De dois em dois anos, a turba anima-se com o pontapé na bola e, dando em correr melhor do que seria previsto, a participação portuguesa nos torneios de nações é motivo de batimentos cardíacos acelerados um pouco por todo o país. Junta-se a esse fenómeno, este verão, duas circunstâncias especialmente interessantes: 1) o facto de o desenho do torneio beneficiar a mediocridade (passarem 2 terços das selecções não só permite que equipas que nada façam na fase de grupos sigam em frente como aumenta a possibilidade de tais equipas avançarem na competição sem apanharem adversários dignos de respeito); e 2) o facto de aparecer em Portugal um miúdo de 18 anos que, não obstante a total banalidade e inconsequência do seu futebol, reúne todos os atributos que o povo gosta de ver num jogador (força, agressividade, rapidez, coragem, desinibição, etc.). A euforia em torno de Renato Sanches chegou ao ponto de termos um jornalista, no rescaldo do jogo com a Polónia, a descrever os acontecimentos do jogo do seguinte modo: "Primeiro a Polónia marcou; depois o Renato empatou!" Renato Sanches é hoje, portanto, sinónimo de Portugal.
Há quem já o considere, no presente, um dos melhores médios do mundo. E há outros, mais prudentes mas igualmente fanáticos, que consideram que, apesar de ainda ter muito que trabalhar, tem potencial para chegar ao patamar dos melhores. A minha opinião sobre Renato Sanches não se alterou minimamente: não tem o que é preciso para vingar ao mais alto nível, e nunca vai tê-lo. Nesta selecção, não dá nem metade do que dão João Mário, Adrien Silva, André Gomes e João Moutinho. E, ao contrário do que tem sido dito, não consigo ver que melhorias trouxe ao futebol nacional sempre que entrou. Não consigo mesmo. Contra a Polónia, por exemplo, estava a fazer um jogo miserável, até que Fernando Santos decidiu encostá-lo a uma faixa. Miserável! Posicionalmente, andava às aranhas. Não sabia onde nem como pressionar, nem sabia onde nem como pedir a bola aos colegas. Fernando Santos trouxe-o para a linha, para lhe tirar alguma responsabilidade táctica, e ele continuou sem saber muito bem o que fazer. Defensivamente e ofensivamente, o Renato andava completamente perdido. Mas depois marcou um golo, após um passe sem nexo nenhum (meteu em Nani numa zona em que o avançado português não iria conseguir fazer nada, mas teve a sorte de Nani inventar um passe de calcanhar, que o surpreendeu tanto a ele como aos polacos), e as pessoas, que não querem saber de mais nada, trataram de endeusá-lo. O Renato lá continuou perdido em campo, a errar posicionamentos e a errar decisões com bola, mas cheio de confiança. E a única coisa que as pessoas vêem é a bola nas redes e a confiança com que os jogadores andam em campo. Não vêem as distracções constantes do Renato, os maus passes sistemáticos, as decisões absurdas, a imaturidade táctica. Não vêem nada disso. Vêem um miúdo com força e desinibido, e acham que é a reencarnação do Eusébio. Ou a reencarnação de D. Afonso Henriques, à espadeirada aos mouros.
Posso acrescentar, condescendendo um pouco, que talvez pudesse dar um avançado com alguma qualidade, ou um extremo interessante. Tem velocidade, segura e protege bem a bola, e podia servir de avançado em circunstâncias de contra-ataque, sobretudo, ou de extremo a quem se peça principalmente alguma competência na transição. Ou podia dar um defesa direito aguerrido, capaz de se projectar ofensivamente. Como médio-centro - perdoem-me os seus admiradores - não lhe auguro nada de bom. Não tem qualidade de passe, não é excepcional do ponto de vista técnico e, acima de qualquer outra coisa, não toma decisões condizentes com aquilo que deve ser um médio de ataque. Como disse há uns meses, as suas principais qualidades (a capacidade de condução em velocidade, a força, a entrega e a qualidade com que protege a bola) não são as competências que se exigem a um médio moderno. Isto não significa que não possa fazer carreira como médio, e que não possa ser titular indiscutível dos clubes por onde passar e da selecção nacional (o Maniche ou o Raúl Meireles também o foram). Significa, isso sim, que não o vejo a ser um médio capaz de dar a uma equipa aquilo de que precisa, sobretudo em organização ofensiva. Algumas das pessoas que, contagiadas pela euforia geral, sentem a necessidade de justificar a admiração que têm pelo Renato precisam, por isso, de demonstrar que o tipo de futebol que pratica é de algum modo benéfico. E, reconhecendo-lhe alguns defeitos (tomada de decisão, precipitação, irresponsabilidade táctica, imaturidade, etc.), tendem a acreditar que a força que tem, a intensidade com que joga e a irreverência que apresenta em campo, contrastando com a calma pachorrenta e a lentidão de processos por que se define, alegadamente, o futebol dos outros médios da selecção, são factores de desequilíbrio evidentes. Por exemplo, acha-se que o Renato, por conduzir endiabradamente, atrai adversários a toda a hora, desposicionando-os, e que, soltando a bola para um colega depois de fixar esse adversário, produz rupturas sistemáticas nas defesas contrárias. Na verdade, subjazem a esta ideia vários preconceitos: o de achar que é sempre útil conduzir para fixar, seja em que zona do terreno for, a que velocidade for e em que circunstâncias for; o de achar que quem privilegia a condução é mais competente a conduzir do que quem privilegia outras coisas; e o de achar que esse tipo de comportamento tem como consequência necessária esse tipo de desequilíbrios no adversário. O que se segue é uma análise às acções com bola (e a algumas acções sem bola) do Renato, no jogo contra o País de Gales. Como se verá, não só as iniciativas de condução do Renato não produzem os efeitos que se defende que produzem como o seu futebol não é tão incisivo como se acha que é.
1 mins: Mau passe. (Em vez de procurar dar uma linha de passe, dentro ou fora do bloco adversário, vai ter com José Fonte, tira-lhe a bola, conduz junto à linha e entrega na direcção do lateral galês.)
4 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Joga na linha em Cedric, aproxima-se, recebe dele, dá em Nani, volta a receber e devolve a Nani.)
5 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Aproxima-se do meio, recebe de Adrien, vira-se para a direita, roda sobre si mesmo e endereça o passe a Raphael Guerreiro, na esquerda).
7 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Toca a bola para Cedric, recebe dele e toca para trás.)
9 mins: Troca de bola fora do bloco adversário.(Dá para Cedric, que se projecta na linha, e este cruza.)
12 mins: Má opção. (Recebe de Adrien numa zona central, conduz na direcção da linha, com Cedric à sua frente e Adrien a dar o apoio recuado, mas insiste em definir o lance e cruza contra o opositor directo.)
13 mins: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para trás, mas o central galês limpa.)
13 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe no meio de Danilo e dá para trás para Adrien.)
15 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de João Mário e dá para dentro, em João Mário de novo.)
17 mins: Mau passe.(Capta junta à linha, conduz enquanto Adrien se escapa ao seu lado, mas solta antes de fixar e na direcção de Joe Allen, que intercepta o passe.)
21 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe longo de Rui Patrício, protege a bola na recepção, vem para o meio, tabela com Adrien, tabela com Ronaldo, dá na linha em Cedric, dá o apoio recuado e recebe de Nani, a quem Cedric dera a bola, conduz lateralmente e abre na esquerda, em Raphael Guerreiro.)
22 mins: Troca de bola fora do bloco adversário.(Recebe de Adrien e devolve.)
25 mins: Má opção. (Apanha uma bola sacudida por Bruno Alves e, com um adversário à perna, e mais dois à sua frente, conduz para a linha sem dar importância ao apoio de Adrien, que chegava naquele momento, mete a cabeça no chão e tenta forçar a passagem, perdendo a bola. As bancadas exultam.)
27 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Vem ao meio, recebe de João Mário e toca curto em Adrien. Na mesma jogada, recebe de João Mário, conduz para a esquerda e deixa em Raphael Guerreiro.)
28 mins: Esforço. (Evita que a bola saia pela linha, após um mau passe de Bruno Alves.)
28 mins: Mau passe.(Apanha uma sobra, encara o médio e tenta jogar vertical, para dentro do bloco adversário, em Raphael Guerreiro, mas a bola sai para as costas do colega e a jogada perde-se.)
31 mins:Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Danilo no meio e joga em Cedric na linha. Ronaldo aproxima-se e fica com a bola.)
31 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Ronaldo, e lateraliza para Adrien.)
33 mins: Má decisão sem bola.(José Fonte conduz e Renato, como no lance do primeiro minuto, dirige-se ao portador da bola em vez de procurar dar uma linha de passe, o que leva José Fonte a desesperar, gesticulando para que o médio português saísse dali.)
34 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Perde em força para Bale, ao tentar disputar a bola com o galês, mas apanha o ressalto depois de Bale cruzar contra José Fonte, protege a bola e dá na linha em Nani.)
36 mins: Troca de bola rápida. (Aproveita uma sobra, depois de Cedric desarmar Bale, e dá rápido em Nani)
37 mins: Cruzamento. (Recebe junto à linha e cruza rasteiro, sem consequências)
37 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de Cedric e joga para trás, para Danilo)
37 mins: Troca de bola fora do bloco adversário.(Recebe de Adrien, no meio, e dá na linha, em Cedric)
38 mins: Má opção. (Recebe de Cedric e, com várias opções verticais, dentro do bloco adversário, mete na área sem nexo.)
40 mins: Mau passe.(Recebe de José Fonte, conduz lentamente e, sem procurar fixar o defesa, tenta jogar em João Mário, mas o passe sai transviado.)
41 mins: Passe vertical. (Recebe de Cedric, conduz para o meio, e joga vertical em Nani, que dá o apoio entre linhas. Renato não dá, no entanto, opção de passe para que Nani pudesse devolver a bola.)
42 mins: Má decisão sem bola. (É ludibriado por uma simulação do defesa esquerdo galês, Taylor, quando fazia a cobertura desse flanco. Como Cedric perseguira individualmente o médio galês que ali aparecera, e que recuara, o lateral esquerdo fica com a linha escancarada.)
47 mins: Má opção.(Apanha uma sobra, depois de um corte de José Fonte, tenta fintar e perde.)
47 mins: Mau passe.(Apanha uma sobra e faz um passe rápido, sem direcção, que acaba nas pernas do árbitro. Se não batesse no árbitro, ia direito a um adversário.)
47 mins: Falta desnecessária não-assinalada. (Faz falta junto à área sobre Gareth Bale, mas o árbitro não assinala.)
47 mins: Mau passe. (Recebe de Nani, tenta entregar de primeira, mas a bola vai para Joe Allen.)
53 mins: Faz falta. (Depois de 6 minutos sem intervir, durante os quais Portugal marcou 2 golos, faz falta junto à linha.)
55 mins: Troca de bola fora do bloco adversário. (Recebe de José Fonte e joga na linha, em Cedric.)
56 mins: Sofre falta.(Recebe de Cedric e, perante a chegada do adversário, desvia a bola e sofre falta. Estando Cedric a passar nas costas, se a finta sai mal, os galeses poderiam contra-atacar.)
59 mins: Má opção. (Apanha uma sobra, conduz, tenta passar por Gareth Bale e é desarmado.)
60 mins: Mau passe.(Recebe de Cedric e tenta meter no espaço, onde Adrien aparece, mas mede mal o passe e a bola perde-se.)
64 mins: Má opção.(Recebe no meio, de João Mário e, podendo progredir, dá de imediato na direita, em Nani, que acaba por ir para o remate.)
67 mins: Sofre falta. (Recebe junto à linha esquerda, protege a bola, roda sobre si, na direcção da linha, e sofre falta.)
69 mins: Conduz e entrega. (Apanha uma sobra, depois da recuperação de Adrien, conduz pelo meio, tira Joe Allen da frente e lateraliza para João Mário.)
72 mins: Má opção.(Capta junto à linha, conduz pela esquerda e, não respeitando a movimentação de Ronaldo, que lhe permitia solicitar Nani, que aproveitara o espaço deixado livre pelo arrastamento do central galês, opta por ir para o remate, que faz já em desequilíbrio.)
Fica o video com os apontamentos individuais do Renato (excluem-se os lances sem bola a que dei destaque), ao longo do jogo, com o agradecimento ao PicaretaLeonina, que o deixou na caixa de comentários do texto anterior:
Conclusões:
1) Das 41 acções contempladas, 4 são acções sem bola (as faltas feitas aos minutos 47 e 53, e as acções dos minutos 33 e 42), 2 são acções espontâneas (o cabeceamento aos 13 minutos e o esforço para evitar que a bola saísse aos 28) e 2 terminam com faltas sofridas (aos minutos 56 e 67). Renato participou, portanto, em 32 acções com bola, em condições suficientes para a tomada de decisão. Dessas 33 acções, 7 terminaram com maus passes; 21% de passes errados.
2) Das 26 acções que não terminaram com maus passes, Renato tomou ainda 7 más opções, das quais 4 resultaram em perdas de bola directas. Assim, teve 14 acções negativas (42% de acções negativas) e foi o responsável por 11 perdas de bola (33% dos lances em que participou acabaram nos pés do adversário).
3) Das 19 acções positivas que teve, 15 foram trocas de bola fora do bloco adversário (lateralizações ou trocas curtas com um grau de risco baixo e sem quaisquer consequências em termos de ganhos territoriais ou em termos de desequilíbrios do bloco adversário). Das restantes 4, 1 consistiu em entregar rápido, para aproveitar o desequilíbrio momentâneo do adversário e 1 consistiu em conduzir a bola, num momento de transição. Das 17 acções positivas em momentos de organização, 15 foram acções simples de circulação (88% de acções de risco mínimo), 1 foi um cruzamento rasteiro, que acabou por não ter sucesso, e apenas 1 foi um passe vertical para um colega dentro do bloco adversário. Em organização ofensiva, RenatoSanches não conduziu com sucesso uma única vez.
4) Na verdade, Renato conduziu 10 vezes. Ao minuto 1, conduziu e entregou mal. Ao minuto 12, conduziu para a linha e optou por cruzar contra o adversário, quando tinha um apoio recuado. Ao minuto 17, capta a bola junta à linha esquerda, conduz e solta demasiado cedo, e na direcção do adversário. Ao minuto 25, conduz pela linha, com vários adversários à ilharga, não espera pelo apoio e perde a bola. Ao minuto 40, conduz lentamente e, não esperando que o adversário avançasse em direcção a ele, tenta soltar para João Mário, com um mau passe. Ao minuto 47, tenta fintar um adversário e perde a bola. Ao minuto 56, finta um adversário e sofre falta. Ao minuto 59, tenta passar por Bale, é desarmado e perde a bola. Ao minuto 69, finalmente, consegue ter espaço para conduzir, em transição, tira um adversário do caminho e lateraliza para João Mário. Ao minuto 72, goza novamente de espaço, conduz pela esquerda e opta por ir para a finalização, não respeitando o bom trabalho sem bola de Ronaldo, que deixa espaço nas suas costas para Nani. E, ao minuto 64, não conduz quando tinha espaço para isso e quando se exigia que o fizesse, preferindo lateralizar para Nani. Das 10 vezes que conduziu, 6 acabaram com a perda da bola (60% de perdas de bola em acções de condução), 1 acabou com um cruzamento contra 1 adversário, 1 acabou com uma má decisão e um remate por cima (80% de acções de condução absolutamente inconsequentes), 1 acabou em falta e 1 acabou num passe lateralizado para um colega.
5) Renato recuperou 0 bolas e fez 0 cortes.
Comentários a cada uma das conclusões:
1) Já se sabia que falta maturidade a Renato Sanches, e que perde demasiadas bolas para a posição que ocupa. Para aqueles que, apesar de lhe reconhecerem talento, não ignoram os defeitos que tem, não é decerto surpreendente que falhe mais de 1 passe a cada 5 que efectua. Num jogo de exigência tão baixa, em que a maior parte das acções em que participou foram fora do bloco adversário, é muito. E é incompatível, a meu ver, com as obrigações de um médio moderno. As pessoas que gostam das renatices ou não prestam atenção a isto, ou desconsideram esta realidade por acharem que o Renato compensa com outras coisas. Como explicarei a seguir, não há nada no seu futebol que possa indicar tal compensação.
2) Se juntarmos as decisões erradas aos maus passes, a taxa de insucesso do seu futebol duplica: em cada 5 acções, 2 são erradas. E em cada 3 bolas que passam pelos seus pés, 1 acaba nos dos adversários. É muito. Nem sequer é preciso comparar estes números com os dos médios excepcionais: eles são incompatíveis com qualquer médio de qualquer equipa mediana. Aliás, sempre que o grau de dificuldade dos lances aumenta, as más decisões de Renato Sanches aumentam também. A falta de criatividade, a pouca qualidade de passe e o desconforto técnico em situações de decisão rápida não lhe permitem solucionar problemas muito complicados, e o seu futebol só não é prejudicial à equipa quando, jogando fora do bloco adversário, se dedica à simples gestão e circulação da bola. Sempre que se impõe uma acção de penetração, ou sempre que Renato decide que é tempo de procurar acções de penetração, a taxa de insucesso do seu futebol sobe desgovernadamente.
3) Se os números acima não são surpreendentes, pelo menos para aqueles que não acham que o Renato seja o Messi da Musgueira (o que é para aí um décimo da população portuguesa), as conclusões que se seguem talvez sejam. A maioria das coisas bem feitas são acções de risco reduzido, ao alcance de qualquer médio, em qualquer parte do mundo. Se contarmos apenas as situações de ataque organizado, 9 em cada 10 dessas acções positivas são passes para o lado, fora do bloco adversário, sem consequências práticas relevantes que não a mera circulação da bola. A verticalidade que, de acordo com a maioria das pessoas, supostamente oferece ao jogo não se verifica de todo: em 72 minutos, Renato Sanches fez apenas um passe vertical, a explorar o espaço interior, e não conduziu com sucesso uma única vez. Seja através do passe, seja através da condução, as acções com bola de Renato Sanches em nada contribuem para que a equipa consiga penetrar ou para criar desequilíbrios momentâneos na organização defensiva adversária.
4) A ideia, mais ou menos consensual, de que Renato Sanches agita naturalmente o jogo e tem a coragem de conduzir mesmo em situações de dificuldade elevada também não se confirma. Aos 64 minutos, num lance em que tem espaço para progredir em condução e em que se exigia que o fizesse, até para permitir aos colegas o tempo suficiente para efectuarem as suas desmarcações, Renato opta por entregar de imediato na direita, em Nani. O privilégio da condução, percebe-se assim, não advém da coragem ou da confiança que tem ao fazê-lo; advém da absoluta irracionalidade com que joga. Tanto conduz quando deve como quando não deve; tanto arrisca em condução quando se justifica que arrisque como quando não se justifica; e tanto decide não conduzir quando não há condições para o fazer como quando as há. Não são as circunstâncias que determinam as acções de condução de Renato Sanches; são os seus caprichos. E, como qualquer jogador que toma decisões em função de caprichos, é natural que o sucesso das suas acções seja limitado. Note-se, de resto, o pouco que a equipa ganhou (e o muito que perdeu) com as acções de condução em que se envolveu. Das 10 acções de condução, 6 produziram malefícios, 2 não produziram qualquer benefício e 2 produziram pequenos benefícios (a cobrança de um livre e a manutenção da posse de bola). Não, Renato Sanches não é extraordinário em acções de condução. É só alguém que o faz com frequência e à bruta. Como aquilo de que as pessoas que vêem futebol gostam mesmo é de touradas, gostam de ver o touro a investir contra os cavaleiros, de preferência muitas vezes e com toda a força. Enquanto não perceberem que o futebol não é tourada, não perceberão que aquilo que tanto admiram no futebol de Renato Sanches é tão entusiasmante quanto improdutivo. A exultação colectiva com a jogada de Renato Sanches aos 25 minutos representa fidedignamente a taurofilia dos adeptos portugueses: Renato leva para a linha, tenta passar por onde era praticamente impossível que o fizesse, perde a bola e, mesmo assim, as pessoas gritam de emoção e arrancam cabelos.
5) Não creio que precise de dizer grande coisa em relação à quinta conclusão. É verdade que, jogando numa ala e não no meio, a taxa de recuperação de bolas tende a diminuir, e é verdade que, por si só, este tipo de números não espelha o comportamento defensivo de um jogador. De qualquer forma, não ter recuperado qualquer bola nem ter feito qualquer corte, em 72 minutos, permite pelo menos mostrar que a agressividade e a intensidade com que Renato Sanches joga não se traduz, em termos defensivos, em nenhum daqueles factores em que as pessoas julgam que o médio português se destaca. Ao contrário do que se pensa, Renato Sanches não compensa os posicionamentos desastrosos, portanto, nem com recuperações de bola, nem com cortes, nem com desarmes.
Notas finais:
1) É aceitável argumentar, contra a pretensão deste texto, que este jogo não reproduz a real valia de Renato Sanches, e que um jogo mau não deve servir de balança da qualidade geral de um atleta. Aceito o argumento, e não tenho modo de refutá-lo que não através da convicção de que, pelo contrário, as incidências deste jogo retratam fielmente aquilo que Renato é, enquanto jogador de futebol. Estou absolutamente convencido, por exemplo, de que as percentagens de passes errados e de decisões erradas é mais ou menos idêntica a estas. Assim como estou absolutamente convencido de que a esmagadora maioria das coisas que faz bem feitas, como neste jogo, são coisas de baixo grau de dificuldade e, por conseguinte, coisas que qualquer jogador consegue fazer. Mais importante do que isso, estou ainda absolutamente convencido de que a taxa de sucesso em acções de condução (aquilo que tanto parece fascinar os portugueses) não é significativamente diferente daquela que se registou neste jogo, ou seja, praticamente nula. Na verdade, consigo perceber o fascínio Renato Sanches: é desinibido, respeita a exortação predilecta dos estultos, o famoso "Vamos para cima deles!" que amiúde se ouve nas bancadas, tem capacidades atléticas excepcionais e, além disso, é jovem, o que, para muita gente, significa que tem muita margem de progressão. O que não percebo, ou o que não aceito, é que esse fascínio impeça as pessoas de ver que aquilo que faz em campo não produz efeitos dignos de registo. Este não foi um mau jogo de Renato Sanches. Foi um jogo normal. Se tivesse marcado um golo, como contra a Polónia, provavelmente teria sido eleito o homem do jogo, e provavelmente haveria pouca gente a achar que tinha sido um jogo modesto. E esse é que é o problema. Se formos a olhar friamente para cada lance, e para os benefícios e os prejuízos que cada uma das suas acções acarreta, chegaríamos a conclusões como aquelas que este texto defende. Mas olhar friamente para alguma coisa é algo que um adepto de futebol não gosta de fazer. É precisamente por isso que o futebol de Renato Sanches é tão apreciado.
2) Além da jogada do minuto 25, que serve para demonstrar que aquilo que as pessoas mais admiram no futebol de Renato Sanches não acarreta benefícios colectivos, devo ainda destacar a primeira e a última jogada em que o médio português se viu envolvido. A primeira porque é perfeita para mostrar o quão inconsequente é a sua irreverência e a sua hiperactividade: ir buscar a bola aos pés de um central e conduzi-la a toda a velocidade apenas para a deixar nos pés do lateral adversário é a melhor ilustração daquilo que vale. A última porque é perfeita para mostrar o quão irracionais são as suas cavalgadas com bola e o quão mal define, ao contrário do que se julga, em lances de condução: se não consegue respeitar o trabalho sem bola dos colegas, de nada serve que consiga acelerar o jogo.
3) Desde que o europeu começou que me parece o mais fraco de que tenho memória. É pelo menos tão fraco quanto o de 2004. Salvava-se a Alemanha, que acabou por não ter sorte nas meias-finais, a Espanha, que insiste em vir para estas provas sem treinador, a Itália, à qual falta a qualidade individual de outros tempos, e em certa medida a criatividade isolada de certos grupos jogadores croatas (Modric e Rakitic) e galeses (Allen e Ramsey). Na final, estará a equipa anfitriã, que teve muitas dificuldades para superar as poderosíssimas selecções da Roménia e da Albânia, nos dois primeiros jogos (o que conseguiu apenas porque tem individualidades notáveis), e estará também uma equipa que passou o seu grupo em terceiro, com três empates contra equipas dificílimas como a Islândia, a Áustria e a Hungria, e que se foi apurando, eliminatória após eliminatória, quase que por milagre (ou porque teve uma sorte inacreditável no sorteio, ou porque tem o melhor cabeceador de todos os tempos, ou através das grandes penalidades, ou num lance de contra-ataque depois de levar uma bola no poste). Num europeu medíocre, cujo desenho favorece os medíocres, ganhará, portanto, uma equipa medíocre. Para bem do futebol, era bom, ainda assim, que ganhasse a menos medíocre das duas.
Dado que o futebol é um jogo de pontuações baixas (os resultados são geralmente definidos por poucos golos), é também um jogo em que os detalhes têm necessariamente um peso muito significativo. Esta circunstância faz com que seja também um jogo em que a qualidade geral de uma equipa não é suficiente para fazer a diferença perante equipas menos capazes, sobretudo em confronto directo. É por isso que o sucesso de uma equipa em competições de regularidade (como campeonatos nacionais) e o sucesso da mesma equipa em competições a eliminar (como taças nacionais ou internacionais) é por vezes tão distinto. Uma vez que os detalhes são tão importantes, o sucesso numa competição de regularidade será sempre uma pedra de toque mais fiável para aferir a verdadeira qualidade de uma equipa do que uma competição em que um pequeno deslize pode deixar por terra as melhores equipas ou um pequeno lance de sorte pode manter em prova as equipa menos capazes. O sucesso na Liga dos Campeões não é, portanto, sinónimo de competência. Se fosse, seria de esperar que uma equipa que chega a duas finais da Liga dos Campeões em 3 anos, superando algumas das melhores equipas europeias, tivesse mostrado nesses mesmos 3 anos o mesmo tipo de competência na competição interna que disputa. Nem Real Madrid nem Atlético de Madrid, no entanto, têm conseguido justificar internamente esse sucesso. Uma competição em que os jogos teoricamente mais fáceis valem tantos pontos como os jogos teoricamente mais difíceis, em que os jogos em que é preciso assumir a iniciativa valem tantos pontos como aqueles em que não o é, uma competição disputada ao longo de vários meses, durante a qual as equipas passam por diferentes momentos de forma e de confiança, tende a exigir das melhores equipas uma qualidade geral que lhes permita minimizar o peso dos detalhes. Claro está que uma equipa menos competente pode manter índices competitivos muito altos ao longo de uma época inteira, sobretudo se for encontrando motivação para isso, e assim disfarçar a falta de qualidade geral. Mas, de uma maneira geral, o sucesso numa competição de regularidade diz alguma coisa da qualidade geral da equipa que o obtém. E o sucesso continuado, ao longo de várias épocas, nessa mesma competição, mais ainda. É assim perfeitamente possível que equipas que ganham 2 Ligas dos Campeões em 3 anos (e equipas que chegam a 2 finais em 3 anos), não sejam propriamente boas equipas.
O caso paradigmático da discrepância entre o sucesso europeu e o sucesso interno que estou a tentar descrever é, a meu ver, o Liverpool de Rafa Benitez. Nas seis temporadas que passou em Inglaterra, o treinador espanhol não só nunca foi capaz de ser campeão nacional como só foi segundo por uma vez (em 2004/2005, ficou em 5º; em 2005/2006 e 2006/2007, ficou em 3º; em 2007/2008, ficou em 4º; em 2008/2009, ficou em 2º; e em 2009/2010, ficou em 7º). A banalidade destes resultados (em metade das épocas, pode-se mesmo falar de fracasso) contrasta em absoluto com a competência que a equipa foi mostrando na Liga dos Campeões, que ganhou por uma vez, precisamente num ano em que ficou em 5º no campeonato (em 2004/2005, ganha a final ao Milan; em 2005/2006, perde com o Benfica nos oitavos de final; em 2006/2007, perde na final com o Milan; em 2007/2008, perde nas meias-finais com o Chelsea; em 2008/2009, perde nos quartos de final com o Chelsea; e em 2009/2010, fica em terceiro na fase de grupos, atrás de Fiorentina e Lyon, indo depois até às meias-finais da Liga Europa, onde é eliminado pelo Atlético de Madrid). A discrepância é evidente, e explica-se pelo que disse acima: o Liverpool de Benitez foi sempre talhado para uma competição a eliminar, e aí foi sempre um adversário muito difícil de vencer, mesmo para as melhores equipas da Europa. No campeonato inglês, em que era preciso, na maioria dos jogos, assumir a iniciativa, ter a bola, penetrar em blocos defensivos densos, o Liverpool teve sempre muitas dificuldades em apresentar a regularidade que as melhores equipas apresentaram. Em 90 minutos, era um osso duro de roer; em 9 meses, era uma equipa banal. Benitez é claramente um treinador de equipas de segunda linha. Como tais equipas têm qualidade individual suficiente para disputarem 90 minutos com as melhores equipas, e como Benitez trabalha sobretudo os comportamentos defensivos dos seus jogadores, consegue formar equipas difíceis de superar em confronto directo. Em competições de regularidade, porém, só terá sucesso, como o teve em Valência, quando as melhores equipas fracassem clamorosamente (no Valência, foi campeão em 2001/2002, com apenas 75 pontos, num ano em que o Real Madrid ficou em 3º, com 66, e o Barça em 4º, com 64; em 2002/2003, ficou em 5º; e em 2003/2004, voltou a ser campeão, com apenas 77 pontos, num ano em que o Barça foi 2º, com 72, e o Real 4º, com 70). Nesses mesmos três anos, foi duas vezes eliminado nos quartos de final da competição europeia que disputava, ambas pelo Inter de Milão (em 2001/2002, na Taça Uefa, em 2002/2003, na Liga dos Campeões), e ganhou a Taça Uefa em 2003/2004.
Vejo em Diego Simeone um treinador muito parecido com Rafa Benitez. O seu Atlético de Madrid é exactamente aquilo que o Valência ou o Liverpool de Benitez foram, na década anterior: uma equipa de segunda linha, sobretudo vocacionada para não deixar jogar e para forçar o erro do adversário, e que se tornou ambiciosa a ponto de conseguir vencer qualquer adversário europeu em confronto directo. A competência europeia do Atlético contrasta, no entanto, com aquilo que a equipa vai fazendo dentro de portas. À excepção da época de 2013/2014, quando se sagrou campeão, o Atlético de Simeone não foi propriamente a equipa mais competitiva na Liga. E, mesmo nesse ano, aproveitou sobretudo uma má época dos dois principais candidatos ao título. Desde que Guardiola chegou à Catalunha, em 2008/2009, que dificilmente 90 pontos chegam para ser campeão espanhol. Guardiola foi campeão na primeira época com 87 pontos, mas nas últimas 4 jornadas (já com o título garantido) fez apenas 2 pontos. Com a pressão de ter de ganhar, é pouco credível que terminasse a Liga com menos de 95 pontos. Ao elevar o nível competitivo desta maneira, Guardiola fez com que os campeões, em Espanha, tivessem de fazer cada vez mais pontos. Nos 4 anos seguintes, não houve um campeão com menos de 96 pontos. No quinto ano, no ano em que Barça e Real fraquejaram, bastaram 90 pontos para o Atlético de Madrid se sagrar campeão. Não obstante ser uma pontuação óptima para uma equipa como o Atlético, é indissociável da pontuação inferior dos rivais. Se Barcelona e Real Madrid tivessem estado a um nível semelhante ao das épocas anteriores, ou ao nível em que voltaram a estar nas duas últimas épocas, e se assim estivessem estado desde o início da temporada, o Atlético de Madrid dificilmente teria mantido a motivação em que sustentou, semana após semana, a acumulação dos seus pontos. O mesmo se passou, de resto, esta época, em que o Atlético somou 88 pontos. A equipa manteve a ilusão do segundo lugar sobretudo porque o Real de Benitez assim o permitiu, e isso fez com que fossem acumulando vitórias, a maioria das quais pela margem mínima. Mais tarde, quando o campeonato parecia resolvido, o próprio Barcelona facilitou, perdeu uma vantagem de 9 pontos, e permitiu ao Atlético juntar à ilusão do segundo lugar a ilusão do título. Entre 2013/2014, quando foi campeão, e 2015/2016, o Atlético voltou a fazer um campeonato consentâneo com a sua real qualidade: 3º lugar com 78 pontos, a 1 ponto apenas do Valência e a 2 do Sevilha (ficou, de resto, a 14 pontos do Real Madrid e a 16 do Barcelona). Esse terceiro lugar (mais próximo das equipas que lutam pela ida à Europa do que propriamente das equipas que lutam pelo campeonato) espelha muito mais fielmente aquilo que a equipa vale, numa competição de regularidade, do que o título conquistado em 2013/2014 ou mesmo do que o terceiro lugar desta época. Na segunda época de Simeone (a primeira completa), em 2012/2013, o campeonato do Atlético de Madrid não foi, aliás, muito diferente: 3º lugar com 76 pontos, a 9 do Real Madrid e a 24 do Barcelona. É isto, a meu ver, que esta equipa tende a fazer internamente (salvo em circunstâncias atípicas), como era isto que fazia internamente o Liverpool de Benitez. Na Europa, porém, a história é outra. Logo em 2011/2012, quando sucedeu a Gregorio Manzano a meio da época, Simeone ganhou a Liga Europa. Em 2012/2013, foi eliminado da mesma Liga Europa nos 1/16 de final, pelo Rubin Kazan. Em 2013/2014 e em 2015/2016, perdeu a final da Liga dos Campeões, e em 2014/2015 foi eliminada pelo Real Madrid nos quartos de final da mesma prova.
Tal como acontecia com o Liverpool de Benitez, a discrepância entre o que o Atlético de Madrid de Simeone consegue fazer em provas a eliminar e aquilo que tende a fazer numa prova de regularidade é evidente. Sendo uma equipa vocacionada para não deixar jogar, o Atlético de Simeone tem tanta facilidade em equilibrar os jogos contra equipas mais poderosas quanto tem dificuldade em vencer jogos em que tem de assumir a iniciativa do jogo, em que tem de arranjar forma de desorganizar adversários que não querem assumir essa iniciativa: a sua principal força é também a sua principal fragilidade. É por isso que o Atlético de Madrid (como o Valência ou o Liverpool para Benitez) é o clube ideal para Simeone. Num clube de menores ambições e menor orçamento, não teria qualidade individual suficiente para apresentar uma equipa temível nos confrontos directos; e, numa equipa maior, teria de apresentar resultados em provas de regularidade que dificilmente conseguirá apresentar baseando o futebol da sua equipa unicamente no pressing, na concentração defensiva e na forma como procura o erro do adversário. A própria motivação dos jogadores, numa equipa com outras ambições, não seria tão fácil de conseguir. Uma coisa é treinar uma equipa como o Atlético de Madrid, que não tem obrigatoriamente de ficar à frente de Barcelona e Real Madrid, e convencer os seus atletas de que, para conquistarem o que os melhores costumam conquistar e equilibrarem a contenda contra adversários de maior nomeada, devem sobretudo fazer das tripas coração para que tais adversários não explanem o futebol que os distingue; outra coisa muito diferente é treinar um clube que tem necessariamente de ser campeão, e convencer jogadores que se consideram tão bons ou melhores do que os jogadores dos principais rivais de que devem aceitar o papel de equipa inferior, abdicar da iniciativa e desenvolver sobretudo as competências defensivas. José Mourinho, cuja liderança era amplamente elogiada, falhou em Madrid precisamente porque escolheu tentar convencer os seus jogadores de que, para vencerem o Barcelona de Guardiola, precisavam de deixar de ser jogadores de futebol. Numa equipa parecida com o Atlético, que não ganhe nada há muito tempo e cujos adeptos não tenham expectativas muito elevadas (no Inter de Milão, que já disse que gostaria de treinar), Simeone pode repetir o sucesso que tem tido em Madrid. Numa equipa com mais ambições, num grande europeu, por exemplo, dificilmente conseguirá fazer sequer parecido. É exactamente por ter tido a oportunidade de treinar clubes que lutam pelo título nos seus respectivos países (Inter de Milão, Chelsea e Real Madrid) que quase ninguém reconhece hoje a Benitez a extraordinária competência que, há dez anos, poucos lhe recusavam. A incapacidade que demonstrou sobretudo nesses clubes tornou evidente que não é um treinador de equipa grande, que o sucesso que obteve principalmente no Valência e no Liverpool era afinal indissociável do tipo de equipa que comandou e do tipo de competições em que esse sucesso se verificou. Diego Simeone não é diferente, e diria mesmo que, no dia em que sair de Madrid, não será difícil ao Atlético escolher o seu sucessor: se a ideia para o clube se mantiver inalterada, não há treinador com perfil mais adequado do que Rafa Benitez.
A final da Liga dos Campeões foi, como seria de esperar, um jogo horrível. E o Atlético voltou a ser derrotado pelo velho rival. As pessoas que acham que o desfecho foi injusto devem, no entanto, ter em conta que a mesma equipa que teve o azar de perder a final nas grandes penalidades foi a mesma que teve a sorte de passar os oitavos de final após as grandes penalidades, frente a uma equipa claramente inferior, o PSV, à qual não conseguiu marcar um único golo em 180 minutos. As pessoas que, além disso, acham que o desfecho injusto teria sido outro, se o golo de Sérgio Ramos tivesse sido anulado, como devia, devem, no entanto, ter em conta que a mesma equipa que assim foi prejudicada foi a mesma equipa à qual, nos quartos de final, foi perdoada uma grande penalidade claríssima, já no período dos descontos, que, se transformada em golo, adiaria a decisão da eliminatória para o prolongamento (e a mesma equipa a quem foi concedida uma grande penalidade inacreditável, nas meias-finais, que poderia ter fechado a eliminatória mais cedo, se tivesse sido convertida). Uma equipa que depende quase exclusivamente do peso dos detalhes e das circunstâncias extrínsecas ao jogo (sorte, árbitros, etc.) para ter sucesso não pode queixar-se dos detalhes ou das circunstâncias extrínsecas. Foram esses detalhes e essas circunstâncias que lhes valeram no passado. O futebol do Atlético de Madrid é o mais parecido que há com a roleta: está sempre tão perto de perder com um adversário quando é favorito (podia bem ter caído nos oitavos de final, aos pés de uma equipa muito mais fraca) como está perto de vencer qualquer um dos principais favoritos à vitória na Liga dos Campeões. E há qualquer coisa de profundamente irracional em lamentar que a bola caia num número preto, quando se apostou no vermelho. Lamentar a sorte, num jogo de sorte, é como lamentar ter nascido português ou que faça chuva amanhã. Acontece. Tal como, há uns meses, aconteceu ao Atlético ter passado os oitavos de final, aconteceu agora ao Atlético perder outra final. Às vezes a bola cai duas vezes seguidas no preto. Acontece.
P.S. Uma das coisas que mais repudio num treinador é não aproveitar o talento que tem ao seu dispor. Diego Simeone tinha no plantel, este ano, um dos médios mais promissores do futebol espanhol. A sua ideia de jogo, porém, é incompatível com médios talentosos. Ou melhor, é incompatível com médios talentosos que têm dificuldades em abdicar daquilo que os define (a inteligência, a criatividade, etc.) para serem sobretudo os jogadores abnegados que o técnico argentino exige que sejam. Oliver Torres é da geração de Saúl Ñinguez. Falei dos dois assim que os vi, ainda jovens. Embora tenha reconhecido talento a Saúl Ñinguez (como o reconheci, por exemplo, a Campaña, ou a Suso, ou a Grimaldo), reconheci de imediato uma diferença enorme entre o talento dele e o de Oliver Torres, o melhor da sua geração, a par de Dénis Suarez (ao contrário de Oliver, este teve a sorte de ter um treinador que aposta no talento, e está a caminho de Barcelona). A verdade é que Saúl, cujo talento é inegável, tem coisas que Simeone aprecia, e foi ele que despontou esta época, não Oliver. É pena que assim seja. E é pena que haja tanta gente a aplaudir o que Simeone tem feito, e não lamente o esquecimento a que foi votado o melhor jogador do seu plantel.
Eis os melhores da Liga Portuguesa, em 442 losango:
Guarda-Redes: Júlio César
Defesa Direito: Maxi Pereira
Defesa Esquerdo: Miguel Layún
Defesas Centrais: Lindelof e Ricardo Ferreira
Médio Defensivo: William Carvalho
Médios Interiores: João Mário e Pizzi
Médio Ofensivo: Gaitán
Avançados: Bryan Ruiz e Jonas
Treinador: Jorge Jesus
Suplentes (433)
Guarda-Redes: Salin
Defesa Direito: André Almeida
Defesa Esquerdo: Nuno Pinto
Defesas Centrais: Coates e Jardel
Médio Defensivo: Bakic
Médios Ofensivos: Adrien Silva e Herrera
Extremos: Iuri Medeiros e Rafa
Avançado: Mitroglou
1. O Bayern-Juventus da passada quarta-feira não foi um grande jogo de futebol, ao contrário do que tinha acontecido na primeira mão em Turim, mas serve bem para mostrar de que modo os golos monopolizam as descrições do que foi uma partida de futebol e de que modo a marcha do marcador pode não espelhar nada do que se passou nas quatro linhas. O jogo teve quatro momentos distintos, a meu ver: 1) a primeira parte, em que o Bayern, mesmo com alguns problemas de criatividade numa segunda fase de construção, foi melhor, não obstante os dois golos da Juventus; 2) os primeiros 20/25 minutos da segunda parte, em que a Juventus foi melhor, não obstante não ter marcado nas várias ocasiões que soube criar; 3) o resto da segunda parte, em que o Bayern, sem jogar bem, forçou as iniciativas individuais dos seus jogadores mais habilidosos, colocou muita gente na área, encostou a Juventus nos últimos 15 metros e conseguiu chegar ao empate; 4) o prolongamento, em que o Bayern voltou a ser a equipa que é e acabou por criar as situações de golo que lhe valeram o apuramento.
2. Para quase toda a gente, a Juventus justificou a vantagem ao intervalo, defendendo bem e aproveitando o balanceamento ofensivo do Bayern para lançar os seus contra-ataques. Luís Freitas Lobo, por exemplo, fartou-se de criticar os riscos que a equipa de Guardiola ia correndo, apesar de a Juventus não conseguir produzir um (um único!!) contra-ataque perigoso. E não se coibiu de justificar o segundo golo dos italianos com a incapacidade da transição defensiva dos alemães. A sério? Num lance que começa com 3 avançados contra 5 defesas, no qual o portador da bola só tem um colega à frente da linha da bola contra quatro defesas adversários, no qual Morata inventa praticamente sozinho a situação de golo, passando por três adversários e deixando Cuadrado isolado, no qual tanto Alaba como Benatia podiam ter resolvido o lance, parando o espanhol em falta, é a transição defensiva dos alemães que merece censura?
3. À excepção desse lance prodigioso de Morata, do qual não há estratégia com que o treinador adversário se possa precaver, a Juventus teve um lance de contra-ataque digno de nota: aquele em que Pogba se conseguiu soltar pela esquerda, já perto do final da primeira parte, e acabou por cruzar rasteiro, com Cuadrado a aparecer ao segundo poste e Neuer a fazer uma excelente defesa. Um único lance, já a acabar a primeira parte, com o resultado a favor a ajudar à desconcentração dos bávaros, é motivo para se dizer que a Juventus fez mais do que defender, nessa primeira parte? Não, não é. A Juventus teve a sorte do jogo, apanhando-se a ganhar após um erro não-forçado de Alaba (e Neuer também não fica isento de culpas), num passe de Khedira para Lichtsteiner que, em condições normais, originaria uma recuperação de bola dos alemães, e dilatando depois a vantagem no lance de Morata já comentado. Não fez mais nada de relevante, em termos ofensivos, nessa primeira parte, até ao lance de Pogba pela esquerda. Mentira: quase que aproveitava um erro de Neuer, a sair a jogar, que deixava Morata isolado. É mesmo isto que as pessoas consideram uma boa primeira parte?
4. Dirão que, mesmo que não tenha atacado bem, a Juventus defendeu bem, e isso precipitou o resto. Deixem-me ser frontal: defensivamente, a Juventus foi miserável. Se calhar, é preciso repetir: miserável! Podia dar vários exemplos, aliás recorrentes em todo o jogo. Veja-se o lance do primeiro golo do Bayern. Antes de a bola chegar a Douglas Costa, que fez o cruzamento para o golo de Lewandowski, a jogada desenvolveu-se da direita para a esquerda, no meio-campo defensivo da Juventus, até que um passe longo descobriu Coman, que atrasou para o brasileiro. Durante todo esse tempo, a Juventus tem 8 (8!) jogadores dentro da área, formando mais ou menos, sem grande critério, uma linha defensiva. A sério que acham que amontoar jogadores ao pé da baliza, sem estarem devidamente alinhados e sem um critério de espaço entre eles devidamente uniforme, é defender bem?
5. Dirão que isso aconteceu na fase final do jogo, quando as forças começaram a faltar e o Bayern estava a começar a recorrer às acções individuais de Ribery, Coman e Douglas Costa, e aos cruzamentos para a área. Posso dar exemplos de coisas parecidas na primeira parte. A Juventus apresentou-se em 541 não para ocupar melhor certos espaços defensivos, mas porque o Bayern, ao colocar Müller muitas vezes perto de Lewandowski, fazia com que a arrumação dos defesas italianos, que se organizavam em função dos adversários que perseguiam individualmente, criasse a ilusão de que se formava uma defesa a cinco. Alex Sandro entrou em campo com uma única missão: vigiar Douglas Costa. Não fez mais nada. Andou atrás dele. E, como o brasileiro passou muito tempo aberto no flanco, houve momentos em que a Juventus jogou literalmente com dois defesas-esquerdos. Atenção, não jogou com dois jogadores que são defesas esquerdos de origem, um à frente do outro ou um ao lado do outro. Jogou com dois defesas esquerdos no mesmo espaço, um às cavalitas do outro. As perseguições individuais eram tão flagrantes, entre os defesas italianos, que não foram poucas as vezes que Barzagli e Evra saíram da linha defensiva para virem perseguir o avançado alemão que lhes calhava marcar. Há um momento, a meio da primeira parte, em que Ribery decide soltar-se do flanco e ir até ao lado direito, até muito perto de Lahm. Como, no início do lance, Barzagli definiu a marcação ao francês, foi atrás dele. Sim, houve um momento, com a bola no meio-campo, em que o Barzagli, que era supostamente o central do lado direito, estava ao pé do Pogba, na ala esquerda. Isto é organização defensiva de excelência em que parte do mundo?
6. Durante os primeiros 70 minutos, Luís Freitas Lobo repetiu um dos seus chavões preferidos: que Allegri é o melhor treinador italiano da actualidade. Ainda que tenha mudado o discurso depois de o Bayern marcar, como bom cata-vento que é, Freitas Lobo cometeu a atrocidade de dizer que um treinador cuja equipa se comporta como descrito acima é o melhor treinador italiano da actualidade. Não terá sido por acaso, aliás, que Arrigo Sacchi tenha dito, há poucos dias, tão mal de Allegri. Para Freitas Lobo, porém, apinhar jogadores dentro da área e à frente dela, sem outro critério que não a referência dos adversários, é arte (sim, também disse que defender assim era arte). Freitas Lobo é só um idiota a quem deram tempo de antena. Que as mesmas ideias se registem em quase toda a gente que viu o jogo é que é grave. A Juventus não defendeu bem; defendeu com muitos. Embora as duas coisas possam produzir resultados parecidos, a diferença entre uma coisa e outra é incomensurável. Chamar "treinador" a Allegri é, de resto, uma hipérbole.
7. Dirão que as duas coisas (defender bem e defender com muitos) não são assim tão diferentes, pois o Bayern não soube tirar partido dessa eventual desorganização. Soube, soube. As pessoas é que não sabem ver um jogo de futebol. A primeira oportunidade de golo é do Bayern. Quase ninguém se lembra desse lance porque Arturo Vidal falhou a recepção (é o primeiro lance neste vídeo). Se a tivesse acertado, ficava dentro da área, sozinho com Buffon pela frente, e possivelmente faria o primeiro golo do jogo, mudando toda a história do mesmo. Esse lance é todo potenciado pela desorganização defensiva da Juventus. Douglas Costa recebe na linha, e flecte para o meio. À sua volta, num raio de 5 metros, tem Alex Sandro, Evra, Hernanes, Khedira e Pogba (este à frente da linha da bola), completamente desinteressados do espaço que os separa da linha defensiva. Além dos dois defesas esquerdos, um em cima do outro (no início da jogada, Evra está a dois metros de Alex Sandro, completamente alheado de tudo), não há linha de meio-campo, não há cobertura recuada ao médio que fecha a esquerda (Khedira está à frente de Hernanes e não alguns metros atrás, como devia), o médio direito não acompanha o restante posicionamento defensivo do meio-campo (Cuadrado está interessado em perseguir Vidal e fica a cerca de 15 metros de Khedira), e o buraco entre o último central e o lateral é absurdo (Lichtsteiner, preocupado com Ribery, que está aberto no flanco, está a cerca de 20 metros de Barzagli, que está perto de Bonucci, o qual descaíra para a esquerda para fazer a cobertura correcta ao lateral). Foi por esse buraco que Vidal entrou e foi aí que o passe de Douglas Costa o descobriu. Estava criada a primeira situação clara de golo. Ninguém fala dela, e é a jogada que melhor explica o que foi a primeira parte do jogo: uma equipa a tentar jogar e a outra a amontoar jogadores.
8. As pessoas falam da estratégia defensiva da Juventus (como se viu, foi miserável), falam do contra-ataque (como se viu, praticamente não existiu) e falam da pressão que conseguiu impor, evitando que o Bayern saísse a jogar como gosta. Também aqui não devem ter visto bem o jogo. O Bayern conseguiu sair a jogar quase sempre. Teve falhas, sim, mas recusou-se a sair de outra forma e, de um modo geral, conseguiu impor o seu jogo habitual. E, tirando a falha de Neuer (precipitada pelo mau posicionamento de Xabi Alonso, que se esconde atrás de Morata e não dá a linha de passe que devia) a qual deixa Morata isolado, nenhuma das iniciativas de pressão alta dos italianos lhes foi particularmente útil. Umas vezes com mais qualidade do que outras, o Bayern saiu a jogar e obrigou invariavelmente a Juventus a baixar as linhas. Onde o Bayern não esteve bem foi na segunda fase de criação. Depois de sair, impunha-se que soubesse construir melhor no meio-campo adversário, e isso não conseguiu fazer. Convenha-se que, sem Thiago ou Lahm nessa zona do terreno, a equipa não o consegue fazer bem. É, a meu ver, a principal fragilidade da equipa de Guardiola neste momento, muito potenciada pelas lesões que têm afectado o plantel (Lahm está a jogar na defesa por isso, e Thiago não está propriamente com o melhor dos ritmos competitivos). Não obstante, construiu mais uma excelente ocasião de golo na primeira parte, que acabou com uma boa defesa de Buffon. Achar que o resultado ao intervalo espelhava o que as duas equipas tinham feito em campo é não saber distinguir o futebol praticado dos golos marcados pelas duas equipas.
9. A Juventus só foi a melhor equipa em campo no arranque da segunda parte. Por intranquilidade dos bávaros, que pareciam pressionados pela necessidade de fazer o primeiro golo rapidamente, falharam muito ao nível do passe e permitiram aos italianos algumas jogadas interessantes. Aí, sim, a Juventus conseguiu alguns lances minimamente decentes e - diga-se - podia mesmo ter sentenciado a eliminatória. Guardiola esperou o máximo que podia (viu-se o desagrado na sua cara num lance em que Neuer pontapeia a bola para a frente sem nexo) e acabou por decidir abdicar de alguns dos seus princípios para tentar incomodar os italianos, agora muito mais confortáveis, de outro modo. A partir do momento em que Coman entrou, o Bayern colocou ainda mais jogadores na frente e entregou a criação quer aos dois alas (Ribery e Coman), quer a Douglas Costa, que passou a jogar por fora do bloco defensivo da Juventus, quase como único médio. A mudança teve duas intenções: 1) forçar os italianos a recuar ao máximo para dentro da sua área, pois havia agora ainda mais jogadores bávaros em posições avançadas; 2) forçar situações de cruzamento para a molhada que se criara como consequência desse recuo. Ainda que tenha perdido discernimento, e tenha acumulado muitas acções sem nexo, a equipa de Guardiola conseguiu exactamente aquilo que a mudança pressupunha. E, dada a desorganização defensiva dos italianos, era uma questão de tempo até que os golos surgissem. Surgiram na sequência de dois cruzamentos, mas podiam ter surgido na sequência de remates à entrada da área (a Juventus permitiu esse espaço) ou por penetrações pelo solo (há pelo menos um passe de Douglas Costa que deixa Lahm em excelente posição dentro da área, mas a recepção trai o alemão).
10. No prolongamento, o Bayern voltou a jogar como sabe e como o fizera na primeira parte. Convicto de que aquilo que acontecera nessa primeira parte foi uma anormalidade, voltou ao que sabe fazer e controlou o jogo como quis. É assim que se joga futebol, seja contra que equipa for. Que isso só tenha sido eficaz no prolongamento é uma contingência da natureza aleatória que caracteriza o jogo. O golo de Thiago é o exemplo perfeito do que poderia ter acontecido a qualquer altura, na primeira parte, mas que não aconteceu por acaso (e talvez porque Thiago não estava em campo).
11. A defesa do Bayern, na segunda parte, era constituída por Lahm (1,70m), Kimmich (1,76m), Alaba (1,80m) e Bernat (1,70m). Sim, é possível jogar futebol ao mais alto nível com uma defesa composta por jogadores pequenos, pouco intensos e pouco agressivos. De resto, é um privilégio poder ver o que um miúdo de 21 anos consegue fazer com a bola, numa posição na qual nunca jogou, constantemente exposto ao risco. A qualidade das decisões de Kimmich, sempre à procura de um colega atrás da primeira linha de pressão do adversário, é qualquer coisa de extraordinário. Kimmich é médio de origem, e será decerto como médio que fará carreira. Para aqueles que adoram o Renato Sanches, um médio a sério é alguém que joga como Kimmich. É por jogar como joga, de cabeça levantada, à procura de colegas, e por ser tão criterioso no passe como é, que tem a facilidade que tem para jogar como central. De resto, é possível não admirar o futebol praticado pelas equipas de Guardiola. Mas é preciso ser realmente muito tacanho para não admirar a sua coragem...
Quando as coisas correm bem, e um colectivo relativamente banal consegue somar uma série de vitórias impressionante, muitas delas com goleadas, e sofrendo poucos golos, ninguém repara na absoluta banalidade dos processos colectivos que o fazem parecer forte.
Quando as coisas correm bem, e uma equipa assim recupera muito do atraso que chegou a ter para os principais rivais, reentrando na luta pelo título quando isso já parecia fora de equação, a tendência das pessoas é acreditar que tudo vai bem.
Quando as coisas correm bem, e a equipa consegue vencer quase todos os jogos contra adversários mais fracos, compensando assim as derrotas com adversários do mesmo nível, todos acham razoável que, em muitos momentos desses jogos contra adversários mais fracos, não seja importante assumir a iniciativa do jogo.
Quando as coisas correm bem, e a equipa marca 4 ou 5 golos de forma sistemática e se estabelece como o ataque mais concretizador da prova, ninguém se atreve a pensar que está longe de ser o melhor ataque da prova, ou que as ideias ofensivas continuam a ser muito pobres.
Quando as coisas correm bem, e a equipa atinge registos ofensivos que deslumbram os que se maravilham com as estatísticas, poucos são os que ousam sugerir que a competência ofensiva da equipa depende quase exclusivamente das competências individuais dos seus principais atacantes e da forma como alguns deles conseguem conseguem camuflar a banalidade dessa competência colectiva.
Quando as coisas correm bem, e a equipa sofre poucos golos e concede poucas oportunidades aos adversários, ninguém olha para o espaço entre linhas que a dupla de meio-campo, cujo posicionamento excessivamente rígido é desprezado pelos analistas e o qual só não gera problemas irresolúveis contra adversários mais débeis, concede jogo após jogo.
Quando as coisas correm bem, e um jogador banalíssimo se torna no principal motivo de regozijo dos adeptos, dificilmente se notam as faltas sistemáticas que faz, sempre que disputa um lance, a irresponsabilidade posicional que denota, as dificuldades que tem ao nível do passe, o descontrolo emocional que manifesta em diferentes momentos de jogo, ou, simplesmente, a má leitura que faz das situações de jogo em que se envolve, coisa que, por exemplo, o leva a não compreender que, quando os adversários têm a bola junto a uma linha e o colega de meio-campo corrige o seu posicionamento em função disso, o que deve fazer é corrigir o seu posicionamento em função do comportamento do colega, e não permanecer no meio do terreno, parado, a ver os adversários a trazerem a bola de novo para dentro e a aproveitarem o buraco que se criou entre ele e o colega para empatarem o clássico.
Quando as coisas correm bem, e a equipa consegue controlar a ansiedade, subir os níveis de confiança e enfrentar todo e qualquer adversário com uma intensidade assinalável, poucos são os que se lembram de que a intensidade só serve para alguma coisa enquanto houver tranquilidade e confiança, e que estas, dependendo da contingência dos resultados positivos e não do trabalho diário, tão depressa desaparecem como aparecem.
Quando as coisas correm bem, e as pessoas, não aceitando a possibilidade de estarem a correr bem apenas porque sim, acreditam que há-de haver boas razões para que estejam a correr dessa maneira e não de outra, dificilmente se poderá convencer quem assim pensa de que nenhuma equipa de futebol, nos dias que correm, pode ser bem sucedida a longo prazo com base no facto de as coisas continuarem a correr bem, e dificilmente se poderá convencer quem assim pensa de que, portanto, é apenas uma questão de tempo para que as coisas deixem de correm bem.
Quando Rúben Neves apareceu, a primeira impressão que me causou foi negativa. Quase todas as bolas que recebia eram rapidamente levadas para o flanco contrário, sem critério, a explorar às cegas o extremo aberto. Com o passar do tempo, percebi que o problema não era exactamente de Rúben Neves, mas daquilo que lhe era pedido. Não só não era o único a fazê-lo (ainda que fosse aquele que o fazia com mais frequência), como não parecia esgotar-se nisso o que sabia fazer. Hoje, Rúben Neves amadureceu e - percebe-se claramente - tem mais a dar à equipa do que a qualidade de passe longo. O Porto de Lopetegui é, porém, cada vez mais aquilo que o futebol de Rúben Neves o ano passado indiciava. O treinador espanhol gostava do jovem médio português precisamente porque lhe garantia qualidade à variação rápida de flanco, e isso é algo que sempre privilegiou acima de qualquer outra coisa. Não gostei particularmente do seu trabalho na selecção espanhola justamente porque, apesar da enorme qualidade dos jogadores que tinha ao seu dispor, a equipa parecia tender a privilegiar a variação de flanco e o passe longo em detrimento da progressão vertical, pelo centro do terreno. Com os grandes médios nesse selecção, esse privilégio não era tão acentuado e, claro, a equipa ia fazendo bem outras coisas. O mesmo aconteceu o ano passado. Com Oliver e Herrera no meio (a jogar como médios e nunca na posição de segundo avançado) o Porto fazia muito mais do que abrir no flanco e confiar no um para um dos extremos. Apesar dos lançamentos longos dos centrais e do médio defensivo, a bola entrava frequentemente nos médios (muitas vezes vinda desses extremos) e estes punham a equipa a jogar pelo meio, aproveitando os movimentos de aproximação de Jackson e o trabalho entre linhas de Brahimi (ou mesmo de um dos médios). Este ano, pelo contrário, o Porto é o rosto de Lopetegui. Já não havendo médios virtuosos a estragar os planos ao espanhol, o futebol da equipa é, finalmente, aquilo que idealiza: bola longa nos extremos, normalmente a cruzar o campo todo para dar o mínimo de tempo à basculação do adversário, o extremo a receber com qualidade, a ficar com espaço no um para um, a encarar o opositor directo, normalmente flectindo para o meio enquanto o lateral lhe entra nas costas, e os médios a fazerem movimentos verticais, de aproximação às zonas de finalização. O Porto de Lopetegui é isto e só isto. E só não foi sempre isto porque antes as unidades o disfarçavam. Os seus médios servem essencialmente para pressionar e para se aproximarem de zonas de finalização. A construção da equipa é reduzida ao mínimo, e trocada pela bola longa e pela variação constante do flanco. Numa equipa grande, mesmo com extremos muito fortes no um para um, como é o caso de Brahimi e Corona, isto é pouquíssimo.
O Sporting de Jorge Jesus é o oposto disto, e ontem, no clássico, a diferença ficou bem evidente. Jesus privilegia o jogo interior, a progressão pelo centro, apoiada, e a sua equipa não só joga de modo mais compacto e unido como as suas competências ofensivas não se limitam à capacidade individual dos seus jogadores. Mesmo com Carrillo, no início da época, a tendência era para jogar por dentro. O peruano foi sempre forte no um para um, e seria fácil a Jesus trabalhar como Lopetegui, procurando potenciar as situações de um para um com Carrillo como protagonista. A verdade é que nunca o fez, e viu-se Carrillo a jogar sistematicamente por dentro (devo, aliás, dizer que o peruano me surpreendeu, em termos de criatividade em zonas de terreno densamente povoadas). Ao chegar a Alvalade, Jesus procurou desde o início sustentar o seu modelo no jogo interior da equipa, e esse é o principal segredo do seu sucesso presente. Mesmo sem Carrillo, que decerto resolveria bastantes problemas à equipa, o Sporting é a melhor equipa do campeonato porque joga essencialmente sem extremos. Além de tudo o que Jesus faz bem (o comportamento da linha defensiva, a forma como a equipa junta as linhas sem bola, o início da construção, etc.), e que fez sempre bem ao longo dos 6 anos que passou na Luz, o jogo interior deste Sporting é talvez o mais parecido com aquele que apresentou no primeiro ano de Benfica. Ao contrário de alguns treinadores, que se transformam irremediavelmente ao longo das suas carreiras, é bom ver que Jesus pode recuperar algumas das coisas que ajudaram a consagrá-lo. Se Jesus me foi desiludindo de época para época, no Benfica, este regresso às origens merece o meu aplauso.
Que o Sporting pareça hoje uma equipa muito mais confiante e adulta do que no passado não é mérito de Jesus enquanto líder. Há sempre a tendência para achar que, quando os jogadores denotam confiança, é porque o treinador, dotado de competências psicológicas notáveis, os sabe incentivar. Não. O mérito é de Jesus enquanto treinador. Os jogadores parecem mais confiantes porque o modelo de jogo os beneficia. Como lhes é mais fácil fazerem aquilo que os faz parecer melhores, é natural que sintam e transpirem mais confiança. A liderança, em futebol, é um mito, e faz-me sempre muita confusão que se atribuam competências de líderes a treinadores que não sabem nada do jogo. Os treinadores não são feiticeiros. Não é com palavras que se lidera; é com ideias. O treinador pode berrar muito, pode ser muito amigo dos jogadores e pode até saber encorajar os seus altetas a fazer o que outros atletas não conseguem. Se o seu modelo de jogo não lhes permitir que se destaquem, os jogadores só terão confiança enquanto as circunstâncias forem favoráveis. Actualmente, os jogadores do Sporting parecem cinco anos mais experientes, mais inteligentes e mais confiantes do que há um ano atrás. Porquê? Porque o modelo de jogo em que estão inseridos potencia amplamente as suas qualidades. E, na base desse modelo de jogo, está o privilégio do jogo interior. Insistindo tanto nesse jogo interior, privilegiando os movimentos de aproximação e não os de afastamento, preferindo fazer a bola chegar ao flanco contrário com vários passes e não com um pontapé longo, fazendo com que os seus jogadores se agrupem no centro em detrimento de esticar ao máximo as linhas, o Sporting troca melhor a bola, está melhor preparado para a perda dela, mantém-se mais compacto, cria a sensação de uma maior solidariedade entre os seus jogadores e, sobretudo, trabalha melhor os seus lances de ataque, desposicionando com maior facilidade os defesas e os médios contrários. É isto tudo que dá confiança a cada um dos atletas, não as palavras mágicas do treinador durante a semana, antes do jogo ou ao intervalo.
A contratação de Bryan Ruiz foi, de resto, o momento-chave da época. Sem Ruiz, o Sporting seria uma equipa bem organizada e talentosa, e continuaria a ter, no último terço do terreno, alguns jogadores criativos, capazes de tabelar, de procurar apoios frontais e de encontrar soluções colectivas para furar as defesas adversárias. Mas, à excepção de João Mário, nenhum outro desses jogadores parece agradar a Jesus a ponto de ser uma aposta incondicional (Matheus e Gelson, pela juventude, Montero e Aquilani certamente por outras razões). Bryan Ruiz tem sido uma aposta continuada e, a meu ver, o melhor jogador do Sporting. Além das competências tácticas e da inteligência, é o jogador que melhor compreende a importância dos colegas para desequilibrar as defesas adversárias, quer os use como apoios, para tabelas, quer aproveite os seus movimentos sem bola, quer lhes solicite a desmarcação. Não há um drible que tente, por exemplo, que não seja motivado por aquilo que os colegas lhe oferecem. Em termos ofensivos, é o jogador mais criativo da equipa, e, mesmo sem ser excepcionalmente forte no um para um, é pelos seus pés que passa quase tudo o que a equipa faz de realmente invulgar. Sim, é verdade que João Mário é finalmente o médio de ataque que eu comecei por duvidar que pudesse vir a ser (desde que apareceu que me parecia poder vingar sobretudo como médio-defensivo), e é verdade que tem momentos de criatividade assinaláveis, mas é em Bryan Ruiz que reside o melhor exemplo do que é um médio-ofensivo verdadeiramente criativo. Se o modelo de jogo permite que cada um dos jogadores do Sporting potencie as suas capacidades, a criatividade de Ruiz permite que a equipa não seja apenas, sobretudo no último terço do terreno, a soma dessas capacidades assim potenciadas. O costa-riquenho dá à equipa aquilo que Jesus, no passado, nem sempre valorizou, e é também por isso que o Sporting me parece o principal candidato à conquista do título de campeão. Quando a um modelo de jogo baseado no jogo interior se junta esta quantidade de criatividade, é natural que uma coisa potencie a outra, e que a equipa fique mais próxima do sucesso.
Há imagens que valem por mil palavras. A Liga Inglesa é, pelo investimento que hoje envolve, a liga com mais potencial no mundo. Não obstante, o futebol praticado continua a ser, em larga medida, deplorável. A minha teoria - há muito que a defendo - é a de que a mentalidade desportiva não tem permitido que o jogo evolua. Apesar de a quantidade de grandes jogadores continuar a aumentar, apesar do investimento estrangeiro ser cada vez mais comum, e apesar de, finalmente, começarem a ser contratados treinadores estrangeiros não apenas para as principais equipas, o futebol inglês continua amarrado a um conceito de desporto que, no limite, é contraproducente. A predilecção pela velocidade ou pelo músculo em detrimento do cérebro, pelas qualidades atléticas dos jogadores e não pelas suas qualidades intelectuais, a insistência absurda em defender que o futebol é um jogo de contacto, cuja principal consequência é um modelo de arbitragem que, grosso modo, beneficia os toscos e prejudica os artistas, e, sobretudo, a cegueira a que a generalidade dos intervenientes são conduzidos pela emoção desmesurada com que o jogo é encarado continua a dificultar a evolução do futebol britânico.
É possível apresentar um bom retrato do que acabo de dizer. Num dos últimos lances do encontro que opôs o Liverpool de Klopp ao sensacional líder do campeonato, o Leicester City de Ranieri, a equipa visitante procura chegar ao empate, e Kasper Schmeichel sobe para a grande área. A bola acaba por ser sacudida pela defensiva do Liverpool e sobra para Kanté, penúltimo defensor do Leicester, que se prepara para a reenviar para a área. Tudo o que acontece de seguida é o espelho de um campeonato da idade da pedra. Embora absurdo, não me interessa muito nem a falta claríssima sobre o jogador do Leicester (um dos muitíssimos contactos faltosos que, ao longo do jogo, não foram punidos pelo árbitro da partida e que, ajudando a criar a ilusão de que o jogo foi muito disputado e intensíssimo de parte a parte, retiraram a meu ver todo o interesse à partida, quer do ponto de vista técnico, quer do ponto de vista táctico), nem o falhanço clamoroso de Benteke, que não soube aproveitar uma situação de clara vantagem numérica. Interessa-me, sim, o que acontece entre esses dois momentos. Refiro-me ao passe que faz a bola entrar em Benteke.
Que nenhum elemento, das três equipas que se encontravam em campo, tenha percebido a irregularidade do lance, nem no momento em que ele decorria, nem depois de ele ter terminado, diz tudo do futebol que se pratica em Inglaterra. Nem o árbitro, nem o fiscal de linha, nem o jogador do Liverpool que faz o passe, nem o jogador do Liverpool que o solicita, nem nenhum outro jogador do Liverpool, nem o defesa do Leicester que ficara para trás com a subida do guarda-redes, nem o guarda-redes que vem a correr desalmadamente, nem qualquer outro jogador do Leicester (ninguém protesta!), percebeu que um passe para um jogador que, estando à frente da linha de meio-campo, tem à sua frente apenas um defensor, é um passe irregular. Consigo admitir que um árbitro interprete mal um lance, sobretudo se esse lance não for muito vulgar (a invulgaridade, aqui, era o último defensor não ser o guarda-redes). Um fiscal de linha, contudo, já não deveria falhar, nesse tipo de coisas, pois tem menos tarefas nas quais se deve concentrar. De qualquer modo, não é do erro da equipa de arbitragem que é importante falar. Que ninguém dentro das quatro linhas (e aposto que nas bancadas também não houve muita gente a aperceber-se da irregularidade do lance) tenha percebido a posição de fora-de-jogo da qual Benteke tira proveito é, a meu ver, o melhor retrato possível do que vai mal no futebol inglês. Nos estádios ingleses, a inteligência fica nos balneários. Enquanto isso não mudar, dificilmente o futebol inglês atingirá o patamar qualitativo a que o potencial económico o promete alçar.
Ontem, diante do Atlético de Madrid, houve um jogador encarnado que se destacou. Não, não foi Renato Sanches. Lamento desapontar todos aqueles que aplaudiram de pé a iniciativa esplendorosa do Renato quando, já perto do fim do jogo, decidiu empolgar as bancadas do circo e pegou na bola, passou por cima de meia-dúzia de adversários, aos trambolhões, e, depois de perder a bola, como era natural que acontecesse, mordeu a língua, foi atrás do adversário, recuperou-a, arrancou de novo com ela e... passou a linha lateral. O momento, gravado na emoção das pessoas com carinho, e na História do jogo como o mais ridículo, constitui o exemplo perfeito do quão absurdo é tudo o que se diz e pensa acerca do jogo nos dias que correm. O Benfica empolgou-se depois de reduzir, e o Renato, sentindo que, sendo o momento de fazer das tripas coração, podia deixar de pensar no que estava a fazer, como até então, decidiu que era uma boa altura para começar a correr desalmadamente. Nas bancadas, gosta-se de quem o faz, ainda que o faça sem nexo. As arrancadas de Renato Sanches são, de facto, poderosas. As suas competências atléticas são invejáveis, e consegue ganhar muitas bolas à custa disso. É pena que o futebol não seja nada disso, e que a um jogador de futebol se exijam, sobretudo, competências intelectuais. Sim, é verdade que, em algumas das arrancadas do Renato, deixou dois ou três adversários para trás. Mas, para que isso acontecesse, teve sempre de ganhar no choque e de esticar o drible, o que o obrigava a disputar a bola no limite com o adversário seguinte... até a perder. Sim, é verdade que ganhou dois cartões com base nesse tipo de iniciativas. Mas também perdeu inúmeras bolas que, jogando com a cabecinha e não com o músculo, não perderia. Nas bancadas, isso não interessa. Interessa, sim, que o Renato faça lembrar o Eusébio contra a Coreia, mesmo numa altura em que correr com a bola e passar por vários adversários em força já não traga quaisquer dividendos à equipa. Sim, o Renato é um anacronismo, e o que as bancadas da Luz aplaudiram, sem que o soubessem, foi a História do Clube.
O melhor em campo, ontem, não foi o Renato. Foi o Pizzi. De muito, muito longe. E quantos aplausos mereceu o Pizzi ontem? As pessoas não gostam de futebol. Gostam de circo. De tal maneira que o melhor que o Renato fez em campo foi aquilo em que praticamente ninguém reparou: a simplicidade com que jogou durante os primeiros 60 minutos. Sempre que o Renato decidiu complicar (e a partir dessa altura foi muito) o seu futebol perdeu qualidade. Aliás, aquilo que mostrou a partir do momento em que se passou a jogar mais com o coração do que com a cabeça parece ser a tendência natural do jogador. Retraído, por estar a dar os primeiros passos na equipa principal, Renato Sanches até tem feito boas coisas. Tem decidido rápido, tem jogado simples, tem limitado o seu jogo a fazer a equipa jogar. Também ajuda o facto de o Benfica jogar em 442 clássico, e de o Renato ser forçado a jogar sistematicamente fora do bloco adversário. Num ou noutro momento, quando em circunstâncias diferentes (em zonas de terreno mais povoadas, com menos soluções de passe fáceis) ou quando o coração dita o ritmo de jogo, vê-se, no entanto, qual é a tendência natural do Renato: transportar, driblar, ir ao choque. Não há a tendência, por exemplo, para procurar o apoio frontal em progressão, ou para solicitar uma tabela; não há a tendência para progredir com a cabeça levantada, esperando que um colega o ajude a tomar a decisão através de uma desmarcação; não há a tendência para progredir lentamente, acelerando apenas no momento em que o adversário lhe sai ao encalce, jogando assim com a expectativa de quem lhe tenta tirar a bola (veja-se o que o Draxler fez ontem no segundo golo do Wolfsburgo). Isto para não falar do seu posicionamento e da forma como falha sistematicamente em ajustá-lo à rápida alteração das circunstâncias do jogo, como o demonstra, por exemplo, o primeiro golo do Atlético de Madrid ontem. Que ninguém tenha sequer percebido que foi ele que, enquanto segundo médio, falhou em povoar o espaço à frente da defesa, ainda para mais com o deslocamento de Jardel, diz muito acerca da euforia que se gerou à sua volta. É que falhou nesse lance e falhou em muitos outros parecidos. É verdade que o 442 clássico de Rui Vitória torna difícil esse tipo de ajustamento constante, e ontem o Benfica deu sempre espaço nas costas dos dois médios. O próprio Simeone ter-se-á apercebido disso, e foi para aproveitar essa deficiência que Griezman passou a jogar solto no meio a partir dos 20 minutos de jogo, com os benefícios que se viram.
O Renato é um médio de transporte clássico. E, não sei se as pessoas ainda não repararam, mas já há algum tempo que o futebol dispensou esse tipo de médios. Há uns anos, havia um médio em Portugal que se destacava pelas arrancadas com bola, através das quais tirava dois ou três jogadores do caminho. Quase toda a gente garantia que estaria entre os melhores do mundo dentro de poucos anos. Teve a sorte de sair para o único campeonato do mundo que ainda se compadece com médios de transporte, o inglês, e teve a sorte de poder jogar a partir da posição de médio, num 442 clássico, e não como médio ofensivo, entre linhas, posição em que dificilmente as suas qualidades teriam relevância. Em poucos anos, tornou-se num jogador banalíssimo. Chamava-se Anderson. O Renato não é especialmente diferente. Não é tão evoluído tecnicamente, o que talvez obste a que possa fazer carreira numa ala (posição em que Anderson talvez pudesse ter tido mais sucesso), e parece mais forte fisicamente, o que não sei se é uma vantagem. Mais ou menos na mesma altura, havia em Portugal, e no Benfica, um médio que muita gente começou por apreciar e que se destacava precisamente por transportar e ir ao choque. Chamava-se Beto. É verdade que o Renato me parece tecnicamente mais evoluído do que o Beto. Mas lembro-me bem do impacto que o brasileiro teve quando chegou à Luz, do quão empolgadas as pessoas andavam com a forma física, a capacidade de luta e a força natural do Beto. É exactamente isso que apreciam no Renato Sanches. Ainda que o Renato me pareça francamente melhor do que o Beto, aquilo pelo qual tem sido elogiado não é em nada diferente daquilo que levava as pessoas a confundir o Beto com um jogador de futebol. Actualmente, há um jogador em Portugal do estilo do Renato. Chama-se Imbula e custou 20 milhões de euros. Tanto um como outro, tendo obviamente algumas qualidades, me parecem sobrevalorizados. São essencialmente médios de transporte, competentes do ponto de vista técnico e muito fortes fisicamente. O futebol, contudo, joga-se com a cabeça, e não há médio moderno de eleição que não tenha nas competências intelectuais a sua principal virtude.
O futebol moderno requer essencialmente dois tipos de médios: médios que se distinguem pelo posicionamento, pela simplicidade de passe e pelo compromisso que conseguem manter de não forçar a entrada no bloco adversário, e que fazem carreira como médios-defensivos (jogando como pivot defensivo ou de perfil com outro médio); e médios que se distinguem pela criatividade, pela imaginação e pela capacidade de se movimentarem dentro do bloco adversário e de decidirem em espaços curtos. Renato Sanches não parece especialmente vocacionado para nada disto. Pertence a um terceiro tipo de médios, que, em boa verdade, continua a ser apreciado em muitos sítios e por muita gente, mas dos quais dificilmente se destaca um nome, nos dias que correm. A este terceiro grupo pertencem os médios de transporte, como é o caso do Renato, mas também os médios de combate, sobretudo vocacionados para tarefas defensivas, e os chamados "box-to-box", médios que se distinguem especialmente pelas capacidades sem bola, pela forma como recuperam o posicionamento defensivo, como facilitam a transição ofensiva ou como chegam com velocidade à área adversária. É provável que não haja um médio deste terceiro tipo entre os 20 melhores médios do mundo desde Patrick Vieira (talvez tenha havido o Essien, durante duas épocas). Mesmo Yaya Touré, que é vulgarmente tido como médio de transporte, não cinge o seu jogo a isso, sendo muito perspicaz, por exemplo, na maneira como se envolve em triangulações com os colegas. No futebol moderno, os melhores de entre este terceiro tipo de médios estão ao nível dos razoáveis dos outros dois tipos. Do Renato Sanches não espero, por isso, muito mais do que um médio razoável. Toda a euforia em torno dele é profundamente injustificada, e vem apenas confirmar que só por acaso é que o halterofilismo não é o desporto-rei em Portugal.
P.S. Os últimos minutos do jogo deram a impressão de que o Benfica conseguiu discutir o resultado com o Atlético de Madrid, e foi isso que, em larga medida, quase toda a gente disse. Se calhar vi um jogo diferente, mas pareceu-me que o Atlético, sem fazer um jogo extraordinário, podia facilmente ter saído da Luz com uma goleada. Valeu Lisandro, com três ou quatro antecipações providenciais, o facto de a equipa de Simeone não estar entre as melhores do mundo a aproveitar o espaço entre a linha defensiva e a linha de meio-campo e o desinteresse dos espanhóis em ter a bola ao longo de todo o jogo.
Sergi Roberto é um dos médios espanhóis mais promissores. Já tinha falado do seu talento anteriormente aqui, e continuei sempre a pensar o mesmo. Ainda assim, a sua afirmação tem sido adiada época após época. Depois da saída de Fabregas e Thiago Alcântara, parecia chegada a altura dele, mas tal não foi o caso, e cheguei a pensar que o seu destino não seria muito diferente do de Jonathan dos Santos, outro médio talentoso cuja evolução estagnou por falta de oportunidades. À partida para esta época, e mesmo com a saída de Xavi, Sergi Roberto parecia ser apenas o quarto médio (as primeiras três opções para o lugar de médio ofensivo, no Barça, eram claramente Iniesta, Rakitic e Rafinha) e, pelas indicações dadas na pré-época, parecia poder jogar mais tempo a lateral direito do que propriamente a médio. Foi assim, aliás, que começou a dar nas vistas, aproveitando a lesão de Dani Alves para aparecer em grande nível, como se tivesse sido lateral toda a vida. A inteligência e a criatividade são os seus principais atributos, e Sergi Roberto parece um exemplo feliz de como isso é tudo o que um jogador de futebol realmente precisava para poder vingar, seja qual for a posição. Apesar de nunca ter sido lateral, parecia saber exactamente o que fazer em cada situação, e foi mesmo o melhor em campo em vários jogos. O regresso de Dani Alves à actividade parecia, contudo, votar Sergi Roberto ao banco de suplentes, e durante algum tempo as suas excelentes prestações não pareciam ter sido devidamente reconhecidas. A lesão de Rafinha permitiu-lhe, porém, alguma utilização como médio, e a lesão mais recente, de Iniesta, contribuiu para que fosse presença assídua no meio-campo do Barça. E o que Sergi Roberto fez, nos últimos jogos, foi o suficiente para tornar difícil a vida a Luis Enrique a partir de agora. No último fim-de-semana, acrescentou à regularidade exibicional uma preponderância ofensiva muito assinalável: além do muito que tem jogado, foram dele as duas assistências para os dois golos com que o Barcelona venceu o Getafe. A primeira, então, é qualquer coisa de sublime, e merece todo o destaque.
Sergi Roberto pertence a um tipo de jogador que, não obstante o talento inegável, parece acusar alguma timidez. Sou defensor de que, numa equipa de futebol, cada jogador deve ter um tratamento diferenciado. Havendo perfis (psicológicos, atléticos, etc.) diferentes, há naturalmente quem mereça uma oportunidade e há quem mereça dez. Um jogador mais tímido, por exemplo, precisa de mais tempo para se sentir confortável dentro de uma equipa e, portanto, precisa de mais tempo para mostrar as suas qualidades. Um jogador mais irreverente, pelo contrário, precisa de menos tempo. Até pelo talento que lhe era reconhecido quando jovem, Sergi Roberto foi sempre permanecendo em Camp Nou. Ainda assim, não se soube, durante largas épocas, tornar confortável ao jogador a sua posição na equipa, e ele continuou incapaz de se livrar da sua timidez. E, se não fosse pela circunstância das várias lesões que fustigaram o plantel às ordens de Luis Enrique, ainda não era esta época que se afirmaria. O caso de Sergi Roberto é, também por isso, muito relevante para se perceber por que é que certos jogadores que parecem destinados ao sucesso acabam por passar ao lado de grandes carreiras.
O melhor exemplo que poderia dar como comparação é o de Bruno Pereirinha. É, de longe, o jogador português mais talentoso da sua geração, e está condenado a uma carreira irrisória. Até apareceu bem no Sporting, com a confiança que advinha de terem muitas expectativas a seu respeito, mas aos poucos foi acusando a sua timidez natural. Se ao seu talento somasse a irreverência que outros têm, a sua carreira teria decerto sido diferente. Podia não ter chegado ao nível a que poderia chegar, dada a conjuntura difícil que encontrou no Sporting, mas teria certamente merecido outro género de aposta, nos mais diversos clubes. A sua timidez levou, inicialmente, a considerar que nem sequer era médio, sendo a lateral que quase todos acreditavam que podia evoluir. Até por aí o seu caso é semelhante ao de Sergi Roberto. A inteligência, como a do espanhol, permitia-lhe jogar a lateral com facilidade, e as pessoas acabaram por considerar que essa era a sua melhor posição. Não era. Como não é a de Sergi Roberto. Tem facilidade nesse lugar, porque tem um talento fora do comum e porque percebe o jogo com facilidade, mas é médio. Como Sergi Roberto é. E é como médio que se espera que Sergi Roberto evolua. No início da carreira no Barça, Iniesta passou por problemas semelhantes. O perfil psicológico dos dois não é, aliás, muito diferente. E o talento, por sinal, também não. A diferença estará sempre na evolução, e nas circunstâncias que a possibilitem. Sergi Roberto já mostrou que merece a aposta, e cabe ao treinador e ao clube perceber que um jogador, por melhor que seja, precisa de que acreditem nele e de que o deixem descobrir, por si, como acomodar a sua timidez com a sua qualidade. A meu ver, o futuro do meio-campo espanhol passa necessariamente por ele e seria um desperdício não o ver, daqui a poucos anos, a comandar a selecção do país vizinho ao lado de Thiago Alcântara e de Oliver Torres.
O Benfica de Rui Vitória é, até à data, pouco mais do que um conjunto de jogadores espalhados num campo de futebol. A conclusão não é tardia nem motivada pelo descalabro do último fim-de-semana; em abono da verdade, foi o que tem vido a ser, jogo após jogo, desde o início do campeonato. Os resultados e a confiança que eles trazem mascararam essa realidade, criando a ilusão de que a equipa estava a crescer enquanto equipa. Não estava. O Benfica de Rui Vitória, até à data, não cresceu rigorosamente nada. Luís Freitas Lobo, por exemplo, acredita que este Benfica, em comparação com o de Jesus, é mais compacto e equilibrado, joga com as linhas mais juntas e é capaz, por isso mesmo, de jogar de forma mais pausada. É inacreditável que se possa sequer acreditar nisso. Basta ver 10 minutos de um jogo do Benfica de Rui Vitória para se perceber que o portador da bola é invariavelmente deixado ao abandono, que os homens sem bola raramente fazem movimentos de aproximação, que os alas e os avançados pouco ou nada são encorajados a invadir espaços interiores ou a baixar, que a tendência é para ocupar o máximo de espaço no terreno de jogo e que a inferioridade numérica no meio-campo, decorrente da insistência num modelo de jogo que requer necessariamente formas de compensar essa inferioridade é sempre, mas sempre, perniciosa para a equipa. O Benfica de Rui Vitória, até à data, é uma perfeita nulidade enquanto equipa.
Dois ou três resultados gordos (um deles construído nos últimos 20 minutos) e uma vitória inesperada em Madrid, conquistada às custas de 90 minutos a defender e de um Júlio César intransponível, não deveriam ser suficientes para se tirarem ilações positivas deste Benfica. Como sempre, as pessoas fiam-se nos resultados, e depois acontecem coisas que não conseguem explicar. A derrota humilhante deste fim-de-semana, uma das mais pesadas de sempre do Benfica em casa, não foi surpreendente, porém, para quem vê o que é importante ver. O Sporting ganhou com justiça, sem sequer fazer um jogo extraordinário. Foi eficaz e soube potenciar os erros do modelo do Benfica. Mas, mesmo que o não fosse, bastaria ocupar relativamente bem os espaços, coisa que as equipas de Jesus costumam saber fazer, para ter o domínio relativo do jogo. Tal como na Supertaça, o Sporting foi superior ao Benfica essencialmente porque foi uma equipa mais equilibrada em cada momento do jogo. Isso é o princípio de tudo. Sem ter sequer feito da troca de bola um modo de desposicionar o Benfica, bastou ao Sporting esperar que os encarnados, tendo que assumir as despesas do jogo, se desorganizassem por si. E assim foi. O Benfica foi sempre uma equipa desorganizada, tanto a defender como a atacar; teve sempre menos gente na zona da bola; nunca se preocupou com os apoios recuados ou com os apoios laterais, deixando o portador da bola sem outra solução que não o apoio vertical; defendeu sempre demasiados metros em largura quando a bola entrava nas alas, o que criava espaços excessivos entre os jogadores (veja-se o espaço entre os centrais no segundo golo, potenciado por uma linha defensiva demasiado centrada quando a bola está encostada à linha esquerda); etc..
Para dar um exemplo do que é o Benfica de Rui Vitória, note-se a falta de rede no meio-campo, no terceiro golo do Sporting: o médio que incia a jogada não tem atrás de si nenhum outro médio, a dar um apoio recuado e a oferecer a cobertura numa eventual perda de bola, assim como não tem ninguém à sua direita, em cerca de quarenta metros, a não ser o lateral, que procura abrir. Assim é muito fácil ao adversário prever a opção do portador da bola. A antecipação que origina a perda de bola não é demérito do portador nem do receptor, nem sequer é mérito do defesa sportinguista; é demérito colectivo do Benfica. O principal motivo da perda da bola é a desorganização colectiva que torna fácil ao adversário ler o lance. A agravar a situação, os centrais estão muito longe do portador da bola e do meio-campo, ficando, por conseguinte, incapacitados de reagir rapidamente à perda. No lance do terceiro golo, as pessoas vão crucificar o médio que cometeu a imprudência de fazer um passe à queima, ou o atacante que teve o desmazelo de se deixar antecipar, ou até mesmo o lateral direito, Sílvio, que demorou a reocupar a sua posição depois de a equipa ficar sem a bola, apesar de ser o único que, no momento ofensivo, se preocupou em dar uma solução de passe ao portador da bola (o que o deixou naturalmente em condições deficientes para recuperar rapidamente). As pessoas vão crucificar qualquer um destes três, ou mesmo qualquer um dos outros jogadores que estavam em campo, pois não são capazes de perceber que um jogador joga aquilo que o colectivo lhe permitir jogar. As pessoas vão crucificar os jogadores, mas o principal responsável é Rui Vitória. O Benfica de Rui Vitória é, até à data, aquilo que foi exemplarmente neste jogo: pouco mais que nada.
P.S. O que pude ver do arranque da época fez-me antecipar, desde muito cedo e sem grandes hesitações, que o Sporting era o principal candidato ao título, este ano. Ainda que essa convicção tenha ficado enfraquecida depois do afastamento de Carrillo, possivelmente o melhor jogador do arranque de temporada leonino, creio que continuo a subscrever esse prognóstico.