terça-feira, 2 de outubro de 2012

Kyle Walker e o que Não é um Lateral

A primeira vez que vi Kyle Walker a jogar, pela selecção sub-21 inglesa, pensei imediatamente: "este tipo, em poucos anos, vai ser adorado por uma grande falange de mentecaptos, e vai ser considerado dos melhores laterais da Europa". É claro que Kyle Walker, na minha opinião, não é nada disto. Mas não me enganei. Em pouco tempo, começavam a babar-se por ele aqui, e hoje ninguém lhe discute a qualidade, como por exemplo aqui. A razão pela qual adivinhei a reputação futura de Kyle Walker é a mesma razão pela qual ninguém lhe discute o valor: a grande maioria das pessoas acha que o lateral é uma coisa que facilmente se percebia que Kyle Walker viria a ser. A saber, o jovem inglês é um prodígio em termos de força, é rápido, é muitíssimo agressivo, compenetrado, e tem técnica suficiente para fazer o corredor sem problemas. Além disso, tem uma mentalidade competitiva invejável. Este conjunto de atributos, num lateral, é hoje em dia inquestionável. Noutras posições do terreno, é mais difícil adivinhar quando um jogador vai ser apreciado ou não, mas um lateral com estas características não podia dar errado. E é este o problema. Como estas pessoas acham que um lateral tem um conjunto de tarefas para desempenhar, aquele que tiver este tipo de atributos será sempre preferido a outro tipo de jogador. Sabem que, aconteça o que acontecer, seja contra quem for, Kyle Walker vai conseguir sempre fazer o corredor com a mesma pujança, entregar-se-á sempre de maneira total ao jogo, e perderá poucos duelos individuais. Esquecem-se do principal, de que um jogador de futebol, seja lateral ou não, não é nada disto.

Para a grande maioria das pessoas, um lateral, nos dias que correm, tem de ser alguém que, para além de competente defensivamente, tem de ser capaz de fazer o corredor todo. De acordo com isto, avaliam a qualidade de um lateral recorrendo apenas a duas análises: se é forte nos duelos defensivos, e se é capaz de subir, combinar, e cruzar para área. Sem grandes rodeios, nada disto é importante num lateral, a meu ver. As competências defensivas vão muito para além da competência nos duelos de um para um, e as competências ofensivas são muito mais do que simples movimentos verticais e qualidade técnica no cruzamento. Um lateral que não se saiba relacionar com os seus colegas da defesa, que não saiba o que é uma cobertura, que não saiba fazer contenção, que pareça uma barata-tonta atrás do atacante que lhe aparecer por perto, que não saiba tomar uma boa decisão sem bola, pode ser um prodígio em termos de força, pode nunca ser ultrapassado em velocidade, pode ganhar muitas bolas divididas, mas não será um bom lateral em termos defensivos. Do mesmo modo, um lateral que não saiba jogar para dentro, que não saiba dar um apoio no momento certo, que não seja capaz de escolher a melhor opção de passe, que não tenha critério no momento de tomar uma decisão, pode ter um pulmão invejável, pode fazer o corredor milhares de vezes por jogo, e pode ser tecnicamente exemplar a cruzar, que não será um bom lateral em termos ofensivos. Sem cérebro, confesso que não consigo perceber como é que alguém possa ser jogador de futebol. Mas a grande maioria das pessoas continua a negligenciar os atributos intelectuais de um jogador, e é por isso que Kyle Walker tem o estatuto que tem, estatuto esse que há-de até tornar-se maior.


Para exemplificar o que digo, podia trazer lances de Cédric Soares. Felizmente, o próprio Kyle Walker poupa-me a ter de usar o jovem leão, cujo estatuto adquirido é em tudo idêntico ao caso do inglês, embora seja um jogador com características diferentes. Apesar de o inglês ter acumulado variadíssimas asneiras, só consegui encontrar o lance do segundo golo do Manchester, na vitória suadíssima dos pupilos de Villas-Boas em Old Trafford no passado sábado, e é dele apenas que falarei. Ainda a bola vem no meio-campo e já se percebe, embora a imagem não abra, que o posicionamento do lateral direito é já defeituoso: parando-se o filme no sétimo segundo, vêem-se 3 defesas em linha, do lado da bola, e um lateral direito que não está onde devia, que nem sequer aparece, que está demasiado aberto, porventura colado ao extremo que lá anda. Mas é quando Van Persie vem para a esquerda, com a bola controlada, e Kagawa flecte para o meio, que o comportamento inacreditável do lateral do Tottenham mais deve ser destacado. Kagawa invade precisamente o espaço entre Walker e o central do seu lado, aproveitando o erro inicial, e o lateral vai atrás dele, até ficar vários metros atrás da linha defensiva. No momento em que Van Persie dribla o seu opositor, Walker perde a fixação pelo japonês, mas mantém o seu posicionamento atrás da linha defensiva, e longe do central. Como se não bastasse, e apesar de o holandês conduzir agora a bola para a zona central, Kyle Walker abre na direita, cavando um fosso ainda maior entre o central e ele próprio. Kagawa não precisa agora sequer de se desmarcar para receber um passe pelo meio e ficar isolado frente ao guarda-redes dos londrinos: um golo fácil, resultante de um erro primário. Ao longo deste jogo, e ao longo de outros jogos, Kyle Walker cometeu vários erros básicos deste tipo. Está preocupado com as coisas erradas, não tem capacidade para perceber e ler o jogo, momento a momento, não é capaz de decidir bem, e não percebe sequer o que faz em campo, a maioria das vezes. A incapacidade para reajustar o seu posicionamento consoante as coordenadas do ataque adversário mudam é assustadora. Mas como tem pulmão, é forte fisicamente, e até dá uns toques, fizeram-no acreditar que podia ser jogador. E pode, de facto. Isto porque no futebol há mediocridade suficiente para que alguém assim possa chegar a ser um jogador de topo.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

A Cabecinha de Mascherano e o Treino de Certas Habilidades

O jogo é o Barcelona-Granada, da última jornada da Liga Espanhola, e o lance ocorre já no final da partida, antes, porém, de o Barcelona chegar à vantagem. O Barcelona não fez um jogo extraordinário, denotando uma vez mais pouca elasticidade, coisa que Tito Vilanova parece não compreender, ao não abdicar do seu 433 rígido, com extremos que servem praticamente apenas para dar profundidade à equipa. Os seus pupilos dominaram a partida, criaram algumas ocasiões de golo, mas não conseguiram desmanchar a defesa do adversário como tão bem o faziam no passado. Tudo melhorou quando Xavi entrou e, sobretudo, quando Tito Vilanova, ao trocar Adriano por Tello, experimentou, pela primeira vez desde que está ao comando da equipa, o 343 losango de Guardiola. Para bem do futebol, seria bom que Tito tivesse percebido aquilo que conseguiu, ao mexer assim no jogo. A partir desse momento, sobretudo, o jogo desenrolou-se praticamente apenas dentro da área do Granada e à saída dela, com o Barça a conseguir muitas combinações curtas em zonas bastante avançadas e a conseguir pressionar muito mais alto. Os últimos 15 minutos foram os únicos que valeram mesmo a pena, e, aí sim, voltou a pairar sobre Camp Nou a aura de Pep Guardiola.

A vitória acabaria por chegar, muito naturalmente, mas não sem que antes a equipa passasse por um susto, no único lance, em todo o jogo, em que, de facto, o Granada podia ter facilmente chegado ao golo. Tito Vilanova e os mais conservadores até poderão concluir que tal ocasião, por ter acontecido precisamente numa altura em que havia menos homens atrás, é consequência do risco que o 343 representa. Estão enganados. Trata-se de um lance de vantagem numérica defensiva, que só por força de um erro individual pôde ter expressão. E erros individuais tanto acontecem em defesas a 3 como em defesas a 4, sobretudo se Mascherano estiver em campo. Confesso que não consigo compreender a admiração que se sente por este argentino, nem o entusiasmo que continua a gerar nalgumas franjas de adeptos, principalmente depois de errar tão flagrantemente e com tanta regularidade. Enfim, continua a haver muita coisa para mudar no jogo. Falemos do lance.


O filme não mostra o que antecede o passe que isola o avançado do Granada, nem permite perceber os comportamentos de Song e de Mascherano, pelo que tenho de descrevê-los. O Granada sai em contra-ataque, com a bola a cair junto à linha, do lado direito. Song, muito bem, acompanha o lance, não caindo no erro de tentar o desarme, até porque o adversário estava praticamente isolado. Mascherano acompanha a jogada de perto, e atrás dele vem um segundo atacante do Granada. Do outro lado, um terceiro defesa do Barça fecha o meio, garantindo a superioridade numérica. Não querendo forçar o desarme, Song obriga o portador da bola a recuar, permitindo a recolocação de Mascherano ao meio, em cobertura, mas o argentino, por qualquer paragem cerebral que me custa a compreender, abranda o passo, esquece a necessidade de ir fazer a cobertura a Song, e permite que o segundo atacante lhe passe nas costas, abrindo a possibilidade ao portador da bola de fazer o passe entre Song e Mascherano. É precisamente aí que o filme começa, e quem o veja pode até pensar que Mascherano chega atrasado para cortar essa linha de passe. Não é verdade. Mascherano pensou foi noutra coisa, e não compreendeu o que o lance exigia dele, permitindo que uma jogada completamente controlada, de 2 atacantes para 3 defesas, se transformasse de repente numa jogada de 1 para 0.

Que Mascherano tem dificuldades a interpretar lances de futebol já não deve ser novidade para ninguém. Aquilo de que me apetece falar, contudo, é de uma ideia geral de treino segundo a qual se acredita que os jogadores aprendem pelo treino a corrigir as suas capacidades interpretativas. Acredito que o treino pode melhorar muita coisa (capacidades técnicas, físicas, tácticas, etc.), mas sempre duvidei da capacidade do treino para melhorar um certo tipo de capacidades muito específicas, e que tem sobretudo a ver com a leitura de lances não-padronizados. Ou melhor, até posso aceitar que o treino possibilite essa melhoria, mas nunca a curto ou médio prazo, e somente mediante um tipo de treino muito diferente daquele em que a esmagadora maioria dos treinadores acredita. Quando digo a esmagadora maioria, não estou a exagerar; é mesmo a esmagadora maioria. Os defensores daquilo a que se convencionou chamar "periodização táctica", por exemplo, gostam de acreditar que são a vanguarda do treino, que são aqueles cuja metodologia é a mais moderna possível. Mas qual é a grande mais-valia da periodização táctica? A capacidade de mecanizar comportamentos colectivos contextualizados, mediante uma ideia de treino por tentativa e erro. O problema é que isso, não obstante a diferença para outras metodologias mais antigas, não contempla nem um décimo das situações de jogo que um jogador encontra. Por tentativa e erro pode-se ensinar um jogador a comportar-se em muitas situações típicas, mas não se pode ensinar um jogador a interpretar situações atípicas. E o problema é que o futebol é um jogo essencialmente de situações atípicas. É sobre isto que falta reflectir. De que modo poderia um treinador ensinar a Mascherano que, naquela situação, deveria ter ido proteger rapidamente as costas de Song, garantindo a permuta de funções, e inviabilizando um passe para as costas da linha defensiva? Com que exercícios de treino é que, repetindo-os muitas vezes, o argentino ficaria preparado para responder melhor a esta situação? A resposta é fácil: com nenhuns! A interpretação não é uma habilidade como as outras, e não pode ser cultivada do mesmo modo que as outras o são. Nenhuma metodologia convencional de treino (e, sim, a periodização táctica, não obstante as diferenças significativas para modelos de treino mais primitivos, é uma metodologia convencial, pela simples razão de entender o jogo exactamente do mesmo modo que os outros modelos o entendem, ou seja, como um jogo de situações típicas como o basquetebol, o voleibol, o andebol, ou o futsal) é capaz de trabalhar, a breve ou a longo prazo, as habilidades interpretativas. Para que um jogador melhore as suas habilidades interpretativas (isto é, no fundo, a sua decisão em lances para os quais o treino não o mecanizou, ou seja, lances que não exigem respostas tipificadas), tem primeiro de compreender o jogo, de compreender aquilo que a cada momento é o melhor a fazer. Só um tipo de treino centrado num certo culto da decisão, um tipo de treino não-especializado, cuja preocupação central seja não a criação de padrões de comportamentos, rotinas colectivas e especialistas para cada posição, mas sim a compreensão daquilo que é o jogo a cada momento, só um tipo de treino assim é capaz de melhorar este tipo de habilidades. Um tipo de treino assim não tem propriamente uma metodologia própria, à qual vem filiado; tem, isso sim, uma concepção do jogo de espécie diferente, uma concepção do jogo que nenhum dos outros tipos de treino, sejam os mais tradicionais, seja os mais modernos, tem, e que consiste em entender o jogo, em termos teóricos, de modo completamente distinto e inovador.  

domingo, 19 de agosto de 2012

Benzema, os Avançados, e a Ilusão dos Números

Não foi sem controvérsia que, após o desafio que opôs espanhóis a italianos, a contar para a primeira jornada da fase de grupos do europeu deste ano, José Mourinho declarou que a Espanha, jogando sem um avançado de raiz, tinha sido praticamente inofensiva. Tive oportunidade de dizer que as declarações de Mourinho não faziam muito sentido, sobretudo tendo em conta que o avançado, no seu Real Madrid, funciona de modo muito pouco convencional, e que tal parecia muito mais uma bicada a Guardiola do que propriamente algo em que acreditasse. Entretanto, a Espanha sagrou-se campeã europeia, e realmente só foi inofensiva quando jogou com um avançado. O equívoco de Mourinho é, porém, pouco pertinente, para o assunto deste texto, embora sirva para lançá-lo.

Quando Mourinho chegou a Madrid, Gonzalo Higuain foi a sua primeira escolha. O argentino garantia velocidade de execução, profundidade nas costas das defesas adversárias, e bastantes golos. Quando se lesionou, o francês Karim Benzema, até então suplente e pouco utilizado, assumiu a posição. O jejum de golos, e as críticas de que foi alvo, fizeram com que Mourinho fosse ao mercado, em Janeiro, e trouxesse Adebayor. Felizmente para Benzema, Adebayor não pareceu conseguir dar à equipa o que Higuaín dava, e foi então que se começou a perceber que Benzema, mesmo não marcando, permitia coisas ao Real Madrid que o avançado togolês não permitia. Mesmo sem os golos do francês, Mourinho apostou nele e o rendimento colectivo não se ressentiu. Por linhas tortas, percebeu o técnico português a dada altura, por exemplo, que, com Benzema em campo, o rendimento de Ronaldo era muitíssimo superior. Quando Higuaín voltou, esta variável tinha adquirido uma importância de tal modo extrema que o francês, mesmo não marcando tantos golos quantos o argentino, mesmo parecendo passar ao lado do jogo muitas vezes, nunca mais voltou a sentar-se no banco. Benzema, ao contrário de Higuaín, garante movimentos de aproximação, linhas de passe, qualidade técnica em espaços reduzidos. Isto permite ao Real um jogo mais apoiado numa fase adiantada no terreno, uma muito melhor competência entre linhas, e, acima de tudo, a desocupação da profundidade que permite a Ronaldo todas aquelas diagonais da esquerda para o meio. Por força da lesão do seu avançado de eleição, descobriu Mourinho que a sua equipa funcionava melhor com um avançado de características diferentes, um avançado que, acima de tudo, não fosse rigorosamente, no verdadeiro sentido da palavra, e em cada momento do jogo, um avançado.

Se houve coisa em que o Real Madrid melhorou, nesta segunda época, foi na competência em ataque organizado, no último terço do terreno. Ao contrário do que se passou na primeira época, em que a equipa apenas conseguia romper blocos defensivos densos através de lançamentos para as costas da defesa ou através de desequilíbrios individuais, o Real passou a conseguir fazer a bola entrar entre a linha defensiva e a linha média dos seus adversários, passou a conseguir atrair momentaneamente defesas para perto dos médios, quebrando as linhas defensivas com maior frequência, e passou a conseguir complementar isso com as entradas de terceiros (normalmente os extremos, e principalmente Ronaldo) nas costas das defesas. Tal competência só foi possível porque o avançado da equipa, o jogador responsável por jogar na jurisdição dos defesas centrais, não era um avançado cujas movimentações típicas pediam a profundidade, mas um avançado com características diferentes, capaz de vir dentro, de combinar com maior qualidade com os médios, e com maior apetência para segurar e tabelar do que para aproveitar as costas das defesas. Por ser o avançado que é, Benzema permitiu ao Real, enquanto equipa, que fosse mais competente. Com isso, não se terá notabilizado individualmente, em termos de golos, como naturalmente um avançado como Higuain se notabilizaria. Enquanto equipa, o Real Madrid de Mourinho melhorou, de uma época para a outra, principalmente porque passou a jogar com um avançado que não se comporta como a maioria das pessoas acha que os avançados se devem comportar.

De certo modo, portanto, a ligeira melhoria da equipa deveu-se à utilização de uma estratégia absolutamente idêntica àquela que o Barcelona de Guardiola, de forma provavelmente mais enfática, preconizou no ano anterior, uma estratégia que, para muitos, é o calcanhar de Aquiles dos catalães, e que, para muitos também, incluindo o próprio Mourinho, a fazer fé nas suas palavras, era o grande problema da selecção espanhola neste europeu. É verdade que Benzema é um avançado de raiz. Mas não foram os seus comportamentos de avançado típico que permitiram à equipa tal salto evolutivo; foram antes os mesmos comportamentos que qualquer médio, ou qualquer jogador que não jogue habitualmente como avançado, naturalmente exibe quando posicionado na frente de ataque. Apesar de ser avançado, foi por Benzema ter qualquer coisa de médio (se é possível falar assim) que o Real Madrid se tornou melhor equipa. Mourinho, mesmo que o não saiba, mesmo que o critique por naturalmente lhe lembrar o estilo do rival, deve boa parte do seu sucesso em Espanha a algo que, embora de modo mais radical e mais conscientemente, o Barcelona de Guardiola desde há muito procura idealizar.

Antes de terminar, queria desviar-me ainda do assunto principal deste texto, e reflectir um pouco sobre números. Como é sabido, acho que as estatísticas, em futebol, não só não valem nada como são, muitas vezes, enganadoras. No final da época passada, tentei argumentar que a semelhança entre os golos marcados por Real Madrid e por Barcelona não implicava competências ofensivas semelhantes, e tentei demonstrar que essa semelhança de golos se deveu a um final de época em que, sem a pressão de títulos que já não se podiam conquistar, havia objectivos individuais a atingir. Do mesmo modo, fui dizendo ao longo desta época que, apesar de ser o Barcelona, pelos pontos que ia perdendo, quem parecia estar menos consistente, era o Real quem, na verdade, tinha mais dificuldades para vencer os seus jogos. Obviamente, mantenho essa teoria. Para muita gente, não só o campeonato como os números apresentados no final da prova são testemunhos inequívocos do meu engano. Foi por isso que comecei este parágrafo por dizer que os números, além de não valerem nada, costumam enganar. Quem olhar para eles em bruto, naturalmente verificará que a equipa comandada por José Mourinho, além de ter tido mais 4 vitórias que o Barcelona, marcou também mais 7 golos (121 contra 114). Para esses, o Real é talvez mais competente, em termos ofensivos, do que o Barcelona. A minha opinião é de que essas pessoas estão enganadas. É que, apesar de ter marcado mais golos, e apesar de ter obtido mais vitórias, o Real Madrid teve mais dificuldades do que o Barcelona em vencer os seus jogos. Como é isto possível? É o que pretendo demonstrar de seguida.

 Ora, comecemos pelas vitórias. O Real Madrid somou 32 vitórias, contra 28 do Barcelona. Das 28 vitórias dos catalães, 22 começaram a ser construídas na primeira parte. Ou seja, a vantagem obtida na primeira parte não mais voltou a ser anulada. Significa isto que 79% dos jogos ganhos pela equipa de Guardiola começaram a ser ganhos logo de início. Dos restantes 6 jogos, 2 foram resolvidos antes dos 70 minutos, 3 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 1 apenas depois dos 80, mais concretamente o jogo contra o Atlético de Madrid, em que os madrilenos anularam a vantagem dos catalães a meio da segunda parte e obrigaram a um segundo golo aos 81 minutos. Quanto ao Real Madrid, das 32 vitórias, apenas 21 começaram a ser construídas na primeira parte. Significa isto que, ao contrário dos 79% dos catalães, só 66% dos jogos ganhos pela equipa de José Mourinho começaram a ser ganhos logo de início. Dos restantes 11, 6 foram resolvidos antes dos 70 minutos, 3 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 2 depois dos 80. Embora não totalmente claros, até porque uma vantagem de 1-0 desde o primeiro minuto não é bem uma vantagem segura, estes dados permitem desde logo perceber uma tendência: a equipa catalã teve menos dificuldades em resolver os seus desafios, e teve por isso menos necessidade de acelerar para marcar mais golos. Mas passemos agora aos períodos de tempo em que os golos foram marcados. A consistência do Barcelona de que falava anteriormente não poderia ficar melhor espelhada do que na consistência com que os marcou em todos os períodos de tempo. Dos 114 golos, marcou 58 (51%) na primeira parte e 56 na segunda. Na segunda parte, marcou 21 entre o minuto 45 e o minuto 70, 19 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 16 depois dos 80. Ou seja, o Barcelona não teve períodos mais fortes e períodos mais fracos. Foi uma equipa consistente, com o mesmo grau de eficácia em todos os períodos das partidas, quer os adversários estivessem mais frescos ou mais cansados, quer o cronómetro se aproximasse do fim ou não. Já dos 121 golos do Real Madrid, marcou 51 (42%) na primeira parte e 70 na segunda. Na segunda parte, marcou 37 entre o minuto 45 e o minuto 70, 13 entre o minuto 70 e o minuto 80, e 20 depois dos 80. Ou seja, o Real Madrid foi claramente mais concretizador nas segundas partes dos jogos, tendo especial apetência por marcar ora no reatamento da partida, ora nos últimos 10 minutos. Como comprova a análise destes números, a equipa de José Mourinho foi muito menos consistente do que o Barcelona, e, apesar de mais golos e mais vitórias, teve maiores dificuldades em superar os seus desafios. Podíamos ainda fazer outro tipo de análises. Dos 79 golos que o Barcelona marcou antes dos 70 minutos, só 27% foram marcados entre os 45 minutos e os 70. Já dos 88 do Real, 42% foram marcados nesse período. Dos 35 golos que o Barcelona marcou depois dos 70, 46% foram marcados depois dos 80. Já dos 33 do Real, 61% foram marcados nesse período.

Dividi a segunda parte em três períodos de tempo desiguais propositadamente, porque tinha a impressão de que era nos últimos vinte minutos que o Real Madrid mais marcava. De facto, assim não é, e a equipa marcou tanto como no resto da segunda parte. Apesar disso, marca muito mais nos últimos dez minutos do que nos penúltimos, e isso deve ser levado em conta. No fim-de-semana em que recomeça a Liga Espanhola, é bom que se tenha consciência destas diferenças. O título da época passada, muito mais do que da qualidade apresentada, dependeu essencialmente do sacrifício e da força de vontade. Naqueles jogos em que a qualidade não chegou, foram esses os factores desequilibradores. Foi isso que fez a diferença, e foi por isso que o Real marcou mais e resolveu mais jogos na segunda metade das partidas do que o Barcelona. Ao contrário dos catalães, cuja qualidade ímpar lhes permitiu serem consistentes ao longo da época, o Real de Mourinho teve, muitas vezes, de fazer das tripas coração para vencer os seus desafios. Para compensar a menor qualidade, teve de sustentar as suas vitórias no desgaste dos adversários, na força de vontade da própria equipa, e em índices de concentração muito difíceis de manter sem motivações extraordinárias. De certo modo, a equipa excedeu-se nas segundas partes dos jogos porque a motivação de vencer um campeonato a este Barcelona era altíssima. Foi esse o factor decisivo. Para isso contribuiu também o facto de Mourinho raramente ter rodado a equipa, de ter apresentado quase sempre o seu melhor onze, e de ter contado com pouco mais do que 15 ou 16 jogadores. Numa época com mais lesões, tal seria impossível de realizar. Na época que agora começa, nem a motivação deverá ser a mesma, nem a improbabilidade de realizar uma época com tão poucas lesões se deve repetir. Embora o Real Madrid tenha melhorado, da primeira para a segunda época, no aspecto particular a que me referi acima, a qualidade geral do seu jogo continua a léguas da qualidade geral do jogo catalão. Uma série de factores, alguns deles difíceis de controlar, contribuíram para que pudesse sagrar-se campeão. Veremos de que modo se regenera agora.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Um Problema de Sol

Como é Verão, vamos falar de sol e de coisas que pessoas não fazem por estar muito sol. Devo dizer que este texto, pelo menos em parte, estava escrito já há vários meses, e que apenas por desmazelo não foi publicado mais cedo. Reporta-se a uma partida do campeonato espanhol, que opôs o Málaga ao Real Madrid de Mourinho. Diamantino Miranda, esse arauto do disparate, foi o comentador de serviço do desafio, e disse, entre outros disparates certamente merecedores de referência, que as equipas do sul de Espanha eram, por norma, menos agressivas que as do norte. A razão pela qual Diamantino pensa assim, disse-o depois, prende-se com as diferenças climatéricas. Segundo o astuto comentador, equipas que estejam sediadas em regiões com climas mais quentes, com praias, sol e, provavelmente, raparigas de biquini, são compostas por jogadores mais tecnicistas, mas menos disponíveis para ajudar a defender. Por si só, a ideia de que o clima define características de um atleta é suficientemente estúpida para que lhe fique indiferente, e é disso que vou falar em seguida. Antes, porém, quero falar do argumento particular de Diamantino. Muito rapidamente, e até porque estendeu a ideia a outros países, a Portugal, por exemplo, o argumento faz depender a pouca agressividade defensiva de onze atletas da localização geográfica de uma cidade. Do que Diamantino se terá esquecido é que os onze jogadores que, segundo ele, eram pouco agressivos, não eram naturais de Málaga, nem tão-pouco de cidades do sul de Espanha. A menos que, a juntar ao primeiro argumento, mais geral, defenda Diamantino também que estes jogadores perdem agressividade de acordo com o sítio onde vivem, e que, por exemplo, Toulalan, que jogou toda a vida em Lyon, era agressivo até se ter mudado para Málaga, não percebo muito bem como é que pode defender o que defendeu.

Enfim, não quero perder muito tempo a discutir o raciocínio de Diamantino Miranda, pois não me parece fácil tentar perceber lógica onde ela não existe. Mas a ideia de que o clima influencia as características de um atleta merece algum debate, e sobre isso gostaria de dizer algumas coisas. Há coisa de dois anos, lançou o Filipe no Jogo Directo uma discussão parecida, defendendo que "há indícios claros de que a temperatura mexe, e bem, com o calor do jogo". Tive a oportunidade de comentar esse texto, e de participar na discussão. Ainda hoje penso do mesmo modo, e o comentário de Diamantino Miranda veio apenas tornar presente algo que me faz de facto bastante confusão. Como é que alguém pode sequer conceber que o clima tem influência directa no tipo de futebol que se pratica em determinado sítio? Na verdade, talvez sem se aperceber, o Filipe defendia duas coisas diferentes: primeiro, que uma equipa não se consegue comportar como se comporta habitualmente, se a temperatura for consideravelmente mais alta; em segundo, que os brasileiros jogam de modo mais "acalorado" porque o clima assim o propicia. O primeiro caso não se insere sequer no mesmo tipo de discussão: qualquer equipa europeia que vá jogar a 2000 metros de altitude, com baixas concentrações de oxigénio, tem desempenhos inferiores, e não consegue manter o ritmo habitual. Não é propriamente a temperatura, mas sim qualquer condicionante externa que modifica o comportamento habitual dos jogadores, que estão preparados para responder em determinadas condições e têm dificuldades imediatas em adaptar-se a condições novas. O "calor" do jogo, nesse primeiro caso, é determinado pela habituação, ou falta dela, e não porque a temperatura desempenhe um papel providencial. Mas é o segundo caso que mais interessa, pois é sobre ele que as pessoas mais opiniões engraçadas têm.

Existe, aliás, a tendência para achar que não é só o futebol, mas todo o tecido social, que é reflectido pelo clima de um país. Acho tal conclusão, como deverão calcular, um profundo disparate. Para muita gente, os países mediterrânicos são menos produtivos, em geral, porque são países com climas temperados, e é o clima que se regista nesses países que faz com que as pessoas sejam mais preguiçosas, mais irresponsáveis, mais inconstantes, e mais emocionais. O raciocínio de quem pensa assim é mais ou menos o seguinte: as pessoas vivem debaixo de temperaturas altas toda a vida, e isso frita-lhes as ideias. Enfim, achar que a temperatura é responsável pela definição do carácter de um povo é tão ridículo que chega a ser difícil falar sobre isso. As características gerais de um povo - se é possível, de facto, traçá-las - são definidas ao longo de séculos de História, e influirá mais no tipo de pessoas que os portugueses são, para usar o exemplo de Portugal, o facto de termos uma tradição católica profundamente enraízada, ou o facto de termos sofrido certos acidentes históricos, do que o facto de vivermos à beira-mar, com um clima ameno. O ser humano é uma criatura de hábitos, e as pessoas comportam-se como vêem os outros comportar-se. Se o clima em Portugal mudasse subitamente, e passássemos a ter um clima nórdico, a geração seguinte seria exactamente igual à geração seguinte que viria, caso isso não acontecesse. Quem fala em portugueses, fala noutros povos quaisquer. Se a temperatura, ou a latitude, fossem determinantes, ingleses e irlandeses seriam praticamente iguais.

A ter alguma influência no carácter de um povo, o clima tem uma influência reduzidíssima. Se assim é, menor será ainda essa influência em qualquer manifestação cultural desse povo. O futebol, enquanto manifestação cultural, não foge à regra. O futebol praticado numa determinada região do globo difere do futebol praticado noutra região por várias razões. Primeiro, porque são manifestações culturais de povos diferentes, com culturas diferentes, com preocupações diferentes, com legados históricos diferentes, com estruturas morais diferentes. Depois, e sobretudo por isso, porque o próprio futebol cria uma determinada tradição. Por que é que os italianos são mais defensivos? Porque, enquanto povo, são mais conservadores, mais reservados, mais precavidos? Obviamente que não. Porque, a dada altura, os modelos defensivos italianos começaram a ter sucesso, e criaram escola. A tradição futebolística de um país é talvez o factor mais relevante na definição do tipo de futebol que se pratica num país. Que causa está por trás do futebol de toque da Espanha, nos últimos anos? Um trabalho de fundo que modificou radicalmente a identidade do futebol espanhol, o privilégio pela inteligência e pelo talento. E no Brasil, por que é que no Brasil o jogo é tão "acalorado", há tanta irresponsabilidade táctica, e há tanto jogador talentoso? Não é por causa do calor, que faz com que os jogadores tenham as emoções à flor da pele, assim como é o calor que leva os miúdos para a praia e para as ruas, onde aprendem a jogar? Claro que não. São as condições sociais, a cultura do país, o fundo católico, etc.. Será a irresponsabilidade táctica característica do futebol brasileiro assim tão diferente da irresponsabilidade táctica de outros países sul-americanos? Não é. E o que dizer da irresponsabilidade táctica dos britânicos? É uma irresponsabilidade diferente da dos brasileiros, mas ainda assim é irresponsabilidade. Como explicá-la, se o clima não é "acalorado"? Essencialmente, porque a tradição futebolística na Grã-Bretanha não conheceu praticamente evoluções, nos últimos 50 anos, e porque no futebol (e no desporto, em geral) britânico se tendem a privilegiar atributos atléticos.

Acreditar que a temperatura (e o sol, em particular) determina o tipo de futebol que se pratica num certo país é não perceber nada de futebol, e é não perceber nada de seres humanos. O futebol, como todas as expressões de um povo, reflectem em parte o tecido histórico, cultural, religioso, e social desse povo. Mas, em si, é uma prática isolada, que pode, a qualquer altura, seguir um trajecto completamente distinto, sem qualquer relação directa com esse tecido. Estes dois tipos de factores são aqueles que, a meu ver, melhor explicam as distinções entre os vários tipos de futebol que se praticam pelo mundo. O clima, ou qualquer factor ambiental, não entra em nenhum deles. Não é sequer um factor secundário; não influi sequer na personalidade dos indivíduos que compõem esse povo, quanto mais nas suas práticas. Pode, quando muito, num passado muito remoto, ter ajudado a que determinados povos se dedicassem mais a umas actividades do que a outras, optassem por um determinado estilo de vida e não por outro, e que a personalidade desse povo - que foi sendo criada paulatinamente, ao longo dos tempos - tenha então sofrido inflexões decisivas em determinado período da sua formação por força do clima em que se vivia. Mas isso nem uma influência indirecta é. Se, a partir de agora, começasse a nevar durante todo o ano na península ibérica, e fizesse sol na Islândia, seriam preciso inúmeras gerações, e vários séculos para que os islandeses passassem a ter tradição futebolística, e os portugueses e os espanhóis perdessem a deles. A influência dos factores ambientais é, na melhor das hipóteses, uma influência remota, e só com muita boa vontade é que se consegue aceitar que Diamantino Miranda e outros que, como ele, acreditam em tais disparates, não estejam ainda hospitalizados.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Hegemonia e Geração Espontânea

Falar em hegemonia a respeito do futebol espanhol pode parecer, nos dias que correm, profundamente redundante. Depois da conquista de mais um campeonato europeu, poucos se atreverão a não conceder à Espanha esse estatuto. Há 4 anos, porém, quando tudo isto começou, poucos, como nós, arriscavam em votar no favoritismo espanhol. Entretanto, e reagindo ao futebol espanhol como se tem reagido ao Barcelona de Guardiola, insiste-se que qualquer adversário poderoso vencerá esta equipa, e que outros tempos se sucederão aos actuais. Não tenho dúvidas de que a selecção espanhola não ganhará tudo o que há para ganhar, nos próximos anos. Do que tenho dúvidas é de que, tão depressa, apareça um futebol capaz de se sobrepor a este, e de que a Espanha deixe de estar no lote dos grandes favoritos à vitória nas competições em que participar nos próximos... 20 anos. Para muitos, estes três títulos representam uma fase, uma hegemonia temporária, como tantas outras no passado, protagonizadas por outras selecções, que necessariamente será interrompida. Para mim, aquilo a que se assiste agora não tem paralelo na História do Futebol, precisamente porque não se pode medir-lhe a manifestação apenas pelos troféus que tem amealhado. Por trás das vitórias há um modelo fortemente enraízado, um estilo de jogo que é dominador, que condiciona irremediavelmente qualquer que seja o adversário, e que faz daqueles que o põem em prática mentalmente superiores. O jogador espanhol é hoje, pelo próprio estilo de jogo que pratica, superior, em termos de mentalidade, aos seus adversários, como em tempos os germânicos o eram. Para que a Espanha deixe de ser a principal favorita à vitória em cada prova que participar, não basta esperar que esta geração acabe, até porque esta geração tem bem mais do que onze jogadores competentes, e a esta geração, já se percebeu, sucederão outras igualmente talentosas. Também não bastará que seja derrotada na próxima grande competição, porque sabe-se que voltarão a ser favoritos na seguinte, apesar da derrota. Não bastará, ainda, que uma selecção qualquer, muitíssimo talentosa, apareça nos próximos anos, pois essa selecção, pelo carácter extraordinário do seu surgimento, desaparecerá sem deixar legado, enquanto os espanhóis, com novas gerações, continuarão a reinar. Para que a Espanha venha a ter quem lhe discuta a hegemonia, há que iniciar um trabalho a nível de formação, que não está iniciado em lugar algum, tanto quanto sei, muitíssimo parecido com aquele que foi iniciado há duas ou três décadas no país vizinho, e que agora está finalmente a dar os seus frutos. Daí dizer que a hegemonia espanhola terá ainda, pelo menos, 20 anos de vida.

Vem isto a propósito não do recente campeonato europeu ganho pelos espanhóis, mas pelo recente campeonato europeu de sub-19 ganho - imagine-se - pelos espanhóis. Que eu saiba, não há memória de haver uma selecção que dominasse tanto o panorama futebolístico como esta Espanha na última década, ganhando tudo o que havia para ganhar nos últimos 4 anos, a nível sénior, e ganhando quase tudo (quando não ganha, fica perto, e é sempre favorita) nos escalões mais jovens. Permitam-me a comparação com o hóquei em patins. Desde que me lembro de ver hóquei, havia apenas 4 selecções capazes de discutir títulos: Argentina, Itália, Portugal e Espanha. Explica-se isto de forma relativamente simples, pois eram países com tradição na modalidade, que iam formando, geração após geração, jogadores de qualidade em quantidades suficientes para poderem manter equipas competitivas. No caso do hóquei, que é um jogo muito mais simples que o futebol, a excelência colectiva terá sido atingida muito mais rapidamente do que no futebol, e depressa se formaram 4 selecções hegemónicas. Nenhuma outra selecção, a menos que inicie um trabalho de formação de fundo, consegue competir, de forma consistente, ao longo de muitos anos, com estas selecções. Em futebol, pelo contrário, até praticamente ao fim do século passado, faltava muito para que a excelência colectiva fosse atingida, e nações com bases de recrutamento muito grandes podiam ser consideradas favoritas, mesmo apresentando um futebol fraco, em termos colectivos. Hoje em dia já não é assim. E não voltará a ser assim. Arrisco mesmo a dizer que o Brasil, a menos que revolucione o seu futebol, não voltará a ser verdadeiramente favorito à vitória numa grande competição. Claro que poderá ganhar um campeonato ou outro, mas dificilmente voltará a ser a potência que foi se não modificar as suas prioridades. O que se fez em Espanha, nas últimas décadas, foi compreender o jogo, compreender aquilo que o jogo exigia, e formatar os seus praticantes para fazerem face a essas exigências. Hoje olha-se para uma competição de sub-19, por exemplo, e no lugar de miúdos imberbes, alguns com potencial, outros nem tanto, e uns mais afoitos que outros, vêem-se jogadores de futebol. Compara-se a selecção espanhola com as outras e, em vez de se conseguir isolar um ou outro miúdo com capacidades acima da média, capta-se um colectivo completamente distinto, em que todos os elementos possuem uma maturidade táctica acima do normal. Isso só é possível porque o futebol espanhol, em vez de tentar lapidar cada um dos diamantes que, por sorte, iam aparecendo, como se acredita, ainda hoje, que deve ser o trabalho de formação, passou a criar, através de uma concepção do jogo mais elevada, os seus próprios diamantes. Aquilo que distingue este futebol espanhol, cuja hegemonia actual não encontra paralelo em toda a História do jogo, é precisamente a compreensão de que, num jogo colectivo, como o é o futebol, a formação serve para criar talentos, no sentido literal da palavra "criar", e não apenas para permitir que certos talentos brutos, que existem antes de passarem pela fase de formação, adquiram competências que lhes permitam jogar ao mais alto nível. Em Espanha, não se acredita em geração espontânea, e isso faz toda a diferença.

A respeito, mais concretamente, deste europeu de sub-19, tenho várias coisas a dizer. Em primeiro lugar, que são treinadores como Edgar Borges que explicam por que razão Portugal nunca poderá chegar aos calcanhares do que se faz em Espanha. É verdade que ao seleccionador nacional só se lhe deu para as mãos um conjunto de jogadores, com a qualidade duvidosa que têm (ainda estou para perceber por que é que João Carlos, jogador do Liverpool, não foi chamado), a maior parte deles, mas optar, como o fez contra a Espanha, por uma marcação individual aos homens do meio-campo espanhol diz tudo sobre Edgar Borges. Na minha opinião, quem escolhe jogar assim, seja contra quem for, não merece uma segunda oportunidade. Poderia dizer muito mais, mas esta decisão táctica diz praticamente tudo. Quanto a valores individuais, aproveitar-se-ão, entre os portugueses, dois ou três. O melhor deles, o avançado Betinho, praticamente nem se viu, tal foi a pobreza, em termos de construção de jogo, da equipa. Ricardo Esgaio talvez tenha futuro, mas só como lateral-direito, como joga no Sporting. Como extremo, é banalíssimo. Tiago Ilori, se bem trabalhado, e se se modificarem certos preconceitos a respeito de defesas centrais, também dará jogador. Daniel Martins, o lateral-esquerdo do Benfica, também tem algumas características interessantes. Sobre Rafael Veloso, o guarda-redes, é preciso saber como evoluirá, em termos de mentalidade. Quanto aos restantes, sinceramente, não lhes auguro futuros espantosos. A excepção poderá ser o capitão João Mário, de quem não sou particularmente adepto, mas a quem reconheço alguns atributos importantes. João Mário não tem classe; tem tiques de quem tem classe. Se um dia esses tiques derem lugar a um jogador que compreenda quando os deve ter e quando os não deve, talvez venha a poder ser jogador. Para já, é apenas irritante. André Gomes, médio do Benfica, sabe jogar, mas tem contra si o tamanho exagerado, a pouca agilidade, e algumas deficiências técnicas, sobretudo resultantes desses atributos físicos indesejados. Quanto a Bruma, não dará em nada, ainda que, nos últimos anos, tenham chegado a Alvalade propostas milionárias para o levar. Ivan Cavaleiro é idêntico, mas com menos propostas milionárias. Sobre Agostinho Cá, não vou falar porque ainda estou a tentar compreender por que razão é que o Barcelona contratou, para jogar na sua equipa B, alguém que não é, nunca foi, nem nunca será jogador de futebol.

Sobre a Espanha, que é realmente a selecção sobre a qual se deve falar, tal foi o abismo que a separou das restantes, devo dizer que continuam a ser feitas observações precipitadas. Embora os espanhóis tenham mostrado ao mundo que o futebol é um jogo colectivo, e embora todos se apressem a enaltecer as virtudes colectivas desta equipa, quando chega a hora de falar em individualidades, fala-se sempre daquelas que menos atributos colectivos manifestaram. Para a grande maioria das pessoas, as duas principais figuras do torneio foram o goleador máximo da prova, Jesé Rodriguez, e aquele que é considerado o maior talento desta geração, Gerard Delofeu. Não porque é costume ser do contra, mas porque dou mais importância a aspectos colectivos, não foram estes os jogadores que mais me impressionaram. Aliás, não acredito mesmo que Jesé Rodriguez, por exemplo, venha a ter um futuro invejável. É um jogador habilidoso, mas fraco em termos de decisões. Delofeu, por sua vez, é parecido, embora mais rápido, mais forte no um para um, e, sobretudo, joga no Barcelona. Estando no Barcelona, pode aprender o que ainda não sabe. Se o conseguir, saberá como temperar as suas iniciativas um pouco melhor. É que, para já, é apenas um jogador muito forte em termos individuais. O seu principal problema, a meu ver, é não saber decidir quando deve ou não deve apostar em acções individuais. Sempre que Guardiola o colocou em campo, este ano, evidenciou precisamente isso. Na altura, pensei que fosse nervosismo. Depois deste Campeonato da Europa, percebi que era feitio. Gerard Delofeu esteve endiabrado, sim, mas porque apanhou defesas que lhe permitiram as diabruras. Daqui a uns anos deixará de o conseguir fazer com a facilidade com que o fez, e nessa altura terá de apresentar argumentos que não apresentou neste campeonato. Como disse, outros foram os jogadores que me impressionaram. Desde logo, o defesa-esquerdo do Barcelona, Grimaldo. Não é um jogador com grandes valências atléticas, mas sabe sempre o que fazer com bola, jogando invariavelmente no apoio, e, sem grandes correrias, nem um pulmão invejável, dá a profundidade certa à equipa no momento certo. De resto, podia falar em qualquer um dos do meio-campo (o capitão Campaña, médio-defensivo elegante; Suso, médio do Liverpool com um pé esquerdo notável; ou mesmo Ñiguez, igualmente esquerdino, e muitíssimo inteligente em todas as suas acções com bola), todos eles fortíssimos no que toca a decisões, e todos eles bons de bola, mas vou isolar dois, porventura os dois mais pequenos: Oliver Torres, do Atlético de Madrid, e Denis Suárez, do Manchester City. Esqueçam tudo o que acham que sabem sobre futebol, e ponham os olhos nestes dois pequenos jogadores. A forma como tratam a bola, a agilidade, a competência técnica, a facilidade no drible: é isto que distingue o actual futebol espanhol. Pouco jogaram juntos, é verdade (Denis Suárez foi quase sempre suplente), mas os adeptos mereciam que tal tivesse acontecido. Sem bola, procuram dar sempre um apoio vertical ao médio-defensivo, ou uma linha de passe ao lateral. Movimentam-se entre linhas como ninguém, tabelam, tiram adversários da frente com facilidade. Duas pequenas maravilhas! Continuo sem perceber como é que, dando a Espanha tamanho exemplo de competência em todos os escalões, se insiste em não povoar o meio-campo com jogadores com estas características. Oliver Torres e Denis Suárez são o paradigma do médio-ofensivo do futuro, um paradigma que demorou a chegar, mas que Xavi e Iniesta trataram de deixar claro que tinha mesmo de chegar. Se há uns anos se desconfiava que mais do que um jogador com estas características era prejudicial a uma equipa, os dois catalães ensinaram ao mundo de que era com dois assim, se não mesmo com mais, que tinha de se jogar futebol. Estes dois são herdeiros de Xavi e Iniesta, e seria natural que, ainda que não sejam actualmente aqueles de quem mais se fala, daqui a uns anos estivessem na ribalta do futebol europeu. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Egoísmo e estética na evolução do jogo.

Na verdade, a essência deste texto louva o estilo. Frivolidade, que para alguns se desmascara no seu significado; porém, não aqui, não no que se procura defender neste texto. Ignoremos o fenómeno Guardiola; tiranizados que estamos sob o jugo desse alto olhar sobre o jogo, não se apresentará fácil o exercício, mas só assim poderemos compreender a extensão do que nestas linhas é proposto. O mais curioso é que, até ao advento “Guardiola”, nenhum dos bastiões deste jogar, que tamanha admiração nos inspira, se podia comparar a qualquer um dos anteriores estetas que, em si mesmos, de forma marginal, inscreviam os valores que agora ressoam na elegância do jogo catalão. Xavi, Busquets e Iniesta, jogadores que encerram em si uma qualidade excepcional, não encontrariam o reconhecimento que os consagra agora, não lhes fosse oferecida a oportunidade de fazerem parte de um ideal que, sendo também o deles, não encontrava neles a sua maior expressão. E é na plasticidade da palavra “expressão” que sustento esta ideia; existe um certo “altruísmo” a que o seu jogo se entrega, empalidecendo-os. A minha atenção vira-se, como facilmente se deduz, para aqueles que, demasiados centrados sobre si, procuram em cada momento não o que é melhor para a equipa, não tomar a mais oportunista das decisões, mas antes ataviar-se de um brilho e romance que, aos seus próprios olhos, os distingam dos demais. Encontrei esta ideia pouco depois de ler um texto do Jorge D., no Centro de Jogo, sobre um jogador que também eu admirei, e admiro, tendo também feito questão de escrever, há uns anos, um texto sobre ele neste blogue: Pedro Barbosa. Na altura, senti que não se explicava todo o seu encanto apenas com aquele estilo blasé com que desfilava no campo, ou com a inteligência com que abordava as situações com que o lado caótico do jogo o brindava. Barbosa era mais como Zidane ou Pirlo. Não reconheço que estes jogadores se tenham destacado “apenas” pelas características acima enumeradas, apesar destas serem inequívocas; acredito, porém, que outra afinidade os transcendia: a necessidade a que se atavam de, independentemente do que o jogo lhes oferecia, se projectarem num patamar superior. Aqui descobrem-se, por certo, algumas resistências: encontramos um rebanho de jogadores que, acima do que podem oferecer à equipa, pensam no que podem oferecer a eles próprios perante o jogo, tão obcecados que estão em alcançar o reconhecimento dos demais. Vou dar um exemplo, que me é tão querido, de imediato saltando à vista: Liedson. Mais do que aquilo que podia oferecer à equipa, este jogador procurava a mais pequena ocasião para se emancipar. Aqui retorno, todavia, às qualidades indissociáveis dos três primeiros (Barbosa, Zidane e Pirlo ) para concluir que os valores sobre os quais se dobra a necessidade de privilegiar a equipa resultam de diferenças abismais - para com jogadores como Liedson, por exemplo - nas suas preocupações durante o jogo. Ao brasileiro pouco lhe diziam os meios com que alcançava a notoriedade no jogo; conquanto no final de contas ele fosse o jogador que mais golos fizesse ou mais quilómetros arasse, pouco lhe importava o carácter das soluções encontradas; não encontrávamos nos outros três a mesma disposição, a mesma ligeireza nos seus processos. A atracção recaía sobretudo na elegância das soluções, cunhando-as de uma graça circunscrita ao seu próprio cânone, imunes a perversões de circunstância ou ambiente. Assisti a todos os jogos da Itália neste europeu, e, mais do que observar em Pirlo a necessidade de ajudar a equipa, encontrei nele o imperativo de jogar bonito, embora não aquele bonito envolto em acrobacias de circo, espalhafatoso no seu grito por atenção; a elegância do seu jogo, fatalidade de um vício do belo, manifestava-se na tranquilidade com que desenhava cada lance; e, no entanto, a grande maioria das suas soluções não se esgotavam no sentido estético do seu jogar, catapultando a Itália para uma qualidade de jogo nunca vista. E aqui, por fim, chega o essencial do meu argumento: não se escondam jogadores como Pirlo em sociedades tacanhas, ainda que democráticas, todos participando com a sua visão na regulação das suas leis e costumes; atribuam-lhe, sim, o título de déspota, e o brilho do seu jogo, libertando-os das suas próprias limitações, a um nível apenas ficcionado os sublimará. Em jogadores como Pirlo, cuja principal preocupação é fornecer elegância ao jogo, a única maneira de o fazer é numa abordagem superior ao mesmo, desprezando os pergaminhos da equipa onde se inserem. Concedam-lhe as rédeas da equipa e talvez encontremos naquele conjunto um vislumbre do que o conjunto blaugrana nos ofereceu constantemente. Acredito que este Europeu a Pirlo deve muito do seu encanto, e talvez este encanto torne merecedor um agradecimento a Prandelli; contudo, é na incapacidade de Pirlo de se furtar aos sacrifícios do Belo que se funda todo o futebol da Itália, e o seu reconhecimento pelo seleccionador italiano no Europeu de 2012. Na final, não escondi a minha predilecção pela Itália. Minto. Não pela Itália, mas por Pirlo, desejoso que o ego de um só jogador se superiorizasse a toda uma ideia de jogo que, afinal de contas, também era a dele, apenas mais simples e humilde. Venceu um conjunto de jogadores, habituados que estavam partilhar entre si um ideal que os elevava, perante um homem só, cujo sentido estético o entrelaça nas raízes de tão avançado conceito.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Euro 2012 - A Sobrevivência do Mais Forte

Terminado o torneio, não ficam muitas dúvidas: a prova foi eliminando os menos capazes, quer individualmente, quer colectivamente, e foi preservando os mais aptos. Espanha, Itália, e Alemanha foram as equipas mais fortes do torneio, e Portugal a mais competente das restantes. Mas tanto a Itália como a Espanha, por serem superiores, mereciam esta final, e a Espanha, tanto pela superioridade que já demonstrara no primeiro jogo, apesar do empate, como por ser, de facto, melhor equipa, não podia deixar de se sagrar vencedora. Findos 6 anos de conquistas, é talvez tempo para reflectir. Mais do que dizer disparates, do que torcer contra eles, porque nos eliminaram, do que desejar-lhes a queda, por incompreensão do fenómeno, há que reconhecer-lhes a superioridade, tentar perceber as causas dessa superioridade, elogiá-las, e tentar reproduzi-las. A Espanha é o que é por várias razões. A primeira chama-se obviamente Guardiola. Sem o modelo catalão, sem o perfil de decisão que os jogadores catalães trouxeram para a selecção, esta Espanha seria muito diferente. Não seria de todo injusto se aos 14 títulos no currículo de Guardiola se juntassem os títulos espanhóis. Mas outra causa, menos recente, e mais ampla, explica este sucesso. A Espanha começou há mais de 20 anos a investir no futebol (e no desporto, em geral), em formação, numa identidade, num perfil de jogador muito próprio, alicerçado no talento e na inteligência, e prova agora que os grandes jogadores do futebol moderno, ao contrário do que muitos defendem, têm origem nas academias e não na rua. Não fosse assim, e as ruas da Catalunha teriam de ter qualquer coisa de especial, para que aparecessem tantos craques catalães. Aquele argumento de que um país com poucas pessoas dificilmente é capaz de competir com um país com muitas pessoas, pois a base de recrutamento é incomparavelmente menor, é um disparate. É evidente que em países como o Brasil ou a Argentina, em que o futebol de rua ainda tem força, é menos importante ter projectos de formação competentes para que apareçam muitos bons jogadores. Mas se há coisa que esta selecção espanhola veio mostrar é que um projecto de formação competente, pensado a longo prazo, não só permite anular a diferença entre bases de recrutamento maiores e menores, como deixa claro que, actualmente, os jogadores de topo são jogadores que adquirem habilidades que não podem, de modo nenhum, adquirir na rua.

Há palermas que acham, pelo menos desde o mundial de 2010, que esta Espanha é uma selecção defensiva. São palermas que, por exemplo, consideram o estilo de jogo espanhol aborrecido, sonolento, que acham que a equipa usa a bola para adormecer adversários, e para defender. Claro que a Espanha usa a bola para defender, mas esse uso não é exclusivo. Acima de tudo, esta Espanha sabe uma coisa que estes palermas não sabem: quem ataca é quem tem a bola. A Espanha é uma equipa ofensiva, nem que seja pelo simples facto de ter mais tempo em seu poder, por norma, o instrumento que permitiria que o adversário, se o tivesse, pudesse atacar. Mas a Espanha não é só isso. É uma equipa que assenta o seu modelo na posse de bola, e faz uso dela para tudo: para defender, claro, mas para irritar o adversário, para descansar, para desposicionar as linhas adversárias, para se recrear, e claro, para atacar. Esta Espanha, pelo simples facto de ser, em toda a História, a selecção que melhor ataca, que mais conscientemente percebe por onde deve entrar, quando deve forçar e quando deve manter a bola, é a equipa mais ofensiva da História. Os palermas, por serem palermas, acham que ser ofensivo é jogar com muitos avançados, ter um modelo vertical, jogar sempre para a frente, etc.. Essas equipas são ofensivas, sim, mas também são irresponsáveis, e incompetentes. Para os palermas, ser ofensivo é simplesmente o contrário de ser defensivo. O corolário da tese dos palermas é o de que as equipas ofensivas não podem ser defensivas. É um corolário estúpido, mas é o corolário de um raciocínio deste tipo. Eu, por acaso, acho o contrário: acho que a melhor equipa, em termos ofensivos, será necessariamente a melhor equipa, em termos defensivos. Quando, por isso, os palermas dizem que a Espanha é defensiva, estão no fundo a dizer que é ofensiva, sem o saberem. De facto, em futebol não é difícil de saber o que é atacar e o que é defender: quem tem bola, ataca; quem não tem, defende. Depois, há quem ataque bem, há quem ataque mal, há quem ataque de forma mais rápida, há quem ataque de forma mais lenta, há quem ataque de forma mais racional, e quem ataque de forma mais irracional. Mas, no fundo, ataca quem tem bola, e defende quem não a tem. Ao contrário do que pensam os palermas, que pensam que esta Espanha ensinou o mundo a defender com bola, o que esta Espanha fez foi ensinar que é possível atacar defendendo e defender atacando. Há uma diferença monstruosa entre atacar porque sim e atacar racionalmente, e essa diferença consiste em saber os usos certos a dar à bola. Os palermas que acham que o futebol da Espanha é aborrecido não percebem isso. Como não percebem a racionalidade do futebol espanhol, e no fundo defendem a irracionalidade, são estúpidos. São estúpidos, e um futebol inteligente como o da Espanha, dá-lhes sono. Os palermas, tal como preferem fogo-de-artifício a um livro, preferem uma equipa inglesa (e o futebol electrizante praticado em terras de Sua Majestade) ao futebol mais bem praticado de sempre. A conclusão de tudo isto é que os palermas não gostam de futebol. Gostam das sensações que se habituaram a ter ao ver futebol. E isso é diferente. Aborrecida, esta Espanha? Aborrecida uma equipa em que todos os jogadores estão a pensar ao mesmo tempo? Aborrecido um futebol em que, de minuto a minuto, os jogadores nos mostram habilidades dificílimas e fazem coisas que só estão ao alcance de muito poucos? Aborrecido é ver um jogo com quarenta oportunidades de golo, mas que resultam de choques no ar, de erros infantis dos defesas, de remates violentos, de jogadas com 2 passes, do aproveitamento do muito espaço que existe, etc.. Aborrecido é ver um jogo que só se joga ao pé das balizas, em que ninguém faz nada de extraordinário, para além de pôr a plateia ao rubro, com a eminência do golo. Os palermas não sabem o que é a excelência. Gostam de futebol porque lhes dá comichão, não porque reconheçam o que é excelente.

O contrário de um jogo aborrecido, para quem não é palerma, foi a primeira parte desta final. Os comentadores de serviço, como não podia deixar de ser, reproduzem ideias consoante a marcha do marcador. Como o resultado final foi uma vitória esmagadora dos espanhóis, acham que o jogo só teve um sentido, e que a Espanha foi muitíssimo superior. A verdade é que não foi. Aliás, a Itália, na primeira parte, voltou a mostrar de que modo se deve jogar contra esta Espanha, ou seja, com bola. Ao intervalo, já os comentadores diziam que a Espanha estava a ser superior. Diziam-no porque olhavam para o resultado, não porque estivesse, de facto, a ser. A Itália, na primeira parte, criou tantas ou mais oportunidades que os espanhóis, teve mais posse de bola (o que é um feito enormíssimo), mas acabou por ter o azar de encontrar uma equipa inspiradíssima, a quem as coisas foram correndo cada vez melhor. A primeira parte do jogo foi um exemplo daquilo que, na minha opinião, vai ser o futebol daqui a uns anos, um futebol jogado sobretudo no meio-campo, com uma percentagem de passes acertados muito boa, apesar da competência da pressão adversária, um futebol bastante rendilhado, com muitas combinações colectivas, passe e devolução constante, de um lado e do outro, com muitas tabelas, com as equipas a progredirem no terreno de forma apoiada, sustentando os seus ataques através de movimentações interiores, de aproveitamento de espaços entre as linhas defensivas adversárias. Não fossem as vicissitudes da segunda parte, e teria sido o melhor jogo do europeu (o primeiro jogo entre estas duas equipas já estava entre os três melhores), com duas equipas interessadas em ganhar, e sem medo nenhum uma da outra. Aliás, o comportamento da Itália, com bola, foi qualquer coisa de espantoso. Nunca caíram na tentação de jogar longo, procuraram sair sempre a jogar, apesar da excelente pressão espanhola, e a verdade é que foram compensados por essa estratégia conseguindo sair das zonas de pressão várias vezes, e conseguindo chegar à área espanhola em boas condições, e de maneira a criar boas situações de golo. No final, a Itália foi goleada, mas foi a equipa que mais problemas conseguiu criar à defesa espanhola (tanto num jogo como noutro, criaram várias oportunidades de golo). A primeira parte foi equilibradíssima, e a segunda equilibrada começou, com ambas as equipas a criarem oportunidades. Prandelli errou, quando tirou aquele que estava a ser o melhor em campo, Riccardo Montolivo (já havia errado, ao tirar Cassano ao intervalo), e acabou por ter azar, porque Thiago Motta, cinco minutos depois, se lesionou, o que fez com que a contenda terminasse. Mas, ainda assim, está de parabéns. Fatalmente, a Espanha é melhor. Num jogo em que falhou muito menos passes do que em jogos como o das meias-finais, e num jogo em que até teve muito menos espaço no centro do terreno, os seus jogadores acabaram por se mostrar muito inspirados. Quando se elogia tanto Portugal, por ter conseguido anular as ofensivas espanholas, devia-se reflectir um bocado. Portugal teve o mérito de não deixar a Espanha construir na primeira fase, onde eles não são fortes, como o é, por exemplo, o Barcelona, mas nem sequer impôs os mesmos constrangimentos no centro do terreno que os italianos. Simplesmente, as combinações entre os médios espanhóis, a movimentação entre linhas, o jogo sem bola das diferentes unidades espanholas, e as decisões de quem tinha a bola foram muito melhores. Ajudou a isso, entre outras coisas, o estado do relvado, muito melhor que o da meia-final, e o menor cansaço dos espanhóis. Por fim, a questão do avançado. Para os palermas, o golo de Fernando Torres fecha o debate sobre os avançados. Mas é preciso ser palerma para dizer tal coisa. Primeiro, porque foi o único golo espanhol, nesta final, que resultou de uma recuperação alta da equipa. Ou seja, o avançado concluiu um lance que não é típico desta selecção. Segundo, uma das principais razões para que a Espanha estivesse mais inspirada foi a inclusão de Fabregas no onze, em detrimento de Negredo. Aliás, a Espanha fez apenas dois jogos fracos, neste europeu, e em nenhum deles Fabregas foi a opção de ataque. Sempre que a Espanha jogou sem avançado, foi superior, criou mais oportunidades, e não deu quaisquer hipóteses ao adversário. Se provas ainda fossem precisas, o que esta final demonstrou (já que o empate do primeiro jogo tinha levantado essa dúvida) é que o estilo de jogo espanhol exige um avançado que não o seja. Para que este estilo seja eficaz, é preciso quem saiba aproximar, dar apoio vertical, jogar entre linhas, tabelar. Um médio habilidoso, por norma, sabe-o muito melhor do que um avançado de área. É por isso que esta Espanha funciona melhor sem avançados.

 Melhor Equipa, em 433:

Guarda-Redes: Buffon
Defesa Direito: Debuchy
Defesa Esquerdo: Philip Lahm
Defesas Centrais: Piqué e Hummels
Médio Defensivo: Andrea Pirlo
Médios Ofensivos: Luka Modric e Xavi
Extremos: Andrés Iniesta e Cristiano Ronaldo
Avançado: Cesc Fàbregas

Treinador: Cesare Prandelli

Suplentes:

Guarda-Redes: Iker Casillas
Defesa Direito: Arbeloa
Defesa Esquerdo: Jordi Alba
Defesas Centrais: Chiellini e Lescott
Médio Defensivo: Sergio Busquets
Médios Ofensivos: Marchisio e Montolivo
Extremos: David Silva e Mesut Özil
Avançado: Ibrahimovic

Treinador: Michal Bilek
  
Melhores Jogadores: 1º: Andrea Pirlo; 2º Andrés Iniesta; 3º Luka Modric

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Euro 2012 - Meias-Finais

Espanha - Portugal

Não consigo perceber a euforia com esta selecção, nem consigo perceber certas declarações acerca da prestação portuguesa neste europeu. Portugal chegou às meias-finais, e os portugueses devem sentir-se orgulhosos disso. Mas também não é mentira que chegou o mais longe que era possível, dada a qualidade do futebol que praticou. Ainda assim, há quem acredite que Portugal jogou melhor, neste campeonato, do que a Espanha, e há até quem tenha a lata de dizer, como o senhor "Penaié", no rescaldo da partida, que a Espanha teve sorte em levar o jogo para a decisão por grandes penalidades. Inacreditável! A única coisa que Portugal fez foi tentar aproveitar erros adversários, e, se isso, contra qualquer selecção, já é pouco, contra uma selecção que sabe como proteger-se o melhor possível desses erros não é quase nada. Apesar de tudo, e também porque os espanhóis não fizeram um bom jogo, os serviços mínimos portugueses permitiram que o jogo fosse mais equilibrado do que poderia ser. Acertou, desta vez, Paulo Bento, ao propor um pressing mais alto, sobretudo porque esta Espanha, não estando organizada como o Barcelona, tem muito mais dificuldades em construir na primeira zona do que na segunda ou na terceira. Tem isto a ver, sobretudo, com o facto de Casillas não ter a qualidade de passe de Valdés, de os laterais não abrirem tanto como o fazem os laterais catalães, e sobretudo com o facto de haver dois médios, e não um, a entrar no meio dos centrais. Aliás, Vicente del Bosque ainda não percebeu que, quer em termos de construção, quer em termos de organização defensiva, o seu duplo pivot é um equívoco enorme. Na primeira fase de construção, permitiu o encaixe dos médios portugueses; na segunda, tirou Xavi do jogo, pois, jogando à frente de dois médios, pega muito menos vezes na bola. Somando a isto a falta de rotinas dos laterais, que percebem mal, ou tarde, quando é que devem dar profundidade, e a opção inexplicável por Negredo, e a insistência ridícula em Jesus Navas, a Espanha acabou por estar colectivamente mal preparada para evitar a pressão portuguesa. O estado do relvado, a desconcentração no momento do passe, a má decisão de alguns jogadores, a agressividade lusa, e talvez o cansaço castelhano, completam o catálogo de justificações para um rendimento bem inferior ao esperado. No entanto, mesmo tendo feito um jogo fraco, a Espanha foi sempre muito superior a Portugal, cujos ataques resultaram invariavelmente (como sempre, desde que começou o euro, aliás) de recuperações em zonas altas. Com bola, Portugal nunca soube criar espaços, nunca soube potenciar as suas mais-valias ofensivas, e foi sempre pela agressividade defensiva, em zonas altas, que quis incomodar os espanhóis. O problema é que a Espanha constrói curto, mantendo a organização, e a perda de bola raramente implica momentos de desorganização que o adversário possa aproveitar. Portugal teve uma única oportunidade de golo, já sobre o minuto 90, num lance em que houve muita ingenuidade espanhola, pois facilmente se interromperia aquele contra-ataque com uma falta. Os espanhóis tiveram algumas, no decorrer da partida, tiveram espaço à entrada da área para rematar ou fazer o último passe, e, mesmo falhando mais do que é habitual, mesmo não tendo conseguido lances de perigo em quantidade e qualidade como costumam conseguir, tiveram sempre o controlo da partida. Sobre o prolongamento, nem vale a pena falar. A Espanha foi superior a todos os níveis, e teve ocasiões de sobra para evitar os penalties. Falar em falta de sorte, no final da partida, em bolas que batem no poste e saem, e em bolas que batem no poste e entram, depois de 120 minutos em que não se fez nada para se evitar o empate, além de morder calcanhares e transpirar um bocado, parece-me pouco sensato. Achar que a sorte protege os audazes, e que o cúmulo da audácia é pressionar os espanhóis o mais alto possível, é não perceber nada de audácia, nem perceber nada de futebol. Olhe-se para a Itália, e para a forma como os italianos, neste europeu, defrontaram selecções teoricamente superiores (Espanha e Alemanha), e talvez se perceba o que é a audácia. Aliás, dizer que Portugal foi a equipa que mais problemas causou à Espanha, depois do que a Itália fez no primeiro jogo da fase de grupos, é no mínimo absurdo.

Alemanha - Itália

Já não há palavras para descrever o que Andrea Pirlo anda a fazer na Polónia e na Ucrânia. No jogo de ontem, havia 21 jogadores em campo a lutar pela bola, e havia um que parecia intocável, que deslizava sobre o campo, que fintava como se estivesse a tourear TGV's. Pirlo jogava à parte. Os alemães bem o tentavam perturbar, mas parecia um fantasma, a passar entre eles, calmamente, como se não lhe pudessem tocar. Desde 2006, quando Zidane fez aquele mundial assombroso, em que parecia quase divino, que não via alguém jogar sistematicamente com tanta classe. O azar de Pirlo foi ter jogado em Itália numa altura em que o futebol italiano não estava tão forte como noutras eras. Não fosse isso, e teria estado sistematicamente entre os melhores do mundo, nos últimos anos. Ainda assim, e apesar dos dois golos de Balotelli, a UEFA decidiu que Pirlo foi o melhor em campo. Um sinal claro de que as exibições do médio italiano não passam despercebidas, mesmo para um organismo que, normalmente, premeia quem se distingue por marcar ou assistir quem marca. Tendo em conta que os troféus colectivos costumam ter importância na decisão do melhor jogador do ano, parece-me um claro sinal de que Pirlo, ganhando o europeu no próximo Domingo, passa a ser o principal candidato a melhor jogador do mundo de 2011/2012. E com toda a justiça, a meu ver. Aliás, é até engraçado que toda a comunicação social se refira a Cristiano Ronaldo como o melhor do mundo, quando ele não é, actualmente, o detentor do troféu, e quando, pelos critérios habituais da UEFA, Messi (melhor marcador europeu, 4 competições ganhas), Iniesta (4 competições ganhas e a possibilidade de se sagrar campeão europeu) e Pirlo (1 competição ganha e possibilidade de se sagrar campeão europeu) se encontram bem melhor posicionados para ganhar o próximo. Sobre o jogo, há também muitas coisas a dizer. Os elogios que tenho a fazer a esta Itália tenho-os feito desde o primeiro jogo do campeonato, o que é revelador. Ao contrário de muita gente, depois de vários jogos em que a Alemanha não entusiasmou como podia, não acreditava no favoritismo germânico. Quando vi que Müller não ia jogar, então, percebi que a Itália tinha todas as condições para chegar à final. Joachim Löw tem algumas coisas interessantes, como treinador. Mas falha noutras. A aposta em Schweinsteiger é inexplicável, por exemplo. E nem é por estar nitidamente abaixo dos níveis físicos ideais; é mesmo porque Toni Kroos é muitíssimo mais jogador do que ele. Depois, a insistência num modelo rígido (um 4231 que, noutras ocasiões, se transforma em 442 clássico), que o acompanha desde o início, não ajuda. Há pouca instabilidade posicional, a atacar, poucos movimentos entre linhas (normalmente, só as diagonais de Müller, e mesmo essas parece que foram castradas pelo treinador alemão, neste europeu), pouca dinâmica sem bola, e pouca imaginação. A Alemanha seria bem mais forte a jogar em 433, com Kroos ao lado de Ozil, como médios ofensivos, ou em 442 losango, com Khedira a médio defensivo, Schweinsteiger e Kroos como interiores, Müller como médio ofensivo, e Ozil solto na frente, ao lado de Gomez. A Alemanha possui uma geração de jogadores formidável, e estará inevitavelmente entre os favoritos, nas próximas competições, mas precisa de renovar as suas ideias colectivas, sob pena de continuar sem ganhar nada. Quanto à Itália, é o oposto. Trata-se de uma selecção envelhecida, que terá de se renovar nos próximos anos, mas que, colectivamente, é muitíssimo forte. A isso não é alheia a utilização do losango no meio-campo, tão vilipendiado em Portugal. No futebol actual, não consigo conceber equipas verdadeiramente competentes em todos os momentos do jogo que não joguem com três ou quatro médios. Prandelli é um treinador de vocação ofensiva, mas é também um treinador italiano. Sabe que, para atacar, como gosta, sem perder organização defensiva, precisa de fazê-lo com segurança. Para isso, há que povoar o meio-campo, sobretudo com jogadores habilidosos, organizar defensivamente a equipa para que tenha sempre o centro do terreno bem preenchido, e exigir uma construção curta, apoiada, paciente, com os jogadores sempre muito próximos, e com a largura a ser dada pelos laterais e, eventualmente, pelo avançado mais solto, e a profundidade pelo outro avançado. No final da partida, Prandelli fez questão de referir a importância do preenchimento do meio, e mostrou que sabe, como nenhum outro treinador neste europeu, que é no meio que está a virtude. A sua Itália sente-se confortável, como não podia deixar de ser, sem bola, mas sente-se igualmente confortável com ela. E isso é notável! Frente à Alemanha, foi muito superior. Na primeira parte, dividiu a posse, mas a bola, quando em poder dos italianos, percorreu sempre caminhos menos previsíveis do que aqueles que percorria quando em posse dos alemães. Os níveis de criatividade colectiva desta equipa fazem a diferença, e é nisso que se deve pensar quando se procurar justificar o seu percurso. Na segunda parte, a Itália concedeu um pouco mais a iniciativa aos germânicos, mas nunca caiu na tentação de sair em transição à toa. Quando recuperava a bola, fazia uso dela, geria a vantagem, cansava os alemães, jogava um bocadinho à rabia, e dava a sensação de que tudo estava controlado. E estava! Podia ter sentenciado o jogo a qualquer altura, e banalizou por completo uma das selecções mais fortes do torneio. Agora vem o segundo embate com a Espanha, na final merecida. Como não podia deixar de ser, comprovando que o que é normal é as equipas que jogam melhor chegarem mais longe, irão jogar a final as duas equipas que apresentaram o melhor e o mais atractivo futebol desta competição. Quem quer que vença agora, honrará a modalidade! E contribuirá, e muito (ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com o vencedor da Liga dos Campeões deste ano), para a evolução conceptual do jogo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Euro 2012 - Quartos de Final

República Checa - Portugal

No final do jogo, ninguém contestava a vitória portuguesa, e o discurso era de que Portugal fizera mais uma excelente exibição. Muito sinceramente, não partilho de opiniões tão inflamadas. Não contesto a vitória, que acho que foi merecida pelo que a segunda parte deu, mas um jogo deve ser analisado ao pormenor, tendo em conta todos os momentos, e as razões pelas quais as coisas aconteceram. Antes da partida, tinha dito que, com Rosicky, a República Checa tinha uma palavra a dizer. No final da partida, fico com a sensação de que, com Rosicky em campo, Portugal viria do intervalo com um resultado negativo para virar. É que a primeira parte lusa foi fraquíssima. Os primeiros trinta minutos foram inteiramente dos checos, e só lhes faltou definirem melhor os lances no último terço do terreno. Não tiveram uma oportunidade de golo clara, mas tiveram vários lances em que, se entrasse o último passe, criavam uma situação de perigo. Portugal, por sua vez, nunca soube circular a bola, e acabou por ceder à tentação de solicitar os homens da frente com passes compridos. É verdade que, numa dessas situações, Ronaldo conseguiu atirar ao poste, mas muitas foram as bolas que se perderam desse jeito. Só nos últimos quinze minutos é que o jogo foi mais equilibrado, mas mais porque os checos perderam qualidade a trocar a bola do que propriamente por mérito português. Paulo Bento disse que só os vinte primeiros minutos é que foram maus, mas a verdade é que, aos 35, filmava-se o banco e os sinais de desespero eram evidentes. A segunda parte foi diferente, mas Portugal não melhorou significativamente na forma como circulava a bola. Foi mais atacante, e conseguiu ser superior, mas apenas porque passou a conseguir fazer uso da única arma colectiva em que é forte: a pressão. Com os checos mais desgastados, e sem qualidade individual para se medirem com os portugueses, a subida das linhas lusas, e a agressividade com que os portugueses pressionavam foi o suficiente para asfixiar o adversário. Quase todos os lances interessantes protagonizados por Portugal nasceram de recuperações de bola em zonas adiantadas, e do aproveitamento da desorganização defensiva dos checos nesse instante. O problema é que, agora, já não há equipas contra as quais a capacidade de pressionar chegue, e isso ficará evidente. Outra coisa interessante que deveria ajudar a reflectir os portugueses é o seguinte: sempre que Portugal, neste europeu, assumiu o jogo, as coisas correram bem; sempre que cedeu a iniciativa, por estratégia, ou por incapacidade, as coisas correram mal. Os primeiros oitenta minutos contra a Alemanha, o tempo entre o segundo golo português e o empate dinamarquês, os primeiros 15 minutos contra a Holanda, e a primeira parte contra a República Checa explicam-se muito mais pela postura portuguesa do que por qualquer outra coisa. Aliás, os resultados destes quartos de final são extraordinários para demonstrar aos tontos que acham que o futebol defensivo é o mais ganhador da História, e aos tontos que acham que defender com autocarros é uma estratégia tão eficaz como outra qualquer, que, por norma, ganha quem mais faz por isso. Portugal resolveu o jogo quando decidiu ser mais ofensivo; a Alemanha deu cabo da estratégia defensiva grega; a França teria certamente sido mais competente se não tivesse sido tão medrosa; e os italianos, ainda que só tenham ganho através das grandes penalidades, estiveram sempre mais perto de se apurar. Curioso é também verificar que 3 dos 4 finalistas deste europeu coincidem com aqueles em que apostei, logo no final da primeira ronda. Nada mau para quem costuma falhar nas previsões, segundo muita gente.

Alemanha - Grécia

A Alemanha tem sido a equipa mais consistente da prova, e finalmente deu uma demonstração de força inequívoca. Sem três atacantes titulares, num jogo que se esperava difícil de resolver, os alemães não tiveram grandes problemas. É verdade que o primeiro golo é o que custa mais, e que o remate de Philip Lahm tornou tudo mais fácil. Mas já antes os alemães tinham conseguido penetrar na defesa grega, e a verdade é que se sentia que a vantagem chegaria a qualquer momento. A qualidade das decisões desta equipa é uma coisa assombrosa, e só se pode compará-la à Espanha, nesse capítulo. No entanto, e esta é a minha crítica ao modelo alemão, os jogadores espalham-se pelo campo, e estão, muitas vezes, demasiado afastados uns dos outros, não permitindo combinações curtas com a facilidade com que se exigiria. Gosto da forma como a equipa circula a bola, e gere a posse da mesma, mas tenho algumas reservas quanto à capacidade da equipa para atrair marcações e desmontar defesas. Por outras palavras, o futebol alemão é cirúrgico, e bem jogado, mas carece de alguma criatividade. Quando Ozil entra em cena, tudo isso pode mudar. Mas a criatividade não devia estar a cargo do talento de um jogador, sobretudo quando a Alemanha tem jogadores tão inteligentes, que podiam, em conjunto, fazer do colectivo um colectivo criativo. Bastava, por exemplo, que o sistema não fosse tão rígido, que os alas viessem mais dentro, que um médio procurasse espaços entre linhas. O campeonato dos alemães começa, porém, agora. Itália e Espanha exigirão certamente bem mais do que quaisquer adversários que os alemães encontraram até agora. Quanto aos gregos, chegaram tão longe quanto podiam. Em 2004, não havia adversários altamente competentes como estes alemães, e tudo foi diferente. Desta vez, não foi assim, e Fernando Santos pode dar-se por contente por ter atingido o que atingiu.

Espanha - França

Talvez seja de mim, mas tenho dificuldades em perceber treinadores que modificam todas as ideias das suas equipas quando enfrentam adversários teoricamente mais fortes. Bilic já me tinha decepcionado, e agora foi Laurent Blanc. A França nunca foi prodigiosa, mas jogar em 451, com um lateral a médio, e deixar o único criativo no banco parece-me completamente descabido. Não ter levado Yohann Gourcuff a este europeu já era demasiado mau, mas prescindir de Nasri, só porque do outro lado estava uma equipa que, à partida, ia ter mais bola, é um absurdo. Os espanhóis agradeceram, e fizeram o que quiseram da partida. Desta vez, Vicente del Bosque deixou o avançado no banco, e optou por Fabregas. A exibição da equipa deve ser o suficiente para o convencer dos ganhos extraordinários que há em jogar com mais um jogador capaz de baixar, e de fornecer apoios aos colegas do meio-campo. O estilo de jogo espanhol não requer um avançado que aproveite constantemente os espaços nas costas da defesa. Requer, isso sim, um avançado que saiba baixar, dar apoios entre linhas, e que, por tais movimentos, permita que outros colegas lhe apareçam nas costas. Quando se joga assim, de forma tão apoiada e rendilhada, é importante que os jogadores não tenham a especificidade que Fernando Torres tem; é importante que haja permutas, que haja trocas posicionais, que os espaços sejam preenchidos pela dinâmica colectiva e não por um jogador em particular. A Espanha começou a ganhar o jogo, portanto, antes ainda de começar, com a opção acertada de Del Bosque, e as opções catastróficas de Laurent Blanc. O que aconteceu nos 90 minutos foi acima de tudo o corolário dessas decisões. Na primeira parte, a França praticamente só defendeu; e a Espanha jogou como devia ter jogado, pacientemente, à espera do momento certo para penetrar na defesa adversária. A segunda parte foi ligeiramente diferente, com os espanhóis mais interessados em gerir a vantagem com bola. A França foi mais audaz, mas nunca chegou a incomodar verdadeiramente. Teve o mérito, ainda assim, de fazer descer a percentagem de posse de bola, e mostrou que a melhor arma, contra esta Espanha, é tirar-lhes a bola, e não defender sem bola. 

Itália - Inglaterra 

Depois deste jogo, dificilmente mudarei a opinião acerca do melhor jogador da competição. Aos 34 anos, Andrea Pirlo está a fazer o seu melhor torneio, e entra definitivamente na História do Jogo. Esta Itália, aliás, é extraordinária para desmontar uma série de preconceitos acerca do jogo. Há uns anos, quando levou a sua Fiorentina a uma meia-final da Taça UEFA, considerei Prandelli um dos treinadores italianos mais interessantes, precisamente por ser diferente da grande maioria dos treinadores. Na altura, dispunha a sua equipa em 433, com dois médios ofensivos, e a equipa pretendia ter sistematicamente a bola. O futebol italiano estava, na altura, no final de um ciclo. Quase todos os treinadores faziam parte de uma escola antiga, que dera imensos resultados, mas que se tornara obsoleta, e quase todos eles mantinham as convicções antigas, permanecendo incapazes de se regenerar. Neste contexto, Cesare Prandelli aparecia como alguém com convicções distintas, e eu acreditava que era no modelo de alguém como ele que o futebol italiano se deveria apoiar. Alguns anos depois, Prandelli comanda a selecção italiana mais ofensiva dos últimos 30 anos, pelo menos, uma selecção que gosta de ter a bola, que se sente confortável a trocá-la pacientemente, que é capaz de jogar sem um único médio de vocação defensiva. Está talvez dado o mote para os próximos anos, e para a viragem táctica de que o futebol italiano precisava. Para já, merece todos os aplausos possíveis, pela coragem em quebrar com os costumes, pela firmeza das convicções. Espera-se agora que as suas ideias façam escola, que a Itália de sempre, muito boa tacticamente, passe a aliar à qualidade posicional uma vocação ofensiva mais consistente. Outro preconceito que esta equipa derruba é a necessidade de jogar com médios de competências defensivas. Em 442 losango (depois de um 442 clássico que se transformava num 4222 a atacar), Prandelli apresentou 4 jogadores que se destacam essencialmente pelo que constroem, pela qualidade de passe, pela capacidade para ter a bola; o resto consegue-se pelo posicionamento colectivo. Com Pirlo a médio defensivo, De Rossi e Marchisio como interiores, e Montolivo como médio mais ofensivo, a Itália está constantemente arrumada, e mantém em campo muitos jogadores capazes de inventar coisas com bola. Por fim, o penalty à Panenka de Pirlo. Fazer aquilo com a Itália em desvantagem, e fazê-lo com a impassividade com que o fez, só está ao alcance dos mais corajosos. O penalty é o corolário de uma exibição transcendente. Pirlo, sozinho, demonstra como é possível jogar 120 minutos sem fazer uma mudança de velocidade, como é possível driblar sem precisar de atributos físicos relevantes, como é possível mexer os cordelinhos de toda a equipa praticamente sem transpirar. Notável! Se alguém quiser saber o que é a classe, basta olhar para Pirlo em campo. Ainda acerca do penalty, disse o médio italiano o seguinte: «Vi que o guarda-redes lançava-se bem e pensei em marcar desta forma, era mais fácil fazendo cair o guarda-redes. Quis também colocar um pouco de pressão sobre os ingleses». Nunca percebi aqueles que criticam a opção de bater um penalty à Panenka, porque sempre achei que, num penalty, o objectivo principal é enganar o guarda-redes. Marcá-lo assim é apenas outra forma de marcá-lo, ainda que sugira um certo desleixo, e um certo gozo. As declarações de Pirlo mencionam ainda outro tipo de vantagem, algo que, de facto, é muito importante numa decisão por penalidades: o factor psicológico. Ao bater assim, com aquela frieza e aquela confiança, ainda por cima com a sua equipa em desvantagem, Pirlo demonstrou aos ingleses que, apesar de estarem em desvantagem, os italianos mantinham-se confiantes; aos seus terá fornecido uma certa motivação. Pode parecer insignificante, mas um só penalty pode servir para vencer uma partida, glorificar um jogador, e mudar a mentalidade de muito boa gente. Foi o caso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Euro 2012 - 3ª Ronda

Grupo A

Terminada a fase de grupos, fica por terra a equipa que, para muitos, mais entusiasmou na primeira ronda. Como escrevi logo na altura, tinha muitas reservas quanto ao futebol dos russos. Gostava muito das unidades, agradava-me a organização da equipa, e a capacidade da mesma para sair em transição, mas tinha bastantes cautelas quanto à real capacidade da equipa para assumir o jogo. O segundo jogo contra a Polónia comprovou as minhas suspeitas, e a derrota frente à Grécia só as tornou mais claras para todos. Os números da Rússia, no primeiro jogo, que tanto entusiasmaram, deveram-se mais às facilidades que encontraram nesse jogo, especialmente em transição, do que propriamente à qualidade dos russos. Contra equipas mais fechadas, nunca souberam criar as dinâmicas certas para arranjar espaços. Contra a Grécia, então, foi deplorável. Para muitos, os gregos passam esta fase de grupo do mesmo modo que ganharam o Euro 2004. Eu não sou tão crítico. A Grécia fez um péssimo jogo contra a República Checa, mas contra a Rússia não foi inferior. Não invalida isto que não tenha tido sorte em adiantar-se no marcador, podendo assim gerir a vantagem. Teve, claro. Mas a segunda parte dos gregos foi inteligente, porque estavam em vantagem, e porque souberam como defender-se da principal arma russa, o contra-ataque. A mim, ainda que considerasse que a Rússia podia ter ido mais longe, não me surpreende a eliminação. No outro jogo, a Polónia começou como começara contra a Grécia. O problema é que as pessoas confundem qualidade com vontade de ganhar. Já contra a Grécia, os polacos tinham sido muito elogiados pelos seus vinte minutos iniciais. A verdade é que a equipa nunca apresentou muita qualidade, e as oportunidades criadas nesses primeiros vinte minutos, nesse e neste jogo, resultaram mais de uma intensidade altíssima (insustentável nos 90 minutos) do que propriamente de qualidade de jogo. Assim que os polacos começaram a perder gás, e os checos se acalmaram, a tendência do jogo virou. A partir dos 30 minutos, o jogo foi todo checo, com a equipa a trocar muito bem a bola, mesmo sem Rosicky. A República Checa vence o grupo, e vence bem, pois foi, de longe, a equipa mais interessante. Não tem muitas individualidades extraordinárias, mas tem um modelo de jogo que assenta na posse de bola, e a equipa é, colectivamente, muito competente a circular a bola e a arranjar os espaços de penetração certos. Com a capacidade de definição de Rosicky, caso esteja apto, não considero Portugal tão favorito como a grande maioria das pessoas considera.

Grupo B

Não tive a oportunidade de assistir ao jogo que opôs Alemanha a Dinamarca, pelo que me abstenho de falar do mesmo. Ainda assim, pelo que vi nos outros jogos, creio que os alemães são os justos vencedores deste grupo. No outro jogo, finalmente uma boa exibição de Portugal. É preciso, no entanto, perceber que, do outro lado esteve a equipa mais fraca, em termos colectivos, deste europeu, se excluirmos a Irlanda, e que o espaço que Portugal encontrou para jogar neste jogo, e que não encontrou noutros, se deve acima de tudo a isso. Deve-se a isso, e deve-se também ao facto de os portugueses, após recuperarem a bola, não quererem chegar imediatamente à baliza adversária, apenas com um ou dois passes. Nesse capítulo, acho que há mérito da equipa de Paulo Bento, que foi bem mais paciente e inteligente do que nos outros jogos. Também ajudou o facto de os holandeses terem marcado primeiro, condicionando a estratégia conservadora inicial. A perder, Portugal foi obrigado a assumir o jogo, e foi nessa altura que melhorou. Depois, com espaço entre os atacantes e os defesas holandeses, soube criar as condições certas para atacar a baliza holandesa, e venceu com toda a justiça. Embora já tenha sido referenciado no Lateral-Esquerdo, não queria deixar passar a oportunidade de falar no primeiro golo português. Os intervenientes foram João Pereira e Ronaldo, mas quem acha que Portugal chegaria ao golo com outro avançado em campo que não Hélder Postiga está enganado. Para mim, mais do que um jogo de individualidades, ou de soma de individualidades, o futebol é um jogo de relações, e quando se elogia um passe de alguém, esquece-se sempre de perceber que, sem a solicitação do colega, qualquer passe genial está condenado ao insucesso. Para dar um exemplo claro, quem acha que Xavi é o que é porque tem uma visão de jogo que mais ninguém possui, desengane-se. É óbvio que ele tem uma visão de jogo muito boa, mas não é essa a principal razão para que tenha tanto sucesso com os seus passes. Uma visão de jogo como a de Xavi muitos há que a tenham. O que acontece é que Xavi joga com vários colegas (no Barça ou na selecção espanhola) que lhe fazem a papinha toda, em termos de desmarcação. Quero com isto dizer que o passe de João Pereira, embora muito bom, só teve sucesso porque os colegas (e aqui, obviamente, não é só Ronaldo), ao movimentarem-se sem bola, criaram as condições certas para que tivesse sucesso. O movimento de aproximação de Postiga, complementado com o movimento de ruptura de Ronaldo, criou a linha de passe que, de outro modo, não existiria. É este conjunto de coisas que normalmente se negligencia, e é este tipo de soluções "invisíveis" que um avançado que se movimenta tão bem como Hélder Postiga oferece à equipa em que joga. Aliás, tendo Portugal talvez o extremo que melhores movimentos de ruptura, em diagonal, faz, o avançado ao lado de quem mais renderá será necessariamente um que faça movimentos de aproximação bem feitos, criando com isso os espaços nas suas costas em que tal extremo possa entrar. No Real Madrid, Ronaldo rende muito mais com Benzema do que com Higuain precisamente porque o francês faz este tipo de movimentos muito melhor do que o argentino. Nem que fosse pelas características de Ronaldo, Postiga era desde logo o homem certo para jogar nesta selecção.

Grupo C

Antes de mais, importa salientar que estão neste grupo 3 dos principais candidatos, na minha opinião, ao prémio de melhor jogador da competição. Falo de Andrés Iniesta, Andrea Pirlo, e Luka Modric. Assombrosa, a forma como Modric, praticamente sozinho, ia mandando a selecção espanhola para casa. A Croácia não fez, apesar de tudo, um grande jogo. Jogou 65 minutos atrás da linha da bola, e reservou o último terço da partida para tentar marcar um golo. Tendo a Itália, no outro jogo, marcado logo na primeira parte, é para mim incompreensível a falta de coragem de Bilic. Ainda por cima, tendo bastante qualidade individual ao seu dispor. A estratégia defensiva da Cróacia foi bem sucedida, mas sobretudo por demérito da Espanha, que fez um jogo muito fraco. Duas são as razões, a meu ver, para tal exibição: saber que o empate bastava, e Vicente del Bosque. O treinador espanhol quer jogar à Barcelona, mas não sabe o que é preciso para o fazer. Para mim, a utilização de um duplo-pivot é usualmente uma má opção. Mas numa equipa que joga curto, a passo, sempre organizada, faz especial confusão. Se gosta tanto de Xabi Alonso, tire Busquets; se quer mesmo o futebol do Barcelona, deixe o catalão sozinho, a fazer coberturas a uma dupla de médios ofensivos. Para jogar contra equipas que baixam o bloco, é absolutamente necessário que se invadam espaços centrais entre linhas, e o que Vicente del Bosque tem feito, ao utilizar um avançado exclusivamente interessado em movimentos de ruptura, e um duplo-pivot, é tirar sistematicamente dois jogadores desses espaços. Iniesta e Silva ainda vêm dentro, procurar esses espaços, mas é pouco para as exigências que duas linhas de quatro impõem. A Espanha seria campeã da Europa se jogasse em 433, com Busquets, Xavi e Iniesta no meio-campo, Silva, Pedro e Fabregas na frente. Assim, como está, não ponho as mãos no fogo. A equipa é incapaz de invadir os espaços entre linhas com a qualidade com que poderia fazê-lo, e é também incapaz de pressionar imediatamente a seguir à perda da bola. É um caso evidente de como o sistema táctico prejudica as dinâmicas. A outra chamada de atenção é para os laterais, que são incapazes de perceber que, vindo os extremos para dentro, a profundidade tem de ser dada por eles. Arbeloa não sabe isto, e não é capaz de dar isso à equipa. Jordi Alba tem vontade, mas tem muito que aprender. De referir, ainda, que a insistência em fazer saltar do banco um jogador como Navas, para se integrar num colectivo como este, é não perceber nada do assunto. E ainda não ter utilizado Fernando Llorente nem Mata é criminoso. Nota muito negativa para Vicente del Bosque, portanto. No outro jogo, pouca história. A Itália utilizou um sistema táctico diferente, e há uma particularidade interessante. Prandelli é um treinador com ideias ofensivas, e percebe a importância dos espaços centrais para a progressão com bola. Assim, a atacar, o 442 clássico da Itália desmonta-se, e Marchisio e Motta, os dois alas, vêm para dentro, formando um quadrado com Pirlo e De Rossi, e permitindo que sejam os laterais a dar largura. Ganha com isto, a Itália, gente no meio. Mas parece-me que haver uma diferença tão grande na relação entre jogadores entre a fase defensiva e a fase ofensiva implica uma certa desorganização no momento da perda da bola. Um caso a rever, no jogo contra a Inglaterra, caso Prandelli não regresse ao modelo anterior.

Grupo D

Era o grupo mais fraco dos quatro, em termos de qualidade colectiva das equipas, e isso acabou por se reflectir na fraca qualidade dos jogos. Do jogo em que a Suécia bateu a França, pude ver apenas o resumo. O golo de Ibrahimovic é fenomenal (pelo gesto técnico, e pela própria jogada, que é bem construída), e os suecos acabam por ir para casa de cabeça erguida! Quanto à França, mais uma vez, não surpreende. Os franceses não têm apresentado consistência nem qualidade suficiente para que mereçam o rótulo de favoritos. Quanto à Inglaterra, venceu o grupo, mas não fez uma única exibição digna de nota. Não sei até onde esta mediania dos ingleses os pode levar. Para já, segue-se a Itália, num jogo em relação ao qual não sei bem o que esperar. Dependerá muito, parece-me, do que Prandelli quiser fazer. Quanto à Ucrânia, sai do Euro algo ingloriamente. Os ucranianos não eram, enquanto equipa, extraordinários, mas não foram muito inferiores aos franceses, e nada inferiores aos ingleses. Individualmente, gostei bastante de Iarmolenko. Konoplianka, o outro extremo, é um jogador de drible fácil, mas nem sempre toma boas decisões. Iarmolenko, esse sim, vale a pena seguir com atenção. Outro ponto de interesse no jogo foi a inclusão de Milevsky no onze. Brilhante, como sempre, ainda que discreto, passou ao lado dos holofotes da partida, para os comentadores. José Peseiro, aliás, insistiu durante quase toda a segunda parte que era o jogador mais apagado, que devia ser substituído, etc.. E nem sequer o mencionou no lance do golo mal anulado aos ucranianos, ainda que tivesse sido ele a isolar, de um modo praticamente impossível, o colega. O caso dos pontas-de-lança, neste Euro, é até muitíssimo interessante de analisar. Mais do que demonstrar o que quer que seja acerca de pontas-de-lança, demonstra de que modo analisa o desempenho de um ponta-de-lança aquele que vê um jogo. É que não foi por acaso que se elogiaram desmedidamente avançados como Lewandowsky, Kerzhakov, e Mandzukic, e que se criticaram sistematicamente jogadores como Samaras, Postiga, e Milevsky. Acontece que os primeiros são mais vistosos, destacam-se porque rematam muito à baliza, porque se embrulham muito com os defesas, porque têm tendência para querer resolver os problemas da equipa sozinhos. Os segundos não são assim. As competências que possuem são competências mais colectivas: a movimentação sem bola, a capacidade para tabelar, a tomada de decisão, a capacidade para segurar a bola, a qualidade entre linhas. Não são jogadores que se destaquem por si, mas que percebem o que é o jogo, em todos os momentos, e aquilo que o jogo exige deles. São discretos porque percebem a inutilidade de ir ao choque em todas as bolas, a inutilidade de correr feitos parvos para tudo o que é sítio, e a inutilidade de querer resolver a partida, qualquer que seja a situação em que se encontram. A maioria das pessoas, porém, vê futebol como se habituou a vê-lo. Vê-o como um conjunto de acções isoladas, e tende, por isso, a prestar atenção a muito poucas coisas, e apenas àquelas que, por norma, aparecem nos resumos dos jogos. Vêem, por isso, muito mal. E não vêem, na maioria dos casos, o que é mais importante.