terça-feira, 17 de julho de 2012

Hegemonia e Geração Espontânea

Falar em hegemonia a respeito do futebol espanhol pode parecer, nos dias que correm, profundamente redundante. Depois da conquista de mais um campeonato europeu, poucos se atreverão a não conceder à Espanha esse estatuto. Há 4 anos, porém, quando tudo isto começou, poucos, como nós, arriscavam em votar no favoritismo espanhol. Entretanto, e reagindo ao futebol espanhol como se tem reagido ao Barcelona de Guardiola, insiste-se que qualquer adversário poderoso vencerá esta equipa, e que outros tempos se sucederão aos actuais. Não tenho dúvidas de que a selecção espanhola não ganhará tudo o que há para ganhar, nos próximos anos. Do que tenho dúvidas é de que, tão depressa, apareça um futebol capaz de se sobrepor a este, e de que a Espanha deixe de estar no lote dos grandes favoritos à vitória nas competições em que participar nos próximos... 20 anos. Para muitos, estes três títulos representam uma fase, uma hegemonia temporária, como tantas outras no passado, protagonizadas por outras selecções, que necessariamente será interrompida. Para mim, aquilo a que se assiste agora não tem paralelo na História do Futebol, precisamente porque não se pode medir-lhe a manifestação apenas pelos troféus que tem amealhado. Por trás das vitórias há um modelo fortemente enraízado, um estilo de jogo que é dominador, que condiciona irremediavelmente qualquer que seja o adversário, e que faz daqueles que o põem em prática mentalmente superiores. O jogador espanhol é hoje, pelo próprio estilo de jogo que pratica, superior, em termos de mentalidade, aos seus adversários, como em tempos os germânicos o eram. Para que a Espanha deixe de ser a principal favorita à vitória em cada prova que participar, não basta esperar que esta geração acabe, até porque esta geração tem bem mais do que onze jogadores competentes, e a esta geração, já se percebeu, sucederão outras igualmente talentosas. Também não bastará que seja derrotada na próxima grande competição, porque sabe-se que voltarão a ser favoritos na seguinte, apesar da derrota. Não bastará, ainda, que uma selecção qualquer, muitíssimo talentosa, apareça nos próximos anos, pois essa selecção, pelo carácter extraordinário do seu surgimento, desaparecerá sem deixar legado, enquanto os espanhóis, com novas gerações, continuarão a reinar. Para que a Espanha venha a ter quem lhe discuta a hegemonia, há que iniciar um trabalho a nível de formação, que não está iniciado em lugar algum, tanto quanto sei, muitíssimo parecido com aquele que foi iniciado há duas ou três décadas no país vizinho, e que agora está finalmente a dar os seus frutos. Daí dizer que a hegemonia espanhola terá ainda, pelo menos, 20 anos de vida.

Vem isto a propósito não do recente campeonato europeu ganho pelos espanhóis, mas pelo recente campeonato europeu de sub-19 ganho - imagine-se - pelos espanhóis. Que eu saiba, não há memória de haver uma selecção que dominasse tanto o panorama futebolístico como esta Espanha na última década, ganhando tudo o que havia para ganhar nos últimos 4 anos, a nível sénior, e ganhando quase tudo (quando não ganha, fica perto, e é sempre favorita) nos escalões mais jovens. Permitam-me a comparação com o hóquei em patins. Desde que me lembro de ver hóquei, havia apenas 4 selecções capazes de discutir títulos: Argentina, Itália, Portugal e Espanha. Explica-se isto de forma relativamente simples, pois eram países com tradição na modalidade, que iam formando, geração após geração, jogadores de qualidade em quantidades suficientes para poderem manter equipas competitivas. No caso do hóquei, que é um jogo muito mais simples que o futebol, a excelência colectiva terá sido atingida muito mais rapidamente do que no futebol, e depressa se formaram 4 selecções hegemónicas. Nenhuma outra selecção, a menos que inicie um trabalho de formação de fundo, consegue competir, de forma consistente, ao longo de muitos anos, com estas selecções. Em futebol, pelo contrário, até praticamente ao fim do século passado, faltava muito para que a excelência colectiva fosse atingida, e nações com bases de recrutamento muito grandes podiam ser consideradas favoritas, mesmo apresentando um futebol fraco, em termos colectivos. Hoje em dia já não é assim. E não voltará a ser assim. Arrisco mesmo a dizer que o Brasil, a menos que revolucione o seu futebol, não voltará a ser verdadeiramente favorito à vitória numa grande competição. Claro que poderá ganhar um campeonato ou outro, mas dificilmente voltará a ser a potência que foi se não modificar as suas prioridades. O que se fez em Espanha, nas últimas décadas, foi compreender o jogo, compreender aquilo que o jogo exigia, e formatar os seus praticantes para fazerem face a essas exigências. Hoje olha-se para uma competição de sub-19, por exemplo, e no lugar de miúdos imberbes, alguns com potencial, outros nem tanto, e uns mais afoitos que outros, vêem-se jogadores de futebol. Compara-se a selecção espanhola com as outras e, em vez de se conseguir isolar um ou outro miúdo com capacidades acima da média, capta-se um colectivo completamente distinto, em que todos os elementos possuem uma maturidade táctica acima do normal. Isso só é possível porque o futebol espanhol, em vez de tentar lapidar cada um dos diamantes que, por sorte, iam aparecendo, como se acredita, ainda hoje, que deve ser o trabalho de formação, passou a criar, através de uma concepção do jogo mais elevada, os seus próprios diamantes. Aquilo que distingue este futebol espanhol, cuja hegemonia actual não encontra paralelo em toda a História do jogo, é precisamente a compreensão de que, num jogo colectivo, como o é o futebol, a formação serve para criar talentos, no sentido literal da palavra "criar", e não apenas para permitir que certos talentos brutos, que existem antes de passarem pela fase de formação, adquiram competências que lhes permitam jogar ao mais alto nível. Em Espanha, não se acredita em geração espontânea, e isso faz toda a diferença.

A respeito, mais concretamente, deste europeu de sub-19, tenho várias coisas a dizer. Em primeiro lugar, que são treinadores como Edgar Borges que explicam por que razão Portugal nunca poderá chegar aos calcanhares do que se faz em Espanha. É verdade que ao seleccionador nacional só se lhe deu para as mãos um conjunto de jogadores, com a qualidade duvidosa que têm (ainda estou para perceber por que é que João Carlos, jogador do Liverpool, não foi chamado), a maior parte deles, mas optar, como o fez contra a Espanha, por uma marcação individual aos homens do meio-campo espanhol diz tudo sobre Edgar Borges. Na minha opinião, quem escolhe jogar assim, seja contra quem for, não merece uma segunda oportunidade. Poderia dizer muito mais, mas esta decisão táctica diz praticamente tudo. Quanto a valores individuais, aproveitar-se-ão, entre os portugueses, dois ou três. O melhor deles, o avançado Betinho, praticamente nem se viu, tal foi a pobreza, em termos de construção de jogo, da equipa. Ricardo Esgaio talvez tenha futuro, mas só como lateral-direito, como joga no Sporting. Como extremo, é banalíssimo. Tiago Ilori, se bem trabalhado, e se se modificarem certos preconceitos a respeito de defesas centrais, também dará jogador. Daniel Martins, o lateral-esquerdo do Benfica, também tem algumas características interessantes. Sobre Rafael Veloso, o guarda-redes, é preciso saber como evoluirá, em termos de mentalidade. Quanto aos restantes, sinceramente, não lhes auguro futuros espantosos. A excepção poderá ser o capitão João Mário, de quem não sou particularmente adepto, mas a quem reconheço alguns atributos importantes. João Mário não tem classe; tem tiques de quem tem classe. Se um dia esses tiques derem lugar a um jogador que compreenda quando os deve ter e quando os não deve, talvez venha a poder ser jogador. Para já, é apenas irritante. André Gomes, médio do Benfica, sabe jogar, mas tem contra si o tamanho exagerado, a pouca agilidade, e algumas deficiências técnicas, sobretudo resultantes desses atributos físicos indesejados. Quanto a Bruma, não dará em nada, ainda que, nos últimos anos, tenham chegado a Alvalade propostas milionárias para o levar. Ivan Cavaleiro é idêntico, mas com menos propostas milionárias. Sobre Agostinho Cá, não vou falar porque ainda estou a tentar compreender por que razão é que o Barcelona contratou, para jogar na sua equipa B, alguém que não é, nunca foi, nem nunca será jogador de futebol.

Sobre a Espanha, que é realmente a selecção sobre a qual se deve falar, tal foi o abismo que a separou das restantes, devo dizer que continuam a ser feitas observações precipitadas. Embora os espanhóis tenham mostrado ao mundo que o futebol é um jogo colectivo, e embora todos se apressem a enaltecer as virtudes colectivas desta equipa, quando chega a hora de falar em individualidades, fala-se sempre daquelas que menos atributos colectivos manifestaram. Para a grande maioria das pessoas, as duas principais figuras do torneio foram o goleador máximo da prova, Jesé Rodriguez, e aquele que é considerado o maior talento desta geração, Gerard Delofeu. Não porque é costume ser do contra, mas porque dou mais importância a aspectos colectivos, não foram estes os jogadores que mais me impressionaram. Aliás, não acredito mesmo que Jesé Rodriguez, por exemplo, venha a ter um futuro invejável. É um jogador habilidoso, mas fraco em termos de decisões. Delofeu, por sua vez, é parecido, embora mais rápido, mais forte no um para um, e, sobretudo, joga no Barcelona. Estando no Barcelona, pode aprender o que ainda não sabe. Se o conseguir, saberá como temperar as suas iniciativas um pouco melhor. É que, para já, é apenas um jogador muito forte em termos individuais. O seu principal problema, a meu ver, é não saber decidir quando deve ou não deve apostar em acções individuais. Sempre que Guardiola o colocou em campo, este ano, evidenciou precisamente isso. Na altura, pensei que fosse nervosismo. Depois deste Campeonato da Europa, percebi que era feitio. Gerard Delofeu esteve endiabrado, sim, mas porque apanhou defesas que lhe permitiram as diabruras. Daqui a uns anos deixará de o conseguir fazer com a facilidade com que o fez, e nessa altura terá de apresentar argumentos que não apresentou neste campeonato. Como disse, outros foram os jogadores que me impressionaram. Desde logo, o defesa-esquerdo do Barcelona, Grimaldo. Não é um jogador com grandes valências atléticas, mas sabe sempre o que fazer com bola, jogando invariavelmente no apoio, e, sem grandes correrias, nem um pulmão invejável, dá a profundidade certa à equipa no momento certo. De resto, podia falar em qualquer um dos do meio-campo (o capitão Campaña, médio-defensivo elegante; Suso, médio do Liverpool com um pé esquerdo notável; ou mesmo Ñiguez, igualmente esquerdino, e muitíssimo inteligente em todas as suas acções com bola), todos eles fortíssimos no que toca a decisões, e todos eles bons de bola, mas vou isolar dois, porventura os dois mais pequenos: Oliver Torres, do Atlético de Madrid, e Denis Suárez, do Manchester City. Esqueçam tudo o que acham que sabem sobre futebol, e ponham os olhos nestes dois pequenos jogadores. A forma como tratam a bola, a agilidade, a competência técnica, a facilidade no drible: é isto que distingue o actual futebol espanhol. Pouco jogaram juntos, é verdade (Denis Suárez foi quase sempre suplente), mas os adeptos mereciam que tal tivesse acontecido. Sem bola, procuram dar sempre um apoio vertical ao médio-defensivo, ou uma linha de passe ao lateral. Movimentam-se entre linhas como ninguém, tabelam, tiram adversários da frente com facilidade. Duas pequenas maravilhas! Continuo sem perceber como é que, dando a Espanha tamanho exemplo de competência em todos os escalões, se insiste em não povoar o meio-campo com jogadores com estas características. Oliver Torres e Denis Suárez são o paradigma do médio-ofensivo do futuro, um paradigma que demorou a chegar, mas que Xavi e Iniesta trataram de deixar claro que tinha mesmo de chegar. Se há uns anos se desconfiava que mais do que um jogador com estas características era prejudicial a uma equipa, os dois catalães ensinaram ao mundo de que era com dois assim, se não mesmo com mais, que tinha de se jogar futebol. Estes dois são herdeiros de Xavi e Iniesta, e seria natural que, ainda que não sejam actualmente aqueles de quem mais se fala, daqui a uns anos estivessem na ribalta do futebol europeu. 

terça-feira, 10 de julho de 2012

Egoísmo e estética na evolução do jogo.

Na verdade, a essência deste texto louva o estilo. Frivolidade, que para alguns se desmascara no seu significado; porém, não aqui, não no que se procura defender neste texto. Ignoremos o fenómeno Guardiola; tiranizados que estamos sob o jugo desse alto olhar sobre o jogo, não se apresentará fácil o exercício, mas só assim poderemos compreender a extensão do que nestas linhas é proposto. O mais curioso é que, até ao advento “Guardiola”, nenhum dos bastiões deste jogar, que tamanha admiração nos inspira, se podia comparar a qualquer um dos anteriores estetas que, em si mesmos, de forma marginal, inscreviam os valores que agora ressoam na elegância do jogo catalão. Xavi, Busquets e Iniesta, jogadores que encerram em si uma qualidade excepcional, não encontrariam o reconhecimento que os consagra agora, não lhes fosse oferecida a oportunidade de fazerem parte de um ideal que, sendo também o deles, não encontrava neles a sua maior expressão. E é na plasticidade da palavra “expressão” que sustento esta ideia; existe um certo “altruísmo” a que o seu jogo se entrega, empalidecendo-os. A minha atenção vira-se, como facilmente se deduz, para aqueles que, demasiados centrados sobre si, procuram em cada momento não o que é melhor para a equipa, não tomar a mais oportunista das decisões, mas antes ataviar-se de um brilho e romance que, aos seus próprios olhos, os distingam dos demais. Encontrei esta ideia pouco depois de ler um texto do Jorge D., no Centro de Jogo, sobre um jogador que também eu admirei, e admiro, tendo também feito questão de escrever, há uns anos, um texto sobre ele neste blogue: Pedro Barbosa. Na altura, senti que não se explicava todo o seu encanto apenas com aquele estilo blasé com que desfilava no campo, ou com a inteligência com que abordava as situações com que o lado caótico do jogo o brindava. Barbosa era mais como Zidane ou Pirlo. Não reconheço que estes jogadores se tenham destacado “apenas” pelas características acima enumeradas, apesar destas serem inequívocas; acredito, porém, que outra afinidade os transcendia: a necessidade a que se atavam de, independentemente do que o jogo lhes oferecia, se projectarem num patamar superior. Aqui descobrem-se, por certo, algumas resistências: encontramos um rebanho de jogadores que, acima do que podem oferecer à equipa, pensam no que podem oferecer a eles próprios perante o jogo, tão obcecados que estão em alcançar o reconhecimento dos demais. Vou dar um exemplo, que me é tão querido, de imediato saltando à vista: Liedson. Mais do que aquilo que podia oferecer à equipa, este jogador procurava a mais pequena ocasião para se emancipar. Aqui retorno, todavia, às qualidades indissociáveis dos três primeiros (Barbosa, Zidane e Pirlo ) para concluir que os valores sobre os quais se dobra a necessidade de privilegiar a equipa resultam de diferenças abismais - para com jogadores como Liedson, por exemplo - nas suas preocupações durante o jogo. Ao brasileiro pouco lhe diziam os meios com que alcançava a notoriedade no jogo; conquanto no final de contas ele fosse o jogador que mais golos fizesse ou mais quilómetros arasse, pouco lhe importava o carácter das soluções encontradas; não encontrávamos nos outros três a mesma disposição, a mesma ligeireza nos seus processos. A atracção recaía sobretudo na elegância das soluções, cunhando-as de uma graça circunscrita ao seu próprio cânone, imunes a perversões de circunstância ou ambiente. Assisti a todos os jogos da Itália neste europeu, e, mais do que observar em Pirlo a necessidade de ajudar a equipa, encontrei nele o imperativo de jogar bonito, embora não aquele bonito envolto em acrobacias de circo, espalhafatoso no seu grito por atenção; a elegância do seu jogo, fatalidade de um vício do belo, manifestava-se na tranquilidade com que desenhava cada lance; e, no entanto, a grande maioria das suas soluções não se esgotavam no sentido estético do seu jogar, catapultando a Itália para uma qualidade de jogo nunca vista. E aqui, por fim, chega o essencial do meu argumento: não se escondam jogadores como Pirlo em sociedades tacanhas, ainda que democráticas, todos participando com a sua visão na regulação das suas leis e costumes; atribuam-lhe, sim, o título de déspota, e o brilho do seu jogo, libertando-os das suas próprias limitações, a um nível apenas ficcionado os sublimará. Em jogadores como Pirlo, cuja principal preocupação é fornecer elegância ao jogo, a única maneira de o fazer é numa abordagem superior ao mesmo, desprezando os pergaminhos da equipa onde se inserem. Concedam-lhe as rédeas da equipa e talvez encontremos naquele conjunto um vislumbre do que o conjunto blaugrana nos ofereceu constantemente. Acredito que este Europeu a Pirlo deve muito do seu encanto, e talvez este encanto torne merecedor um agradecimento a Prandelli; contudo, é na incapacidade de Pirlo de se furtar aos sacrifícios do Belo que se funda todo o futebol da Itália, e o seu reconhecimento pelo seleccionador italiano no Europeu de 2012. Na final, não escondi a minha predilecção pela Itália. Minto. Não pela Itália, mas por Pirlo, desejoso que o ego de um só jogador se superiorizasse a toda uma ideia de jogo que, afinal de contas, também era a dele, apenas mais simples e humilde. Venceu um conjunto de jogadores, habituados que estavam partilhar entre si um ideal que os elevava, perante um homem só, cujo sentido estético o entrelaça nas raízes de tão avançado conceito.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Euro 2012 - A Sobrevivência do Mais Forte

Terminado o torneio, não ficam muitas dúvidas: a prova foi eliminando os menos capazes, quer individualmente, quer colectivamente, e foi preservando os mais aptos. Espanha, Itália, e Alemanha foram as equipas mais fortes do torneio, e Portugal a mais competente das restantes. Mas tanto a Itália como a Espanha, por serem superiores, mereciam esta final, e a Espanha, tanto pela superioridade que já demonstrara no primeiro jogo, apesar do empate, como por ser, de facto, melhor equipa, não podia deixar de se sagrar vencedora. Findos 6 anos de conquistas, é talvez tempo para reflectir. Mais do que dizer disparates, do que torcer contra eles, porque nos eliminaram, do que desejar-lhes a queda, por incompreensão do fenómeno, há que reconhecer-lhes a superioridade, tentar perceber as causas dessa superioridade, elogiá-las, e tentar reproduzi-las. A Espanha é o que é por várias razões. A primeira chama-se obviamente Guardiola. Sem o modelo catalão, sem o perfil de decisão que os jogadores catalães trouxeram para a selecção, esta Espanha seria muito diferente. Não seria de todo injusto se aos 14 títulos no currículo de Guardiola se juntassem os títulos espanhóis. Mas outra causa, menos recente, e mais ampla, explica este sucesso. A Espanha começou há mais de 20 anos a investir no futebol (e no desporto, em geral), em formação, numa identidade, num perfil de jogador muito próprio, alicerçado no talento e na inteligência, e prova agora que os grandes jogadores do futebol moderno, ao contrário do que muitos defendem, têm origem nas academias e não na rua. Não fosse assim, e as ruas da Catalunha teriam de ter qualquer coisa de especial, para que aparecessem tantos craques catalães. Aquele argumento de que um país com poucas pessoas dificilmente é capaz de competir com um país com muitas pessoas, pois a base de recrutamento é incomparavelmente menor, é um disparate. É evidente que em países como o Brasil ou a Argentina, em que o futebol de rua ainda tem força, é menos importante ter projectos de formação competentes para que apareçam muitos bons jogadores. Mas se há coisa que esta selecção espanhola veio mostrar é que um projecto de formação competente, pensado a longo prazo, não só permite anular a diferença entre bases de recrutamento maiores e menores, como deixa claro que, actualmente, os jogadores de topo são jogadores que adquirem habilidades que não podem, de modo nenhum, adquirir na rua.

Há palermas que acham, pelo menos desde o mundial de 2010, que esta Espanha é uma selecção defensiva. São palermas que, por exemplo, consideram o estilo de jogo espanhol aborrecido, sonolento, que acham que a equipa usa a bola para adormecer adversários, e para defender. Claro que a Espanha usa a bola para defender, mas esse uso não é exclusivo. Acima de tudo, esta Espanha sabe uma coisa que estes palermas não sabem: quem ataca é quem tem a bola. A Espanha é uma equipa ofensiva, nem que seja pelo simples facto de ter mais tempo em seu poder, por norma, o instrumento que permitiria que o adversário, se o tivesse, pudesse atacar. Mas a Espanha não é só isso. É uma equipa que assenta o seu modelo na posse de bola, e faz uso dela para tudo: para defender, claro, mas para irritar o adversário, para descansar, para desposicionar as linhas adversárias, para se recrear, e claro, para atacar. Esta Espanha, pelo simples facto de ser, em toda a História, a selecção que melhor ataca, que mais conscientemente percebe por onde deve entrar, quando deve forçar e quando deve manter a bola, é a equipa mais ofensiva da História. Os palermas, por serem palermas, acham que ser ofensivo é jogar com muitos avançados, ter um modelo vertical, jogar sempre para a frente, etc.. Essas equipas são ofensivas, sim, mas também são irresponsáveis, e incompetentes. Para os palermas, ser ofensivo é simplesmente o contrário de ser defensivo. O corolário da tese dos palermas é o de que as equipas ofensivas não podem ser defensivas. É um corolário estúpido, mas é o corolário de um raciocínio deste tipo. Eu, por acaso, acho o contrário: acho que a melhor equipa, em termos ofensivos, será necessariamente a melhor equipa, em termos defensivos. Quando, por isso, os palermas dizem que a Espanha é defensiva, estão no fundo a dizer que é ofensiva, sem o saberem. De facto, em futebol não é difícil de saber o que é atacar e o que é defender: quem tem bola, ataca; quem não tem, defende. Depois, há quem ataque bem, há quem ataque mal, há quem ataque de forma mais rápida, há quem ataque de forma mais lenta, há quem ataque de forma mais racional, e quem ataque de forma mais irracional. Mas, no fundo, ataca quem tem bola, e defende quem não a tem. Ao contrário do que pensam os palermas, que pensam que esta Espanha ensinou o mundo a defender com bola, o que esta Espanha fez foi ensinar que é possível atacar defendendo e defender atacando. Há uma diferença monstruosa entre atacar porque sim e atacar racionalmente, e essa diferença consiste em saber os usos certos a dar à bola. Os palermas que acham que o futebol da Espanha é aborrecido não percebem isso. Como não percebem a racionalidade do futebol espanhol, e no fundo defendem a irracionalidade, são estúpidos. São estúpidos, e um futebol inteligente como o da Espanha, dá-lhes sono. Os palermas, tal como preferem fogo-de-artifício a um livro, preferem uma equipa inglesa (e o futebol electrizante praticado em terras de Sua Majestade) ao futebol mais bem praticado de sempre. A conclusão de tudo isto é que os palermas não gostam de futebol. Gostam das sensações que se habituaram a ter ao ver futebol. E isso é diferente. Aborrecida, esta Espanha? Aborrecida uma equipa em que todos os jogadores estão a pensar ao mesmo tempo? Aborrecido um futebol em que, de minuto a minuto, os jogadores nos mostram habilidades dificílimas e fazem coisas que só estão ao alcance de muito poucos? Aborrecido é ver um jogo com quarenta oportunidades de golo, mas que resultam de choques no ar, de erros infantis dos defesas, de remates violentos, de jogadas com 2 passes, do aproveitamento do muito espaço que existe, etc.. Aborrecido é ver um jogo que só se joga ao pé das balizas, em que ninguém faz nada de extraordinário, para além de pôr a plateia ao rubro, com a eminência do golo. Os palermas não sabem o que é a excelência. Gostam de futebol porque lhes dá comichão, não porque reconheçam o que é excelente.

O contrário de um jogo aborrecido, para quem não é palerma, foi a primeira parte desta final. Os comentadores de serviço, como não podia deixar de ser, reproduzem ideias consoante a marcha do marcador. Como o resultado final foi uma vitória esmagadora dos espanhóis, acham que o jogo só teve um sentido, e que a Espanha foi muitíssimo superior. A verdade é que não foi. Aliás, a Itália, na primeira parte, voltou a mostrar de que modo se deve jogar contra esta Espanha, ou seja, com bola. Ao intervalo, já os comentadores diziam que a Espanha estava a ser superior. Diziam-no porque olhavam para o resultado, não porque estivesse, de facto, a ser. A Itália, na primeira parte, criou tantas ou mais oportunidades que os espanhóis, teve mais posse de bola (o que é um feito enormíssimo), mas acabou por ter o azar de encontrar uma equipa inspiradíssima, a quem as coisas foram correndo cada vez melhor. A primeira parte do jogo foi um exemplo daquilo que, na minha opinião, vai ser o futebol daqui a uns anos, um futebol jogado sobretudo no meio-campo, com uma percentagem de passes acertados muito boa, apesar da competência da pressão adversária, um futebol bastante rendilhado, com muitas combinações colectivas, passe e devolução constante, de um lado e do outro, com muitas tabelas, com as equipas a progredirem no terreno de forma apoiada, sustentando os seus ataques através de movimentações interiores, de aproveitamento de espaços entre as linhas defensivas adversárias. Não fossem as vicissitudes da segunda parte, e teria sido o melhor jogo do europeu (o primeiro jogo entre estas duas equipas já estava entre os três melhores), com duas equipas interessadas em ganhar, e sem medo nenhum uma da outra. Aliás, o comportamento da Itália, com bola, foi qualquer coisa de espantoso. Nunca caíram na tentação de jogar longo, procuraram sair sempre a jogar, apesar da excelente pressão espanhola, e a verdade é que foram compensados por essa estratégia conseguindo sair das zonas de pressão várias vezes, e conseguindo chegar à área espanhola em boas condições, e de maneira a criar boas situações de golo. No final, a Itália foi goleada, mas foi a equipa que mais problemas conseguiu criar à defesa espanhola (tanto num jogo como noutro, criaram várias oportunidades de golo). A primeira parte foi equilibradíssima, e a segunda equilibrada começou, com ambas as equipas a criarem oportunidades. Prandelli errou, quando tirou aquele que estava a ser o melhor em campo, Riccardo Montolivo (já havia errado, ao tirar Cassano ao intervalo), e acabou por ter azar, porque Thiago Motta, cinco minutos depois, se lesionou, o que fez com que a contenda terminasse. Mas, ainda assim, está de parabéns. Fatalmente, a Espanha é melhor. Num jogo em que falhou muito menos passes do que em jogos como o das meias-finais, e num jogo em que até teve muito menos espaço no centro do terreno, os seus jogadores acabaram por se mostrar muito inspirados. Quando se elogia tanto Portugal, por ter conseguido anular as ofensivas espanholas, devia-se reflectir um bocado. Portugal teve o mérito de não deixar a Espanha construir na primeira fase, onde eles não são fortes, como o é, por exemplo, o Barcelona, mas nem sequer impôs os mesmos constrangimentos no centro do terreno que os italianos. Simplesmente, as combinações entre os médios espanhóis, a movimentação entre linhas, o jogo sem bola das diferentes unidades espanholas, e as decisões de quem tinha a bola foram muito melhores. Ajudou a isso, entre outras coisas, o estado do relvado, muito melhor que o da meia-final, e o menor cansaço dos espanhóis. Por fim, a questão do avançado. Para os palermas, o golo de Fernando Torres fecha o debate sobre os avançados. Mas é preciso ser palerma para dizer tal coisa. Primeiro, porque foi o único golo espanhol, nesta final, que resultou de uma recuperação alta da equipa. Ou seja, o avançado concluiu um lance que não é típico desta selecção. Segundo, uma das principais razões para que a Espanha estivesse mais inspirada foi a inclusão de Fabregas no onze, em detrimento de Negredo. Aliás, a Espanha fez apenas dois jogos fracos, neste europeu, e em nenhum deles Fabregas foi a opção de ataque. Sempre que a Espanha jogou sem avançado, foi superior, criou mais oportunidades, e não deu quaisquer hipóteses ao adversário. Se provas ainda fossem precisas, o que esta final demonstrou (já que o empate do primeiro jogo tinha levantado essa dúvida) é que o estilo de jogo espanhol exige um avançado que não o seja. Para que este estilo seja eficaz, é preciso quem saiba aproximar, dar apoio vertical, jogar entre linhas, tabelar. Um médio habilidoso, por norma, sabe-o muito melhor do que um avançado de área. É por isso que esta Espanha funciona melhor sem avançados.

 Melhor Equipa, em 433:

Guarda-Redes: Buffon
Defesa Direito: Debuchy
Defesa Esquerdo: Philip Lahm
Defesas Centrais: Piqué e Hummels
Médio Defensivo: Andrea Pirlo
Médios Ofensivos: Luka Modric e Xavi
Extremos: Andrés Iniesta e Cristiano Ronaldo
Avançado: Cesc Fàbregas

Treinador: Cesare Prandelli

Suplentes:

Guarda-Redes: Iker Casillas
Defesa Direito: Arbeloa
Defesa Esquerdo: Jordi Alba
Defesas Centrais: Chiellini e Lescott
Médio Defensivo: Sergio Busquets
Médios Ofensivos: Marchisio e Montolivo
Extremos: David Silva e Mesut Özil
Avançado: Ibrahimovic

Treinador: Michal Bilek
  
Melhores Jogadores: 1º: Andrea Pirlo; 2º Andrés Iniesta; 3º Luka Modric

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Euro 2012 - Meias-Finais

Espanha - Portugal

Não consigo perceber a euforia com esta selecção, nem consigo perceber certas declarações acerca da prestação portuguesa neste europeu. Portugal chegou às meias-finais, e os portugueses devem sentir-se orgulhosos disso. Mas também não é mentira que chegou o mais longe que era possível, dada a qualidade do futebol que praticou. Ainda assim, há quem acredite que Portugal jogou melhor, neste campeonato, do que a Espanha, e há até quem tenha a lata de dizer, como o senhor "Penaié", no rescaldo da partida, que a Espanha teve sorte em levar o jogo para a decisão por grandes penalidades. Inacreditável! A única coisa que Portugal fez foi tentar aproveitar erros adversários, e, se isso, contra qualquer selecção, já é pouco, contra uma selecção que sabe como proteger-se o melhor possível desses erros não é quase nada. Apesar de tudo, e também porque os espanhóis não fizeram um bom jogo, os serviços mínimos portugueses permitiram que o jogo fosse mais equilibrado do que poderia ser. Acertou, desta vez, Paulo Bento, ao propor um pressing mais alto, sobretudo porque esta Espanha, não estando organizada como o Barcelona, tem muito mais dificuldades em construir na primeira zona do que na segunda ou na terceira. Tem isto a ver, sobretudo, com o facto de Casillas não ter a qualidade de passe de Valdés, de os laterais não abrirem tanto como o fazem os laterais catalães, e sobretudo com o facto de haver dois médios, e não um, a entrar no meio dos centrais. Aliás, Vicente del Bosque ainda não percebeu que, quer em termos de construção, quer em termos de organização defensiva, o seu duplo pivot é um equívoco enorme. Na primeira fase de construção, permitiu o encaixe dos médios portugueses; na segunda, tirou Xavi do jogo, pois, jogando à frente de dois médios, pega muito menos vezes na bola. Somando a isto a falta de rotinas dos laterais, que percebem mal, ou tarde, quando é que devem dar profundidade, e a opção inexplicável por Negredo, e a insistência ridícula em Jesus Navas, a Espanha acabou por estar colectivamente mal preparada para evitar a pressão portuguesa. O estado do relvado, a desconcentração no momento do passe, a má decisão de alguns jogadores, a agressividade lusa, e talvez o cansaço castelhano, completam o catálogo de justificações para um rendimento bem inferior ao esperado. No entanto, mesmo tendo feito um jogo fraco, a Espanha foi sempre muito superior a Portugal, cujos ataques resultaram invariavelmente (como sempre, desde que começou o euro, aliás) de recuperações em zonas altas. Com bola, Portugal nunca soube criar espaços, nunca soube potenciar as suas mais-valias ofensivas, e foi sempre pela agressividade defensiva, em zonas altas, que quis incomodar os espanhóis. O problema é que a Espanha constrói curto, mantendo a organização, e a perda de bola raramente implica momentos de desorganização que o adversário possa aproveitar. Portugal teve uma única oportunidade de golo, já sobre o minuto 90, num lance em que houve muita ingenuidade espanhola, pois facilmente se interromperia aquele contra-ataque com uma falta. Os espanhóis tiveram algumas, no decorrer da partida, tiveram espaço à entrada da área para rematar ou fazer o último passe, e, mesmo falhando mais do que é habitual, mesmo não tendo conseguido lances de perigo em quantidade e qualidade como costumam conseguir, tiveram sempre o controlo da partida. Sobre o prolongamento, nem vale a pena falar. A Espanha foi superior a todos os níveis, e teve ocasiões de sobra para evitar os penalties. Falar em falta de sorte, no final da partida, em bolas que batem no poste e saem, e em bolas que batem no poste e entram, depois de 120 minutos em que não se fez nada para se evitar o empate, além de morder calcanhares e transpirar um bocado, parece-me pouco sensato. Achar que a sorte protege os audazes, e que o cúmulo da audácia é pressionar os espanhóis o mais alto possível, é não perceber nada de audácia, nem perceber nada de futebol. Olhe-se para a Itália, e para a forma como os italianos, neste europeu, defrontaram selecções teoricamente superiores (Espanha e Alemanha), e talvez se perceba o que é a audácia. Aliás, dizer que Portugal foi a equipa que mais problemas causou à Espanha, depois do que a Itália fez no primeiro jogo da fase de grupos, é no mínimo absurdo.

Alemanha - Itália

Já não há palavras para descrever o que Andrea Pirlo anda a fazer na Polónia e na Ucrânia. No jogo de ontem, havia 21 jogadores em campo a lutar pela bola, e havia um que parecia intocável, que deslizava sobre o campo, que fintava como se estivesse a tourear TGV's. Pirlo jogava à parte. Os alemães bem o tentavam perturbar, mas parecia um fantasma, a passar entre eles, calmamente, como se não lhe pudessem tocar. Desde 2006, quando Zidane fez aquele mundial assombroso, em que parecia quase divino, que não via alguém jogar sistematicamente com tanta classe. O azar de Pirlo foi ter jogado em Itália numa altura em que o futebol italiano não estava tão forte como noutras eras. Não fosse isso, e teria estado sistematicamente entre os melhores do mundo, nos últimos anos. Ainda assim, e apesar dos dois golos de Balotelli, a UEFA decidiu que Pirlo foi o melhor em campo. Um sinal claro de que as exibições do médio italiano não passam despercebidas, mesmo para um organismo que, normalmente, premeia quem se distingue por marcar ou assistir quem marca. Tendo em conta que os troféus colectivos costumam ter importância na decisão do melhor jogador do ano, parece-me um claro sinal de que Pirlo, ganhando o europeu no próximo Domingo, passa a ser o principal candidato a melhor jogador do mundo de 2011/2012. E com toda a justiça, a meu ver. Aliás, é até engraçado que toda a comunicação social se refira a Cristiano Ronaldo como o melhor do mundo, quando ele não é, actualmente, o detentor do troféu, e quando, pelos critérios habituais da UEFA, Messi (melhor marcador europeu, 4 competições ganhas), Iniesta (4 competições ganhas e a possibilidade de se sagrar campeão europeu) e Pirlo (1 competição ganha e possibilidade de se sagrar campeão europeu) se encontram bem melhor posicionados para ganhar o próximo. Sobre o jogo, há também muitas coisas a dizer. Os elogios que tenho a fazer a esta Itália tenho-os feito desde o primeiro jogo do campeonato, o que é revelador. Ao contrário de muita gente, depois de vários jogos em que a Alemanha não entusiasmou como podia, não acreditava no favoritismo germânico. Quando vi que Müller não ia jogar, então, percebi que a Itália tinha todas as condições para chegar à final. Joachim Löw tem algumas coisas interessantes, como treinador. Mas falha noutras. A aposta em Schweinsteiger é inexplicável, por exemplo. E nem é por estar nitidamente abaixo dos níveis físicos ideais; é mesmo porque Toni Kroos é muitíssimo mais jogador do que ele. Depois, a insistência num modelo rígido (um 4231 que, noutras ocasiões, se transforma em 442 clássico), que o acompanha desde o início, não ajuda. Há pouca instabilidade posicional, a atacar, poucos movimentos entre linhas (normalmente, só as diagonais de Müller, e mesmo essas parece que foram castradas pelo treinador alemão, neste europeu), pouca dinâmica sem bola, e pouca imaginação. A Alemanha seria bem mais forte a jogar em 433, com Kroos ao lado de Ozil, como médios ofensivos, ou em 442 losango, com Khedira a médio defensivo, Schweinsteiger e Kroos como interiores, Müller como médio ofensivo, e Ozil solto na frente, ao lado de Gomez. A Alemanha possui uma geração de jogadores formidável, e estará inevitavelmente entre os favoritos, nas próximas competições, mas precisa de renovar as suas ideias colectivas, sob pena de continuar sem ganhar nada. Quanto à Itália, é o oposto. Trata-se de uma selecção envelhecida, que terá de se renovar nos próximos anos, mas que, colectivamente, é muitíssimo forte. A isso não é alheia a utilização do losango no meio-campo, tão vilipendiado em Portugal. No futebol actual, não consigo conceber equipas verdadeiramente competentes em todos os momentos do jogo que não joguem com três ou quatro médios. Prandelli é um treinador de vocação ofensiva, mas é também um treinador italiano. Sabe que, para atacar, como gosta, sem perder organização defensiva, precisa de fazê-lo com segurança. Para isso, há que povoar o meio-campo, sobretudo com jogadores habilidosos, organizar defensivamente a equipa para que tenha sempre o centro do terreno bem preenchido, e exigir uma construção curta, apoiada, paciente, com os jogadores sempre muito próximos, e com a largura a ser dada pelos laterais e, eventualmente, pelo avançado mais solto, e a profundidade pelo outro avançado. No final da partida, Prandelli fez questão de referir a importância do preenchimento do meio, e mostrou que sabe, como nenhum outro treinador neste europeu, que é no meio que está a virtude. A sua Itália sente-se confortável, como não podia deixar de ser, sem bola, mas sente-se igualmente confortável com ela. E isso é notável! Frente à Alemanha, foi muito superior. Na primeira parte, dividiu a posse, mas a bola, quando em poder dos italianos, percorreu sempre caminhos menos previsíveis do que aqueles que percorria quando em posse dos alemães. Os níveis de criatividade colectiva desta equipa fazem a diferença, e é nisso que se deve pensar quando se procurar justificar o seu percurso. Na segunda parte, a Itália concedeu um pouco mais a iniciativa aos germânicos, mas nunca caiu na tentação de sair em transição à toa. Quando recuperava a bola, fazia uso dela, geria a vantagem, cansava os alemães, jogava um bocadinho à rabia, e dava a sensação de que tudo estava controlado. E estava! Podia ter sentenciado o jogo a qualquer altura, e banalizou por completo uma das selecções mais fortes do torneio. Agora vem o segundo embate com a Espanha, na final merecida. Como não podia deixar de ser, comprovando que o que é normal é as equipas que jogam melhor chegarem mais longe, irão jogar a final as duas equipas que apresentaram o melhor e o mais atractivo futebol desta competição. Quem quer que vença agora, honrará a modalidade! E contribuirá, e muito (ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com o vencedor da Liga dos Campeões deste ano), para a evolução conceptual do jogo.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Euro 2012 - Quartos de Final

República Checa - Portugal

No final do jogo, ninguém contestava a vitória portuguesa, e o discurso era de que Portugal fizera mais uma excelente exibição. Muito sinceramente, não partilho de opiniões tão inflamadas. Não contesto a vitória, que acho que foi merecida pelo que a segunda parte deu, mas um jogo deve ser analisado ao pormenor, tendo em conta todos os momentos, e as razões pelas quais as coisas aconteceram. Antes da partida, tinha dito que, com Rosicky, a República Checa tinha uma palavra a dizer. No final da partida, fico com a sensação de que, com Rosicky em campo, Portugal viria do intervalo com um resultado negativo para virar. É que a primeira parte lusa foi fraquíssima. Os primeiros trinta minutos foram inteiramente dos checos, e só lhes faltou definirem melhor os lances no último terço do terreno. Não tiveram uma oportunidade de golo clara, mas tiveram vários lances em que, se entrasse o último passe, criavam uma situação de perigo. Portugal, por sua vez, nunca soube circular a bola, e acabou por ceder à tentação de solicitar os homens da frente com passes compridos. É verdade que, numa dessas situações, Ronaldo conseguiu atirar ao poste, mas muitas foram as bolas que se perderam desse jeito. Só nos últimos quinze minutos é que o jogo foi mais equilibrado, mas mais porque os checos perderam qualidade a trocar a bola do que propriamente por mérito português. Paulo Bento disse que só os vinte primeiros minutos é que foram maus, mas a verdade é que, aos 35, filmava-se o banco e os sinais de desespero eram evidentes. A segunda parte foi diferente, mas Portugal não melhorou significativamente na forma como circulava a bola. Foi mais atacante, e conseguiu ser superior, mas apenas porque passou a conseguir fazer uso da única arma colectiva em que é forte: a pressão. Com os checos mais desgastados, e sem qualidade individual para se medirem com os portugueses, a subida das linhas lusas, e a agressividade com que os portugueses pressionavam foi o suficiente para asfixiar o adversário. Quase todos os lances interessantes protagonizados por Portugal nasceram de recuperações de bola em zonas adiantadas, e do aproveitamento da desorganização defensiva dos checos nesse instante. O problema é que, agora, já não há equipas contra as quais a capacidade de pressionar chegue, e isso ficará evidente. Outra coisa interessante que deveria ajudar a reflectir os portugueses é o seguinte: sempre que Portugal, neste europeu, assumiu o jogo, as coisas correram bem; sempre que cedeu a iniciativa, por estratégia, ou por incapacidade, as coisas correram mal. Os primeiros oitenta minutos contra a Alemanha, o tempo entre o segundo golo português e o empate dinamarquês, os primeiros 15 minutos contra a Holanda, e a primeira parte contra a República Checa explicam-se muito mais pela postura portuguesa do que por qualquer outra coisa. Aliás, os resultados destes quartos de final são extraordinários para demonstrar aos tontos que acham que o futebol defensivo é o mais ganhador da História, e aos tontos que acham que defender com autocarros é uma estratégia tão eficaz como outra qualquer, que, por norma, ganha quem mais faz por isso. Portugal resolveu o jogo quando decidiu ser mais ofensivo; a Alemanha deu cabo da estratégia defensiva grega; a França teria certamente sido mais competente se não tivesse sido tão medrosa; e os italianos, ainda que só tenham ganho através das grandes penalidades, estiveram sempre mais perto de se apurar. Curioso é também verificar que 3 dos 4 finalistas deste europeu coincidem com aqueles em que apostei, logo no final da primeira ronda. Nada mau para quem costuma falhar nas previsões, segundo muita gente.

Alemanha - Grécia

A Alemanha tem sido a equipa mais consistente da prova, e finalmente deu uma demonstração de força inequívoca. Sem três atacantes titulares, num jogo que se esperava difícil de resolver, os alemães não tiveram grandes problemas. É verdade que o primeiro golo é o que custa mais, e que o remate de Philip Lahm tornou tudo mais fácil. Mas já antes os alemães tinham conseguido penetrar na defesa grega, e a verdade é que se sentia que a vantagem chegaria a qualquer momento. A qualidade das decisões desta equipa é uma coisa assombrosa, e só se pode compará-la à Espanha, nesse capítulo. No entanto, e esta é a minha crítica ao modelo alemão, os jogadores espalham-se pelo campo, e estão, muitas vezes, demasiado afastados uns dos outros, não permitindo combinações curtas com a facilidade com que se exigiria. Gosto da forma como a equipa circula a bola, e gere a posse da mesma, mas tenho algumas reservas quanto à capacidade da equipa para atrair marcações e desmontar defesas. Por outras palavras, o futebol alemão é cirúrgico, e bem jogado, mas carece de alguma criatividade. Quando Ozil entra em cena, tudo isso pode mudar. Mas a criatividade não devia estar a cargo do talento de um jogador, sobretudo quando a Alemanha tem jogadores tão inteligentes, que podiam, em conjunto, fazer do colectivo um colectivo criativo. Bastava, por exemplo, que o sistema não fosse tão rígido, que os alas viessem mais dentro, que um médio procurasse espaços entre linhas. O campeonato dos alemães começa, porém, agora. Itália e Espanha exigirão certamente bem mais do que quaisquer adversários que os alemães encontraram até agora. Quanto aos gregos, chegaram tão longe quanto podiam. Em 2004, não havia adversários altamente competentes como estes alemães, e tudo foi diferente. Desta vez, não foi assim, e Fernando Santos pode dar-se por contente por ter atingido o que atingiu.

Espanha - França

Talvez seja de mim, mas tenho dificuldades em perceber treinadores que modificam todas as ideias das suas equipas quando enfrentam adversários teoricamente mais fortes. Bilic já me tinha decepcionado, e agora foi Laurent Blanc. A França nunca foi prodigiosa, mas jogar em 451, com um lateral a médio, e deixar o único criativo no banco parece-me completamente descabido. Não ter levado Yohann Gourcuff a este europeu já era demasiado mau, mas prescindir de Nasri, só porque do outro lado estava uma equipa que, à partida, ia ter mais bola, é um absurdo. Os espanhóis agradeceram, e fizeram o que quiseram da partida. Desta vez, Vicente del Bosque deixou o avançado no banco, e optou por Fabregas. A exibição da equipa deve ser o suficiente para o convencer dos ganhos extraordinários que há em jogar com mais um jogador capaz de baixar, e de fornecer apoios aos colegas do meio-campo. O estilo de jogo espanhol não requer um avançado que aproveite constantemente os espaços nas costas da defesa. Requer, isso sim, um avançado que saiba baixar, dar apoios entre linhas, e que, por tais movimentos, permita que outros colegas lhe apareçam nas costas. Quando se joga assim, de forma tão apoiada e rendilhada, é importante que os jogadores não tenham a especificidade que Fernando Torres tem; é importante que haja permutas, que haja trocas posicionais, que os espaços sejam preenchidos pela dinâmica colectiva e não por um jogador em particular. A Espanha começou a ganhar o jogo, portanto, antes ainda de começar, com a opção acertada de Del Bosque, e as opções catastróficas de Laurent Blanc. O que aconteceu nos 90 minutos foi acima de tudo o corolário dessas decisões. Na primeira parte, a França praticamente só defendeu; e a Espanha jogou como devia ter jogado, pacientemente, à espera do momento certo para penetrar na defesa adversária. A segunda parte foi ligeiramente diferente, com os espanhóis mais interessados em gerir a vantagem com bola. A França foi mais audaz, mas nunca chegou a incomodar verdadeiramente. Teve o mérito, ainda assim, de fazer descer a percentagem de posse de bola, e mostrou que a melhor arma, contra esta Espanha, é tirar-lhes a bola, e não defender sem bola. 

Itália - Inglaterra 

Depois deste jogo, dificilmente mudarei a opinião acerca do melhor jogador da competição. Aos 34 anos, Andrea Pirlo está a fazer o seu melhor torneio, e entra definitivamente na História do Jogo. Esta Itália, aliás, é extraordinária para desmontar uma série de preconceitos acerca do jogo. Há uns anos, quando levou a sua Fiorentina a uma meia-final da Taça UEFA, considerei Prandelli um dos treinadores italianos mais interessantes, precisamente por ser diferente da grande maioria dos treinadores. Na altura, dispunha a sua equipa em 433, com dois médios ofensivos, e a equipa pretendia ter sistematicamente a bola. O futebol italiano estava, na altura, no final de um ciclo. Quase todos os treinadores faziam parte de uma escola antiga, que dera imensos resultados, mas que se tornara obsoleta, e quase todos eles mantinham as convicções antigas, permanecendo incapazes de se regenerar. Neste contexto, Cesare Prandelli aparecia como alguém com convicções distintas, e eu acreditava que era no modelo de alguém como ele que o futebol italiano se deveria apoiar. Alguns anos depois, Prandelli comanda a selecção italiana mais ofensiva dos últimos 30 anos, pelo menos, uma selecção que gosta de ter a bola, que se sente confortável a trocá-la pacientemente, que é capaz de jogar sem um único médio de vocação defensiva. Está talvez dado o mote para os próximos anos, e para a viragem táctica de que o futebol italiano precisava. Para já, merece todos os aplausos possíveis, pela coragem em quebrar com os costumes, pela firmeza das convicções. Espera-se agora que as suas ideias façam escola, que a Itália de sempre, muito boa tacticamente, passe a aliar à qualidade posicional uma vocação ofensiva mais consistente. Outro preconceito que esta equipa derruba é a necessidade de jogar com médios de competências defensivas. Em 442 losango (depois de um 442 clássico que se transformava num 4222 a atacar), Prandelli apresentou 4 jogadores que se destacam essencialmente pelo que constroem, pela qualidade de passe, pela capacidade para ter a bola; o resto consegue-se pelo posicionamento colectivo. Com Pirlo a médio defensivo, De Rossi e Marchisio como interiores, e Montolivo como médio mais ofensivo, a Itália está constantemente arrumada, e mantém em campo muitos jogadores capazes de inventar coisas com bola. Por fim, o penalty à Panenka de Pirlo. Fazer aquilo com a Itália em desvantagem, e fazê-lo com a impassividade com que o fez, só está ao alcance dos mais corajosos. O penalty é o corolário de uma exibição transcendente. Pirlo, sozinho, demonstra como é possível jogar 120 minutos sem fazer uma mudança de velocidade, como é possível driblar sem precisar de atributos físicos relevantes, como é possível mexer os cordelinhos de toda a equipa praticamente sem transpirar. Notável! Se alguém quiser saber o que é a classe, basta olhar para Pirlo em campo. Ainda acerca do penalty, disse o médio italiano o seguinte: «Vi que o guarda-redes lançava-se bem e pensei em marcar desta forma, era mais fácil fazendo cair o guarda-redes. Quis também colocar um pouco de pressão sobre os ingleses». Nunca percebi aqueles que criticam a opção de bater um penalty à Panenka, porque sempre achei que, num penalty, o objectivo principal é enganar o guarda-redes. Marcá-lo assim é apenas outra forma de marcá-lo, ainda que sugira um certo desleixo, e um certo gozo. As declarações de Pirlo mencionam ainda outro tipo de vantagem, algo que, de facto, é muito importante numa decisão por penalidades: o factor psicológico. Ao bater assim, com aquela frieza e aquela confiança, ainda por cima com a sua equipa em desvantagem, Pirlo demonstrou aos ingleses que, apesar de estarem em desvantagem, os italianos mantinham-se confiantes; aos seus terá fornecido uma certa motivação. Pode parecer insignificante, mas um só penalty pode servir para vencer uma partida, glorificar um jogador, e mudar a mentalidade de muito boa gente. Foi o caso.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Euro 2012 - 3ª Ronda

Grupo A

Terminada a fase de grupos, fica por terra a equipa que, para muitos, mais entusiasmou na primeira ronda. Como escrevi logo na altura, tinha muitas reservas quanto ao futebol dos russos. Gostava muito das unidades, agradava-me a organização da equipa, e a capacidade da mesma para sair em transição, mas tinha bastantes cautelas quanto à real capacidade da equipa para assumir o jogo. O segundo jogo contra a Polónia comprovou as minhas suspeitas, e a derrota frente à Grécia só as tornou mais claras para todos. Os números da Rússia, no primeiro jogo, que tanto entusiasmaram, deveram-se mais às facilidades que encontraram nesse jogo, especialmente em transição, do que propriamente à qualidade dos russos. Contra equipas mais fechadas, nunca souberam criar as dinâmicas certas para arranjar espaços. Contra a Grécia, então, foi deplorável. Para muitos, os gregos passam esta fase de grupo do mesmo modo que ganharam o Euro 2004. Eu não sou tão crítico. A Grécia fez um péssimo jogo contra a República Checa, mas contra a Rússia não foi inferior. Não invalida isto que não tenha tido sorte em adiantar-se no marcador, podendo assim gerir a vantagem. Teve, claro. Mas a segunda parte dos gregos foi inteligente, porque estavam em vantagem, e porque souberam como defender-se da principal arma russa, o contra-ataque. A mim, ainda que considerasse que a Rússia podia ter ido mais longe, não me surpreende a eliminação. No outro jogo, a Polónia começou como começara contra a Grécia. O problema é que as pessoas confundem qualidade com vontade de ganhar. Já contra a Grécia, os polacos tinham sido muito elogiados pelos seus vinte minutos iniciais. A verdade é que a equipa nunca apresentou muita qualidade, e as oportunidades criadas nesses primeiros vinte minutos, nesse e neste jogo, resultaram mais de uma intensidade altíssima (insustentável nos 90 minutos) do que propriamente de qualidade de jogo. Assim que os polacos começaram a perder gás, e os checos se acalmaram, a tendência do jogo virou. A partir dos 30 minutos, o jogo foi todo checo, com a equipa a trocar muito bem a bola, mesmo sem Rosicky. A República Checa vence o grupo, e vence bem, pois foi, de longe, a equipa mais interessante. Não tem muitas individualidades extraordinárias, mas tem um modelo de jogo que assenta na posse de bola, e a equipa é, colectivamente, muito competente a circular a bola e a arranjar os espaços de penetração certos. Com a capacidade de definição de Rosicky, caso esteja apto, não considero Portugal tão favorito como a grande maioria das pessoas considera.

Grupo B

Não tive a oportunidade de assistir ao jogo que opôs Alemanha a Dinamarca, pelo que me abstenho de falar do mesmo. Ainda assim, pelo que vi nos outros jogos, creio que os alemães são os justos vencedores deste grupo. No outro jogo, finalmente uma boa exibição de Portugal. É preciso, no entanto, perceber que, do outro lado esteve a equipa mais fraca, em termos colectivos, deste europeu, se excluirmos a Irlanda, e que o espaço que Portugal encontrou para jogar neste jogo, e que não encontrou noutros, se deve acima de tudo a isso. Deve-se a isso, e deve-se também ao facto de os portugueses, após recuperarem a bola, não quererem chegar imediatamente à baliza adversária, apenas com um ou dois passes. Nesse capítulo, acho que há mérito da equipa de Paulo Bento, que foi bem mais paciente e inteligente do que nos outros jogos. Também ajudou o facto de os holandeses terem marcado primeiro, condicionando a estratégia conservadora inicial. A perder, Portugal foi obrigado a assumir o jogo, e foi nessa altura que melhorou. Depois, com espaço entre os atacantes e os defesas holandeses, soube criar as condições certas para atacar a baliza holandesa, e venceu com toda a justiça. Embora já tenha sido referenciado no Lateral-Esquerdo, não queria deixar passar a oportunidade de falar no primeiro golo português. Os intervenientes foram João Pereira e Ronaldo, mas quem acha que Portugal chegaria ao golo com outro avançado em campo que não Hélder Postiga está enganado. Para mim, mais do que um jogo de individualidades, ou de soma de individualidades, o futebol é um jogo de relações, e quando se elogia um passe de alguém, esquece-se sempre de perceber que, sem a solicitação do colega, qualquer passe genial está condenado ao insucesso. Para dar um exemplo claro, quem acha que Xavi é o que é porque tem uma visão de jogo que mais ninguém possui, desengane-se. É óbvio que ele tem uma visão de jogo muito boa, mas não é essa a principal razão para que tenha tanto sucesso com os seus passes. Uma visão de jogo como a de Xavi muitos há que a tenham. O que acontece é que Xavi joga com vários colegas (no Barça ou na selecção espanhola) que lhe fazem a papinha toda, em termos de desmarcação. Quero com isto dizer que o passe de João Pereira, embora muito bom, só teve sucesso porque os colegas (e aqui, obviamente, não é só Ronaldo), ao movimentarem-se sem bola, criaram as condições certas para que tivesse sucesso. O movimento de aproximação de Postiga, complementado com o movimento de ruptura de Ronaldo, criou a linha de passe que, de outro modo, não existiria. É este conjunto de coisas que normalmente se negligencia, e é este tipo de soluções "invisíveis" que um avançado que se movimenta tão bem como Hélder Postiga oferece à equipa em que joga. Aliás, tendo Portugal talvez o extremo que melhores movimentos de ruptura, em diagonal, faz, o avançado ao lado de quem mais renderá será necessariamente um que faça movimentos de aproximação bem feitos, criando com isso os espaços nas suas costas em que tal extremo possa entrar. No Real Madrid, Ronaldo rende muito mais com Benzema do que com Higuain precisamente porque o francês faz este tipo de movimentos muito melhor do que o argentino. Nem que fosse pelas características de Ronaldo, Postiga era desde logo o homem certo para jogar nesta selecção.

Grupo C

Antes de mais, importa salientar que estão neste grupo 3 dos principais candidatos, na minha opinião, ao prémio de melhor jogador da competição. Falo de Andrés Iniesta, Andrea Pirlo, e Luka Modric. Assombrosa, a forma como Modric, praticamente sozinho, ia mandando a selecção espanhola para casa. A Croácia não fez, apesar de tudo, um grande jogo. Jogou 65 minutos atrás da linha da bola, e reservou o último terço da partida para tentar marcar um golo. Tendo a Itália, no outro jogo, marcado logo na primeira parte, é para mim incompreensível a falta de coragem de Bilic. Ainda por cima, tendo bastante qualidade individual ao seu dispor. A estratégia defensiva da Cróacia foi bem sucedida, mas sobretudo por demérito da Espanha, que fez um jogo muito fraco. Duas são as razões, a meu ver, para tal exibição: saber que o empate bastava, e Vicente del Bosque. O treinador espanhol quer jogar à Barcelona, mas não sabe o que é preciso para o fazer. Para mim, a utilização de um duplo-pivot é usualmente uma má opção. Mas numa equipa que joga curto, a passo, sempre organizada, faz especial confusão. Se gosta tanto de Xabi Alonso, tire Busquets; se quer mesmo o futebol do Barcelona, deixe o catalão sozinho, a fazer coberturas a uma dupla de médios ofensivos. Para jogar contra equipas que baixam o bloco, é absolutamente necessário que se invadam espaços centrais entre linhas, e o que Vicente del Bosque tem feito, ao utilizar um avançado exclusivamente interessado em movimentos de ruptura, e um duplo-pivot, é tirar sistematicamente dois jogadores desses espaços. Iniesta e Silva ainda vêm dentro, procurar esses espaços, mas é pouco para as exigências que duas linhas de quatro impõem. A Espanha seria campeã da Europa se jogasse em 433, com Busquets, Xavi e Iniesta no meio-campo, Silva, Pedro e Fabregas na frente. Assim, como está, não ponho as mãos no fogo. A equipa é incapaz de invadir os espaços entre linhas com a qualidade com que poderia fazê-lo, e é também incapaz de pressionar imediatamente a seguir à perda da bola. É um caso evidente de como o sistema táctico prejudica as dinâmicas. A outra chamada de atenção é para os laterais, que são incapazes de perceber que, vindo os extremos para dentro, a profundidade tem de ser dada por eles. Arbeloa não sabe isto, e não é capaz de dar isso à equipa. Jordi Alba tem vontade, mas tem muito que aprender. De referir, ainda, que a insistência em fazer saltar do banco um jogador como Navas, para se integrar num colectivo como este, é não perceber nada do assunto. E ainda não ter utilizado Fernando Llorente nem Mata é criminoso. Nota muito negativa para Vicente del Bosque, portanto. No outro jogo, pouca história. A Itália utilizou um sistema táctico diferente, e há uma particularidade interessante. Prandelli é um treinador com ideias ofensivas, e percebe a importância dos espaços centrais para a progressão com bola. Assim, a atacar, o 442 clássico da Itália desmonta-se, e Marchisio e Motta, os dois alas, vêm para dentro, formando um quadrado com Pirlo e De Rossi, e permitindo que sejam os laterais a dar largura. Ganha com isto, a Itália, gente no meio. Mas parece-me que haver uma diferença tão grande na relação entre jogadores entre a fase defensiva e a fase ofensiva implica uma certa desorganização no momento da perda da bola. Um caso a rever, no jogo contra a Inglaterra, caso Prandelli não regresse ao modelo anterior.

Grupo D

Era o grupo mais fraco dos quatro, em termos de qualidade colectiva das equipas, e isso acabou por se reflectir na fraca qualidade dos jogos. Do jogo em que a Suécia bateu a França, pude ver apenas o resumo. O golo de Ibrahimovic é fenomenal (pelo gesto técnico, e pela própria jogada, que é bem construída), e os suecos acabam por ir para casa de cabeça erguida! Quanto à França, mais uma vez, não surpreende. Os franceses não têm apresentado consistência nem qualidade suficiente para que mereçam o rótulo de favoritos. Quanto à Inglaterra, venceu o grupo, mas não fez uma única exibição digna de nota. Não sei até onde esta mediania dos ingleses os pode levar. Para já, segue-se a Itália, num jogo em relação ao qual não sei bem o que esperar. Dependerá muito, parece-me, do que Prandelli quiser fazer. Quanto à Ucrânia, sai do Euro algo ingloriamente. Os ucranianos não eram, enquanto equipa, extraordinários, mas não foram muito inferiores aos franceses, e nada inferiores aos ingleses. Individualmente, gostei bastante de Iarmolenko. Konoplianka, o outro extremo, é um jogador de drible fácil, mas nem sempre toma boas decisões. Iarmolenko, esse sim, vale a pena seguir com atenção. Outro ponto de interesse no jogo foi a inclusão de Milevsky no onze. Brilhante, como sempre, ainda que discreto, passou ao lado dos holofotes da partida, para os comentadores. José Peseiro, aliás, insistiu durante quase toda a segunda parte que era o jogador mais apagado, que devia ser substituído, etc.. E nem sequer o mencionou no lance do golo mal anulado aos ucranianos, ainda que tivesse sido ele a isolar, de um modo praticamente impossível, o colega. O caso dos pontas-de-lança, neste Euro, é até muitíssimo interessante de analisar. Mais do que demonstrar o que quer que seja acerca de pontas-de-lança, demonstra de que modo analisa o desempenho de um ponta-de-lança aquele que vê um jogo. É que não foi por acaso que se elogiaram desmedidamente avançados como Lewandowsky, Kerzhakov, e Mandzukic, e que se criticaram sistematicamente jogadores como Samaras, Postiga, e Milevsky. Acontece que os primeiros são mais vistosos, destacam-se porque rematam muito à baliza, porque se embrulham muito com os defesas, porque têm tendência para querer resolver os problemas da equipa sozinhos. Os segundos não são assim. As competências que possuem são competências mais colectivas: a movimentação sem bola, a capacidade para tabelar, a tomada de decisão, a capacidade para segurar a bola, a qualidade entre linhas. Não são jogadores que se destaquem por si, mas que percebem o que é o jogo, em todos os momentos, e aquilo que o jogo exige deles. São discretos porque percebem a inutilidade de ir ao choque em todas as bolas, a inutilidade de correr feitos parvos para tudo o que é sítio, e a inutilidade de querer resolver a partida, qualquer que seja a situação em que se encontram. A maioria das pessoas, porém, vê futebol como se habituou a vê-lo. Vê-o como um conjunto de acções isoladas, e tende, por isso, a prestar atenção a muito poucas coisas, e apenas àquelas que, por norma, aparecem nos resumos dos jogos. Vêem, por isso, muito mal. E não vêem, na maioria dos casos, o que é mais importante.

sábado, 16 de junho de 2012

Euro 2012 - 2ª Ronda

Grupo A

Confirmaram-se as impressões da primeira ronda, com a Rússia a ter muito maiores dificuldades contra uma equipa que jogou quase sempre atrás da linha da bola, e com a República Checa a mostrar credenciais. Jogo horripilante da Grécia de Fernando Santos. Se, no primeiro desafio, os gregos ainda tinham mostrado algumas ideias, neste segundo jogo, a colocação de Samaras no eixo do ataque abriu espaço para uma constante e pouco criteriosa solicitição do avançado. Já a República Checa fez uma primeira parte extraordinária, do melhor que já se viu neste europeu. A pouca qualidade individual dos checos atraiçoá-los-á, como já os atraiçoara na primeira partida, mas tirando a Espanha, que é de outro campeonato, os checos são talvez aqueles que praticam o melhor futebol deste torneio. Combinações ofensivas excelentes, trocas curtas e rápidas da bola, muitíssimo bem Milan Baros nos movimentos de apoio e na forma como se relaciona com os colegas. Na segunda parte, mais desgastados e sem Rosicky, os checos confiaram na vantagem que tinham e não procuraram com a mesma insistência e qualidade a baliza adversária, mas a primeira parte foi de luxo. No outro jogo, os polacos puseram a nu as debilidades que me parecia haver na selecção russa. Kerzhakov tem movimentações de ruptura excelentes, mas já se percebeu que só sabe procurar a profundidade. Sem critério, sem capacidade para modificar o seu comportamento, o avançado russo torna-se previsível. E não ajuda a que a Rússia consiga ter maior qualidade em posse. Arshavin e, principalmente, Dzagoev, não conseguiram invadir os espaços interiores tão bem como o tinham feito no primeiro jogo, e disso se ressentiu também a selecção russa. Na verdade, não o conseguiram porque a Rússia não soube criar os espaços para que eles conseguissem invadi-los, e foi essa a crítica que lhes fiz no primeiro jogo. É que, em transição, e com equipas que se posicionam mal no momento da perda da bola, é fácil invadir esses espaços. Em organização é que é complicado. E os russos, ainda que bem organizados, uma vez mais, mostraram pouca imaginação para criar esses espaços. Ou seja, com bola, a Rússia nunca conseguiu fazer o que me parece mais importante uma equipa fazer com bola: atrair o adversário para certas zonas de modo a desimpedir outras, provocar zonas de pressão ilusórias para abrir buracos em zonas preferenciais. Sem essa capacidade, a Rússia só conseguiu acercar-se da baliza adversária em ataques rápidos, em solicitações compridas, e em erros do adversário. Mandou mais no jogo do que na primeira partida, mas acabou por ser incapaz de controlar a partida frente a um adversário tão débil como a Polónia. Quanto aos polacos, não são, individualmente, tão fracos como noutras alturas. Os três jogadores do Dortmund e Obraniak têm qualidade, e conseguem incomodar os adversários. Mas colectivamente a equipa não é extraordinária. Até podem conseguir vencer os checos, nem que seja pela motivação extra, até agora bastante relevante, de jogarem em casa, mas a minha previsão é a de que acabem eliminados.

Grupo B

Portugal venceu a Dinamarca, mas não convenceu. Não convenceu não porque não tivesse merecido (apesar de tudo, acho que a vitória é justa), mas porque não soube, sobretudo estando a vencer por dois golos, controlar a partida. Os dinamarqueses voltaram a mostrar muita qualidade com bola, e muita paciência na gestão da partida. Mesmo a perder por dois golos, não procuraram o que seria mais fácil, que era um futebol mais directo, a impor o físico. Tentaram atrair a pressão portuguesa para onde lhes convinha, normalmente o flanco esquerdo, e saíram muitas vezes dessa zona a solicitar o flanco contrário, com o lateral direito a aparecer para cruzar. Muito sinceramente, não consigo aceitar nem as críticas a Ronaldo, cujo posicionamento aberto e profundo foi claramente estratégico, nem as críticas a Fábio Coentrão ou a Miguel Veloso. Há mérito dinamarquês na forma como conseguiram criar sistematicamente espaço no lado direito, e, a haver demérito português, há-o colectivamente. Depois, estrategicamente, Portugal não fez um bom jogo. A Dinamarca gere bem a posse de bola, e controla bem o ritmo de jogo. É uma selecção que privilegia os momentos de organização, e o recuo estratégico dos portugueses só os beneficiou. A intenção era surpreender o adversário numa transição, eu sei, mas nem isso foi bem pensado. A Dinamarca ataca de forma cautelosa e muito bem organizada. Este tipo de predilecção faz com que percam muito menos vezes a bola, o que faz com que se sujeitem muito menos vezes a transições, e faz com que não sejam frágeis ao perder a bola. Era com bola que Portugal deveria ter jogado. Se a circulasse, obrigaria os dinamarqueses a pressionar mais alto e a momentos de maior desorganização. Não o fazendo, sujeitou-se àquilo em que eles são melhores, e o empate chegou muito naturalmente. Um golpe de sorte salvou Portugal, não obstante o facto de a partida poder ter sido sentenciada muito antes, mas a verdade é que Paulo Bento e os seus pupilos puseram-se a jeito. Tornou-se consensual de que, a ganhar, uma equipa faz bem em permanecer recuada e em apostar nos momentos de transição. Mas isso é estúpido, principalmente contra selecções que estão preparadas para isso. Enquanto Portugal quis mandar no jogo, foi superior e marcou dois golos. A partir do momento em que abdicou da iniciativa, perdeu o controlo da partida. Nota de destaque, ainda, para Cristiano Ronaldo e Hélder Postiga. Não sei se é legítimo que uma nação que assobia um jogador festeje um golo marcado por ele, nem sei se é legítimo que um país que mima tanto um jogador o assobie por falhar dois golos. A maioria dos que têm opiniões fortes sobre estes dois deviam ter ficado indiferentes às duas situações. Era, pelo menos, a única reacção coerente. Mas este é talvez um bom jogo para que se perceba que os patinhos feios talvez não sejam tão feios como os pintam, e que os super-hérois talvez não sejam tão heróicos como também muitas vezes os consideram. A verdade é que o melhor do mundo e arredores pecou onde - dizem os sábios e os adivinhos - o outro costuma pecar. Foi uma boa demonstração de como as certezas das pessoas estão tão certas como as previsões de um bruxo. E, tal como não acho que Postiga é o perdulário que dizem ser, além de merecer ser avaliado por outras coisas, acho a crucifixação de Ronaldo, apenas por ter feito um mau jogo, um absoluto disparate. Ronaldo marca muitos golos porque é fortíssimo a aparecer em zonas de finalização, não por ter uma especial aptidão para marcá-los. E nisso, Ronaldo foi o que costuma ser: as desmarcações foram perfeitas; o que falhou foi o momento de finalização. Mas esse momento é um pormenor que depende de muitas coisas, e é até absolutamente falso que Ronaldo seja exímio nesse momento. Quanto ao jogo que opôs a Holanda à Alemanha, não tenho muito para dizer. A Holanda - e o seu treinador - é uma equipa tão fraca (enquanto colectivo) que chega a aleijar. Aquilo são onze individualidades, cada uma com capacidades extraordinárias, que não conseguem relacionar-se entre si. Se o futebol fosse uma corrida de estafetas, a Holanda era das melhores equipas do torneio. Como não é, é das piores. Do outro lado, a Alemanha parece nem se ter esforçado muito. Sempre muito organizada, quer a defender, quer a atacar, parece ter jogado apenas quanto bastava. Aliás, acho que a Alemanha ainda não mostrou, porque ainda não foi obrigada a isso, toda a sua competência. Talvez o faça contra a Dinamarca, que, dos três adversários do grupo, é.a equipa colectivamente mais interessante.

Grupo C

 A primeira pergunta é: quem é o Iovinco? Luís Freitas Lobo conhece muitos jogadores, eu sei, mas na Itália não joga nenhum Iovinco, tanto quanto eu saiba. Joga um Giovinco, que até devia jogar de início, mas não deve ser o mesmo, porque Freitas Lobo também disse que o rapaz tinha menos de 1,60m. Disparates à parte, como antevi, a Itália teve mais dificuldades em impor-se contra um adversário mais fraco. Prandelli manteve a estrutura, e gosto bastante da forma como os italianos constroem o início das suas jogadas, sem pressa nenhuma. O problema está, acima de tudo, na ligação do meio-campo com o ataque. Thiago Motta tem movimentos verticais interessantes, mas não é um jogador que saiba o que fazer à bola quando o jogo exige maior criatividade. Montolivo, sim, sabe-o, e devia ser nele que Prandelli devia apostar. A Itália, também pelo próprio sistema táctico, coloca poucos jogadores entre linhas, e precisava de que os médios, Marchisio e Thiago Motta (ou Montolivo), e um dos avançados, Cassano (para mim, Giovinco), jogassem mais sem bola, procurando espaços de recepção em zonas interiores. A verdade é que a Itália parece conseguir criar espaços na profundidade e pelos flancos, mas não os consegue criar pelo meio, e isso é problemático. À margem de tudo isto, enorme o europeu de Andrea Pirlo, até agora. É o melhor, na posição de médio-defensivo, desde Fernando Redondo. Quanto à Espanha, foi o que se esperava. A Irlanda é demasiado fraca para estas andanças, e levou 4 como podia ter levado 10. Shay Given foi o melhor em campo, do lado dos irlandeses. Um adversário tão fraco, ao nível do posicionamento colectivo, e ao nível da decisão com bola, até deve ser aborrecido, para os espanhóis. Jogo sem grande história, com Vicente del Bosque a fazer a vontade aos críticos, abandonando a ideia de jogar sem um jogador com características de avançado. Não é necessariamente mau, mas mostra poucas convicções. Se estivesse convicto de que, pelo modo como estes jogadores jogam, era mais importante ter 3 atacantes que privilegiam movimentos de aproximação e não de ruptura, devia ter continuado a apostar em Fabregas. O que revela o treinador espanhol é que não está certo de saber o que é este tipo de jogo. Fernando Torres, enquanto avançado, oferece à Espanha certos movimentos que Fabregas não oferecia, sim, mas faz com que esses movimentos de ruptura, que antes eram quase aleatórios, podendo surgir na pessoa de Fabregas, de Iniesta, de Silva, ou de Xavi, sejam agora quase que exclusivamente protagonizados pelo avançado do Chelsea. Com avançado, a Espanha até pode criar mais situações de golo, mas é menos imprevisível e, sobretudo, não cria tão boas situações de golo.

Grupo D

Mais dois jogos fracos, neste grupo, com os principais candidatos a mostrarem-se incapazes de encantar. Vale à França e à Inglaterra a terrível ingenuidade quer dos ucranianos, quer dos suecos. Rooney até pode começar o Euro a partir de agora, mas a verdade é que a equipa inglesa precisava de muito mais do que alguém como ele. Estão em boa posição para seguir em frente, bastando-lhe o empate contra a Ucrânia, mas ainda não vi uma única jogada interessante protagonizada pela equipa inglesa. Contra a Suécia, nem sequer soube manter a vantagem inicialmente adquirida. Quanto aos suecos, contar apenas com Ibrahimovic é pouco, muito pouco. É pena que ele, um dos melhores avançados, se calhar de todos os tempos, não tenha a possibilidade de representar uma selecção mais competitiva. Quanto à França, Laurent Blanc modificou o sistema táctico, passando a actuar apenas com dois médios. Em termos práticos, porém, o 4231 não foi excepcionalmente diferente. Os franceses continuaram pouco ligados, com Ribery a querer resolver tudo sozinho. Um apontamento para Benzema, que é um avançado fenomenal. No Real Madrid, não sendo a figura máxima da equipa, tem tendência a procurar combinações com os restantes companheiros de ataque. Na selecção, contudo, fá-lo bem menos. Talvez por se sentir mais influente, talvez por lhe ser pedido que seja mais individualista, Benzema remata de tudo o que é sítio, procura ser ele a criar e a concluir, e é muito menos jogador. A França não deslumbrou, e houve até momentos no jogo em que deu a sensação de que eram os ucranianos quem estavam mais perto de inaugurar o marcador. Depois, quase caídos do céu, a França marcou dois golos e resolveu a partida. Acontece muitas vezes, e continuará a acontecer. O primeiro adversário a sério da França aparecerá ao quarto jogo, seja ele a Espanha, a Itália, ou a Croácia, e aí se verá a que pode verdadeiramente aspirar esta equipa.   

terça-feira, 12 de junho de 2012

Euro 2012 - 1ª Ronda

Grupo A

Polónia e Grécia deram o pontapé de saída deste campeonato. Num jogo esquisito, em que os gregos defenderam mal os flancos, com a equipa a bascular horizontalmente muito mal, foram os movimentos do flanco direito polaco que começaram por criar dificuldades. À excepção destes movimentos, com Piszczek e Kuba em claro destaque, a Polónia foi uma equipa pouco interessante. Aliás, tirando as combinações pela direita, muito facilitadas pela forma deficiente como o meio-campo grego defendeu, pouco se viu. Quanto à Grécia, pouco também para dizer. Ao contrário de muita gente, para quem Samaras fez um mau jogo (o comentador de serviço, aliás, disse que estava a fazer um jogador horrível), acho que o avançado grego foi o melhor em campo. Tem isto a ver não apenas com um modo diferente de ver o jogo, mas sobretudo com o facto de valorizar todas as acções em campo de igual modo. Para aqueles que acham que Samaras esteve muito mal, só os lances vistosos é que importam. Como atirou duas bolas para as nuvens e chutou no chão num lance em que quis variar o flanco, acham que esteve especialmente desastrado. Acontece que, à excepção desses lances, Samaras esteve incrivelmente bem. Foi muitas vezes solicitado com pontapés longos, e deu quase sempre bom seguimento ao lance. Por vezes, mesmo rodeado por três adversários, recebia no peito, punha no chão, aguentava os adversários, esperava pelo apoio, e deixava a bola jogável. Um avançado também é isto. E, quando um avançado consegue isto tantas vezes, é preciso reconhecer-lhe mérito. Samaras foi a principal figura dos gregos porque foi o que permitiu aos gregos, muitas vezes, chegar à frente em ataque combinado. Depois, a procurar os espaços certos entre os defesas e os médios polacos também esteve acima da média. Incompreensível que não se lhe tenham percebido as qualidades. A República Checa acabou cilindrada pela Rússia, mas não partilho da euforia geral acerca dos russos. É verdade que a equipa tem qualidade individual de sobra, e deverá ser levada muito a sério, por isso. Mas, em termos colectivos propriamente ditos, esta selecção está a milhas daquela que, há quatros anos, Guus Hiddink comandava. A República Checa, aliás, teve uma postura bem mais interessante. Defendeu mal, e desleixadamente, é certo, mas trocou bem melhor a bola. Os russos concederam sempre a iniciativa ao adversário, e raramente fizeram outra coisa do que sair em contra-ataque. Apresentaram qualidade neste momento do jogo, é certo, mas beneficiaram quase sempre do mau posicionamento checo. Colectivamente, a única coisa que me pareceu verdadeiramente interessante na equipa russa foi a movimentação  dos extremos, Arshavin e Dzagoev, percorrendo o espaço entre linhas com muita qualidade, e a movimentação de Kerzhakov. Quando não se apressaram, e trocaram a bola verticalmente, pelo chão, com passes curtos, os russos conseguiram apresentar argumentos colectivos relevantes. Mas esse pareceu sempre um plano alternativo. Contra equipas melhor preparadas para a perda de bola, terão de utilizá-lo mais recorrentemente, se quiserem manter a bitola.

Grupo B

Começou com a surpreendente derrota da Holanda frente à Dinamarca. Pelo que os holandeses fizeram no último mundial, no entanto, não deveria ser surpresa para ninguém. Para já, devo dizer que a Holanda é a equipa mais fraca, em termos estritamente colectivos, em prova. Em contrapartida, tem qualidade individual que nunca mais acaba. Depois de um começo em que os dinamarqueses concederam a iniciativa aos holandeses, depressa se percebeu que ter seis jogadores só para defender e quatro só para atacar criaria buracos fáceis de aproveitar. Acalmando-se, a Dinamarca começou a trocar a bola com tranquilidade, fazendo os holandeses correr atrás dela. Sem grandes pressas, nem correrias à parva, os dinamarqueses levavam a bola para o flanco e voltavam a trazê-la para o meio, sem que os holandeses a conseguissem roubar, e começaram a controlar o jogo. Ao intervalo, já a Dinamarca ia dando um banho à Holanda. A segunda parte arrancou com a Holanda disposta de modo diferente, com Afellay a vir mais dentro, e Sneijder a aparecer mais descaído para o flanco esquerdo, e, fruto unicamente da qualidade individual dos holandeses, criaram situações suficientes para empatar, e talvez até para ganhar. Mas nunca souberam controlar o jogo. A Dinamarca, sendo muitas vezes incapaz de suster o ímpeto holandês (principalmente por haver uma diferença na valia individual brutal), nunca perdeu a compostura. Saiu sempre tranquilamente, sem grande vontade de explorar a velocidade, privilegiando a manutenção da bola, e acabou por vencer muito justamente. A Holanda só ameaçou individualmente, quer fosse pelos rasgos de Robben ou Van Persie, quer fosse pelos passes teleguiados de Sneijder. Um apontamento, ainda, acerca do organizador holandês. Não é de agora, mas este jogo foi sintomático disso, e vale a pena falar no assunto. Nos últimos anos, Sneijder perdeu qualidades a nível da decisão. Sobretudo na segunda parte do desafio, com a Holanda pressionada para obter o empate, não faltaram elogios a Sneijder. No entanto, acho que as suas opções raramente ajudaram a equipa. É verdade que conseguiu colocar duas vezes o avançado na cara do guarda-redes, mas ofereceu diversas bolas à defesa dinamarquesa. O que critico em Sneijder é o que critico em alguns médios cuja melhor característica é a qualidade de passe. Sem critério na decisão, estivesse junto à área dinamarquesa, estivesse a meio-campo, Sneijder flectia para dentro e procurava sistematicamente o último passe. Houve raras excepções, mas que apenas confirmaram a regra. Tal decisão resultou as primeiras vezes, mas facilmente se tornou previsível. E cada bola que chegava à esquerda passava a ser um ataque inofensivo. Os elogios de que foi alvo ignoraram, portanto, o erro de decisão que esteve na base das acções elogiadas, e não consigo perceber como se ignora tal coisa. Sneijder, como Robben, de outra forma, quis resolver sistematicamente o jogo sozinho. E isso raramente é bom. Van der Vaart entrou para oferecer apoios horizontais pela esquerda, e praticamente nem tocou na bola. No outro jogo, pouco a dizer. Portugal só se pode queixar de si mesmo. É verdade que podia, e até talvez merecesse, empatar o jogo no final, mas passou demasiado tempo à espera de um erro alemão. É sabido que não gosto particularmente de equipas que jogam os 90 minutos no erro do adversário, e foi isso que Portugal fez. Não o fez sempre tão baixo como em alguns momentos do jogo, mas apostou essencialmente na capacidade de pressing e nas transições. Não quis nunca ter a bola durante demasiado tempo, e teve sempre medo de se expor. Se a Holanda ainda atacou com quatro jogadores, Portugal nunca usou mais do que os três da frente. A Alemanha também não fez um jogo excepcional, mas teve o mérito de ter procurado, pelo menos durante mais tempo, a sorte que acabou por ter. Resultados justos, neste grupo, e um nome a reter: Hummels.

Grupo C

Excelente novidade, o comportamento italiano frente à Espanha. Quando todos previam, até pelos três defesas centrais com que se apresentavam, que a Itália fosse defender os 90 minutos, e apostar na velocidade, eis que apareceram Pirlo e companhia a mostrar que os últimos trinta anos de futebol transalpino deviam começar a ser esquecidos. A Espanha foi melhor, como era de esperar, e até merecia ter ganho, pelo caudal ofensivo apresentado, mas a Itália deu a melhor réplica que poderia ter dado. Percebeu que a melhor forma de controlar o jogo espanhol não é defender com autocarros, mas ficando com a bola, circulando-a, fazendo os espanhóis provar um pouco do seu próprio veneno, e acabou por conseguir atacar com qualidade e não apenas através das acções de dois ou três jogadores. Calma, circulação de bola, e segurança no passe, foi tudo aquilo de que precisaram. Muito bem Cassano, a segurar e a esperar pelos apoios. Muito bem também Marchisio, e excelente Andrea Pirlo. Não sei se a Itália terá capacidade para dominar adversários mais fracos, mas contra um adversário mais forte provaram competência. Quanto à Espanha, apesar do empate, continua a ser a melhor equipa em prova. Mourinho disse que, sem avançado, a equipa foi inofensiva. A Espanha teve alguns problemas, mas nenhum que tenha a ver com a ausência de um avançado, ou com o que quer que Mourinho ache que significa ser inofensivo. Durante a primeira parte, a opinião geral foi de que a Itália teve as melhores oportunidades, o que é falso. Ter obrigado Casillas a mais defesas apertadas do que a Espanha obrigou Buffon não significa ter mais oportunidades. Os espanhóis apareceram em posição de finalização vezes sem conta, mesmo na primeira parte, e inúmeras foram as vezes que os remates já dentro da área embateram em italianos ou foram cortados in extremis. E ser capaz de, tantas e tantas vezes, conseguir invadir os espaços entre a linha defensiva e a linha de meio-campo do adversário é também uma forma de criar algum perigo, pois a partir daí um único passe pode isolar um colega. Os espanhóis jogaram bem, foram superiores, e mereciam ter ganho, não obstante o bom jogo italiano. Dizer que foram inofensivos só se entende se ainda houver alguma azia relativamente ao tipo de futebol catalão que tantas insónias lhe causou. O verdadeiro problema da Espanha chamou-se Xabi Alonso. Ou a necessidade que Del Bosque viu em utilizá-lo. É que o jogador do Real Madrid não é deste filme, e não compreende bem o que há a fazer na grande maioria das situações. Não raras vezes, esticava o jogo quando se pedia calma; outras, simplesmente, parecia não perceber o que os colegas queriam dele. Del Bosque acha que ele tem de jogar, e então o meio-campo espanhol é uma confusão. Mesmo a defender, Xabi Alonso nunca soube cobrir Busquets, como este o cobria a ele, e a Espanha esteve desorganizada quando tentava recuperar a bola. Não era mais fácil, se a ideia é replicar o que o Barcelona faz, usar precisamente o modelo catalão, com Busquets, Xavi, e Fabregas, e soltar Iniesta, Silva e outro jogador na frente? Para quê inventar? De resto, nota negativa também para Arbeloa no lance do golo italiano, estando encostado a Cassano e permitindo o aproveitamento da profundidade entre ele e Piqué. Nota muito positiva, por outro lado, para Andrés Iniesta. Que jogo monstruoso! Alguém tem dúvidas de quem é o melhor da Europa? Eu não tenho. No outro jogo do grupo, a Irlanda é demasiado britânica para estar neste campeonato. Quando se junta a algo que está obsoleto há 40 anos um treinador cujas ideias estão obsoletas há 20, só se poderia esperar um futebol completamente obsoleto. Eis a Irlanda, a pior equipa em prova. As únicas armas que têm são a agressividade e os lances de bola parada. A Croácia, em 4132, apresentou-se sólida, e com alguma criatividade. No entanto, o jogo tornou-se demasiado fácil para que se possam tirar grandes ilações. É preciso ver o que faz contra adversários mais poderosos.

Grupo D

Dois jogos fracos. França e Inglaterra não têm argumentos, nem individuais, nem colectivos, para ombrearem com as melhores selecções da competição. A selecção francesa mandou no jogo, mas sempre de forma muito atabalhoada. É também curioso que Mourinho não tenha feito a mesma crítica aos franceses que fez aos espanhóis. É que a França também jogou sem avançado. E, neste caso, o jogador que jogou mais adiantado, Benzema, até é seu jogador. O avançado gaulês procurou sistematicamente movimentos interiores e de aproximação, e raramente sugeriu a solicitação em profundidade. Ribery não sabe o que é uma decisão, e Nasri é pouco para inventar lances de perigo. Há demasiado músculo a meio-campo, e pouca inteligência para contornar problemas bicudos. Quanto à Inglaterra, é provavelmente a pior selecção inglesa de que tenho memória. É verdade que faltam Rooney, Wilshere e Lampard, principalmente, mas a quantidade de jogadores absolutamente banais entre os titulares ingleses é indescritível. Tirando os dois centrais e os dois médios-centro, alguns deles praticamente em final de carreira, a equipa inglesa ou tem jovens promessas ou tem jogadores de baixíssima categoria. Welbeck? Milner? Glen Johnsson? Francamente. Juntando a isto o deserto de ideias colectivas que é esta equipa, só esperando um milagre como o do Chelsea este ano. Quanto ao outro jogo, duas equipas muito parecidas, em termos de desenho táctico, mas com intenções diferentes. Os ucranianos procuraram, desde o apito inicial, a baliza adversária, e sobretudo por isso mereceram a vitória. Só depois de se encontrar a perder é que a Suécia quis mandar no jogo (e até conseguiu duas ou três boas oportunidades) e não merecia, por isso, que a sorte lhe sorrisse. Tacticamente, são duas equipas muito pouco interessantes, e não creio que valha a pena perder muito tempo a falar delas.

Após a primeira ronda, mantenho a opinião, pouco convicta na altura, de que as principais candidatas à vitória final são a Espanha e a Alemanha. Modifica-se, sobretudo, o lote de segundas equipas, com a Itália e a Rússia a serem as minhas apostas. É evidente que o torneio se decide a eliminar, e que uma equipa fora destas quatro pode conseguir surpreender. Dependerá, por isso, também do que acontecer nesta fase de grupos. Dinamarca, Portugal, Holanda e França, principalmente, poderão, portanto, ter uma palavra a dizer. Os dinamarqueses pela sobriedade colectiva com que apareceram na prova; as restantes por terem categoria individual com que compensar as deficiências colectivas. Veremos o que se segue. 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Certezas (26)

É talvez uma boa altura, agora que começa o Euro 2012, mencionar um atleta que não vai estar na grande montra europeia da Polónia e da Ucrânia. Ainda assim, este parece ser o seu Verão, e dificilmente começará o próximo campeonato a defender o mesmo clube. Trata-se de um defesa central de qualidades muitíssimo interessantes, e que me parece ter tudo à sua frente para ser um dos melhores no seu posto, assim o queira o destino. Para além de ter algumas das características mais apreciadas num defesa (altura, velocidade, bom jogo aéreo, excelente capacidade de desarme), tem outras a que, normalmente, dou mais valor. A sua capacidade de passe é invejável, e a sua técnica, para um defesa, fora do comum. Alia um bom sentido posicional a uma tranquilidade impressionante, e parece estar sempre no sítio certo à hora certa. Não é agressivo, e isso talvez o possa prejudicar ligeiramente (sobretudo confirmando-se a ida para Inglaterra, que parece ser o cenário mais provável). Mas nem tem que o ser. Lê os lances como ninguém, antecipa-os, e percebe tudo o que está a acontecer à sua volta com extrema facilidade. É, ainda, elegantíssimo a jogar, e, aos 25 anos, possui uma maturidade que não é para todos. Um verdadeiro líder em campo, que faz lembrar Beckenbauer. Pelas suas qualidades com bola, actuou já também a meio-campo, mas é a central que me parece que deve impor-se. Na selecção do seu país, joga também a lateral-esquerdo, fruto do excelente pé esquerdo que tem, e da disponibilidade para se intrometer nas acções ofensivas da equipa (e da excelente fornada de compatriotas que actuam no centro da defesa). No Ajax, aliás, não era raro vê-lo a subir com a bola controlada e a criar situações de superioridade numérica pelo meio. Até por toda esta polivalência, seria a minha primeira opção para reforçar a defesa blaugrana, que procura jogadores para o centro e para a esquerda da defesa, e, se tivesse que mencionar os dez defesas centrais que mais me agradam no futebol actual, não me esqueceria dele. Pertence a uma geração belga muitíssimo prometedora, que dará certamente cartas nas próximas três ou quatro competições de selecções, e, apesar de tudo, estou certo de que fará boa figura para onde quer que vá. É, por isso, com muito interesse que seguirei as pisadas de Jan Vertonghen, e estarei a torcer para que o perfume do seu futebol possa contagiar até o mais conservador dos treinadores que vier a apanhar.

sábado, 2 de junho de 2012

Os Melhores de 2011/2012

Foi um ano esquisito, e o blogue seguiu menos o campeonato nacional do que em anos anteriores. Ainda assim, fica a sugestão do onze ideal, em 343 losango, só para dificultar, e respectivos suplentes:

Guarda-Redes: Rui Patrício
Defesas: Luisão, Garay e Otamendi
Médio Defensivo: Fernando
Médios Interiores: Axel Witsel e Lucho Gonzalez
Médio Ofensivo: Pablo Aimar
Extremos: James Rodriguez e Nolito
Avançados: Lima

Treinador: Leonardo Jardim

Suplentes, em 442 losango:

Guarda-Redes: Artur Moraes
Defesa Direito: Maxi Pereira
Defesa Esquerdo: Ínsua
Defesas Centrais: Daniel Carriço e Rolando
Médio Defensivo: Custódio
Médios Interiores: João Moutinho e Hugo Viana
Médio Ofensivo: Matías Fernandez
Avançados: Hélder Barbosa e Cardozo

Treinador: Pedro Martins

Menções Honrosas:

Rinaudo, apesar de um primeiro terço de campeonato muito bom, Elias e Schaars, apesar da regularidade e da consistência do seu jogo, e Ricky van Wolfswinkel, apesar de reunir algumas das qualidades mais apreciadas aqui num avançado, acabam por ser vítimas do mau campeonato do Sporting. Anderson Santana foi talvez o lateral esquerdo que mais impressionou, mas o seu desaparecimento sensivelmente a meio do campeonato também não ajudou. Hulk, como sempre, misturou lances individuais decisivos com um comportamento muitíssimo inconstante e, a maioria das vezes, prejudicial às aspirações colectivas. Bruno César foi um dos jogadores mais interessantes no Benfica desta temporada, mas o excesso de jogadores para o meio-campo fez com que fosse difícil de inclui-lo. Gostaríamos ainda que Pereirinha, André Martins, Saviola, Kléber, Josué e Diogo Rosado, entre outros, tivessem sido mais utilizados. Estariam certamente entre os eleitos, se assim fosse. Menção ainda para Carrillo, Ewerton, Mossoró, Adrien Silva, Marinho, Yazalde, e Hugo Vieira.

domingo, 20 de maio de 2012

Ser Adepto

O que é ser adepto? Em grande medida, é ser alguém que gosta especialmente de um clube, tendencialmente de modo irracional, e que se regozija com a vitória desse clube. Há, no entanto, um problema. De que serve uma vitória a um adepto? Isto é, por que razão uma vitória do clube de que gosta o deixa tão contente? Numa guerra, vencer o inimigo implica necessariamente evitar a aniquilação, ou a subjugação. Vencer, nesse caso, é sobreviver. Mas, em futebol, não é assim. Qual é o objectivo ulterior da vitória? Um só: sentir que se é melhor do que os vencidos. O Chelsea acabou de se sagrar campeão europeu, e muitos londrinos sentirão neste momento que são os melhores do mundo. Senti-lo-ão, sim, mas porque são estúpidos. Um adepto inteligente, havendo-o por aí, só poderia sentir vergonha, nesta altura. Aliás, a capacidade de sentir vergonha nos momentos certos é, não raro, um sintoma de inteligência.

Dir-me-ão que isto não tem nada a ver com inteligência. Respondo que defender a prática da celebração de vitórias recorrendo à estupidez em que consiste o exercício é provavelmente uma defesa idiota. Os adeptos do Chelsea que festejam hoje a vitória do seu clube são como jogadores de casino a quem saem os dados certos, com a diferença significativa de que, depois da jogada certeira, não ganham dinheiro nenhum. O que se festeja hoje em Londres é, à falta de melhor, a irracionalidade própria. Aquelas pessoas celebram porque estão convencidas - a cultura em que nasceram educou-as assim - de que as vitórias, por si só, merecem celebração. Mas não há razão nenhuma para que assim seja. Só há um tipo de sítios em que imagino que as coisas se festejem por si só: os hospícios. Londres é hoje um hospício gigante em que os doidos, apenas porque sim, apenas porque há qualquer coisa dentro deles que os faz sentirem-se embriagados de felicidade, festejam a sua doidice. Ser adepto, como é normalmente entendido, é pouco mais do que ser doido.

Ganhar, por si só, não é nada. A vitória só faz sentido enquanto materialização de uma certa superioridade. O que deve ser festejado, quando se festeja uma vitória, não é a vitória, mas a superioridade que essa vitória materializou. Quando a vitória cai do céu, quando não materializa rigorosamente coisa nenhuma, festejá-la é um absurdo. Assim é neste momento. O Chelsea não foi superior a ninguém, e a vitória que alcançou é ridícula. Festejar essa vitória é como ser muçulmano e festejar o triste episódio do World Trade Center em 2001. Pensando bem, aquilo que celebram as pessoas que celebram vitórias como a do Chelsea é o Acaso; celebram o terem tido sorte, o ter-lhes protegido os interesses qualquer força inexplicável. A conclusão surpreendente é estas pessoas celebrarem afinal o não terem livre-arbítrio. Não é extraordinário? Eis a melhor definição possível de um adepto: indivíduo que, por gostar irracionalmente de algo, reconhece inadvertidamente que esperar a morte é o único objectivo da sua vida.

Depois de, em Camp Nou, o Barcelona jogar e o Real Madrid vencer; depois de, outra vez em Camp Nou, o Barcelona jogar e o Chelsea vencer; depois de, em Bucareste, o Athletic de Bilbao jogar e o Atlético de Madrid vencer; eis que, em Munique, o Bayern jogou e o Chelsea venceu. Às vezes, no futebol, são os que menos fazem por isso que ganham. Este ano, sobretudo nesta fase final da época, aconteceu mais vezes do que é normal. É por isso um ano desastroso para o futebol. De tempos a tempos, acontece um ano assim. E o que dizer agora de André Villas Boas e de Di Matteo? Digo o mesmo que disse há uns anos de Juande Ramos e Harry Redknapp. Na altura, disse que o Tottenham não quisera crescer para onde podia. Harry Redknapp devolvera os resultados imediatos ao clube, mas o clube não tinha por onde crescer. Com o orçamento e o grupo de jogadores que o Tottenham tem, hoje em dia, não ser capaz de lutar pelo título é mau. Continua atrás do principal clube londrino, e vai tendo, no máximo, uma ou outra vitória circunstancial. Ao fim destes anos, confirmou-se a previsão: o Tottenham tem a força máxima que poderia ter com a qualidade do plantel que tem, mas estagnou enquanto colectivo. Preferiram-se os resultados a curto prazo, e não o projecto de longo termo. O Chelsea que Villas Boas desejava talvez desse frutos sustentados daqui a uns anos. Os jogadores não quiseram, e estou certo de que os adeptos estão, neste momento, felizes com a substituição de treinador. Ganharam um título muito importante, mas comprometeram, na minha opinião, o futuro. O Chelsea foi campeão europeu, mas, extraordinariamente, deu um passo atrás. De vez em quando, também acontece. É estranho pensar assim, mas é o único pensamento correcto. Ganhar nem sempre é dar um passo em frente. Por mais paradoxal que pareça, ao sagrar-se campeão europeu, o Chelsea tornou-se um clube mais fraco do que era.