quarta-feira, 2 de março de 2011

Conversa da Treta

De há uns anos para cá, tem-se acentuado a tendência de se privilegiar treinadores académicos a treinadores que foram ex-jogadores ou que fizeram carreira dentro do futebol. Com o fenónemo Mourinho, essa tendência ganhou ainda mais relevância. Acho esta divisão uma patetice. Há bons e maus treinadores nos dois lados da barricada. A academia garante tanta competência quanto a experiência dos relvados, ou seja, nenhuma. Ler muito, adquirir muitos conhecimentos, ter tido contacto com os mais recentes estudos não tem relação directa com a competência de um treinador. Não é a forma como a pessoa se instrui que advoga a sua qualidade, mas as ideias que possui e, em suma, a sua inteligência.

Os partidários da academia são ainda religiosamente favoráveis à metodologia de treino da moda: a periodização táctica. O problema da periodização táctica não é a periodização táctica, mas o que cada um acha que é a periodização táctica e a importância excessiva da discussão acerca dela. Há os que acham que ela é a coisa moderna que os modernos devem modernamente seguir, para não passarem modernamente por antiquados. Estes são os mais estúpidos, aqueles para quem, no fundo, trabalhar em periodização táctica é a única coisa que faz sentido, ainda que não saibam explicar porquê. Dizem-se adeptos da periodização táctica porque sabem que é a metodologia que corresponde ao que é moderno e porque faz lembrar Mourinho. Depois, até sabem mais ou menos em que consiste, mas não percebem que benefícios se podem extrair dela que não os óbvios. São, no fundo, fanáticos, pessoas que gostam de uivar que as equipas não devem ter preparadores físicos, que subir escadas não faz sentido nenhum e que o que interessa é treinar situações de jogo. Ouviram dizer estas coisas e agora repetem-nas, crendo-se diferentes.

Antes de prosseguir, queria deixar claro que a metodologia de treino é apenas um ingrediente e não tem o peso que estes fanáticos pretendem que tenha. Acho que, em teoria, há coisas que mais facilmente se adquirem treinando segundo a periodização táctica, mas acho também que há riscos enormes que dificilmente os fanáticos saberão acautelar. Agora, o que me parece importante referir é que se trata apenas de uma metodologia, ou seja, da maneira como se educa uma equipa. A conversa sobre metodologias centra-se no "como". Mais importante que essa conversa é uma que se centre no "quê". Um treinador que ache que a melhor maneira de chegar à baliza adversária é através da solicitação do seu ponta-de-lança de dois metros, utilizando um jogo directo, pode ser o melhor do mundo a operacionalizar treinos em periodização táctica, mas nunca será um grande treinador. É o melhor do mundo apenas a ensinar certos comportamentos à sua equipa. Falta saber se esses são os comportamentos que mais interessam à equipa. Treinar em periodização táctica não significa, por isso, treinar bem. Significa apenas treinar de modo diferente. Jaime Pacheco, se de repente aderisse à periodização táctica, continuaria a ser Jaime Pacheco. Continuaria a dar preferência ao músculo, embora agora não desse sovas aos seus jogadores e os pusesse antes a entrar duro uns sobre os outros, em exercícios com situações de jogo. E continuaria a ser um treinador sem ideias. A conversa abstracta sobre metodologia, por isso, é uma conversa frívola. O que interessa são as ideias. Se as houver, depressa se perceberá quais os melhores exercícios para as pôr em prática.

Dito isto, acho que o treino analítico, puro e duro, tem os dias contados. Por treino analítico entendo treino que divida as componentes física, técnica, táctica e psicológica e que as ministre separadamente. O treino analítico entende, por exemplo, que a componente táctica se subordina às componentes física e técnica, sendo por isso necessário preparar os atletas fisicamente e tecnicamente para que possam depois adquirir preparação táctica. Não acredito nisto porque acho que o jogo é específico e a melhor preparação é aquela que tem em conta todas as componentes em simultâneo. Não significa isto que não possam nem devam haver exercícios descontextualizados, que não deva haver trabalho adicional de ginásio, etc. O treino deve-se centrar sobre o comportamento, a decisão (e isso é tão táctico quanto técnico, físico e psicológico), mas não tem necessariamente de ser exclusivamente contextualizado. Ou seja, um exercício de posse de bola descontextualizado, sem as referências da situação de jogo, como sejam a baliza e o posicionamento relativo dos colegas, tem potencialidades que o melhor exercício de posse de bola contextualizado não tem: potencia situações imprevistas e obriga os jogadores a arranjar soluções inovadoras, estimulando por isso a criatividade e não forçando habituações excessivas. Do meu ponto de vista, o que é mais importante é educar o comportamento dos jogadores, obrigá-los a pensar e a descobrir por si quais as melhores soluções para cada lance. A periodização táctica pode funcionar, sobretudo para algumas coisas, mas pode também dificultar essa educação. É sobre as benefícios e os malefícios deste tipo de treino que pretendo falar em seguida.

Benefícios

Não vou falar de benefícios gerais, pois esses parecem-me conceptualmente errados. Dizer que a especificidade da periodização táctica é melhor do que a falta de especificidade do treino analítico não quer dizer nada e carece de explicação. A especificidade, a meu ver, é útil para certas coisas, mas prejudicial noutras. Vou antes referir aspectos em que me parece que a metodologia da periodização táctica pode potenciar a aprendizagem. Uma vez que o treino assenta sobre comportamentos, são os comportamentos colectivos que esta metodologia mais pode potenciar. Por exemplo, operacionalizar uma defesa à zona que tenha por referências a posição da bola, a baliza e o posicionamento dos colegas tem tudo a ganhar se trabalhado de um modo estritamente contextualizado. Aliás, algo que requer tanta coordenação entre tantos elementos só pode funcionar plenamente se trabalhado de modo contextualizado. Trabalhar a defesa à zona, porque se trata de um comportamento colectivo, é um dos benefícios da periodização táctica. Os atletas adquirirão rotinas de posicionamento e comportamento que dificilmente adquiririam sem o treino específico. O mesmo se passa em situações de transição defensiva e ofensiva. Uma equipa pretende que, no momento da recuperação de bola, o avançado se desloque do centro para a direita e que a bola seja posta nesse local para se iniciar a transição. O treino específico e contextualizado irá potenciar essa aprendizagem. Em suma, a metodologia da periodização táctica é benéfica para todo o comportamento colectivo que requeira repetição e sistematização. Mas nem tudo em futebol requer repetição e nem sempre a sistematização é benéfica.

Malefícios

Uma das principais críticas à periodização táctica consiste em defender que uma metodologia que se baseia na repetição de estímulos atrofia a criatividade e a capacidade de improvisação do atleta. Acho a crítica injusta porque aquilo que se pretende não é que o atleta se comporte sempre da mesma maneira, mas que a equipa tenha comportamentos padronizados. Isto é, a periodização táctica serve para criar hábitos nos comportamentos colectivos, não nos comportamentos individuais. Serve para criar soluções colectivas sistemáticas e para oferecer, por sistema, as mesmas várias soluções ao portador da bola, não para obrigar o portador da bola a decidir sempre da mesma maneira. Isto não implica que isto não seja um perigo. E tenho sérias dúvidas que a maioria dos treinadores entenda esta ténue diferença. A periodização táctica, para muitos, serve para cultivar o estímulo que entendem ser o mais correcto em cada atleta. Com isso, atrofiam-lhe a capacidade de decisão. Um dos malefícios, portanto, da periodização táctica, está no facto de a especificidade poder travar a criatividade. Mas há mais. Acho a crítica acima injusta, mas acho também que há um lado da mesma que interessa ter em atenção. O comportamento colectivo, em futebol, depende de duas coisas: do comportamento de cada um dos elementos desse colectivo e da relação entre cada um desses elementos. A periodização táctica é especialmente útil para melhorar este segundo ponto, a relação entre os elementos do colectivo, mas é insuficiente ou até prejudicial no que diz respeito ao comportamento individual. A periodização táctica preocupa-se excessivamente com a abstracção do colectivo, esquecendo que o colectivo, em futebol, tem esta dupla dimensão. Só entendendo o treino colectivo nesta dupla dimensão, como treino de indivíduos e treino de relações entre indivíduos, se pode extrair o máximo de uma equipa. Se, por um lado, a periodização táctica pode ter o condão de aperfeiçoar mais facilmente a coordenação colectiva, ou seja, de melhorar com mais facilidade a relação entre indíviduos, devendo por isso ser adoptada em exercícios cujo objectivo seja afinar essa relação (defesa à zona, pressing, situações de transição, bolas paradas, etc.), tem por outro lado o problema de tornar demasiado específico o comportamento individual. É por isso que as equipas que trabalham em periodização táctica são, normalmente, mais organizadas, mas também equipas com menos capacidade de improviso, demasiado específicas. Assim é porque o treino a que estão sujeitas assenta na repetição e na sistematização, o que, como expliquei, acarreta virtudes e defeitos. Depois, há ainda o problema adicional de cultivar certos comportamentos num jogador, mas não cultivar nele a necessidade desses comportamentos. Um dos maiores problemas de quem trabalha em periodização táctica, a meu ver, tem a ver com o grau de consciência com que os atletas repetem as suas acções. Na minha opinião, sistematizar comportamentos só tem verdadeiro interesse se, ao mesmo tempo, for ensinado ao jogador o porquê de, em determinadas acções, fazer aquilo para o qual está a ser preparado. Percebendo a razão pela qual se deve comportar de tal maneira, mais facilmente o jogador adquirirá o comportamento correcto e melhor preparado estará para a imprevisibilidade do jogo. Ora, tenho sérias dúvidas que a grande maioria dos treinadores que trabalham em periodização táctica tenha competência para fazer perceber aos jogadores o porquê dos comportamentos que lhes são exigidos. E essa será uma das razões principais para o atrofio da criatividade e da capacidade de improvisação a que muitas dessas equipas acabam por ficar sujeitas. Há ainda outros riscos no uso desta metodologia, embora menores, em meu entender. É comum dizer-se que, não se treinando especificamente competências físicas e técnicas, não é possível, ou é difícil, que os atletas adquiram os requisitos físicos e técnicos de que necessitam. Ora, creio que compete ao treinador exigir o máximo em cada exercício e estar atento à execução do mesmo. Se assim for, o treino específico prepará fisicamente tão bem ou melhor os atletas quanto o treino analítico.

Para finalizar, gostaria de dizer que, em tempos, também eu fui traído pelo equívoco que esta conversa inútil implica. No rescaldo do fenómeno Mourinho, fui levado a acreditar que a capacidade de explicar certas coisas e a capacidade de perceber como fazer com que a equipa sistematize comportamentos eram sintomas de qualidades de treinador. Sei hoje que não é assim. Carlos Carvalhal será um dos melhores exemplos. Em tempos, por ter lido a sua tese de licenciatura e por ter percebido que tinha certas competências técnicas, acreditei que era um grande treinador. Não é. É um treinador mediano, que sabe trabalhar bem e potenciar ao máximo certos aspectos de uma equipa, mas que carece de uma compreensão do jogo que se distinga de outros treinadores. Vítor Pontes é outro exemplo. Estes treinadores conseguem, por norma, que as suas equipas sejam defensivamente organizadas, e que tenham as transições minimamente trabalhadas. Mas isso é tão pouco que não chega para fazer a diferença. Lá está, são pessoas que são capazes de tirar o melhor do método em que trabalham, mas que não são capazes de escapar aos perigos que o método acarreta. Por norma, as suas equipas são pouquíssimo criativas. Carlos Azenha é outro dos treinadores modernos a que este texto se dirige. E talvez seja aquele que melhor exemplifica a inutilidade desta conversa. Trata-se de um treinador académico, que parece ter conhecimentos teóricos diferentes, mas que é tão mau ou pior do que qualquer outro treinador medíocre. A curta passagem de José Guilherme pela Académica poderia também servir como exemplo.

Como disse acima, a conversa que se centra no "como" é conversa da treta. Privilegiar uma determinada metodologia de trabalho em detrimento de outra é apenas um pequeno aspecto a considerar nas competências gerais de um treinador, um aspecto tão relevante como, por exemplo, o sistema táctico preferido. Há várias fórmulas para chegar ao sucesso e, não obstante considerar que a periodização táctica tenha virtudes, optar por ela em vez de uma metodologia tradicional não significa praticamente nada. Aliás, não se percebendo certas coisas bem mais importantes acerca do jogo, diria mesmo que essa opção é absolutamente irrelevante. Não percebendo, por exemplo, a importância de ter os sectores sempre juntos, em todos os momentos do jogo, a importância das coberturas defensivas e ofensivas, a importância da tomada de decisão no cômputo geral das acções individuais, etc., diria que pouco importa ser o melhor do mundo a perceber como é que se pode fazer com que os atletas adquiram certos comportamentos. Pensar, por isso, que existe uma espécie moderna de treinadores que está mais capacitada que a espécie antiga, e que a diferença de espécie se explica pela conjuntura teórica em que esses treinadores foram formados, é uma forma errada de pensar. Não existe diferença de espécie nenhuma. Existem treinadores competentes, treinadores mais ou menos competentes e treinadores incompetentes. E a competência não é algo que se adquira por se pertencer a uma determinada espécie e não a outra.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Proscritos

A valorização de um jogador, assim como o seu reconhecimento, resulta da forma como é compreendido e enquadrado no conjunto onde está inserido, tal como o seu recrutamento está associado à capacidade de interpretação que orienta o seu treinador. Mas o que acontece quando os jogadores apresentam características que valorizam as dinâmicas colectivas, ao invés dos desempenhos individuais? Como é que um jogador, que vale essencialmente pelos atributos intelectuais, valorizando o conjunto em detrimento do protagonismo individual, consegue o reconhecimento necessário para que lhe seja permitida a hipótese de demonstrar todo o seu valor? Na maioria das vezes, não o é, e se se vê reconhecido é pelas razões erradas, vendo as características e qualidades conceptuais subjugadas pelas sensoriais, ou seja, aquelas que mais facilmente são apreendidas pelos que abordam o jogo de forma mais superficial, não se dando ao trabalho de enquadrar e tentar compreender a razão que antecedeu a acção.

A evolução no mundo do futebol é, acima de tudo, sensorial. Vive de um sem número de pomposas inovações cheias de mecanismos de medição, analíticos, privilegiando estes sobre a interpretação das acções, das dinâmicas que as equipas impõem. As análises tornam-se frívolas, desprovidas da profundidade necessária para apreender todas as virtudes dos jogadores, e das suas equipas, que não cabem nos números. A questão é, no entanto, muito mais grave do que aparentemente seria de supor, visto que não é possível entender, de forma clara, se estamos perante uma causa, ou uma consequência de uma abordagem inferior ao jogo. Não será esta a primeira vez que reconhecemos ao Futebol um potencial enorme enquanto jogo. Todavia, dificilmente esse potencial será alcançado se continuarmos a olhar para o mesmo em função do que cada jogador pode fazer, pela capacidade que tem em desequilibrar individualmente, em detrimento da capacidade que o mesmo possui em se relacionar com os restante elementos, em conseguir que a equipa onde está seja capaz de, ela própria, através de uma predominante dinâmica colectiva, superiorizar-se e desequilibrar o conjunto adversário. Para uma equipa alcançar este tipo de comportamentos, pede-se aos seus jogadores que se focalizem na sua capacidade de se articular com os restantes elementos, tornando-se com isto em algo diferente do que apenas mais um elemento a somar aos outros todos. Todos dizem: “o conjunto é mais do que a soma das partes”. Até que ponto acreditamos nisto, ou como realmente abordamos este cliché, é a “chave” para podermos dar o salto para o nível que se segue. Mas, para isto acontecer, é necessária uma abordagem que se centre mais na interpretação e análise através da observação do jogo.

Um jogador não deve sucumbir aos vícios que os seus atributos físicos e técnicos reclamam; deve, ao invés, servir-se deles para relacionar o seu intelecto com o todo a que pertencem, preocupando-se sobretudo em fortalecer a dinâmica colectiva do conjunto que o acolhe. Significa isto que se deve diluir totalmente a individualidade de cada jogador na equipa? A resposta assenta num aparente paradoxo. O facto de cada jogador se manifestar em cada jogada em função da equipa, procurando em cada momento buscar a melhor solução colectiva (que a dado momento poderá passar pelo drible, em função da disposição dos restantes colegas, assim como relação risco/recompensa que a situação oferece, etc.), não impede que o mesmo empreste o seu cunho pessoal em cada movimento efectuado, mesmo que actue sobre uma filosofia e estilo comungados pelos restantes companheiros, pois cada jogador é único, assim como a sua capacidade de se relacionar com o mundo. No entanto, para isto acontecer, é necessário que o treinador não sucumba à tentação de procurar que os seus elementos resolvam os problemas colectivos através de iniciativas que dependam pura e simplesmente das dinâmicas individuais. Daí a necessidade de referir, mais uma vez, que os jogadores não possuem funções específicas, para além da óbvia: jogar Futebol.

Assim, enquanto esta realidade não passar de uma miragem, iremos assistir a um aproveitamento negligente de um número considerável de jogadores que, por possuírem uma perspectiva muito mais colectiva e solidária do jogo, abordando-o como um desporto que vale sobretudo pela capacidade colectiva dos seus elementos, são sistematicamente marginalizados. Existiram no Sporting pelo menos três casos de jogadores que sucumbiram a esta incapacidade de o jogo evoluir no sentido acima referido: Romagnoli, Farnerud, e Pereirinha. Os dois primeiros dificilmente conseguirão confirmar todo o potencial que possuem. Quanto ao jovem internacional sub-21 português, não será fácil a confirmação de todo o seu valor, por tudo o que foi dito. No entanto, o facto de ser mais forte na sua individualidade do que os outros dois, principalmente em acções de 1x1, poderá ainda abrir-lhe as portas para um estatuto que o seu intelecto já há muito reclama. De lamentar será se Pereirinha, para se poder impor no futebol que o rodeia, se vir forçado a desvirtuar o seu jogo, assente na capacidade de decisão, em função de um estilo mais vistoso.

Um artista, um escritor, pintor, escultor, etc., não se vê aprisionado pela diferença do seu trabalho da mesma forma que um futebolista. Mesmo que a sociedade contemporânea seja falha da capacidade necessária para valorizar o trabalho que o artista desenvolve, a obra deste pode ser apreciada postumamente. No caso de um futebolista, o cárcere que lhe é imposto pela mentalidade sub-desenvolvida que o rodeia impede-o de deixar obra, e contribuir para o desenvolvimento do jogo. Temos agora a hipótese de dar esse salto, graças a Guardiola. Cabe aos restantes fazer a parte deles: podem começar por ser bons alunos.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Requiem

"Lacrimosa dia de lágrimas, aquele em que o homem pecador renasce de sua cinza para ser julgado. Tende, pois, piedade dele, Deus. Ó piíssimo Jesus, ó Senhor, concedei- lhe o repouso eterno. Amén."

Mozart, Requiem


Este texto, pretendendo prestar o devido respeito ao clube finado, e compadecendo-se com a perda leonina, deve ser lido enquanto se escuta a sempiterna Lacrimosa de Mozart, a secção final do seu Requiem a que a epígrafe faz referência.

No dia em que o futebol português voltou a ter 3 clubes capazes de competir pelo título, Alvalade chorou a perda do super-herói que, nos últimos 8 anos, fazendo valer-se dos seus inimitáveis super-poderes, impediu que o Sporting descesse de divisão. Sem Liedson, como poderá o Sporting agora sobreviver? Duvido sinceramente que seja capaz de aguentar mais do que duas épocas na primeira divisão. Aliás, compreendo bem o choro da família sportinguista. É mais ou menos o que aconteceu aos escravos quando se aboliu a escravatura: após anos e anos de opressão, verem-se livres para fazerem o que bem entenderem, não dependerem de senhores prepotentes e não trabalharem ao ritmo da vergasta e do chicote, não é fácil. A reacção dos escravos, perante a mudança, por melhor que fosse essa mudança, foi certamente chorar. Estavam tão habituados à pobre condição de escravos que achavam a escravatura mais confortável que a liberdade.

O que é certo é que, em uníssono, Alvalade compôs um requiem de lágrimas perante a despedida do seu mais valioso futebolista dos últimos anos. Ainda por cima, após um jogo em que o super-herói marcou dois golos. E que golos! Um deles, à boca da baliza, graças a um faro de golo apuradíssimo, que o fez perceber com clareza que o guarda-redes contrário iria defender para a frente, após um lance vulgaríssimo do vulgaríssimo companheiro de ataque, Hélder Postiga. O outro, melhor ainda, seguido de um ressalto vindo de um médio da Naval, deixando-o inadvertidamente isolado. É disto que Alvalade mais terá saudades, desta forma extraordinária de aproveitar tudo o que é acidental, ressaltos, maus alívios, erros dos adversários, disparates alheios. Não poderia terminar melhor a sua passagem pelo clube do que com dois golos que, afinal, tão bem o definem. Aliás, não poderia terminar melhor do que com esses dois golos e com os outros dois que flagrantemente falhou, um dos quais o define igualmente muito bem, a desaproveitar um passe fraquinho de Postiga, falhando isolado perante o guarda-redes adversário.

Por todas as alegrias que o seu super-herói lhes deu nos últimos anos - e foram vários os troféus que ajudou a conquistar - mas sobretudo pelo magnífico desempenho deste último jogo - pois têm mais facilidade os seres humanos em lembrar as últimas coisas e os lances capitais de um jogo - chorou então todo o estádio. Chorou também todo o estádio por saber interiormente que a perda daquele que invariavelmente resolvia todos os problemas da equipa significava o fim do próprio clube. A mim, que tenho um coração de manteiga, a missa fúnebre que foi a cena final comoveu-me muitíssimo, e senti vontade de assistir àquilo tudo com o Requiem de Mozart como música de fundo, para condizer. Desejo acabar, porém, com a nota de optimismo a que subtilmente aludi no início do texto: apesar da tragédia e da choradeira, apesar de não restar agora qualquer réstia de esperança na salvação, apesar da partida do super-herói e do enterro público do defunto, há que ver que, para o futebol o português, é capaz de ser positivo passar a haver mais um candidato ao título.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Entrevista

Um amigo jornalista que começou a visitar com frequência blogues de futebol nos últimos tempos, perfilhando a ideia inteligente de que a utilidade de qualquer discussão se baseia na troca de argumentos, perguntou-me outro dia o porquê das recentes hostilidades entre o Filipe do Jogo Directo e eu. Segundo ele, reproduzindo ideias que outras pessoas já expressaram, o debate sobre futebol tem a ganhar com as discussões que nós temos e seria interessante mantê-las. Disse-lhe que os argumentos são a maior arma numa discussão e que há pessoas que assumem posições fáceis quando os argumentos as conduzem para becos sem saída. Como ele não percebeu o que eu queria dizer, iniciou uma conversa que, pelo vício da sua profissão, aqui reproduzo em forma de entrevista. Para o distinguir, chamemos-lhe Rei de Copas.

Rei de Copas: É verdade que o Filipe te censurou comentários por não lhe "agradar a conversa", como se costuma dizer?

Nuno: Só ele poderá responder a essa pergunta. Isto é, só ele poderá dizer qual a razão pela qual censurou um comentário, mas não consigo encontrar explicação melhor.

Rei de Copas: E em que consistiam os comentários censurados?

Nuno: Era a conclusão de uma conversa - mais uma - sobre o método de análise que ele recentemente adoptou para aferir rendimentos individuais. Estávamos a falar do Maniche e sugeri, como cenário hipotético, uma análise feita ao jogo do Mascherano contra o Bétis, para a Taça do Rei. Nesse jogo, o Mascherano esteve impecável em termos de passe e teve certamente uma percentagem de passes completados na ordem dos 80%, no mínimo. Teci dois argumentos para defender que os números do Mascherano não implicavam que tivesse feito uma boa partida. O primeiro consistia em dizer que percentagem de passes completados não traduz, de maneira nenhuma, o rendimento de um jogador em termos de passe, seja ele quem for, pois não nos informa se a opção de passe foi a melhor em cada situação. Acha o Filipe - e esse é apenas um dos erros do seu método que aponto - que a percentagem de passes completados indica, com um grau elevado de precisão, o rendimento de um jogador da linha média. Aliás, é essa a principal razão para gabar sucessivamente as exibições do Maniche. Ele pensa assim porque acha que a exibição de um médio depende em muito da sua capacidade de dar seguimento aos lances que lhe passam pelos pés. Por trás dessa ideia, está outra que consiste em pensar que um jogador que consiga endereçar a bola a um colega, seja ele qual for e esteja ele em que condições estiver, beneficia a equipa em termos de posse e circulação de bola. Ora, isto não faz sentido.

Rei de Copas: Não sei se estás a ser muito claro. Então achas que a posse de bola depende de mais coisas do que da capacidade de preservá-la?

Nuno: Sim. Para muita gente, manter a posse de bola depende da capacidade de conservá-la. Discordo inteiramente disto. Acho que, em futebol, a posse de bola tem duas componentes: a componente de conservação e a componente de risco, chamemos-lhe assim. Um central, por exemplo, quando sai a jogador tem invariavelmente duas ou três opções fáceis. Se optar por nunca arriscar um passe mais vertical, se jogar sempre com o colega do centro da defesa, ou com o lateral do seu lado, falhará pouquíssimos passes. O mesmo acontece num médio. Um médio que opte por jogar para o lado ou para trás participará com qualidade na posse de bola da equipa, mas apenas na sua componente de conservação. Ora, há alturas em que a melhor opção é um passe para a frente, ou para uma zona mais povoada, ou para um colega com menos espaço para jogar. Às vezes, em situações específicas, o ideal é procurar um apoio frontal, procurar chamar o adversário, procurar invadir espaços curtos. Isto comporta riscos que não se coadunam com a componente de conservação da posse de bola, mas riscos que são necessários se, com efeito, se quer fazer da posse de bola algo mais do que mantê-la. Aliás, a única função da componente de conservação é criar condições ideais para que a componente de risco seja assumida.

Rei de Copas: Então, nesse caso, o rendimento de um jogador de meio-campo depende da forma como avalia cada situação e da opção entre conservar ou arriscar?

Nuno: Não. A sua qualidade em posse depende disso, mas o rendimento de um jogador depende de muitas outras coisas. É por isso que o método do Filipe é altamente redutor. E, por ser altamente redutor, é altamente falacioso.

Rei de Copas: Nesse caso, a sua avaliação do rendimento do Maniche está errada de duas maneiras. Está errada porque se reduz a um elemento do jogo e está errada porque não interpreta sequer correctamente esse elemento. É isto?

Nuno: Sim. Para ele, o rendimento do Maniche é bom porque ele completa muitos passes. Isto não indica nada senão que ele completa muitos passes. Não indica se cada um desses passes correspondeu à melhor opção em cada momento, porque isso só a observação empírica e a análise descritiva de cada lance podem perceber. Além de reduzir o rendimento do jogador àquilo que ele faz com bola. É aqui que entra o segundo argumento que utilizei. O exemplo do Mascherano não foi inocente. Utilizei-o porque ele, apesar de ter estado impecável em termos de percentagem de passes completados, fez um jogo abominável. Como já referi, mesmo com bola, não fez um jogo extraordinário, ainda que não tenha comprometido. Mas sem bola foi absurdo. Posicionalmente, esteve uma lástima. Não só teve culpa em dois golos sofridos, como esteve invariavelmente mal colocado: pressionava à frente dos avançados, ia atrás de jogadores adversários em vez de estar preocupado com a posição relativamente aos colegas, não fornecia coberturas nem apoios recuados, estava permanentemente desconcentrado, fazia faltas desnecessárias, etc. Ora, isto a análise numérica do Filipe não contempla, porque não há maneira de transformar comportamentos em números. E não contemplar isto é perder de vista algo muito importante. A exibição do Mascherano foi horrível, mas, usando o método de análise do Filipe, teria sido bastante boa.

Rei de Copas: E foi essa sugestão que despoletou a hostilidade?

Nuno: Assim parece. A primeira reacção foi defender-se com ironia, acusando-me de estar a afirmar que ele tinha feito uma avaliação ao Mascherano que, na verdade, não tinha acontecido. A acusação é tão idiota que, vindo de uma pessoa inteligente, significa apenas que não tinha outra maneira de defender o seu argumento. Reforcei a ideia de que aquele era um cenário hipotético, de que era eu quem estava a criar o cenário hipotético, e de que a minha intenção era criticar o método e não a análise, pois essa análise não tinha ocorrido. E ele insistiu com a ideia tola de que eu estava a fazer declarações falsas e a pôr palavras na boca dele. Foi aí que se lembrou de dizer que se iria tornar mais activo na moderação de comentários, alegando que a inteligência das pessoas que visitam o Jogo Directo ficaria a ganhar com a censura das minhas mentiras.

Rei de Copas: E achas que essa foi uma estratégia de evasão?

Nuno: Evidentemente. Aliás, o truque não é novo. Já não é a primeira vez que a sua estratégia argumentativa se reduz à tentativa de defesa através do desmentido. Muitas vezes, quando discutimos, a conversa acaba com ele a afirmar que eu estou a pôr palavras falsas na sua boca e que não estou a compreender o que ele está a dizer. Considero-o uma pessoa inteligente, mas este tipo de truque era escusado. Fá-lo porque não lhe interessa continuar a discussão e quando sente que não tem ou não lhe apetece pensar em argumentos. Desta vez, só foi um pouco mais longe e, depois de insistir no truque do costume de dizer que eu estava a inventar coisas que ele não tinha dito (coisa que eu próprio assumi desde o início e que fiz questão de salientar), decidiu acabar a conversa ameaçando censurar o comentário seguinte, assim como todos os que, daqui para a frente, não lhe interessassem.

Rei de Copas: E o que lhe dizias no comentário censurado?

Nuno: Repeti que não estava a inventar coisas que ele não dissera, mas antes a utilizar o seu método de análise para avaliar eu o rendimento de um jogador. Insisti que estava a criticar o método e não a criticar a sua análise, pois ele não a fizera. E disse-lhe, por fim, que, apesar de a opção da censura ser obviamente um direito seu, não deveria justificá-la com a inteligência dos seus leitores, pois os seus leitores, se fossem de facto inteligentes, facilmente percebiam que eu não estava a inventar coisas que ele não tinha dito, como ele alegava.

Rei de Copas: Achas então que a censura não se deveu à necessidade de proteger a inteligência dos seus leitores e a sua honestidade?

Nuno: Isso é evidente. Qualquer pessoa o percebe.

Rei de Copas: Deveu-se a quê, então?

Nuno: À incapacidade de argumentar. Tenho insistido bastante com as limitações do método e ele até assume essas limitações. Mas como quer defender a utilidade do método, tem de ignorar essas limitações. Quando fica incapacitado de defender essa utilidade, perante a evidência da falácia em que consiste, não tem outra solução senão recorrer a estratégias fáceis, como seja aquela de dizer que eu invento coisas que ele não disse, ou a menos honrada de censurar o comentário.

Rei de Copas: Sentes-te de algum modo atingido por não te permitirem contra-argumentar?

Nuno: Não. Não sou pessoa de ficar afectada com golpes baixos. A indignidade atinge apenas aqueles que a praticam. Acho que quem perde alguma coisa com a recusa do debate são as pessoas que o acham interessante e ele próprio, que poderia evoluir com as críticas. Ele, no entanto, entende as minhas críticas como um ataque inútil. E é isso com o qual não concordo. Concordo que seja um ataque e até concordo que seja provocador. Aquilo com que não concordo é com a sua inutilidade. A minha capacidade argumentativa, como a capacidade argumentativa de qualquer pessoa, constrói-se com o treino a que se é submetido pelos ataques que nos fazem. Eu, ao contrário da grande maioria das pessoas, gosto que ataquem as minhas ideias, sobretudo se os argumentos com que o fazem forem fortes. É com a força dos argumentos contrários que o meu pensamento e as minhas ideias evoluem. E quanto mais frontal, desde que honesto, for o ataque, melhor. É isto que ele não entende. É que, apesar da frontalidade, da provocação, da ofensiva do ataque, trata-se de um ataque honesto, isto é, fundado em argumentos. E ele teria muito a ganhar se optasse por contra-argumentar, em vez de fugir à argumentação. Mas são opções. Como é opção dele, de há uns tempos para cá, deixar cada vez mais que as suas análises sejam influenciadas pelos números e menos pela interpretação.

Rei de Copas: Achas, portanto, que as análises feitas no Jogo Directo têm menos interesse, hoje em dia, do que tinham?

Nuno: Acho que são mais redutoras. O Filipe pensa que progrediu, ao ter números a suportar as suas análises. Mas está enganado. É que, apesar de poder falar com mais conhecimento de causa em relação a certas coisas - e isso é um facto - perdeu de vista coisas importantes.

Rei de Copas: E que coisas importantes foram essas?

Nuno: Ao basear a sua análise em números, talvez tenha arranjado maneira de comprovar que um certo jogador é forte num determinado aspecto do jogo e fraco noutro, mas deixou-se levar por uma tendência de análise que consiste em entender o rendimento de um jogador como uma soma de atributos. Para ele, o rendimento é igual ao somatório dos vários aspectos do jogo. Com isto, perdeu de vista algo muito mais importante, que tem que ver com a relação entre cada um desses aspectos. O rendimento do Maniche é obtido através da soma de percentagem de passes completados, desequilíbrios ofensivos, perdas de bola, recuperações, remates, etc. De fora desta história ficam várias coisas. À cabeça, coisas que se fazem sem bola: posicionamento, movimentação, desmarcação, capacidade de fornecimento de apoios. Mas fica de fora também a tomada de decisão, que em futebol vale mais do que o efeito de cada decisão. O Filipe contabiliza factos, quando na verdade deveria contabilizar intenções. É por isso que a adopção do método o afastou do que verdadeiramente importa. Compenetrado com os números, perdeu de vista coisas muito mais importantes.

Rei de Copas: É esse o teu argumento contra as estatísticas, em geral?

Nuno: Em parte, sim. O problema de deixar que as estatísticas expliquem os fenómenos, numa coisa que depende de intenções, como é o caso do futebol, é que normalmente explicam apenas os resultados e não as tendências que conduziram a esses resultados. Explicar rendimentos através de factos seria o mesmo que explicar a qualidade de uma obra de arte pelo número de pessoas que visitou a galeria em que ela se encontra exposta. A qualidade da arte não depende de coisas contáveis, não por ser arte, mas por ser qualidade. Não depende da opinião das pessoas, não depende da perfeição técnica, não depende do domínio do medium, não depende de nada que seja mensurável. Não existe, em arte, uma pedra de toque através da qual se possa aferir a qualidade de uma coisa. Depende, isso sim, da potencialidade descritiva da obra, das ideias do autor, do interesse dessas ideias, etc. Em futebol, passa-se o mesmo. Não existe uma pedra de toque com que possamos contabilizar a qualidade com que um jogo foi jogado. Ao criar um método que pretende eliminar parte da análise descritiva, um método que, não sendo assumidamente perfeito, tem a pretensão de aproximar a análise da verdade, o Filipe está a tentar inventar uma pedra de toque através da qual possa medir, com maior ou menor grau de erro, uma coisa que não é mensurável por natureza. O que o método dele pretende é eliminar a análise descritiva e transformar números em evidências. Isto, em futebol, é altamente falacioso. A sua formação matemática diz-lhe que a estatística ajuda a perceber melhor tendências. O que ele não entende é que os fenómenos cujas tendências as estatísticas podem explicar não são fenómenos como o futebol. No futebol, a matemática e as estatísticas não têm nem podem ter a mesma capacidade explicativa que têm noutras áreas. A minha reacção contra as estatísticas deriva da convicção de que, em futebol, elas são sempre uma tentativa frustrada e simplista de resolver a complexidade inerente ao jogo. No fundo, o que as estatísticas fazem é tentar tornar quantitativo o que não pode deixar de ser qualitativo. E isso é absurdo.

Rei de Copas: A tua analogia com a arte é muito interessante. Queres falar um pouco dela?

Nuno: Posso falar. Ninguém no seu perfeito juízo achará que pode medir a qualidade - digamos - da Noite Estrelada de Van Gogh ou da Für Elise de Beethoven. Essa qualidade só pode ser descrita, nunca medida. Até uma certa altura, a pintura era essencialmente representação e a qualidade de uma pintura dependia em muito da sua capacidade representativa. De certo modo, o mundo visível era uma pedra de toque para aferir a qualidade da obra. Mas o Impressionismo acabou com isto. A qualidade não depende da sua capacidade de imitar ou representar o real, como não depende da perfeição técnica, de aspectos formais, etc. A qualidade está na imaginação do artista no momento da pintura. Para descrever qualitativamente a Noite Estrelada, é necessário descrever as intenções, as ideias e as preocupações de Van Gogh, a aquisição técnica e conceptual que lhe permitiu aquela pintura, a relação, no fundo, entre as propriedades manifestas no quadro e aquilo que era a figura do seu autor. Estas coisas não são contáveis; podem apenas ser descritas. Em futebol passa-se o mesmo. Tal como, para perceber a qualidade da Noite Estrelada, é muito mais importante descrever relações entre o que é visível e as intenções do autor do que reparar em coisas visíveis, em futebol é muito mais importante descrever as intenções, as ideias e as opções do Maniche do que contar a quantidade de passes que ele conseguiu.

Rei de Copas: E queres dar exemplos de aspectos estatísticos que, segundo o que defendes, não podem servir senão para perceber coisas supérfluas?

Nuno: Bom, já falei de alguns, como seja a percentagem de passes completados. Não queria falar disso em profundidade, pois um amigo de longa data está a preparar um texto sobre a falácia das estatísticas, que será publicado, se tudo correr bem, nos próximos dias, mas posso referir exemplos. Remates à baliza, por exemplo. No método do Filipe, a quantidade de remates à baliza influencia o rendimento do jogador. O erro implícito é grosseiro. Qualquer remate, para ele, é qualitativamente relevante. Isto não faz sentido nenhum. Um jogador que remate cinco vezes de meio-campo tem um rendimento, a nível de remates, idêntico a um jogador que rematou cinco vezes à entrada da área. Um remate em desequilíbrio, sem ângulo, numa situação de três para um, é qualitativamente igual a um remate em condições privilegiadas, em zona frontal, sem oposição, quando não tem nenhum colega melhor colocado. E por aí fora. O mesmo se passa com recuperações de bola. O jogador que faz a intercepção fica com os louros todos, quando muitas vezes é um colega que força, pela pressão que exerce, o adversário a fazer mal o passe. No método do Filipe, uma intercepção por boa leitura de quem intercepta tem tanto valor como uma intercepção por mau passe do adversário. Um jogador que tenha a sorte de estar na zona por onde o adversário mais ataca terá, à partida, mais condições que os colegas para ter mais recuperações de bola. Além disto tudo, há ainda que perceber que custos, sobretudo em termos de organização defensiva, terá tido cada uma das recuperações de bola de um jogador. Nada disto é contemplado pelas estatísticas. Poderia falar de muitos mais exemplos, pois nenhum aspecto estatístico está isento de falhas deste tipo, mas estes dois chegarão. Há, ainda, no entanto, um outro problema, que tem a ver com o critério de selecção dos aspectos relevantes. Como é que se decide que um remate é relevante para aferir o rendimento de um jogador e um lançamento de lateral não é? É uma pergunta justa. E a única resposta possível é: bom senso. E aqui entra um lado não-quantitativo da coisa que entra em contradição com a pretensão científica do método. É que todo o método, que se pretende o mais científico possível, depende da sua não-cientificidade.

Rei de Copas: Mas o Filipe assume que a análise estatítisca é apenas um instrumento e que carece de interpretação.

Nuno: Assume, mas só para o que lhe dá jeito. E, ao assumi-lo, fica com um problema grande entre mãos. É que, se os números carecem de interpretação e, por si só, não servem de muito, então os números não têm poder explicativo. Se não têm poder explicativo, não podem ser usados como pedra de toque para aferir nada, não podem servir de arma de arremesso para validar interpretações e não podem servir de argumento para desvalorizar outras interpretações. O problema do Filipe é que quer duas coisas que se excluem mutuamente: a cientificidade dos números e a interpretação deles. E quere-as por razões diferentes. Quer, por um lado, que os números legitimem a sua interpretação, e nesse sentido diz que eles são apenas instrumentos; mas quer também que os números tornem ilegítimas interpretações diferentes das suas, e aí os números já são ciência exacta. Na verdade, o método do Filipe é uma tentativa pobre e desonesta de se auto-legitimar.

Rei de Copas: Tens algum exemplo com que possas ilustrar isso?

Nuno: Sim. Recentemente, o seu método avaliou o Guarín muito positivamente. Apesar disso, o Filipe considera que o Fernando é melhor para o lugar, pois é melhor a nível posicional. Neste caso, o Filipe ignorou a tendência estatística, assumindo a limitação do método, explicando a opção por questões que o método não contempla, como seja a responsabilidade táctica e o sentido posicional do Fernando. Devo dizer que concordo inteiramente com o Filipe. O problema é a incoerência. Neste caso, o Filipe teve lucidez suficiente para perceber que o Guarín é inferior ao Fernando em certas coisas importantes que não podem ser contabilizadas. Mas, noutros casos, o método funciona como ciência exacta e os números servem para objectar opiniões que se fundam em coisas que também não podem ser contabilizadas. Desde logo, o exemplo do Maniche. O meu argumento em relação ao Maniche era semelhante ao argumento do próprio Filipe em relação ao Guarín e ao Fernando. O que eu defendia era que os números do Maniche não significavam, por si só, que ele merecesse o aplauso largo que ele lhe concedia, da mesma forma que os números do Guarín não justificavam, por si só, que fosse melhor para o lugar que o Fernando. Para que o Maniche merecesse tal coisa, havia que falar de coisas de que o Filipe não falava, coisas que o método não pode contemplar. Nesse caso específico, o Filipe não aceitou a interpretação. No caso do Maniche, os números representam fielmente o seu rendimento e ele não admite outra interpretação. No caso do Maniche, o sentido posicional e a responsabilidade táctica nem sequer são relevantes para aferir a sua qualidade. Isto é uma incoerência primária. Poderia ainda falar da questão do Javi Garcia. Ultimamente, tem argumentado o Filipe sistematicamente que o Airton desempenha a posição com qualidade e que merecia a titularidade, por não perder tantas bolas como o espanhol. Mais uma vez, está a basear a sua opinião somente nos números. Está a esquecer coisas importantes, coisas que ele próprio não esquece noutras ocasiões. Está a deixar de lado, em primeiro lugar, as opções de passe dos dois. Para aferir se o Airton perde mais ou menos bolas que o Javi, não basta contar as perdas de bola; é necessário também perceber as opções de passe dos dois, o grau de risco adoptado, a restante estrutura colectiva, etc. Depois, é necessário também observar coisas como o sentido posicional, coisas como a capacidade de leitura dos lances e a velocidade com que os jogadores se reposicionam, etc. E, finalmente, uma coisa que o Filipe tanto gosta, o aspecto mental: o Javi Garcia é mais adulto e acusa menos a pressão que o Airton, é mais experiente e sabe melhor em que situações, por exemplo, pode e deve fazer falta. Todas estas coisas ficam de fora na observação do Filipe. Não quero com isto defender nada em relação ao Javi e ao Airton. Estou apenas a discutir as razões numéricas que servem o argumento do Filipe.

Rei de Copas: E a questão do Belluschi?

Nuno: Pois, o Filipe acha que descobriu a pólvora, ao afirmar que o Belluschi, ao contrário do que se pensava, é muito forte em termos defensivos, recuperando muitas bolas. E é um dos exemplos que mais gosta de dar para justificar a relevância do método. A meu ver, trata-se de uma trivialidade. Já há um ano que o Entredez defendia que o Belluschi não era fraco em termos defensivos. O argumento não era necessariamente o mesmo, ou seja, o de que recupera muitas bolas, mas isso não importa. Já o dizíamos, como o dizemos em relação a outros jogadores, normalmente os criativos, que, por serem criativos, geram o preconceito de serem fracos defensivamente. Quase nenhum o é. Mas, mais importante do que afirmar que a descoberta do Filipe não foi descoberta nenhuma, pois já havia quem o defendesse antes, é afirmar que a descoberta do Filipe é um disparate. É que, para ele, as recuperações de bola de um jogador, seja o Belluschi ou outro qualquer, é sinal inequívoco de que exerce um trabalho defensivo relevante. O que ele esquece é que esse jogador está inserido numa determinada estrutura colectiva, estrutura essa que pressiona de uma determinada forma. Não será alheio aos números do Belluschi, por exemplo, o facto de ter ao seu lado um jogador muito forte em termos de agressividade e ocupação de espaços, como seja o Moutinho. A minha opinião é que, parte dos números do Belluschi se explicam melhor pelo trabalho colectivo do que propriamente pelo desempenho individual. O Belluschi recupera muitas bolas porque é inteligente, porque se posiciona bem, porque lê bem os lances, porque é suficientemente agressivo e ocupa suficientemente bem os espaços defensivos, mas também porque o Porto pressiona de um modo específico que conduz a mais recuperações na sua zona. E esta segunda parte da explicação o método do Filipe não é capaz de perceber.

Rei de Copas: Para ti, portanto, o método estatístico do Filipe é um perfeito disparate?

Nuno: Acho que pode ajudar a perceber tendências, mas nunca a explicá-las. E jamais pode funcionar para aferir rendimentos individuais. Há demasiadas coisas que não podem ser contempladas senão pela análise descritiva.

Rei de Copas: E o que tens a dizer em relação à pretensão do Filipe de que um método estatístico, parecido com o seu ou não, ajudaria necessariamente as equipas a estarem mais conscientes das suas necessidades e a perceberem melhor o rendimento individual dos seus atletas?

Nuno: Isso sim, acho um perfeito disparate. Há coisas muito mais importantes a considerar para que uma equipa possa potenciar o seu colectivo do que propriamente perceber quantas bolas um jogador perde e quantas bolas ele recupera. A potenciação das equipas dependerá de uma melhor percepção dos comportamentos dos seus jogadores e de uma melhor percepção do seu comportamento colectivo, não da percepção daquilo que cada jogador fez ou deixou de fazer.

Rei de Copas: Gostavas que o Filipe fizesse alguma coisa em relação ao seu método?

Nuno: Não tenho nada a ver com o que ele faz. Mas, já que falas nisso, gostava a sério que ele o utilizasse para analisar um jogo do Barcelona. A prazo - como ele diz que todos aqueles números devem ser lidos - iria talvez perceber que não poderia chegar a conclusões nenhumas. Iria talvez perceber que Xavi e Iniesta têm uma percentagem de passes completados inferior à dos outros médios e perdem mais bolas que Busquets e até do que Mascherano e Keita, embora isso não os faça necessariamente descartáveis. Iria talvez perceber que Puyol perde menos bolas que Piqué, e que isso não faz dele um defesa necessariamente mais fiável em posse. Iria talvez perceber que os desequilíbrios ofensivos são repartidos quase igualmente pelos cinco jogadores mais adiantados, e que isso complicaria a distinção individual que gosta de fazer. Iria talvez perceber que não há diferença significativa entre o número de passes completados pelo Mascherano e o número de passes completados pelo Busquets e que Busquets perde mais bolas que Mascherano, embora a titularidade de Busquets não possa sequer ser posta em causa. Uma análise ao Barcelona poderia servir para ele perceber a inutilidade em que consiste o seu método. Ou então não. A casmurrice é tanta que era capaz de inventar desculpas para as coisas esquisitas que encontrasse.

Rei de Copas: A tua relação com o Filipe é cada vez mais tensa?

Nuno: Não acho que tenhamos uma relação. Aliás, deixa-me aproveitar para falar de um assunto sobre o qual muitos têm uma opinião que considero errada. As pessoas falam muito de cordialiidade e de boa educação. Acham que eu tenho um estilo deselegante e, mesmo que reconheçam importância ao que digo, aconselham invariavelmente a ser mais moderado no modo como exponho as minhas ideias. Devo dizer que essas pessoas não percebem bem aquilo que eu faço. Interessa-me pouco cultivar amizades; isto não é a minha vida. As intervenções em blogues, a exposição das minhas ideias neste blogue, a minha existência cibernáutica, no fundo, não tem nada a ver com a minha vida. O meu interesse é inteiramente intelectual. E, por sê-lo, deve estar o menos constrangido possível por convenções sociais. As pessoas imaginar-me-ão sempre como alguém muito irritado à frente do computador, como alguém muito febril, que se entusiasma muito com as discussões. Não sou nada disso. Se disser que, no dia-a-dia, sou uma pessoa extraordinariamente diplomática, calma e muitíssimo bem-educada, cordialíssima, que não ostenta qualquer tipo de arrogância nem tem opiniões fortes sobre praticamente nada, poucos acreditarão. E não acreditarão sobretudo porque não percebem aquilo que eu faço aqui. O meu interesse aqui é discutir, expor ideias, tecer argumentos, ouvir opiniões diferentes e procurar rebatê-las. O meu interesse é cultivar-me, e isso faço-o pelo exercício exaustivo da discussão, pelo esforço mental de procurar respostas para todos os problemas. É precisamente porque o que me interessa é a discussão e só a discussão que assumo o estilo que assumo. Isto porque a discussão tem tanto mais interesse quanto mais controversas forem as propostas. A minha falta de cordialidade, a minha postura acusativa, a minha arrogância, a minha ironia, tudo aquilo que as pessoas, no fundo, acham que eu sou é uma fatalidade do meu único interesse, que é discutir. O carácter desta entidade que escreve e assina como "Nuno" não é o carácter da pessoa real que lhe dá corpo, mas uma consequência necessária dos interesses que essa pessoa tem ao escrever nestes espaços sobre estas coisas. É por isso que não faz sentido achar que devo respeito às pessoas com quem falo. É que eu não falo, verdadeiramente, com elas. A personalidade que é resultado dos meus interesses em falar destas coisas é que fala com elas. Trata-se de uma máscara. E eu, na verdade, não tenho controlo sobre o que ela diz, pois o que ela diz é consequência dos interesses intelectuais e do interesse na discussão que, esses sim, possuo.

Rei de Copas: Pois, para mim, que te conheço, isso é claro. Obrigado, Nuno, por esta extensa conversa! E até uma próxima oportunidade...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As Trivialidades de Carlos Manuel

Carlos Manuel, ex-jogador de futebol de alguma reputação, treinador modesto e comentador assíduo de jogos de futebol, é um bom exemplo de como ter sido jogador de futebol não é condição prévia para poder falar sobre o jogo. Muito menos o é para ter emprego relacionado com o jogo. As suas opiniões - esquecendo a sua obsessão com Vukcevic, que faz adivinhar um ódio particular que só as crianças, os frustrados e os psicóticos possuem - são invariavelmente fracas e erradas. Hoje, quando Carlos Manuel comentava o jogo que opunha o Benfica ao Olhanense, percebi também que são triviais. A trivialidade de que quero falar aqui ocorreu sensivelmente a meio da primeira parte: Toy recebeu um passe na esquerda, sem qualquer apoio por perto, e Maxi Pereira, entrando com agressividade em excesso, cometeu uma falta desnecessária. A opinião de Carlos Manuel foi de que Maxi tinha feito bem, independentemente de ter sido ou não falta, pois é dever de todo o jogador estar o mais perto possível do portador da bola, de modo a não o deixar pensar. A trivialidade da coisa é quase obscena. E só não merece maior protesto porque, além de trivial e de fazer parte das ideias preconcebidas da grande maioria dos que pensam que percebem alguma coisa de futebol, é absolutamente absurda. Trata-se de um preconceito e de uma generalização sem qualquer fundamento.

Se é evidente que, quanto mais perto o defesa estiver, menos tempo o portador da bola tem para pensar, não é menos evidente que menor capacidade de reacção tem também o próprio defesa. Estar perto do portador da bola pode fazer com que este tenha menos tempo para pensar, mas também retira tempo e espaço de manobra a si próprio. Além disto, é importante perceber ainda que esta não é uma teoria geral e depende muito das características do portador da bola. Se se trata de um jogador tecnicamente muito evoluído, estar sempre em cima dele pode ser especialmente errado. Do mesmo modo, é preciso ver o lance em si. Se se trata - como se tratava - de um lance em que o portador da bola não tinha qualquer apoio próximo e estava junto à bandeirola de canto, aproximar-se dele e assumir uma postura agressiva é francamente desnecessário.

Carlos Manuel - que acabou de dizer, na sequência do golo de Sálvio, que "isto tem a ver com o momento que o jogador tá" - além de usar o verbo "tar" e não saber o que é uma regência verbal, não percebe estas coisas. Para ele, um lance junto à linha é igual a um lance no meio-campo; um lance protagonizado por Messi é igual a um lance protagonizado por Luisão. Para ele, a postura defensiva de qualquer jogador, em qualquer situação, deve ser o mais agressiva possível. Para ele, defender é cerrar os dentes, morder a língua e correr atrás da bola e dos adversários que a têm. É incapaz de perceber que o jogo é jogado por seres humanos e estou até desconfiado de que não acredita que jogadores de futebol, como quaisquer seres humanos, têm neurónios e devem, além de correr e salivar atrás de adversários, pensar. O seu pensamento é de tal modo primitivo e quadrado que os seus jogadores ideais devem ser os que ganham ao braço de ferro e os que têm por meio de transporte preferido a liana. É por estas e por outras que ele e muitos outros artistas como ele não percebem um chavelho daquilo de que fazem profissão. O futebol lamenta, é certo, mas a verdade é que, sem palhaços, o circo não tinha a mesma graça.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Fabregas, Nasri e a Importância do Passe Vertical

A expressão "passe vertical", que encontra uso habitual neste blogue, não faz parte - ou não fazia, até há muito pouco tempo - do vocabulário futebolístico. Utilizei-a inicialmente para distinguir uma espécie de passe particular, um passe rasteiro com progressão, ou seja, um passe feito pelo chão que não se limita a fazer a bola circular à roda do bloco defensivo adversário, mas que penetra nele, ultrapassando algumas das suas linhas. Hoje em dia - penso - o rótulo fixou-se no imaginário de quem fala de futebol, e quando se fala de um "passe vertical" já não se confunde com um passe feito pelo ar, hábito, por exemplo, de uma equipa que faça muito jogo directo, nem com passes para as costas da defesa. O que, neste texto, procurarei demonstrar é a importância crescente que, no futebol moderno, este tipo de passe tem. É minha convicção que as melhores equipas em ataque organizado são também aquelas que mais e melhor procuram estas situações e, como tal, depressa será assunto de reflexão pelos grandes treinadores mundiais.

A equipa que, em todo o mundo, melhor usa este recurso é o Barcelona; a segunda o Arsenal. É precisamente recorrendo a um golo dos gunners em que se fez uso do passe vertical que procurarei sustentar o argumento. O lance é o do segundo golo frente ao Birmingham, este fim-de-semana. Cesc Fabregas apercebe-se da localização de Nasri à sua frente, entre linhas adversárias, e mesmo tendo atrás de si um adversário, direcciona-lhe a bola. Ao fazê-lo, ultrapassa imediatamente uma linha, composta por dois adversários. O facto de aquele que vai receber a bola estar marcado é pouco importante. Um passe vertical pelo chão torna a acção do defesa mais difícil e uma simples devolução ao colega que em primeiro lugar passara a bola permite à equipa preservar a posse de bola. Também por isto, um passe vertical não é um passe tão arriscado como, por exemplo, um passe para as costas da defesa, e só não é tão usado porque se convencionou que passar a bola para colegas que têm adversários por perto é errado. Ora bem, não é. Pode até ser muito útil, pois fará com que os adversários que ocupam esses espaços adquiram a ilusão de que podem capturar a bola e se desposicionem. O que aconteceu de seguida demonstra bem a utilidade que há em fazer um passe destes mesmo nas condições em que o colega se encontrava. Nasri, embora apertado, devolve de primeira a bola a Fabregas, que no momento imediatamente a seguir a ter feito o passe se dirigiu para Nasri, para fornecer um apoio curto. Com essa movimentação, pode receber a devolução de Nasri à frente de um dos dois adversários que o tinham apertado inicialmente. Nasri, ao devolver, desmarcou-se nas costas do seu marcador que, iludido pelo engodo da bola, acabou por ficar batido. Fabregas, por sua vez, deu de primeira novamente para Nasri, que ocupara agora um espaço frontal entre o homem que lhe saíra ao encalço e a linha defensiva do Birmingham. Estava criado o desequilíbrio. Um passe vertical e uma tabela foi tudo do que o Arsenal precisou para arranjar condições de remate à entrada da área. Parece simples. O problema é que os hábitos que se cultivam ao longo da carreira e as coisas em que esses mesmos hábitos fazem os jogadores acreditar impedem, muitas vezes, de perceber como se pode simplificar um lance.



Com um passe vertical e uma pequena combinação entre dois jogadores, o Arsenal ultrapassou todo o meio-campo do Birmingham. Este tipo de penetração é utilíssimo, em futebol, mas continua a ser pouco usado, ou usado inconscientemente. Há pouquíssimas equipas que procuram de modo sistemático estas acções e menos ainda as que trabalham de modo a potenciar esses lances, tendo preocupações não só em progredir desse modo, como também em criar movimentações que facilitem a acção aos jogadores envolvidos nessas situações. Creio, contudo, que o futuro tratará de corrigir isso. Tão importante como rotinar, por exemplo, uma transição ofensiva, será treinar o comportamento colectivo de modo a criar mais e mais condições para se efectuarem passes verticais. Aliás, a compreensão do modelo de Guardiola teria de passar, entre muitas outras coisas, por perceber como o passe vertical é, no seu Barcelona, um instrumento fundamental. Como acho que, em dez ou vinte anos, este Barcelona será um modelo a imitar por todos, creio também que o passe vertical virá a ser objecto de maior reflexão e dedicação.

P.S: E o que dizer do terceiro golo do Arsenal? Novamente, Fabregas e Nasri no lance. Desta vez, recreando-se como se não tivessem mais colegas em campo, trocando a bola apenas entre os dois, pondo à rabia todos os adversários que lhes saíram ao caminho. Este tipo de entendimento entre dois atletas, estendido depois ao resto da equipa, deveria ser uma das maiores preocupações de um treinador. Mais sobre isto noutra altura, quem sabe se brevemente.

P.S. 2: E o jogo de Dani Parejo, esta noite, coroado com um golo magnífico? O rapaz tem classe até a andar, mas continua relativamente esquecido numa equipa do meio da tabela em Espanha. Há poucos, porém, com a qualidade que ele tem. Pouquíssimos, mesmo. Se se pensar, então, que, no início da temporada passada, foi trocado por Granero, dá quase vontade de cortar os pulsos...

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Certezas (21)

Quando apareceu, compararam-no imediatamente a Theo Walcott, mas depressa me pareceu que a comparação requeria ajuste considerável. Como apareceu a jogar numa posição semelhante, mais avançado e junto à linha, e como fazia uso da velocidade como Walcott, não tiveram dúvidas em relação ao rótulo. Antes mesmo de o ver jogar, torci o nariz, precisamente por causa da comparação. Mas, ao vê-lo, percebi que não era apenas o que Walcott é, um jogador veloz e mortífero quando se apanha com espaço, mas sim alguém de toque mais curto, mais refinado tecnicamente, e sobretudo mais imaginativo. A evolução que a sua curta carreira foi tendo comprovou as minhas suspeitas: tratava-se de um atleta fadado para outras coisas e para outra posição no terreno. A sua colocação na zona central foi para mim óbvia, essencialmente porque a sua capacidade para inventar requeria a problematização que o centro do terreno oferece. Faltava perceber, apenas, se conseguia juntar à criatividade e à capacidade de improvisação a frieza e a natureza cerebral de um médio centro clássico. Este ano, apareceu precisamente a jogar no meio-campo, não como médio-ofensivo que é, mas como médio recuado, numa posição em que se lhe exige que seja mais cerebral e menos mágico. Confesso que não é aí que me parece que possa ser extraordinário, não necessariamente por ser fisicamente débil e pouco fiável no choque, mas porque nessa posição a sua criatividade não é verdadeiramente posta à prova. Desembaraça-se com facilidade e empresta ao jogo da sua equipa uma fluidez notável, fruto da sua qualidade com bola e da sua inteligência, mas acaba por não estar tantas vezes em zonas densamente povoadas e acaba por não estar sujeito tantas vezes a problemas que exijam soluções de dificuldade acrescida. O seu crescimento, porque a sua capacidade actual assim o exige, deveria passar por uma posição central, sim, mas mais avançada no terreno, mais junto dos avançados e mais metido dentro do bloco adversário, obrigado a jogar mais vezes entre linhas e menos de trás para a frente. É vítima, por isso, do problema do duplo-pivot do qual Wenger tarda em libertar-se. O seu pé esquerdo e a sua imaginação são, porém, demasiado grandes para que possa vir a cair no esquecimento e, dentro de um ou dois anos, Jack Wilshere será certamente um dos nomes maiores do futebol inglês.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Só para alguns

Por que é que o Barcelona de Guardiola é a melhor equipa da História do Futebol? Porque consegue, pode e dá-se ao luxo de fazer coisas como esta. Quem for capaz de perceber a relação causal entre este lance e o que é este Barcelona está no bom caminho para perceber o que de tão distinto representa esta equipa. Não é o caso de quem comentava o jogo na televisão, que achou que o pontapé para o ar de Abidal foi a coisa mais sensata de toda aquela aventura suicida.


sábado, 27 de novembro de 2010

Certezas (20)

É a primeira vez que um guarda-redes é elogiado nesta rubrica, mas a qualidade deste jovem é tanta que dificilmente lhe poderia escapar. Os melhores clubes do mundo andam já interessados no seu concurso e não é crível que aguente muito mais tempo no seu clube. De qualquer modo, porque a concorrência não podia ser maior, o seu lugar na selecção do seu país continuará a ser difícil de assegurar. À parte disso, o seu futuro é quase uma certeza absoluta. O que mais impressiona, quando o vemos na sua baliza, é a frieza e a segurança, como se fizesse aquilo há já muitos anos. Aliando a esta capacidade mental uma técnica de guarda-redes prodigiosa e a facilidade com que rapidamente se impôs na ribalta do futebol europeu, diria que estamos na presença de um dos cinco melhores guarda-redes dos próximos dez anos. Tanto quanto me pude aperceber, não tem propriamente pontos fracos. Ainda que não tenha uma envergadura invejável, é seguro a sair dos postes. Nas saídas aos pés dos avançados, faz uso da sua agilidade e, não sendo muito agressivo e intimidador, é no entanto tecnicamente evoluído e sabe esperar pelo momento certo quer para fazer a mancha, quer para cair. Naquilo em que é, todavia, indiscutivelmente muito forte é na meia distância. A sua elasticidade e a perfeição técnica com que voa para qualquer um dos lados é ímpar. Não me lembro, talvez à excepção de Preud'homme, de outro guarda-redes tão elegante e com um gesto técnico tão perfeito quanto ele. De resto, é capaz de segurar bolas muito difíceis, bolas que outros, pela dificuldade do voo, preferem invariavelmente defender com a palma da mão para canto. Esta, a meu ver, é a imagem de marca dos melhores do mundo na baliza: ser capaz de voar para um dos lados e, ainda assim, agarrar a bola. Preud'homme era mestre nisso; este miúdo também parece sê-lo. Não duvido, por tudo isto, que David De Gea terá, muito brevemente, o mundo a seus pés...

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um Jogo Estúpido

Por que é que o futebol é um jogo estúpido, de gente estúpida, para gente estúpida, disputado por gente estúpida e arbitrado por gente estúpida? Porque as leis do jogo, que são estúpidas, e os árbitros que as interpretam, que são ainda mais estúpidos, permitem que, no mesmo jogo, um jogador veja dois amarelos por um puxão e por um empurrão, acabando expulso, enquanto outro jogador, inocentado pela estupidez intrínseca do jogo, envia um adversário para o hospital com uma rotura de ligamentos no tornozelo, após entrada por trás para travar um contra-ataque, e é admoestado com um amarelo, com o qual acaba o desafio, satisfeito com a sorte.

P.S. Às vezes, gostava de acreditar que o futebol era um jogo para seres racionais.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Defender o um para um

Muito se discutiram, após o clássico que opôs o Porto ao Benfica, as opções de Jorge Jesus e o rotundo falhanço estratégico da sua abordagem ao jogo. Corroboro grande parte dessas críticas, sobretudo a não-utilização de Saviola, a opção pelo 442 clássico, e o medo em relação a Hulk que levou à troca de Coentrão por David Luiz. Nenhuma crítica, porém, foi mais referida que a utilização de David Luiz à esquerda. Há, nessa aposta, dois erros primários: o primeiro - e também o mais óbvio - tem a ver com a opção por contrariar as qualidades individuais de um adversário utilizando as qualidades individuais de um atleta. Jesus falhou, neste particular, não só porque alterou uma estrutura enraízada, mas também porque não compreendeu que a melhor estratégia para contrariar qualidades individuais é necessariamente colectiva. Muito mais fácil do que procurar remediar um problema individual através da promoção de um duelo individual teria sido promover a criação de superioridade numérica, em momento defensivo, sempre que a bola chegasse aos flancos, por exemplo. Mas esse foi, como referi, apenas um de dois erros. O segundo, e que poucos certamente saberiam identificar, porque corroídos pela opinião pública convencionada, tem a ver com a escolha de David Luiz para essa função. Jorge Jesus escolheu-o porque o considera o mais capaz a defender duelos individuais. Poucos disputariam esta consideração. Afinal, para estas pessoas, a característica essencial para que um defesa seja forte no um para um é a velocidade. Afirmo frontalmente que estão equivocados.

David Luiz é rápido, é agressivo e, graças a estas duas características, tem uma boa capacidade de antecipação. Nada disto faz com que seja bom a defender o um para um. O objectivo deste texto é precisamente desmontar esta ideia, assim como argumentar que há coisas bem mais importantes que a velocidade para travar um adversário especialmente forte no um para um. David Luiz tem estas características muito desenvolvidas e é principalmente por elas que é tão apreciado. Acontece, contudo, também porque se deixa deslumbrar por elas, que tem outras características pouquíssimo desenvolvidas. Não evoluiu rigorosamente nada em termos de leitura dos lances e continua com uma péssima abordagem a jogadas que exigem que raciocine rapidamente, jogadas em que a defesa não está organizada, por exemplo. Já para não falar das faltas de concentração e das displicências com bola. O que pretendo demonstrar é que defender eficazmente o um para um não é necessariamente distinto de tudo o resto e que, portanto, é muito mais importante o defesa ter capacidade de concentração e boas abordagens ao lance do que propriamente rapidez para reagir à iniciativa do adversário.

Para muitos, defender o um para um é uma questão de capacidade de resposta àquilo que o adversário propuser. Isto é, se o adversário investe pela direita, o defesa tem de ter rins e pernas para o perseguir pela direita; se investe pela esquerda, o mesmo. Parece-me isto um modo fácil e antiquado de olhar para a coisa. É óbvio, porém, que quem pense assim tenha a pressa de afirmar que o melhor a defender o um para um é aquele que reage melhor à investida do adversário, vá ele por onde for. Discordo amplamente disto. Creio até que defender o um para um é uma técnica, idêntica a outras técnicas relacionadas com o jogo, e que, ainda hoje, é muitíssimo negligenciada. Deixando de fora, para já, as especificidades do adversário particular que se pretende defender, coisa que pertence ao plano estratégico e que deve ser interiorizado apenas mediante o confronto particular com esse jogador e que não tem necessariamente a ver com a técnica geral de defesa do um para um que aqui quero referir, acho que há, para quem defende, muitas outras coisas a fazer para além de esperar pela iniciativa do adversário e reagir o melhor que souber. É disso que quero falar em seguida.

A primeira coisa que quero contestar é que a iniciativa seja necessariamente do avançado que tem a bola. Não quero, com isto, afirmar que o defesa deve tentar a intercepção antes de o avançado optar por um dos lados. É possível tomar a iniciativa de outro modo. Como? Sugerindo um lado, por exemplo. Por definição, o defesa coloca-se entre o avançado com bola e a baliza, exactamente a meio, permitindo a quem tem a bola escapar por um de dois lados. Este posicionamento convencional garante iguais possibilidades ao defesa de chegar ao lance quer o avançado vá pela esquerda, quer vá pela direita. Mas tem a desvantagem de permitir a escolha a quem tem a bola. Optando por este tipo de posicionamento, a iniciativa é sempre de quem tem a bola. Basta que esse avançado seja especialmente rápido e forte para que o defesa esteja constantemente em desvantagem. Do meu ponto de vista, sobretudo contra avançados que não são imprevisíveis, isto é, que vão optar pelo lance individual, este posicionamento convencional não é o mais eficaz. Muito mais eficaz é retirar poder de escolha ao avançado e, assim, ter a iniciativa do lance. Por exemplo, no caso de David Luiz e Hulk, defender mais o lado direito, convidando a que a iniciativa individual se desenrolasse para a linha e para o pé direito do avançado portista, teria sido uma estratégia individual muito mais produtiva. Condicionava-se um jogador pouco capaz de responder a obstáculos imprevistos a optar sempre pelo mesmo caminho e a fazer uso do seu pior pé mais vezes; propiciavam-se situações de cruzamento com o pé direito de Hulk cuja resposta poderia até ser trabalhada em treino durante a semana; e, sobretudo, nunca se promoveria a possibilidade de Hulk ultrapassar individualmente o seu opositor directo, criando situações de superioridade numérica. Outra possibilidade seria a contrária, optar por fechar mais a linha e convidando Hulk a fintar para dentro. Fazendo depois uso de um bom jogo posicional de toda a equipa e juntando os jogadores no momento defensivo, obrigar-se-ia Hulk a voltar recorrentemente para trás ou a forçar lances individuais pelo meio em franca inferioridade numérica. A opção foi outra e passou por ter David Luiz sempre em cima de Hulk, à espera da iniciativa do avançado portista e sem qualquer plano previamente concebido. Como Hulk é fortíssimo quando lhe oferecessem a iniciativa e quando o adversário não se acautela colectivamente para responder às suas investidas, deu no que deu.

Como devem saber, os que lêem este blogue, tal como não sou especial admirador de David Luiz, não sou especial admirador de Hulk. Tem duas ou três características extraordinárias e que podem fazer a diferença ocasionalmente, mas tem atributos subdesenvolvidos e que considero essenciais no futebol moderno. Quero com isto dizer que Hulk faz ou pode fazer a diferença quando se reúnem circunstâncias favoráveis à exploração das suas características, mas terá sempre dificuldades quando tiver de ser ele a procurar essas circunstâncias. Ou seja, a preponderância de Hulk dependerá sempre mais do contexto criado do que dele próprio. Villas-Boas tem tido o mérito de ser capaz de forçar o aparecimento dessas circunstâncias e, assim, de tornar produtivas ao máximo as capacidades do brasileiro, mas a criação dessas circunstâncias depende sempre em parte da proposta do adversário. O erro de Jesus, mais do que ter medo de Hulk, foi ter medo das coisas erradas. Receou o momento em que Hulk tinha a bola quando deveria era ter receado o momento anterior e o momento posterior a esse; receou Hulk quando deveria ter receado era o Porto enquanto colectivo capaz de criar as circunstâncias favoráveis às capacidades de Hulk; receou o drible de Hulk quando deveria era ter receado a explosão dele. É que Hulk com bola não é especialmente perigoso; Hulk com espaço sim. E foi precisamente o espaço que Jesus não acautelou. O medo de Jesus, portanto, para além de todas as consequências que daí resultaram, radicou ainda no equívoco magistral de ser infundando precisamente por ser um medo acerca das coisas erradas.

Regressando agora à generalidade do tema e utilizando Hulk como paradigma do jogador difícil de parar no um para um, por ser rápido e forte, devo dizer que o melhor modo de defender o um para um contra estes jogadores é precisamente como sugeri acima, tomando a iniciativa. Tomar a iniciativa, deste ponto de vista, implica modificar o padrão a que o adversário está habituado e, com isso, condicioná-lo e limitá-lo. Tratando-se de um jogador previsível - residindo a sua previsibilidade no facto de apostar invariavelmente no um para um - esta opção nunca constitui uma desvantagem e o próprio defesa saberá sempre, por antecipação, aquilo que o avançado vai fazer, porque o preparou para isso limitando-lhe as escolhas. Ao invés de se ficar a meio metro do adversário, deve-se ficar ligeiramente mais afastado e deve-se dar ostensivamente um dos lados, concedendo-lhe uma aparente liberdade que tem o condão de o condicionar. Há ainda truques defensivos eficazes, como 1) forjar um mau posicionamento aparente, convidando o adversário a atacar a zona aparentemente desprotegida, mas estando preparado para atacar essa zona e fazendo-o assim que o adversário dá o toque na bola, momento em que a capacidade de reacção do avançado é nula; 2) dar espaço e fingir esperar a iniciativa do adversário, atacando depois repentinamente a bola antes de essa iniciativa ser tomada; 3) simular um pequeno reajustamento de posição (como simular um pequeno passo para a frente ou para os lados, ou ameaçar atacar a bola), o que obriga o adversário a reajustar-se também ou a reagir mais decisivamente, atacando depois o lance no momento em que a reacção do adversário à simulação se efectiva. Todos estes truques servem para que o defesa tenha parte da iniciativa do lance do seu lado. São modos de tornar mais eficaz o seu desempenho em duelos individuais, modos de tornar menos relevantes possíveis diferenças de atributos físicos e modos de tornar menos determinantes jogadores que só o podem ser se tiverem a seu favor certas circunstâncias, como o sejam a possibilidade de tomar a iniciativa em duelos individuais e o espaço posterior propiciado por uma abordagem defensiva, individual e colectiva, deficiente.

Esta forma de defender o um para um é extraordinariamente negligenciada e constitui uma técnica pouquíssimo trabalhada, onde quer que seja. Há poucos jogadores que recorram a este tipo de coisas e maior parte deles fá-lo-ão de forma inconsciente, talvez como protecção involuntária contra a ausência de certos atributos físicos. Um defesa rápido, e que tenha orgulho na sua rapidez, nunca recorre a isto. Encara os adversários sempre de igual modo, concedendo-lhe a iniciativa para depois recuperar em velocidade e dar a impressão de um grande feito. Veja-se a diferença entre Ricardo Carvalho e Pepe, agora que jogam juntos, na forma como abordam este tipo de lances. Pepe aproxima-se muitíssimo do portador da bola e espera a sua iniciativa para reagir, fazendo uso da sua velocidade; Ricardo Carvalho espera, dá mais espaço, força um dos lados. E nunca é ultrapassado. Veja-se ainda Piqué ou Daniel Carriço. Raramente enfrentam este tipo de lances de frente; estão de perfil, concedendo um dos lados, diminuindo as possibilidades do adversário que tem a bola. Isto é cultura e inteligência. E é a forma mais eficaz de defender o um para um. David Luiz é só um defesa veloz. Não é especialmente inteligente nem tem cultura suficiente que o torne excepcional a defender o um para um. Contra um adversário poderoso em termos de velocidade, é facilmente ridicularizado. César Peixoto, o tal que agora os mentecaptos têm por passatempo assobiar, tem metade da velocidade de David Luiz e fez muito, mas muito melhor, no jogo da Supertaça. Passou essencialmente por reconhecer as suas limitações em termos atléticos e por procurar resolver os problemas de outro modo. O Benfica, Jorge Jesus e David Luiz quiseram vencer o Porto e Hulk nos termos destes, tentando contrariar velocidade com velocidade. Um duelista experiente saberia de antemão que teria mais hipóteses de vencer um pistoleiro excepcional se, tendo a possibilidade de escolher, escolhesse um duelo de espadas. É que raramente se vence um perito com as armas em que essa pessoa é perita.

P.S. Há quem diga que Hulk, por ser especialmente forte, nunca deve receber de frente e, portanto, que a marcação individual tem de ser sempre apertada e movida a todo o terreno. Isto é absurdo. Foi precisamente por isto que Villas-Boas venceu o jogo. Antecipou que Jesus iria mover uma perseguição individual a Hulk e que o jogador que o marcasse, fosse qual fosse, iria abandonar a sua zona para ir atrás do brasileiro. Com isto em mente, terá treinado durante a semana movimentos semelhantes ao do terceiro golo, com Hulk a baixar, levando David Luiz e criando um buraco, e a bola a ser metida nesse espaço, no qual entraria Belluschi. Aliás, o segundo golo não é muito diferente. As preocupações excessivas com Hulk fizeram com que a linha defensiva do Benfica nunca estivesse bem formada, com David Luiz sempre demasiado subido. Falou-se muito em Sidnei e na sua pretensa falta de rotina, mais foi o mais esclarecido de toda a linha defensiva. O terceiro golo é o exemplo perfeito disto e é inteiramente da responsabilidade de David Luiz (ou de quem lhe ordenou que se comportasse assim), que vai atrás de Hulk até ao meio-campo e propicia o espaço aproveitado por Belluschi. Sidnei chega em esforço e não pode cometer falta, sob pena de conceder penalty. Aliás, foi mais um jogo, entre tantos, penoso para David Luiz, com responsabilidades directas nos três primeiros golos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

A avalanche

Há quem fale em crise, quem diga que o Barcelona, este ano, está mais fraco, e patetices parecidas. Acredito que as pessoas que o dizem não têm visto os jogos e que, olhando para os resultados, e comparando-os com os de épocas anteriores e, sobretudo, com os do Real Madrid, achem que há qualquer coisa de inferior. Não há. Aliás, exceptuando o desafio perdido em casa frente ao Hércules, o Barcelona tem sido sempre superior e nunca teve uma vitória em causa. Em vários jogos, e sobretudo porque Guardiola começou a época a gerir esforços, a equipa tem preferido ser menos massacrante e mais cautelosa e ponderada. Mas, quando é preciso passar 90 minutos a jogar à rabia com os adversários, o Barcelona continua impecável. Na semana passada, a goleada imposta ao Sevilha revela isso mesmo. Mais do que a goleada, a forma quase humilhante como os sevilhanos foram vergados é elucidativa. As pessoas esquecem-se que o Real Madrid só ainda jogou contra dois dos primeiros dez classificados da Liga Espanhola, Mallorca e Espanyol. Esquecem-se igualmente que, dos 9 jogos do Barcelona no campeonato, 5 foram contra equipas de entre esses mesmos dez. Esquecem-se, por fim, que o Barcelona já jogou e venceu, em casa, o Valência e o Sevilha, e que já passou incólume nas deslocações dificílimas ao terreno do Athletic de Bilbao e do Atlético de Madrid. Uma revisão do calendário talvez não fizesse mal aos papagaios que pensam que podem descobrir os mistérios do universo olhando simplesmente para resultados.



Fica o vídeo dos primeiros 4 minutos do jogo frente ao Sevilha. As imagens deverão ser esclarecedoras. Se não forem, diga-se ao menos que foram 4 minutos de atropelamento, com o Barcelona a jogar, a trocar a bola cada vez mais perto da baliza adversária, a progredir no terreno, a criar oportunidades de golo, e o Sevilha a correr atrás da bola. A avalanche foi de tal modo intensa que, quando o golo surge, a sensação de inevitabilidade era óbvia. Quando houver outra equipa com a capacidade para fazer 4 minutos tão demolidores como estes, ainda por cima jogando quase a passo, avisem.

P.S. A forma como Sergio Busquets antecipa o que os adversários vão fazer e a forma como se coloca em campo e como reage ao modo como os adversários atacam é genial. É o exemplo máximo de inteligência em momento defensivo. Tem a perfeita noção de quando deve atacar o lance e de como o deve fazer. Com pezinhos de lã, está no sítio certo à hora certa para impedir a transição, para fechar espaços, para roubar bolas. É de longe, mas de muito muito longe, o melhor médio defensivo da actualidade.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A Falta de Confiança

A conversa da falta de confiança, em relação ao rendimento de um avançado, já chateia. Importa, porém, continuar a desmistificar ideias feitas e opiniões assentes em especulações infundadas. Mantenho aqui o que tenho vindo a defender há já algum tempo. A principal diferença, em termos de finalização, entre Postiga e Liedson, é o número de ocasiões de que os dois dispõe. O brasileiro, pelo tipo de movimentações que prefere, goza de muito mais oportunidades do que o português, que se preocupa com outras coisas além de aparecer nas zonas de finalização. Como tal, Liedson marca mais golos. Mas também falha mais. É estúpido dizer que Postiga é perdulário, que falha muitos golos, que tem um problema mental, que é maluco, etc. E é estúpido porque não é verdade. O que acontece é que, como tem menos oportunidades de golo, cada falhanço tem uma importância acrescida. Sempre que falha, então, é crucificado e dizem-se disparates sem fim. O que aconteceria se, apesar de falhar dois ou três golos num jogo, marcasse outros tantos? Ninguém se lembraria de maldizer a sua prestação, certamente.

Ora bem, de Liedson não se diz o mesmo que Postiga simplesmente porque, apesar de falhar tanto ou mais, e de forma tão ou mais clamorosa, marca com mais regularidade. Mas isso apenas porque tem mais oportunidades para fazê-lo. Em termos de percentagem de aproveitamento de oportunidades, Postiga não é de maneira nenhuma inferior a Liedson e não é de maneira nenhuma inferior a qualquer ponta-de-lança de créditos firmados. No passado jogo frente à Islândia, Postiga marcou um golo e falhou outro, no frente a frente com o guarda-redes. Muitos se apressaram a referir o falhanço como imperdoável. Mas a verdade é que marcou um golo em duas oportunidades, tendo nesse jogo um aproveitamento de 50%. Por que razão não se dizem as mesmas coisas de Liedson? É que, frente ao Gent, o avançado-deus marcou dois golos, sim, mas falhou três escandalosos, alguns de baliza totalmente aberta. Que dizer disto? Apesar dos dois golos, o aproveitamento de Liedson foi inferior ao de Postiga nesse jogo em que, tão depressa, se aprontaram a ver nele um problema qualquer. Será que Liedson também tem um problema de confiança? Será que é maluco, também? Neste mesmo jogo frente ao Gent, Postiga assistiu Salomão para o primeiro golo; foi ele quem recebeu a bola comprida, deixando-a à mercê de João Pereira, que assistiu Liedson para o segundo; foi ele quem arrastou a defesa e abriu o espaço por onde entrou Maniche no quarto golo; foi ele quem marcou o quinto. E não falhou clamorosamente nenhum golo, ao contrário do seu companheiro de sector que, para muitos, é exímio na finalização.

O objectivo deste texto é duplo. Em primeiro lugar, pôr em evidência a falácia que há em pensar que Liedson e Postiga diferem essencialmente pela capacidade de finalização, que no primeiro é boa e no segundo insatisfatória. Liedson marca mais e falha mais. E a razão por que tal acontece é porque é um tipo de jogador diferente, que usufrui de maior número de ocasiões de golo. O seu rendimento, de acordo com as ocasiões de que dispõe, não é superior ao de Postiga. O segundo objectivo é demonstrar que Postiga, além de não ser inferior a Liedson em termos de finalização, garante à equipa muito mais que o momento da finalização. E é esse excedente que o faz bem mais útil à equipa do que o brasileiro. Postiga não tem problema mental nenhum. É um avançado que, porque se preocupa com muitas coisas (servir de apoio frontal, apoiar os colegas à linha, tabelar, arrastar defesas sem bola, etc.) não consegue atacar as zonas de finalização com tanta frequência quanto um avançado que tenha por preocupação apenas os movimentos para finalizar. E, como tal, é um avançado que goza de poucas oportunidades para marcar, quando comparado com avançados de outro tipo. Assim, porque os adeptos são, tendencialmente, esquecidos, sempre que falha uma dessas ocasiões é assobiado e vêem nele alguém pouco concretizador. A verdade, contudo, é outra. E o seu rendimento, se tivermos em conta os golos que marca em função das oportunidades de que dispõe, e até superior ao de certos avançados que marcam mais golos. Assim se desmascaram falsas certezas.

sábado, 9 de outubro de 2010

Postiga

Comecemos por onde se deve começar: há poucos jogadores que me enchem as medidas, jogadores que me fazem assistir a um jogo apenas para, de entre 22 atletas e um jogo de futebol, me deliciar com aquilo que fazem em campo. Sei reconhecer qualidade, mas nem sempre conservo a disposição para ver os melhores do mundo jogar. Muitas vezes porque a sua competência deriva das suas qualidades físicas e atléticas. O verdadeiro requinte está no único atributo que não me canso de contemplar: a classe. E classe não é coisa que todos tenham. Pedro Barbosa era um jogador fenomenal porque transbordava classe. Fazia as coisas com uma calma, um auto-controlo e uma vaidade quase divinos. Como um toureiro. Alguém se lembra de um bósnio que jogou no Estrela da Amadora na década de 90 chamado Velic? Mal se mexia durante 90 minutos. Quando a bola vinha ter com ele, era preciso um batalhão para lha tirar. Enquanto não o conseguiam, fazia maldades atrás de maldades, sempre com uma calma e uma classe inusitadas. Jogava com a gola da camisola levantada, à Cantona, e tinha o cabelo rapado. É à qualidade que fazia com que Velic valesse o preço do bilhete que me refiro. Riquelme é, nos tempos que correm, o paradigma dessa virtude. Quando estes jogadores estão dentro de campo, parece que gozam com o mundo inteiro. Os fãs da intensidade jamais serão capazes de percebê-los e de aceitar que façam parte de uma equipa ambiciosa. A classe não se coaduna, para eles, com a competitividade. Estão, evidentemente, equivocados.

Na passada sexta-feira, preparava-me para mudar de canal ainda não ia o jogo da selecção a meio da segunda parte. Estava a ser um jogo aborrecido, mal jogado, com a selecção portuguesa concentrada, mas pouco clarividente, incapaz de criar situações de golo a não ser aproveitando os erros do adversário. Não me apetecia perder mais tempo com tal banalidade. Ainda que estivessem a jogar vários jogadores que admiro, nenhum me encanta como me encantavam Figo, Rui Costa, João Pinto, Paulo Sousa ou Pedro Barbosa. O futebol português pode hoje estar mais competitivo. Mas o que ganhou em competitividade perdeu em classe. Faltam hoje à selecção jogadores de classe, jogadores com capacidade para deslindar problemas complicados, para resolver situações de modos inesperados. As principais carências da selecção são a criatividade, a espontaneidade, a imprevisibilidade. Ronaldo e Nani podem estar entre os melhores do mundo, mas não são capazes de momentos de requinte. Quando percebi que Hélder Postiga ia entrar, detive-me e decidi continuar a ver o jogo. De repente, percebi que é dos poucos jogadores portugueses que tem a capacidade para me entreter e dos poucos que, por mais chato que esteja a ser o jogo, me consegue manter cativado. A razão é simples: é o último herdeiro de uma geração em que a classe abundava.

A classe é a habilidade de resolver problemas da maneira mais imprevista, fazendo a resolução parecer simples. Ronaldo pode ser o melhor jogador português da actualidade. Jamais o verão a resolver um problema difícil. Falta-lhe génio para isso. A sua qualidade vem do facto de aproveitar as suas características ao máximo e de potenciar as situações em que essas características podem fazer a diferença. Não tem, no entanto, criatividade para solucionar situações difíceis, situações em que precisa de pensar rápido e em que precisa de encontrar uma solução imprevista. Hélder Postiga pode não ser um jogador de topo. É, porém, o jogador mais genial desta selecção. Tivesse ele a capacidade, como tem Ronaldo, para potenciar as suas melhores características, e seria um dos melhores do mundo. Não a tendo, resta-lhe a esperança de estar incluído num colectivo que lhe potencie essa genialidade. Nos últimos anos, não tem tido essa sorte e a opinião pública desvalorizou-o. Felizmente, há sempre momentos num jogo em que essa qualidade vem ao de cima. Pode não ter, em termos gerais, tanta categoria quanto poderia ter, caso juntasse ao seu génio atributos físicos que lhe permitissem resolver jogos sozinho, mas, sempre que é solicitado, empresta uma qualidade que poucos conseguem emprestar. Num colectivo que privilegiasse a ideia de colectivo, que privilegiasse, portanto, o intelecto dos jogadores, Postiga seria enorme. Na mediocridade que grassa, é um patinho feio.

O que me agrada em Postiga é a sua cabeça, o seu modo de pensar. A forma como resolve os lances, encontrando invariavelmente não só a melhor solução, mas muitas vezes uma solução que poucos considerariam existir, é extraordinária. O "souplesse" com que o faz, a descontração com que executa, é que me deixa de boca aberta. E isto é o que ninguém vê, preocupados como estão em perceber se o rapaz transpira o suficiente, ou se marca muitos golos. Isto é que é formidável! Estivesse ele incluído numa estrutura que potenciasse esta virtude e todos lhe fariam largas vénias. Disse Mourinho dele, a propósito da final da Taça UEFA que não pôde jogar, que teria muitas finais na sua carreira. Enganou-se Mourinho! Não porque Postiga não tivesse a qualidade que Mourinho desde logo percebeu que tinha, mas porque as qualidades que Postiga desenvolveu não interessam à comum récua de treinadores e opinadores. A sua classe é assim arte apenas para os olhos de quem vê para além do que os números mostram. Lamento, portanto, a educação estética errada dos restantes.

Sobre ele há a teoria de que falha muitos golos. Por causa desta teoria, há a teoria de que falha muitos golos porque é mentalmente fraco e tem tendência para tremer nos momentos de decisão. É sobre isto que pretendo falar até ao fim. Não concordo com a teoria nem com a teoria sobre a teoria. E, se os próprios termos em que descrevo Postiga são verdadeiros, gera-se um paradoxo. Isto é, se Postiga é alguém com uma capacidade intelectual acima da média, se tem classe, se tem génio, se é capaz de fazer coisas difíceis e inesperadas, como é que pode ser também mentalmente instável? É um contrassenso. Significa isto que ou é falso que Postiga tenha a classe que digo ter, ou é falso que seja mentalmente fraco.

A teoria que defende que ele é mentalmente fraco procura justificar a sua pouca produção, no que diz respeito a golos, desse modo porque entende que a sua causa está na quantidade de golos falhados e não noutra coisa. O erro está em assumir que essa fraca produção advém do não aproveitamento de oportunidades de golo e não de outra causa diferente. Acontece que Postiga não falha assim tantos golos, não é perdulário ou displicente. como parecem crer. Por norma, é até muito frio na hora de finalizar. Vejam-se vários lances de finalização dele para se perceber isto. Veja-se o último jogo com o Beira-Mar e perceba-se que, em todos os lances em que não marcou golo, fez o que estava ao seu alcance para marcá-lo. Muitas vezes, o que acontece é que não goza de tantas oportunidades assim. Mas quando as tem, não treme. Dizer o contrário é simplesmente mentira. A sua fraca produção tem explicações diferentes. Tem a ver com as suas preocupações e não com problemas mentais. Postiga é fortíssimo, do ponto de vista mental. Tem um carácter fortíssimo, também. É vaidoso, fino, requintado. Gosta e consegue fazer coisas difíceis. À frente da baliza, raramente fecha os olhos e fuzila. Não é como Nuno Gomes, por exemplo, que tinha bastantes dificuldades, sobretudo a partir de uma dada altura na sua carreira, para finalizar lances fáceis. Postiga faz tudo com critério e é mais racional que a grande maioria dos jogadores de futebol. Como é que é possível alegar que é mentalmente fraco?

Aliás, esta moda de justificar o que não se consegue justificar recorrendo a factores emocionais já chateia. Sempre que não se consegue perceber oscilações de rendimento - e isto acontece sobretudo em avançados porque se associa o rendimento destes aos golos que marcam - justifica-se o mesmo com falta de confiança. Isso é um absurdo. A falta de confiança afecta os jogadores, obviamente, mas reduzir a produção de golos de um avançado à falta de confiança deste é uma patetice. Postiga não tem falta de confiança. Pode já tê-la tido, pontualmente, sobretudo quando sentiu que tinha de provar algo a alguém, mas não só isso não o afecta ou afectou sempre, de forma consistente, como jamais será a explicação mais correcta para marcar poucos golos. Postiga, para certas pessoas, tem um problema de finalização. Essas pessoas não só não sabem identificar causas de problemas e, por conseguinte, só são capazes de justificar essas coisas deste modo fácil, como não conseguem sequer perceber o próprio Postiga. Dizer tal coisa não faz o menor sentido. Postiga tem uma personalidade forte e não tem problema de finalização nenhum. Finaliza bem, tem critério, preocupa-se com o gesto técnico, preocupa-se em escolher um lado, em executar em conformidade com as necessidades do lance, etc. Simplesmente não é um avançado que goze de tantas oportunidades como um jogador clássico de área, e isto porque tem muitas outras preocupações para além das destes. Antes de teorizarem, certos teorizadores deviam, pois, perceber se as teorias em que se apoiam de modo a sustentarem os pilares da sua teoria serão, de facto, verdadeiras. É que, começando com uma premissa errada, como Descartes com o seu "cogito, ergo sum", toda a filosofia que dela procede não passa de uma torre de Babel de raciocínios viciados. E o resultado é uma asneira filosófica de todo o tamanho.

domingo, 26 de setembro de 2010

Lições de Mestre (6)

Comecemos por uma ideia defendida habitualmente por muita gente e que está absolutamente errada. Para muitos, o Barcelona de Guardiola é uma equipa que abre muitíssimo, em momento ofensivo, fazendo campo grande e circulando a bola a toda a largura do terreno. Dizem certos entendidos que é esta faculdade que possibilita ao Barcelona o seu jogo rendilhado e que é no jogo exterior da equipa que está a sua principal virtude. Luís Freitas Lobo, a semana passada, a propósito do massacre a que o Braga foi sujeito em Londres, sugeriu que as pessoas estão equivocadas quando dizem que o Arsenal joga de maneira idêntica ao Barcelona. O seu argumento era o de que, ao contrário do Barcelona, que abre o seu jogo, o Arsenal privilegia a zona central para atacar.

Também considero que há diferenças entre o modo de jogar das duas equipas, mas esta não é certamente uma delas. É que, se há coisa em que as duas se aproximam, é no privilégio quase contra-intuitivo dos espaços centrais para atacar. O Barcelona não faz campo grande como julgam. Se há coisa que distingue o 433 dos catalães é a não fixação dos extremos nas linhas. Quem quer que jogue como extremo, tem por missão jogar por dentro, aproximar-se do portador da bola. A profundidade, em organização ofensiva, é sempre dada pelo lateral. Os extremos só ocupam a linha em momentos de transição ou como ponto de origem, de onde saem para vir receber um passe curto numa zona central. O futebol do Barcelona, assim como o do Arsenal, é preferencialmente jogado pelo meio; Luís Freitas Lobo está completamente enganado quando pensa que não.

O lance que se segue fortalece esta ideia. Mas podia ainda alegar, por exemplo, a opção clara de Guardiola pelo 442 losango nos dois últimos jogos, frente ao Gijón e frente ao Bilbao, com Busquets a trinco, Keita e Xavi como interiores, e Iniesta como médio ofensivo, a cair preferencialmente em zonas centrais, ficando o ataque entregue a Villa e Pedro/Bojan. Neste esquema, então, foi ainda mais visível a ocupação dos espaços centrais e o privilégio dado ao jogo pelo meio. Fazer campo grande não é algo que esteja nos princípios do Barça, simplesmente porque tal é contraditório à filosofia de jogo da equipa, que requer uma rede de apoios muito mais próxima e compacta. Para que o Barcelona possa jogar como joga, tem de ter, mesmo com bola, os jogadores muito juntos uns aos outros. A largura e a profundidade é, por isso, tarefa de quem vem de trás, nunca dos extremos.




O golo começa a ser construído com a vinda da bola da linha para o meio e é a partir do meio que tudo se desenha. Neste momento, estão 9 jogadores do Panathinaikos atrás da linha da bola. Um passe vertical de Messi trata de deixar batidos os dois médios entre os quais a bola passa. Entre linhas, Xavi devolve de primeira a Messi, que entretanto se desmarcara para a frente. Ao receber a bola de Xavi, Messi torna-se no alvo das atenções dos defesas gregos. O defesa que estava em cima de Pedro sai da marcação para travar Messi, que passa a poder jogar com Pedro. Fá-lo e recebe de imediato a devolução, já no interior da área. Depois, é dominar a bola e rematar. O mais difícil estava feito.

Com duas tabelas perfeitas, as duas iniciadas por um passe vertical que queima linhas, o Barça ultrapassou uma defesa que, inicialmente, estava composta por nove jogadores. É assim que se entra numa defesa compacta, que opta por colocar quase todos os seus jogadores atrás da linha da bola. Esta jogada exemplifica várias coisas. Reforça, em primeiro lugar, a ideia que referi há algumas semanas acerca de fazer da bola um engodo. Desmente, igualmente, a teoria de que o Barcelona não ataca pelo meio. E demonstra, por fim, a utilidade que há num simples passe vertical. Nos dias que correm, o jogador que tenha por preocupação este tipo de passes é sempre um jogador com uma capacidade acima da média. Era esta qualidade que, por exemplo, Pontus Farnerud possuía e que poucos valorizavam. É esta qualidade, também, que faz de Hélder Postiga um avançado muito mais valioso do que se quer crer. Mas como se prefere a garra, a capacidade de luta e a obsessão pelo golo, jogadores como estes dificilmente agradam às massas. É pena que não haja mais Guardiolas para educá-las.