupar bem os espaços, quando tem de fazer uso do cérebro e não dos músculos, Lúcio é francamente mau. O exemplo é o golo de Raúl. Já vi o lance várias vezes e ainda não consegui perceber o que se terá passado na cabeça de Lúcio. Jurado conduz a bola e Lúcio só tem que preencher a zona central. Maicon até vem a fechar por dentro e, como tal, não há qualquer possibilidade de a bola entrar por aquele lado. Mas Lúcio, talvez imaginando que Raúl se iria desmarcar por ali, flectiu para a direita e deixou o centro da defesa aberto. Raúl só teve depois que procurar aquele espaço e receber o passe fácil do compatriota. Mais uma vez, fica evidente que Lúcio, quando tem que decidir rápido, quando tem que reajustar o seu posicionamento às incidências de cada lance, falha rotundamente. A este nível, um falhanço deste tipo é patético. Quando não é para ir à bola e para atropelar adversários, Lúcio é demasiado fraco para que possa estar entre a elite dos centrais europeus. Talvez seja bom para salivar atrás de javalis, ou como macho dominante de um grupo de ursos, mas para jogar futebol faltam-lhe algumas capacidades perceptivas fundamentais.

O segundo caso diz respeito ao clássico espanhol, no fim-de-semana, e à exibição de Pepe. Gostava de ter uma compilação dos lances de Pepe, para melhor ilustrar a minha opiniao, mas não tenho. Por isso, fico-me pelas palavras. Há quem jure que Pepe fez um jogo enorme. Enorme, enorme, só o disparate. Em primeiro lugar, Mourinho preparou a exibição de Pepe antes do jogo, quando alertou para o facto de o Real não conseguir acabar o jogo com onze jogadores. Aliás, viu-se bem, após quinze ou vinte minutos de jogo, qual fora a intenção dessas declarações. Visavam condicionar o árbitro e permitir aos jogadores do Real entrar sistematicamente duro. O mais duro de todos, e aquele que manteve a dureza excessiva ao longo dos 90 minutos, foi Pepe. Para mim, que ainda há dias escrevi coisas sobre árbitros, este clássico espanhol representou bem o tipo de injustiças que esta modalidade preconiza. Como é que é possível que Piqué e Xavi vejam amarelos por esbracejar ou dizer coisas, e Pepe passe o jogo impune? Sem qualquer espécie de exagero, Pepe fez o suficiente para ser expulso, no mínimo dos mínimos, cinco vezes, tantas foram as entradas fora de tempo. Talvez não tenha feito uma entrada merecedora de vermelho, mas fez pelo menos dez merecedoras de amarelo. E nem pela repetição de faltas viu o cartão. O seu jogo consistiu basicamente em atropelar jogadores do Barcelona, em correr feito maluquinho direito ao portador da bola, em andar à rabia e a tentar intimidar os adversários sempre que podia. E só não andou de liana em liana porque não havia lianas. Quando um jogador se destaca essencialmente pelo temor que tenta provocar nos outros, muita coisa está mal. Há quem garanta, ainda assim, que foi o melhor jogador em campo. Sinceramente, achava que um critério necessário para se eleger o melhor jogador em campo fosse ser jogador. Pepe talvez tenha sido o melhor animal em campo. Como jogador, fez uma exibição horrível, correu excessivamente e sem nexo, andou feito barata-tonta atrás de tudo o que mexesse, e arriscou entradas duras vezes sem conta e sem qualquer necessidade. Após o jogo, Mourinho reforçou a ideia de não ser possível acabar um jogo contra o Barcelona com onze em campo, mas devia ter acabado com nove. E devia ter ficado sem Pepe, aliás, logo na primeira parte. Aquilo que me parece recomendável, portanto, para quem deseja terminar o jogo com onze mas queira, ainda assim, colocar animais ferozes em campo, é açaimá-los o melhor possível. Útil seria também que não houvesse idiotas a elogiar uma exibição que consistiu em tentar fazer o perfeito oposto de jogar futebol. É que ajudava muito que os homens das cavernas sentissem que passar por cima de colegas de profissão não é jogar futebol.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Um Argumento Político Contra a Arbitragem Portuguesa

É costume a contestação a uma qualquer arbitragem sustentar os seus argumentos nos lances capitais do jogo, em lances de golos anulados, de penálties mal marcados, de ordens de expulsão mal dadas, etc.. Já aqui foi defendido que a avaliação de uma arbitragem não pode, nem deve, conceder maior importância aos lances capitais. A razão é simples: são lances como outros quaisquer e os árbitros estão sujeitos a errá-los como erram outros quaisquer. Nenhum árbitro, por o lance se estar a disputar junto a uma das balizas ou por ter maior importância para o desfecho do jogo, adquire uma competência ou certa capacidade de concentração que não tem ao analisar outros lances. Os árbitros erram, e erram tanto no meio-campo quanto nas áreas. Nenhum árbitro abre mais os olhos ou activa a sua capacidade de concentração só por sentir que o lance merece maior atenção. Por isso, não faz sentido exigir que os erros mais decisivos sejam mais penalizadores que os restantes. Um árbitro que cometa um único erro durante os 90 minutos, e esse erro seja assinalar uma grande penalidade em que, descaradamente, o avançado tenha simulado a falta, faz uma exibição óptima. Em sentido contrário, um árbitro que não comprometa em lances capitais, mas que erre sistematicamente em lances de meio-campo, faz uma exibição miserável. E isto apenas no capítulo técnico.

Serviu este preâmbulo para introduzir uma conversa sobre árbitros que me interessa hoje ter. Sobre, por exemplo, o Benfica-Porto da semana passada, falou-se demasiado na arbitragem de Duarte Gomes. Sim, o penalty contra o Porto é mal marcado. A expulsão de Otamendi resulta de um erro no primeiro cartão amarelo, sim. Também há um lance em que Falcao se isola após cortar com a mão um alívio de Sidnei. Também haverá outros lances relevantes em que Duarte Gomes tenha errado. Nada disso pode servir de argumento para justificar uma arbitragem tendenciosa. Pessoalmente, acho Duarte Gomes um dos melhores árbitros portugueses. Infelizmente, não me pareceu nada tranquilo e acho que fez uma má arbitragem no passado fim-de-semana, mas não por esses lances que tanto têm discutido. Na minha opinião, o lance em que Duarte Gomes mostrou mais essa intranquilidade e que melhor espelha a falta de qualidade da sua arbitragem aconteceu logo nos minutos iniciais. Após uma tentativa de desarme perfeitamente normal de Otamendi, em que apesar do derrube involuntário do jogador do Benfica, não houve intenção nenhuma além de tentar acertar no esférico, a bola seguiu para Aimar e o Benfica poderia desenvolver um contra-ataque perigoso. Duarte Gomes decidiu parar o lance para chamar à atenção o defesa do Porto, o que deixou enervado Aimar, muito compreensivelmente. Ora, se nem quando é para mostrar amarelo se deve parar um lance em benefício do infractor, mais ridículo é pará-lo apenas para apelar à calma, ainda por cima num lance em que Otamendi não tem outra intenção além de jogar a bola. Aimar contestou a decisão e viu ele o amarelo. E aqui se espalhou ao comprido Duarte Gomes. É sobre isto, e sobre as consequências disto, que quero falar.

É quase unânime dizer-se que os jogadores estão lá para jogar e não para protestar, que todo aquele que protesta merece o amarelo, que os árbitros são soberanos e as suas decisões não devem ser contestadas. Sinceramente, acho que esta unanimidade é das coisas que, em futebol, melhor reflecte o que sociologicamente o povo português é. Não sou admirador das arbitragens inglesas, porque são demasiado permissivas e não protegem o talento. Mas admiro uma coisa nos árbitros ingleses: a facilidade do diálogo. Não é raro assistirmos a discussões acesas entre um jogador e um árbitro, o que, a meu ver, é extraordinariamente saudável. Isto pode ser muito chocante para alguns, sobretudo para portugueses, mas tem a ver com democracia. Em Portugal, tal é impossível de suceder não porque os árbitros tenham directrizes diferentes, mas porque a mentalidade das massas é outra. Somos um povo mais conservador, damos demasiada importância ao "respeitinho" e temos ainda o vício salazarento de achar que há agentes soberanos, nas mais diversas áreas, que estão acima do diálogo e não precisam de justificar as suas decisões de modo racional. Obedecer caladinho e servilmente a um árbitro só porque é árbitro não faz sentido nenhum. O diálogo, a argumentação, a contestação, o protesto, fazem parte da vida pública e deveriam, a bem daquilo que é o jogo que melhor representa, nos dias que correm, a nossa sociedade, fazer parte desse jogo. Não é isso que se vê. Mais depressa um árbitro penaliza um jogador por discordar dele do que por ter uma entrada em que põe em risco a integridade física de um adversário. Isto não faz sentido nenhum. Esse árbitro parece preferir ser juiz de carácter do que juiz do jogo, ou seja, parece ter mais facilidade em exercer o poder que o estatuto de árbitro lhe concede quando esse exercício não depende de uma decisão técnica, o que é - convenhamos - absurdo. Isto é autoritário e politicamente primitivo. Faz parte de uma mentalidade ancestral que deveria estar arrumada nos livros de História, mas que sobrevive pela transmissão, de geração para geração, dos mais enraízados valores patriarcais.

O futebol português, como aliás o rochedo à beira-mar plantado que é o país, continua a resistir à invasão da modernidade como pode, com um instinto de auto-preservação cuja natureza consiste em manter uma distinção hierárquica bem definida, dentro da qual aquele que tem o poder deve exercê-lo sem prestar contas do seu exercício. As nossas principais características, enquanto povo, continuam a ser o "bairrismo", a defesa da paróquia de cada um, a família enquanto pilar social. Não somos uma nação moderna, nem existe em Portugal um sentido democrático assaz relevante. Aliás, somos uma democracia apenas institucionalmente, apenas porque temos a liberdade de eleger, por sufrágio universal, aqueles que queremos que nos representem. No que diz respeito a valores morais e a competências políticas, continuamos uma nação feudal; cada um tem por interesse único o modo como os interesses alheios beneficiam ou prejudicam os seus interesses privados. A população sente-se insatisfeita com o estado de coisas a que o país chegou e vai a correr às urnas votar em massa na conservação e na austeridade, de modo a poder preservar o feudo de cada um. Não está em causa, obviamente, a opção de voto de cada pessoa, mas a tendência das massas e a incompreensão colectiva do que é exigido, na verdade, pela responsabilidade democrática. As pessoas revoltam-se hoje contra a classe política como se revoltariam contra o monárquico que nos regesse, caso isto fosse uma monarquia; revoltam-se contra os soberanos quando se deveriam revoltar contra a ideia de soberania. O que está mal não é a classe política, nem os políticos; o que está mal e deveria ser combatido é a relação de soberania, subordinativa e hierárquica, entre quem representa e quem é representado. No actual sistema político, exercemos praticamente um único direito democrático, o de ir, de quatro em quatro anos, conceder poderes de decisão sobre tudo o que nos diz respeito a meia-dúzia de pessoas cujas ideias mal conhecemos. O nosso único sentido democrático, no intervalo que é cada legislatura, é insurgirmo-nos contra aqueles que elegemos anteriormente, é manifestarmo-nos contra a classe que nos governa, é fazer greves, é falar mal por falar mal. Tudo isso são idiotices sindicais e disparates das barata-tontas que somos. No fundo, somos como jogadores de futebol que não aceitam uma decisão do árbitro, mas com a agravante de que, ao contrário do jogador de futebol, que joga um jogo que não tem regulação democrática, estando por isso sujeito à arbitrariedade das regras que elementos exteriores ao jogo estipulam, nós estamos a jogar um jogo em cuja regulação podemos exercer um determinado papel.

O argumento deste texto é ostensivamente político. Consiste em afirmar que a relação de subordinação entre jogador e árbitro ilustra a relação de subordinação a que o povo português está habituado e preza, ainda que pareça não prezar, como aliás ninguém preza nenhum árbitro, nenhum dos indíviduos a que está subordinado. A meu ver, é precisamente essa relação de subordinação entre jogador e árbitro, que quase todos aceitam sem questionar - porque é assim que está estatuído e tudo o que está estatuído parece não merecer reflexão -, que está errada. Como o que está errado no país é a relação de subordinação entre classe representante e representados. Portugal é um país com excesso de moralidade, com um legado católico do qual demorará a libertar-se, no qual vigoraram sistemas anti-democráticos durante demasiado tempo. Sentem-se confortáveis, por isso, os portugueses com aquilo a que estão habituados, com o servilismo, com a vidinha calma, com o "respeitinho pelos mais velhos", com todos os valores, em suma, do país que historicamente é. O que é criticável não são os políticos, de quem se diz que são todos gatunos, não são as fortunas desmesuradas dos milionários, não é a desigualdade económica entre classes. O que é criticável é a mentalidade dos portugueses, é a falta de consciência política das massas, é a aceitação incondicional, ainda que inconsciente, de um sistema que depois cada um se apressa a contestar. O problema do país é só um: temos um conceito de democracia demasiado fraco. Não existe debate público lógico; a troca de argumentos, em qualquer área, é geralmente pobre e vaga; as ideias políticas apresentadas são, por norma, demagogias inconcretas e manipuladoras; as crianças são educadas a obedecer arbitrariamente em vez de serem educadas a obeder ao que faz sentido.

Regressemos ao futebol. Dos jogadores, em Portugal, espera-se que joguem à bola e que aceitem tudo o que o árbitro - versão do tirano de apito na boca - lhes ordene que façam. Acontece que a generalidade dos árbitros, para os quais reservei as palavras finais, representa sublimemente os valores antiquados da nação a que me referi acima e ilustra a falta de competência democrática de que o país padece. Aliás - e agora refiro-me sobretudo a árbitros de futebol distrital, ou seja, a pessoas que optam pela arbitragem apenas como hobby subsidiado (às custas precisamente dos clubes que apitam) e não como carreira - atrever-me-ia mesmo a conjecturar que a grande maioria destes árbitros tem preferências políticas consentâneas com o exercício arbitrário de poder que o apito lhe autoriza. São pessoas que gostam da sensação de poder ou que gostam da relação arbitrária entre quem ordena e quem respeita ordens; são pessoas que não gostam particularmente de discutir as decisões que tomam, embora gostem de tomá-las, ou seja, pessoas que não gostam particularmente de justificar opiniões, que é outra definição para estupidez; são pessoas a quem lhes apraz a irracionalidade da autoridade absoluta e que, por isso, aceitam críticas com muito menos facilidade do que um jogador aceita uma má decisão de um árbitro.

É usual fazer-se o argumento de que, enquanto o árbitro está lá para decidir, o jogador está lá para jogar e não para criticar decisões, e que, portanto, todo o protesto deve ser punível. Não obstante a estupidez, a hipocrisia e a obsolescência do argumento, faço agora o argumento contrário, que refuta o anterior de maneira implacável, com a mesma lógica argumentativa prepotente: se os jogadores, enquanto agentes de um jogo, têm uma missão específica dentro desse jogo que lhes veda a liberdade de se intrometerem nas opiniões sobre a missão que estão desempenhar, então os árbitros, enquanto agentes de um jogo, têm de ter igualmente uma missão específica dentro desse jogo que lhes veda a liberdade de se intrometerem nas opiniões sobre a missão que estão a desempenhar. Por outras palavras, sendo ambos agentes de um jogo com responsabilidades próprias, se o jogador não tem direito a manifestar a sua opinião acerca da decisão do árbitro acerca de um lance, então o árbitro não tem direito a manifestar a opinião acerca da opinião do jogador acerca de um lance. Se o jogador está lá apenas para jogar e o árbitro apenas para decidir, nem o jogador tem direito a protestar nem o árbitro tem direito a punir o protesto. Isto porque, sendo ambos agentes independentes de um jogo, não há razão nenhuma para que uns tenham mais direitos que outros. Declarei acima que o argumento contra a liberdade do protesto do jogador era estúpido, hipócrita e obsoleto. Se a sua estupidez ficou demonstrada pelo meu contra-argumento, a hipocrisia tem que ver com o facto de se esquecer sistematicamente que os jogadores não são máquinas, mas seres humanos, com emoções, com noções de justiça e moral, sujeitos pelo jogo a um desgaste mental e a níveis de adrenalina que condicionam as suas reacções. Achar que devem estar caladinhos e obedecer àquilo de que discordam é não perceber nada de seres humanos. Quanto à obsolescência do argumento, que é, no fundo, aquilo que mais me interessa, tem que ver com o argumento político desenhado acima. Esta é uma defesa do espírito crítico e do ideal democrático, aplicado a um caso concreto do futebol. Se o principal problema da sociedade portuguesa está intimamente relacionado com o conceito de democracia que a mesma cultiva, a prepotência da grande maioria dos árbitros nos campos de futebol do país, sendo um caso particular desse mesmo problema social mais amplo, resulta do facto de não se permitir, por estipulação e tiques de despotismo, que as decisões do árbitro possam ser alvo de discussão e crítica. A este respeito, o que falta ao futebol, como o que falta ao país, é tornar-se mais democrático.

terça-feira, 29 de março de 2011

Robben e as Individualidades

Arjen Robben é um dos maiores desequilibradores do futebol mundial e, certamente, um dos melhores na sua posição. À margem das muitas lesões que tem sofrido ao longo da sua carreira, poucos não gostariam de contar com os seus serviços. O que pretendo defender, neste texto, é que, apesar de apreciar Robben e de lhe reconhecer capacidades individuais soberbas, dificilmente encaixaria a especificidade do seu futebol (pelo menos do futebol que, nos últimos anos, tem feito seu) numa equipa com um ideal colectivo como eu o concebo. Aliás, será objectivo deste texto argumentar que Robben, tal como joga no Bayern de Munique, apesar de temível individualmente, é nocivo à evolução da equipa enquanto colectivo. Por arrasto, será defendido que todo o jogador que tenha a tarefa específica de ser o principal desequilibrador da equipa é nocivo à desenvoltura colectiva dessa equipa.

O Bayern de Van Gaal, apesar de, muitas vezes, parecer uma equipa frágil a defender e não ter ideias ofensivas, é uma equipa muitíssimo responsável em termos posicionais, com fio de jogo como poucas e com bastantes princípios ofensivos. O 4231 implementado pelo técnico holandês é mais arrojado que um 4231 tradicional, nem que seja pelo facto de não jogar com um único médio de características tradicionalmente defensivas. À parte dos problemas que a equipa tem em fechar os espaços entre os defesas e os médios, o modelo é interessante. Ofensivamente, as movimentações de Müller, como eram as de Litmanen no Ajax de Van Gaal, são das mais interessantes naquela posição. O Bayern é também das equipas europeias que melhor joga com o espaço entre linhas, e das que melhor procura os espaços certos para atacar. O problema, a meu ver, está na especificidade de alguns dos seus atletas. O ano passado, sem Robben, que esteve grande parte da época lesionado, o Bayern teve de procurar resolver os seus problemas de variadíssimas maneiras e, com isso, evoluiu colectivamente. Ribery, por melhor que seja em termos individuais, não é Robben. Não é um chamariz como o holandês e não tem a influência do seu colega. Sem Robben, o Bayern jogava mais pelo meio, era mais vertical, solicitava menos as acções individuais dos seus extremos e envolvia mais atletas no processo ofensivo.

Este ano, com Robben em condições, uma grande fatia das soluções ofensivas da equipa passa por circular a bola até ao holandês, normalmente na extrema direita, em afastar todos os colegas dele, de modo a arrastar adversários e a conceder-lhe espaço, e a deixar entregue ao seu talento a solução individual de cada ataque. É estratégico, neste Bayern, levar a bola até Robben e depois autorizar-lhe e fornecer-lhe as condições ideais para que desequilibre. O problema desta estratégia é que, por mais que desequilibre individualmente, é previsível. A previsibilidade do futebol dos bávaros, este ano, é inacreditável. Ainda que Robben, por si, não seja normalmente previsível, o simples conhecimento desta estratégia por parte dos adversários prepara-os para a mesma. E, por a estratégia ser previsível, as acções de Robben têm também muito menos consequências. Por norma, os adversários obrigam-no a vir para o meio, a procurar cruzamentos largos pouco eficazes. Por Robben ter tanto destaque, o Bayern, enquanto equipa, tornou-se mais fácil de parar. Bastou, para isso, que os adversários se preparassem para os momentos em que a bola entrasse no holandês.

O grande problema do Bayern, segundo esta análise, foi por isso aquilo que era, aparentemente, a sua melhor solução. É um caso ímpar de como o peso excessivo de uma unidade numa equipa, ainda que uma unidade individualmente muito útil, pode comprometer o colectivo. O que Van Gaal fez foi o contrário do que se deve fazer: submeteu as características do modelo à especificidade de Robben, quando deveria ter encaixado o holandês na estrutura colectiva. O que este exemplo, no fundo, ilustra é aquela velha teoria que sempre se defendeu aqui de que o modelo tem de estar acima da especificidade dos jogadores. Pouquíssimos defenderão o mesmo que nós. Para a grande maioria, o modelo ideal deve aproveitar e adaptar-se à especificidade dos atletas, tirando desse modo o melhor de cada um. Para nós, o modelo ideal está acima de qualquer individualidade e compete ao treinador não adaptar a sua ideia de jogo aos jogadores que possui, mas o contrário, adaptar os jogadores que possui à ideia de jogo, que lhes é anterior. Arjen Robben é fortíssimo no um para um, mas o Bayern não precisava de focar-se estrategicamente nessa capacidade para ser bem sucedido. Pelo contrário, seria bem mais sucedido se preconizasse um modelo estrategicamente diferente, em que todas as individualidades obedecessem a uma ideia homogénea. Incluído num conjunto com uma ideia estritamente colectiva do jogo, sem estar presa à tarefa de desequilibrar individualmente, a especificidade de Robben acabaria por ser eficaz quando tivesse que ser. Nessas condições, nem o Bayern estaria dependente da inspiração de Robben, procurando o êxito por outros caminhos e tornando-se menos previsível, nem Robben estaria dependente de si mesmo. Os grandes jogadores só adquirem a excelência se não dependerem exclusivamente de si mesmos, o que é o mesmo que dizer que só podem valorizar-se quando integrados em conjuntos em que não têm a missão hercúlea de resolver tudo e mais alguma coisa. Nada disto é uma crítica a Robben. Nem tão-pouco a Louis Van Gaal. Trata-se de um vício muitíssimo abrangente de cuja natureza tóxica só um treinador do mundo me parece ter consciência clara.

terça-feira, 22 de março de 2011

Façam o favor de serem inteligentes...

“O Frank foi muito importante para o Barcelona. Gostaria agora de lhe poder retribuir alguma coisa. Caso seja treinador do Sporting tudo faremos para ajudar a sua equipa”, afirmou.

Rosell adiantou ainda que no dia a seguir à vitória de Dias Ferreira “serão iniciadas de imediato negociações entre as duas equipas para formalizar esse mesmo apoio”.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Excessos Excessivamente Excessivos

Como o título indica, este será um texto sobre coisas excessivas, sobre asneiras que as pessoas repetem, sobre ideias demasiado consagradas, sobre acontecimentos exageradamente discutidos, etc..

1. Numa entrevista, quando ainda era treinador do Braga, Jorge Jesus disse que aprendera no mesmo sítio que Guardiola e que, por isso, o seu modelo, em termos de princípios de jogo, era idêntico ao do Barcelona. O excessivo, aqui, não é o exagero da coisa, mas a redução da ideia de modelo ao conjunto de princípios gerais: futebol ofensivo, pressão alta, linhas subidas, etc. Os princípios de jogo do Barcelona vão muito para além disto e é esse muito que o distingue. O modelo de jogo de Jesus, tendo virtudes, não é por isso sequer primo do modelo de Guardiola.

2. Outra coisa excessiva a respeito do modelo de Jesus é o entusiasmo que causa. O problema desta relação entre qualidade do modelo e entusiasmo que provoca é que é falaciosa. O melhor modelo não é o que galvaniza mais as bancadas, o que cria mais oportunidades de golo, o que motiva mais os jogadores. Não há relação de causalidade entre qualidade e efeitos exteriores na audiência, resultados práticos ou capacidade de motivação. O melhor modelo, e esta é a minha definição, é aquele que faz depender o colectivo o menos possível das individualidades. Nesse aspecto, o modelo de Jorge Jesus tem-se revelado cada vez mais banal. Depende excessivamente - e isto é algo que ando a dizer desde o início da época passada, embora se revele cada vez mais - da vertigem que as individualidades são capazes de colocar no jogo; depende das correrias dos laterais, da velocidade a que cada jogador reage à perda de bola, da espontaneidade de cada elemento, etc. Se é verdade que, jogando deste modo, impede os adversários de se organizar do melhor modo, impede também a própria equipa de jogar de modo organizado. O modelo de Jesus prepara a equipa para ser forte em momentos de desorganização, mas limita-a não a preparando para ser competente quando é preciso inventar essa desorganização.

3. Talvez o melhor exemplo de como o modelo tem graves problemas seja Saviola. O argentino - têm dito - não está na sua melhor forma. Isto é absolutamente falso. Tem tido menos preponderância neste Benfica porque este Benfica, pelo modo como joga, não procura valorizar aquilo em que Saviola pode fazer a diferença, sobretudo em ataque posicional. Ao jogar excessivamente em velocidade, o Benfica passa a focar o seu interesse em jogadores velozes e fortes fisicamente e perde de vista aquilo que os mais criativos, como Saviola, podem emprestar em criação de espaços curtos. Saviola, como aliás Pablo Aimar, foram os jogadores que, o ano passado, puderam permitir ao Benfica ser uma equipa com outras soluções que não as corridas desenfreadas. Este ano, Jesus tem gradualmente abdicado desse tipo de soluções e os dois argentinos foram perdendo protagonismo. Com essa perda de protagonismo, perdeu também o Benfica imprevisibilidade e passou a depender mais daquilo que cada jogador é capaz de dar, enquanto individualidade.

4. No final da época passada, quando elegemos André Villas Boas como o melhor treinador do campeonato, tínhamos em conta precisamente estes defeitos do modelo de Jesus. Um ano volvido, acreditamos ainda mais na diferença entre os dois. Não obstante um ou outro problema no modelo do Porto, é certo que é o modelo que, em Portugal, maior qualidade apresenta, pois é aquele que depende menos da soma das suas individualidades. O que é excessivo, neste ponto, é portanto a incompreensão de como o Porto deste ano, radicalmente diferente do do ano anterior, soube superiorizar-se ao Benfica de Jesus, tal como este, na época passada, se superiorizara ao Porto de Jesualdo.

5. O principal defeito do modelo portista, a meu ver, está na tarefa distinta dos extremos. Toda a equipa privilegia uma posse de bola curta e o passe ao drible, à excepção dos extremos, que parecem ter liberdade para individualizar os lances. É verdade que Hulk e Varela são fortes no um para um e é verdade que várias das suas acções individuais podem trazer benefícios ao colectivo. Também é verdade que há movimentações sem bola, sobretudo de abaixamento, que os extremos fazem e que se inserem na ideia colectiva. Mas existe, no meu entender, uma fé excessiva na capacidade individual destas unidades que pode ser prejudicial à equipa. Os extremos são jogadores essencialmente verticais e que têm a tarefa de definir os lances. Raramente são utilizados na gestão passiva e racional da bola, o que impossibilita que o Porto consiga ser ainda mais dominador do que é quando a tem. Assim sendo, o Porto é fortíssimo a controlar o jogo com bola nos dois primeiros terços do terreno, mas não o é nas imediações da área. Raramente consegue penetrar em defesas sólidas e densas sem utilizar a arma das individualidades: os remates de meia distância, o drible, o um para um, etc. Falta envolvência ofensiva em espaços curtos a esta equipa e muito por causa da excessiva verticalidade que é pedida ou autorizada ao trio da frente.

6. São excessivas também as previsões catastróficas do futuro sportinguista. Basta lembrar o que era o Benfica antes de Jorge Jesus para se perceber que tudo pode mudar de um ano para o outro, havendo a sorte de se contratar competência. É evidente que os recursos financeiros do Benfica são outros, mas a principal causa da mudança está no cargo de treinador. Tenha o Sporting a sapiência de contratar um treinador competente e a próxima época será certamente diferente. É também evidente que os rivais estão muitíssimo fortes e que ganhar o título poderá depender muito do que esses rivais forem capazes de fazer para o ano. Mas, com um treinador capaz, pelo menos a intromissão na luta pelo título é um horizonte mais do que realista. Do que me pude aperceber das eleições que se avizinham, o único candidato que poderia relançar imediatamente o Sporting é Dias Ferreira. Não por ter competências excepcionais como presidente ou como pessoa, mas porque foi o único que apresentou um treinador que me parece apropriado para as aspirações do Sporting. E o treinador deveria ser, sem dúvida, a principal preocupação eleitoral.

7. A valorização de Domingos é outra das coisas que me faz alguma confusão. É interessante que o diga agora, um dia depois de um apuramento histórico do Braga. Campanhas europeias históricas ou alguns resultados surpreendentes não chegam para qualificar um treinador. Se chegasse, Jaime Pacheco teria de ser recorrentemente uma das cogitações para treinar um grande. É verdade que, na Europa, o Braga está a fazer mais do que se esperaria. Mas internamente está a fazer menos. Num ano em que o Sporting está tão mal e em que o Guimarães não tem pedalada para mais, um treinador de grande qualidade teria de deixar o Braga em terceiro lugar. Concordo que Domingos tem qualidades, sobretudo ao nível da preparação estratégica dos jogos e da implementação de certos conceitos defensivos. Mas o seu Braga não é, nem nunca foi, uma equipa capaz de dominar jogos. Trata-se de uma equipa organizada, sim, mas ofensivamente medíocre. E já o ano passado o era, fazendo a campanha interna que fez por questões mentais, por se ter adiantado na classificação num momento precoce da época e, por isso, ter adquirido forças extra para superar os obstáculos. Numa equipa grande, Domingos teria, a meu ver, enormes dificuldades para se impor.

8. Muitos terão visto o jogo da segunda mão entre Barcelona e Arsenal e muitos terão opiniões sobre esse jogo. Não vou falar do jogo, mas de um pormenor que não sei até que ponto terá passado despercebido. Os noventa minutos foram todos praticamente jogados em 30 metros. Quando assim acontece, por norma, esses são os trinta metros mais próximos da baliza de quem defende. Não foi isso que se passou neste jogo. O jogo foi jogado apenas em trinta metros, mas praticamente no meio-campo. Deveu-se esse facto a duas razões: à atitude defensiva do Arsenal, por um lado, e à opção, invulgar em quem opta apenas por defender, por uma linha defensiva muito subida. O Arsenal jogou basicamente com duas linhas, uma de seis jogadores e outra com quatro, mas tentou fazê-lo na zona de meio-campo e não à frente da sua baliza. A intenção era evitar que o Barcelona jogasse entre linhas, mas sem recuar em demasia. Com isso, o jogo foi de tendência unicamente catalã, como tantas vezes acontece, mas disputado numa zona do terreno pouco comum. Quem viu o desafio com atenção viu por isso um jogo altamente atípico, jogo esse que, na minha opinião, é representativo de um tipo de futebol que se jogará no futuro.

9. Já se falou muito de treinadores; fale-se agora de jogadores. Um dos mais criticados, no início da época, em Espanha, era o francês Karim Benzema. Benzema pode não ser um jogador extraordinário de costas para a baliza, como apoio vertical, mas não é, também, dos piores. Depois, é tecnicamente muito evoluído e é capaz de se desembaraçar com alguma facilidade em espaços curtos. Sempre achei as críticas que faziam ao francês, que eram unicamente baseadas no facto de não marcar golos, incrivelmente desajustadas. A mobilidade de Benzema e a facilidade com que combinava com os colegas emprestaram ao Real Madrid, nessa fase, algo de muito positivo. A arrastar marcações, então, foi determinante. Ninguém foi capaz de ver isso e, agora que voltou a marcar, acham que evoluiu e que está mais confiante. Nada mais falso. Karim Benzema está igual. Mas, como marca golos, as pessoas mudaram a opinião. É um bom exemplo de como a imbecilidade se pode propagar.

10. Em Portugal, dois jogadores de quem se tem falado recentemente e em relação aos quais não consigo compreender o entusiasmo: Djalma e Rúben Brígido. O primeiro é um extremo veloz e habilidoso. Só. Poderá crescer, eventualmente, até a um nível aceitável, mas duvido que venha a ser um jogador de topo. Falta-lhe, sobretudo, compreender e pôr em prática ideias colectivas, e carece de imaginação. A menos que se torne muito forte no um para um, coisa que ainda não é, nem de perto nem de longe, poderá ter alguma utilidade, e ainda assim apenas num modelo que privilegie tais características. Quanto a Rúben Brígido, o melhor que se pode dizer dele é que é atrevido. Sim, arrisca ir para cima dos defesas e não tem medo de falhar. Nunca percebi por que razão tais características são coisas positivas. É demasiado vertical, procura sempre o desequilíbrio, e não é capaz de perceber as necessidades da equipa em cada situação. Tem boa técnica, embora não seja especialmente forte no um para um, mas raramente toma boas decisões. É um jogador agressivo com bola, espontâneo, objectivo, como dizem, mas pouco imprevisível. Tenho também sérias dúvidas que algum dia tenha capacidade para singrar ao mais alto nível.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Conversa da Treta

De há uns anos para cá, tem-se acentuado a tendência de se privilegiar treinadores académicos a treinadores que foram ex-jogadores ou que fizeram carreira dentro do futebol. Com o fenónemo Mourinho, essa tendência ganhou ainda mais relevância. Acho esta divisão uma patetice. Há bons e maus treinadores nos dois lados da barricada. A academia garante tanta competência quanto a experiência dos relvados, ou seja, nenhuma. Ler muito, adquirir muitos conhecimentos, ter tido contacto com os mais recentes estudos não tem relação directa com a competência de um treinador. Não é a forma como a pessoa se instrui que advoga a sua qualidade, mas as ideias que possui e, em suma, a sua inteligência.

Os partidários da academia são ainda religiosamente favoráveis à metodologia de treino da moda: a periodização táctica. O problema da periodização táctica não é a periodização táctica, mas o que cada um acha que é a periodização táctica e a importância excessiva da discussão acerca dela. Há os que acham que ela é a coisa moderna que os modernos devem modernamente seguir, para não passarem modernamente por antiquados. Estes são os mais estúpidos, aqueles para quem, no fundo, trabalhar em periodização táctica é a única coisa que faz sentido, ainda que não saibam explicar porquê. Dizem-se adeptos da periodização táctica porque sabem que é a metodologia que corresponde ao que é moderno e porque faz lembrar Mourinho. Depois, até sabem mais ou menos em que consiste, mas não percebem que benefícios se podem extrair dela que não os óbvios. São, no fundo, fanáticos, pessoas que gostam de uivar que as equipas não devem ter preparadores físicos, que subir escadas não faz sentido nenhum e que o que interessa é treinar situações de jogo. Ouviram dizer estas coisas e agora repetem-nas, crendo-se diferentes.

Antes de prosseguir, queria deixar claro que a metodologia de treino é apenas um ingrediente e não tem o peso que estes fanáticos pretendem que tenha. Acho que, em teoria, há coisas que mais facilmente se adquirem treinando segundo a periodização táctica, mas acho também que há riscos enormes que dificilmente os fanáticos saberão acautelar. Agora, o que me parece importante referir é que se trata apenas de uma metodologia, ou seja, da maneira como se educa uma equipa. A conversa sobre metodologias centra-se no "como". Mais importante que essa conversa é uma que se centre no "quê". Um treinador que ache que a melhor maneira de chegar à baliza adversária é através da solicitação do seu ponta-de-lança de dois metros, utilizando um jogo directo, pode ser o melhor do mundo a operacionalizar treinos em periodização táctica, mas nunca será um grande treinador. É o melhor do mundo apenas a ensinar certos comportamentos à sua equipa. Falta saber se esses são os comportamentos que mais interessam à equipa. Treinar em periodização táctica não significa, por isso, treinar bem. Significa apenas treinar de modo diferente. Jaime Pacheco, se de repente aderisse à periodização táctica, continuaria a ser Jaime Pacheco. Continuaria a dar preferência ao músculo, embora agora não desse sovas aos seus jogadores e os pusesse antes a entrar duro uns sobre os outros, em exercícios com situações de jogo. E continuaria a ser um treinador sem ideias. A conversa abstracta sobre metodologia, por isso, é uma conversa frívola. O que interessa são as ideias. Se as houver, depressa se perceberá quais os melhores exercícios para as pôr em prática.

Dito isto, acho que o treino analítico, puro e duro, tem os dias contados. Por treino analítico entendo treino que divida as componentes física, técnica, táctica e psicológica e que as ministre separadamente. O treino analítico entende, por exemplo, que a componente táctica se subordina às componentes física e técnica, sendo por isso necessário preparar os atletas fisicamente e tecnicamente para que possam depois adquirir preparação táctica. Não acredito nisto porque acho que o jogo é específico e a melhor preparação é aquela que tem em conta todas as componentes em simultâneo. Não significa isto que não possam nem devam haver exercícios descontextualizados, que não deva haver trabalho adicional de ginásio, etc. O treino deve-se centrar sobre o comportamento, a decisão (e isso é tão táctico quanto técnico, físico e psicológico), mas não tem necessariamente de ser exclusivamente contextualizado. Ou seja, um exercício de posse de bola descontextualizado, sem as referências da situação de jogo, como sejam a baliza e o posicionamento relativo dos colegas, tem potencialidades que o melhor exercício de posse de bola contextualizado não tem: potencia situações imprevistas e obriga os jogadores a arranjar soluções inovadoras, estimulando por isso a criatividade e não forçando habituações excessivas. Do meu ponto de vista, o que é mais importante é educar o comportamento dos jogadores, obrigá-los a pensar e a descobrir por si quais as melhores soluções para cada lance. A periodização táctica pode funcionar, sobretudo para algumas coisas, mas pode também dificultar essa educação. É sobre as benefícios e os malefícios deste tipo de treino que pretendo falar em seguida.

Benefícios

Não vou falar de benefícios gerais, pois esses parecem-me conceptualmente errados. Dizer que a especificidade da periodização táctica é melhor do que a falta de especificidade do treino analítico não quer dizer nada e carece de explicação. A especificidade, a meu ver, é útil para certas coisas, mas prejudicial noutras. Vou antes referir aspectos em que me parece que a metodologia da periodização táctica pode potenciar a aprendizagem. Uma vez que o treino assenta sobre comportamentos, são os comportamentos colectivos que esta metodologia mais pode potenciar. Por exemplo, operacionalizar uma defesa à zona que tenha por referências a posição da bola, a baliza e o posicionamento dos colegas tem tudo a ganhar se trabalhado de um modo estritamente contextualizado. Aliás, algo que requer tanta coordenação entre tantos elementos só pode funcionar plenamente se trabalhado de modo contextualizado. Trabalhar a defesa à zona, porque se trata de um comportamento colectivo, é um dos benefícios da periodização táctica. Os atletas adquirirão rotinas de posicionamento e comportamento que dificilmente adquiririam sem o treino específico. O mesmo se passa em situações de transição defensiva e ofensiva. Uma equipa pretende que, no momento da recuperação de bola, o avançado se desloque do centro para a direita e que a bola seja posta nesse local para se iniciar a transição. O treino específico e contextualizado irá potenciar essa aprendizagem. Em suma, a metodologia da periodização táctica é benéfica para todo o comportamento colectivo que requeira repetição e sistematização. Mas nem tudo em futebol requer repetição e nem sempre a sistematização é benéfica.

Malefícios

Uma das principais críticas à periodização táctica consiste em defender que uma metodologia que se baseia na repetição de estímulos atrofia a criatividade e a capacidade de improvisação do atleta. Acho a crítica injusta porque aquilo que se pretende não é que o atleta se comporte sempre da mesma maneira, mas que a equipa tenha comportamentos padronizados. Isto é, a periodização táctica serve para criar hábitos nos comportamentos colectivos, não nos comportamentos individuais. Serve para criar soluções colectivas sistemáticas e para oferecer, por sistema, as mesmas várias soluções ao portador da bola, não para obrigar o portador da bola a decidir sempre da mesma maneira. Isto não implica que isto não seja um perigo. E tenho sérias dúvidas que a maioria dos treinadores entenda esta ténue diferença. A periodização táctica, para muitos, serve para cultivar o estímulo que entendem ser o mais correcto em cada atleta. Com isso, atrofiam-lhe a capacidade de decisão. Um dos malefícios, portanto, da periodização táctica, está no facto de a especificidade poder travar a criatividade. Mas há mais. Acho a crítica acima injusta, mas acho também que há um lado da mesma que interessa ter em atenção. O comportamento colectivo, em futebol, depende de duas coisas: do comportamento de cada um dos elementos desse colectivo e da relação entre cada um desses elementos. A periodização táctica é especialmente útil para melhorar este segundo ponto, a relação entre os elementos do colectivo, mas é insuficiente ou até prejudicial no que diz respeito ao comportamento individual. A periodização táctica preocupa-se excessivamente com a abstracção do colectivo, esquecendo que o colectivo, em futebol, tem esta dupla dimensão. Só entendendo o treino colectivo nesta dupla dimensão, como treino de indivíduos e treino de relações entre indivíduos, se pode extrair o máximo de uma equipa. Se, por um lado, a periodização táctica pode ter o condão de aperfeiçoar mais facilmente a coordenação colectiva, ou seja, de melhorar com mais facilidade a relação entre indíviduos, devendo por isso ser adoptada em exercícios cujo objectivo seja afinar essa relação (defesa à zona, pressing, situações de transição, bolas paradas, etc.), tem por outro lado o problema de tornar demasiado específico o comportamento individual. É por isso que as equipas que trabalham em periodização táctica são, normalmente, mais organizadas, mas também equipas com menos capacidade de improviso, demasiado específicas. Assim é porque o treino a que estão sujeitas assenta na repetição e na sistematização, o que, como expliquei, acarreta virtudes e defeitos. Depois, há ainda o problema adicional de cultivar certos comportamentos num jogador, mas não cultivar nele a necessidade desses comportamentos. Um dos maiores problemas de quem trabalha em periodização táctica, a meu ver, tem a ver com o grau de consciência com que os atletas repetem as suas acções. Na minha opinião, sistematizar comportamentos só tem verdadeiro interesse se, ao mesmo tempo, for ensinado ao jogador o porquê de, em determinadas acções, fazer aquilo para o qual está a ser preparado. Percebendo a razão pela qual se deve comportar de tal maneira, mais facilmente o jogador adquirirá o comportamento correcto e melhor preparado estará para a imprevisibilidade do jogo. Ora, tenho sérias dúvidas que a grande maioria dos treinadores que trabalham em periodização táctica tenha competência para fazer perceber aos jogadores o porquê dos comportamentos que lhes são exigidos. E essa será uma das razões principais para o atrofio da criatividade e da capacidade de improvisação a que muitas dessas equipas acabam por ficar sujeitas. Há ainda outros riscos no uso desta metodologia, embora menores, em meu entender. É comum dizer-se que, não se treinando especificamente competências físicas e técnicas, não é possível, ou é difícil, que os atletas adquiram os requisitos físicos e técnicos de que necessitam. Ora, creio que compete ao treinador exigir o máximo em cada exercício e estar atento à execução do mesmo. Se assim for, o treino específico prepará fisicamente tão bem ou melhor os atletas quanto o treino analítico.

Para finalizar, gostaria de dizer que, em tempos, também eu fui traído pelo equívoco que esta conversa inútil implica. No rescaldo do fenómeno Mourinho, fui levado a acreditar que a capacidade de explicar certas coisas e a capacidade de perceber como fazer com que a equipa sistematize comportamentos eram sintomas de qualidades de treinador. Sei hoje que não é assim. Carlos Carvalhal será um dos melhores exemplos. Em tempos, por ter lido a sua tese de licenciatura e por ter percebido que tinha certas competências técnicas, acreditei que era um grande treinador. Não é. É um treinador mediano, que sabe trabalhar bem e potenciar ao máximo certos aspectos de uma equipa, mas que carece de uma compreensão do jogo que se distinga de outros treinadores. Vítor Pontes é outro exemplo. Estes treinadores conseguem, por norma, que as suas equipas sejam defensivamente organizadas, e que tenham as transições minimamente trabalhadas. Mas isso é tão pouco que não chega para fazer a diferença. Lá está, são pessoas que são capazes de tirar o melhor do método em que trabalham, mas que não são capazes de escapar aos perigos que o método acarreta. Por norma, as suas equipas são pouquíssimo criativas. Carlos Azenha é outro dos treinadores modernos a que este texto se dirige. E talvez seja aquele que melhor exemplifica a inutilidade desta conversa. Trata-se de um treinador académico, que parece ter conhecimentos teóricos diferentes, mas que é tão mau ou pior do que qualquer outro treinador medíocre. A curta passagem de José Guilherme pela Académica poderia também servir como exemplo.

Como disse acima, a conversa que se centra no "como" é conversa da treta. Privilegiar uma determinada metodologia de trabalho em detrimento de outra é apenas um pequeno aspecto a considerar nas competências gerais de um treinador, um aspecto tão relevante como, por exemplo, o sistema táctico preferido. Há várias fórmulas para chegar ao sucesso e, não obstante considerar que a periodização táctica tenha virtudes, optar por ela em vez de uma metodologia tradicional não significa praticamente nada. Aliás, não se percebendo certas coisas bem mais importantes acerca do jogo, diria mesmo que essa opção é absolutamente irrelevante. Não percebendo, por exemplo, a importância de ter os sectores sempre juntos, em todos os momentos do jogo, a importância das coberturas defensivas e ofensivas, a importância da tomada de decisão no cômputo geral das acções individuais, etc., diria que pouco importa ser o melhor do mundo a perceber como é que se pode fazer com que os atletas adquiram certos comportamentos. Pensar, por isso, que existe uma espécie moderna de treinadores que está mais capacitada que a espécie antiga, e que a diferença de espécie se explica pela conjuntura teórica em que esses treinadores foram formados, é uma forma errada de pensar. Não existe diferença de espécie nenhuma. Existem treinadores competentes, treinadores mais ou menos competentes e treinadores incompetentes. E a competência não é algo que se adquira por se pertencer a uma determinada espécie e não a outra.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Proscritos

A valorização de um jogador, assim como o seu reconhecimento, resulta da forma como é compreendido e enquadrado no conjunto onde está inserido, tal como o seu recrutamento está associado à capacidade de interpretação que orienta o seu treinador. Mas o que acontece quando os jogadores apresentam características que valorizam as dinâmicas colectivas, ao invés dos desempenhos individuais? Como é que um jogador, que vale essencialmente pelos atributos intelectuais, valorizando o conjunto em detrimento do protagonismo individual, consegue o reconhecimento necessário para que lhe seja permitida a hipótese de demonstrar todo o seu valor? Na maioria das vezes, não o é, e se se vê reconhecido é pelas razões erradas, vendo as características e qualidades conceptuais subjugadas pelas sensoriais, ou seja, aquelas que mais facilmente são apreendidas pelos que abordam o jogo de forma mais superficial, não se dando ao trabalho de enquadrar e tentar compreender a razão que antecedeu a acção.

A evolução no mundo do futebol é, acima de tudo, sensorial. Vive de um sem número de pomposas inovações cheias de mecanismos de medição, analíticos, privilegiando estes sobre a interpretação das acções, das dinâmicas que as equipas impõem. As análises tornam-se frívolas, desprovidas da profundidade necessária para apreender todas as virtudes dos jogadores, e das suas equipas, que não cabem nos números. A questão é, no entanto, muito mais grave do que aparentemente seria de supor, visto que não é possível entender, de forma clara, se estamos perante uma causa, ou uma consequência de uma abordagem inferior ao jogo. Não será esta a primeira vez que reconhecemos ao Futebol um potencial enorme enquanto jogo. Todavia, dificilmente esse potencial será alcançado se continuarmos a olhar para o mesmo em função do que cada jogador pode fazer, pela capacidade que tem em desequilibrar individualmente, em detrimento da capacidade que o mesmo possui em se relacionar com os restante elementos, em conseguir que a equipa onde está seja capaz de, ela própria, através de uma predominante dinâmica colectiva, superiorizar-se e desequilibrar o conjunto adversário. Para uma equipa alcançar este tipo de comportamentos, pede-se aos seus jogadores que se focalizem na sua capacidade de se articular com os restantes elementos, tornando-se com isto em algo diferente do que apenas mais um elemento a somar aos outros todos. Todos dizem: “o conjunto é mais do que a soma das partes”. Até que ponto acreditamos nisto, ou como realmente abordamos este cliché, é a “chave” para podermos dar o salto para o nível que se segue. Mas, para isto acontecer, é necessária uma abordagem que se centre mais na interpretação e análise através da observação do jogo.

Um jogador não deve sucumbir aos vícios que os seus atributos físicos e técnicos reclamam; deve, ao invés, servir-se deles para relacionar o seu intelecto com o todo a que pertencem, preocupando-se sobretudo em fortalecer a dinâmica colectiva do conjunto que o acolhe. Significa isto que se deve diluir totalmente a individualidade de cada jogador na equipa? A resposta assenta num aparente paradoxo. O facto de cada jogador se manifestar em cada jogada em função da equipa, procurando em cada momento buscar a melhor solução colectiva (que a dado momento poderá passar pelo drible, em função da disposição dos restantes colegas, assim como relação risco/recompensa que a situação oferece, etc.), não impede que o mesmo empreste o seu cunho pessoal em cada movimento efectuado, mesmo que actue sobre uma filosofia e estilo comungados pelos restantes companheiros, pois cada jogador é único, assim como a sua capacidade de se relacionar com o mundo. No entanto, para isto acontecer, é necessário que o treinador não sucumba à tentação de procurar que os seus elementos resolvam os problemas colectivos através de iniciativas que dependam pura e simplesmente das dinâmicas individuais. Daí a necessidade de referir, mais uma vez, que os jogadores não possuem funções específicas, para além da óbvia: jogar Futebol.

Assim, enquanto esta realidade não passar de uma miragem, iremos assistir a um aproveitamento negligente de um número considerável de jogadores que, por possuírem uma perspectiva muito mais colectiva e solidária do jogo, abordando-o como um desporto que vale sobretudo pela capacidade colectiva dos seus elementos, são sistematicamente marginalizados. Existiram no Sporting pelo menos três casos de jogadores que sucumbiram a esta incapacidade de o jogo evoluir no sentido acima referido: Romagnoli, Farnerud, e Pereirinha. Os dois primeiros dificilmente conseguirão confirmar todo o potencial que possuem. Quanto ao jovem internacional sub-21 português, não será fácil a confirmação de todo o seu valor, por tudo o que foi dito. No entanto, o facto de ser mais forte na sua individualidade do que os outros dois, principalmente em acções de 1x1, poderá ainda abrir-lhe as portas para um estatuto que o seu intelecto já há muito reclama. De lamentar será se Pereirinha, para se poder impor no futebol que o rodeia, se vir forçado a desvirtuar o seu jogo, assente na capacidade de decisão, em função de um estilo mais vistoso.

Um artista, um escritor, pintor, escultor, etc., não se vê aprisionado pela diferença do seu trabalho da mesma forma que um futebolista. Mesmo que a sociedade contemporânea seja falha da capacidade necessária para valorizar o trabalho que o artista desenvolve, a obra deste pode ser apreciada postumamente. No caso de um futebolista, o cárcere que lhe é imposto pela mentalidade sub-desenvolvida que o rodeia impede-o de deixar obra, e contribuir para o desenvolvimento do jogo. Temos agora a hipótese de dar esse salto, graças a Guardiola. Cabe aos restantes fazer a parte deles: podem começar por ser bons alunos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Requiem

"Lacrimosa dia de lágrimas, aquele em que o homem pecador renasce de sua cinza para ser julgado. Tende, pois, piedade dele, Deus. Ó piíssimo Jesus, ó Senhor, concedei- lhe o repouso eterno. Amén."

Mozart, Requiem


Este texto, pretendendo prestar o devido respeito ao clube finado, e compadecendo-se com a perda leonina, deve ser lido enquanto se escuta a sempiterna Lacrimosa de Mozart, a secção final do seu Requiem a que a epígrafe faz referência.

No dia em que o futebol português voltou a ter 3 clubes capazes de competir pelo título, Alvalade chorou a perda do super-herói que, nos últimos 8 anos, fazendo valer-se dos seus inimitáveis super-poderes, impediu que o Sporting descesse de divisão. Sem Liedson, como poderá o Sporting agora sobreviver? Duvido sinceramente que seja capaz de aguentar mais do que duas épocas na primeira divisão. Aliás, compreendo bem o choro da família sportinguista. É mais ou menos o que aconteceu aos escravos quando se aboliu a escravatura: após anos e anos de opressão, verem-se livres para fazerem o que bem entenderem, não dependerem de senhores prepotentes e não trabalharem ao ritmo da vergasta e do chicote, não é fácil. A reacção dos escravos, perante a mudança, por melhor que fosse essa mudança, foi certamente chorar. Estavam tão habituados à pobre condição de escravos que achavam a escravatura mais confortável que a liberdade.

O que é certo é que, em uníssono, Alvalade compôs um requiem de lágrimas perante a despedida do seu mais valioso futebolista dos últimos anos. Ainda por cima, após um jogo em que o super-herói marcou dois golos. E que golos! Um deles, à boca da baliza, graças a um faro de golo apuradíssimo, que o fez perceber com clareza que o guarda-redes contrário iria defender para a frente, após um lance vulgaríssimo do vulgaríssimo companheiro de ataque, Hélder Postiga. O outro, melhor ainda, seguido de um ressalto vindo de um médio da Naval, deixando-o inadvertidamente isolado. É disto que Alvalade mais terá saudades, desta forma extraordinária de aproveitar tudo o que é acidental, ressaltos, maus alívios, erros dos adversários, disparates alheios. Não poderia terminar melhor a sua passagem pelo clube do que com dois golos que, afinal, tão bem o definem. Aliás, não poderia terminar melhor do que com esses dois golos e com os outros dois que flagrantemente falhou, um dos quais o define igualmente muito bem, a desaproveitar um passe fraquinho de Postiga, falhando isolado perante o guarda-redes adversário.

Por todas as alegrias que o seu super-herói lhes deu nos últimos anos - e foram vários os troféus que ajudou a conquistar - mas sobretudo pelo magnífico desempenho deste último jogo - pois têm mais facilidade os seres humanos em lembrar as últimas coisas e os lances capitais de um jogo - chorou então todo o estádio. Chorou também todo o estádio por saber interiormente que a perda daquele que invariavelmente resolvia todos os problemas da equipa significava o fim do próprio clube. A mim, que tenho um coração de manteiga, a missa fúnebre que foi a cena final comoveu-me muitíssimo, e senti vontade de assistir àquilo tudo com o Requiem de Mozart como música de fundo, para condizer. Desejo acabar, porém, com a nota de optimismo a que subtilmente aludi no início do texto: apesar da tragédia e da choradeira, apesar de não restar agora qualquer réstia de esperança na salvação, apesar da partida do super-herói e do enterro público do defunto, há que ver que, para o futebol o português, é capaz de ser positivo passar a haver mais um candidato ao título.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Entrevista

Um amigo jornalista que começou a visitar com frequência blogues de futebol nos últimos tempos, perfilhando a ideia inteligente de que a utilidade de qualquer discussão se baseia na troca de argumentos, perguntou-me outro dia o porquê das recentes hostilidades entre o Filipe do Jogo Directo e eu. Segundo ele, reproduzindo ideias que outras pessoas já expressaram, o debate sobre futebol tem a ganhar com as discussões que nós temos e seria interessante mantê-las. Disse-lhe que os argumentos são a maior arma numa discussão e que há pessoas que assumem posições fáceis quando os argumentos as conduzem para becos sem saída. Como ele não percebeu o que eu queria dizer, iniciou uma conversa que, pelo vício da sua profissão, aqui reproduzo em forma de entrevista. Para o distinguir, chamemos-lhe Rei de Copas.

Rei de Copas: É verdade que o Filipe te censurou comentários por não lhe "agradar a conversa", como se costuma dizer?

Nuno: Só ele poderá responder a essa pergunta. Isto é, só ele poderá dizer qual a razão pela qual censurou um comentário, mas não consigo encontrar explicação melhor.

Rei de Copas: E em que consistiam os comentários censurados?

Nuno: Era a conclusão de uma conversa - mais uma - sobre o método de análise que ele recentemente adoptou para aferir rendimentos individuais. Estávamos a falar do Maniche e sugeri, como cenário hipotético, uma análise feita ao jogo do Mascherano contra o Bétis, para a Taça do Rei. Nesse jogo, o Mascherano esteve impecável em termos de passe e teve certamente uma percentagem de passes completados na ordem dos 80%, no mínimo. Teci dois argumentos para defender que os números do Mascherano não implicavam que tivesse feito uma boa partida. O primeiro consistia em dizer que percentagem de passes completados não traduz, de maneira nenhuma, o rendimento de um jogador em termos de passe, seja ele quem for, pois não nos informa se a opção de passe foi a melhor em cada situação. Acha o Filipe - e esse é apenas um dos erros do seu método que aponto - que a percentagem de passes completados indica, com um grau elevado de precisão, o rendimento de um jogador da linha média. Aliás, é essa a principal razão para gabar sucessivamente as exibições do Maniche. Ele pensa assim porque acha que a exibição de um médio depende em muito da sua capacidade de dar seguimento aos lances que lhe passam pelos pés. Por trás dessa ideia, está outra que consiste em pensar que um jogador que consiga endereçar a bola a um colega, seja ele qual for e esteja ele em que condições estiver, beneficia a equipa em termos de posse e circulação de bola. Ora, isto não faz sentido.

Rei de Copas: Não sei se estás a ser muito claro. Então achas que a posse de bola depende de mais coisas do que da capacidade de preservá-la?

Nuno: Sim. Para muita gente, manter a posse de bola depende da capacidade de conservá-la. Discordo inteiramente disto. Acho que, em futebol, a posse de bola tem duas componentes: a componente de conservação e a componente de risco, chamemos-lhe assim. Um central, por exemplo, quando sai a jogador tem invariavelmente duas ou três opções fáceis. Se optar por nunca arriscar um passe mais vertical, se jogar sempre com o colega do centro da defesa, ou com o lateral do seu lado, falhará pouquíssimos passes. O mesmo acontece num médio. Um médio que opte por jogar para o lado ou para trás participará com qualidade na posse de bola da equipa, mas apenas na sua componente de conservação. Ora, há alturas em que a melhor opção é um passe para a frente, ou para uma zona mais povoada, ou para um colega com menos espaço para jogar. Às vezes, em situações específicas, o ideal é procurar um apoio frontal, procurar chamar o adversário, procurar invadir espaços curtos. Isto comporta riscos que não se coadunam com a componente de conservação da posse de bola, mas riscos que são necessários se, com efeito, se quer fazer da posse de bola algo mais do que mantê-la. Aliás, a única função da componente de conservação é criar condições ideais para que a componente de risco seja assumida.

Rei de Copas: Então, nesse caso, o rendimento de um jogador de meio-campo depende da forma como avalia cada situação e da opção entre conservar ou arriscar?

Nuno: Não. A sua qualidade em posse depende disso, mas o rendimento de um jogador depende de muitas outras coisas. É por isso que o método do Filipe é altamente redutor. E, por ser altamente redutor, é altamente falacioso.

Rei de Copas: Nesse caso, a sua avaliação do rendimento do Maniche está errada de duas maneiras. Está errada porque se reduz a um elemento do jogo e está errada porque não interpreta sequer correctamente esse elemento. É isto?

Nuno: Sim. Para ele, o rendimento do Maniche é bom porque ele completa muitos passes. Isto não indica nada senão que ele completa muitos passes. Não indica se cada um desses passes correspondeu à melhor opção em cada momento, porque isso só a observação empírica e a análise descritiva de cada lance podem perceber. Além de reduzir o rendimento do jogador àquilo que ele faz com bola. É aqui que entra o segundo argumento que utilizei. O exemplo do Mascherano não foi inocente. Utilizei-o porque ele, apesar de ter estado impecável em termos de percentagem de passes completados, fez um jogo abominável. Como já referi, mesmo com bola, não fez um jogo extraordinário, ainda que não tenha comprometido. Mas sem bola foi absurdo. Posicionalmente, esteve uma lástima. Não só teve culpa em dois golos sofridos, como esteve invariavelmente mal colocado: pressionava à frente dos avançados, ia atrás de jogadores adversários em vez de estar preocupado com a posição relativamente aos colegas, não fornecia coberturas nem apoios recuados, estava permanentemente desconcentrado, fazia faltas desnecessárias, etc. Ora, isto a análise numérica do Filipe não contempla, porque não há maneira de transformar comportamentos em números. E não contemplar isto é perder de vista algo muito importante. A exibição do Mascherano foi horrível, mas, usando o método de análise do Filipe, teria sido bastante boa.

Rei de Copas: E foi essa sugestão que despoletou a hostilidade?

Nuno: Assim parece. A primeira reacção foi defender-se com ironia, acusando-me de estar a afirmar que ele tinha feito uma avaliação ao Mascherano que, na verdade, não tinha acontecido. A acusação é tão idiota que, vindo de uma pessoa inteligente, significa apenas que não tinha outra maneira de defender o seu argumento. Reforcei a ideia de que aquele era um cenário hipotético, de que era eu quem estava a criar o cenário hipotético, e de que a minha intenção era criticar o método e não a análise, pois essa análise não tinha ocorrido. E ele insistiu com a ideia tola de que eu estava a fazer declarações falsas e a pôr palavras na boca dele. Foi aí que se lembrou de dizer que se iria tornar mais activo na moderação de comentários, alegando que a inteligência das pessoas que visitam o Jogo Directo ficaria a ganhar com a censura das minhas mentiras.

Rei de Copas: E achas que essa foi uma estratégia de evasão?

Nuno: Evidentemente. Aliás, o truque não é novo. Já não é a primeira vez que a sua estratégia argumentativa se reduz à tentativa de defesa através do desmentido. Muitas vezes, quando discutimos, a conversa acaba com ele a afirmar que eu estou a pôr palavras falsas na sua boca e que não estou a compreender o que ele está a dizer. Considero-o uma pessoa inteligente, mas este tipo de truque era escusado. Fá-lo porque não lhe interessa continuar a discussão e quando sente que não tem ou não lhe apetece pensar em argumentos. Desta vez, só foi um pouco mais longe e, depois de insistir no truque do costume de dizer que eu estava a inventar coisas que ele não tinha dito (coisa que eu próprio assumi desde o início e que fiz questão de salientar), decidiu acabar a conversa ameaçando censurar o comentário seguinte, assim como todos os que, daqui para a frente, não lhe interessassem.

Rei de Copas: E o que lhe dizias no comentário censurado?

Nuno: Repeti que não estava a inventar coisas que ele não dissera, mas antes a utilizar o seu método de análise para avaliar eu o rendimento de um jogador. Insisti que estava a criticar o método e não a criticar a sua análise, pois ele não a fizera. E disse-lhe, por fim, que, apesar de a opção da censura ser obviamente um direito seu, não deveria justificá-la com a inteligência dos seus leitores, pois os seus leitores, se fossem de facto inteligentes, facilmente percebiam que eu não estava a inventar coisas que ele não tinha dito, como ele alegava.

Rei de Copas: Achas então que a censura não se deveu à necessidade de proteger a inteligência dos seus leitores e a sua honestidade?

Nuno: Isso é evidente. Qualquer pessoa o percebe.

Rei de Copas: Deveu-se a quê, então?

Nuno: À incapacidade de argumentar. Tenho insistido bastante com as limitações do método e ele até assume essas limitações. Mas como quer defender a utilidade do método, tem de ignorar essas limitações. Quando fica incapacitado de defender essa utilidade, perante a evidência da falácia em que consiste, não tem outra solução senão recorrer a estratégias fáceis, como seja aquela de dizer que eu invento coisas que ele não disse, ou a menos honrada de censurar o comentário.

Rei de Copas: Sentes-te de algum modo atingido por não te permitirem contra-argumentar?

Nuno: Não. Não sou pessoa de ficar afectada com golpes baixos. A indignidade atinge apenas aqueles que a praticam. Acho que quem perde alguma coisa com a recusa do debate são as pessoas que o acham interessante e ele próprio, que poderia evoluir com as críticas. Ele, no entanto, entende as minhas críticas como um ataque inútil. E é isso com o qual não concordo. Concordo que seja um ataque e até concordo que seja provocador. Aquilo com que não concordo é com a sua inutilidade. A minha capacidade argumentativa, como a capacidade argumentativa de qualquer pessoa, constrói-se com o treino a que se é submetido pelos ataques que nos fazem. Eu, ao contrário da grande maioria das pessoas, gosto que ataquem as minhas ideias, sobretudo se os argumentos com que o fazem forem fortes. É com a força dos argumentos contrários que o meu pensamento e as minhas ideias evoluem. E quanto mais frontal, desde que honesto, for o ataque, melhor. É isto que ele não entende. É que, apesar da frontalidade, da provocação, da ofensiva do ataque, trata-se de um ataque honesto, isto é, fundado em argumentos. E ele teria muito a ganhar se optasse por contra-argumentar, em vez de fugir à argumentação. Mas são opções. Como é opção dele, de há uns tempos para cá, deixar cada vez mais que as suas análises sejam influenciadas pelos números e menos pela interpretação.

Rei de Copas: Achas, portanto, que as análises feitas no Jogo Directo têm menos interesse, hoje em dia, do que tinham?

Nuno: Acho que são mais redutoras. O Filipe pensa que progrediu, ao ter números a suportar as suas análises. Mas está enganado. É que, apesar de poder falar com mais conhecimento de causa em relação a certas coisas - e isso é um facto - perdeu de vista coisas importantes.

Rei de Copas: E que coisas importantes foram essas?

Nuno: Ao basear a sua análise em números, talvez tenha arranjado maneira de comprovar que um certo jogador é forte num determinado aspecto do jogo e fraco noutro, mas deixou-se levar por uma tendência de análise que consiste em entender o rendimento de um jogador como uma soma de atributos. Para ele, o rendimento é igual ao somatório dos vários aspectos do jogo. Com isto, perdeu de vista algo muito mais importante, que tem que ver com a relação entre cada um desses aspectos. O rendimento do Maniche é obtido através da soma de percentagem de passes completados, desequilíbrios ofensivos, perdas de bola, recuperações, remates, etc. De fora desta história ficam várias coisas. À cabeça, coisas que se fazem sem bola: posicionamento, movimentação, desmarcação, capacidade de fornecimento de apoios. Mas fica de fora também a tomada de decisão, que em futebol vale mais do que o efeito de cada decisão. O Filipe contabiliza factos, quando na verdade deveria contabilizar intenções. É por isso que a adopção do método o afastou do que verdadeiramente importa. Compenetrado com os números, perdeu de vista coisas muito mais importantes.

Rei de Copas: É esse o teu argumento contra as estatísticas, em geral?

Nuno: Em parte, sim. O problema de deixar que as estatísticas expliquem os fenómenos, numa coisa que depende de intenções, como é o caso do futebol, é que normalmente explicam apenas os resultados e não as tendências que conduziram a esses resultados. Explicar rendimentos através de factos seria o mesmo que explicar a qualidade de uma obra de arte pelo número de pessoas que visitou a galeria em que ela se encontra exposta. A qualidade da arte não depende de coisas contáveis, não por ser arte, mas por ser qualidade. Não depende da opinião das pessoas, não depende da perfeição técnica, não depende do domínio do medium, não depende de nada que seja mensurável. Não existe, em arte, uma pedra de toque através da qual se possa aferir a qualidade de uma coisa. Depende, isso sim, da potencialidade descritiva da obra, das ideias do autor, do interesse dessas ideias, etc. Em futebol, passa-se o mesmo. Não existe uma pedra de toque com que possamos contabilizar a qualidade com que um jogo foi jogado. Ao criar um método que pretende eliminar parte da análise descritiva, um método que, não sendo assumidamente perfeito, tem a pretensão de aproximar a análise da verdade, o Filipe está a tentar inventar uma pedra de toque através da qual possa medir, com maior ou menor grau de erro, uma coisa que não é mensurável por natureza. O que o método dele pretende é eliminar a análise descritiva e transformar números em evidências. Isto, em futebol, é altamente falacioso. A sua formação matemática diz-lhe que a estatística ajuda a perceber melhor tendências. O que ele não entende é que os fenómenos cujas tendências as estatísticas podem explicar não são fenómenos como o futebol. No futebol, a matemática e as estatísticas não têm nem podem ter a mesma capacidade explicativa que têm noutras áreas. A minha reacção contra as estatísticas deriva da convicção de que, em futebol, elas são sempre uma tentativa frustrada e simplista de resolver a complexidade inerente ao jogo. No fundo, o que as estatísticas fazem é tentar tornar quantitativo o que não pode deixar de ser qualitativo. E isso é absurdo.

Rei de Copas: A tua analogia com a arte é muito interessante. Queres falar um pouco dela?

Nuno: Posso falar. Ninguém no seu perfeito juízo achará que pode medir a qualidade - digamos - da Noite Estrelada de Van Gogh ou da Für Elise de Beethoven. Essa qualidade só pode ser descrita, nunca medida. Até uma certa altura, a pintura era essencialmente representação e a qualidade de uma pintura dependia em muito da sua capacidade representativa. De certo modo, o mundo visível era uma pedra de toque para aferir a qualidade da obra. Mas o Impressionismo acabou com isto. A qualidade não depende da sua capacidade de imitar ou representar o real, como não depende da perfeição técnica, de aspectos formais, etc. A qualidade está na imaginação do artista no momento da pintura. Para descrever qualitativamente a Noite Estrelada, é necessário descrever as intenções, as ideias e as preocupações de Van Gogh, a aquisição técnica e conceptual que lhe permitiu aquela pintura, a relação, no fundo, entre as propriedades manifestas no quadro e aquilo que era a figura do seu autor. Estas coisas não são contáveis; podem apenas ser descritas. Em futebol passa-se o mesmo. Tal como, para perceber a qualidade da Noite Estrelada, é muito mais importante descrever relações entre o que é visível e as intenções do autor do que reparar em coisas visíveis, em futebol é muito mais importante descrever as intenções, as ideias e as opções do Maniche do que contar a quantidade de passes que ele conseguiu.

Rei de Copas: E queres dar exemplos de aspectos estatísticos que, segundo o que defendes, não podem servir senão para perceber coisas supérfluas?

Nuno: Bom, já falei de alguns, como seja a percentagem de passes completados. Não queria falar disso em profundidade, pois um amigo de longa data está a preparar um texto sobre a falácia das estatísticas, que será publicado, se tudo correr bem, nos próximos dias, mas posso referir exemplos. Remates à baliza, por exemplo. No método do Filipe, a quantidade de remates à baliza influencia o rendimento do jogador. O erro implícito é grosseiro. Qualquer remate, para ele, é qualitativamente relevante. Isto não faz sentido nenhum. Um jogador que remate cinco vezes de meio-campo tem um rendimento, a nível de remates, idêntico a um jogador que rematou cinco vezes à entrada da área. Um remate em desequilíbrio, sem ângulo, numa situação de três para um, é qualitativamente igual a um remate em condições privilegiadas, em zona frontal, sem oposição, quando não tem nenhum colega melhor colocado. E por aí fora. O mesmo se passa com recuperações de bola. O jogador que faz a intercepção fica com os louros todos, quando muitas vezes é um colega que força, pela pressão que exerce, o adversário a fazer mal o passe. No método do Filipe, uma intercepção por boa leitura de quem intercepta tem tanto valor como uma intercepção por mau passe do adversário. Um jogador que tenha a sorte de estar na zona por onde o adversário mais ataca terá, à partida, mais condições que os colegas para ter mais recuperações de bola. Além disto tudo, há ainda que perceber que custos, sobretudo em termos de organização defensiva, terá tido cada uma das recuperações de bola de um jogador. Nada disto é contemplado pelas estatísticas. Poderia falar de muitos mais exemplos, pois nenhum aspecto estatístico está isento de falhas deste tipo, mas estes dois chegarão. Há, ainda, no entanto, um outro problema, que tem a ver com o critério de selecção dos aspectos relevantes. Como é que se decide que um remate é relevante para aferir o rendimento de um jogador e um lançamento de lateral não é? É uma pergunta justa. E a única resposta possível é: bom senso. E aqui entra um lado não-quantitativo da coisa que entra em contradição com a pretensão científica do método. É que todo o método, que se pretende o mais científico possível, depende da sua não-cientificidade.

Rei de Copas: Mas o Filipe assume que a análise estatítisca é apenas um instrumento e que carece de interpretação.

Nuno: Assume, mas só para o que lhe dá jeito. E, ao assumi-lo, fica com um problema grande entre mãos. É que, se os números carecem de interpretação e, por si só, não servem de muito, então os números não têm poder explicativo. Se não têm poder explicativo, não podem ser usados como pedra de toque para aferir nada, não podem servir de arma de arremesso para validar interpretações e não podem servir de argumento para desvalorizar outras interpretações. O problema do Filipe é que quer duas coisas que se excluem mutuamente: a cientificidade dos números e a interpretação deles. E quere-as por razões diferentes. Quer, por um lado, que os números legitimem a sua interpretação, e nesse sentido diz que eles são apenas instrumentos; mas quer também que os números tornem ilegítimas interpretações diferentes das suas, e aí os números já são ciência exacta. Na verdade, o método do Filipe é uma tentativa pobre e desonesta de se auto-legitimar.

Rei de Copas: Tens algum exemplo com que possas ilustrar isso?

Nuno: Sim. Recentemente, o seu método avaliou o Guarín muito positivamente. Apesar disso, o Filipe considera que o Fernando é melhor para o lugar, pois é melhor a nível posicional. Neste caso, o Filipe ignorou a tendência estatística, assumindo a limitação do método, explicando a opção por questões que o método não contempla, como seja a responsabilidade táctica e o sentido posicional do Fernando. Devo dizer que concordo inteiramente com o Filipe. O problema é a incoerência. Neste caso, o Filipe teve lucidez suficiente para perceber que o Guarín é inferior ao Fernando em certas coisas importantes que não podem ser contabilizadas. Mas, noutros casos, o método funciona como ciência exacta e os números servem para objectar opiniões que se fundam em coisas que também não podem ser contabilizadas. Desde logo, o exemplo do Maniche. O meu argumento em relação ao Maniche era semelhante ao argumento do próprio Filipe em relação ao Guarín e ao Fernando. O que eu defendia era que os números do Maniche não significavam, por si só, que ele merecesse o aplauso largo que ele lhe concedia, da mesma forma que os números do Guarín não justificavam, por si só, que fosse melhor para o lugar que o Fernando. Para que o Maniche merecesse tal coisa, havia que falar de coisas de que o Filipe não falava, coisas que o método não pode contemplar. Nesse caso específico, o Filipe não aceitou a interpretação. No caso do Maniche, os números representam fielmente o seu rendimento e ele não admite outra interpretação. No caso do Maniche, o sentido posicional e a responsabilidade táctica nem sequer são relevantes para aferir a sua qualidade. Isto é uma incoerência primária. Poderia ainda falar da questão do Javi Garcia. Ultimamente, tem argumentado o Filipe sistematicamente que o Airton desempenha a posição com qualidade e que merecia a titularidade, por não perder tantas bolas como o espanhol. Mais uma vez, está a basear a sua opinião somente nos números. Está a esquecer coisas importantes, coisas que ele próprio não esquece noutras ocasiões. Está a deixar de lado, em primeiro lugar, as opções de passe dos dois. Para aferir se o Airton perde mais ou menos bolas que o Javi, não basta contar as perdas de bola; é necessário também perceber as opções de passe dos dois, o grau de risco adoptado, a restante estrutura colectiva, etc. Depois, é necessário também observar coisas como o sentido posicional, coisas como a capacidade de leitura dos lances e a velocidade com que os jogadores se reposicionam, etc. E, finalmente, uma coisa que o Filipe tanto gosta, o aspecto mental: o Javi Garcia é mais adulto e acusa menos a pressão que o Airton, é mais experiente e sabe melhor em que situações, por exemplo, pode e deve fazer falta. Todas estas coisas ficam de fora na observação do Filipe. Não quero com isto defender nada em relação ao Javi e ao Airton. Estou apenas a discutir as razões numéricas que servem o argumento do Filipe.

Rei de Copas: E a questão do Belluschi?

Nuno: Pois, o Filipe acha que descobriu a pólvora, ao afirmar que o Belluschi, ao contrário do que se pensava, é muito forte em termos defensivos, recuperando muitas bolas. E é um dos exemplos que mais gosta de dar para justificar a relevância do método. A meu ver, trata-se de uma trivialidade. Já há um ano que o Entredez defendia que o Belluschi não era fraco em termos defensivos. O argumento não era necessariamente o mesmo, ou seja, o de que recupera muitas bolas, mas isso não importa. Já o dizíamos, como o dizemos em relação a outros jogadores, normalmente os criativos, que, por serem criativos, geram o preconceito de serem fracos defensivamente. Quase nenhum o é. Mas, mais importante do que afirmar que a descoberta do Filipe não foi descoberta nenhuma, pois já havia quem o defendesse antes, é afirmar que a descoberta do Filipe é um disparate. É que, para ele, as recuperações de bola de um jogador, seja o Belluschi ou outro qualquer, é sinal inequívoco de que exerce um trabalho defensivo relevante. O que ele esquece é que esse jogador está inserido numa determinada estrutura colectiva, estrutura essa que pressiona de uma determinada forma. Não será alheio aos números do Belluschi, por exemplo, o facto de ter ao seu lado um jogador muito forte em termos de agressividade e ocupação de espaços, como seja o Moutinho. A minha opinião é que, parte dos números do Belluschi se explicam melhor pelo trabalho colectivo do que propriamente pelo desempenho individual. O Belluschi recupera muitas bolas porque é inteligente, porque se posiciona bem, porque lê bem os lances, porque é suficientemente agressivo e ocupa suficientemente bem os espaços defensivos, mas também porque o Porto pressiona de um modo específico que conduz a mais recuperações na sua zona. E esta segunda parte da explicação o método do Filipe não é capaz de perceber.

Rei de Copas: Para ti, portanto, o método estatístico do Filipe é um perfeito disparate?

Nuno: Acho que pode ajudar a perceber tendências, mas nunca a explicá-las. E jamais pode funcionar para aferir rendimentos individuais. Há demasiadas coisas que não podem ser contempladas senão pela análise descritiva.

Rei de Copas: E o que tens a dizer em relação à pretensão do Filipe de que um método estatístico, parecido com o seu ou não, ajudaria necessariamente as equipas a estarem mais conscientes das suas necessidades e a perceberem melhor o rendimento individual dos seus atletas?

Nuno: Isso sim, acho um perfeito disparate. Há coisas muito mais importantes a considerar para que uma equipa possa potenciar o seu colectivo do que propriamente perceber quantas bolas um jogador perde e quantas bolas ele recupera. A potenciação das equipas dependerá de uma melhor percepção dos comportamentos dos seus jogadores e de uma melhor percepção do seu comportamento colectivo, não da percepção daquilo que cada jogador fez ou deixou de fazer.

Rei de Copas: Gostavas que o Filipe fizesse alguma coisa em relação ao seu método?

Nuno: Não tenho nada a ver com o que ele faz. Mas, já que falas nisso, gostava a sério que ele o utilizasse para analisar um jogo do Barcelona. A prazo - como ele diz que todos aqueles números devem ser lidos - iria talvez perceber que não poderia chegar a conclusões nenhumas. Iria talvez perceber que Xavi e Iniesta têm uma percentagem de passes completados inferior à dos outros médios e perdem mais bolas que Busquets e até do que Mascherano e Keita, embora isso não os faça necessariamente descartáveis. Iria talvez perceber que Puyol perde menos bolas que Piqué, e que isso não faz dele um defesa necessariamente mais fiável em posse. Iria talvez perceber que os desequilíbrios ofensivos são repartidos quase igualmente pelos cinco jogadores mais adiantados, e que isso complicaria a distinção individual que gosta de fazer. Iria talvez perceber que não há diferença significativa entre o número de passes completados pelo Mascherano e o número de passes completados pelo Busquets e que Busquets perde mais bolas que Mascherano, embora a titularidade de Busquets não possa sequer ser posta em causa. Uma análise ao Barcelona poderia servir para ele perceber a inutilidade em que consiste o seu método. Ou então não. A casmurrice é tanta que era capaz de inventar desculpas para as coisas esquisitas que encontrasse.

Rei de Copas: A tua relação com o Filipe é cada vez mais tensa?

Nuno: Não acho que tenhamos uma relação. Aliás, deixa-me aproveitar para falar de um assunto sobre o qual muitos têm uma opinião que considero errada. As pessoas falam muito de cordialiidade e de boa educação. Acham que eu tenho um estilo deselegante e, mesmo que reconheçam importância ao que digo, aconselham invariavelmente a ser mais moderado no modo como exponho as minhas ideias. Devo dizer que essas pessoas não percebem bem aquilo que eu faço. Interessa-me pouco cultivar amizades; isto não é a minha vida. As intervenções em blogues, a exposição das minhas ideias neste blogue, a minha existência cibernáutica, no fundo, não tem nada a ver com a minha vida. O meu interesse é inteiramente intelectual. E, por sê-lo, deve estar o menos constrangido possível por convenções sociais. As pessoas imaginar-me-ão sempre como alguém muito irritado à frente do computador, como alguém muito febril, que se entusiasma muito com as discussões. Não sou nada disso. Se disser que, no dia-a-dia, sou uma pessoa extraordinariamente diplomática, calma e muitíssimo bem-educada, cordialíssima, que não ostenta qualquer tipo de arrogância nem tem opiniões fortes sobre praticamente nada, poucos acreditarão. E não acreditarão sobretudo porque não percebem aquilo que eu faço aqui. O meu interesse aqui é discutir, expor ideias, tecer argumentos, ouvir opiniões diferentes e procurar rebatê-las. O meu interesse é cultivar-me, e isso faço-o pelo exercício exaustivo da discussão, pelo esforço mental de procurar respostas para todos os problemas. É precisamente porque o que me interessa é a discussão e só a discussão que assumo o estilo que assumo. Isto porque a discussão tem tanto mais interesse quanto mais controversas forem as propostas. A minha falta de cordialidade, a minha postura acusativa, a minha arrogância, a minha ironia, tudo aquilo que as pessoas, no fundo, acham que eu sou é uma fatalidade do meu único interesse, que é discutir. O carácter desta entidade que escreve e assina como "Nuno" não é o carácter da pessoa real que lhe dá corpo, mas uma consequência necessária dos interesses que essa pessoa tem ao escrever nestes espaços sobre estas coisas. É por isso que não faz sentido achar que devo respeito às pessoas com quem falo. É que eu não falo, verdadeiramente, com elas. A personalidade que é resultado dos meus interesses em falar destas coisas é que fala com elas. Trata-se de uma máscara. E eu, na verdade, não tenho controlo sobre o que ela diz, pois o que ela diz é consequência dos interesses intelectuais e do interesse na discussão que, esses sim, possuo.

Rei de Copas: Pois, para mim, que te conheço, isso é claro. Obrigado, Nuno, por esta extensa conversa! E até uma próxima oportunidade...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As Trivialidades de Carlos Manuel

Carlos Manuel, ex-jogador de futebol de alguma reputação, treinador modesto e comentador assíduo de jogos de futebol, é um bom exemplo de como ter sido jogador de futebol não é condição prévia para poder falar sobre o jogo. Muito menos o é para ter emprego relacionado com o jogo. As suas opiniões - esquecendo a sua obsessão com Vukcevic, que faz adivinhar um ódio particular que só as crianças, os frustrados e os psicóticos possuem - são invariavelmente fracas e erradas. Hoje, quando Carlos Manuel comentava o jogo que opunha o Benfica ao Olhanense, percebi também que são triviais. A trivialidade de que quero falar aqui ocorreu sensivelmente a meio da primeira parte: Toy recebeu um passe na esquerda, sem qualquer apoio por perto, e Maxi Pereira, entrando com agressividade em excesso, cometeu uma falta desnecessária. A opinião de Carlos Manuel foi de que Maxi tinha feito bem, independentemente de ter sido ou não falta, pois é dever de todo o jogador estar o mais perto possível do portador da bola, de modo a não o deixar pensar. A trivialidade da coisa é quase obscena. E só não merece maior protesto porque, além de trivial e de fazer parte das ideias preconcebidas da grande maioria dos que pensam que percebem alguma coisa de futebol, é absolutamente absurda. Trata-se de um preconceito e de uma generalização sem qualquer fundamento.

Se é evidente que, quanto mais perto o defesa estiver, menos tempo o portador da bola tem para pensar, não é menos evidente que menor capacidade de reacção tem também o próprio defesa. Estar perto do portador da bola pode fazer com que este tenha menos tempo para pensar, mas também retira tempo e espaço de manobra a si próprio. Além disto, é importante perceber ainda que esta não é uma teoria geral e depende muito das características do portador da bola. Se se trata de um jogador tecnicamente muito evoluído, estar sempre em cima dele pode ser especialmente errado. Do mesmo modo, é preciso ver o lance em si. Se se trata - como se tratava - de um lance em que o portador da bola não tinha qualquer apoio próximo e estava junto à bandeirola de canto, aproximar-se dele e assumir uma postura agressiva é francamente desnecessário.

Carlos Manuel - que acabou de dizer, na sequência do golo de Sálvio, que "isto tem a ver com o momento que o jogador tá" - além de usar o verbo "tar" e não saber o que é uma regência verbal, não percebe estas coisas. Para ele, um lance junto à linha é igual a um lance no meio-campo; um lance protagonizado por Messi é igual a um lance protagonizado por Luisão. Para ele, a postura defensiva de qualquer jogador, em qualquer situação, deve ser o mais agressiva possível. Para ele, defender é cerrar os dentes, morder a língua e correr atrás da bola e dos adversários que a têm. É incapaz de perceber que o jogo é jogado por seres humanos e estou até desconfiado de que não acredita que jogadores de futebol, como quaisquer seres humanos, têm neurónios e devem, além de correr e salivar atrás de adversários, pensar. O seu pensamento é de tal modo primitivo e quadrado que os seus jogadores ideais devem ser os que ganham ao braço de ferro e os que têm por meio de transporte preferido a liana. É por estas e por outras que ele e muitos outros artistas como ele não percebem um chavelho daquilo de que fazem profissão. O futebol lamenta, é certo, mas a verdade é que, sem palhaços, o circo não tinha a mesma graça.