quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Miguel Rosa e os Glutões

Comissões, comissões e mais comissões - eis o que interessa aos glutões. Como é possível que, no estado actual da economia mundial, e sobretudo num defeso em que os principais clubes europeus têm optado por políticas de contratação bem mais conservadoras, os três maiores clubes portugueses se preparem para adquirir, em conjunto, perto de meia centena de jogadores? Não duvidando da qualidade de algumas dessas contratações, o excesso denuncia outras intenções que não o simples reforço dos respectivos plantéis. À cabeça de tudo isto está o Benfica. É claro que há ali jogadores talentosos, e que o plantel sairá reforçado por alguns daqueles atletas. Mas à custa de quê? Sem exagero, dois terços das contratações servirão mais para encher os bolsos de alguém do que para reforçar o que quer que seja. Que equipa é que contrata 3 guarda-redes na mesma época? Que equipa europeia, mesmo em tempo de pré-época, conta em simultâneo com seis laterais esquerdos? Claro que a lista de dispensas demora a ser feita, e que no final o plantel será emagrecido. Mas esta política de contratar por contratar não parece servir ninguém (nem Jesus, nem o Benfica) a não ser agentes externos ao jogo. Não quero, porém, entrar em especulações escusadas, nem me apetece muito falar de coisas que não digam propriamente respeito ao jogo. Dito isto, importa mencionar o caso de Miguel Rosa.

Para muita gente, é um jovem desconhecido. Não para mim. Não foi aqui antes mencionado por desconfiar que o seu trajecto a nível sénior dependeria de muita coisa que o jogador não podia controlar. Não me enganei. Ainda assim, e sobretudo porque os primeiros anos como profissional o justificam, creio que merecia o salto que esteve perto de se realizar. Miguel Rosa é um médio ofensivo, ou médio interior, que pode alinhar na direita, por exemplo, com muitíssima qualidade. Não é um criativo por excelência, um jogador de último passe, de drible fácil, mas é incrivelmente correcto nas suas acções, bom tecnicamente e inteligente. Não é um médio de trabalho, mas muitíssimo compridor das suas funções, abnegado, humilde. Talvez o pudesse comparar a Pereirinha, não tão virtuoso e veloz, mas talvez mais cerebral. Acho-o muito parecido também com Rúben Amorim, embora seja ligeiramente mais ofensivo. Aliás, jogou essencialmente nas costas do avançado, no Belenenses e no Carregado. Para mim, foi o melhor jogador que saiu das camadas jovens encarnadas nos últimos 5/6 anos, a par talvez de Nélson Oliveira. É melhor do que André Carvalhas (um novo Hélio Roque que era, para muitos, o melhor jogador encarnado do seu ano e que, entretanto, como seria de esperar, desapareceu do mapa); melhor do que David Simão, que apesar de ser um ano mais novo, teve a sua oportunidade na primeira liga bem mais cedo; bem melhor do que Romeu Ribeiro, a quem foram inexplicavelmente dadas muito mais oportunidades; e melhor do que Miguel Vítor ou Roderick Miranda, que são jogadores excessivamente valorizados. Como disse, não destaquei Miguel Rosa anteriormente porque tinha muitas dúvidas quanto ao seu aproveitamento futuro. É que, já nos escalões mais novos, ficava a impressão de que não o apreciavam condignamente. A maturidade que tinha a jogar, a inteligência, a excelência do critério, nada disso chegava. Preferia-se a extravagância de outros. E a falta de extravagância, estando nós, ainda por cima, a falar do Benfica, antecipava que não fosse aproveitado.

Certo é que as três épocas de segunda liga não fizeram com que Miguel Rosa se resignasse. No Estoril e no Carregado foi uma mais-valia. No Belenenses, confirmou-se como uma certeza. Tanto é que foi eleito o melhor jogador do segundo escalão português esta temporada. Ainda antes do troféu, anunciava o jogador, confessando que Rui Costa lhe garantira o regresso à Luz, que iria integrar o plantel encarnado no ano seguinte. Surpreendeu-me a notícia, sobretudo por duas razões: pela precocidade do seu anúncio, pouco tempo depois de a época transacta terminar, e por ter conhecimento de certos atritos entre o Benfica e a família do jogador. O que é certo é que Miguel Rosa iniciou mesmo os trabalhos de pré-temporada, sendo antes utilizado numa campanha, ao lado de Nélson Oliveira, Rúben Pinto e David Simão, para promover a ideia absolutamente falsa de que, esta época, o Benfica iria apostar na prata da casa. Enfim, em pouco tempo se percebeu que, afinal, o jogador não iria fazer parte dos planos do clube, e que nem na pré-época iria poder mostrar serviço. Começaram a surgir notícias de empréstimos a clubes da primeira liga e acabou novamente recambiado para o Belenenses. Para ser honesto, o desaproveitamento de jovens de qualidade não é coisa que me espante. Mas há qualquer coisa esquisita neste caso. Repare-se só no seguinte exemplo: André Almeida foi recrutado ao Belenenses e posteriormente emprestado ao Leiria; Miguel Rosa, que não só jogava no mesmo Belenenses, como foi o melhor jogador do Belenenses e o melhor jogador de toda a segunda liga, vai voltar a ser emprestado a uma equipa da segunda liga. Que sentido é que isto faz? Não haveria mercado para o jogador na primeira liga? E, mais do que isso, por que é que não parece haver interesse do Benfica em valorizar o jogador, emprestando-o a um clube mais competitivo?

É aqui que entram os glutões. Sim, o mesmo tipo de gente que tem tudo a ganhar com a contratação de camionetas de jogadores parece ter o poder para marginalizar o jogador e assim satisfazer a sua vontade como bem lhe apeteça. Convenhamos, Miguel Rosa volta este ano ao Belenenses por uma única razão: porque alguém não quer que ele venha a ter o sucesso que promete ter. A notícia que veio a público dava conta do interesse de Miguel Rosa permanecer perto de casa, e de ter recusado sistematicamente todas as propostas de clubes da primeira liga que apareceram (mais tarde, apareceu uma notícia contraditória, em que Miguel Rosa dizia que fora o Benfica que preferira emprestá-lo ao Belenenses). Francamente, isso não cheira nada bem, ainda por cima quando uma das propostas era do Vitória de Setúbal, que não é muito mais longe do que o Seixal. O pai do jogador afirma que foi o Benfica que recusou as propostas do Nacional, do Vitória de Setúbal, do Olhanense e do Feirense, forçando-o ao empréstimo ao Belenenses (acrescentou, aliás, que o Benfica lhe sugeriu, como única alternativa ao Belenenses, ficar uma época inteira a treinar sozinho). Não é por ser a versão do pai do jogador, mas por ser logicamente a mais inteligível, que é, a meu ver, a versão que faz mais sentido. As pessoas acham que é absurdo, por ser contra os interesses do clube o Benfica preferir emprestá-lo a um clube da segunda liga, mas a verdade é que é contra os interesses do clube ter praticamente 50 jogadores a fazer a pré-época e foi isso que se passou. O que se acontece é que, mesmo que estas coisas sejam contra os interesses do clube, favorecem os interesses de alguém. E é isso que está aqui em causa. Nenhuma das duas versões do caso, 1) ter sido o jogador a preferir a segunda liga, por poder ficar perto de Lisboa, e 2) ter sido o Benfica a preferir o Belenenses, parecem lógicas, porque não o são. O que falta nesta equação é a vontade de alguém que não serve nem o clube nem o jogador.

Em campo, além de virtuosíssimo, Miguel Rosa é um jogador trabalhador, abnegado, lutador. O seu benfiquismo é inatacável - basta ver como agradeceu ao Benfica, de forma até pouco razoável, o prémio de melhor jogador da segunda liga. A acusação de falta de profissionalismo, num jogador com este tipo de características, não faz sentido nenhum. Argumentam os que consideram que o responsável pela situação foi o Miguel Rosa que os clubes a que esteve ligado são todos da zona de Lisboa: Estoril, Carregado e Belenenses. E argumentam ainda que o Benfica teria todo o interesse em valorizá-lo na primeira liga. Sobre o primeiro argumento, sinceramente, não acho que haja nada de extraordinário. Ter Miguel Rosa preferido o Carregado a outra equipa da segunda liga não é nada de esquisito. E o certo é que ficar perto de casa, sobretudo quando as alternativas não são de nível superior, não me parece um mau critério. Esteve em três clubes da zona de Lisboa porque havia clubes da zona de Lisboa interessados nele. Ponto final. Nada nesse argumento joga a favor da teoria de que Miguel Rosa não tem ambição. Quanto ao segundo argumento, de facto faz sentido. Mas faz sentido, como disse acima, se acharmos que são apenas os interesses do Benfica que estão em jogo. E claramente não são. Já há alguns anos que tenho conhecimento dos problemas entre alguns dirigentes do Benfica e a família de Miguel Rosa (isto explica, aliás, que não tenha tido, nos últimos anos, o mesmo tipo de projecção pública que outros miúdos). O que me parece que terá acontecido foi que Rui Costa, de boa fé e reconhecendo-lhe o talento que tem, o contactou de maneira a que ele integrasse o plantel na época seguinte. A forma como Miguel Rosa anunciou a coisa indicava até que não ia fazer apenas a pré-época, mas concedo, ainda assim, que fosse apenas para isso que foi contactado. O problema é que nem a pré-época lhe permitiram. Que explicação há para isto? A meu ver, a entrada em cena de alguém que não quer o jogador no Benfica por razões pessoais, e por cima de quem a decisão de Rui Costa terá passado. Não sei quem será essa pessoa (ou pessoas), mas, por tudo o que sei, acerca do jogador, acerca do seu valor, acerca do caso em si, acerca dos problemas passados com a família, acerca da índole de grande parte dos dirigentes desportivos, esta conclusão é claríssima: Miguel Rosa volta agora para o Belenenses não porque não tem mercado na primeira liga, não porque o Benfica não está interessado em valorizá-lo, não porque é irresponsável e não tem ambição, não porque tem uma namorada em Lisboa e quer ficar perto dela (estes são os argumentos mais comuns), mas porque alguém, alguém com poder suficiente na estrutura do clube, tem problemas pessoais com ele ou com a família dele. Aliás, basta que se conheça minimamente os meandros do futebol para chegar a esta conclusão. E agora, para terminar, queria apenas lançar uma perguntinha, uma perguntinha que, por reunir indícios suficientes para que justifique que seja colocada, não é apenas uma perguntinha arbitrária e infundada. Como é que se chama o ex-gestor do futebol de formação do Benfica (curiosamente numa altura em que Miguel Rosa era juvenil e júnior e que, segundo consta, chegou a ser visto em altercações com o pai de Miguel Rosa), que regressou à estrutura encarnada para exercer a função de director do futebol profissional precisamente poucos dias antes de Miguel Rosa ser novamente escorraçado do clube? Uma pista: tem o mesmo nome de um parasita que costuma ser portador de doenças.

P.S. Muito do trabalho de casa em torno da discussão acerca das razões para o regresso do jogador ao Belenenses, principalmente no que diz respeito à posição do pai de Miguel Rosa nesta questão, foi feito no fórum do Ser Benfiquista.

17 comentários:

Mike Portugal disse...

As "carraças" que existem no futebol e em outros sectores de actividade conseguem prosperar em ambientes adversos.

O Miguel Rosa é apenas mais um que sentiu a mordedura e agora criou uma borbulha. Esperemos que alguém lhe dê algum fenistil para que ele possa fazer a sua vida normalmente.

José Lemos disse...

Muito bom!

M.C. disse...

Tanta conversa para dizer que o António Carraça é um enorme filho da puta que está a tramar a vida ao Miguel Rosa, só porque tem problemas particulares com a família do jogador!
Quem sai prejudicado é o jogador e o Glorioso; mas será que o Presidente e principalmente o Rui Costa não tem olhos na cara para ver esta suposta filha da putice do carrapato ?

Centro de Jogo disse...

Nuno,

Brilhante texto! Onde compraste a tua "bola de cristal"? lol :P

Jorge D.

Pinto disse...

Lol realmente, o comentario do MC ta genial, quem nao tiver para ler a wall of text ta ali um bom resumo

Pinto disse...

Lol realmente, o comentario do MC ta genial, quem nao tiver para ler a wall of text ta ali um bom resumo

BAD-RELIGION disse...

Não era necessário um texto tão extenso para perceber esta tramoia toda.

O futebol Português dá me vomitos...

Isto é um ciclo, não se compra em Portugal, logo os clubes mais pequenos começam a não ter dinheiro e onde cortam primeiro é na formação, nunca na equipa sénior... isto é ciclo decadente, daqui a 5 anos isto vai estar bonito vai...

Eduardo Gaspar disse...

http://olheirodesofa.blogspot.com/2011/08/parolos-hipocritas-e-cobardes.html

BAD-RELIGION disse...

Parece que o Roderick também vai á vida... tanto alarido, e no final não ficam lá com nenhum das escolas... lol

zigofrigo disse...

Está uma bela equação e muita bem resolvida, mas não envolve todas as prováveis do problema e um deles é o que pretende o pai do jogador!

Custa aceitar que o parasita tenha imposto a sua vontade a tudo e a todos e mesmo reconhecendo a existência dos glutões, é de questionar porque razão o Benfica não quer valorizar o jogador!

Os jogadores também têm muitos glutões à sua volta, por isso falta saber o que pensa o pai e empresário relativamente à situação económica de Miguel Rosa. Estão satisfeitos com o ordenado dele? São conhecedores de propostas bem mais vantajosas e sabem que até 2016 só com 20 milhões é que alguém o poderá tirar do Benfica? Estão convencidos que no Benfica ele não terá oportunidades para se impor e querem roer a corda?

No fundo o que questiono é se é apenas o Benfica que se portou mal. Do muito que já vi, também não ficava surpreendido se da parte do jogador também tivessem forçado o desentendimento, se é que existiu! !

Miguel Rosa foi feliz no Belenenses, teve o seu espaço e viu premiada a sua época. Pereirinha perdeu uma época em Guimarães e desvalorizou-se. Não lhe valeu de nada rodar na primeira liga. Tal não invalida que seja surpreendente Miguel Rosa não jogar esta época na primeira liga!

Espero sinceramente que faça uma grande época e regresse ao Benfica para se impor de vez.

Nuno disse...

zigofrigo, não conheço o pai do Miguel Rosa, nem conheço o António Carraça. Sei que o Benfica e o jogador saíram lesados desta história. E consigo perceber, porque me dei ao trabalho de ir excluindo hipóteses e percebendo o que é que fazia mais sentido, que isto depende de interesses pessoais de alguém. É verdade que pode haver mais a contar, que pode haver outros intervenientes culpados. Mas também é verdade que, contada assim, a história faz mais sentido do que contada de qualquer outra maneira. E há indícios que a sustentam.

Pedro disse...

Não me admiro da veracidade desta história pq quem manda no SLB não percebe nada do assunto. E se Carraça tem poder para fazer isto faz e ninguem questiona pq, acredito, ninguem se lembra sequer do jogador. Resta ao míudo esperar q acabe o contrato q o liga ao SLB (como é triste dizer isto) ou então esperar q alguem dentro do clube acorde...

Há contratações que não fazem muito sentido é verdade mas a maioria faz na óptica do reforço do plantel. Os 3 grs fazem sentido a partir do momento em que Roberto não tinha condições para continuar e Moreira quis sair para poder jogar com maior assiduidade. Júlio César já era carta fora do baralho. Agora pergunto pq Carole o ano passado para agora ser emprestado? Pq Wass para agora ser emprestado com o rótulo de jogador bem fraquinho? Pq Almeida para emprestar?

BAD-RELIGION disse...

Estão 3 boas questões, e como essas há muitas mais, que aconteceu ao Shaffer? Era titular no inicio da época que veio, bastante interessante, depois desapareceu do mapa...

GT disse...

Caros companheiros da Blogosfera, queria vos pedir que me ajudassem a divulgar o meu blog na vossa página, o inverso já sucede, continuação de boas jogadas!

http://camisolaoito.blogspot.com/

Viriato de Viseu disse...

Malhas que o submundo futeboleiro tece...

ALM disse...

A estória será mesmo assim? e o rapaz já terá o valor que querem fazer crer.
A ver vamos. O tempo o dirá. Há pessoas que veem fantasmas e glutões muito fàcilmente, embora os haja.

Nuno disse...

ALM, não contei nenhuma história. Sugeri, por exclusão de partes, que a explicação mais plausível para o facto é a que dei. Mas, repito, pode haver coisas que não sei. Com os factos que vieram a público, parece-me a conclusão mais lógica.

Quanto à qualidade dele, para mim tinha qualidade para estar no plantel. Mas até admito que não o quisessem. O que não admito é que não tenha mercado na primeira liga.