sábado, 20 de agosto de 2011

Contra Argumentos Não Há Factos

"Nisto de manifestações populares, o mais difícil é interpretá-las. Em geral, quem a elas assiste ou sabe delas ingenuamente as interpreta pelos factos como se deram. Ora, nada se pode interpretar pelos factos como se deram. Nada é como se dá. Temos que alterar os factos, tais como se deram, para poder perceber o que realmente se deu. É costume dizer-se que contra factos não há argumentos. Ora só contra factos é que há argumentos. Os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos. A lógica é o nosso critério de verdade, e é nos argumentos, e não nos factos, que pode haver lógica."

Fernando Pessoa, "Crónicas da Vida que Passa",
publicado in O Jornal, a 18 de Abril de 1915.

Vem isto a propósito de mais um esplendoroso exercício de reflexão estatística executado pelo Filipe Vieira de Sá. Pretende o Filipe, de calculadora em punho, demonstrar que o Postiga não presta para nada, e que o Sporting é menos eficaz com ele em campo. E com que critérios pretende ele justificar tal ideia? Um só: a diferença entre os golos marcados pelo Sporting com ele em campo e os golos marcados sem ele. Um só critério! Isto vindo de quem se diz mestre da estatística? É preciso alguma boa-vontade para não rirmos de tal infantilidade. Mas já lá vamos. Conclui assim o Filipe a sua análise: "Apresento apenas os dados, que são factuais, e espero que eles possam contribuir para alguma coisa. Porque deviam." Os dados (que são factuais, como tão bem enfatiza o Filipe) mostram que o Sporting marca mais golos quando o Postiga não joga. E como são factuais - como o Filipe faz questão de frisar - não se pode duvidar de que contenham qualquer verdade. Se os dados são factuais - como o Filipe diz que são - pode-se concluir 1) que o Sporting marca de facto menos golos com o Postiga em campo, 2) que, por marcar menos golos com ele em campo, é menos forte com ele em campo, 3) que, por marcar menos golos com ele em campo, joga pior com ele em campo, e 4) que, por o Sporting marcar menos golos com o Postiga em campo, o Postiga não presta para nada e deveria ser substituído. É esta a linha de raciocínio do Filipe, que não pode estar errada porque se baseia na factualidade - como tão bem nos fez saber.

Comecemos pela citação de Fernando Pessoa. Baseia-se a teoria do Filipe, assim como todas as suas ideias recentes, na premissa de que, "contra factos não há argumentos", ou seja, de que os factos, tais quais se deram, são auto-explicativos e prevalecem sobre qualquer argumentação. Ora, como diz Pessoa, não é assim que o mundo funciona: é precisamente contra factos que há argumentos. Os matemáticos (e os patetas também) levarão as mãos aos cabelos, com tal afirmação. Isto porque vêem o mundo através do papel quadriculado em que fazem contas, e acham que o mundo é universalmente explicado pela matemática. Estão enganados. Os factos, propriamente, não são nada. Não existem factos, se quiserem. O principal erro dos matemáticos é pensar o contrário, é pensar que existe uma coisa empírica que se dá, a que chamam facto, e que a interpretação desse facto acontece posteriormente. Todo o facto é já uma interpretação. E interpretar o mundo matematicamente é só uma maneira de interpretá-lo, não a maneira mais eficaz. Como diz Pessoa, "os argumentos são, quase sempre, mais verdadeiros do que os factos". O que permite a Pessoa dizê-lo é o critério de verdade utilizado em cada uma destas duas coisas: no caso dos argumentos, o critério de verdade é a lógica; no caso dos factos o critério será outra coisa qualquer, provavelmente a matemática. É por isso que apresentar factos e pressupor a impossibilidade de refutação do que quer que esses factos permitam concluir é uma falácia. Mais uma, de tantas que o Filipe comete. Os factos não têm lógica, e querer concluir o que quer que seja com base numa coisa que não tem lógica parece-me um salto de fé muitíssimo arriscado. Diz o Filipe, noutro texto, o seguinte: "Entendo a avaliação que faço como extremamente sólida por ser baseada em factos de longo prazo". E melhor frase não poderíamos encontrar. A razão pela qual acha o Filipe que as suas avaliações são sólidas é o serem baseadas em factos. Como se viu acima, todas as suas avaliações se baseiam então em coisas ilógicas, coisas que carecem de interpretação e que, por si, não têm conteúdo cognitivo nenhum. Por conseguinte, nenhuma das suas avaliações é sólida, como acredita. Falta-lhe a lógica que só a capacidade argumentativa - coisa que aboliu do seu raciocínio - poderia dar. Sem ela - coitado - é um matemático frustrado a mostrar que sabe fazer contas de dividir.

Passemos agora para aquilo que, concretamente, quer o Filipe demonstrar com este exercício em particular, e preocupemo-nos com o método utilizado, pois é no método que estão todos os equívocos que determinam a natureza equivocada das conclusões. A conclusão final, a de que o Postiga não presta para nada e deve ser substituído para que o Sporting fique mais forte, baseia-se em, pelo menos, dois dogmas: 1) que a quantidade de golos que uma equipa marca é directamente proporcional à sua força global; 2) que há necessariamente uma relação de natureza causal entre a acção de um jogador e o rendimento de uma equipa. Penso que o primeiro dogma não coloca grandes problemas (o próprio Filipe não acreditará nisso, e só terá fechados os olhos a esta objecção evidente por lhe dar jeito para as conclusões que queria tirar), e não vou falar dele. Quanto ao segundo, há coisas a dizer. A grande maioria das opiniões sobre futebol consiste em afirmar que se devia trocar o jogador A pelo jogador B, pois este oferece maior rendimento. Isto não faz sentido de muitas maneiras, mas não faz sentido essencialmente porque não há uma relação causal entre o rendimento individual de um jogador e o rendimento da equipa em que actua. O rendimento de uma equipa não pode ser medido pela soma dos rendimentos individuais, e é perfeitamente possível que, ao substituir um jogador A, com um rendimento individual fraco, um jogador B, que consiga um rendimento individual óptimo, faça com que o rendimento colectivo decresça. Permitam-me o seguinte exemplo: o rendimento individual do Ronaldo, em Madrid, é brilhante. E o rendimento colectivo do Real é maior com ele em campo. Mas transfira-se o Ronaldo para Barcelona e o seu rendimento individual chocará necessariamente com os interesses colectivos. Em Barcelona, imaginando que lhe dariam a liberdade para fazer o que faz em Madrid, Ronaldo manteria um rendimento individual altíssimo, contribuiria até individualmente para parte do rendimento do Barcelona, mas prejudicaria, no limite, o rendimento da equipa, porque lhe modificaria certas particularidades. A optimização do rendimento colectivo não depende da optimização do rendimento individual de cada uma das unidades que compõem o colectivo, mas sim da adequação do que cada uma dessas unidades faz aos interesses colectivos. É isto, essencialmente, que continua a não entrar nas cabeças das pessoas que acham que falam "colectivamente" de futebol.

Transpondo para o caso concreto do Postiga, o equívoco do Filipe está em presumir que um jogador transforma a sua qualidade individual em rendimento colectivo qualquer que seja o ambiente. Se o Postiga tem características complemente incompatíveis com as coisas que o colectivo privilegia, é natural que o rendimento do colectivo seja superior quando, em vez do Postiga, jogar alguém que se enquadra melhor naquilo que o colectivo faz. Isso não significa que esse seja melhor jogador, nem significa, sequer, que seja melhor para o colectivo cujo rendimento ajuda a melhorar. O Postiga pode fazer tudo bem feito, pode fazer coisas complicadíssimas, que poucos têm qualidade para fazer, mas, se a equipa não fizer uso dessas coisas, nada do rendimento colectivo será afectado por isso. Por exemplo, o Postiga ganha a bola no meio de dois adversários, tem um trabalho desgraçado a segurá-la, espera por colegas e entrega de frente no médio. Se o médio, a seguir, jogar longo a solicitar a entrada de um extremo e a jogada se perder, todo o trabalho do Postiga, bom ou mau, acabou por não contribuir para nada. Se calhar, nesse caso específico, em vez de ter alguém que fosse capaz de fazer o que Postiga fez, seria melhor ter um avançado que saltasse apenas à bola e que, sem se desgastar a protegê-la e a esperar pelos colegas, fosse imediatamente para a área. No caso de uma equipa que não priviligie o tipo de coisas em que o Postiga pode contribuir, não me faz confusão que o Postiga não seja o avançado que mais contribui para o rendimento colectivo. O problema, porém, é pensar que quem está mal é o Postiga. Se o Sporting pratica um futebol de equipa pequena, se não procura combinações curtas, se não faz um jogo de posse e circulação, se insiste em cruzar de longe para a área, se procura um futebol mais objectivo, é natural que um jogador de equipa grande, que é forte sobretudo a fornecer à equipa condições para jogar como uma equipa grande, não contribua significativamente para o rendimento dessa equipa. Mas - repito - o mal está na equipa, não no jogador. Resumindo, consiste o segundo dogma em presumir que, quando um jogador é bom, é bom em qualquer equipa, em qualquer modelo, com quaisquer tarefas, e que contribui necessariamente para o rendimento da equipa. Como é óbvio, não é assim que as coisas funcionam.

Depois de demonstrado o carácter dogmático da análise do Filipe (ele que tanto se diz contra os dogmatismos), vou agora enumerar os vários problemas metodológicos que se podem registar neste caso concreto. 1) Os 5 jogadores comparados são Cardozo, Lisandro, Liedson, Falcao e Postiga. Os primeiros 4 foram titulares indiscutíveis desde que chegaram a Portugal; Postiga, no Sporting, foi-o apenas na época passada. Os outros 4 jogaram quase sempre os 90 minutos; Postiga, mesmo quando titular, foi substituído bastantes vezes. Seria bem mais interessante e honesto fazer as continhas utilizando os minutos em que os jogadores estiveram em campo, e não os jogos em que foram utilizados. Apesar de tudo isto, o Filipe faz uso das três épocas em que Postiga esteve no Sporting. E ainda tem moral para dizer que as coisas que apresenta são factuais? É uma factualidade, no mínimo, muito duvidosa. Se calhar, mais de metade dos 68 jogos que o Filipe diz que o Postiga jogou jogou-os apenas parcialmente. 2) O segundo problema deriva do primeiro: pela inconsistência da utilização não se pode aferir nada. Nas primeiras duas épocas, Postiga era tão criticado e jogava tão pouco que, quando jogava, dificilmente podia render ao máximo. Mais uma vez, utilizar épocas em que o jogador, por factores extrínsecos à sua qualidade, não estava no seu melhor, comparando-o com 4 jogadores que nunca tiveram esse tipo de problemas, é no mínimo injusto. 3) Uma coisa que gostava que o Filipe fizesse com a sua calculadora especial era as mesmas continhas, mas em jogos da selecção. Será que Postiga, num ambiente diferente, num ambiente que, pelo menos com Paulo Bento, arriscaria dizer que lhe é mais favorável, continuava a ser um jogador que prejudicasse o rendimento da equipa? Tenho as minhas sérias dúvidas. 4) Nos resultados obtidos, o Filipe justifica o facto de o Porto render menos com Falcao do que sem ele com a pouca consistência dos 10 jogos em que ele não jogou. Eu entendo e aceito a justificação. Mas por que é que não se lembrou, de igual modo, o Filipe de justificar os resultados do Postiga com a pouca consistência dos jogos das duas primeiras épocas? Porque, uma vez mais, lhe dava jeito que não o fizesse. A inconsistência dos objectos de análise depende por isso da honestidade intelectual do Filipe, que é pouca.

Para terminar, e porque o texto já vai longo, queria voltar à ideia de Pessoa de que os factos não interessam para nada, e que são os argumentos que devem ser respeitados. Além de ter ficado evidente que o método usado pelo Filipe para o apuramento de factos carece de precisão, ficou também demonstrado - e bem demonstrado - que as suas conclusões dependem de premissas que o próprio não justifica. Os argumentos, ao contrário dos factos, ajudam a perceber como é que as coisas se passam e por que é que se atingem determinadas conclusões. Por ignorar os argumentos, e só dar atenção a factos, não percebeu o Filipe a natureza ilógica daquilo que estava a fazer. Sem a lógica dos argumentos, o seu raciocínio ilógico invariavelmente o conduz para conclusões precipitadas. Neste caso, o principal erro esteve em presumir que o rendimento colectivo ajuda a perceber rendimentos individuais. Noutros casos, erros parecidos ocorrerão.

Sobre a forma como o Filipe conduz discussões, tenho também algumas coisas a dizer. Ao contrário do Filipe, que prefere as bicadas subtis, sem outra justificação que não a tentativa de ridicularização, a minha intenção não é contestar a proposta dele através da troça, mas através da discussão. Ao contrário do Filipe, a quem interessa apenas a sua perspectiva, valorizo acima de tudo a troca de ideias. É por isso que, ao contrário do Filipe, cito as ideias dele, rebatendo-as com as minhas; é por isso também que nunca fugi a uma discussão, nem recusei comentários. Consiste o método de discussão do Filipe em apresentar contas de matemática para mostrar como tudo o que não tenha matemática é falso. E ainda diz que não é um rapaz dogmático! Está certo. O meu método é diferente: consiste em mostrar, pela lógica, que certos argumentos fazem mais sentido que outros. Por outras palavras, os interesses do Filipe são religiosos: pretende vender uma certa fé, partindo, como parte qualquer religião, de determinados dogmas que carecem de prova. A minha posição é distinta. O único dogma é não haver dogmas. Os meus interesses, se não científicos, são intelectuais. Não defendo o que defendo porque sim; defendo-o por isto ou por aquilo, consoante o argumento. O Filipe defende o que defende porque os números - a suprema divindade da religião a que dá corpo - lhe dizem que tem de defendê-lo, mais ou menos como um cristão defende o Cristianismo porque um livro grosso contém a palavra divina e é sacrilégio duvidar dela. As matematiquices do Filipe fazem dele, portanto, um fundamentalista. Como todos os fundamentalistas, parece uma pessoa honesta e liberal, desde que não discordem da sua fé, fé essa que, no seu caso, é a matemática.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Mourinho e a Pré-História

Como espectáculo, a Supertaça de Espanha foi emotiva e disputada; como jogo de futebol, foi uma partida de fraca qualidade, com muita precipitação, muito choque, uma equipa claramente abaixo das suas capacidades físicas e outra a roçar o absurdo, em alguns aspectos. Enfim, para muitos, terão sido mais dois grandes duelos. Para mim, foi a confirmação de que o Real de Mourinho dificilmente beliscará a hegemonia do Barcelona de Guardiola nos tempos mais próximos. É quase unânime que o Real esteja cada vez mais forte, e cada vez ameace mais o domínio blaugrana. Pessoalmente, acho isso um disparate. Acho que a estratégia é cada vez mais primitiva e depende cada vez mais ou da desinspiração do adversário, ou da leviandade da arbitragem, ou da sorte.

Já a época passada parecia notar-se a tendência para aquilo de que vou falar de seguida, mas estes dois jogos foram bem mais elucidativos a esse respeito. No mesmo dia, portanto, em que um treinador pré-histórico apurou uma selecção portuguesa para uma final de um campeonato do mundo, provando que o futebol é, de facto, o desporto dos pobres, Mourinho, provavelmente o treinador que mais revolucionou a profissão que exerce, e provavelmente o treinador que mais fez pela modernização dos treinadores portugueses, voltou à Pré-História. Não vi ainda ninguém referi-lo - o que me choca, de algum modo - mas a estratégia do Real Madrid, nos dois jogos, passou por uma marcação homem a homem (sim!, homem a homem) no campo todo. É verdade que não havia acompanhamentos ao longo de todo o campo, e que havia permutas de marcação quando um jogador entrava no espaço de um colega, mas a estratégia passou por haver um jogador madrileno em cima de um catalão, em qualquer zona do campo. Tem sido gabada a pressão alta que o Real Madrid impôs, mas não se tem percebido em que tem consistido. A pressão consiste em encostar, um a um, em cada um dos adversários. Isto não é pressão; é estupidez. E só pareceu dar alguns frutos porque os jogadores do Barcelona, em largos momentos da eliminatória, deram a impressão de ainda estarem de férias.

Este tipo de jaimepachequice tem uma virtude, se é que se pode chamar a isto virtude: potencia os confrontos individuais e, quando uma equipa é (ou está) fisicamente muito superior à outra, pode ter efeitos. De facto, se há altura da época em que o Real Madrid podia, com esta estratégia, vencer o Barcelona, era agora. É no início da época que a diferença de agressividade é mais relevante, pelo simples facto de os indíces físicos de uma equipa que assenta a sua ideia num jogo técnico, nesta altura da época, não lhes permitir explorar todo o seu potencial. Sem capacidade para fazer das suas armas uma mais-valia, perante a agressividade do adversário, o Barcelona concedeu assim mais perdas de bola do que é hábito. É coisa, porém, que não se repetirá no futuro, quando a equipa estiver melhor preparada do ponto de vista físico. O que estou a defender é que a estratégia do Real aparentou ser boa porque a altura da época assim o propiciou. Mas, mesmo tendo-o propiciado, não foi suficiente, o que por si só é até irónico.

Sempre que a pressão homem a homem que o Real exercia conseguia evitar que o Barcelona saísse a jogar, roubando a bola em zonas altas, o Real parecia conseguir ameaçar os catalães. Mas sempre que não o conseguia, sempre que os catalães, pondo o seu jogo de passe curto em acção, conseguiam sair da primeira zona de pressão, o que tinham a seguir era um amontoado de jogadores completamente desorganizados. Por norma, o Barcelona trabalha os seus ataques, lateraliza, especula, etc. Contra um Real Madrid completamente desorganizado, preocupado em marcar homem a homem, sempre que um jogador catalão se soltava, fruto da dinâmica colectiva, ou fruto de uma acção individual, ficava com uma auto-estrada à sua frente, bastando à equipa um ou dois passes para criar uma situação de perigo. Estando a equipa fisicamente no seu melhor, este tipo de coisas tenderá a acontecer mais vezes, e arriscaria a dizer que, entrando Mourinho com esta estratégia no próximo jogo, o mais provável é sair goleado outra vez. O lance mais paradigmático é aquele em que Messi, estorvado já por Pepe, finaliza descaído para a esquerda, com boa intervenção de Casillas. A forma como Messi fica com uma avenida à sua frente, no corredor central, com Pepe e Sergio Ramos, os últimos dois homens, abertos a toda a largura do campo, demonstra bem a falta de organização defensiva da equipa neste último jogo. Sempre que o Barcelona conseguiu soltar um jogador, o Real passou mal, pois teve de ajustar marcações e estava constantemente onde os jogadores do Barcelona queriam que estivesse. Se o resultado não foi mais desnivelado e se o Real pareceu sempre capaz de disputar o resultado, tal deveu-se - como já disse - ao facto de o Barcelona não estar ainda num momento em que consiga potenciar essas situações.

No melhor livro sobre futebol escrito em português, é Mourinho quem é o herói da coisa. Nuno Amieiro, defendendo um conceito de zona que considero absolutamente certeiro, exemplifica por norma com o Porto de Mourinho. Bem sei que as pessoas gostam da versatilidade de Mourinho, mas abdicar de um princípio que lhe foi tão caro desde sempre, e que lhe fez até a fama, é das coisas menos nobres, para não dizer estúpidas, que podia fazer. Percebo a necessidade de, a cada pontapé de baliza catalão, fazer cair um jogador em cada um dos centrais, e outro no médio-defensivo que entra no meio, de modo a evitar que o Barça comece a construir logo desde trás, mas fazer um acompanhamento directo a cada uma das individualidades catalãs, ao longo de todo o campo, não é nunca a melhor forma de tentar parar o Barça. Nem mesmo com a impunidade sobre a violência das entradas. É que basta uma distracção, ou que um catalão consiga desembaraçar-se individualmente do seu opositor, para que toda a estratégia deixe de ter sentido. Em termos defensivos, o Real foi tacticamente uma desgraça, pois os jogadores estavam posicionados onde havia jogadores catalães e não onde deveriam. Mas a verdade é que toda a gente gabou a forma como a equipa da capital conseguiu manietar o Barcelona. É por estas e por outras que afirmo que as pessoas não vêem os jogos; ouvem os barulhos e vêem cores e traços no ecrã que depois interpretam de modo aleatório.

Antes de terminar, um pormenor a que não se prestou atenção. Ao vir para a segunda parte, o Barcelona passou a bater os pontapés de baliza para a frente, abdicando de sair a jogar. Para quem diz que Guardiola não tem versatilidade, eis um exemplo de como estão errados. Apercebendo-se de que a capacidade ofensiva do Real dependia exclusivamente das bolas que conseguia roubar em zonas altas, e percebendo que a sua equipa não está numa fase da equipa em que consiga superar a agressividade dessa pressão, e que estava a ter dificuldades para ultrapassar essa primeira zona de pressão e começar a construir, Guardiola, em vantagem, ordenou que os pontapés de baliza fossem batidos para o meio-campo. Com isto, até pode ter permitido ao Real ganhar quase todas as primeiras bolas, e até pode ter facultado a bola ao adversário, mas preveniu-se contra o único modo de perder o desafio. É que, com bola, o Real nunca teve clarividência para superar a equipa catalã, estando esta organizada defensivamente. Na segunda parte, tirando lances de bola parada, o Real não foi ameaçador. E não o foi porque deixou de poder contar com o único meio pelo qual estava a sê-lo: a recuperação da bola em zonas altas, apanhando o adversário desorganizado. Para aqueles que consideram Guardiola demasiado agarrado aos seus ideais, ficou a boa resposta; do banco, percebeu onde estava a força do adversário, e abdicou de um dos princípios que lhe é mais caro para poder contrariá-la.

P.S. Que mais é preciso que Pepe faça para que alguém decida que está na hora de bani-lo do futebol? Se há cães que vão para abate por serem demasiado perigosos, por que razão não há matadouros para gente como ele? Estão à espera que parta os dentes a quem? Ao Messi? Sem exagero algum, nos últimos 6 duelos entre as duas equipas, Pepe fez o suficiente para ser expulso, no mínimo dos mínimos, 20 vezes. E o atrasado mental do Pedro Henriques, a comentar o jogo, ainda conseguiu ver, num lance em que o Pepe só olha para o Piqué, e voa direito a ele com o cotovelo armado, que o Busquets é que empurrou o Pepe na direcção do central catalão. Haja paciência para tanta imbecilidade!

domingo, 14 de agosto de 2011

O Futebol e a Falácia da Selecção Natural

Num recente artigo no Letra 1, espaço que me parece ter bastante qualidade e que aproveito para publicitar, argumenta Filipe Vieira de Sá, com base numa analogia que, apesar de interessante, carece de justificação, que o futebol, tal como o jogo da evolução das espécies, não converge para um ideal de perfeição. O que pretende, ao argumentá-lo, é defender a ideia de que, em futebol, não há uma fórmula que garanta o sucesso, e que esse sucesso depende, isso sim, da capacidade adaptativa da "espécie" ao "meio", sendo por isso natural que à "espécie dominante" de hoje se suceda amanhã outra "espécie dominante", melhor adaptada. Como é sabido, até porque escrevi coisas nesse sentido muito antes de o Barcelona de Guardiola ser a "espécie dominante" que é hoje, o tema interessa-me muitíssimo, e sustento uma opinião contrária à do Filipe. De um modo muito resumido, que espero sustentar melhor daqui para a frente, entendo o Barcelona de Guardiola como um salto evolutivo gigantesco (coisa de que falei aqui) e, em muitos aspectos, decisivo. Contra esta ideia, defenderia o Filipe, se bem lhe entendo o argumento, que não existem, em futebol, saltos evolutivos decisivos, e que aquilo que a "espécie dominante" faz hoje define o "meio" ao qual quem vem atrás deverá adaptar-se, superando-o.

Importa, em primeiro lugar, referir que não creio que exista perfeição, nem fórmula que garanta sucesso continuado. Acredito, porém, que existem maneiras melhores de jogar do que outras, maneiras que garantam mais vezes o sucesso, e que o modelo futebolístico posto em prática pelo Barcelona ultrapassa, em qualidade, tudo o que foi feito antes. Penso assim por uma razão simples, porque o futebol é um jogo e, como qualquer jogo, possui um conjunto de regras que lhe limita as possibilidades. O jogo do galo, para dar o exemplo de um jogo simples, cujo conjunto de regras impõe limites óbvios, acaba invariavelmente empatado, sempre que jogado por dois jogadores minimamente conscientes das possibilidades ao seu dispor. Há jogos, obviamente, mais complexos (sendo o futebol um caso evidente), jogos em que as possibilidades são muito maiores, mas, no limite, passa-se o mesmo. Todo o conjunto de regras fixo, que é aquilo em que consiste, por definição, qualquer jogo, é um "meio" ao qual se adaptam melhor os que possuírem as características mais adequadas ao conjunto de regras com que se define esse "meio".

O que, em primeira instância, trai o raciocínio ao Filipe é que o "jogo" da evolução das espécies não esteve, ou não está, ao contrário de um jogo como o futebol, sujeito a um conjunto de regras fixas, e que é isso, no limite, que permite afirmar que não há perfeição que sirva de critério. Aliás, ao contrário do futebol, em que se foram descobrindo formas melhores de se contrariarem as imposições do "meio", e em que as "espécies dominantes" se sucederam por desenvolverem, por reacção ao meio, características mais adequadas ao conjunto predefinido de regras do meio (houve poucas alterações significativas às regras, ao longo da História do Jogo), no jogo da evolução das espécies são, por norma, as alterações no meio, ou seja, as alterações nas "regras do jogo", que ditam a melhor adequação de um certo conjunto de genes a esse meio. Para fornecer disto ilustração, recorro ao exemplo clássico das borboletas brancas antes da industrialização em Manchester. A borboleta de cor branca, que predominava naquela zona antes da industrialização, deu lugar, em menos de um século, ao predomínio de uma espécie de cor negra não por esta ter vencido a batalha da evolução, mas porque o meio o impôs. O que se passou foi que, antes da industrialização, a borboleta branca predominava por estar melhor "adaptada" às imposições do meio, por se confundir melhor com a vegetação da zona, assim escapando mais facilmente aos predadores. Mudando o meio, mudou-se também a facilidade que estas borboletas tinham para escapar aos predadores. Com a fuligem e a rápida mutação da cor da vegetação local, a borboleta negra passou a ter melhores características para escapar à predação e, ao fim de algumas gerações, passou a ser a espécie dominante. O que este caso evidencia é que, no que diz respeito à luta pela sobrevivência, são essencialmente as mutações no meio que determinam a sucessão das espécies. Aliás, é por isso que se chama "selecção natural", por as espécies que sobrevivem serem seleccionadas naturalmente, pelas contingências do meio, pelo Acaso. No que diz, portanto, respeito ao jogo da evolução das espécies, não se pode dizer que exista mérito evolutivo, pois a evolução depende integralmente das condicionantes exteriores. Tal não é o caso do futebol, em que a evolução se fez principalmente por as espécies terem modificado a maneira como reagiam às condicionantes exteriores que, salvo raras excepções, permaneceram inalteradas.

A analogia utilizada pelo Filipe é, assim, falaciosa. E é-o simplesmente porque um jogo como o futebol não está sujeito à inconstância regulativa a que o jogo da evolução esteve. Há, todavia, usos interessantes a fazer dessa analogia. Quando Darwin chegou às Galápagos, descobriu que a fauna e a flora das ilhas era radicalmente diferente de tudo o que conhecia. Isto permitiu-lhe conjecturar que o isolamento insular determinara um jogo evolutivo totalmente distinto do que se passara noutras zonas do globo. Ou seja, num meio com regras diferentes, princípios evolutivos diferentes. Encontrou ali espécies que não existiam em nenhum outro local simplesmente porque o meio lhes permitira a subsistência. O que quero sugerir com este exemplo é que, mesmo no mundo natural, se o meio for relativamente inalterável, há a tendência para certas espécies subsistirem ininterruptamente. A conclusão óbvia a tirar é a de que, se as espécies que melhor se adaptam às características de um meio tiverem a possibilidade de permanecer nesse meio, sem que haja alterações no sistema de regras do mesmo, a tendência é o domínio dessas espécies não mais ser posto em causa.

Além de tudo isto, parece esquecer-se o argumento do Filipe de que há uma espécie que venceu já o jogo da evolução das espécies: o homem. E não só o venceu como já nem sequer o joga. De tal modo a vitória foi clara que é a única espécie que está livre das imposições do meio. É evidente que o homem não é uma criatura perfeita, e que teria dificuldades em sobreviver em determinados habitats, mas é a criatura que melhores características reuniu para fazer face às características gerais do meio em que habita e que controla plenamente: o planeta. A lei do mais forte e a selecção natural deixaram de se aplicar ao homem há muito tempo, e a menos que se dê uma mudança radical no meio, um cataclismo qualquer que destrua os pilares civilizacionais em que nos constituímos, não me parece crível que o homem venha algum dia a perder o estatuto de espécie dominante. O argumento que estou a fazer consiste em afirmar que não é preciso ser perfeito, no sentido utópico da palavra, para se vencer definitivamente o jogo da evolução; basta possuir as características - ou construi-las - que melhor se adequam às imposições do meio. No caso do homem, esse jogo começou a ser ganho no momento em que se começou a civilizar. Civilizar-se, aliás, significa precisamente desobedecer à lei do mais forte. Assim, ao desobedecer à mais profunda lei da natureza, adaptou-se o homem o melhor possível ao conjunto de regras que constitui o meio em que habita, e não mais ficou sujeito à dança da sucessão de espécies dominantes. Pode dizer-se, inclusivamente, que o homem não é sequer a espécie dominante do planeta, mas a espécie vencedora. Seria "dominante" se fosse aquela que, temporariamente, melhor se adapta ao meio. Mas, neste momento, é muito mais do que isso: é aquela que controla o meio e que dita as regras do jogo.

Deixem-me agora recuperar o argumento do Filipe acerca da sucessão de "espécies dominantes" em futebol, para mostrar como o argumento "mete a pata na poça" e torna clara a falácia a que se oferece. Segundo o Filipe, o que se passa em futebol é que o "meio" é definido por aquilo que fazem as "espécies dominantes", e que as restantes espécies se adaptam não ao conjunto de regras de que estão rodeadas, mas sim às características evolutivas da "espécie dominante". Segundo, portanto, o Filipe, a evolução em futebol depende de reacções não ao meio, mas às espécies que habitam o meio. Não é assim que funciona o jogo evolutivo das espécies, e, como tal, toda a sustentabilidade do argumento, que consiste na analogia com a teoria da "selecção natural", se desmorona. Parece-me, porém, que boa parte da confusão do argumento consiste em confundir a teoria geral da selecção natural com a luta particular que se dá no interior de um organismo, entre um hospedeiro e um parasita. É que, a dada altura do seu texto, dá o Filipe a entender que as restantes espécies, para sucederem ao domínio catalão actual, precisam agora de vacinar-se contra a doença viral que é o Barcelona. E, de repente, aquilo que era uma teoria simpática e promissora, consistindo numa analogia com a teoria da selecção natural, passa a ser uma coisa esquisita que consiste em aproximar a espécie dominante numa determinada altura da História do Futebol de um vírus para o qual ainda não se formaram anticorpos que o debelem. No final do seu texto, portanto, a teoria da sucessão das espécies dominantes em futebol é fundamentalmente uma analogia com a relação entre organismos hospedeiros e organismos parasitários: a vacina que debela a "espécie dominante" do vírus sucede ao vírus; gerações depois, tendo certas espécies secundárias do vírus sobrevivido ao ataque da vacina, um novo vírus volta a suceder à vacina; nova vacina, consistindo agora em anticorpos contra este novo vírus, volta a suceder ao vírus; e por aí em diante. O artigo, principiando com uma premissa que, como demonstrei, é falaciosa, acaba pois a falar de uma coisa completamente diferente, embora igualmente falaciosa, como adiante tornarei claro.

Como organismos parasitários que são, os vírus precisam de organismos hospedeiros que lhes suportem a existência. Ainda que, aparentemente, estejam em competição com eles, não é verdade que façam parte do mesmo jogo a que os outros estão entregues. Os vírus não são espécies que compitam com outras espécies, que façam parte da luta entre espécies da qual só as mais adaptadas ao meio saem vencedoras; os vírus são, isso sim, parte das imposições do meio. Podem, eventualmente, destruir uma espécie ou, pelo menos, contribuir para que perca o seu estatuto de espécie dominante, mas nunca poderão usurpar-lhe o trono, pois dependem dela. Na luta pela sobrevivência, um vírus, embora sendo um organismo vivo, funciona mais como um factor externo (como a falta de alimento, a temperatura, etc.) do que como uma espécie que compete directamente com aquela que ataca. Neste sentido, a luta entre um hospedeiro e um parasita, que é aquilo que, no entender do Filipe, caracteriza a evolução em futebol, é completamente distinta da luta entre espécies pelo estatuto de "espécie dominante". Já demonstrei acima como a primeira analogia era falaciosa, como não funcionava comparar o que se passa em futebol com o que se passa no jogo da evolução. Se, por outro lado, pretender o argumento do Filipe defender-se com a analogia dos vírus e das vacinas, pior ainda. Os vírus não têm interesses evolutivos idênticos às outras espécies; a sua existência depende necessariamente da existência de espécies que lhes são superiores. Por aqui se percebe que o argumento não tem ponta por onde se lhe pegar.

Resumindo, a analogia de que o Filipe faz uso, entre futebol e evolução, tem vários problemas. O primeiro problema é que são jogos diferentes, consistindo o primeiro num jogo com regras fixas, enquanto o segundo é um jogo de regras variáveis. O segundo problema é ignorar que, no jogo da evolução, é o meio que estipula a evolução e a sucessão de espécies, e que não há propriamente adaptação, no sentido preciso do termo; no futebol, não: são as espécies que aprendem a adaptar-se ao meio em que habitam. Em terceiro lugar, há o problema de não perceber que, fixando-se um determinado conjunto de regras durante um determinado período de tempo, num determinado meio com várias espécies, a tendência é surgir uma espécie dominante, que é aquela que nasce com as características que mais se adequem às características fixas do meio. O quarto problema consiste em esquecer, talvez deliberadamente, que houve uma espécie que venceu já o jogo da evolução, espécie essa que já nem sequer está sujeita à variabilidade das características do meio, tal é o seu domínio. O quinto problema é a confusão entre luta entre espécies e luta entre hospedeiros e parasitas, que são coisas diferentes, obedecendo a contingências diferentes. Com tantos problemas, a coisa mais simpática que se pode fazer é condescender, dizendo que a analogia não funciona e o argumento não é bom.

Aquilo em que o Filipe crê, muito teoricamente, é que não há modos melhores do que outros de jogar futebol. O argumento que usa para justificar essa crença é, como se viu, altamente falacioso. Por conseguinte, não justifica coisa nenhuma. Só o faria se o futebol fosse, tal como o jogo da evolução, um jogo de regras flutuantes, que mudassem consoante as marés. Como não é, a comparação entre as duas coisas é um artifício falso e barato, que não serve de grande coisa. Por aqui se percebe que a sua crença, sem um argumento a sério que a justifique, não passa de uma crença tola, como qualquer crença que se possa ter, por mais absurda que seja. Crê nisto, portanto, o Filipe religiosamente, que é a única maneira de crer numa coisa que não faz sentido nenhum. O futebol é um jogo e, como qualquer outro jogo, por mais complexo que seja, tem necessariamente de possuir maneiras de se jogar melhor. O xadrez é um jogo igualmente complexo e, actualmente, evoluiu até um ponto em que os melhores jogadores têm uma vantagem quase decisiva por começarem o jogo com as brancas. Aliás, a própria ideia de evolução implica melhorar de algum modo: evolui a criatura que melhora a sua relação com o meio em que se predispõe a evoluir. Toda a História do Futebol é uma história de evolução neste sentido. Não é lícito afirmar, apenas porque sempre houve, até aqui, maneiras melhores de se jogar o jogo do que maneiras anteriores, que continuem a haver, ad eternum, formas de melhorar que se oponham a formas anteriores. O futebol constitui-se por um sistema rígido de regras (ao contrário do que acontece, por exemplo, em arte), e a tendência é, por isso, para que a evolução tenha um limite. De resto, nada disto implica, como é óbvio, que formas piores de jogar o jogo não possam vencer, pontualmente, formas melhores. Mas formas melhores ganharão mais vezes: e é esse o ponto de tudo isto.

Por fim, e já que se falou bastante de espécies dominantes, talvez fosse bom que certas pessoas percebessem que as espécies dominantes dos que falam de futebol não são aquelas que vêem mais jogos, nem aquelas que comentam mais jogos, nem aquelas que fazem mais continhas de algibeira, nem aquelas que apagam mais comentários, mas sim as que melhor desenvolvem as capacidades críticas, naturalmente adequadas ao seu objecto de estudo, que lhes permitam o domínio. Isso faz-se, mais do que perdendo tempo com asneiras do tipo das que falei acima, cultivando o espírito crítico, treinando as competências argumentativas, aceitando o desafio de discussões teóricas, etc. Sem isto, e por mais minúcia que se ponha em tudo o resto, não passará quem o faz de um coitadinho a quem muito se aplaude o esforço para memorizar a matéria que sai no teste, de modo a transitar de ano e a continuar a sua sofrida sobrevivência até ao fim da escolaridade obrigatória, repousando depois.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Miguel Rosa e os Glutões

Comissões, comissões e mais comissões - eis o que interessa aos glutões. Como é possível que, no estado actual da economia mundial, e sobretudo num defeso em que os principais clubes europeus têm optado por políticas de contratação bem mais conservadoras, os três maiores clubes portugueses se preparem para adquirir, em conjunto, perto de meia centena de jogadores? Não duvidando da qualidade de algumas dessas contratações, o excesso denuncia outras intenções que não o simples reforço dos respectivos plantéis. À cabeça de tudo isto está o Benfica. É claro que há ali jogadores talentosos, e que o plantel sairá reforçado por alguns daqueles atletas. Mas à custa de quê? Sem exagero, dois terços das contratações servirão mais para encher os bolsos de alguém do que para reforçar o que quer que seja. Que equipa é que contrata 3 guarda-redes na mesma época? Que equipa europeia, mesmo em tempo de pré-época, conta em simultâneo com seis laterais esquerdos? Claro que a lista de dispensas demora a ser feita, e que no final o plantel será emagrecido. Mas esta política de contratar por contratar não parece servir ninguém (nem Jesus, nem o Benfica) a não ser agentes externos ao jogo. Não quero, porém, entrar em especulações escusadas, nem me apetece muito falar de coisas que não digam propriamente respeito ao jogo. Dito isto, importa mencionar o caso de Miguel Rosa.

Para muita gente, é um jovem desconhecido. Não para mim. Não foi aqui antes mencionado por desconfiar que o seu trajecto a nível sénior dependeria de muita coisa que o jogador não podia controlar. Não me enganei. Ainda assim, e sobretudo porque os primeiros anos como profissional o justificam, creio que merecia o salto que esteve perto de se realizar. Miguel Rosa é um médio ofensivo, ou médio interior, que pode alinhar na direita, por exemplo, com muitíssima qualidade. Não é um criativo por excelência, um jogador de último passe, de drible fácil, mas é incrivelmente correcto nas suas acções, bom tecnicamente e inteligente. Não é um médio de trabalho, mas muitíssimo compridor das suas funções, abnegado, humilde. Talvez o pudesse comparar a Pereirinha, não tão virtuoso e veloz, mas talvez mais cerebral. Acho-o muito parecido também com Rúben Amorim, embora seja ligeiramente mais ofensivo. Aliás, jogou essencialmente nas costas do avançado, no Belenenses e no Carregado. Para mim, foi o melhor jogador que saiu das camadas jovens encarnadas nos últimos 5/6 anos, a par talvez de Nélson Oliveira. É melhor do que André Carvalhas (um novo Hélio Roque que era, para muitos, o melhor jogador encarnado do seu ano e que, entretanto, como seria de esperar, desapareceu do mapa); melhor do que David Simão, que apesar de ser um ano mais novo, teve a sua oportunidade na primeira liga bem mais cedo; bem melhor do que Romeu Ribeiro, a quem foram inexplicavelmente dadas muito mais oportunidades; e melhor do que Miguel Vítor ou Roderick Miranda, que são jogadores excessivamente valorizados. Como disse, não destaquei Miguel Rosa anteriormente porque tinha muitas dúvidas quanto ao seu aproveitamento futuro. É que, já nos escalões mais novos, ficava a impressão de que não o apreciavam condignamente. A maturidade que tinha a jogar, a inteligência, a excelência do critério, nada disso chegava. Preferia-se a extravagância de outros. E a falta de extravagância, estando nós, ainda por cima, a falar do Benfica, antecipava que não fosse aproveitado.

Certo é que as três épocas de segunda liga não fizeram com que Miguel Rosa se resignasse. No Estoril e no Carregado foi uma mais-valia. No Belenenses, confirmou-se como uma certeza. Tanto é que foi eleito o melhor jogador do segundo escalão português esta temporada. Ainda antes do troféu, anunciava o jogador, confessando que Rui Costa lhe garantira o regresso à Luz, que iria integrar o plantel encarnado no ano seguinte. Surpreendeu-me a notícia, sobretudo por duas razões: pela precocidade do seu anúncio, pouco tempo depois de a época transacta terminar, e por ter conhecimento de certos atritos entre o Benfica e a família do jogador. O que é certo é que Miguel Rosa iniciou mesmo os trabalhos de pré-temporada, sendo antes utilizado numa campanha, ao lado de Nélson Oliveira, Rúben Pinto e David Simão, para promover a ideia absolutamente falsa de que, esta época, o Benfica iria apostar na prata da casa. Enfim, em pouco tempo se percebeu que, afinal, o jogador não iria fazer parte dos planos do clube, e que nem na pré-época iria poder mostrar serviço. Começaram a surgir notícias de empréstimos a clubes da primeira liga e acabou novamente recambiado para o Belenenses. Para ser honesto, o desaproveitamento de jovens de qualidade não é coisa que me espante. Mas há qualquer coisa esquisita neste caso. Repare-se só no seguinte exemplo: André Almeida foi recrutado ao Belenenses e posteriormente emprestado ao Leiria; Miguel Rosa, que não só jogava no mesmo Belenenses, como foi o melhor jogador do Belenenses e o melhor jogador de toda a segunda liga, vai voltar a ser emprestado a uma equipa da segunda liga. Que sentido é que isto faz? Não haveria mercado para o jogador na primeira liga? E, mais do que isso, por que é que não parece haver interesse do Benfica em valorizar o jogador, emprestando-o a um clube mais competitivo?

É aqui que entram os glutões. Sim, o mesmo tipo de gente que tem tudo a ganhar com a contratação de camionetas de jogadores parece ter o poder para marginalizar o jogador e assim satisfazer a sua vontade como bem lhe apeteça. Convenhamos, Miguel Rosa volta este ano ao Belenenses por uma única razão: porque alguém não quer que ele venha a ter o sucesso que promete ter. A notícia que veio a público dava conta do interesse de Miguel Rosa permanecer perto de casa, e de ter recusado sistematicamente todas as propostas de clubes da primeira liga que apareceram (mais tarde, apareceu uma notícia contraditória, em que Miguel Rosa dizia que fora o Benfica que preferira emprestá-lo ao Belenenses). Francamente, isso não cheira nada bem, ainda por cima quando uma das propostas era do Vitória de Setúbal, que não é muito mais longe do que o Seixal. O pai do jogador afirma que foi o Benfica que recusou as propostas do Nacional, do Vitória de Setúbal, do Olhanense e do Feirense, forçando-o ao empréstimo ao Belenenses (acrescentou, aliás, que o Benfica lhe sugeriu, como única alternativa ao Belenenses, ficar uma época inteira a treinar sozinho). Não é por ser a versão do pai do jogador, mas por ser logicamente a mais inteligível, que é, a meu ver, a versão que faz mais sentido. As pessoas acham que é absurdo, por ser contra os interesses do clube o Benfica preferir emprestá-lo a um clube da segunda liga, mas a verdade é que é contra os interesses do clube ter praticamente 50 jogadores a fazer a pré-época e foi isso que se passou. O que se acontece é que, mesmo que estas coisas sejam contra os interesses do clube, favorecem os interesses de alguém. E é isso que está aqui em causa. Nenhuma das duas versões do caso, 1) ter sido o jogador a preferir a segunda liga, por poder ficar perto de Lisboa, e 2) ter sido o Benfica a preferir o Belenenses, parecem lógicas, porque não o são. O que falta nesta equação é a vontade de alguém que não serve nem o clube nem o jogador.

Em campo, além de virtuosíssimo, Miguel Rosa é um jogador trabalhador, abnegado, lutador. O seu benfiquismo é inatacável - basta ver como agradeceu ao Benfica, de forma até pouco razoável, o prémio de melhor jogador da segunda liga. A acusação de falta de profissionalismo, num jogador com este tipo de características, não faz sentido nenhum. Argumentam os que consideram que o responsável pela situação foi o Miguel Rosa que os clubes a que esteve ligado são todos da zona de Lisboa: Estoril, Carregado e Belenenses. E argumentam ainda que o Benfica teria todo o interesse em valorizá-lo na primeira liga. Sobre o primeiro argumento, sinceramente, não acho que haja nada de extraordinário. Ter Miguel Rosa preferido o Carregado a outra equipa da segunda liga não é nada de esquisito. E o certo é que ficar perto de casa, sobretudo quando as alternativas não são de nível superior, não me parece um mau critério. Esteve em três clubes da zona de Lisboa porque havia clubes da zona de Lisboa interessados nele. Ponto final. Nada nesse argumento joga a favor da teoria de que Miguel Rosa não tem ambição. Quanto ao segundo argumento, de facto faz sentido. Mas faz sentido, como disse acima, se acharmos que são apenas os interesses do Benfica que estão em jogo. E claramente não são. Já há alguns anos que tenho conhecimento dos problemas entre alguns dirigentes do Benfica e a família de Miguel Rosa (isto explica, aliás, que não tenha tido, nos últimos anos, o mesmo tipo de projecção pública que outros miúdos). O que me parece que terá acontecido foi que Rui Costa, de boa fé e reconhecendo-lhe o talento que tem, o contactou de maneira a que ele integrasse o plantel na época seguinte. A forma como Miguel Rosa anunciou a coisa indicava até que não ia fazer apenas a pré-época, mas concedo, ainda assim, que fosse apenas para isso que foi contactado. O problema é que nem a pré-época lhe permitiram. Que explicação há para isto? A meu ver, a entrada em cena de alguém que não quer o jogador no Benfica por razões pessoais, e por cima de quem a decisão de Rui Costa terá passado. Não sei quem será essa pessoa (ou pessoas), mas, por tudo o que sei, acerca do jogador, acerca do seu valor, acerca do caso em si, acerca dos problemas passados com a família, acerca da índole de grande parte dos dirigentes desportivos, esta conclusão é claríssima: Miguel Rosa volta agora para o Belenenses não porque não tem mercado na primeira liga, não porque o Benfica não está interessado em valorizá-lo, não porque é irresponsável e não tem ambição, não porque tem uma namorada em Lisboa e quer ficar perto dela (estes são os argumentos mais comuns), mas porque alguém, alguém com poder suficiente na estrutura do clube, tem problemas pessoais com ele ou com a família dele. Aliás, basta que se conheça minimamente os meandros do futebol para chegar a esta conclusão. E agora, para terminar, queria apenas lançar uma perguntinha, uma perguntinha que, por reunir indícios suficientes para que justifique que seja colocada, não é apenas uma perguntinha arbitrária e infundada. Como é que se chama o ex-gestor do futebol de formação do Benfica (curiosamente numa altura em que Miguel Rosa era juvenil e júnior e que, segundo consta, chegou a ser visto em altercações com o pai de Miguel Rosa), que regressou à estrutura encarnada para exercer a função de director do futebol profissional precisamente poucos dias antes de Miguel Rosa ser novamente escorraçado do clube? Uma pista: tem o mesmo nome de um parasita que costuma ser portador de doenças.

P.S. Muito do trabalho de casa em torno da discussão acerca das razões para o regresso do jogador ao Belenenses, principalmente no que diz respeito à posição do pai de Miguel Rosa nesta questão, foi feito no fórum do Ser Benfiquista.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Lições de Mestre (8)

Este texto não estava previsto, mas seria estúpido não aproveitar a oportunidade. E já que também não estava previsto que o jogador ficasse no plantel, junta-se tudo para falar de algo que merece ser falado, apesar de a minha opinião acerca do assunto ser já sobejamente conhecida. O que trago é uma jogada a acabar o jogo de apresentação do Sporting, frente ao Valência, e, a meu ver, um dos lances que melhor definem aquilo que, para mim, significa o termo "classe", quando aplicado ao jogo. Antes de falar daquilo que quero, vou perder algum tempo com a consequência que o lance teve, ou seja, com a possibilidade de cruzamento em zona muito mais privilegiada e com o lance de perigo criado pela equipa. Como o Jorge D. escreve neste texto, um cruzamento é como outro passe qualquer. Apesar de ouvirmos recorrentemente que uma equipa deve chegar à linha para cruzar, não creio que cruzar deva ser uma tarefa, nem individual nem colectiva, a ter em conta numa equipa de futebol. Depende da circunstância, das probabilidades de êxito, do posicionamento dos colegas em função do posicionamento defensivo do adversário. Nunca percebi a ideia de chegar à linha e cruzar lá para dentro, mesmo quando o jogador que cruza - o que é raro - olha para a área antes de cruzar. Entre outras coisas, o lance que trago mostra como um jogador com uma inteligência muito acima da média entende aquilo de que se está a falar. Por duas vezes podia ter cruzado, uma com o pé esquerdo, outra com o pé direito. Tinha colegas na área, arranjou espaço para o fazer, e era o que quase toda a gente achava que deveria ter feito. Ninguém o criticaria, como ninguém critica quem quer que seja que cruze uma bola para a área, por menos sentido que faça cruzar nessa ocasião. Quanto a mim, desde que pegou na bola que percebi que não era assim que iria terminar o lance. E percebi-o por uma única razão, porque sabia que o portador da bola se chamava Pereirinha.



Não sei se é possível definir melhor aquilo que entendo por "classe" como aquele atributo que é comum a um jogador de futebol e a um toureiro. Nos dias que correm, privilegia-se a intensidade, o fazer as coisas com a concentração máxima, o empenho, o esforço. Um jogador com classe é normalmente hostil a fazer as coisas com os dentes cerrados. Não é que não possa fazê-lo também, mas é algo que lhe macula a imagem. Fazer as coisas com calma, como se o gesto técnico mais complicado do mundo fosse a coisa mais fácil para aquela criatura, é o que define essa pessoa. Dá sempre a impressão de que se manda no jogo, de que os adversários são bonecos que se tira da frente sem grande esforço. Um jogador com classe faz as coisas difíceis parecerem fáceis, faz as coisas com graciosidade, dando a impressão de que, se as faz assim, com aquele desprezo todo, talvez pudesse fazer muito mais, se de facto se empenhasse. A meu ver, um dos principais problemas do futebol actual é não se priviligiar a classe acima de qualquer outro atributo. Imagine-se uma equipa em que os jogadores fazem tudo com classe e tem-se o Barcelona. Só para demonstrar o quão importante pode ser a valorização de tal atributo, olhe-se, por exemplo, para o que era Abidal antes de perceber que, ostentando classe, era muito mais jogador. Antes era um jogador cinzento, eficaz a defender, mas banalíssimo com bola. Agora parece um médio criativo a jogar a defesa, a parar a bola dentro da área defensiva, com vários adversários à ilharga, a dar toques em zonas perigosas, a sair a jogar onde mais ninguém se arriscaria a sair a jogar. Agora que descobriu o que é ter classe, parece outro jogador. Isso conseguiu-o porque o ambiente que o rodeia lhe mostrou que não há outro atributo mais importante que esse.

Muito sinceramente, o mais difícil, em qualquer arte, é fazer as coisas mais difíceis dando a impressão de que são fáceis. Em futebol não é diferente. É por isso que um jogador que consegue ter pormenores de classe não pode ser um jogador banal; é por isso que alguém que faz aquilo que Pereirinha fez neste lance tem de ser valorizado acima de qualquer outro jogador. Não está em causa o excelente trabalho a livrar-se dos dois primeiros jogadores, mas essencialmente a forma como os toureou posteriormente, como ameaçou cruzar e pôs a bola entre os dois, solicitando o colega nas costas deles. E não o fez de uma forma simples; fê-lo de tal maneira bem feito que, apesar de não ter dado velocidade à bola, os dois adversários ficaram sem capacidade de reacção. A isto chama-se classe. Tomou a melhor decisão, permitiu a um colega ficar numa posição bem mais privilegiada para cruzar do que a que tinha, e ainda humilhou dois adversários. Nas bancadas, o público gostou da faena. Mas, apesar de ter entusiasmado as bancadas como mais ninguém naquela noite, duvido que alguém se lembre de dizer que Pereirinha merecia mais a titularidade do que dois Joões Pereira. O que Pereirinha fez não está ao alcance de muitos. Mas há palermas que o acham banal, palermas para os quais nem sequer devia entrar nas contas de Domingos. Pois eu digo que, para além de Postiga e Matías Fernandez, ninguém tem mais classe que ele naquele plantel. O futebol tinha tanto a ganhar se as pessoas se deixassem de preocupar com atributos cristãos como a transpiração e a dedicação, e passassem a perceber o que distingue um grande jogador de futebol de um atleta medíocre que se esforça.

P.S.: Ao terminar o texto e ao rever o lance, percebi que um dos dois jogadores do Valência toureados era Daniel Parejo, um dos jogadores actualmente com mais classe no futebol espanhol. Um toureiro a tourear outro - não podia ser mais perfeito.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lições de Mestre (7)

Para muita gente, o lance capital do jogo de ontem da Luz foi o segundo golo do Benfica, da autoria de Gaitán. Com efeito, o remate é extraordinário, a bola entra na gaveta, e parece ter propiciado maior espectacularidade do que qualquer outro lance do jogo. Não estou de acordo, porém, que esse tenha sido o lance mais interessante da partida. A meu ver, há no primeiro golo um momento francamente superior a esse, um momento que passou praticamente despercebido, o que muito me espanta. O remate de Nolito, de facto, não é tão vistoso como o de Gaitán, mas não é pela finalização do lance que creio que ele mereça verdadeiro destaque. Já o passe de Aimar é das coisas mais sublimes que já se fizeram nos relvados portugueses. Numa altura em que parece que cada vez mais se gosta de arrancadas de pessoas incríveis, de lances individuais extraordinários, de grandes aberturas, de gente que corre feita doida, de malabarismos e excentricidades de putos de rua, as pessoas deviam pôr os olhos neste lance aparentemente trivial. Quando se diz que há poucos que conseguem resolver os jogos sozinhos, esquecem-se de quem consegue fazer coisas destas. Sem exagero algum, aquele passe equivale a uma arrancada em que se tiram quatro ou cinco jogadores da frente e se deixa um colega isolado frente ao guarda-redes. Aquele passe é puro génio. Em tudo, na execução, que é dificílima, mas sobretudo na concepção, transformando um lance totalmente inócuo numa ocasião clara de golo. Não é para todos.



O Benfica não jogou bem e só justificou a vitória após o primeiro golo. Até aí, além de dar muitíssimo espaço e de ter os sectores excessivamente separados, em momento ofensivo, e em momento defensivo, mostrou poucas ideias colectivas. Talvez isso se deva à fase da época em que se encontra, e que por isso seja injusta a acusação. Talvez. Mas pouco importa. O Benfica não fez um bom jogo, mas Aimar apareceu no momento certo. Não é também exagero dizer que resolveu o desafio, e provavelmente a eliminatória. E ninguém parece ter dado por isso. Tal como ninguém parece ter dado por ele na primeira parte, repetindo as alarvidades que António Tadeia ia proferindo no comentário ao jogo, dizendo que estava desinspirado e desaparecido da partida, só porque não o via fazer coisas perto da área adversária. Aimar fez uma boa primeira parte, ao contrário do que essas parvoíces todas fizeram crer, e fez também o que mais ninguém em Portugal tem competência para fazer: resolveu um jogo sem que percebessem que o fez. Sem que nada o fizesse prever, sobretudo porque Nolito fora desarmado e a jogada parecia condenada a voltar ao início, Aimar sacou um coelho da cartola e isolou o espanhol. Com um passe inesperado, com a parte de fora do pé e sem o equilíbrio mais adequado para o fazer, num gesto técnico ao alcance apenas dos predestinados, concebeu a melhor ocasião de golo dos encarnados até à altura. Mas, mais do que essa execução soberba, fenomenal foi a percepção que teve do lance. Nolito iniciou a desmarcação, sim, mas era de todo improvável que se criasse um espaço tão favorável no seio da defesa turca. O problema é que os turcos não esperavam que alguém, na posição em que Aimar estava e virado como estava para a linha lateral, fosse capaz de colocar a bola com tanta facilidade, e de primeira, no coração da área. Relaxaram, imaginando o cenário mais provável de Aimar rodar para trás, reiniciando a construção ofensiva, e não previram a possibilidade oposta, a de que, com um só passe, um jogador transformasse um lance perdido numa ocasião soberana.

Repito, este lance devia ser colocado na mesma prateleira de jogadas individuais em que se tiram quatro ou cinco jogadores da frente. Isto porque, na verdade, Aimar ultrapassou sozinho quatro jogadores, aqueles que ficaram batidos pelo passe maravilhoso do argentino. Para muitos, ser criativo é ter um leque de fintas vasto, ser capaz de se desembaraçar individualmente de vários adversários, fazer macacadas com os pés, etc.. Agora pergunto: há alguma coisa que demonstre melhor o que é verdadeiramente a criatividade do que inventar uma jogada com um só gesto técnico, como foi o caso? Criatividade é isto, é ser capaz de imaginar uma coisa que mais ninguém imaginou. Termino com uma afirmação controversa, sobretudo para os que gostam de músculos e remates de meio-campo: Aimar é o melhor jogador a jogar em Portugal. E não estou certo de me lembrar de outro que, no passado, tenha sido tão bom quanto ele.

P.S.: No final da partida, Jorge Jesus justificou a timidez em apostar em Nolito, neste início de temporada, dizendo que o espanhol opta excessivamente pelos lances individuais, e que precisa de perceber melhor o jogar da equipa. Francamente, não me parece que Jesus esteja a avaliar bem as competências de Nolito. Sim, tem facilidade de drible e até procura bastante o um para um. Mas não o faz mais do que Gaitán, por exemplo, e sobretudo não o faz em ocasiões em que não deve necessariamente fazê-lo, como o argentino. Mas nem é por aí. Ninguém, à excepção de Aimar e Saviola, que são de outra galáxia, a esse respeito, é tão forte sem bola, em momento ofensivo, como Nolito. A forma como percebe o momento certo em que deve procurar a desmarcação e a forma como tem a preocupação constante de fornecer uma linha de passe ao portador da bola, coisas que certamente o modelo catalão em que jogava potenciou, dão-lhe competências colectivas que poucos jogadores no plantel possuem. Ao dizer o que disse, Jesus parece estar unicamente preocupado com acções com bola. Se é verdade que, nas suas acções com bola, Nolito pode ainda melhorar as suas competências colectivas, embora não me pareça que, para já, elas sejam excessivamente erráticas, aquilo que faz sem bola justifica amplamente a sua titularidade. O que me leva para outra questão, com que termino: por que ordem de ideias é que se começa a gerar o consenso de que Alex Witsel será titular desta equipa? Acredito que venha a ser muito útil, sim, mas titular? No lugar de quem? Aimar? Gaitán? Nolito? Isto sem contar com Carlos Martins, Bruno César e Enzo Pérez. A época é longa e o belga terá certamente muitos minutos de utilização, mas não me parece, pelo menos para já, apesar de lhe reconhecer qualidades, que seja imprescindível no Benfica mais forte.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Certezas (23)

A recente e, por que não, surpreendente transferência deste jogador para Inglaterra veio apressar a necessidade de escrever este texto. Dele há a dizer, em primeiro lugar, que foi o jogador que mais me impressionou no europeu sub-20 do ano passado. Senhorial, com um sentido posicional perfeito e uma simplicidade de processos ao nível de poucos, destacou-se mais pela sobriedade e pelas capacidades de liderança do que pelos atributos atléticos que também possui. Não sendo extraordinariamente alto, é no entanto muito forte fisicamente. Isso não o impede, como é hábito acontecer, de ser tecnicamente evoluído e de privilegiar o intelecto. Jogando na posição de médio defensivo, sente-se confortável com o papel posicional que desempenha, sendo especialmente forte nas coberturas ofensivas e defensivas, aparecendo invariavelmente perto dos médios mais avançados em todas as situações do jogo. Com bola, é também muito bom. Não exagera no passe à distância, nem parece ter necessidade de fazê-lo para se impor, e percebe bem as reais necessidades da equipa, a cada momento. Apesar de não usar o passe longo com frequência, tem uma facilidade de passe invejável e muito critério quando tem de entregar a bola. Percebe que a sua posição não implica apenas recuperar e entregar, e toma invariavelmente boas decisões, não deixando de procurar soluções verticais, com passes entre linhas, quando assim se exige. Antes de se confirmar que o seu futuro passaria afinal por Inglaterra, foi conjecturada a sua vinda para Portugal, para um dos três grandes. Se na altura pareceu claro que não era do interesse do seu clube um empréstimo a uma equipa portuguesa, o que fazia antever uma aposta, pelo menos a médio prazo, neste jogador, não deixa de ser para mim uma surpresa o desfecho do caso. Aliás, imaginei mesmo que, no início da época que agora acabou, pudesse vir a integrar os trabalhos da principal equipa com alguma frequência, e perspectivei que se tornasse rapidamente o substituto de Sergio Busquets, com quem o compararia, se tivesse de compará-lo com alguém. A chegada de Mascherano acabou, contudo, por lhe dificultar a ascensão, e sai agora de Barcelona, rumo a Londres, por uma quantia quase irrisória, tendo em conta o seu enormíssimo valor. Demorei este texto por querer vê-lo noutro contexto que não a selecção de sub-20 e o Barcelona B, mas a perspicácia de André Villas-Boas impede agora que continue a fazê-lo. É hora, pois, de lembrar que na Catalunha mora (ou morava) mais um incrível médio defensivo, um jogador que, apesar de possuir uma fisionomia bem diferente de Busquets ou Guardiola, muito mais condizente com um médio de choque, acaba porém por cultivar um perfil idêntico àqueles de quem herdou o talento. Pode ser que Camp Nou não venha afinal a ser o palco onde futuramente evidenciará as suas qualidades, mas isso não impedirá que Oriol Romeu venha a ter a grandeza que se lhe adivinha...

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Ábacos, Alambiques, Alquimistas e Astrologia

O Positivismo da Matemática

Há quem considere que o futebol, como outras coisas, ganha em ser explicado através de aplicações matemáticas. Pessoalmente, acho a matemática engraçada, mas irrita-me a tendência que os matemáticos têm para se intrometer em domínios que não lhes dizem propriamente respeito. A era científica em que vivemos autoriza-o, é certo, e está instituído, para todos os efeitos, a ideia de que a matemática tem uma abrangência universal inequívoca. Discordo disto. A ideia que subjaz a todo o pensamento moderno é a de que a matemática tem propriedades descritivas universais, que tudo o que existe tem um fundamento matemático e que, possuindo as competências matemáticas relevantes, tudo o que existe pode ser convertido em matemática. Sem certezas, diria que essa ideia vem já das ideias positivistas do século XIX, assentando na premissa fundamental de uma concepção materialista do mundo. Bastaria, porém, um olhar crítico para algumas das teorias científicas mais consensuais para ver o quanto fica entregue à aleatoriedade. O mundo não é exacto e não pode ser exclusivamente descrito por uma coisa exacta; o paradigma da geometria euclidiana, por exemplo, nunca teria permitido o advento da física moderna. Sem mudanças de paradigma, sem alterações decisivas no modo como descrevemos o universo, não haveria progresso. A matemática, enquanto ferramente científica para aceder ao mundo, tem o problema de lhe permitir o acesso de um modo todavia dogmático. Sou da opinião que a matemática tem, obviamente, uma importância extraordinária em todos os domínios científicos, mas que a presunção da sua universalidade é um equívoco histórico de todo o tamanho. Por exemplo, de que modo pode a matemática explicar, traduzir, ou, de qualquer maneira relevante, ajudar a perceber uma obra de arte? Haveria maneira melhor de Rubens expressar o seu modo de ver o mundo do que pintando o que pintou? Pode converter-se um poema em equações matemáticas que o expliquem satisfatoriamente?

Esta ideia de que a matemática é a linguagem universal do universo é uma ficção que depende não só de uma concepção ultra-materialista daquilo que paira à nossa volta como do equívoco de pensar que o que paira à nossa volta é absolutamente independente da criatura que somos. Se tivesse que dizer em que é que o homem se distingue das demais criaturas, diria que seria pela possibilidade de linguagem. Por linguagem entendo aqui algo muito vasto, um conjunto de mecanismos não apenas linguísticos, mas de abstracção e conceptualização. A matemática é uma consequência dessa possibilidade e não algo que exista antes dela. Vemos matemática no universo não porque ela exista no universo, mas porque aprendemos a ver o universo matematicamente. A presunção de que todos os fenómenos ganham em ser explicados matematicamente é tola precisamente porque ignora esta ordem de ideias. A matemática, como a capacidade de verbalizar ideias, como as várias linguagens artísticas, como tantos outros meios de descrever o mundo, não tem prevalência sobre nada nem possui universalidade nenhuma. Aliás, nenhum progresso matemático é exclusivamente matemático; depende sempre dos progressos daquilo em que se insere e das coisas com que partilha o espaço, depende de progressos conceptuais, de progressos linguísticos, etc.. A matemática serve, isso sim, como todas as outras coisas, para nos expressarmos sobre o mundo. E sendo verdade que a matemática, em certos domínios, é a melhor ferramenta que temos para explicar coisas, noutros domínios não tem grande autoridade. Certos fenómenos ganham em ser explicados matematicamente; outros não. E outros até perdem. Feita esta introdução de natureza controversa, queria passar para o caso do futebol, que a meu ver é bem mais parecido com um poema do que com um fenómeno astronómico.

Ábacos

Certos iluminados creêm, como o disse logo no início, que a matemática pode explicar o futebol de um modo bastante profundo e completo. A única explicação que possuo para justificar tamanha imbecilidade é a crença errada na pretensa universalidade da matemática, coisa que procurei destruir acima. A alternativa seria acreditarem, ao contrário do que faço, que o futebol é mais parecido com um fenómeno físico do que com um fenómeno humano, e em relação a isso não sei bem como reagir. Sempre que se justicam factos de um jogo de futebol com estatísticas ou explicações matemáticas de qualquer ordem, fico com a impressão de que as pessoas que o fazem pensam que o futebol é praticado por máquinas, e que um conjunto de fórmulas serve para descrever o que se passa em campo. Onde eu vejo seres humanos, decisões inesperadas, juízos errados, precipitações, acaso, essas pessoas vêem números, vectores, conjuntos de coordenadas, e equações. Tal como para explicar um poema preciso de tentar interpretar intenções, preocupações, crenças acerca do mundo, escolha de palavras, etc., para explicar um fenómeno futebolístico preciso de tentar interpretar coisas humanas do mesmo tipo, intenções, decisões, erros de avaliação, preocupações, etc.. O que os matemáticos fazem, perante um jogo de futebol, é negligenciar-lhe a dimensão humana e fazer cálculos com o que é materialmente palpável. Tal como só poderiam dizer de um poema (ou de uma peça musical, já agora, uma vez que a música é muitas vezes estupidamente pensada como a mais matemática das artes) trivialidades quantificáveis, como medições de sílabas ou de compassos, só podem dizer de um jogo de futebol trivialidades que se meçam. A matemática, em futebol, pode, quando muito, ter a relativa utilidade de ajudar a perceber tendências, ou a de quantificar intervenções. Jamais servirá para justificar ou avaliar o que quer que seja. Em fenómenos científicos, causas são explicações. E, como tal, medir causas é justificar os fenómenos por elas causados. Em fenómenos de outro tipo, fenómenos humanos como o futebol, o que causa um facto não é necessariamente o que melhor o explica. Em futebol, causas não são explicações, isto é, acontecimentos físicos não explicam as acções dos jogadores. Munidos de um ábaco extraordinário com que acham que resolvem todos os problemas, estes druidas modernos atiram os dados mensuráveis de um jogo de futebol para dentro de um caldeirão e, mexendo bem, crêem possível extrair deles uma poção mágica qualquer. Não extraem nada, diga-se, senão gráficos irrelevantes, continhas de algibeira e a banalidade de somatórios sem sentido. Aqui vai uma ideia: talvez o ábaco não seja a melhor ferramenta para descobrir o que quer que seja acerca de um jogo de futebol. Talvez, talvez.

Alambiques

O processo de extracção de sentido de um jogo de futebol, como de outro fenómeno humano qualquer, é bastante mais complexo - convenhamos - do que a destilação de qualquer bebida. Os matemáticos, ao proporem a racionalização de um jogo através de um conjunto de contas, acham que não. Para eles, a matemática funciona como um alambique providencial através do qual obtêm o significado correcto de um conjunto de estímulos visuais arbitrários. Medem acontecimentos, contabilizam ocorrências, catalogam números, juntam tudo numa trituradora especial, aplicam-lhe uns perlimpimpins quaisquer em forma de fórmulas matemáticas, e obtêm gráficos mirabolantes, com várias cores, pouco perceptíveis, mas visualmente muito apelativos. O problema é que a distância entre um jogo de futebol e o sentido que ele possa ter não depende da precisão e da minuciosidade com que se alambica esse jogo. Por mais meticuloso que se seja, por maiores que sejam os cuidados, por mais afinados que sejam os critérios de selecção de dados e por maior que seja o conjunto dos dados seleccionados, um jogo jde futebol jamais pode ser explicado recorrendo a um alambique. O problema do uso da matemática para interpretar um fenómeno como o futebol tem a ver com isso, tem a ver com a sua utilização enquanto alambique. Acredita-se que se trata de algo com potencialidades incríveis, capazes de modificar quimicamente uma matéria-prima para extrair dela a sua essência. Não se extrai nada de razoavelmente interessante, como é óbvio. Pior do que usar o ábaco para descobrir significado num jogo de futebol, é usá-lo como se fosse um alambique moderníssimo, capaz de chegar onde a interpretação humana, essa coisa medonha e tão pouco hábil, nunca pode chegar. Aqui fica outra ideia: talvez o alambique não ajude tanto a perceber um jogo quanto o mais simples dos raciocínios.

Alquimistas

O que esta gente das matemáticas providenciais faz não é por isso diferente do que faziam os alquimistas, e consiste mais ou menos na ideia absurda de achar que, através de um qualquer processo químico insondável, é possível transformar metais vulgares em ouro. Todos aqueles que acreditam na universalidade da matemática são, à sua maneira, alquimistas. Acham que existe algo, matemática ou alquimia, que tem a capacidade de transformar coisas sem sentido em coisas com sentido. O que não percebem é que a aquisição de sentido não é um processo de transformação química, mas o resultado elaborado de um conjunto de descrições. Esta gente acha que um conjunto complexo de acontecimentos, como seja um jogo de futebol, é uma espécie de barro que, se devidamente moldado, se transforma necessariamente numa única peça de olaria. Estão enganados, claro. O produto final depende da forma em que é moldado, e um pedaço de barro pode originar variadíssimas coisas. A interpretação de um jogo de futebol depende das descrições que se fizer desse jogo, não de aritmética alguma. Não há ouro nenhum a extrair da vulgaridade dos metais em que consistem os dados empíricos de um jogo. Achar que existe um processo alquímico privilegiado para aferir o verdadeiro sentido de um jogo de futebol, e achar que a matemática é tudo o que o alquimista precisa para tal, é uma idiotice. Aqui fica mais uma ideia: futebol não é alquimia e talvez, mas só talvez, fazer da matemática a alquimia essencial de um analista não seja a forma mais inteligente de raciocinar sobre um jogo de futebol.

Astrologia

O que resulta de tudo isto é que fazer deste método absurdo de interpretação uma ciência não tem qualquer cabimento. A matemática aplicada ao futebol é uma ciência tão exacta como a astrologia. É engraçada, mostra relações, faz continhas, mas é estúpida. A astrologia, enquanto ciência, tem vários problemas. Normalmente, as pessoas não acreditam nos astrólogos porque o trabalho deles lhes parece charlatanice, ou porque acreditar na astrologia implicaria acreditar na não existência do livre-arbítrio, ou porque depende de uma certa áurea mística, etc.. A meu ver, esses são problemas laterais. O maior problema da astrologia é a inadequação daquilo que é ao seu objecto de estudo. No fundo, a única coisa que a astrologia precisaria de fazer para se tornar credível seria justificar que o critério de explicação do comportamento humano pelo posicionamento dos planetas não é arbitrário. O problema da astrologia é essencialmente este, a arbitrariedade em que consiste pretender estudar a psicologia humana através de contas com dados astronómicos. Aliás, a arbitrariedade vai ainda mais longe e aquilo que determina todas as contas é o posicionamento relativo dos planetas no dia em que se nasce. Mas nada há que justifique que esse seja o momento certo para perceber o alinhamento dos planetas relevante para a formação do carácter de uma pessoa. Por que razão é que esse momento é mais relevante que o momento da concepção, por exemplo? Como é que se explica que o alinhamento dos planetas no dia do nascimento tenha preponderância na formação do carácter da pessoa e o alinhamento no primeiro dia de aulas dessa pessoa não tenha? Estas são as perguntas que genuinamente se deviam fazer aos astrólogos. É que toda a ciência que praticam é baseada em decisões arbitrárias deste tipo. Para mim, não é necessariamente apenas a presunção de que comportamentos humanos podem ser explicados por fenómenos astronómicos que é ridícula, mas sim a arbitrariedade em que essa presunção se funda. O mesmo se passa em relação à presunção de que comportamentos humanos podem ser explicados pela matemática. Essa presunção depende da decisão arbitrária de achar que o conjunto de acontecimentos num jogo de futebol tem preponderância para aferir o sentido desse jogo. Os matemáticos que acham que um jogo de futebol se explica matematicamente não são bem apenas matemáticos; são astrólogos. Aqui fica uma ideia final: a astrologia é capaz de não ser a ciência mais indicada para falar de futebol.

sábado, 9 de julho de 2011

Os melhores de 2010/2011

Mais tarde do que o desejado, eis a meu ver a melhor equipa da Liga, sem grandes explicações e sem extremos, em 442 losango, só para complicar:

Guarda-Redes: Helton
Defesa Direito: Sílvio
Defesa Esquerdo: Fábio Coentrão
Defesas Centrais: Luisão e Otamendi
Médio Defensivo: Rafael Miranda
Médios Interiores: Belluschi e Moutinho
Médio Ofensivo: Pablo Aimar
Avançados: Falcao e Postiga

Treinador: André Villas-Boas

Suplentes:

Guarda-Redes: Bracalli
Defesa Direito: Maxi Pereira
Defesa Esquerdo: Álvaro Pereira
Defesas Centrais: Rolando e Rodriguez
Médio-Defensivo: Fernando
Médios Interiores: Guarín e Hugo Viana
Médio-Ofensivo: Matías Fernandez
Avançados: Saviola e Kléber

Treinador: Rui Vitória

Menções Honrosas:

Hulk, Varela, James Rodriguez, Sálvio, Gaitán e Paulo Sérgio, que ficaram de fora essencialmente por duas razões: por ter dado preferência a um esquema de 442 losango; e por ter optado por eleger jogadores que formassem o melhor colectivo (que se tivessem destacado pelas suas capacidades colectivas) e não necessariamente os jogadores que individualmente se destacaram mais.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Certezas (22)

Surgiu ligado ao Porto há dois anos, mas a sua vinda para Portugal acabou por não se confirmar. As semelhanças de estilo com Lucho González eram, na altura, o que mais impressionava. Ao contrário, porém, do argentino que passou pelo Dragão, este jovem tem ainda mais atributos técnicos, e uma capacidade individual extraordinária. Dotado ainda de uma personalidade aparentemente forte, foi com alguma surpresa que não esteve entre os titulares da selecção do seu país, no mundial do ano passado. Felizmente para ele, soube evoluir numa equipa de segundo plano e é agora dos atletas mais cobiçados na Europa. Médio de ataque, com boa chegada à área adversária, mas sobretudo muito evoluído tecnicamente e com criatividade para dar e vender. Trata-se, pois, do médio que tipicamente se aprecia por aqui: um jogador inteligente, com índices técnicos e de criatividade acima da média, que faz do passe e das combinações complexas a sua maior arma, e com muita, muita classe. Nos últimos tempos, foi sendo ligado ao Barcelona com mais insistência, mas duvido que a Catalunha seja o seu destino, sobretudo se se confirmar a transferência de Fabregas, que parece ser a preferência dos blaugrana. Isso não deverá, porém, afectar a evolução deste extraordinário jogador, principalmente se encontrar no seu próximo destino quem lhe permita a liberdade de que o seu futebol parece precisar. Numa altura em que se confunde sistematicamente capacidade no um para um com criatividade, e numa altura em que cada vez mais se perde a cabeça por jogadores que fazem do drible a sua arma prioritária, era bom que se olhasse para este magnifíco jogador e se percebesse que a classe e a imaginação são tudo o que uma grande equipa deveria procurar num jogador. Onde quer que venha a continuar a sua carreira, será, por isso, um prazer - um prazer que pouquíssimos futebolistas me conseguem hoje em dia oferecer - continuar a acompanhar o virtuosismo de Javier Pastore...

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Diferenças Incomensuráveis

Terminada a temporada futebolística com mais um inquestionável triunfo do Barcelona de Guardiola, é tempo de falar de disparates. Propagou-se, ao longo da temporada, com maior frequência no final, a ideia de que o Real Madrid de José Mourinho andou a par dos catalães e que a margem que os distinguiu foi mínima. Sustenta-se esta teoria com o número de pontos que os separaram na Liga, com a soma astronómica de golos de Ronaldo, com os golos marcados pelo Real, com a tensão dos quatros jogos entre as duas equipas, com a vitória na Taça do Rei, e com a polémica inventada por Mourinho para ajudar a criar a dúvida quanta à supremacia do seu adversário. É intenção deste texto defender que as diferenças entre o Barcelona e este Real foram incomensuráveis, que os números não as exprimem convenientemente, e que Barcelona, Guardiola e Messi estão a anos de luz de Real Madrid, Mourinho e Ronaldo.

Diferenças que os Números não Mostram

Comecemos pela asneira da contabilização final dos golos marcados e dos golos sofridos no campeonato, que certos papalvos usaram não só para tentar mostrar que Mourinho trouxe ao Real uma capacidade competitiva semelhante à do Barcelona, como para vender a ideia de que, ao contrário das críticas que se lhe foram fazendo, não é um treinador assim tão defensivo e não mudou de ideias quanto a isso ao longo da sua carreira. Já expus aqui, num texto escrito antes de Mourinho rumar a Madrid, aquilo que penso quanto à sua carreira, e esta época comprovou tudo isso. Muito resumidamente, Mourinho mudou de crenças sensivelmente na passagem da segunda para a terceira época em Londres. A razão para tal, defendi nesse texto, foi a obsessão crescente com a revalidação do título europeu, que lhe fugiu nos primeiros dois anos de Chelsea em eliminatórias com Barcelona e Liverpool. As equipas de Mourinho passaram por isso a ser mais especificamente orientadas para competições a eliminar, mais centradas nos pormenores. E perderam, com isso, capacidades em provas regulares. Isso foi o suficiente para, não perdendo competitividade, não ganhar o título inglês na terceira época. Em Itália, o seu Inter foi o espelho disto, uma equipa muito mais pobre em organização ofensiva que o seu Chelsea e que o seu Porto, mas letal em transição e muito bem organizada atrás. Venceu o campeonato italiano, não sem algumas dificuldades, porque a concorrência interna não era forte. Em Madrid, mais do mesmo, e uma Liga que começou a ficar resolvida muito antes do embate final, na trigésima-segunda jornada, entre os dois rivais. O seu Real, ainda que sem dificuldades em ultrapassar os obstáculos noutras provas, apenas constitui ameaça ao Barcelona na primeira volta do campeonato. E isso diz muito das competências dessa equipa.

Passemos agora aos números. Ao contrário do que alguns idiotas chegaram a escrever, ao ultrapassar a barreira dos cem golos, Mourinho não fez algo que o Barcelona de Guardiola nunca tinha feito. Na primeira época de Guardiola, a sua equipa averbou 105 golos. Em segundo lugar, 102 golos foi exactamente o que Pellegrini obteve o ano passado, com a agravante de que não teve 6 jornadas de descompressão para golear adversários, nem um último jogo com uma equipa despromovida. Aliás, à jornada 32, o ano passado, o Real já tinha 85 golos marcados, mais 12 que este ano, e levava mais 5, na altura, que o Barcelona. Não precisou de andar a golear 6 jornadas seguidas, sem pressão de outros objectivos, para superar a marca dos 100 golos. Por isso também por aqui não é algo de verdadeiramente extraordinário. Aliás, esquece-se esta análise, porventura, que o Real terminou o campeonato a 4 pontos do Barça, quando o ano passado Pellegrini o terminou a 3, e que fez 92 pontos, quando o ano passado o tinha feito 96. Além disso, ficou a 4 porque o Barcelona, virtualmente campeão, desacelerou e perdeu 4 pontos. Ao contrário da época passada, também, em que Pellegrini conseguiu arrastar a decisão do campeonato até à última jornada, o Barcelona este ano sagrou-se campeão ainda com 3 jornadas para disputar. O Real de Mourinho só foi superior ao de Pellegrini em outras competições, em competições a eliminar. No campeonato não o foi. E não se aproximou do Barcelona, como se quer fazer crer. Aliás, muito dessa análise vem dos 5 confrontos ao longo da época entre as 2 equipas, em que se achou que o Real fez tremer mais o Barcelona do que no passado recente. Mas se a indecisão da Champions e a vitória merengue na Taça podem sustentar essa teoria, ao mesmo tempo Pellegrini também não foi esmagado como o Real de Mourinho na primeira volta do campeonato, tendo perdido apenas por 1-0 e 0-2.

Mas analisemos de perto os números do Real. É que não é possível separar o registo final do facto de as últimas 6 jornadas terem sido jogadas sem pressão, com objectivo prioritário de fazer de Ronaldo o melhor marcador da prova. Nessas 6 jornadas, com uma equipa de tracção à frente, o Real marcou 29 golos, sofrendo 10. Ou seja, em 6 jornadas, marcou praticamente um terço dos golos que marcou no campeonato inteiro (no restante campeonato, a média de golos do Real era de 2,28 golos por jogo. Nessas 6 jornadas foi de 4,8 golos por jogo, o que significa que aumentou a sua produção ofensiva em mais de 100%, tendo feito a média geral subir para 2,68 golos por jogo) e sofreu quase um terço dos golos que tinha sofrido no campeonato inteiro. Em 6 jornadas! Ou seja, em 6 jornadas, o Real marcou e sofreu muito mais golos, em média, do que marcara e sofrera até aí. Isso demonstra que essas 6 jornadas não foram encaradas do mesmo modo que as restantes 32. E não o foram pelas 2 razões que apontei acima, por haver uma descompressão natural, devido à impossibilidade de chegar ao título, e por haver o desejo de fazer de Ronaldo o melhor marcador do campeonato. Por isso, devem-se analisar os números tendo isto em atenção. À 32ª jornada, o Real tinha 73 golos marcados, menos 12 que o Real de Pellegrini, o ano passado, à mesma jornada, por exemplo.

O campeonato terminou à jornada 32, com o empate no Bernabéu. Nessa altura, o Barça tinha 86 golos marcados, mais 13 que o Real, que tinha 73. O que aconteceu daí para a frente foi consequência de um final de campeonato em que uns queriam apenas gerir esforços e outros queriam sair de cabeça erguida. O Real, sem nada a perder, sem pressões, fez 29 golos em 6 jogos. O Barcelona não manteve a bitola, concentrado noutras provas e a gerir a confortável vantagem pontual que adquirira, e marcou apenas 9 golos em 6 jogos. Aliás, nessa altura, Messi tinha mais 2 golos do que Ronaldo. As contas finais mostram uma realidade diferente, que ignora esta análise. Nem Ronaldo foi substancialmente mais eficaz que Messi, nem o Real se mostrou uma equipa mais concretizadora que o Barcelona. Simplesmente, o Barcelona tinha um objectivo que estava praticamente alcançado e deixou de se preocupar com objectivos menores, que o Real e Ronaldo perseguiram e que agora os devotos acham que revelam uma aproximação ao adversário. Não revelam nada disso, obviamente.

É este, muitas vezes, o problema da análise estatística: acha-se que analisar é olhar para números e tirar conclusões, mas não é. Para analisar, é preciso perceber o porquê das coisas. Sempre! E uma análise correcta destes números mostra aquilo que acabei de mostrar, que o Real só conseguiu a produção ofensiva e só conseguiu mais golos marcados que o Barcelona por o campeonato ter ficado resolvido tão cedo. Isto é absolutamente inequívoco e qualquer pessoa inteligente e honesta o percebe. Mas quando o argumentei, em discussão com pessoas que defendiam as teses acima criticadas, a resposta que me deram foi que faço inversões de raciocínio e que não percebo nada de números, o que é - diga-se - uma boa resposta, para quem não percebe nada de argumentos. Enfim, os devotos das calculadoras, assim como os tolos, acham que estes números revelam que o Real de Mourinho se aproximou do Barcelona de Guardiola, na esperança de que o monstro blaugrana caia num futuro próximo. Aquilo que os move, no fundo, é a uma determinada fé, uma qualquer irracionalidade que acreditam expressar-se em certos milagres como este, que depressa se percebe que não é milagre nenhum. De resto, acabam por valorizar o sucesso do Barcelona mais pelo medo, pelo mesmo medo do incompreensível que é aquilo que melhor caracteriza os que não percebem a profunda diferença que esta equipa representa. E, como têm medo de um monstro que não compreendem, acham sempre que aquele que está mais perto de vencê-lo é o maior dos heróis humanos, ou seja, o mais competente entre aqueles a quem conseguem perceber as competências. O problema é que, apesar de Mourinho ser o mais competente treinador de futebol do mundo, e o Real a mais competente equipa do mundo, e Ronaldo o melhor jogador do mundo, isso não chega. É que Guardiola, o Barcelona e Messi não são deste mundo. E aquilo que fazem nem sequer é jogar futebol; é outro desporto. A diferença entre eles não é de grau, mas de espécie.

As diferenças entre estas duas equipas não são expressas pela diferença final de 4 pontos; nem sequer pela diferença de 8 pontos após o clássico; nem pela diferença, favorável ao Barcelona, de 5 golos na diferença entre golos marcados e golos sofridos; nem pela indecisão quanto a quem seguia em frente na Liga dos Campeões. Isso são contingências das regras do jogo. Uma vitória, seja categórica ou não, conta apenas 3 pontos; uma eliminatória, sendo disputada até ao fim ou não, vale sempre pela vitória. Nada disso demonstra a real diferença entre estas duas equipas, que é incomensurável. A única coisa numérica que reflecte, ainda que de um modo pouco evidente, a diferença entre as duas equipas, é a média de posse de bola. A teoria convencional sobre a posse de bola diz que ter mais bola não significa ter o domínio de jogo. Concordo inteiramente com isso. O problema é que essa teoria é correcta para casos de posse de bola até aos 60%, que é o que uma equipa que domina um jogo normalmente consegue. 60% de posse de bola não é suficiente para que possa fazer a mínima diferença. Mas uma equipa que consegue ter, em média, uma posse de bola acima dos 70% não pode estar ao abrigo do mesmo tipo de teoria. O tipo de competências tem de ser necessariamente distinto e, para estes, realmente, a quantidade de posse de bola representa o domínio do jogo. Nenhuma outra equipa, na História do Futebol, conseguiu números de posse de bola sequer semelhantes a estes. E é por isso que nenhuma equipa na História foi tão claramente superior aos adversários como este Barcelona. Estes números incríveis, incomensuravelmente diferentes de quaisquer outros números até hoje vistos, são a causa principal da grande diferença que separa esta equipa de qualquer outra. Dizê-lo não é, como pode parecer, sustentar que a única causa desta supremacia é o que o Barcelona faz com a bola. Pelo contrário, é dizer que o que fazem com a bola está intimamente ligada a tudo o resto. Se o pressing não fosse extraordinário, se o colectivo não estivesse bem mecanizado e os jogadores não pensassem da mesma maneira, se a preservação da posse de bola não fosse o principal critério, deste a pequena área defensiva até à área adversária, se não houvesse competências técnicas e intelectuais extraordinárias em cada um destes jogadores, se a capacidade de decisão não fosse alta, esta quantidade de posse de bola não seria possível. A posse de bola é o retrato fisionómico deste Barcelona, e são os números avassaladores dessa posse de bola que mais e melhor definem o fosso que separa esta equipa das restantes equipas que praticam esta modalidade, a mesma apenas por força das circunstâncias.

Ronaldo e Messi

Ronaldo é o melhor jogador do mundo, mas Messi não é deste planeta, e esse vai ser sempre um problema para Ronaldo. O madeirense é uma máquina perfeita e a sua determinação qualquer coisa sem paralelo na História do Futebol. Mas não tem um talento extraordinário, como aqueles que figuram no Olimpo dessa História, e isso é talvez o mais importante. Surpreendeu-me sempre a sua evolução e reconheço que não esperava que vingasse com tanta facilidade em Espanha. Acontece que nunca parou de evoluir e que melhorou muito os seus pontos fracos, como a capacidade de decisão. É hoje um jogador praticamente completo, faltando-lhe apenas aquilo que o poderia fazer melhor que Messi, a genialidade. É um jogador que corresponde bem a tudo o que se espera dele, mas não tem génio. O seu futebol assenta na perfeição humana, não nas qualidades divinas, como o argentino. Compará-los, por isso, é absurdo, sim, mas não por a comparação ser inútil; não se podem comparar porque são de espécies diferentes. Se a qualidade de um jogador se medisse pela soma das coisas que consegue fazer, Ronaldo seria incomparável. Mas a qualidade de um jogador mede-se pelo talento, pelo génio, pela classe, pela capacidade para fazer coisas que ninguém espera. Messi é muito mais imprevisível e resolve problemas muito mais difíceis. Ronaldo supera a força com a força, a altura com a altura, a velocidade com velocidade. Messi supera esses obstáculos com o seu talento. A essas coisas responde com virtuosismo. É pela natureza das dificuldades que um determinado desafio impõe a quem o enfrenta que se descobre quais os melhores entre os que o enfrentam. É assim em qualquer arte. Se Ronaldo fosse pintor, pintaria muito, responderia a todas as encomendas que lhe fizessem, pintaria mais rápido que qualquer outro pintor, pintaria de forma mais perfeita aquilo que lhe encomendavam, e seria venerado pela sua competência. Mas Messi pintaria com mais virtuosismo, pintaria de um modo inesperado, vencendo todos os desafios técnicos não com competência mas com génio. Ronaldo é o protótipo do artífice; Messi o do artista genial. Aliás, nem Maradona, nem Zidane, porventura os mais geniais de todos os futebolistas da História, podem já ser comparados ao pequeno craque argentino. As coisas que faz em campo e a regularidade com que as faz são inequívocas. É verdade que ainda lhe falta atingir o sucesso ao nível de selecções que os outros atingiram, mas isso é apenas um pormenor. A genialidade de Messi já há muito ultrapassou a dos mais geniais de sempre. E quem quer que veja agora um jogo de Messi, deve vê-lo com a consciência de que, no futuro, é sobre ele que falarão os livros.

A Melhor Estratégia para Derrotar o Barcelona

Uma das coisas que tem sido mais debatida sobre este Barcelona tem a ver com a forma mais eficaz para contrariar o seu futebol. Aliás, a simples discussão acerca deste ponto demonstra o quão diferente é esta equipa. Nunca uma equipa fora alvo de um debate tão amplo acerca das possibilidades estratégicas para a derrotar. Ora, uns defendem que, não podendo contrariar o seu futebol na sua essência, que consistiria em retirar-lhe a bola, a melhor estratégia é, entregando-lhe a iniciativa, defender, mais alto ou mais baixo, provocar o erro, e jogar insistentemente em transição, no máximo com três toques. Foi isto que o Real Madrid fez, como já várias outras equipas o tinham feito, com mais ou menos sucesso. Onde me parece que o Real Madrid foi mais exigente foi precisamente no modo como nunca quis a bola, quando a recuperava. Sempre que, ao terceiro toque, a bola ainda não tinha passado o meio-campo, gerava-se imediatamente entre os jogadores um certo tipo de pânico característico de quem está preocupado com o que fazer. Dentro deste tipo de estratégia, é também possível discutir se é mais eficaz pressionar alto ou pressionar baixo, condicionar a saída de bola por um dos centrais ou pelo outro, ect.. Mas, na generalidade, o tipo de estratégia é idêntica: contrariar o futebol do Barcelona opondo-lhe um futebol antagónico, contrariar uma equipa que ataca muito bem defendendo ainda melhor. Há outra solução, até agora raramente tentada, que passa pela estratégia oposta, ou seja, contrariando uma equipa que ataca muito bem não a deixando ter o instrumento que faz dela uma equipa atacante, ou seja, a bola. Não deixar a outra equipa ter a bola só é possível de uma maneira, tendo a bola. Pressionar muito alto, ser muito agressivo, não permitir a circulação de bola do adversário, são tudo formas de defender sem bola. Mas, se se for competente a preservar a bola, defende-se de uma equipa que é forte quando tem a bola não lhe permitindo tê-la.

Poucas equipas, até agora, o tentaram, por duas razões diferentes: a primeira, por medo de que, ao tentar ter a bola, se cometam erros de que depois os catalães se aproveitem. Sobre isto, tenho várias coisas a dizer. Há maneiras e maneiras de ter a bola. Se, de facto, para ter a bola a equipa se desorganiza, mais vale não tê-la, porque o Barça irá aproveitar necessariamente essa desorganização. Mas há maneiras de ter a bola sem provocar desorganização própria. As melhores equipas do mundo a trocar a bola não ficam expostas quando a perdem porque a própria posse e circulação de bola correctas implica uma precaução com o momento da perda. O Barcelona, por exemplo, apesar de envolver sempre muita gente no processo ofensivo, tem sempre uma estrutura de apoios e coberturas que faz com que o momento da perda de bola não seja necessariamente danoso. Por isso, para uma equipa que sabe trocar a bola, que o faz bem, ter medo de perdê-la não deveria ser uma razão para abdicar dessa estratégia. Aliás, o Barcelona não é sequer uma equipa especialmente forte em transição. A segunda razão tem a ver com a competência para o fazer. É que não basta vontade. Não defendo que o Real Madrid deveria ter tido outra postura naqueles quatro jogos, pois passou a época inteira a trabalhar de uma maneira que os impedia de jogar de outro modo. A minha crítica a Mourinho não é pela opção estratégica desse jogo, mas pela forma como planeou a temporada, como pretendeu que o seu Real Madrid jogasse. E isso foi, desde o início, muito claro. O Real foi uma equipa de explosão, partida em duas metades, com quatro jogadores na frente com muita liberdade, muito habilidosos, e e uma estrutura defensiva sempre com seis jogadores atrás da linha da bola. Nunca se pretendeu impor pela posse e circulação da bola, e teve sempre muitas dificuldades em encontrar espaços nas defesas contrárias quando tinha de recorrer a um jogo mais rendilhado. Não fazia, por isso, sentido, que encarasse os duelos com o Barcelona procurando ter a bola, pois não se tinha preparado, ao longo da época, para o fazer.

Do meu ponto de vista, a equipa que mais problemas causou ao Barcelona esta época foi o Arsenal. Foi a única equipa que conseguiu, em alguma altura, manter incerto o destino de uma eliminatória. O Real condicionou o ataque catalão, sim, mas nunca, por um momento, esteve mais próximo de seguir em frente do que o Barcelona. O Arsenal, no jogo de Londres, fez exactamente o que se deve fazer contra este Barcelona: roubou-lhe a bola. É verdade que houve algum demérito dos catalães, nesse jogo, que descontraíram após o golo, mas também é verdade que tiveram sempre dificuldades em impor-se como se costumam impor. E isso porque o Arsenal geriu a posse de bola, retirando-a sistematicamente de zonas de pressão com qualidade e não caindo no erro de querer atacar rapidamente, com poucos toques, arriscando perder a bola para um adversário que vive da sua posse. O segredo para ganhar a este Barcelona reside num modo de jogar parecido com o que o Arsenal apresentou em Londres e o desfecho da eliminatória poderia ter sido muito diferente se, em Camp Nou, Wenger tivesse mantido o modelo da primeira mão. Como não o fez, como caiu no erro de tentar defender a vantagem, ainda que de um modo estranho, cedeu os 90 minutos ao Barcelona e acabou derrotado. O ponto do argumento é simples: o melhor método para vencer o Barcelona passa por trabalhar a longo prazo para adquirir uma competência parecida com a dos catalães com bola. Só através dessa competência é possível depois sujeitar os pupilos de Guardiola a um jogo com menos bola do que aquele a que estão habituados. E aí sim, modificando-lhes o habitat, pode um adversário do Barcelona reduzir-lhe as possibilidades de êxito. Não é certo que vença, mas é seguro que torna estranho o jogo ao adversário.