terça-feira, 14 de setembro de 2010

Mascherano e a Competência de uma Equipa

Mascherano foi o último reforço do Barcelona para esta temporada. Para muitos, é um dos melhores médios defensivos da actualidade e traz ao Barcelona uma agressividade e uma capacidade de recuperação invulgares, sendo por isso natural o interesse que o clube catalão depositou no jogador. Não partilho desta ideia. E vou mais longe. Nem sequer compreendo esta aquisição. Faria sentido em qualquer outro clube do mundo. No Barcelona de Guardiola, simplesmente não faz.

Mascherano é um jogador de grande utilidade defensiva, um atleta incansável, com uma capacidade de luta pouco vulgar. É, além de tudo isto, um jogador de passe fácil, raramente se aventurando em coisas que não são para ele. Com as suas características, há pouquíssimos jogadores no mundo inteiro com a sua qualidade. O problema é que o Barcelona não faz uso dessas características nem necessita propriamente de um jogador para fazer algo que, habitualmente, faz em equipa. Aquilo em que Mascherano é forte e aquilo que pode oferecer é capacidade de recuperação, agressividade e muita disponibilidade física. Com ele em campo, o Barça ganha maior capacidade de luta. Mas perde muitíssimo mais. Perde critério, qualidade posicional, entendimento do jogo e capacidade de decisão. E, enquanto as primeiras coisas são pouco importantes, uma vez que a equipa funciona como um todo a defender, não necessitando propriamente de um jogador estritamente vocacionado para os momentos defensivos do jogo, a capacidade de decisão do colectivo depende em muito da soma da capacidade de decisão dos seus atletas. E, nesse particular, a permanência de Mascherano em campo é incrivelmente nociva ao Barcelona.

O argentino estreou-se este Sábado, num jogo que o Barcelona acabou por perder, frente ao Hércules. Dificilmente, porque é difícil relacioná-lo aos lances dos golos, haverá quem justifique a derrota catalã com essa estreia. Pois é precisamente o que pretendo fazer. A relação não é directa, isto é, não é nos lances decisivos que quero justificar esta ideia. É antes no que, em termos gerais, significou ter em campo um jogador como o argentino. Mascherano não só não esteve ligado aos golos, como teve intervenções que, aos olhos de muitos, foram boas. Raramente falhou um passe, não comprometeu, esteve relativamente bem posicionado, etc. Estatiscamente, para aqueles que acham que as estatísticas reproduzem fielmente o rendimento de um jogador em campo, Mascherano fez um jogo extremamente positivo. De que modo então é possível, como eu quero fazer crer, que tenha feito um jogo deplorável e, mais do que isso, que tenha tido sérias responsabilidades na derrota dos catalães?

O Barcelona tem no seu plantel um jogador relativamente parecido com Mascherano, embora esteja mais habituado a jogar como médio-ofensivo, ao lado de Xavi, e não como pêndulo defensivo. Esse jogador é Keita. Acontece que, ao contrário de Mascherano, Keita não só leva dois anos de avanço de aprendizagem, não prejudicando tanto a equipa com a sua menor capacidade de decisão, como esgota a sua utilidade nos movimentos verticais e na capacidade que denota em juntar os sectores, fruto da sua excelente recuperação defensiva. Se Mascherano viesse para ser substituto de Keita, utilizado ao lado de um médio criativo e para equilibrar a equipa, menos mal, embora não me pareça tão necessário como isso ter sempre um jogador dessas características em campo, nesta equipa. Mas Mascherano vem para jogar como médio-defensivo, onde sempre jogou, para funcionar como cobertura dos médios mais ofensivos. E, tendo em conta a exigência específica da posição nesta equipa, nem para suplente de Busquets tem categoria, ficando muito aquém, por exemplo, de Yaya Touré, que é o jogador que vem, possivelmente, substituir no plantel.

Ora, foi precisamente como médio-defensivo, no lugar de Busquets, que Mascherano actuou. E, apesar de ter dado praticamente sempre seguimento às jogadas, apesar de não ter falhado praticamente nenhum passe, apesar de se ter conseguido desembaraçar das duas ou três situações complicadas em que se viu envolvido, fez um jogo miserável. A razão? Não percebeu ainda - e duvido que venha a percebê-lo - o que significa jogar nesta equipa e que tipo de competências deve desenvolver. Mascherano optou quase sempre pelo mais simples: jogar para o lado e para trás. Quando não o fez, quando procurou algo diferente, explorou o passe longo, para as alas. Nenhuma destas opções se coaduna com o jogar deste Barcelona. Mascherano não fez um único passe vertical. Repito: um único! E foram várias as vezes em que podia tê-lo feito. Por passe vertical entendo, como já o referi várias vezes, um passe rasteiro, não necessariamente comprido, a explorar um apoio frontal. Este tipo de passe é, nos dias que correm, algo a que pouquíssimas equipas dão importância, mas uma das mais interessantes opções que uma equipa que quer mandar no jogo pela posse de bola tem ao seu dispor. Mascherano preferiu sempre lateralizar ou, quando com espaço, esticar nas linhas. Não é assim que se joga à bola. Lateraliza-se ou joga-se para trás quando não há opções para a frente, quando o adversário fechou bem e a pressão vertical é eficaz. Estica-se nas linhas quando a pressão horizontal do adversário congestionou o jogo de um dos lados, quando há espaço e tempo para a bola chegar em condições a um colega e quando esse colega tem apoios próximos. Mascherano utiliza estas duas opções sem critério, apenas porque entende que ele (repare-se no individualismo da coisa) tem condições para decidir desse modo e executar em conformidade.

Mascherano não pensa o jogo colectivamente. Individualmente, é um dos médios defensivos mais fortes do mundo. Colectivamente, é banal. E o problema de jogar no Barcelona é que pode não chegar ser dos melhores em termos individuais, se não se souber pensar colectivamente. Por não sabê-lo, Mascherano comprometeu sempre o jogo catalão. Nunca procurou o apoio frontal, nunca arriscou um passe vertical, que ganharia metros à equipa, quando um colega tinha perto de si um adversário (coisa que qualquer jogador habituado ao futebol do Barça faz de olhos fechados, sabendo perfeitamente que o colega vai devolver a bola), nunca jogou curto sem ser para o lado, em total segurança. Fez um jogo medroso, não comprometendo com perdas de bola ou com passes falhados, mas comprometendo com más decisões, simplesmente por não decidir pelo melhor. A melhor decisão não é simplesmente a que permite à equipa permanecer com a posse de bola. Se a equipa pode progredir e ultrapassar uma linha defensiva, com um simples passe, jogar para o lado é uma má decisão, ainda que segura. Mascherano teve oportunidades de sobra para fazer evoluir o jogo da sua equipa, mas optou sempre por um passe de menor risco. O Barcelona manteve a posse de bola, mas raramente conseguiu ser incómodo com ela, raramente a conseguiu fazer entrar nas linhas adversárias.

Mascherano nunca respeitou os movimentos de abaixamento do avançado ou do médio mais ofensivo, nunca explorou os movimentos entre linhas dos colegas. Preferiu sempre o passe certo e a bola longa. Com isso, fez do Barcelona uma equipa muito mais previsível. É por isso que as estatísticas individuais objectivas, que contabilizam números de passes e percentagens de passes acertados e fazem disso um critério irrevogável para aferir o rendimento de um jogador, não servem para nada. É que incorrem num erro crasso. O rendimento de um jogador é uma coisa colectiva e não pode ser calculado pela soma objectiva das suas intervenções individuais. Para se aferir o rendimento de um jogador, é necessário perceber o impacto que cada uma dessas intervenções individuais teve no rendimento colectivo. E isso, por mais que o pretendam, não pode ser calculado somando acções contabilizáveis e fazendo contas de algibeira. Mascherano, para aqueles que acham que podem contabilizar o rendimento de um jogador somando-lhe as acções mais visíveis, teria feito um jogo exemplar. Para aqueles que desconfiam disso e sabem que o rendimento é muito mais do que aritmética primária, Mascherano fez um jogo fraco. Foi incapaz de ligar, com bola, a equipa e, muita por sua causa, o Barcelona foi uma equipa demasiado especulativa, demasiado horizontal, demasiado previsível a circular a bola.

É verdade que o argentino saiu ao intervalo e é verdade que o Barcelona não melhorou significativamente. Mas também é verdade que a equipa já se encontrava a perder e tinha necessariamente de fazer as coisas mais depressa, o que conduziu a alguma precipitação. No seu lugar, na segunda parte, jogou Keita, que oferece mais ou menos o mesmo que o argentino, nessa posição. Também por isso, o Barcelona não melhorou substancialmente. O erro de palmatória de Guardiola foi subestimar o Hércules, que além de se ter apresentado muito personalizado, tinha jogadores interessantes na frente. O Barcelona circulou demasiado a bola à roda do bloco defensivo do adversário, não procurando movimentos verticais de penetração. Competia isso, em grande parte, ao médio defensivo, porque era aí que começava a construção blaugrana. Quando esse médio é apenas um pêndulo defensivo, quando não procura ser ele a iniciar os movimentos de ruptura, a equipa fica com menos armas do que habitualmente tem. Que diferença para Busquets! Mascherano tem muito que evoluir, se algum dia interessar a Guardiola que seja útil ao seu Barcelona. No Sábado, apesar da ficha imaculada com que as estatísticas o terão certamente apresentado, Mascherano foi, não só uma nulidade, mas o melhor amigo de um adversário cuja estratégia passava por esperar pelo Barcelona no seu meio-campo, com as linhas muito juntas e quase todos os homens atrás da linha da bola. Quando, em simultâneo com o argentino, coincidiu no onze Adriano, outro dos reforços desta época, o Barcelona jogou com menos dois. E ainda há uns palermas que gostam de falar nas contratações da época passada!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O Engodo da Bola

Referi há dias algo em que acredito há já muito tempo, mas a que só muito recentemente consegui dar uma expressão satisfatória. Sou, como se sabe, defensor da ideia de que a bola é tudo, em futebol. E sempre o fui. Sempre me pareceu, ainda que não o soubesse articular convenientemente, que ter a bola era a mais fundamental das coisas no jogo. Os argumentos que arranjava para defender esta ideia eram os tradicionais: sem a bola a equipa está sempre mais próxima de sofrer; sem a bola a equipa está sempre dependente do que o adversário fizer, etc. Mas houve sempre algo mais, houve sempre uma ideia difícil de explicar por palavras que me fazia acreditar que a bola era, enquanto instrumento, o mais importante de possuir num jogo. O aparecimento do Barcelona de Guardiola veio dar visibilidade a todas (ou quase todas) as ideias acerca do jogo que se defendiam por aqui, veio pôr num campo de futebol a teoria que o Entre Dez formulou em palavras desde que fora criado. E o Barcelona de Guardiola fez e faz com a bola precisamente aquilo que, para mim, faz da bola algo tão precioso. Ainda assim, continuava a ser complicado expressar em argumentos a razão pela qual é tão importante possuir a bola.

Ora bem, a bola é importante se, acima de tudo, for utilizada como engodo. Claro que é importante saber circulá-la, saber preservá-la, mas isso não chega. Sobretudo no último terço do terreno e sobretudo contra adversários que optem por defender com muitos homens atrás da linha da bola e com um bloco baixo, há que saber utilizar a posse da bola para fabricar os espaços necessários para se poder penetrar nessas defesas. Ora, é fazendo da bola um engodo que tal passa a ser possível. Nos dias que correm e, de acordo com as sofisticadíssimas filosofias defensivas dos tempos modernos, há cada vez menos espaços para jogar e, por mais velozes, fortes e hábeis que os jogadores sejam, dificilmente uma defesa concentrada e bem posicionada zonalmente permitirá veleidades aos atacantes adversários. A única coisa que uma defesa bem organizada não pode deixar de perseguir, porque se movimenta e posiciona de acordo com a posição relativa dela, é a bola. Assim, é fazendo com que a bola atraia de certo modo os defensores para onde se pretende que melhor se pode forçar uma defesa a abrir espaços. A bola, quando circulada com critério e imaginação, torna-se por isso o mais eficaz abre-latas no futebol dos tempos que correm.

Quando o adversário activa o seu pressing (e tal, podendo acontecer em qualquer zona do terreno, de acordo com as instruções do treinador, acontece necessariamente junto à grande área defensiva), o portador da bola é sempre alvo de pressão. Se, nestas alturas, a equipa que tem a bola tiver a capacidade para circulá-la rapidamente entre os seus vários jogadores, mudando o portador da bola velozmente, cria necessariamente indecisões e movimentações descoordenadas no adversário que está a pressionar. Se a bola entra num determinado jogador, esse jogador será alvo de pressão por um defesa; se esse jogador soltar a bola e a endossar a um colega, passará a ser esse colega o alvo da pressão. Ora, se isto for feito com velocidade e critério, e sobretudo muito continuamente, a simples alteração naquele que transporta a bola cria problemas na reacção do adversário que pressiona. Assim, trocando rapidamente a bola, troca-se rapidamente de portador da bola e obriga-se o adversário a mudar rapidamente de alvo de pressão. O que isto provoca é a necessária desorganização defensiva de quem está constantemente a reagir a uma nova situação.

Jogando com toques curtos, muitas vezes inconsequentes, forçando até por zonas muito congestionadas, não é por isso necessariamente mal jogado. Muitas vezes, é o modo mais eficaz de desorganizar o adversário, sobretudo se feito com qualidade. Ouve-se vezes sem conta dizer, da boca de sábios que repetem a matemática dos livros, que, por exemplo, a bola deve rodar por toda a equipa e que, se vem de um lado, deve obrigatoriamente ir para o lado contrário, por ser o menos povoado. Isto não tem necessariamente de ser assim e só quem não consegue interpretar com clareza os lances e prefere que as pessoas ajam de um modo geral, sem a análise no terreno, de acordo com o que mandam as boas maneiras e os livros, é que o pode proferir. O jogo deve ser virado quando tiver de ser virado. Muitas vezes, o melhor é insistir pelo mesmo lado, obrigar a que o adversário, com muitos homens naquela zona, se precipite na tentativa de recuperar a bola e abra espaços. Aliás, virar o flanco ao jogo tem apenas o ganho momentâneo de fazer com que a equipa que tem a bola possa respirar, mas não consiste num verdadeiro problema para quem defende, que tem tempo para bascular e para se organizar enquanto percebe onde a bola vai cair. Com vários toques curtos sucessivos, torna-se muito mais difícil ao adversário a capacidade de reorganização. Assim, insistir em toques curtos e em espaços de difícil penetração, se feito com qualidade, é muitas vezes a solução mais indicada para um lance.

Compete à equipa que tem a bola fazer dela não apenas a ferramenta do seu ataque, mas um instrumento de desarrumação da defesa contrária. Para que o consiga, precisa de transformá-la num engodo. O adversário, porque tem necessariamente de recuperá-la, persegue-a obsessivamente. Mesmo quando define as zonas onde efectua essa perseguição, não tem como não a perseguir. Se quem tem a bola for capaz de fazer com que o adversário, enquanto a persegue, se desorganize, terá também conseguido com que a necessidade deste em persegui-la passe a possuir uma natureza perniciosa. Assim, é tendo a bola e gerindo-a de um modo particular que se pode fazer com que uma necessidade vital do adversário se transforme no seu próprio cadafalso.

Ter a bola e saber como fazer dela um engodo é, portanto, não apenas um modo de jogar, mas o modo mais eficaz de jogar. É por isto que a bola é tudo em futebol. É que, contra esta estratégia, não há uma que se lhe possa superar. Toda a equipa que não tem a bola tem de persegui-la, quer o faça com um bloco alto, quer o faça com um bloco baixo. Pode desposicionar-se muito ou pouco, mas desposicionar-se-á necessariamente. Trata-se de uma imposição própria do jogo. Como tal, se a equipa que não tem a bola tem de persegui-la e a equipa que a tem souber como fazer da bola um engodo, não há como a equipa que não tem a bola não fique à mercê da equipa que a tem e sabe o que fazer com ela. Essa equipa não terá, por isso, nenhuma estratégia alternativa com que contornar a estratégia de um adversário que tenha e saiba usar a bola, restando-lhe tão-somente confiar na sorte ou na desinspiração desse adversário. Não há assim nenhuma estratégia defensiva que possa contornar ou combater o engodo da bola e, por isso mesmo, não haverá outra competência colectiva que deva ser mais ambicionada que esta. Fazer da bola um engodo, eis a meta de qualquer equipa verdadeiramente ambiciosa.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Respostas às Dúvidas de um Sábio

Sábio: O que é preciso um jogador ter para ser um bom central?

Alguém: Ser alto para ganhar bolas de cabeça e ser agressivo para desarmar os adversários.

Sábio: E quanto a um lateral, de que precisa um lateral?

Alguém: Um lateral, hoje em dia, tem de ser alguém com capacidade para fazer o corredor todo. Precisa, portanto, de ser rápido, de ter pulmão e de ser capaz de dar profundidade pela faixa.

Sábio: E para jogar no meio-campo, o que é preciso?

Alguém: É preciso correr e lutar muito, porque se está sempre em jogo.

Sábio: E para se ser um criador de jogo, também é preciso correr muito?

Alguém: Não. Um criador de jogo deve ser alguém com boa capacidade de passe e visão de jogo.

Sábio: E um extremo, o que precisa um extremo de ter?

Alguém: Um extremo precisa de ser rápido porque é na linha que há mais espaço e precisa de ter habilidade para criar desequilíbrios individuais.

Sábio: E um avançado, que características deve ter um bom avançado?

Alguém: Um avançado deve ser alguém com capacidade para marcar golos.

Sábio: Estou a ver. Então, se tivermos os centrais mais altos e agressivos, os laterais mais rápidos e resistentes, os médios mais lutadores, os criativos com melhor capacidade de passe, os extremos com mais velocidade e habilidade e os avançados que mais golos marcam, temos necessariamente a melhor equipa, certo?

Alguém: Não necessariamente. No futebol, nada é assim tão simples.

Sábio: Então? Há algo mais que os jogadores tenham de ter?

Alguém: Os jogadores não. Mas a equipa precisa de funcionar colectivamente.

Sábio: Não percebo. Se o central alto e agressivo ganhar as bolas todas com a sua altura e a sua agressividade, como é que os adversários serão capazes de criar perigo? Se os médios lutarem mais que os médios adversários, não será a equipa mais capaz que a adversária? Se os avançados marcarem mais golos, como é que se pode perder um jogo?

Alguém: Nada é assim tão literal. Há circunstâncias...

Sábio: Não entendo.

Alguém: Teoricamente, se tivermos os melhores em cada posição, temos a melhor equipa. Mas eles têm de se entender entre eles, não podem fazer tudo sozinhos.

Sábio: Mas a altura do central é do central, não da equipa. Assim como a sua agressividade. A velocidade dos laterais e a habilidade dos extremos é dos laterais e dos extremos, não da equipa. A capacidade de passe é dos criativos, não da equipa. A capacidade de marcar golos é do avançado, não da equipa. Se eles valem pelos seus atributos individuais, mas não podem fazer as coisas sozinhos, ou seja, usando os seus atributos individuais, em que é que ficamos?

Alguém: Ah! Mas eles têm de pôr os seus atributos individuais ao serviço do colectivo.

Sábio: Continuo sem perceber. Como é que se põe a velocidade que é própria de alguém ao serviço de uma entidade abstracta como o colectivo?

Alguém: Fazendo com que a velocidade tenha consequências positivas para a equipa.

Sábio: Sim, mas como?

Alguém: Fazendo com que o jogador não se valha apenas por ela.

Sábio: Ah, mas então isso significa que o melhor extremo, aquele que é mais rápido e habilidoso, não se pode, para que a equipa em que joga seja a melhor, valer apenas da sua rapidez e da sua habilidade.

Alguém: Sim, assim parece.

Sábio: Então de que tem de se valer mais?

Alguém: Não sei.

Sábio: Pois, bem me parecia. Parece que afinal o melhor extremo tem de ter, além de habilidade e velocidade, algo mais. Mas que coisa misteriosa é essa que ele tem de ter além da habilidade e da velocidade?

Alguém: Não sei. Tem de ser colectivamente eficaz, talvez.

Sábio: Sim, mas o que significa isso? De que atributos necessita um jogador para ser colectivamente eficaz?

Alguém: Não sei. Não consigo formular verbalmente uma resposta a essa pergunta.

Sábio: Já calculava que não. Só tenho mais uma dúvida. Disseste que o melhor defesa era o mais alto e o mais agressivo, que o melhor lateral era o que tinha mais velocidade e pulmão, de modo a ter capacidade para fazer o corredor todo, que o melhor médio era o que lutava mais, que o melhor criativo era o que passava melhor e o que tinha melhor visão de jogo, que o melhor extremo era o mais veloz e o mais habilidoso, e que o melhor avançado era o que marcava mais golos, certo?

Alguém: Certíssimo.

Sábio: E o que é preciso para se ser jogador de futebol?

Alguém: ?!?!?!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Lições de Mestre (5)

A primeira coisa a dizer é que o lance não resultou em golo. A segunda é que isso é o que menos importa, no mesmo lance. Como intervenientes, dois jogadores que se separaram esta época, apesar de, a dada altura, parecer possível que ambos rumassem a Londres. Yoann Gourcuff é o herdeiro natural de Zidane, um criativo como não há muitos no futebol mundial que ostenta não só a capacidade imaginativa do astro francês como o mesmo estilo. Marouane Chamakh, por sua vez, é um avançado móvel, versátil, mas forte a jogar como apoio vertical, inteligente e rápido a executar, que gosta da tabela e do toque curto, sentindo-se confortável em espaços reduzidos. Tanto um como outro, estou certo, irão dar muito que falar nos próximos tempos. Fica a jogada, com as reflexões possíveis mais abaixo.



O lance começa na esquerda, com o adversário bem organizado defensivamente e havendo pouco espaço de penetração. O que fazem Gourcuff e Chamakh de seguida é notável. No meio de quatro adversários, com pouquíssimo espaço, completam três tabelas de seguida, acabando por arranjar espaço, em zona frontal, para o remate do marroquino. A capacidade criativa que este lance requer é imensa, assim como a velocidade a que os jogadores têm de pensar e de executar. A execução de calcanhar de Gourcuff não é por si extraordinária. O que é extraordinário é o entendimento que os dois fizeram do lance, a capacidade para perceberem como e quando deveriam executar. O remate não dá golo, mas o lance é uma autêntica invenção de uma ocasião de golo. Demonstra que é possível fabricar espaços, mesmo nas mais adversas circunstâncias. E para que se possam fabricar esses espaços, só há uma coisa fundamental: imaginação. É por isso que a criatividade, prima da inteligência, é o atributo mais importante no futebol moderno. A criatividade é aquilo que permite a um jogador encontrar espaços onde não os há, fabricar soluções de problemas insolúveis. Criatividade não é malabarismos, não é capacidade de drible, não é execução técnica refinada; é um atributo intelectual.

Quanto ao lance em si, releva dele a importância que a bola pode ter na criação de espaços. Trata-se do engodo da bola. Por mais concentrada e por mais bem organizada que uma defesa seja, há alturas em que se desorganiza, ainda que apenas momentaneamente. Normalmente, essa desorganização temporária dá-se no momento em que se efectiva a zona de pressão. Por exemplo, uma equipa que defenda junto à sua área, efectiva uma zona de pressão nas imediações da área. Significa isto que, nas imediações da área, todo o portador da bola deve ser pressionado e constrangido. Ora, é precisamente no momento em que se dá esse movimento de pressão, esse ataque ao portador da bola, que se gera a desorganização. Um defensor pressiona, outro movimenta-se de acordo com o movimento do primeiro e por aí em diante. É, sabendo isto, que a bola pode servir de engodo. Pode entrar num espaço, arrastando um defensor para esse espaço, para imediatamente a seguir sair desse espaço, criando zonas livres de adversários pela movimentação do defensor, que foi pressionar aquele que ia receber a bola. No fundo, isto é a consequência mais comum do famoso tiki-taka catalão. Os pequenos toques para o lado, para trás e para a frente parecem inconsequentes, mas não o são. Servem para isto, para desorganizar a estrutura defensiva adversária. Se uma equipa tiver capacidade para trocar a bola ao primeiro toque, fazendo-a entrar em zonas que suscitem movimentos de defensores para logo de imediato a tirar dali, conseguirá sempre fabricar os espaços de que precisa para penetrar em defesas fechadas. É assim que se joga futebol, fazendo da bola um engodo.

Este lance exemplifica na perfeição essa potencialidade. Chamakh dá em Gourcuff, que devolve de primeira ao marroquino. Este recebe e é imediatamente pressionado por um adversário, indo no engodo da devolução de Gourcuff. Dá novamente no francês, que, com um adversário nas costas, tabela de calcanhar, para o espaço vazio. Com esta tabela, ultrapassa-se o primeiro adversário, que fica incapacitado de reagir por estar preocupado com a bola. É nesta altura que sai a Chamakh um segundo adversário, novamente atraído pelo engodo da bola. Mas antes que este possa fazer mais do que pressionar, já Chamakh jogara de primeira novamente em Gourcuff. No mesmo instante, um quarto defesa, se contarmos com aquele que se mantém nas costas de Gourcuff, sai à bola, procurando limitar as possibilidades de Gourcuff. Gourcuff, porém, novamente de calcanhar, devolve pela terceira vez a bola a Chamakh, que ocupara o espaço vazio. Com esta terceira tabela, vence-se o segundo defesa que saiu a pressionar Chamakh e cria-se o espaço decisivo na zona central que permite o remate do marroquino. Com três simples tabelas, venceram-se quatro opositores. Isto só é possível porque o recurso técnico da tabela tem a potencialidade de chamar adversários e desposicioná-los. Enquanto a bola estiver num só homem, só um adversário sai a pressionar. Mas quando a bola viaja entre dois jogadores, há sempre pelo menos dois adversários a reagir à alteração no portador da bola. Trocando rapidamente a bola entre si, dois jogadores são capazes, por isso, de destruir defesas inteiras. Isto porque o portador da bola está constantemente a mudar e a reacção dos defensores é ditada pela posição da bola. É por isso que a bola, para quem sabe o que fazer dela, é a ferramenta fundamental do jogo. Só com ela se pode atrair os adversários para onde se deseja e fabricar os espaços que se pretende. Chamakh e Gourcuff conseguiram-no, neste lance, com mestria.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Os Golos de Liedson

Liedson é, há muito, um dos assuntos predilectos deste espaço. Uma das coisas que defendemos sempre é que se trata de um jogador que, embora mantenha um faro de golo apreciável, está incrivelmente sobrestimado. Do meu ponto de vista, Liedson tem como único atributo interessante o facto de marcar golos; em tudo o resto é um jogador banal ou até bem abaixo da média. Além de tudo isso, creio mesmo que a sua apetência para o golo advém de algo bem particular e é até parte da razão pela qual Liedson é depois mais fraco nos restantes momentos do jogo. Em poucas palavras, Liedson marca muitos golos (ou pelo menos, marca golos com alguma regularidade) porque não se preocupa senão com isso.

Esteja um colega a precisar de um apoio, seja necessário um movimento nas costas para criar uma situação de desequilíbrio, esteja ele de costas para a baliza e um colega de frente em melhor posição, Liedson prefere sempre procurar o golo. Toda a sua movimentação sem bola é no sentido da baliza, das zonas de finalização, para aproveitar ressaltos, bolas defendidas para a frente pelo guarda-redes, cruzamentos, etc. Se um ponta-de-lança deve ter este tipo de movimentações no seu código genético, não deve porém limitar-se a elas e deve, sobretudo, perceber quando é que as circunstâncias de jogo as requerem.

Ora, uma das coisas que sempre se disse aqui é que Liedson marca muitos golos porque só se preocupa com este tipo de movimentações, com o estar no sítio certo à hora certa, seja isso a melhor coisa a fazer ou não. Se isso lhe vale a reputação que, com o tempo, construiu, vale também uma menor capacidade colectiva à equipa em que actua. Em suma, Liedson marca mais golos, mas a equipa joga pior e ganha menos. O que este texto pretende é demonstrar que os golos de Liedson são, invariavelmente, resultado deste tipo de movimentação e que, ao contrário do que se diz, falta muita coisa ao avançado do Sporting para ser um grande avançado. Como se verá, os golos de Liedson são quase todos obtidos ao primeiro toque, isto é, sem preparação, e em zonas próximas da baliza. O que ele faz é aparecer muitas vezes nas zonas vitais e, como aparece lá muitas vezes, goza de muitas oportunidades para marcar. Não marca golos trabalhados por si, não marca golos de fora da área, nunca dispõe de lances de um para um com o guarda-redes, e marca muitos golos depois de ressaltos, depois de erros de adversários, ou em lances em que é só preciso meter o pé na altura certa e fechar os olhos. Fica o filme, ao ritmo de Mozart, com os lances dos golos marcados por Liedson na temporada transacta. Mais abaixo, algumas reflexões acerca dos mesmos.



1. Liedson marcou um total de 22 golos, 2 deles ao serviço da selecção e 20 ao serviço do Sporting: 13 golos na Liga, 4 na Taça UEFA, 2 na Taça de Portugal e 1 na Taça da Liga. De acordo com os minutos jogados em cada competição, Liedson marcou então 0,47 golos por cada 90 minutos na Liga Portuguesa, 1 golo a cada 90 minutos na Taça de Portugal, e 0,44 golos por cada 90 minutos na Taça UEFA. As suas médias de golos são assim parecidíssimas com a de anos anteriores, não havendo por isso grande alteração a esse respeito, ficando claramente atrás de jogadores como Mantorras, Farías ou Cardozo nesse aspecto.

2. Dos 22 golos que marcou, 14 foram obtidos de primeira, em respostas a cruzamentos em que tudo o que se impõe a um avançado é que ataque a zona de finalização no momento certo. Assim, 64% dos golos que marcou foram marcados graças a movimentos para zonas de finalização e em desvios oportunos.

3. Dos 22 golos, 4 foram obtidos por erros grosseiros não potenciados de defesas contrários, como sejam o falhanço do defesa do Penafiel, que perde a bola para Moutinho, ou a entrega de Nuno Santos, pensando que o jogo estava parado, ou o passe de Gustavo Lazaretti, que acerta nas pernas do avançado do Sporting e o deixa isolado, ou o falhanço clamoroso do central norte-coreano. A acrescentar a estes, obteve ainda 2 golos por obra do acaso, como sejam o golo contra a China, que lhe bateu nas pernas sem que houvesse da sua parte qualquer intenção de desviar a bola, e o segundo golo frente ao Belenenses, após confusão na área, com a bola a sobrar fortuitamente para ele. Ou seja, 27% dos golos marcados por Liedson foram obtidos por mero acaso, por erros alheios ou por pura sorte, sendo que em nenhum destes lances é possível apelar a qualquer espécie de mérito do avançado leonino. E ainda há quem diga que o rapaz não tem sorte...

4. De entre os 15 adversários na Liga, poderíamos, com algum grau de exactidão, eleger o Benfica, o Porto, o Braga, a Académica de Villas-Boas e o Rio Ave como as cinco equipas que melhor defendiam, aquelas que tinham conceitos de zona mais bem definidos e nas quais a interpretação do momento defensivo era mais bem conseguida. Ora, dos 13 golos que Liedson marcou na Liga da época transacta, só 1 foi a uma destas 5 equipas, precisamente ao Rio Ave, na goleada da segunda volta, e num jogo em que o Rio Ave sofreu cinco golos, defendeu muito pior do que o habitual e vinha de outra derrota por cinco golos, num período de clara descompressão, em que os objectivos do clube já tinham sido atingidos. Assim, podemos concluir que 92% dos golos de Liedson foram apontados contra equipas defensivamente menos bem organizadas e contra as quais a falta de qualidade e a previsibilidade das movimentações ofensivas de Liedson (que procura sempre a zona de finalização) menos se fazem notar.

5. De igual modo, dos 13 golos marcados por Liedson, só 3 foram marcados contra equipas que terminaram na primeira metade da tabela. Assim, 77% dos golos de Liedson foram obtidos contra equipas mais acessíveis, indiciando, de outro modo, o mesmo a que fiz alusão acima, que a capacidade goleadora de Liedson não é, de modo algum, regular, sendo muito influenciada pela qualidade do adversário.

O que estes números evidenciam é que o avançado do Sporting não goza da reputação que tem apenas por mérito próprio. Muito dela se edificou com base em números descontextualizados, assumindo-se a capacidade goleadora como resultado de um talento especial que, em quaisquer circunstâncias, se manifestava. Não é bem assim. Liedson não consegue manter a bitola contra equipas mais fortes e, sobretudo, contra equipas cujo modo de defender se baseie numa ideia colectiva. A razão pela qual isso é assim tem a ver com a outra evidência que estes números tornam clara: mais de dois terços dos golos de Liedson são obtidos do mesmo modo, aparecendo em zonas de finalização sem qualquer tipo de movimentação extraordinária, limitando-se a desviar a trajectória da bola. Acontece que esse tipo de capacidade pode ser-lhe útil contra equipas que não defendem bem, que apostam na capacidade individual dos defesas. Contra equipas que formam boas coberturas, em que se privilegia o ocupamento das zonas de finalização e não as marcações aos atacantes adversários, o espaço onde Liedson costuma aparecer é menor. Assim, a sua produtividade, contra esse tipo de equipas, diminui drasticamente. Sendo um avançado que marca sobretudo nessas situações, é um avançado limitado contra equipas que se defendem bem desse tipo de situações. Assim, Liedson, enquanto finalizador, é previsível contra essas equipas. Não tendo, igualmente, muitos mais recursos (raramente consegue isolar-se, não é bom no um para um com o guarda-redes, não é bom a rematar de meia distância), torna-se, enquanto finalizador, uma nulidade. Se acrescentarmos a isto o facto de a capacidade de finalização ser o seu único recurso interessante, concluímos que Liedson é um jogador banal, um jogador que goza de uma reputação que não condiz com a sua real qualidade essencialmente porque, apesar de marcar alguns golos, marca-os sobretudo contra equipas menos cotadas, eclipsando-se em jogos em que o grau de exigência aumenta (como, aliás, Pedro Pauleta), e não é sequer, enquanto finalizador, que é a sua melhor característica, um jogador excepcional. O problema é que as pessoas tendem a valorizar a regularidade sem um critério claro. É que, neste caso, a regularidade de Liedson é obtida às custas de uma irregularidade gritante, que faz com que marque muitos golos contra equipas fracas e poucos contra equipas melhores, ficando assim, no final, com uma soma agradável aos olhos dos míopes.

sábado, 31 de julho de 2010

Certezas (19)

A cara de miúdo, a alegria a jogar e a coragem são os atributos que mais transparecem. Por trás deles, está o enorme talento em que se funda toda a sua qualidade. Possuidor de um pé esquerdo finíssimo, é um jogador elegante, que trata bem a bola e com muitos recursos técnicos. Não é malabarista, como muitos, até porque a sua nacionalidade parece ser à prova dessas inconsequências, mas é extremamente habilidoso. Usando essa habilidade pelas razões certas e nas alturas certas, deslumbrou esta época ao serviço do seu clube, motivando a cobiça dos grandes do seu país. Acabou vinculado a um deles e tem agora todo um futuro promissor à sua frente. Distingue-se dos outros jovens da sua idade por parecer mais maduro, por ter chegado ao escalão sénior e se ter imposto sem dificuldades. A sua margem de progressão, até por estas características, é por isso muito grande. Joga preferencialmente como segundo avançado e seria um erro, pelo menos nesta fase da carreira, fazê-lo actuar como médio organizador de jogo. Trata-se de um jogador mais vertical, excelente no drible e que procura muito o último passe. É principalmente um desequilibrador e é, por isso, em zonas mais adiantadas do terreno que o seu potencial deve ser aproveitado. Como médio organizador, falta-lhe alguma lucidez e alguma capacidade para ponderar a melhor solução de passe em zonas mais recuadas. Não raras vezes, mesmo estando ainda consideravelmente longe da área, procura protagonizar o último passe, procura excessivamente o movimento de ruptura decisivo. Actuando na frente, com liberdade para aparecer ora nas linhas, ora no espaço entre linhas, ora a aproveitar as costas de um avançado mais fixo, pode explorar todo o seu talento sem prejudicar a equipa mais atrás. A sua evolução passa por isso por jogar como avançado móvel e, tratando-se de um jogador muito imaginativo, inteligente e com boa capacidade técnica, depressa crescerá o suficiente para perceber como deve actuar em zonas mais recuadas. Para já, é como atacante e não como médio que Mourinho deverá tentar tirar todo o proveito dele. E talvez daqui a uns anos a selecção espanhola tenha mais um prodígio na sua principal selecção. Assim evolua Sergio Canales...

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Beware the Jabberwocky

Tal como na edição anterior da Liga dos Campeões, ficará mais para a História uma das meias-finais do que propriamente a final da prova, neste caso, a eliminatória que opunha Barcelona a Inter de Milão. A esmagadora maioria das pessoas, após o apito final que carimbou a passagem do Inter, em pleno Camp Nou, à final de Madrid, não teve dúvidas: o Inter era um justo finalista. Creio, porém, que muitas destas opiniões estão viciadas por animosidades próprias. Só assim se explica o favorecimento tão vincado a uma equipa que, na segunda mão, só defendeu e, por pouco, por muito pouco, não foi eliminada. Que o Inter passou e que faz parte do futebol equipas que só defendem passarem, tudo bem. Que tenha merecido, incontestavelmente, essa passagem, é que me parece francamente duvidoso. Afinal, de um modo muito parecido, foi assim que a Grécia de Otto Rehhagel se sagrou campeã da Europa em 2004, e na altura não só a maioria das opiniões afirmava que a Grécia não merecera ganhar, como a própria balança das opiniões estava bem mais equilibrada. Enfim, do meu ponto de vista, isto só se explica porque o Barcelona de Guardiola incomodava, de maneiras diferentes, grande parte dos que vêem futebol.

Entre aqueles que defendem que o Inter foi um justo vencedor, haverá certamente simpatizantes incondicionais de José Mourinho. Este é o modo mais comum de se observarem factos errados e de se terem opiniões não fundamentadas e é muito parecido, em abono da verdade, com o sentimento de clubismo que tolda a visão a tanta gente. Em minha defesa, e para que não suscite precisamente o argumento contrário, quero deixar claro que o meu apoio ao Barcelona de Guardiola não é incondicional e que, caso o Barcelona não tivesse jogado bem, ou pelo menos o suficiente para merecer passar, não estaria aqui a defendê-lo. Não há, por isso, simpatia excessiva por uma das equipas a dificultar a observação objectiva do que se passou. No ano passado, com o Chelsea, o Barcelona jogou bem pior e teria aceitado muito mais facilmente a sua eliminação, embora o jogo da primeira mão fizesse com que merecesse, ainda assim, a passagem. Mas este ano o Barcelona, não tendo feito um jogo brilhante, fez o suficiente para marcar os dois golos de que precisava e só a sorte protegeu o Inter. Como tal, é-me até difícil perceber o argumento dos que dizem que Mourinho deu uma lição táctica em Camp Nou, quando na verdade perdeu o desafio, por pouco não era eliminado e só passou por causa da primeira mão.

Tirando estes, tirando também os que não suportam o próprio Barcelona, e tirando talvez ainda os que, convencidos de que o Barcelona fora ajudado na época passada (o que no fundo é uma mentira grosseira que maior parte das pessoas decidiu perpetuar), só consigo perceber tamanha posição por aquilo a que, em tempos, designei como um certo medo do desconhecido. É sobre isso que quero falar, pois é sobre isso que acho que se deve falar nesta altura. Os comentários imbecis acerca do que se passou em Camp Nou continuam a circular e criou-se agora uma tendência ignominiosa de vilipendiar e rebaixar o trabalho de Guardiola. Fala-se em Chygrinsky, como se algum dia tivesse sido expectativa de alguém o ucraniano ir para Barcelona para ser central de caras, esquecendo-se, por exemplo, que em sentido contrário ninguém esperava nada de Piqué e agora é, muito provavelmente, o melhor do mundo no seu posto; fala-se na época menos conseguida de Ibrahimovic, como se o sueco algum dia se tivesse evidenciado por ser um goleador extraordinário e como se o Barcelona não tivesse lucrado, em termos de jogo, com a presença deste; fala-se da ingenuidade de Guardiola, que não foi perspicaz estrategicamente, como se a insistência nas suas ideias não fosse a principal razão para o Barcelona ser a melhor equipa de todos os tempos e para que tivesse ganho tudo o que ganhou. Subjaz, a todas estas críticas, uma só coisa: o Barcelona transformou-se num monstro e, para o ser humano comum, que não compreende senão o que tem diante dos olhos, todo o monstro incompreensível tem de morrer, sob pena de nos deixar sem saber o que fazer com a sua presença.

É isto que é, para 99% das pessoas, esta equipa. Reconhecem a sua grandeza, mas ainda assim desejam intimamente a sua queda. Respeitam-na por medo e não por reconhecerem nela a grandeza humana que lhe está por trás. Admitem a sua força, mas torcem para que um herói qualquer, humano como eles, embriagado de uma humanidade que possam compreender e suportar, a liquide. Faz parte da pequenez humana, e fez sempre, estar contra os que estão para além da mediania; é parte integrante da vida comunitária a repressão da singularidade, o conduzir ao desterro os mais brilhantes. O Barcelona, para o mundo do futebol, é um monstro que tem de ser derrotado pela simples razão de que lhe lembra a mediocridade própria. É esta e não outra a principal causa de tanta exaltação com o insucesso europeu de Guardiola. O Barcelona ofuscou de tal modo o passado futebolístico que o precedeu que criou à sua volta uma aura que, para aqueles que habitam o mesmo tempo, se tornou insuportável. Por não compreender nem poder irmanar aquilo que é este Barcelona, o resto do mundo sentiu nesta equipa uma ameaça à sua existência medíocre. Todas as hostilidades que se seguiram à eliminação catalã são somente a activação do instinto de auto-preservação de uma espécie que, sentindo correr perigo de vida, viu neste acontecimento a oportunidade ideal para espezinhar definitivamente o predador que temiam.

O futebol é, a meu ver, uma das coisas que melhor representa a evolução civilizacional a que se chegou, ainda que, naturalmente, conserve em si instintos primitivos evidentes. No entanto, é no próprio futebol e neste caso em específico que o ser humano demonstra que, apesar dos 3000 anos de civilização, continua, na sua raiz, uma espécie animal conservadora e estúpida, uma espécie bárbara que, apesar de viver em comunidade, ter leis, andar vestida e ter inventado a linguagem, permanece mais próxima dos mamutes do que do ideal de uma civilização avançada. Somos uma espécie que precisa de se saber segura, que precisa de aniquilar o que é do domínio do misterioso, que precisa de saber palpáveis todos os cantos do mundo. Temos medo de monstros e só estamos bem quando expulsamos do nosso círculo de gente gorda e que procria esses monstros que não compreendemos. Ora, é precisamente sobre isso que versa "Jabberwocky", o célebre poema contido em Through the Looking Glass, o segundo livro das aventuras de Alice no país das maravilhas:

JABBERWOCKY

'Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
and the mome raths outgrabe.

'Beware the Jabberwocky, my son!
the jaws that bite, the claws that catch!
Beware the Jujub bird, and shun
the frumious Bandersnatch!'

He took his vorpal sword in hand:
Long time the manxome foe he sought -
So rested he by the Tumtum tree,
and stood awhile in thought.

And as in uffish thought he stood,
The Jabberwock, with eyes of flame,
Came whiffling through the tulgey wood,
and burbled as it came!

One, two! One, two! And through and through
the vorpal blade went snicker-snack!
He left it dead, and with its head
he went galumping back.

'And hast thou slain the Jabberwock?
Come to my arms, my beamish boy!
O frabjous day! Callooh! Callay!'
He chortled in his joy.

'Twas brillig, and the slithy toves
Did gyre and gimble in the wabe;
All mimsy were the borogoves,
and the mome raths outgrabe.

Em nenhuma parte do poema se diz o que é o Jabberwocky e grande parte das palavras que o compõem não existe. Não é possível inferir do poema senão que existe algo que se chama Jabberwocky, que tem mandíbulas que mordem, garras que agarram e olhos flamejantes. Ainda assim, a presunção é de que se trata de um ser hostil, com o qual tem de se ter cuidado e que é preciso matar. Não é incomum, em adaptações para cinema dos livros de Lewis Carroll, que o Jabberwocky, ainda que não tenha existência nas aventuras de Alice e que seja apenas esta figura difícil de descrever que só aparece num poema dentro dessas mesmas aventuras, apareça como um dragão horrendo, um bicho medonho e o ser mais malévolo do País das Maravilhas. O Jabberwocky, como se pode comprovar pelo poema, não é nada disto. É a interpretação excessiva e errada das pessoas que transforma mandíbulas, garras e olhos em dragões, que pega em dois ou três pormenores de algo que desconhece para construir uma imagem que lhe é familiar.

O Barcelona de Guardiola é o Jabberwocky e o mundo que não o compreende é o pai que adverte o filho para que tenha cuidado com ele. Como não o compreende, teme-o e não pretende senão matá-lo com uma "espada vorpal". Depois de morta a besta, resta ao ser humano que matou o conforto dos braços do pai, o que mais não é que a consolação de reconhecer que sobreviveu mais um dia. A pequenez do mundo, que se regozijou com a derrota dos catalães, pôde assim, com tal derrota, preservar a sua existência e, por conseguinte, a sua pequenez, isto é, a sua própria essência. Tal como qualquer espécie ameaçada, os cânticos de glória em torno do monstro caído mais não são que o testemunho da própria estupidez de uma espécie que não compreende outra espécie e tem, por instinto e não por racionalidade, a conservação dos seus hábitos estúpidos e a intolerância dos hábitos dos outros. Os seres humanos raquíticos e pobres de espírito que agora saltam eufóricos em cima do corpo do monstro, cantando e bebendo alacremente, são só os justos descendentes da torpe seita humana que, no passado, fez o mesmo com espécies diferentes das suas, raças diferentes das suas e famílias diferentes das suas. Trata-se do reflexo inequívoco do mais interiorizado vício humano: a intolerância com a diferença. E o que preside a essa intolerância é a incompreensão, filha primogénita da estupidez, mãe de todos males humanos.

O futebol do Barcelona (assim como, em parte, o futebol apresentado pela Espanha campeã do mundo) não é só mais um estilo de futebol. Trata-se de uma evolução conceptual, com diversas inovações que rompem com o passado. O futebol de toque curto, para o lado e para trás, privilegiando a posse de bola acima de tudo, é talvez a imagem de marca desse futebol. Não é a única característica extraordinária deste modo de jogar, mas é o mais desconcertante. A aparente inconsequência, em muitos momentos, dessa circulação, é uma absoluta novidade. Nunca a inconsequência fora vista como uma virtude. Para os que não conseguem pensar por si e que estipulam verdades de acordo com o que conhecem, um futebol que assenta, em parte, na inconsequência, é alvo de suspeição. É por isso que o "tiki-taka" não é unânime. Para muitos, é demasiado elaborado e escapa ao princípio máximo do jogo, que devia ser o ataque constante. No fundo, são as mesmas pessoas que não conseguem perceber que no futebol há mais do que o objectivo do golo que não percebem a utilidade da "inconsequência" desse tipo de futebol. O mesmo se poderia dizer em relação aos poucos remates, aos poucos passes longos, ao abdicar dos momentos de transição, etc. O comum mortal acha que o futebol é um conjunto fixo de ideias e, por achar isso, não é capaz de compreender o quão revolucionária é a filosofia do Barcelona de Guardiola. Por não a compreender, intuindo-lhe porém a força, teme-a. E por temê-la, na sua pequenez e na sua impotência, só pode regozijar-se com a sua queda.

P.S. O Barcelona não ganhará sempre. A Espanha não ganhará sempre. Mas é notável que o modelo de Guardiola e o tipo de jogador ideal para o futebol de toque curto, rendilhado, baseado na técnica e na inteligência, tenham ganho o que ganhou o Barcelona em 2009 e tudo a nível de selecções nos últimos três anos. Há muito tempo que uma ideia tão clara sobre o jogo não se elevava acima de tudo o resto com tanta supremacia e que não assustava tanto o mundo. Está feita a revolução. Antecipa-se o futuro da modalidade, como de resto, muito antes da clara demonstração de força dos últimos três anos, já o Entre Dez apregoava.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Os melhores do Mundial 2010

Uma semana e tal depois, eis os melhores do mundial, em 433. De acordo com o esquema táctico, é natural que um ou outro jogador não se encontre na posição exacta em que actuou ou que tenha actuado nessa posição apenas algumas vezes.

Guarda-Redes: Iker Casillas
Defesa Direito: Maicon
Defesa Esquerdo: Fábio Coentrão
Defesas Centrais: Gerard Piqué e Ricardo Carvalho
Médio-Defensivo: Sergio Busquets
Médios-Ofensivos: Xavi e Iniesta
Extremo Direito: Thomas Müller
Extremo Esquerdo: David Villa
Avançado: Diego Forlán

Treinador: Joachim Löw

Suplentes:

Guarda-Redes: Manuel Neuer
Defesa Direito: Philip Lahm
Defesa Esquerdo: Jorge Fucile
Defesas Centrais: Juan e Puyol
Médio-Defensivo: Mark Van Bommel
Médios-Ofensivos: Leo Messi e Wesley Sneijder
Extremo Direito: Arjen Robben
Extremo Esquerdo: Mesut Özil
Avançado: Miroslav Klose

Treinador: Marcelo Bielsa

O melhor jogador da competição foi, em nosso entender, Andrés Iniesta.

domingo, 18 de julho de 2010

A maldição de Bento...

Foi um primeiro tempo que deverá ter criado ainda mais reticências sobre a época que se avizinha.O conjunto orientado pelo técnico Paulo Sérgio apenas apresentou como positivo o facto de não abusar no jogo directo. De resto, desde o sistema táctico utilizado, até aos movimentos preconizados pelos seus jogadores, excepção feita a Postiga, Carriço e Evaldo, o desafio frente ao Young Boys nao deixou antever nada de bom. A equipa demorou demasiado tempo a formar um bloco compacto nas transições defensivas, com André Santos e Maniche a conceder muitos espaços nas suas costas, facto que só não foi aproveitado de forma mais eficiente devido à falta de qualidade do adversário leonino.

Notou-se na equipa leonina a preocupação de integrar os laterais nos movimentos ofensivos, deixando no entanto os avançados muitos sós nas acções entrelinhas. Ainda que a espaços se notasse a intenção de os extremos efectuarem movimentos diagonais de aproximação aos avançados. O problema reside na ocupação correcta dos espaços nas transições, ficando a equipa demasiado dependente das suas individualidades para que se mantenha equilibrada durante os vários momentos de jogo.

Na segunda parte, com a entrada de Nuno André Coelho e a subsquente alteração táctica, a equipa leonina conseguiu alguns movimentos mais interessantes, sendo que os mais relevantes foram os movimentos que permitiram o surgimento dos dois médios-centros entre linhas, facto que resultou num maior número de problemas colocados à equipa suíça.

O segundo encontro apresentou um Sporting mais sólido e mais forte nas transições, destacando-se a maneira como a equipa efectou a pressão alta. No processo ofensivo, o pormenor, até ver bastante interessante e profícuo para a equipa, de os extremos jogarem e procurarem movimentos interiores, sendo que os movimentos exteriores foram efectuados principalmente pelos laterais. Mas isto apenas até se regressar ao 442 clássico. A partir desse momento e até ao final do encontro, o Sporting voltou a funcionar como um amontoado de jogadores, demonstrando enormes fragilidades nos processos ofensivos.

Frente ao PSG, voltou a opção inicial pelo 442 clássico, sendo que neste jogo se notou a intenção de os alas jogarem mais por dentro, o que torna ainda mais difícil de perceber a opção por este sistema táctico. Durante bastante tempo, notaram-se as dificuldades do Sporting nas transições, recorrendo em demasia ao jogo directo para os seus avançados, ainda que as únicas jogadas dignas de registo tenham resultado da iniciativa de um deles: Postiga. Graças à inteligência do avançado, que soube gerir posse da bola fazendo as pausas necessárias, a equipa pôde reorganizar-se para que pudesse desenvolver alguns ataques de forma apoiada e organizada. Todavia, e aqui que reside o principal problema do Sporting, o sistema obriga os seus jogadores a jogarem em constante desvantagem e desconforto, ficando obrigados a esconder as debilidades desse sistema.

Paulo Sérgio até tem pinta de ser um porreiro, mas ou emenda a mão e opta por um sistema que permita a equipa jogar à bola, ou quando for corrido de Alvalade nem esse epíteto vai manter. Mais do que jogadores, estava na altura de se recrutarem treinadores competentes. Se é cedo para crucificar Paulo Sérgio? Talvez - e espero estar errado - mas os seus primeiros dias como timoneiro da nau leonina não auguram nada de bom...

terça-feira, 13 de julho de 2010

Campeonato do Mundo dos Idiotas

Há quem tenha opiniões esquisitas, há quem tenha opiniões erradas e há quem tenha opiniões que não devia ter. Há um quarto grupo de pessoas que tem opiniões que não consigo classificar. É o caso de Miguel Lourenço Pereira, que escreveu preciosidades atrás de preciosidades neste brilhante texto e respectivos comentários. Findo o campeonato do mundo de futebol, eis o campeonato do mundo dos idiotas.

Antes da final do campeonato do mundo e antes também de escrever um texto em que confessa o seu desdém para com pessoas que não sabem da existência de um campeonato do mundo não-oficial, Miguel Lourenço Pereira decidira escrever um texto em que a principal ideia era equiparar esta selecção de Espanha às tradicionais selecções italianas. A sugestão, só assim, já provoca o riso. Mas vejamos o que diz concretamente.

1. Embora comece por considerar que a Espanha se apurara para a final com justiça, percebemos que o diz simplesmente porque se apurou. Continuando a ler, é com facilidade que compreendemos que não nutre profunda admiração pelos espanhóis e que estava obviamente a torcer pelo apuramento alemão. Diz então que o jogo espanhol é "horizontal e irritante". Não sei por que razão o diz, até porque não há outra selecção no mundo que faça tantos passes verticais e que consiga penetrar verticalmente, pelo meio, como a Espanha. Quanto à irritação, percebo-a apenas se houver da parte de quem sofre essa irritação um certo desconforto com o que é bom. O futebol espanhol, para Miguel Lourenço Pereira, é certamente irritante do mesmo modo que a música de Beethoven é irritante.

2. Continua Miguel Lourenço Pereira, afirmando agora que a Espanha não joga bem e que "esta equipa continua a funcionar bastante melhor como um hábil producto de marketing acente na escola do Barcelona". Gosto especialmente da forma como decidiu trocar os dois "s" do verbo "assentar" pelo "c", certamente mais económico e menos "horizontal e irritante". Aliás, a obsessão com a letra "c", nesta frase, é incrível, ao usar a letra na palavra "produto", numa espécie de fenómeno de hiper-correcção contra o novo Acordo Ortográfico da língua portuguesa. Mas achar que esta equipa joga assim por efeitos de marketing, o que quer que isso queira dizer, só numa cabecinha muito diferente. Não sei, mas parece que Miguel Lourenço Pereira está a dizer que os jogadores espanhóis, em vez de estarem a jogar futebol, estão constantemente a protagonizar um reclame desportivo. Será isto?

3. Prosseguindo, diz Miguel Lourenço Pereira que a selecção espanhola "abdicou de jogar bem para ganhar", tendo herdado "essa cultura italiana que hoje mais nenhuma equipa no Mundo tem". Gosto aqui também do uso da maiúscula na palavra "mundo", como se estivesse a falar de uma coisa maior que o próprio mundo. Talvez Miguel Lourenço Pereira tenha um mundinho (com maiúscula, claro) só seu. Isso explicaria muita coisa. O que é extraordinário é que Miguel Lourenço Pereira consegue achar que a Espanha não jogou bem este mundial, apesar de ter dominado todos os jogos, de ter tido constantemente mais bola, de ter empurrado vários adversários para as imediações da sua baliza. Para o senhor Miguel Lourenço Pereira, nada disso interessa, assim como não interessa as selecções italianas terem por cultura precisamente o oposto, isto é, abdicar da bola, entregar a iniciativa ao adversário, remeterem-se ao momento defensivo e atacar venenosamente pela certa.

4. Querendo justificar a afirmação anterior, diz Miguel Lourenço Pereira que "não se vê nessa troca de bola lateral constante um fluxo de ideias como as equipas que marcaram a evolução do jogo". Já sabíamos que o senhor Miguel Lourenço Pereira tinha um problema oftalmológico que o impedia de ver coisas verticais, mas ficamos agora a saber que também não é capaz de perceber na troca de bola espanhola qualquer ideia. Onde, de facto, abundam ideias, e das boas, é na cabecinha do senhor Miguel Lourenço Pereira. Não sei ao certo que equipas é que, para Miguel Lourenço Pereira "marcaram a evolução do jogo", mas pela conversa cheira-me que está a falar do Boavista de Jaime Pacheco.

5. Diz ainda Miguel Lourenço Pereira que o futebol da Espanha está "a anos-luz de outras grandes selecções" e que "em números, serão o pior finalista de que há memória, incapazes de ganhar por mais de 1-0 nos jogos a eliminar", sendo que "nem a pior azurra" teve números tão escassos. Confesso que a história dos números já chateia. As tartarugas que acham que os números servem para alguma coisa esquecem-se que esta Espanha passou o mundial a jogar contra equipas fechadinhas lá atrás, como a Suíça, Portugal ou Alemanha, e que, naturalmente, é muito mais difícil vencer por muitos golos quando o adversário tem por estratégia não atacar durante 90 minutos. Em nenhum jogo a Espanha foi inferior ao adversário e em todos merecia ganhar por mais de um golo de diferença - era isto que os idiotas deviam ter em conta e não a inutilidade dos números, hábito norte-americano que no futebol não tem nem pode ter aplicação eficiente. O problema do senhor Miguel Lourenço Pereira, agora percebemos, é achar que a força desta Espanha está espelhada nos seus números. Não está, como nada está espelhado nos números, em futebol. É porque a Espanha marcou poucos golos (e não porque tenha subjugado todos os adversários pela posse de bola) que Miguel Lourenço Pereira a considera parecida com a Itália. A estupidez da comparação não está por isso nas conclusões, mas nas premissas e no método de análise.

6. A propósito do jogo com a Alemanha, diz Miguel Lourenço Pereira que a razão pela qual a Espanha ganhou facilmente aos alemães não se explica por mérito dos espanhóis, mas sim porque a Alemanha "não quis fazer o jogo duro de pressão alta de suiços, portugueses e paraguaios, que optaram por não deixar a Espanha jogar confortavelmente com a bola". Mais uma vez, há qualquer coisa de muito esquisito com o cérebro do senhor Miguel Lourenço Pereira. Não sei ao certo que mundial andou a ver este senhor, mas não foi certamente o da África do Sul. Os suíços passaram 90 minutos encaixotados na sua área e Portugal pressionou sempre atrás da linha de meio-campo. A única equipa que optou por uma pressão mais alta foi o Paraguai, e ainda assim privilegiou zonas de pressão à entrada do meio-campo espanhol. Miguel Lourenço Pereira acha que se tratou de pressão alta. São opiniões. Também haverá, por certo, quem ache que os sete anões eram, na verdade, gigantes.

7. Quando incitado por alguém, na caixa de comentários, a justificar a sua afirmação acerca da semelhança entre a Espanha e a Itália, Miguel Lourenço Pereira diz o seguinte:

"Fico contente que tenha vontade de rir, mas basta olhar para a campanha da Itália em 2006 para perceber a comparação. Uma fase de grupos mediana, com um apuramento algo trapalhão, um jogo de Oitavos com golo polémico, uma eliminatória de Quartos demasiado sofrida e um excelente jogo nas meias-finais, quando é a doer, contra uma equipa melhor".

Lá está. Miguel Lourenço Pereira não está a comparar estilo de jogo nem qualidade de jogo; está a comparar campanhas. Ou seja, números. A obsessão matemática vale-lhe por isso a idiotia de não perceber tudo o que está para lá dessa matemática. E consegue, por isso, porque ignora o mais importante, comparar o dia com a noite. Se eu também ignorasse todas as propriedades que distinguem o branco do preto e me cingisse apenas ao facto de ambas as cores estarem dentro dos limites do espectro visível, também poderia dizer que o branco é igual ao preto. O que Miguel Lourenço Pereira está a fazer, por isso, é uma espécie de batota intelectual: de entre vários dados a ter em conta, apenas lhe interessa aquele que torna as duas equipas semelhantes: o facto de terem tido sucesso com números parecidos.

8. O carácter anedótico da proposta de Miguel Lourenço Pereira, porém, não fica por aqui. Diz ainda que "esta maturidade competitiva dos espanhóis, capaz de aguentar tudo e todos, compensa a falta de um toque de classe, improvisação e genialidade." Falta de classe, improvisação e genialidade? Que outra selecção teve algum dia mais classe, improvisação e genialidade que esta Espanha? Depois de voltar a frisar que "a Espanha é uma equipa horizontal" (a mais falsa das suas barbaridades), o absurdo da tese de Miguel Lourenço Pereira chega ainda ao ponto de sugerir que a equipa espanhola tem "muitos problemas ofensivos" e que, "se não fosse assim não era a primeira equipa finalista da história a chegar tão longe com 3 eliminatórias a 1-0 cada um". Fica evidente, uma vez mais, que para Miguel Lourenço Pereira, uma equipa que ganha várias vezes por 1-0 é necessariamente alguém com "muitos problemas ofensivos". Uma vez mais, carece a análise de Miguel Lourenço Pereira de algum tacto e de alguma inteligência. Uma boa razão para uma equipa não fazer mais golos é o facto de jogar tanto, de ter tanto a supremacia do jogo, que o adversário se recolhe atrás para perder pelo mínimo possível. Mas o que é extraordinário é que a equipa que mais ataques fez em toda a prova seja uma equipa horizontal e com muitos problemas ofensivos.

9. A incrível imaginação de Miguel Lourenço Pereira permite-lhe ainda dizer coisas como:

"O problema está no estilo de jogo. Xavi, Iniesta, Silva ou Navas, são jogadores que procuram quase sempre o passe. Daí que o destaque no Barça seja o Messi, o homem que joga verticalmente para o golo, quando os outros jogam para a "orquestra"".

Para Miguel Lourenço Pereira, os problemas ofensivos vêm do estilo de jogo, interpretado por jogadores que procuram quase sempre o passe. Segue-se deste raciocínio que a equipa espanhola deveria apostar mais no remate antes de meio-campo e que um estilo de jogo que dê preferência ao pontapé sem nexo (por oposição ao gesto técnico do passe), às correrias parvas e à tentativa de marcar golo sempre que se está no meio-campo ofensivo é um estilo, na cabeça de Miguel Lourenço Pereira, com menos problemas ofensivos. Faz sentido. Para este senhor, jogar à bola é como dar marteladas num prego. Como se não bastasse, tem a capacidade de juntar a Xavi, Iniesta e Silva, jogadores de toque curto e refinado, que procuram a tabela e jogam de cabeça levantada, o jogo rectilíneo, individualista e de espaço nas costas das defesas de Jesus Navas, como se uma coisa tivesse a ver com a outra. Para finalizar, ainda é capaz de, num tom sarcástico, elogiar a verticalidade de Messi (ignorando que o argentino privilegia o mesmo tipo de coisas que os colegas do Barcelona) e menosprezar o futebol dos restantes colegas que, segundo ele, jogam apenas para o espectáculo. Aquilo que Miguel Lourenço Pereira não consegue perceber é que existe uma coincidência entre o estilo de "orquestra" desse futebol e a eficácia do mesmo. E isto por uma só razão, que desconfio que o senhor Miguel Lourenço Pereira ainda está para descobrir: é que futebol não é halterofilia.

10. A saga continua com o seguinte:

"Espanha abre muito bem o campo, fecha muito bem os espaços defensivos, troca muito bem a bola pelo meio, numa série de 50 passos sem sentido que não o de nao perder a bola, e subitamente tenta passes rápidos para o espaço onde surge um jogador veloz para encarar. Ou, com defesas mais fechadas, procura, qual equipa de andebol, circular a bola à volta da área à procura do falho de marcaçao (golo a Portugal) ou do remate de meia distancia (papel de X. Alonso, Ramos ou Villa)."

O único sentido que Miguel Lourenço Pereira encontra para a troca de bola espanhola é o não perder a posse de bola, como se isso por si só fosse mau. E sugere ainda que os espanhóis trocam a bola sempre à espera de uma falha de marcação, não arriscando o passe se tal não ocorrer. O que Miguel Lourenço Pereira não percebe é que a posse de bola serve precisamente para provocar esses erros e que os cinquenta passes têm, além da virtude de permitir manter a posse de bola e, por isso, não ter de defender, a maior virtude de fazer com que o adversário, na tentativa de recuperar a posse de bola, se desposicione. Mais brilhante do que isto só mesmo o sotaque brasileiro com que articula o seu pensamento nesta frase, usando não só o extraordinário verbo "encarar" como inventando o substantivo masculino "falho".

11. Voltando a querer impingir a sua teoria de que isto é exactamente o mesmo que aquilo que os italianos fazem tradicionalmente, Miguel Lourenço Pereira afirma então o seguinte:

"Esse modelo de jogo é bastante similar ao historico futebol italiano, sempre com um ponta de referencia, um meio campo estendido pelo terreno de jogo, um duplo pivot-defensivo e um regista (Xavi como Pirlo) a pautar o jogo. Com menos "tiki taka" inconsequente, que os italianos são bem mais práticos. Pode não ser tão estético, mas o jogo italiano de base é muito similar ao jogo espanhol desta equipa. "

Se alguém, algum dia, viu a Itália a jogar qual equipa de andebol, a circular a bola pelos seus jogadores contra uma defesa compacta, enfiada na sua grande área, esse alguém foi Miguel Lourenço Pereira, pois garante que isso é precisamente o que os italianos costumavam fazer. Embora com menos trocas de bola, que os italianos não têm a paciência de santo dos espanhóis. É, portanto, com sabedoria que termina, dizendo que a principal diferença entre o futebol desta Espanha e o futebol dos italianos é uma diferença estética, sendo o resto "muito similar". Como disse no início, não sei se consigo classificar opiniões deste tipo. Parece-me francamente injusto tentar contrariar opiniões de arcas frigoríficas.

12. Já para o fim da conversa na caixa de comentários, Miguel Lourenço Pereira deixa finalmente perceber aquilo que está por trás de todos estes disparates:

"O português tem uma obsessão preocupante com tudo o que vem de Espanha, um sentimento de pequenês mental que faz com que tudo engrandeça. Da mesma forma que Espanha olha para o resto do Mundo aliás."

Trata-se, portanto, de um ódio mesquinho ao povo espanhol, de uma generalização pateta que tem eco no desdém pela selecção que representa o povo que abomina. A análise da selecção espanhola é assim influenciada pelo sentimento que nutre pelo povo que essa selecção representa. O que Miguel Lourenço Pereira, contudo, não percebe é que, da mesma forma que há portugueses que padecem daquilo a que Fernando Pessoa chamou "provincianismo", que consiste em elogiar tudo o que vem de fora, neste caso, de Espanha, e que coincide com a "pequenês mental" a que Miguel Lourenço Pereira se refere, há também portugueses que, num ponto diametralmente oposto, padecem de um nacionalismo tonto que consiste em rejeitar obsessivamente o que vem de fora, neste caso, de Espanha, e que é no fundo a doença do senhor Miguel Lourenço Pereira. Mais engraçado é quando a pessoa que o faz vive ou trabalha em Madrid.

13. Logo a seguir, vem a minha frase preferida: "ninguém espeterá 4 a esta equipa porque o seu futebol cinico, disfarçado de estética de museu, nunca o permitiria." Numa só frase, Miguel Lourenço Pereira consegue transgredir várias vezes a gramática portuguesa, primeiro ao inventar o verbo "espeter", depois esquecendo o acento de "cínico", e finalmente usando o condicional "permitiria" na oração causal quando na oração principal tentara usar um futuro. O jornalismo é tão bonito! Mas o que é importante é que, para Miguel Lourenço Pereira, a Espanha joga um futebol cínico, que parece muito bonitinho e servir para entreter, mas que afinal de contas é um engodo para atrair o adversário e depois atacar pela certa, como faziam as selecções italianas. Aquilo que Miguel Lourenço Pereira não percebe é que ter a posse de bola, e fazer tanto por tê-la, como seja pressionar alto ou não a perder à toa, é a maior declaração de intenções de uma equipa. Ao ter a posse de bola, a Espanha deixa necessariamente de ser cínica. Quer a bola, assume que a quer, e quer a bola para vencer o jogo. O adversário sabe-o perfeitamente e é por isso que se fecha a sete chaves lá atrás. Isto é o oposto do cinismo italiano, cuja estratégia consistia em "fingir" não querer atacar e não querer a bola para depois, assim que a recuperava, chegar à frente e, sem rodeios, sentenciar os desafios. Se há alguma coisa que a Espanha não é é cínica. E o futebol dos espanhóis é tudo menos disfarçado.

14. Quando confrontado com a ideia de que a Itália, ao contrário da Espanha, se sentia confortável era sem a bola, Miguel Lourenço Pereira propõe que tal acontecia porque, ao contrário da Itália, que era uma selecção multifacetada e se sentia confortável a jogar de muitos modos, a Espanha "joga sempre o mesmo estilo de jogo, mesmo tendo opçoes para outras abordagens". Para Miguel Lourenço Pereira, portanto, a Espanha está refém do seu estilo de jogo horizontal e irritante, com muitos problemas ofensivos, no qual os jogadores só sabem fazer passes. Com tantas deficiências no estilo de jogo e não tendo competência para jogar de outro modo, gostava muito que o senhor Miguel Lourenço Pereira explicasse como é que a Espanha conseguiu ser campeã do mundo.

15. Por esta altura, intrometeu-se um leitor espanhol na conversa, obviamente para criticar, com bons argumentos, a proposta atoleimada de Miguel Lourenço Pereira. Quando este leitor, apresentando como argumentos o facto de a Espanha, ao contrário do que acontece tradicionalmente com as selecções italianas, ter sido a equipa que mais rematou, que mais passes e posse de bola teve, que mais faltas sofreu e que menos faltas fez, dinamitou o argumento de Miguel Lourenço Pereira, a resposta não podia denotar melhor a xenofobia evidente desde o princípio do texto, assim como a estultícia que lhe vem atrelada, e Miguel Lourenço Pereira, depois de sugerir, com imbecilidade e despeito, que até os galegos podem opinar sobre futebol, acaba por contra-argumentar com isto:

"Uma equipa com muita posse de bola no miolo nao é uma equipa ofensiva. É uma equipa controladora. O que é bem diferente. Contra defesas organizadas há alternativas tácticas que Espanha nao se presta a utilizar, provavelmente porque nao sabe."

Não, caro Miguel Lourenço Pereira. A posse de bola, quando utilizada como arma, como a Espanha, é tudo em futebol. Serve, por exemplo, para ser campeã do mundo. É uma equipa ofensiva e controladora, não uma coisa ou outra isoladamente. Tendo a bola, ataca-se e, ao mesmo tempo, defende-se pelo simples facto de não se estar a defender. Contra defesas organizadas, há muitas maneiras de marcar golo. A mais eficaz e a que mais garantias de sucesso dá é a posse e circulação de bola rápida, com passes curtos, tabelas, apoios próximos, paciência e muita qualidade de passe e recepção. A Espanha não utiliza alternativas tácticas não só porque é fortíssima neste estilo como porque percebe que não há melhor maneira de alcançar o que pretende.

16. Como a idiotia de Miguel Lourenço Pereira não parece ter limites, continua aventando que o futebol da Espanha, porque "lento e aborrecido", não ficará na História. Miguel Lourenço Pereira está por isso convencido de que, daqui a dez anos, as pessoas se vão lembrar é da "fresca Alemanha" e não desta Espanha. Como Miguel Lourenço Pereira é tão bom na arte da adivinhação como a falar de futebol, não sabe o que diz. Aliás, poucas selecções serão tão lembradas como esta Espanha no futuro, pela revolução ideológica que esta vitória representa. Tal como o futebol total da Laranja Mecânica de setentas e o estilo italiano que Arrigo Sacchi ajudou a cristalizar, o "tiki taka" do Barcelona de Guardiola importado por esta Espanha ficará evidentemente para sempre e constitui até um salto evolutivo que tem apenas um ou dois precedentes significativos. Só a má fé, a desonestidade e a galhardia de novo-rico de Miguel Lourenço Pereira é que não o percebem.

17. Já noutro texto, quando fala dos onze melhores jogadores do mundial, Miguel Lourenço Pereira volta a deslumbrar e diz:

"sem Xavi esta equipa espanhola era um conjunto absolutamente vulgar. De isso não sobra nenhuma dúvida."

Gosto, antes de mais, da forma como Miguel Lourenço Pereira "descontrai" a contracção da preposição "de" com o pronome demonstrativo "isso", revelando uma vez mais a sua extraordinária vocação para inventar não só palavras como categorias gramaticais inteiramente novas. Para Miguel Lourenço Pereira, todo o plantel da Espanha, à excepção de Xavi, é portanto absolutamente medíocre. O que é estranho, não só porque antes diz que Piqué é o melhor central do mundo, como num texto mais recente sugere que a Espanha reunira o melhor plantel de sempre da sua História e que, por isso, merecera bem a vitória. Não sei se Miguel Lourenço Pereira sofre de esquizofrenia, mas julgo que não. Estou mais virado para falta de coerência crónica agravada pelo facto de querer dizer mal de uma selecção que representa um povo que odeia e acabar por não conseguir organizar as ideias.

Foram portanto dezassete pontos interessantes acerca das ideias de Miguel Lourenço Pereira sobre o futebol da selecção espanhola. Como terá ficado visível, há pessoas muito esquisitas. Miguel Lourenço Pereira é uma delas. Não sei se os três nomes denotam a sua natureza aristocrática e antecipam o seu carácter nacionalista e xenófobo, tão vincado naquilo que procura defender. Sei, contudo, que Miguel Lourenço Pereira tem por patologia o não perceber nada do que diz e, como muito gente, o querer falar do que não sabe. É um mal comum nos dias que correm. Tal como muita gente, Miguel Lourenço Pereira não percebe patavina do futebol desta Espanha. Juntando a isto o facto de não perceber muito de português e de destilar sentimentos violentos contra o país representado por essa selecção, o resultado só poderia ser ridículo. Se há , todavia, muita gente que não percebe o futebol da Espanha, mas se resigna à sua superioridade, o quixotismo de Miguel Lourenço Pereira, espanholice que afinal, contra a sua vontade, tão bem o define, fez com que visse nesse futebol o mais perfeito contrário do mesmo. Não querendo com isto fazer qualquer juízo de valor acerca dos dois termos da comparação, comparar esta selecção àquilo que costumam ser as selecções italianas não faz qualquer sentido e só merece o descaro do riso.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pontos sobre o Mundial

1. Os movimentos interiores de Müller eram aquilo que tornava a equipa alemã, a atacar, uma equipa imprevisível. Ao aparecer em zonas centrais, entre os médios e os avançados, concedia não só todo o flanco para as subidas de Lahm como fornecia linhas de passe verticais, povoava zonas entre linhas e unia o sector do meio-campo ao atacante. O segundo golo frente à Argentina é a demonstração disto. É o posicionamente de Müller que permite o passe vertical e o desequílbrio ofensivo decisivo. Sem Müller, a Alemanha, do ponto de vista colectivo, era só mais uma equipa.


Argentina 0-2 Germany

Perry | Vídeo do MySpace

2. Num mundial em que um elevado número de equipas apresentou um duplo-pivot defensivo no meio-campo ou, simplesmente, dois jogadores actuando de perfil, ficaram visíveis os problemas crónicos desse tipo de estrutura. A Alemanha não conseguiu suster a posse de bola espanhola e o constante povoamento da zona entre os centrais e os médios-defensivos, afundando-se no campo; o Brasil nunca foi uma equipa compacta e concedeu sempre espaços indesejáveis, caindo contra uma Holanda que pouca qualidade tem a trocar a bola; a Inglaterra e a França nunca se encontraram; a Holanda sofreu todos os golos de bola corrida por causa dessa estrutura. Só a Espanha, e sobretudo porque tem mais tempo a bola, não tem sofrido por causa dos dois jogadores lado a lado no meio-campo. A epidemia, porém, merecia uma reflexão.

3. No jogo da Holanda contra o Brasil, não foram apenas as referências ao homem evidenciadas pelo comportamento de Heitinga, Van Bronckhorst ou De Jong que permitiram ao Brasil chegar ao golo. O espaço central deveria estar sempre protegido, mas a inclusão de dois médios defensivos, ainda por cima com este tipo de comportamento, torna esse espaço um deserto. Kaká arrasta De Jong e não há maneira de Van Bommel fechar o espaço rapidamente. Assim, forma-se uma avenida que Filipe Melo aproveita, fazendo um passe rasteiro de 40 metros a isolar Robinho, possibilidade inaceitável a este nível.


Netherlands 0-1 Brazil

Simão | Vídeo do MySpace

4. Ainda a Holanda, desta vez contra o Uruguai. O golo de Forlan evidencia o problema das linhas defensivas holandesas. Com dois médios de perfil, cria-se um buraco entre linhas que Forlan aproveita. Recebe um passe vertical e, tendo todo o tempo do mundo ao seu dispor, dribla um adversário e chuta sem oposição. Apesar de facilitado pelo erro técnico do guarda-redes holandês, a chave do lance está no espaço que o duplo-pivot defensivo dos holandeses concede.


Uruguay 1-1 Netherlands

Ricardo | Vídeo do MySpace

5. O futebol da Holanda é pobre. Da afirmação não se segue que não merecesse estar onde está. A única equipa individualmente superior ou semelhante que enfrentou foi o Brasil, que também não apresentou um futebol extraordinário. Um mundial, porém, em que esta Holanda chega tão longe, só pode ser um mundial fraco. Não houve uma única equipa, das que enfrentaram a Holanda, que soubesse aproveitar as deficiências defensivas e a pobreza ofensiva dos holandeses. Junte-se ainda a isto a forma quase fortuita como a equipa adquiriu vantagem nos seus jogos e explica-se a aparente facilidade com que chegou até à final. Sobre o momento ofensivo, é sobretudo relevante falar daquilo que não se vê. Não se vêem movimentos de aproximação e, por conseguinte, capacidades colectivas interessantes na troca da bola; não se vêem os médios a dar apoios laterais ao portador da bola, quando esta está no flanco; não se vê movimentos sem bola significativos; não se vêem ideias; não se vê imaginação; não se vê capacidade para mandar no jogo. Apesar de muitos tecerem considerações positivas em relação ao futebol dos holandeses, gabando-lhe a genialidade ofensiva e o pragmatismo com que tem abordado os jogos, a Holanda tem sido pouco mais que medíocre. A genialidade é meramente individual e o pragmatismo é uma palavra mal usada para se referirem a "muitos homens atrás da linha da bola". A Holanda não defende bem, arrisca é pouco; a Holanda não ataca bem, tem é bons atacantes.

6. Wesley Sneijder tem sido, para muitos, dos melhores jogadores do torneio. Acho que todo aquele que o afirma não tem visto bem os jogos da Holanda. Não está em causa o valor do jogador. Está em causa aquilo que tem feito. Antes de mais nada, creio que esta opinião, em muitos casos, deve estar viciada pelo facto de ele já ter cinco golos. O problema é que é preciso ter em conta como é que os marcou. Contra o Japão, um frango monumental do guarda-redes nipónico; contra a Eslováquia, de baliza aberta, após trabalho de Kuyt; contra o Brasil, um cruzamento desviado por Filipe Melo e um de cabeça, após bola parada; contra o Uruguai, às três tabelas. Sneijder ainda não marcou, por assim, dizer, um golo em que pudesse dizer-se que fora seu todo ou o principal mérito. Por isso, se avaliar-lhe a prestação pelos golos obtidos já não fazia muito sentido, menos o faz quando os golos aconteceram como aconteceram. Para além disto, Sneijder tem jogado muito menos do que têm afirmado. Raramente se aproxima do portador da bola; raramente faz movimentos horizontais para criar superioridade numérica nas linhas ou fornecer apoio ao portador da bola; não vai para a confusão, procurando uma tabela. Prefere geralmente alhear-se do jogo e procurar espaços sem ninguém, para poder receber e fazer o que bem entender. Mas com isso foge ao jogo e não ajuda a equipa a encontrar soluções mais complexas. Sneijder tem-se protegido, procurando receber a bola sempre em condições ideais. Com isso, não só tem estado menos em jogo do que poderia como não tem sido colectivamente competente. Continua, sempre que tem a bola, a evidenciar uma qualidade de passe muito boa. Mas pouco mais do que isso tem apresentado. E, sinceramente, isso não chega para estar entre os melhores do torneio. Comparar a sua prestação com a de Xavi ou Iniesta, por exemplo, não faz o menor sentido.

7. Muito se falou de Fábio Coentrão e da sua forma neste mundial. Não creio que se deva ceder à euforia. A análise fria e racional mostra que Fábio Coentrão fez um bom mundial, é verdade, que foi um contributo ofensivo relevante no flanco esquerdo português. Isso é verdade e é nisso que Coentrão é, de facto, forte. Mas está longe de ser um jogador completo e de ter mostrado, neste mundial, que estava perfeitamente adaptado à posição de lateral. Dizem os que defendem o contrário que Coentrão esteve extraordinário a defender e que, se mais provas fossem precisas, que Maicon e Dani Alves não lhe criaram grandes problemas. O que estas pessoas estão a esquecer é que Portugal defendeu quase sempre enfiado no seu meio-campo e maioritariamente em organização e em superioridade numérica. É natural, nessas condições, que os defesas estejam menos expostos. Fábio Coentrão não sentiu grandes dificuldades a defender, é verdade, mas isso, por si, não significa nada. Pelo modo como Portugal defendeu, sobretudo contra o Brasil e contra a Espanha, seria natural que assim fosse. Raramente os defesas tiveram que corrigir rapidamente o seu posicionamento, raramente ficaram em igualdade numérica ou em lances de um para um com os avançados, raramente ficaram com muito espaço para cobrir. Fábio Coentrão atacou bem e isso é digno de registo. Mas fiquemos por aqui, porque não foi verdadeiramente testado para aquilo em que ainda lhe faltam atributos.

8. Num mundial pobre, em termos tácticos, não há um treinador que tenha merecido mais do que elogios ocasionais. Os dois principais nomes são os de Marcelo Bielsa e de Joachim Löw, embora ambos tivessem dado importantes tiros no pé. Bielsa começou bem e mostrou que uma equipa individualmente menos capaz pode bater o pé aos grandes e jogar deliberadamente ao ataque. Falhou rotundamente ao abdicar das suas principais ideias na eliminatória frente ao Brasil. O jogo de posse e pressão alta dos chilenos, em 343 losango, com Matías Fernandez e Valdivia como principais referências, deu lugar ao jogo veloz, em 442, sem os dois nomes acima referidos. O medo do Brasil ou a cobardia de não ter sido fiel a si mesmo valeram a Bielsa a desilusão. A de todos os chilenos e a nossa. Quanto a Joachim Löw, tem o mérito de ter colocado a selecção alemã a jogar um futebol menos germânico do que é costume. Muito disso, como já referi, era afinal fruto do comportamento criativo de uma individualidade, mas mesmo assim os alemães eram organizados e pareciam pensar de um modo colectivo. Falhou, contudo, como já falhara no Euro 2008, a opção por um 442 clássico e a ausência de movimentos atacantes imprevisíveis, para além dos protagonizados por Thomas Müller.

9. O Uruguai chegou longe, mas nunca impressionou. A caminhada teve na arbitrariedade do calendário a sua principal causa e os uruguaios tiveram apenas o mérito de nunca perder contra equipas individualmente mais fracas. Percebeu-se, todavia, que não podiam ir muito mais longe e que, assim que tivessem pela frente um conjunto mais forte, ficariam pelo caminho. Dentro dos uruguaios, é preciso porém destacar Diego Forlan, um jogador claramente acima da média. Quaanto a Luis Suarez, para muitos uma grande revelação, não posso deixar passar a oportunidade de dizer que me parece extraordinariamente sobrevalorizado. É um jogador que finaliza bem e que aparece bem em zonas de finalização. Mas é só. É incrivelmente prejudicial na construção e toma invariavelmente más decisões com bola. A quantidade absurda de golos que marcou no campeonato holandês deve ser relativizada, tal como relativizado deve ser o seu real valor. Parece-me um jogador do estilo de Mateja Kezman, muito competente num campeonato em que se passa muito tempo perto das balizas, mas sem qualidade para grandes voos.

10. Diego Maradona e Dunga montaram equipas à imagem daquilo que foram enquanto jogadores. Por razões diferentes, nem um nem outro mostraram competência enquanto treinadores de futebol. Vem isto demonstrar que, para se ser treinador, não basta ter sido jogador, por mais genial que se tenha sido. Para Maradona, o futebol é estritamente individual e, nos dias que correm, só um milagre faria com que alguém com uma concepção do jogo deste tipo pudesse ser campeão do mundo.

11. Esta Espanha, ao contrário do que se tem dito, não é o Barcelona. Dito isto, é mais o Barcelona do que era a selecção de 2008, ao contrário do que também algumas pessoas pensam. A selecção de 2008 não trocava tanto a bola como esta, não se detinha tanto em passes e tabelas como esta; não tinha também mais do que três jogadores do Barcelona (Xavi, Iniesta e Puyol), enquanto esta tem seis ou sete; e, sobretudo, Guardiola ainda não era treinador do Barcelona na altura, com toda a revolução que isso acarreta. No entanto, o que é preciso frisar é que esta Espanha, ainda que tenha adoptado o estilo do Barcelona, não tem os automatismos da equipa de Guardiola. Assim, o que há de Barcelona nesta equipa é a quantidade absurda de jogadores do Barcelona no onze. A única coisa que esta selecção tem do Barcelona é as individualidades. Colectivamente, como disse, só o estilo é igual. Nem a competência na pressão, nem a mecanização sem bola, nem o esquema táctico são sequer parecidos. O que é igual é o estilo.

12. O estilo da Espanha é, ainda assim, a principal bandeira desta equipa. E se os espanhóis se sagrarem campeões do mundo, será porventura a vitória conceptual mais importante desde o início do século. O que os espanhóis têm mostrado ao mundo é que este estilo, este jogar para o lado e para trás, este brincar à rabia com os adversários, o ter e querer sempre a bola, a certeza do passe, a profusão de tabelas, o jogo de apoios e pelo centro do terreno é o modo mais eficaz de ser superior a qualquer adversário. Este estilo, ainda que somente o estilo, mesmo faltando toda a mecanização e entrosamento entre jogadores, mesmo faltando limar os mais diversos detalhes, é assim o primeiríssimo e mais importante princípio que uma equipa de topo deve ter. Os espanhóis, sem serem colectivamente uma equipa bem trabalhada, gozam do facto de terem jogadores que preferem jogar neste estilo. E essa preferência faz deles, quando juntos, o mais forte conjunto em prova.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A Criatividade de Müller

A palavra "criatividade", no que diz respeito a futebol, tem frequentemente usos errados. Presume-se que um criativo é um jogador capaz de inventar maneiras requintadas de fintar os adversários, um jogador capaz de fazer passes de ruptura, um jogador, em suma, capaz de coisas que parecem difíceis. Isso não faz qualquer sentido. A criatividade não tem nada a ver com truques, malabarismos, recursos técnicos e artifícios excêntricos. A criatividade é um atributo mental, um atributo que permite solucionar problemas difíceis de maneiras inesperadas. O jogador criativo é aquele que descobre soluções inovadoras, que interpreta os dados de um lance de uma maneira imprevisível e que consegue ser mais espontâneo, mais rápido a pensar e mais eficiente a contornar os problemas que lhe são impostos.

Esse uso errado da palavra "criatividade" ocorre muitas vezes quando se pretende classificar um extremo. Raramente um extremo é um jogador criativo. Por norma, o extremo que as pessoas acham que é criativo é um jogador muito hábil, do ponto de vista técnico, e muito rápido. Só. Por exemplo, a criatividade de Cristiano Ronaldo é, quando comparada com outros jogadores, uma coisa quase ridícula. O mesmo se passa com Di Maria e Hulk, ou, noutra dimensão, com Robinho. São jogadores que, tecnicamente, possuem recursos muito interessantes, mas não são jogadores que, perante dificuldades imprevistas, saibam solucionar os seus problemas. É por isso que, em espaços curtos, não são jogadores extraordinários ou, pelo menos, não conseguem sê-lo de um modo regular. O paradigma do jogador criativo, na acepção de palavra que estou a defender, é o típico jogador espanhol da actualidade: Iniesta, Fabregas, David Silva, Mata, Bojan, etc. Tratam-se de jogadores que interpretam os lances de um modo mais abrangente, que conseguem, perante problemas difíceis, encontrar invariavelmente a melhor solução e que conseguem descobrir soluções inesperadas. São por isso mais imprevisíveis e, por conseguinte, mais difíceis de entender, por parte dos adversários. O jogador criativo é, por isso, aquele que percebe com mais facilidade para onde é que a bola deve seguir, aquele que percebe mais rapidamente se deve fazer um compasso de espera ou se deve jogar de primeira e aquele que, mesmo sem recursos técnicos assinaláveis, é capaz de se livrar individualmente de adversários directos, enganando-os com um drible, com uma simulação de passe, com uma tabela ou uma desmarcação no momento certo.

Uma das razões pelas quais Mesut Özil tem sido amplamente elogiado e Thomas Müller ignorado prende-se precisamente com o facto de as pessoas terem tendência a reter com mais facilidade os atributos técnicos de um atleta do que os seus atributos intelectuais. Özil é tecnicamente mais vistoso que Müller e terá melhores capacidades a esse nível. Mas não é mais criativo que o jogador do Bayern. Isto porque criatividade não tem nada a ver com capacidade técnica. Aliás, uma das razões pelas quais o momento ofensivo da selecção alemã parece tão fluido tem a ver com a liberdade que Müller tem para vir para o meio, permutando com Özil, onde a sua capacidade de decisão e a sua criatividade têm mais influência no desempenho do colectivo. Se Müller ficasse amarrado ao flanco, como do outro lado acontece com Podolski, cujos movimentos são essencialmente verticais, a Alemanha seria muito mais estéril do ponto de vista ofensivo, pois a criatividade de Müller não estaria tanto em jogo. A jogada que - creio - melhor exemplifica as qualidades que estou a querer reconhecer em Müller é a jogada do segundo golo frente à Inglaterra.


Simão | Vídeo do MySpace

O lance começa na direita, com Kedhira a servir Müller, junto à linha, com Ashley Cole atrás dele. Sem preparação, de primeira, de modo a não permitir a aproximação dos defesas ingleses, Müller reenvia a bola para o meio, para o apoio de Mesut Özil ao centro. É nesta opção, invulgar na maior parte dos jogadores que jogam junto às linhas, que está a primeira e a mais decisiva acção do lance. Depois de soltar em Özil, Mülller desmarca-se de imediato. Özil joga de primeira em Klose, que está junto à linha, e este, também de primeira, faz a bola entrar nas costas da defesa inglesa, num espaço que Müller, ao desmarcar-se, atacara. O desequilíbrio está causado e Müller, com espaço para rematar, opta antes por servir Podolski, que fica sozinho porque Müller arrastou todas atenções para si. A capacidade de decisão de Müller, tanto no passe para Podolski, mas sobretudo no primeiro momento, quando joga no apoio e se desmarca de imediato, é que é aqui preciso notar. É que, embora pareça um movimento simples, isto denota uma capacidade criativa invulgar. Em primeiro lugar, Müller percebe a opção que tem ao meio de um modo notável e percebe também que, para fazer uso dessa opção, deve executar de primeira. Qualquer recepção tornaria inválido o apoio de Özil. Müller pôde usar a opção porque pensou rapidamente e a descobriu antes de receber a bola. Pouquíssimos jogadores têm esta capacidade. Depois disto, percebe rapidamente que, com Özil na posição em que estava e Klose à esquerda, o lateral-esquerdo e os dois centrais haviam sido puxados para ali e a defesa inglesa estava, portanto desorganizada. Como tal, imediatamente a seguir ao passe de primeira, desmarca-se e aproveita essa desorganização. Foi a criatividade de Müller, a sua capacidade de visualizar rapidamente o que rodeava e de perceber rapidamente os dividendos que poderia tirar dessa conjuntura, que permitiram que fosse criado tamanho desequílibrio. Depois, porque o seu pensamento exigia o passe de primeira e a desmarcação célere, tratou de pôr em prática aquilo que a sua mente idealizou com facilidade. É esta capacidade intelectual de antecipar com tanta precisão tudo aquilo que uma simples acção ou um simples movimento implica, assim como a capacidade de extrair dessa capacidade primeira todo o lucro possível, que faz de Müller um jogador extraordinariamente criativo. A criatividade é isto, é o atributo que permite ao jogador antecipar mais correctamente o futuro imediato.

Grande parte dos jogadores, mesmo os muito dotados tecnicamente, agem essencialmente por reacção e não são capazes de antecipar, quais xadrezistas vulgares, senão os milésimos de segundo que se seguem à sua acção. O jogador verdadeiramente criativo é aquele que consegue desenhar na sua cabeça toda a jogada, que consegue perceber, com um grau de precisão muito elevado, tudo o que vai acontecer em seguida. Esse, porque tem essa capacidade, está sempre um passo à frente dos outros, mesmo que não possua argumentos técnicos e físicos tão elevados como os melhores. É por isso que a criatividade, ainda que dependa sempre da acção dos outros para se fazer valer, é um atributo tão importante. Numa equipa que jogue como equipa, que se faça valer mais da relação entre os diferentes elementos da equipa do que das individualidades que a compõem, a criatividade é, portanto, o atributo mais importante num jogador. Müller é mais criativo que Özil porque tem esta capacidade de ler as jogadas muito mais apurada que o jogador do Werder Bremen, ainda que não seja tão evoluído, do ponto de vista técnico, quanto o seu compatriota, nem seja tão competente quando entregue a duelos individuais. Como tal, só quem entende o futebol como um jogo de individualidades é que pode ficar mais entusiasmado com Özil do que com Müller. Estas pessoas acham igualmente que o primeiro é mais criativo porque nem sequer concebem a existência de atributos essencialmente colectivos, que só têm real valor se o jogo for entendido para além desse choque entre onze indivíduos de cada lado. Para esses, Özil é mais influente na equipa porque as qualidades da equipa são apenas a soma das qualidades individuais de cada elemento que forma a equipa. Ignoram, porque incapazes de não ignorar, que as qualidades da equipa são, isso sim, muito mais do que essa soma, a soma das relações que cada individualidade tem com as outras individualidades, e que, portanto, é mais influente aquele cujas capacidades de se relacionar com os outros é melhor. No fundo, Müller é mais influente porque a sua relação com os outros e com o colectivo em geral é mais valiosa, independentemente de, quando entregue a si, não ter tanta facilidade para resolver problemas quanto tem Özil.