sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Mundial dos Detalhes e das Individualidades

Há um tipo de estupidez particular, quando se fala de futebol, que consiste em ignorar que este não é um jogo como a maioria dos outros jogos. Ao passo que é difícil dizer, por exemplo em xadrez, que determinado jogador teve sorte em vencer, no futebol nem sempre quem joga melhor é quem vence. Não há, aliás, outro jogo que se compare ao futebol, nesse aspecto, e essa é também uma das razões pelas quais este é um desporto tão popular. O motivo é mais ou menos claro: ao contrário da grande maioria dos outros jogos, é um jogo cujo resultados não são geralmente volumosos. O golo é algo que acontece poucas vezes e, sendo a diferença de golos que determina quem ganha e quem perde, é natural que haja muitos jogos cujo resultado não espelhe o que as equipas fizeram. Uma vez que as equipas ganham ou perdem por causa de um ou dois lances em cada 90 minutos, é possível afirmar que é o jogo em que os detalhes são mais decisivos. Isso fez com que, ao longo dos anos, muitas pessoas acreditassem que eram melhores equipas aquelas que se especializassem melhor nos detalhes. Não acreditando nisso, é verdade que os detalhes têm um peso importante na definição de um jogo e é muitas vezes por eles que se deve explicá-lo. Pessoalmente, considero que é melhor equipa aquela que trabalhar de maneira a depender menos dos detalhes, mas não posso deixar de reconhecer que são eles, muitas vezes, que distinguem os campeões. Em competições a eliminar, então, o peso dos detalhes é ainda mais significativo. E se, a juntar a isto, a qualidade colectiva das equipas de um torneio, por exemplo um campeonato do mundo, for nivelada por baixo, mais decisivos eles são.

O preâmbulo anterior serve para preparar as duas coisas que quero dizer de seguida. A primeira é que é profundamente estúpido todo o comentador de futebol que, qual Freitas Lobo, chega ao fim de uma partida de futebol e tenta justificar o que nela se passou apenas pela qualidade táctica das equipas. Essas pessoas acham que resultados espelham fielmente exibições, e que se ganha porque se fez necessariamente por isso. São estúpidos porque não percebem que o futebol é um jogo de detalhes e que, muitas vezes, são os detalhes que determinam os vencedores. Arranjam explicações para tudo, riscam da memória tudo o que sabiam, e fazem diagnósticos com base num ou noutro lance em 90 minutos. O melhor exemplo foi o que se passou no texto anterior. Ninguém percebeu nada do que aconteceu à Espanha neste mundial, mas todos acharam que foi eliminada porque já não joga como antes e que o futebol que joga actualmente é inferior ao futebol da Holanda e do Chile. Não percebem que o futebol é um jogo de detalhes e não acreditam, como deve acreditar quem tem ideias, que a Espanha actual, sendo ou não tão forte como foi em 2012, por exemplo, ganharia 9 em 10 jogos que fizessem com qualquer um deles. A segunda coisa que pretendo afirmar vai também contra quase tudo o que tenho ouvido dizer sobre este mundial: para mim, está a ser dos piores mundiais dos últimos anos. E a razão tem precisamente a ver com esta questão dos detalhes. Uma série de factores tem contribuído para que as diferenças entre as boas e as más equipas se tenha esbatido, e os vencedores têm-se distinguido dos vencidos, por norma, apenas através de um detalhe ou outro. A maior parte das pessoas não pensará assim, mas um dos melhores critérios para distinguir um bom jogo (e um bom campeonato) de um mau jogo é ele não ter por factor decisivo um detalhe. Nesse sentido, este mundial estará ao nível do de 2002, por exemplo, e será, a par desse, o pior das últimas duas décadas.

Há um ano, antecipei que a qualidade deste mundial estava em risco precisamente pelas condições climatéricas. Achava, porém, que a prova decresceria de qualidade apenas a partir da fase a eliminar, e achava que as condições climatéricas seriam decisivas apenas no desgaste acumulado nos jogadores. Estava redondamente enganado. As condições climatéricas foram decisivas desde o primeiro jogo. A selecção que mais pagou por elas foi a Itália, uma das que melhor futebol apresentou na primeira fase e que, não obstante, foi eliminada. O primeiro jogo mostrou uma Itália competentíssima, mas incapaz de aguentar mais do que 60 minutos, em termos físicos. A última meia-hora do jogo contra a Inglaterra foi sofrível, quer para um, quer para outro conjunto, e no jogo com a Costa Rica a Itália foi incapaz de ter ideias precisamente pelo desgaste dessa primeira partida. Mesmo não voltando a jogar como na primeira partida, a Itália voltou a ser bem superior ao seu adversário no último jogo, sendo eliminada, lá está, por um detalhe. O detalhe do clima, o detalhe do árbitro e o detalhe das bolas paradas atiraram uma das melhores equipas em prova para fora da mesma logo na fase de grupos. Para muitos, a Itália foi-se embora porque não foi tão forte como as equipas que passaram. Para mim, essas pessoas não sabem o que é futebol. Em termos estritamente futebolísticos, a Itália foi a equipa mais forte do grupo. Acontece que, em futebol, às vezes isso não é suficiente. E neste campeonato do mundo jogar bom futebol tem sido das coisas menos importantes para se atingir o sucesso.

Posso juntar ao exemplo da Itália e da Espanha muitos outros. 1) A Alemanha a fraquejar diante do Gana. Um jogo que estava completamente controlado, com a Alemanha a ganhar por 1-0 e com várias oportunidades para dilatar o marcador, transformou-se em poucos minutos numa coisa completamente diferente, com dois golos de seguida dos ganeses, e só não terminou com goleada para os africanos porque não aproveitaram 3 ou 4 lances de forma inexplicável. 2) O apuramento do Uruguai, sem nada fazerem por isso. Depois de uma exibição paupérrima contra a Costa Rica, os pupilos de Tabarez não foram superiores aos ingleses, mas aproveitaram a falha de Gerrard. Também não foram superiores aos italianos, mas beneficiaram da expulsão de Marchisio e do facto de Suarez não ter sido expulso, como beneficiaram de mais um golo decisivo, na sequência de uma bola parada, de Godín. 3) O apuramento da Grécia. Depois de uma copiosa derrota frente à Colômbia, os gregos mantiveram-se à tona da água por empatarem contra o Japão num jogo em que podiam ter perdido por vários golos. Depois, frente à Costa do Marfim, um golo de penalty no último minuto dos descontos (aliás, como o golo que marcaram à Costa Rica e que lhes permitiu adiar a decisão dos oitavos de final para o prolongamento)  ditou a passagem de uma equipa que, futebolisticamente, não é nada. 4) O Irão a bater o pé à Argentina e Messi a resolver. Os argentinos queixaram-se precisamente das condições climatéricas, e o que se viu foi uma equipa cansada, sem capacidade colectiva e individual para penetrar na defesa iraniana. Os iranianos acabaram por ter as melhores oportunidades da segunda parte, mas foi um momento de inspiração individual de Messi que ditou a vitória argentina. 5) A surpresa da Costa Rica. Não querendo tirar mérito a uma equipa que tem mostrado algumas qualidades, os costa-riquenhos só estão onde estão pelos detalhes. Os uruguaios subestimaram-nos, a Itália não se conseguiu mexer, a Inglaterra já estava eliminada, e a lotaria dos penalties contra os gregos puseram-nos nos quartos de final. É evidente que têm três ou quatro bons jogadores, e uma equipa solidária, mas não foi por questões futebolísticas que chegaram até aqui. 6) O apuramento da Suíça. A Suíça apurou-se à frente do Equador porque no jogo inaugural, precisamente contra os sul-americanos, venceu a partida no período de descontos, num lance que começa com uma perdida dos equatorianos na área suíça, que lhes podia ter dado a vitória, e que termina com um contra-ataque suíço que é transformado em golo (e em fora-de-jogo, salvo erro). 7) A bola à barra de Pinilla. No último minuto dos descontos, o Chile podia ter eliminado a equipa anfitriã. Assim, foram para penalties e a sorte sorriu aos brasileiros. 8) A eliminação do México. A Holanda não fez um grande jogo, mas pressionou os mexicanos na última parte do desafio, conseguiu empatar e chegou à vantagem num lance de penalty nos últimos minutos. 9) A eliminação da Nigéria. Os franceses não foram superiores aos nigerianos na maior parte do tempo, e podiam ter sofrido um golo em várias ocasiões. A partir de um lance em que Matuidi devia ter sido expulso e a Nigéria teve de alterar o seu meio-campo, os franceses cresceram, acabando por chegar ao golo, uma vez mais, num lance de bola parada. 10) A eliminação da Argélia. Embora a Alemanha tenha sido muito superior, os argelinos foram corajosos e souberam pôr a nu as debilidades sobretudo do sector defensivo germânico. É verdade que passou a melhor equipa, mas a Argélia, se tivesse tido outra sorte, tinha mandado a Alemanha para casa. É minha convicção de que tal cenário só foi possível porque as equipas mais fortes, nestas condições, ficam mais expostas e vulneráveis aos detalhes, como seja o da vontade com que os argelinos jogaram. 11) A eliminação dos Estados Unidos. A Bélgica foi superior durante 105 minutos. Nesse período, podia ter marcado mais de uma dezena de golos. Mas os Estados Unidos podiam ter vencido o jogo no último minuto do tempo regulamentar e, depois de estarem a perder por 2-0, construíram ocasiões de golo suficientes, em apenas 15 minutos, para virar o resultado. 12) O desfecho dos oitavos de final. Dos oito jogos dos oitavos de final, 5 foram a prolongamento (2 dos quais foram a penalties) e outro ficou resolvido nos últimos minutos. Tal equilíbrio não é acidental. A Argélia, a Suíça e os Estados Unidos, principalmente, só arrastaram o jogo para o prolongamento porque houve condições externas a equilibrar as contendas. Em condições normais, estes jogos seriam decididos nos 90 minutos. 13) A derrocada das equipas europeias. É verdade que, em quantidade, passaram aos oitavos de final tantas equipas europeias como em 2010, mas ficarem pelo caminho as duas equipas que ainda há dois anos se sagraram campeã e vice-campeã da Europa parece-me substancialmente diferente de ficarem pelo caminho a Itália e a França de 2010. Ao mesmo tempo, não é normal que, das 10 equipas do continente americano em prova,  8 tenham passado aos oitavos de final, sendo que também o Equador esteve muito próximo de o conseguir. O mundial, nas condições em que tem sido jogado, é benéfico para as típicas equipas sul-americanas, que se caracterizam por serem aguerridas e muito disponíveis em termos físicos, e ainda por terem várias individualidades com qualidades técnicas que podem decidir individualmente os jogos.

Muitos se têm espantado ainda com as várias exibições espectaculares dos guarda-redes. Na minha opinião, é mais uma evidência de que o mundial não tem sido muito bem jogado. Quando os avançados e os guarda-redes são os principais destaques das equipas, é sinal de que o futebol apresentado, em termos gerais, não tem sido grande coisa. Desde o mundial de 86 no México que as principais estrelas de cada selecção não tinham tanto protagonismo e não eram tão decisivas. Isso deve-se ao facto de, tacticamente, o futebol ter evoluído bastante. Nos últimos trinta anos, assistiu-se a uma evolução táctica que, de algum modo, fez com que os principais jogadores não fossem capazes de brilhar individualmente como até então. Evidentemente, houve quem o conseguisse. Mas neste mundial têm brilhado individualmente quase todos aqueles que se esperava que brilhassem, excepção feita, talvez, a Ronaldo. Tacticamente, o mundial tem sido muito fraco, e isso faz com que os jogadores com mais facilidade para se desenvencilharem sozinhos sobressaiam. Faz também com que os jogos sejam mais emotivos, uma vez que os adeptos de futebol tendem a emocionar-se mais com lances individuais espectaculares (dribles, iniciativas individuais estonteantes, remates de longe, jogadas junto às áreas, contra-ataques, etc..) do que com jogadas bem pensadas. Daí que haja quem considere que este mundial esteja a ser bom. Como tal, faz também com que equipas que estão a dominar uma partida possam, em poucos minutos, ser encostadas à sua área, como aconteceu com a Nigéria frente à França, com o México frente à Holanda, com a Costa Rica frente à Grécia, ou com a Bélgica frente aos Estados Unidos. Quando, tacticamente, as equipas não demonstram grande coisa, sobressaem as individualidades e sobressai a crença dos jogadores, o que torna tudo muito mais imprevisível, volátil e, para quem acha que bom futebol é futebol junto às áreas, emotivo. Que tantas individualidades estejam a deslumbrar individualmente e que se esteja a registar tanta imprevisibilidade denota justamente o decréscimo de qualidade do futebol que tem sido jogado; denota que os detalhes estão a ter mais importância do que deviam. Os guarda-redes têm brilhado porque, precisamente, não se tem jogado bem. Luís Freitas Lobo disse outro dia que nunca tinha visto ninguém defender tanto como Tim Howard frente à Bélgica. Realmente, defendeu muito, se estivermos a pensar em quantidade. Mas não o vi fazer nenhuma defesa extraordinária. Fez quase duas dezenas de defesas, e nenhuma delas foi uma defesa impossível. O que Freitas Lobo não percebeu foi que Tim Howard não fez mais do que qualquer guarda-redes faria. Defendeu o que tinha de defender. Do facto de que os guarda-redes estejam a ser chamados mais vezes a intervir do que é costume não se segue que estejam a fazer grandes exibições. À excepção de um ou outro caso, é absurdo ficarmos espantados, por exemplo, com o guarda-redes da Argélia ou com o guarda-redes da Nigéria. São guarda-redes banalíssimos que estiveram mais em jogo porque as defesas têm defendido mal e porque os ataques não têm encontrado as condições de finalização ideais.

Quando o futebol é colectivamente mal jogado, sobressaem os apontamentos individuais, aumenta quantidade de lances junto às áreas e, por conseguinte, dispara o protagonismo dos guarda-redes. Quando assim é, tudo fica mais dependente dos detalhes, e é quem for mais eficaz nos detalhes ou quem tiver mais sorte neles, não quem for melhor em termos gerais, que terá sucesso. O futebol deste campeonato do mundo, até porque está a ser disputado onde está, não é muito diferente do futebol que se vê semanalmente em qualquer campeonato sul-americano. As melhores equipas, porque as condições assim o proporcionaram, não são as melhores equipas em condições normais, não são as equipas organizadas e com uma ideia de jogo colectiva, mas aquelas que conseguem aliar a solidariedade e o sacríficio defensivo à inspiração de dois ou três atacantes individualmente muito competentes. Sobram apenas 2 equipas cuja competência táctica merece louvor, a Alemanha e a Bélgica, e mesmo essas têm sobrevivido mais à custa da competência das individualidades do que da competência colectiva. Este mundial representa uma regressão, em termos tácticos, sem precedentes, e é de facto a melhor forma de culminar um ano profundamente negro na História do Jogo. Confesso que não esperava que fosse possível uma equipa voltar a ser campeã do mundo sem que fosse, em termos colectivos, minimamente competente, mas este mundial prepara-se para me mostrar que estava enganado. Estava enganado, porém, sem o estar. É que, no meu raciocínio, não equacionei a preponderância decisiva dos factores externos. E foram os factores externos, sobretudo as condições climatéricas anormais para a prática do futebol, que propiciaram este cenário. Nos últimos anos, o futebol evoluiu de modo a que os detalhes e as individualidades não fossem suficientes para sagrar campeões. Infelizmente para quem gosta de futebol, este mundial voltou a tornar o futebol um jogo só de detalhes e individualidades. Por absurdo que pareça, em 2014 pode voltar a haver um campeão do mundo que não sabe jogar futebol.

domingo, 15 de junho de 2014

Coisas sobre a Goleada

1. Um jogo, mesmo um que acaba tão desnivelado, tem história. E a história deste não se resume a dizer que a equipa que ganhou esmagou a outra. E não se resume a isso porque é falso. A Espanha foi claramente superior durante toda a primeira parte, podia ter praticamente acabado com o jogo no lance imediatamente anterior ao lance do empate holandês, e só quem for muito estúpido (como parece que é quase toda a gente que tem falado do jogo) é que pode achar que o resultado final diz alguma coisa acerca da verdadeira qualidade das duas equipas.

2. É especialmente embaraçoso verificar todos os elogios que se têm feito à equipa holandesa, por contraste a tudo o que se tem dito dos espanhóis, se nos lembrarmos de que os holandeses não marcaram um único golo em que se possa dizer que tenham tido, de facto, algum mérito (falo de mérito colectivo). Os 5 golos holandeses resultam integralmente de erros individuais: três de Sergio Ramos, um de Casillas e um do árbitro. É verdade que, às vezes, os erros são provocados pelo adversário, e é verdade que, às vezes, uma boa jogada pode preceder esse erro. Não foi, de todo, o caso. Os primeiros dois golos são cruzamentos do meio-campo, com Sergio Ramos a dormir, encostado a Jordi Alba quando devia estar a fechar no meio, a 5/6 metros de Piqué, no máximo; o terceiro é um lance de bola parada; o quarto nem vale a pena dizer nada; e mesmo o quinto, cuja transição os comentadores de serviço tanto gabaram, só é possível porque Sergio Ramos, além de estar mal colocado de início, não faz falta quando pode e perde em velocidade. De resto, dizer que um lance de contra-ataque que consiste num único passe representa uma transição notável, enfim, é chamar estúpido a quem percebe alguma coisa do assunto.

3. A comunicação social é composta - perdoe-se o latim - por uma cambada de energúmenos. É verdade que Casillas facilitou na final da Liga dos Campeões, e é verdade que facilitou ontem. Mas quando salvou o Real Madrid em Dortmund, só para dar um de muitos exemplos, onde estavam os que agora dizem, de peito feito e contentes por serem portuguesinhos, que José Mourinho é que sabia, quando o decidiu afastar da equipa? De resto, falar de Casillas num jogo em que Sergio Ramos foi o melhor em campo pelos holandeses faz-me alguma confusão. Casillas falhou no quarto golo, quando toda a equipa (e ele próprio, porque foi o principal injustiçado no lance do terceiro golo) estava completamente desnorteada, e a falha dele foi de natureza técnica, o que é muito mais perdoável que outro tipo de falhas.

4. Sergio Ramos falhou porque não sabe o que é defender à zona, uma linha defensiva ou, em suma, uma equipa de futebol. Veja-se onde anda Sergio Ramos antes de Daley Blind fazer o passe, em qualquer um dos lances dos dois primeiros golos, e percebe-se tudo o que há para perceber acerca desses golos. Piqué está onde deve estar, dado que o lance decorre junto a uma linha. Sergio Ramos está onde, na melhor das hipóteses, deveria estar o lateral do lado oposto. Ter no eixo da defesa quem cometa erros tão grosseiros como estes dois é meio caminho andado para criar a ilusão de que se tem uma equipa fraca.

5. O que disse a respeito das goleadas impostas pelo Bayern de Munique o ano passado ao Barcelona, assim como o que disse a respeito da goleada imposta pelo Real Madrid este ano ao Bayern de Munique, vale para falar deste jogo. Em muitos casos, uma goleada não representa nem a verdadeira diferença entre as duas equipas nem a verdadeira diferença entre o que elas fizeram ao longo dos 90 minutos. Explica-se, essencialmente, falando de motivação e concentração. Alguém, no seu perfeito juízo, diria ao intervalo que o resultado justo era uma goleada a favor dos holandeses? Alguém diria, sequer, que os holandeses mereciam estar empatados? Por que raio é que, durante os primeiros 45 minutos, os comentadores se fartaram de elogiar a Espanha e de tecer considerações acerca da eventual vitória dos espanhóis, e terminaram o jogo a falar em escândalo? Que raio de estupidez é esta que consiste em dizer exactamente o contrário do que se dissera 45 minutos antes e, ainda assim, se achar que se está a formular um discurso coerente? Como é que se pode chegar ao final de uma partida em que se disseram coisas tão contraditórias e afirmar que o resultado final é perfeitamente ilustrativo do que se passou nos 90 minutos? Está tudo doido? O resultado desnivelado, como qualquer resultado, não espelha nada do que se passou nos 90 minutos. Explica-se por um ou dois detalhes, que mudaram inteiramente as coordenadas da partida. Silva falha o 2-0 e Van Persie empata no lance seguinte, quando a Holanda nada fizera para isso; a abrir a segunda parte, sem mérito algum, uma vez mais, Robben aparece em posição privilegiada e faz o 2-1. Quando os espanhóis começam a reagir, sofrem o terceiro, num lance ilegal. Ainda conseguem reagir, chegando mesmo a criar algumas situações, mas o desnorte apoderara-se deles, e Casillas oferece o quarto. Em poucos minutos, tinham passado de uma situação de vantagem para uma situação inesperada. Para além da desmotivação e do desnorte, cria-se naturalmente uma sensação de impotência que conduz à apatia. Dizer o que quer que seja a propósito do real valor destas duas equipas num jogo assim é, no mínimo, irresponsável. E fazer prognósticos a propósito do resto do campeonato com base num desafio destes é francamente estúpido.

6. É talvez importante pensar acerca dos motivos pelos quais, nos últimos tempos, tantas equipas que baseiam o seu jogo em posse têm sido goleadas. A meu ver, é relativamente simples percebê-lo. Em equipas que se arrumam de forma mais conservadora, o tipo de apatia que descrevi antes não faz tanta mossa. Em equipas que jogam como a Espanha, com muito espaço nas costas da defesa e muitos jogadores dentro do bloco adversário, essa apatia leva a que se concedam oportunidades de golo atrás de oportunidades de golo. Ser goleado como a Espanha foi não é, pois, tão grave como isso. É apenas sinal de que a apatia, em equipas que assumem o jogo como os espanhóis assumem, tende a conduzir a resultados desnivelados. Nestas circunstâncias, ser goleado parece-me tão normal como não sê-lo.

7. Esta equipa holandesa, não obstante a competência do seu treinador, é talvez a mais fraca, em termos individuais, de que tenho memória. Falar no regresso da Laranja Mecânica é, por isso, francamente insultuoso. É verdade que, por todas as razões, este não é o melhor jogo para tirar ilações acerca do que poderão os holandeses fazer daqui para a frente, mas de uma equipa em que se aproveitam apenas o lateral esquerdo, Daley Blind, e os dois atacantes, Robben e Van Persie, acho difícil esperar grandes feitos. Posso estar muito enganado - e Van Gaal é suficientemente astuto para esconder as debilidades da sua equipa - mas acho que a única convicção com que fiquei depois desta goleada, ao contrário de todas as convicções com que ficaram as outras pessoas, foi a de que a Holanda não é candidata ao título.

8. Quanto à candidatura da Espanha, mantenho a mesma opinião que tinha antes de começar o campeonato. São a equipa mais poderosa em prova e os seus principais adversário serão, como já eram antes, as condições climatéricas e o desgaste que vier a acumular devido a essas condições. É verdade que a goleada é perigosa, até porque não me parece que a Holanda venha a ter facilidades para vencer o Chile, mas as aspirações espanholas continuam intactas. De resto, é até possível que tal derrota (e pelos números que foi) fira suficientemente o orgulho dos jogadores para que os espevite para o que aí vem. Há 4 anos, quando sugeri que a Espanha, após ter perdido o primeiro jogo com a Suíça, continuava a ser o principal candidato à vitória final, baseie a minha convicção naquilo em que as convicções devem ser baseadas, ou seja, na razão. E a razão, ao contrário do resultado desnivelado com o qual tanta gente tem exultado, diz-me que é estúpido achar que uma goleada sofrida, ainda por cima pelos motivos acima aduzidos, altera o valor da equipa que a sofre.

9. Em que medida é que pessoas que exultam com a goleada sofrida pelos espanhóis ante os holandeses (e têm sido inúmeros, desde anónimos a pessoas que, de acordo com um determinado código, deviam ser um bocadinho mais isentas) são diferentes de pessoas para quem o mundo estaria melhor sem Shakespeare? E em que medida é que pessoas assim se distinguem das pessoas que, a dada altura, acharam que o mundo estaria melhor sem judeus? Não é exagero; exultar com o que se passou ontem é parecidíssimo com exultar com câmaras de gás. Ficar contente perante a perspectiva de a melhor coisa que já aconteceu ao futebol poder finalmente desaparecer é, deste ponto de vista, mais ou menos o mesmo que bater palmas a um genocídio. É de congratular a ignorância com que o faz quem o faz. A Humanidade está de certeza orgulhosa de vocês! 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Os melhores de 2013/2014

Como tem sido hábito, mesmo numa época em que pouco ou nada disse sobre a Liga Portuguesa, aqui fica o melhor onze, na minha opinião, disposto em 433:


Guarda-Redes: Oblak
Defesa Direito: Duarte Machado
Defesa Esquerdo: Alex Sandro
Defesas Centrais: Luisão e Ezequiel Garay
Médio Defensivo: William Carvalho
Médios Ofensivos: Enzo Perez e Evandro
Extremos: Markovic e Nico Gaitan
Avançado: Jackson Martinez

Treinador: Jorge Jesus

Suplentes:

Guarda-Redes: Rui Patrício
Defesa Direito: Sílvio
Defesa Esquerdo: Siqueira
Defesas Centrais: Otamendi e Paulo Oliveira
Médio Defensivo: Matic
Médios Ofensivos: Lucho Gonzalez e Adrien
Extremos: Pedro Santos e Rafa
Avançado: Freddy Montero

Treinador: Marco Silva

terça-feira, 3 de junho de 2014

Balanço Negativo

Como tive oportunidade de escrever, esta época futebolística representou, de certo modo, um retrocesso na evolução do jogo. Com um campeonato do mundo à porta ao qual alguns dos melhores jogadores do mundo chegam em más condições (ou não chegam, de todo), e a julgar por aquilo que se passou há um ano no Brasil, antevejo uma prova sofrível, o que seria a cereja no cimo do bolo. Não acredito, apesar de tudo, que um ano sirva para inverter a evolução do que quer que seja, e a tendência será, nos anos que se seguem, as coisas voltarem à normalidade. Dito isto, gostaria de fazer um balanço daqueles que foram os principais destaques desta temporada:

Em Portugal, Jesus voltou a ser campeão. Tenho falado muito acerca do quão importantes são, para o reconhecimento de um treinador, um jogador ou uma equipa, as circunstâncias que os mesmos não controlam, como o acaso, o talento dos adversários, as decisões de terceiros, etc., e esta época de Jesus é disso um extraordinário exemplo. Para muitos, porque ganhou mais títulos do que nunca e porque esteve pertíssimo de ganhar tudo o que podia ganhar, este foi o melhor dos cinco anos de Jesus à frente do Benfica. Não só discordo amplamente disto como me parece absurdo que se tenha tal opinião. O Benfica começou muito mal a época, tendo uma participação medíocre na Liga dos Campeões e perdendo muito terreno para o principal adversário. Se o Porto não estivesse fragilizado e conseguisse manter a qualidade do futebol que apresentou no início da época, o Benfica teria tido muitas dificuldades em recuperar o terreno perdido e, pior do que isso, em atingir os níveis de confiança que viria a atingir no final da época. Quando se fala na época no Benfica, concede-se o mau arranque, mas considera-se que a segunda metade da época o compensou. Esquece-se, porém, que só o compensou porque as coisas começaram a correr mal aos adversários dos encarnados. Os níveis de confiança subiram porque os resultados começaram a ser positivos, não o contrário. O Benfica termina a época a poder ganhar tudo porque internamente não teve adversários à altura, o que permitiu à equipa convencer-se de que não tinha defeitos e, assim, elevar bastante os níveis de confiança que, no início, estavam bastante debilitados. Foram as circunstâncias externas, não a qualidade do Benfica propriamente dita, que ditaram o sucesso desportivo desta época. O Benfica de Jesus, tal como o do ano passado, é mais calculista do que nunca. Defensivamente, tornou-se uma equipa fortíssima, mas ofensivamente depende cada vez mais das características atléticas dos seus jogadores. Em termos de criatividade colectiva, foi mesmo o ano mais fraco dos cinco anos de Jesus.

Em Espanha, o Atlético de Madrid foi campeão. Já disse a maior parte das coisas que tenho a dizer sobre a equipa de Simeone, mas posso dizer mais uma ou outra. Continuo sem conseguir dar mérito a uma equipa cuja principal arma é a agressividade com que disputa os seus lances. Não o consigo não por não valorizar o empenho e a crença daquelas jogadores, mas porque acho que, em futebol, níveis de agressividade como os do Atlético de Madrid são contraproducentes. São-no no sentido de desposicionarem e desgastarem excessivamente quem os pratica, já para não falar do risco que é jogar 90 minutos com entradas a pedir cartão, e só podem ter gerado sucesso por factores alheios ao jogo. Em primeiro lugar, pela conivência das equipas de arbitragem. Foram pouquíssimos os jogos do Atlético de Madrid a que assisti em que não ficasse um ou dois jogadores por expulsar. Em segundo lugar, porque os adversários foram bem mais fracos do que em anos anteriores. Por fim, porque a fragilidade dos adversários e a possibilidade do título no horizonte criaram a ilusão aos jogadores de que eram melhores do que são, o que os fez transcenderem-se. O Atlético de Madrid foi campeão e Simeone é hoje um dos treinadores mais aplaudidos na Europa. Individualmente e colectivamente, contudo, a equipa é banalíssima. Há jogadores com futuro, mas são poucos: Courtois, Arda, Adrián e Oliver, principalmente, sendo que os últimos dois praticamente nem foram opção. Colectivamente, não há um princípio de jogo que se possa dizer que seja extraordinário. Ofensivamente, então, desafio mesmo a que me digam que tipo de jogadas é que a equipa privilegia. Assim que as coisas começarem a correr menos bem, a confiança com que chegaram até ao topo evapora-se. E é nessa altura que a verdadeira qualidade ficará à vista. A minha previsão é de que esse momento não tardará.

Em Inglaterra, igualmente, o ano foi muito fraco. Como previa há um ano, a reforma de Alex Ferguson e o regresso de Mourinho iam fazer com que o campeonato inglês fosse mais disputado do que tinha sido nos últimos anos. Não esperava, porém, que, além de disputado, fosse tão mal disputado. Wenger continua a ser pouco perspicaz, em termos defensivos, e isso custou-lhe mais um campeonato. Andou durante muito tempo na frente, mas não teve estofo, na recta final da prova, para preparar a equipa para ser campeã. Ao contrário, todavia, do que se conjecturava, o seu Arsenal esteve mais perto dos principais candidatos, o que comprova que, quando o plantel se mantém, a tendência é tornar-se melhor. A próxima época, não perdendo ninguém, mostrará um Arsenal mais experiente e certamente mais capaz de se impor quando as coisas correrem menos bem. Mourinho foi a principal desilusão (tendo em conta que de André Villas-Boas, depois do que fizera no ano anterior, dificilmente esperava mais do que meia temporada em Londres) e o Chelsea, repleto de jogadores talentosos, acabou a temporada a jogar à Di Matteo. Mata fora o melhor jogador do Chelsea nos últimos dois anos, e foi o primeiro a ser ostracizado por Mourinho. Seguiu-se Óscar. Sobrou Hazard, o que é manifestamente pouco. Abdicar de dois dos três jogadores mais criativos da equipa é de uma estupidez inacreditável. Mourinho pode continuar a ser um treinador atento, muito esperto e competitivo, mas, depois da lobotomia, deixou de pertencer ao restrito grupo dos melhores treinadores do mundo. O Chelsea só não foi campeão porque Mourinho já não é Mourinho. Pellegrini não é um treinador genial, mas é um treinador com uma ideia de jogo interessante. Conseguiu ser campeão porque o principal adversário, pelo menos em termos de recursos, andou o ano inteiro a jogar como uma equipa pequena. Sobre David Moyes e o que aconteceu ao Manchester United, francamente, não me surpreende. O seu Everton foi sempre uma equipa deprimente, e era natural que não conseguisse melhor em Manchester. Conseguir ficar atrás da sua antiga equipa, agora bem melhor treinada, aliás, foi obra. Sobre Brendan Rodgers, não tenho uma opinião muito formada. Não vi muitos jogos do Liverpool, mas os que vi não me entusiasmaram particularmente. É uma equipa competitiva, muito agressiva, e que me parece beneficiar disso por jogar em Inglaterra. Mas não vejo uma equipa criativa, capaz de resolver problemas complicados, e com uma ideia de jogo clara, que não se baseie unicamente em recuperar a bola em zonas adiantadas ou em atacar vertiginosamente. É uma espécie de Atlético de Madrid, ainda que não tão agressiva e com menos qualidade individual, que dependerá muito, no futuro, daquilo em que os jogadores puderem acreditar.

Em ano de estreia na Alemanha, Guardiola fez muitas coisas boas, mas podia ter feito mais. Em termos de títulos, francamente, foi uma época muitíssimo positiva. Ser campeão a 7 jornadas do fim, vencer a Taça e alcançar as meias-finais da Liga dos Campeões é muito bom, e dificilmente se podia pedir mais. Em termos de evolução de ideia de jogo, também me parece irrefutável que este Bayern se tornou mais forte e mais dominador do que era, ainda que não tenha ganho tanto. Faltou, no entanto, uma coisa que, a meio da época, parecia mais ou menos evidente e possível, a capacidade de a equipa continuar a evoluir num modelo de jogo tão exigente como aquele que Guardiola propõe. A minha opinião é a de que Guardiola sentiu demasiadas pressões e, a meio da temporada, não obstante a equipa estar cada vez mais sólida e cada vez mais capacitada para jogar como pretendia, decidiu fazer a vontade a quem o criticava. Aproveitando-se da vantagem no campeonato, começou a preparar a equipa para jogar como jogara em anos anteriores, arriscando menos quando em posse, e isso fez com que os bávaros parassem de aprender a jogar dentro de um modelo que exige coisas que só com muita prática se aprendem. Pareceu-me, porém, que Guardiola nunca se satisfez com isso, e a verdade é que foi em alguns jogos mais exigentes que voltou às suas ideias arrojadas. Na Liga dos Campeões, por exemplo, nunca jogou com dois médios de perfil, como o passou a fazer na segunda metade do campeonato. O que aconteceu foi que, nos dois únicos jogos em que se exigia perfeição à equipa em posse, os bávaros não conseguiram ser perfeitos. E não o foram, essencialmente, porque a exigência de Guardiola na segunda metade da época não foi suficiente. Jogaram de acordo com uma ideia de jogo boa, mas sem o devido nível de preparação para ela. Sem essa preparação, e sem a sorte do jogo que o Real Madrid acabou por ter, o Bayern acabou por desconcentrar-se e terminou a eliminatória dando uma imagem que não é a verdadeira imagem da equipa. Não sei se Guardiola prepara grandes mudanças no plantel para a época que vem, mas o mais importante seria tentar convencer os jogadores de que, apesar do desaire, aquela é a melhor maneira de serem uma equipa de futebol.

A principal prova do futebol europeu foi, talvez, o espelho mais fiel da tenebrosa temporada futebolística que se viveu este ano. Desde jogos horripilantes, como a primeira mão da eliminatória que opôs o Atlético de Madrid ao Chelsa, a decisões dramáticas no tempo regulamentar, como o povo tanto gosta, esta edição da Liga dos Campeões teve mais a ver com religião do que com futebol propriamente dito. As equipas que melhor futebol apresentaram foram sendo eliminadas, fosse pelo azar ditado pelo sorteio, como o Manchester City e o Arsenal, fosse por cobardia, como o PSG, fosse por erros próprios ou porque o futebol, em última análise, é um jogo que se presta a isso, como o Borussia de Dortmund ou o Barcelona, e nas meias-finais só já havia uma equipa cujo futebol era minimamente interessante. Quando, nas quatro semi-finalistas, há apenas uma das seis equipas que melhor futebol mostraram, pouco mais há a dizer. O Real acabou por vencer a décima e foi o menos mau que poderia ter acontecido. A equipa continua longe de jogar bem, mas consegue juntar um leque de jogadores que, do ponto de vista individual, pode ser decisivo. Foi-o, de facto, nos quartos de final e nas meias-finais, e foi por esse leque de individualidades que marcou presença na final. Há, no entanto, muito, mas mesmo muito, a melhorar no ano que vem, sobretudo porque a ambição de ganhar uma competição que não ganhavam há largos anos, o principal dínamo emocional da equipa esta temporada, já não existe, e porque há uma série de jogadores (Ronaldo à cabeça) cuja idade forçará a que o seu rendimento seja, a partir de agora, tendecialmente inferior.

domingo, 27 de abril de 2014

Idade das Trevas

Vivem-se hoje, no que diz respeito ao futebol, tempos idênticos àqueles que o mundo conheceu na sequência do declínio do Império Romano, tempos de obscuridade em que o progresso parece ter sido interrompido. Um pouco por todo o lado, triunfam as equipas cuja principal virtude é a transpiração, sendo o maior exemplo disto o Atlético de Madrid de Simeone, uma equipa tão competitiva quanto retrógrada. A primeira mão da meia-final da Liga dos Campeões que opôs o Atlético de Madrid ao Chelsea foi, a todos os níveis, um dos jogos mais deploráveis do século XXI. Haver num campo de futebol duas equipas e nenhuma delas ser uma equipa de futebol não só não é coisa que se esperasse ver numa meia-final de uma competição tão importante como não é coisa que se tenha visto muito nos últimos 20 anos. Não obstante, não quero falar muito deste Atlético de Madrid, ou do Chelsea de Mourinho. O sucesso de Guardiola em Barcelona contribuiu muito, a meu ver, para o progresso do futebol, e os anos que se seguem tratarão de o comprovar, ainda que esse progresso se faça paulatinamente e, pelo meio, haja retrocessos pontuais, como parece ser o caso desta época.

A melhor forma de falar da escuridão que tem sido esta temporada futebolística, com pouquíssimas novidades dignas de interesse, é opor dois treinadores, um que pertence ao século passado, outro que é um visionário. Refiro-me a Tata Martino e a Pep Guardiola. Martino tem, apesar de tudo, uma virtude: a de não ter tentado uma revolução. Percebeu que tinha de continuar o trabalho de Guardiola e de Tito Villanova, e percebeu que o melhor a fazer era não mexer muito. As pessoas esquecem-se, por exemplo, que a primeira volta do Barcelona, este ano, foi impecável (mesmo sem Messi durante alguns meses), e isso se deve, sobretudo, à forma como Martino procurou fazer com que os jogadores continuassem a jogar da maneira como sabiam. Faltou a Martino, porém, tudo o resto. Faltou perceber que jogar de determinada maneira implica fazer um sem número de coisas, faltou ser capaz de manter os jogadores concentrados em jogos de baixa exigência, faltou dar minutos de descanso a alguns jogadores (como Xavi) e mostrar a outros que a equipa precisa deles  não apenas quando não há outros para jogar (Bartra, Song e Sergi Roberto) e faltou ser capaz de ler bem aquilo que os jogos pediam dele. Até à eliminatória com o Atlético de Madrid, para a Liga dos Campeões, estes problemas pareciam pouco visíveis. O Barça tinha superado um adversário difícil, o Manchester City, tinha mostrado que continuava superior ao Real Madrid, nos confrontos directos, e só dependia de si para ser campeão.

Tudo terminou quando uma equipa super-agressiva, que joga à margem das leis, na maioria das vezes, deixou a nu os principais problemas de Tata Martino. É verdade que o Atlético de Madrid, com árbitros menos ingleses (os primeiros dez minutos da segunda mão foram vergonhosos, com o Atlético a criar sistematicamente situações de perigo que começam em faltas não assinaladas por Howard Webb), dificilmente teria passado essa eliminatória, mas o que é constrangedor é que isso nunca fora um problema, por exemplo, no tempo de Guardiola. Martino começou a perder a eliminatória quando sugeriu que, para vencer a equipa de Simeone, o Barça precisava de ser tão intenso como o Atlético. Não percebeu que, contra equipas intensas, o melhor antídoto é ser pouco intenso, é ficar com a bola, reduzir o ritmo de jogo, circular em segurança, cansar o adversário, levá-lo para onde quer, etc.. Contra uma equipa cuja principal estratégia ofensiva é pressionar alto para aproveitar os possíveis erros do adversário, a melhor contra-estratégia é arriscar, sair a jogar pelos centrais, fazer baixar os três médios para criar linhas de passe interiores, e adiantar os laterais. O Barcelona tentou fazer a sua circulação habitual, mas muito timidamente, e abandonando-a sempre que sentiu medo de cometer erros. Contra uma equipa que faz da intensidade com que joga a sua maior arma, a melhor estratégia é sempre fazer com que essa intensidade não tenha relevância. E isso faz-se tendo a bola, entrando nas zonas de pressão do adservário apenas para sugerir ao adversário que pode recuperar a bola, saindo delas imediatamente e, com isso, cansando o adversário. 

Quando se fala de posse de bola, esquece-se geralmente de que ela tem um uso passivo e um uso activo. Diz-se que ter muita bola não serve para nada, e muitos treinadores até preferem que a equipa adversária tenha a bola para lha poderem tirar. Esquece-se de que quem tem a bola não tem apenas a bola; tem também a possibilidade de conduzir o adversário para onde quiser. O Barcelona de Tata Martino não tem apenas menos posse de bola, em quantidade, do que tinha o Barça de Guardiola. É também muito menos inteligente a fazer um uso táctico da bola. O Barcelona de Guardiola usava a bola para descansar, para se reorganizar, para retirar a iniciativa de jogo ao adversário, mas usava a bola também de forma activa, entrando no bloco para solicitar que o adversário activasse a sua pressão, saindo rapidamente do bloco para circular por fora e assim ir explorar os espaços deixados em aberto pela pressão que entretanto o adversário activara. Este Barcelona continua a usar a bola de forma passiva muito bem, continua a ser capaz de ter mais bola que os adversários, e continua a ser capaz de, ocasionalmente, activar combinações estonteantes entre os seus jogadores, mas não sabe usar a bola, porque não tem treinado para isso, como um engodo. E esse uso era precisamente aquilo que, há uns anos, fazia com que houvesse um fosso gigantesco entre essa equipa e as restantes. Esse fosso, actualmente, deixou de existir, e o Barcelona é uma equipa tão permeável aos detalhes quanto outra qualquer. Ainda que continue a ser dos melhores conjuntos, e ainda que continue a ter alguns dos melhores jogadores do mundo, já não é uma equipa que, em condições normais, ganha sempre. Acresce a esse problema um outro, que com ele se relaciona: o facto de Tata Martino não perceber que, para jogar como o Barcelona deve jogar, em toque curto, com posse, tem de cumprir um vasto leque de requisitos. Não pode, por exemplo, ter a linha defensiva sediada no meio-campo, a dez ou mais metros do médio-defensivo; tem de haver uma sucessão de coberturas que impossibilite que o adversário consiga criar linhas de passe assim que recupera a bola.

Se, contra o Atlético de Madrid, ficou evidente que Tata Martino é um treinador banal, não percebendo sequer que a equipa de Simeone não é sequer muito forte em termos zonais e que bastava ter jogado com dois extremos constantemente abertos (Martino percebeu a meio da época que tinha mais sucesso jogando com Iniesta e Neymar nas alas, ou seja, com jogadores menos profundos e que gostam de vir para dentro, mas achou que essa fórmula era a fórmula certa para todo e qualquer jogo) para que houvesse mais espaço pelo meio (aliás, foi assim que o passe de Iniesta pôde entrar, no golo de Neymar), algumas das novidades tácticas apresentadas por Guardiola no seu Bayern de Munique devem ajudar a confirmar que o catalão é mesmo de outra galáxia. É verdade que Guardiola tem cedido a algumas pressões dos dirigentes bávaros e é verdade que algumas das suas ideias, por esse motivo, têm demorado a ser implementadas. Mas nota-se, sobretudo quando as coisas correm bem e sente a possibilidade de testar coisas diferentes, uma vontade enorme de revolucionar o futebol dos alemães. A mais recente das surpresas tácticas confirma que quem acha que, em futebol, já tudo foi inventado, é um imbecil. Tal como mostrou, na Catalunha, que ainda era possível jogar em 343 ao mais alto nível, mostra agora que um lateral não é necessariamente só o que as pessoas pensam que é. Para muitos, o lateral serve para jogar pela linha. Mais defensivamente ou mais ofensivamente, é papel do lateral jogar encostado à lateral, pensa quase toda a gente. Para Guardiola, para quem os laterais foram sempre, como outros jogadores quaisquer, participantes de tudo o que equipa faz, isso nunca foi bem assim. Apesar disso, nunca os laterais de Guardiola tinham sido médios. Até agora.

Desde o início da época que se percebia que os laterais do Bayern não faziam bem o mesmo que os laterais do Barça de Guardiola, integrando a manobra ofensiva por dentro e não por fora do extremo. Agora, contudo, Guardiola parece interessado em fazer dos laterais não apenas participantes do jogo interior no último terço do terreno, mas médios de construção. Assim que a equipa entra em processo ofensivo, os centrais abrem, o médio defensivo baixa, formando uma linha de três atrás, e os laterais, em vez de subirem no terreno pela linha, vêm para dentro, para a zona deixada vaga quer pelo abaixamento do médio-defensivo, quer pela subida dos outros dois médios, que passam a preocupar-se em solicitar linhas de passe dentro do bloco adversário. O que acontece é a equipa passar a jogar com três defesas, dois médios defensivos, dois extremos bem abertos, e dois médios atacantes, constantemente preocupados em explorar os espaços atrás dos médios adversários. Introduzindo esta dinâmica logo na primeira fase de construção, Guardiola consegue assim manter bastantes jogadores no meio-campo, de maneira a dar linhas de passe próximas na primeira fase de construção sem perder a profundidade e a largura dos extremos e sem perder médios dentro do bloco adversário, algo a que dá muitíssima importância e algo que nem Kroos nem Schweinsteigger têm conseguido dar-lhe. Com esta estratégia, a equipa parece conseguir manter o adversário o mais aberto possível (dado o posicionamento dos extremos, que deixam de ter de vir tanto para dentro) e parece ser capaz de manter vários homens dentro do bloco adversário, a solicitar linhas de passe entre as linhas adversárias, duas coisas que, até agora, estava a ter dificuldades em conseguir em simultâneo. Tal como o 343 na Catalunha servira para ter muitos médios ofensivos entre as linhas adversárias, sem perder a largura que força a que o adversário esteja aberto, esta dinâmica parece assim permitir duas das coisas a que Guardiola mais importância dá, em termos ofensivos.

Não obstante ter algumas reservas quanto a mudanças de posições relativas de jogadores de processo defensivo para processo ofensivo, reconheço que é das coisas mais engenhosas que já vi um treinador pensar. E sentir que há quem seja capaz de surpreender com coisas nunca antes tentadas, em termos tácticos, é das coisas mais gratificantes, para quem percebe o jogo. A mim, Guardiola continua a surpreender-me. É pena que Beckenbauer, que ainda esta semana não percebeu nada do que se passou no jogo da primeira mão da meia-final da Liga dos Campeões contra o Real Madrid (o Bayern só jogou mal quando abdicou da posse de bola com que dominou toda a primeira parte), ache que o Bayern deve continuar a ser uma equipa banal, sujeita à mesma aleatoriedade da fortuna que todas as outras. E é pena que Guardiola, por força da pressão que Beckenbauer tem exercido com a sua estupidez, não possa reformar a equipa como deseja. Num ano de trevas, como este, há quem queira que as trevas engulam até a única pessoa que não se conforma em viver nas trevas. Os estúpidos só estão bem se todos à volta deles forem estúpidos como eles.

domingo, 30 de março de 2014

William Carvalho e o Sporting de Leonardo Jardim

A época do Sporting tem sido suficientemente boa para que mereça o devido destaque e para que se elogie algumas das coisas que Leonardo Jardim tem conseguido. Num ano que se esperava, acima de tudo, de transição, com um orçamento bastante reduzido, a verdade é que o Sporting foi capaz de se mostrar muito competitivo, e o acesso directo à Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real. Esta época, ainda que termine sem títulos, deve por isso levar muita gente a reflectir. O Sporting tem na sua formação uma arma que deveria ter explorado melhor nos últimos anos, e que esta época, sendo forçado a isso, mostrou estar à altura das exigências. O que Leonardo Jardim tem mostrado é que é possível construir uma equipa competitiva com um orçamento mais reduzido, recorrendo a alguns jovens com qualidade, jovens como Eric Dier, William Carvalho, Adrien Silva, André Martins e Carlos Mané, e que dificilmente teriam as oportunidades que tiveram caso o clube vivesse dias de desafogo financeiro. O Sporting pode não ter, neste momento, equipa para lutar, por exemplo, com o Benfica, mas ficar à frente do Porto, como pode bem acontecer, é já um feito tremendo. A equipa tem sido regular e tem mostrado personalidade. Não jogando um futebol extraordinário, tem sido capaz de manter índices competitivos altos. Ajuda o facto de não estar envolvida em competições europeias, mas ajuda também não se terem criado expectativas como em outros anos. Leonardo Jardim aproveitou-se disso e, com os poucos recursos que tinha ao seu dispor, pôs a equipa a jogar à sua imagem. Independentemente da rigidez do modelo, um 433 pouco dinâmico, em muitos momentos do jogo, com extremos demasiado clássicos que pouco se envolvem no jogo interior da equipa, e com os médios raramente a solicitar a bola entre linhas, o Sporting tem sido uma equipa sólida, competente a nível defensivo, e que sabe aquilo que quer. As equipas de Leonardo Jardim não praticam um futebol entusiasmante, mas são geralmente muito organizadas e sempre preparadas para aquilo que devem fazer.

Boa parte do bom futebol que esta equipa pratica deve-se, a meu ver, à presença de William Carvalho. Foi uma das maiores demonstrações de coragem de Leonardo Jardim no início da época, relegando para o banco Rinaudo, um dos poucos que parecia ter, para a opinião pública, lugar garantido. A verdade é que William é a grande revelação do campeonato. Conhecia-o de escalões inferiores e, embora reconhecesse nele muitas competências, duvidava que se pudesse impor com tanta facilidade. Claro está que a minha opinião era em função da posição em que jogava nessa altura, como médio de ataque. Aí, francamente, não lhe augurava nada de extraordinário. Era um jogador tecnicamente evoluído, sim, mas que não tinha propriamente facilidade em se movimentar entre as linhas adversárias; era pouco ágil, o que, em espaços curtos, costuma ser relevante. A sua evolução passou então por recuar no terreno, por passar a jogar nas zonas mais apropriadas às suas características, e isso foi decisivo. Como médio-defensivo, William tem um futuro muitíssimo promissor. Em certa medida, parece-me ser esse o problema também de João Mário, um jogador que querem a força que seja médio de ataque, organizador de jogo, ou lá o que seja, mas que não tem, parece-me, vocação senão para jogar como médio recuado. O mesmo se poderia dizer, para ir ainda mais longe, de Nemanja Matic, que sempre que jogou em zonas mais avançadas, por se reconhecer que tecnicamente era muito dotado, não apresentou o rendimento que apresentava na posição de médio mais defensivo. O que William e Matic revelam é que aquela crença enraízada de que jogadores tecnicamente evoluídos devem ter facilidade para jogar em zonas mais ofensivas é falsa. A técnica não chega. A agilidade, a capacidade de drible e, sobretudo, o perfil de decisão do jogador são características bem mais relevantes. William pode ser tecnicamente muito evoluído, mas pensa de uma determinada maneira, e essa maneira de pensar é incompatível com o que se exige em certas posições. Onde está como peixe na água é fora do bloco, com espaço e tempo para tomar as suas decisões, podendo ver constantemente quase tudo o que está a acontecer no campo.

Com William, o Sporting de Leonardo Jardim sai quase sempre da zona defensiva com qualidade. A forma como se posiciona, como gere os ritmos da equipa, como faz a bola circular, como espera pelas melhores opções de passe, como entrega quase sempre jogável, é decisiva para que a equipa tenha a capacidade de se instalar no meio-campo adversário e a capacidade para manter o domínio do jogo que tem demonstrado. Faltar-lhe-á, na minha opinião, aprender algumas coisas a respeito de posicionamento defensivo e algumas coisas a respeito de decisão circunstancial em momentos defensivos, mas é para já inegável que, em termos ofensivos, é já um jogador incrivelmente maduro, não só pelo que faz com bola como pela forma como equilibra a equipa quando esta está em posse, mantendo-se sempre como referência recuada por onde se pode circular. A facilidade que tem, depois, para manter a bola em situações de aperto, para a proteger até que surja uma opção de passe apropriada, permitem que não se desfaça dela de qualquer maneira e que, por mais que a estratégia adversária passe por pressioná-lo, o Sporting não perca qualidade em posse. Os maiores clubes da Europa não têm estado desatentos e começam já a juntar os trocos para poder adquiri-lo. Não sei se o Sporting terá capacidade para mantê-lo mais um ano ou não, mas desconfio que isso será pouco relevante para o futuro de William. Seja no final da época, seja daqui a uma ou duas épocas, parece-me neste momento mais ou menos certo que William Carvalho tem uma carreira brilhante à sua frente. Foi preciso o clube entrar em agonia para que, em poucos meses, se percebesse que há diamantes que, sem a competição, dificilmente poderão aparecer. Se o exemplo de William servir para alguma coisa, pode ser que sirva para se perceber finalmente que uma equipa como o Sporting tem tudo a ganhar em construir plantéis em que metade dos jogadores são provenientes da formação. Há muito que dizemos aqui que é esse o único caminho viável, a única e a melhor forma de competir com Benfica e Porto, e que a estratégia oposta, tal como foi posta em prática nos últimos anos, só poderia terminar em fracasso. Agora que está à vista de todos o que é que um clube como o Sporting deve ser, seguir-se-ão, assim não se deslumbrem os seus dirigentes, outros Williams.

terça-feira, 4 de março de 2014

Três Apontamentos

No fim-de-semana passado, sem ninguém saber porquê, nem mesmo o seu treinador, Miguel Rosa ficou na bancada e não defrontou o antigo clube. O Benfica ganhou sem jogar bem e beneficiou de um erro do árbitro, mas continuo a achar que ninguém deu importância àquilo que realmente importa. Maus jogos e vitórias à custa de foras-de-jogo mal tirados acontecem a toda a hora. Que um jogador que andou claramente a ser queimado nas últimas cinco épocas se tenha desvinculado do clube que andou a tentar acabar com a sua carreira e que, ainda assim, continue a ser queimado é que me parece motivo de uma investigação. Se houvesse jornalismo a sério em Portugal, e se por algum milagre parte desse jornalismo fosse dedicado ao jornalismo desportivo, andava meio país de volta de Miguel Rosa, dos dirigentes do Belenenses e dos Carraças que para aí andam. É inacreditável que um dos mais promissores jogadores da sua geração, mesmo tendo conseguido libertar-se do vínculo com o clube ao qual deu mais de metade da vida, continue a ser prejudicado por, de algum modo, ter pisado os calos a alguém com suficiente poder para lhe arruinar a carreira. Fora das quatros linhas, o futebol são hienas. Como tenho opiniões controversas acerca do que fazer a hienas, abstenho-me de dizer mais do que isto.

No mesmo fim-de-semana, uma paulobentice por um discípulo. O futebol das equipas de Abel é tão pobre que ficar do lado do treinador, por mais razão que possa ter, me parece idiota. Não sei o que se passou, e na verdade não preciso. A ser verdade o que foi noticiado, Iuri Medeiros entrou em campo na segunda parte, provavelmente já amuado, e não mostrou muita vontade, sobretudo em defender. Devo dizer que o simples facto de um dos mais talentosos jogadores da equipa ficar no banco me parece mais grave do que qualquer amuo de um miúdo de 20 anos. O problema de Abel é que nunca foi muito talentoso. Quando se tem talento, e se vê outros que não o têm a jogar no lugar de quem o tem, é difícil arranjar motivação. Alegam os mais conservadores que poder um dia jogar na equipa principal devia ser motivação suficiente para Iuri. Quem o alega não sabe o que é jogar futebol, não sabe o que é ter consciência de que se é muito melhor do que certos colegas e ser preterido porque esses colegas são mais "esforçados", não sabe o que é ter expectativas quanto à progressão numa carreira curta como a de jogador de futebol e sentir, semana após semana, que essa progressão depende de quem não percebe nada do jogo, etc.. Iuri Medeiros é um dos melhores jogadores da sua geração. Tem mau feitio? É irreverente? Acha que é vedeta? Estes jogadores motivam-se pondo-os a jogar, dando-lhe responsabilidades acrescidas. Ninguém com o perfil dele fica melhor jogador por ser castigado. Os castigos vão apenas fazer com que se sinta mais revoltado e com menos vontade de mostrar o que vale. Se querem ensinar-lhe alguma coisa, a ser solidário, por exemplo, façam com que se sinta responsável por alguma coisa: dêem-lhe a responsabilidade de bater os cantos, de usar a braçadeira de capitão, etc.. Enquanto não compreenderem que os jogadores de futebol, nos dias que correm, não cumprem deveres só porque é isso que devem fazer, não compreenderão nada e continuarão a desperdiçar talentos. Para que alguém como Iuri faça em campo o que Abel gostaria que ele fizesse, era preciso que Abel o convencesse de que ele, mais do que um dever a cumprir, tem uma responsabilidade para com ele mesmo. Mas isso, dado o perfil de treinador de Abel, é coisa que dificilmente será capaz de fazer. Esperemos, para o bem de Iuri e do futebol português, que Abel não dure muito tempo nestas funções.

Muito se tem falado do Atlético de Madrid de Diego Simeone esta época. A minha opinião mantém-se mais ou menos a mesma, independentemente de este ano estar envolvido na luta pelo título. Reconheço que, defensivamente, o Atlético é uma equipa que raramente se desorganiza, que defende com muitos homens junto da bola, e que sabe escolher os momentos de pressão. Reconheço também que essas são as únicas virtudes da equipa. O resto é fé, muita fé, níveis de confiança altíssimos, e a equipa mais parecida com o Boavista de Jaime Pacheco desde que deixaram de permitir dez entradas acima do joelho por jogo. O desafio deste fim-de-semana, frente ao rival de Madrid, tirou todas as dúvidas. Mourinho tinha construído uma equipa de caceteiros (até Ozil batia), uma equipa que só com muita boa vontade dos árbitros, sobretudo nos jogos contra o Barcelona, era capaz de terminar a partida com onze jogadores. Passado o período de Mourinho, essa equipa perdeu boa parte desses maus hábitos, salvo talvez os dois animais que jogam como defesas centrais. Devo dizer, porém, que essa equipa, ao pé do Atlético de Madrid de Diego Simeone, era uma equipa de escuteiros. Ao intervalo, este fim-de-semana, quantos jogadores do Atlético de Madrid teriam conseguido permanecer em campo, com um árbitro rigoroso? O Atlético entra em campo com onze arruaceiros, e a arruaça é, sem sombra de qualquer dúvida, a arma pela qual conseguem nivelar as suas partidas. Tudo espremido, o futebol do Atlético de Madrid de Simeone dava talvez para andar a lutar pela manutenção (em termos colectivos, claro). Valem os agarrões, os puxões, as entradas violentas, a agressividade bem à margem das leis, a pressão constante, intimidatória, mesmo, sobre os árbitros, etc.. O Atlético ganha os seus jogos, geralmente, porque empurra - literalmente - os adversários para o seu último reduto, acabando por marcar nalgum lance confuso, num ressalto, ou numa perda de bola qualquer. Raramente se vêm jogadas pensadas. Vencem pelo desgaste, pela garra, pela provocação, pela dureza física. O Boavista de Jaime Pacheco também não jogava futebol. Confesso, todavia, que julgava que equipas que confundem futebol com lutas de galos tivessem os dias contados. Infelizmente, não têm. De tempos a tempos, lá aparece um arruaceiro, secundado por outros arruaceiros, a comandar onze arruaceiros e a gozarem da complacência de quem tem medo de arruaceiros. Como se viu no passado, equipas assim duram enquanto durar aquilo que as anima: a crença de que podem superar-se e a complacência de quem os deixa jogar de acordo com leis diferentes. Quando se acabarem estas coisas - digamos assim - acaba-se tudo. A Diego Simeone auguro, por isso, pouco mais do que augurava a Jaime Pacheco há década e meia: um ou outro título no currículo, talvez um contrato num clube com maiores aspirações, um resto de carreira  repleto de fracassos sucessivos e a posteridade recordando-se eternamente do quão feio era o futebol das suas equipas.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Rosicky e o Arsenal

Há muito que me apetecia escrever um texto sobre Tomás Rosicky, e esta semana surgiu o pretexto ideal. Fruto das várias lesões que tem tido, nos últimos anos, e fruto também da idade avançada, Rosicky não é um titular indiscutível no Arsenal. Ainda assim, e havendo na equipa muitos médios de ataque com as características do checo (Arteta, Wilshere, Ramsey, Cazorla, Ozil), Wenger não deixa de contar com ele, há já várias épocas, e aqui e ali aparece na equipa, quase sempre com enorme qualidade. Devo confessar que, de todos os médios acima referidos, e reconhecendo que Rosicky pode não ser capaz, nesta fase da carreira, de exibir a regularidade de outros, é o meu preferido, seja pela classe inigualável, seja, em termos mais concretos, por dar à equipa coisas que nem mesmo o alemão Ozil é capaz de dar. Entre linhas, com pouco espaço e pouco tempo para decidir, é sem dúvida aquele que melhor lê o que a jogada pede, aquele que mais rapidamente percebe qual a melhor decisão a tomar. É ainda aquele que, em posse, mais pensa na verticalidade, e, se pode fazer a bola entrar entre linhas, recorrendo ao apoio frontal, não passa para o lado nem procura uma solução menos arriscada. Exemplos das suas melhores características são dois dos golos marcados pelo Arsenal na goleada desta semana frente ao Sunderland.



O primeiro golo do Arsenal começa precisamente com a invasão do espaço entre linhas por Rosicky, facilitando a decisão de Podolski, que executa o passe vertical sem dificuldades. Ao mesmo tempo, Wilshere entra sem bola pelo centro, e Rosicky, apercebendo-se disso, rapidamente desvia a bola na direcção do inglês. Com dois passes, o Arsenal não só entrou entre os médios e os defesas adversários como deixou fora da jogada o defesa que saíra em contenção a Rosicky. A decisão de Rosicky, de tão rápida, deixou Wilshere com a bola controlada à frente de um dos centrais e em posição de remate. Não há muitos jogadores com capacidade para decidir tão bem e tão rápido, e ainda menos são os que o conseguem fazer dando a impressão de que não é difícil fazê-lo. O melhor lance do jogo, contudo, estaria reservado para o terceiro golo, um lance cuja finalização, não obstante a qualidade da mesma e não obstante ter sido precisamente da autoria do checo, é o pormenor menos relevante.



O Arsenal é das poucas equipas que procura sistematicamente lances deste tipo, envolvendo vários atletas nas jogadas de ataque, com tabelas curtas a disposicionar os defesas, e Wenger tem todo o mérito nisso. Com Rosicky em campo, no entanto, a probabilidade de estas coisas acontecerem, e a qualidade com que acontecem, é espantosamente diferente. O lance começa com Wilshere a invadir o espaço entre linhas, com Rosicky a lateralizar para Cazorla, não interrompendo a marcha e invadindo o espaço deixado vago pelo médio adversário que saiu a Cazorla, e com o espanhol a dar de primeira em Wilshere. Wilshere, respeitando o movimento do checo, dá por sua vez de primeira, deixando Rosicky de frente para o lance, só com a linha defensiva pela frente. Com três passes e uma simples triangulação, o portador da bola ficou assim à frente da linha de meio-campo e de frente para a baliza. Se isto já era óptimo, o que Rosicky fez de seguida foi ainda melhor. Sem muito espaço, e não havendo qualquer desposicionamento da defesa contrária, solicitou de primeira Giroud, apesar de o francês praticamente não ter espaço e estar obrigado a jogar de primeira, e desmarcou-se por entre um central e o lateral-esquerdo. Giroud, percebendo as intenções do colega, devolveu de primeira, entre os dois centrais, e deixou Rosicky cara a cara com o guarda-redes adversário. A finalização do checo é primorosa, mas todo o lance é de absoluto génio. Com cinco toques na bola, e envolvendo quatro jogadores, o Arsenal entrou em progressão pelo centro do bloco adversário, um bloco que, de resto, estava bem organizado no início do lance. Embora o espaço não fosse muito e não houvesse grande liberdade para aproveitar, a equipa londrina arranjou maneira de entrar por onde é letal entrar, e soube criar uma situação de golo clara sem precisar de um erro do adverário para o fazer.

Jogar futebol é essencialmente, fazer coisas destas, e é por estas e por outras que a equipa de Wenger, não tendo o orçamento que alguns dos rivais têm e não tendo uma equipa especialmente atlética, se manteve na alta roda do futebol europeu nos últimos anos. Muitos são aqueles que têm criticado o treinador francês ao longo dos últimos anos, sobretudo por não ganhar títulos há muito tempo, mas poucos têm sido capazes de explicar a regularidade impressionante do Arsenal. Mesmo não ganhando nada há muito tempo, nunca fez pior do que o quarto lugar, discutiu várias vezes o título com outras equipas, e apurou-se sempre para a fase das eliminatórias na Liga dos Campeões, algo que, por exemplo, Alex Ferguson não foi capaz de fazer. Disse o ano passado que, caso o Arsenal não perdesse nenhum jogador, e dadas as mudanças que se anunciavam em Manchester, os comandados de Wenger seriam novamente candidatos ao título. Embora outros tenham achado que era uma patetice, e que o mais certo era o Arsenal ser ultrapassado por clubes em ascensão como o Tottenham, justifiquei a minha opinião com base não só na regularidade da sequipas  de Wenger e na maturidade que, este ano, esta equipa atingiria, mas também no tipo de futebol que preferencialmente praticam. Esse tipo de futebol, que esta jogada tão bem exemplifica, é único em Inglaterra. E é esse tipo de futebol o mais eficaz para vencer adversários que fazem do suor e da entrega as armas preferenciais. Num campeonato em que a principal virtude é a capacidade atlética, só há duas maneiras de uma equipa se superiorizar às outras: ou ter uma equipa mais forte que as outras, do ponto de vista atlético, ou ser uma equipa diferente. Não podendo competir, em termos orçamentais, com os principais emblemas britânicos, o Arsenal de Wenger só pôde manter-se ao nível deles recorrendo à segunda hipótese. E, este ano, parece estar finalmente a colher os frutos dessa escolha. Ainda é cedo para perceber o que pode esta equipa fazer, na recta final da prova (se bem que a saída da Champions que se anuncia possa ser benéfica para as aspirações internas da equipa), mas estar na corrida pelo título a três meses do final da competição é já um murro no estômago dos que, com todas as certezas do mundo, achavam que Wenger era um falhado. Quanto a Rosicky, em quantas equipas do topo europeu seria ele opção? Quantas equipas, daquelas que lutam sistematicamente pelo campeonato e que têm algumas ambições europeias, manteriam durante tantos anos um jogador que, apesar de virtuoso, não é especialmente veloz, aguerrido ou combativo, um jogador que fisicamente é algo frágil e que já não vai para novo? Rosicky pode não ser das principais opções de Wenger, mas é com certeza o melhor exemplo do que o francês entende ser este desporto. Para aqueles que gostam de futebol, cada toque na bola de Rosicky é um momento para mais tarde recordar. Como não se sabe quanto mais durará, e se outros serão capazes de fazê-lo no futuro, sugeria que se aproveitasse ao máximo as coisas que ele tem para nos oferecer.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Uma Tabela e um Golo

Neymar marcou um grande golo, assim como Messi, mas é o quarto golo do Barcelona, o golo de Pedro, que, na minha opinião, merece menção na goleada do Barcelona, este fim-de-semana, diante do Rayo Vallecano. É verdade que o lance ocorre numa altura da partida em que os jogadores do Rayo Vallecano já tinha entregado o jogo e estavam conformados com a derrota, e é também verdade que a oposição do adversário, no lance em questão, é muito deficiente, com Fabregas a gozar de muito espaço no meio e, sobretudo, a equipa a iniciar a abordagem ao lance praticamente numa única linha defensiva, com os seus jogadores uns em cima dos outros. Nada disso, porém, invalida que o lance tenha sido superiormente trabalhado por Fabregas e Iniesta, e mais uma vez se demonstra que uma simples tabela, desde que bem executada, pode servir para ultrapassar uma defesa inteira.



O lance inicia-se com Fabregas a invadir o espaço central. Dois jogadores, de perfil, saem-lhe ao encalço, posicionando-se numa linha à frente da linha defensiva. Ao mesmo tempo, Adriano abre na esquerda, o que faz com que o lateral direito do Rayo abra e suba ligeiramente. Ao perceber que estão criadas as condições ideais para a penetração, Iniesta solicita o passe vertical entre as duas linhas defensivas e entre os dois médios de perfil. Sem hesitar, Fabregas dá em Iniesta e inicia a desmarcação para o espaço deixado em aberto pelo movimento do lateral direito, que se preocupara em demasia com Adriano e quebrara a linha defensiva. A partir daqui, era uma questão de a bola entrar no sítio certo, coisa que aconteceu. Mesmo que o passe de calcanhar de Iniesta não permitisse a Fabregas ultrapassar, de uma só vez, toda a defesa adversária (o que só aconteceu porque Zé Castro tentou ir pressionar Iniesta e a bola acabou por passar entre ele e o outro central), permitiria, com toda a certeza, que ultrapassasse os dois médios.

Com uma simples tabela, e envolvendo somente dois jogadores, um médio é pois capaz de passar por uma linha inteira de médios. Note-se, aliás, que entre a linha defensiva do Rayo e os dois médios que formam a outra linha não há mais do que 3 ou 4 metros. Significa isto que, por mais próximas que estejam dispostas as linhas  de defesa e meio-campo do adversário, há formas de uma equipa entrar nelas em progressão. Defender com duas linhas acarreta, pois, este problema, o de serem precisos menos toques para que aquele que conduz a bola fique apenas com a linha de defesa pela frente. De igual modo, ilustra este lance também aquele que me parece ser o principal problema, em termos defensivos, de um duplo-pivot. Por mais perto que joguem entre eles, e por mais perto que joguem da linha defensiva, é sempre possível colocar um passe vertical ou solicitar uma tabela entre os dois. Com três médios, dispostos em duas linhas diferentes, este problema não se põe: se um passe entrar entre dois médios mais ofensivos, há o terceiro, no meio e atrás deles; se, com uma tabela, a linha dos médios mais ofensivos for ultrapassada, há ainda a linha do médio mais defensivo para ultrapassar. Contra equipas que defendem de forma tão primária, e ainda por cima com laterais que não respeitam os princípios básicos de defesa à zona, sendo atraídos para fora por quem abre nas alas, as progressões pelo centro dos catalães continuam, por isso, a ser muitíssimo eficazes. E, assim, o futebol do Barça, se bem que longe do que foi com Guardiola, continua a ser das melhores coisas que se pode ver num campo de futebol.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Guardiola e os Dois Médios

Talvez seja prematuro tecer considerações acerca deste assunto, mas não posso deixar de sentir alguma perplexidade por Guardiola ter feito actuar, pelo menos nos dois últimos jogos do Bayern, dois médios de perfil à frente da defesa. O 4231 nunca foi um esquema que Guardiola apreciasse. Ao chegar a Munique, aliás, a primeira mudança que operou foi precisamente na disposição do trio de meio-campo, invertendo o vértice do triângulo e passando a utilizar apenas um médio-defensivo. Se as coisas estivessem a correr mal, ainda compreendia, não concordando, a necessidade de voltar a arrumar a equipa como Heynckes a arrumava. Mas Guardiola teve, nestes primeiros meses em solo alemão, um sucesso estrondoso: já ganhou duas competições, tem o título alemão, a meio do campeonato, praticamente no bolso, sofreu uma única derrota depois do jogo inaugural, e numa partida em que, claramente, os jogadores sentiram que podiam relaxar, e quase toda a gente já reconheceu que, em pouco tempo, conseguiu pôr o seu Bayern a jogar à sua imagem. Dadas estas circunstâncias, que razão há para adoptar um modelo táctico que não é da sua preferência, que nunca utilizou na Catalunha, e com o qual rompeu, mesmo tendo sido o modelo ganhador do ano passado, assim que chegou à Baviera?

Não encontro muitas explicações para o facto, e estou algo apreensivo quanto ao futuro da equipa bávara. A menos que seja uma experiência provisória, regressar ao duplo-pivot de Heynckes parece-me um enorme retrocesso. Evidentemente, jogar com Lahm e Thiago no meio-campo não é o mesmo que jogar com Schweinsteiger e Luís Gustavo. Mas uma parte muito significativa daquilo que a equipa de Guardiola geralmente é capaz de fazer (sair a jogar pelos centrais e pelo médio-defensivo, envolver muitos jogadores no processo ofensivo, capacidade para jogar entre linhas, pressionar alto) fica comprometida com a mudança de posicionamento no miolo. Não vi os jogos com o Estugarda e com o Borussia de Monchengladbach, de maneira que não posso saber se esta mudança foi algo que Guardiola preparou durante esta pausa de Inverno ou se foi um recurso circunstancial, usado apenas nos últimos dois jogos, frente ao Eintracht de Frankfurt e frente ao Nuremberga, por razões que desconheço. De resto, Guardiola mostrou-se satisfeito com o que os seus jogadores fizeram contra a equipa de Frankfurt. É verdade que golearam e que podiam ter goleado por números ainda maiores, mas fiquei com a sensação de que o jogo correu de feição aos bávaros, que o adversário baixou os braços demasiado cedo, e que foi tudo tão fácil que não se podiam tirar grandes ilações acerca do desempenho da equipa de Guardiola. A verdade é que a minha relutância tinha razão de ser, e esta semana, em Nuremberga, ficou bem à vista de todos o quão problemático pode ser jogar num modelo como este. O Bayern ganhou, é certo, mas fez talvez a pior exibição da época. Foi profundamente incapaz de controlar o jogo, de sair a jogar como é hábito, de entrar entre linhas e desenvolver o seu jogo dentro do bloco adversário, viu-se forçado a recorrer, por sistema, a um jogo muito mais directo e chegou mesmo a ter menos posse de bola do que o adversário. Com dois médios junto à defesa, e apenas Gotze solto entre os médios e os defesas adversários, a equipa perde capacidade de pressão, permite que os médios adversários pressionem mais à frente e fica com menos apoios próximos em zonas mais ofensivas. Marcou o primeiro golo na primeira oportunidade que teve, e já depois de o adversário ter tido quatro ou cinco boas ocasiões, mas nunca foi dominador como costuma ser. Este fim-de-semana, ainda que fosse Guardiola quem estivesse no banco, foi o Bayern de Heynckes que esteve dentro das quatro linhas.

Não acreditando que isto consista numa mudança de crenças de Guardiola acerca do jogo, consigo avançar com duas ou três razões que expliquem esta mudança táctica, mas nenhuma delas me parece inteiramente satisfatória. A mais plausível parece-me ser a necessidade de soltar Mario Gotze entre linhas. Para que Gotze se preocupe exclusivamente com acções sem bola, em procurar oferecer as melhores linhas de passe dentro do bloco adversário, Guardiola terá sentido que precisa de um segundo médio fora do bloco. Ainda que faça algum sentido e ainda que muitos treinadores optem por este tipo de solução, é absolutamente estranho nas equipas de Guardiola. Xavi e Iniesta tanto jogavam fora do bloco, quando isso se exigia, como ocupavam rapidamente posições dentro do bloco adversário, para oferecerem uma linha de passe vertical. Uma das forças do seu Barcelona, aliás, era precisamente não ter jogadores vocacionados para um certo tipo de acções. Cada jogador reagia como a situação de jogo mandava, e era isso que tornava imprevisível a acção de cada um deles. Forçar Gotze a jogar entre linhas e Thiago junto a Lahm é especializar o que cada médio deve fazer sem bola, e parece-me que Guardiola nunca foi a favor dessa solução. De resto, nos primeiros meses em Munique, se havia alguém responsável por aparecer sistematicamente entre linhas, era o avançado. Os médios apareciam lá de vez em quando, sempre que a jogada assim o pedia, mas não por indicações prévias. Com o meio-campo desta maneira disposto, não há permutas constantes e não se favorece, de modo algum, a troca de bola interior. Por isso, e ainda que seja a resposta mais óbvia, não me parece plenamente justificável. Há ainda a possibilidade de Guardiola ter sentido que, com Mandzukic em campo, que é um avançado que não sabe nem tem competência para baixar e aparecer entre linhas, precisa que alguém o faça. Sobre Mandzukic já disse muita coisa e a minha opinião acerca dele é consistente com esta possibilidade. A ser verdade, Mandzukic seria o principal responsável por uma mudança táctica que me parece, claramente, perniciosa em termos colectivos. Consigo ainda pensar numa terceira possibilidade, a de Guardiola estar a preparar a equipa para certos jogos ou certos momentos de jogos futuros. Com o campeonato praticamente ganho, e alguns processos já consolidados, é possível conjecturar que Guardiola queira que a sua equipa se saiba comportar de uma segunda maneira, menos interessada em fazer da posse a sua maior arma, mais equilibrada atrás e com menos gente à frente, sobretudo para gerir vantagens sem bola. Ora, gerir vantagens sem bola é coisa que Guardiola nunca fez e coisa que me parece completamente oposta àquilo em que acredita. Daí que também esta solução, a de estar a preparar a equipa para uma competição mais exigente, do ponto de vista táctico, como seja a Liga dos Campeões, não me parece muito certa. Sejam quais forem os motivos, uma coisa parece óbvia: em 4231, o Bayern de Guardiola é muito mais parecido com o Bayern de Heynckes do que com o Barcelona de Guardiola. E, se os últimos 5 ou 6 meses mostraram que é bem possível pôr outras equipas a jogar à Barça, abdicar disso parece-me um contrassenso.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eusébio

Não quero ser hipócrita. Aquilo que costumo fazer é falar de um jogo que não existia nas décadas de 60 e 70. Nessa altura, o futebol era de tal maneira diferente que as considerações que faço, respeitantes ao jogo que hoje existe, não têm, na sua grande maioria, qualquer validade. O jogo evoluiu, e é daquilo que é hoje que tenho o hábito e sei falar. Tenho pouco a dizer, por isso, acerca do que era o futebol há 30 ou 40 anos, e aliás são pouquíssimos os textos que versam sobre a História do Futebol, sobre jogos antigos, sobre jogadores lendários, etc.. Quando criei este espaço, juntamente com o Gonçalo, o objectivo era falar de um jogo que tinha evoluído de tal maneira que devia ser perspectivado de um modo completamente diferente do que se fazia nessa altura. Temos sido fiéis a isso, e não faria sentido deixá-lo de ser. Por essa razão, os grandes jogadores do passado raramente foram tema de um texto. Não vou ser hipócrita agora e dizer que o Eusébio foi isto e aquilo enquanto jogador de futebol. Além de não o ter visto jogar, de conhecer apenas os seus momentos mais famosos (o que é manifestamente pouco para esboçar ideias concretas acerca do jogador que foi), não posso falar dele, e do futebol que se praticava na altura, com as ideias que tenho acerca de futebol, pois elas foram moldadas por aquilo em que o futebol se transformou nos últimos 20 anos. Para ser sincero, nem de Maradona já posso falar sem antes estipular que o jogo que jogava era outro.

Do que posso falar é de lendas. E falar disso é falar, na minha opinião, de tudo o que é honesto falar acerca de Eusébio. Tirando aqueles que ainda o viram jogar, que acompanharam os momentos áureos da sua carreira in loco, tirando portanto, uma geração de adeptos de futebol que, nos dias que correm, é uma minoria, uma geração que, de facto, pode recordar com emoção alguns dos principais momentos da sua carreira, que vibrou com certos episódios da sua vida futebolística, os restantes adeptos do jogo relacionam-se com Eusébio como nos relacionamos com qualquer herói mitológico. Desde que era criança que sei que Eusébio (como, de resto, os nomes maiores da História do Futebol) é imortal. Para mim, nunca foi o jogador de futebol e muito menos foi o cidadão Eusébio da Silva Ferreira; foi sempre uma personagem de livros, a estátua no Estádio da Luz, o deus olímpico. Sim, sabia que Eusébio estava vivo, que a mesma pessoa que tinha feito todas aquelas coisas que via em imagens de arquivo ainda respirava. Mas Eusébio nunca foi, para mim, a pessoa que via na televisão, sempre que a selecção ia jogar ao estrangeiro, por exemplo. Foi sempre, desde que me lembro, uma lenda, uma lenda sobre a qual aprendi a ver imagens antigas e a ler livros sobre a História do jogo. O facto de ainda estar vivo era mera contingência; o seu significado estava há muito morto, no sentido em que estava há muito petrificado na memória colectiva. Aquilo que Eusébio será daqui para a frente já o era há muito anos, e é aquilo que vai ser agora, ou seja, um mito, que foi sempre para mim. Para mim, e quero acreditar que para muita gente também, o que aconteceu este fim-de-semana foi um pormenor insignificante; para mim, Eusébio morrera já há muito tempo. E com a sua morte nascera já há muito tempo a lenda. Transformar-se em lenda é, talvez, um dos objectivos mais nobres de quem anda vivo, pelo que dizer que Eusébio não morreu há três dias mas há três décadas e que, de lá para cá, o que tem vivido é a lenda, é tão-somente a melhor homenagem que me parece possível prestar à pessoa que foi.

Tenho muitas dúvidas, de resto, que a História do Futebol continue a criar lendas como as que criou em tempos. Não que não me pareça que alguns dos jogadores actuais venham a ficar na História, pois creio que vão ficar. Mas Eusébio, como muito poucos, parece ter ficado nela sem mácula. Nem Pelé, nem Maradona, por exemplo, são figuras tão consensuais como a de Eusébio. Não o são, claro está, porque de Eusébio não se conhece quase nada que macule o jogador que foi. É como se, tal como dizia atrás, tivesse morrido no momento em que parou de jogar futebol. Um dos atributos que, nos últimos dias, mais se referiu foi a humildade de Eusébio. Na minha opinião, a humildade é a última das razões pelas quais pode alguém imortalizar-se, a menos que se tivesse imortalizado por ser caridoso. Eusébio foi jogador de futebol; não foi santo. Por questões políticas ou por questões religiosas, as pessoas têm tendência a confundir o talento de alguém que foi exemplar numa determinada actividade com o carácter público dessa pessoa. Se Eusébio não tivesse sido dos melhores jogadores de sempre, ninguém se lembraria dele, por mais humilde que fosse. Aclamar a sua humildade é, deste ponto de vista, rebaixá-lo. Não, Eusébio não foi humilde. Ou melhor, não interessa para nada que tenha ou não tenha sido humilde. Foi, isso sim, jogador de futebol, e é por isso que é lembrado. É uma figura mais consensual do que Pelé ou Maradona não porque tenha sido mais humilde do que estes, mas porque, depois de terminar a sua carreira, não esteve ligado ao futebol, quer politicamente, como Pelé, quer enquanto treinador, como Maradona. Ao contrário destes, e ainda que tenha continuado a aparecer com regularidade em estádios, Eusébio não teve ligação oficial àquilo que se passa dentro do relvado: assim que se reformou, imortalizou-se. O último pontapé que deu numa bola transformou-se na sua eternidade. É por essa razão que me parece dificílimo que o Futebol actual seja capaz de criar lendas como as daquele tempo. A mediatização actual divulga demasiado acerca das pessoas e destrói os mitos. Quando se ouve falar em Eusébio, pensa-se em heróis homéricos, em pessoas que foram capazes de proezas inexplicáveis. Pensa-se nisso porque a figura humana não macula a figura divina que entretanto dela se esculpiu. Como qualquer mártir, para quem a decadência da velhice, pela morte prematura, não se torna pública, Eusébio ficou sempre (e essa parece-me uma dos seus maiores feitos) o jogador que foi.

É também por isso que, quando dizem que Eusébio (ou qualquer outro jogador lendário), seria hoje muito superior a qualquer outro jogador, fico sempre sem saber o que querem dizer. Se querem dizer que, com as condições de treino e com os estímulos que o futebol actual propicia, um talento natural como o de Eusébio seria infinitamente maior, fico sempre com a sensação de que acreditam em potenciais de talento predefinidos que se desenvolvem mais ou menos, consoante o meio em que crescem; se querem dizer, pelo contrário, que o talento de Eusébio, no futebol actual, se manifestaria da mesma maneira, fico com a sensação de que acreditam que hoje em dia é tão fácil fazer o que Eusébio fazia como o era antigamente. O futebol é diferente. Individualmente e colectivamente, é muito mais evoluído, e é impossível a alguém ser bem sucedido a fazer o que Eusébio fazia, com sucesso, na sua altura. Evidentemente, o talento de Eusébio seria diferente, porque teria crescido num meio diferente, com índices competitivos diferentes, etc.. Mas isso não significa que desenvolvesse as suas aptidões infinitamente. As pessoas parecem acreditar que, transpondo talentos de uma época para a outra, as diferenças do jogador mais talentoso para os restantes se mantêm. Isto é, acham que, como o Eusébio eram muito melhor do que os restantes jogadores, seria hoje em dia muito melhor do que os jogadores actuais. Isso é falacioso. O talento dele não seria maior em proporção; seria de tipo diferente. O futebol actual exige coisas aos atletas que não exigia antes, e portanto Eusébio seria um jogador de espécie diferente. Eusébio foi uma lenda precisamente porque jogou num tempo em que, por o futebol não estar ainda muito evoluído, sobretudo do ponto de vista técnico e táctico, e por não haver a mediatização que há hoje, era propícia a criação de lendas. Isso não lhe tira valor. Não se pode saber como seria hoje em dia, enquanto jogador, porque não se pode saber como desenvolveria as suas capacidades futebolísticas. O que se sabe é que foi o que foi na época em que o foi. E, nessa época, foi um dos maiores. Que se tenha imortalizado por isso é tudo o que vale a pena preservar.


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Virar o Flanco

Sendo um daqueles lugares-comuns mais repetidos, importa analisar a pertinência que envolve a necessidade de "virar o flanco". Como é sabido, simpatizo pouquíssimo com lugares-comuns e, sobretudo, com a ideia de que uma receita, verificando-se um sintoma, se deve aplicar indiscriminadamente. A maioria dos comentadores de futebol, ao ver uma jogada a ocorrer junto a uma das linhas, e uma grande aglomeração de jogadores nessa zona do campo, defende automaticamente que a equipa que tem a bola deve virar o quanto antes o flanco ao jogo, solicitando qualquer colega à largura do terreno. O motivo pelo qual o defendem é só um: a crença de que se deve atacar sempre por onde há menos adversários. É contra esta crença que este texto fará fogo.

O que se ganha realmente quando se vira o flanco? Dirão aqueles a quem os lugares-comuns pouca comichão fazem que se ganha espaço e tempo, senão mesmo a possibilidade de progredir imediatamente no terreno de jogo. Pessoalmente, aceito que se ganhem estas três coisas; o que já tenho dificuldades em aceitar é que alguma delas seja realmente aquilo com que uma equipa que ataca mais se deve preocupar. Para que serve o espaço e o tempo? E por que é que é melhor a bola estar uns metros mais à frente? A finalidade de um lance de ataque é, a cada instante, estar mais perto da baliza adversária do que no instante anterior? É ir tendo cada vez mais espaço? Não. Pelo menos em ataque organizado, a única finalidade, em cada acção ofensiva, é desposicionar o colectivo adversário, ou seja, melhorar as condições de ataque. Isso pode ser feito com muito ou com pouco espaço, em muito ou em pouco tempo, e de muito longe ou muito perto da baliza adversária. O que é que interessa progredir constantemente, se as condições em que isso é feito não são as melhores? Nenhuma das três coisas atrás mencionadas como benefícios de se virar o flanco são, portanto, minimamente relevantes para quem desenha um ataque. Resta, pois, saber se virar o flanco não acarreta ainda desposicionar o colectivo adversário ou melhorar as condições em que se ataca, os verdadeiros objectivos da equipa que tem a bola. E aí a minha resposta é: depende. Depende do posicionamento defensivo dos adversários, depende do posicionamento dos próprios colegas, depende do que estiver a ocorrer no flanco em que está a bola, depende do que estiver a ocorrer ou que é previsível que venha a ocorrer no flanco para onde a bola irá, depende das condições que houver para fazer a variação, etc.. Enfim, depende de todas as circunstâncias.

Normalmente, pensa-se em virar o flanco quando se ataca por um dos flancos, quando esse flanco está demasiado congestionado e quando há um colega solto, no flanco contrário, a quem é possível enviar a bola. Vê-se um jogador solto do lado contrário e assume-se imediatamente que essa é uma opção melhor do que tentar progredir por onde há muita gente. Mas será que o é? Na verdade, não é só a equipa adversária que tem pouca gente do lado contrário; por norma, é também quem ataca. Trocando o flanco ao jogo não se põe a bola apenas onde há um aglomerado de adversários menor; põe-se a bola também num sítio onde há menos colegas, entregando assim o lance à capacidade de um indivíduo. É verdade que, tirando a bola do flanco congestionado, se obriga o adversário a bascular, a desarmar a sua zona de pressão e a refazê-la noutro lado; mas também se dificulta o trabalho colectivo de quem ataca. Com menos jogadores, menos possibilidades de combinação existem. Se o adversário tem de se reorganizar, quem ataca tem também de reocupar posições, tem também de perceber que espaços sobram para invadir, qual a arrumação defensiva do adversário com que pode contar, etc. Para ser sincero, não vejo numa mudança de flanco comum ganhos significativos. Tira-se a bola de um sítio congestionado, mas não se tira vantagens disso. No fundo, é apenas uma forma de reiniciar a jogada, com a agravante de obrigar quase toda a equipa a ocupar rapidamente novas posições, o que provoca maior desgaste. Nos momentos imediatamente a seguir à variação do flanco, a equipa que tem a bola fica inclusivamente com poucas soluções de passe e quaisquer movimentos de aproximação são acompanhados do movimento de basculação natural dos defesas. Na verdade, não me parece ser melhor variar o flanco do que atrasar para um central, por exemplo. Ganha-se tempo e espaço, como com a outra alternativa, e sai-se da zona de pressão sem que os jogadores envolvidos sejam forçados a correr rapidamente para o flanco oposto para dar uma opção de passe ao colega que recebeu a bola.

De resto, há poucas situações em que a equipa adversária está mais desposicionada do que em acções de pressão. Pressionar implica sempre desposicionamentos, ainda que breves e ainda que instantaneamente corrigidos pelo colectivo. Nesse sentido, virar o flanco não é mais do que reiniciar a jogada de ataque e, por conseguinte, não é mais do que convidar um adversário que estava naturalmente desorganizado (ou que tinha tendência a desorganizar-se em cada troca de bola), por força da pressão que fazia sobre um dos flancos, se reorganize lentamente. Uma tabela, um passe vertical para um apoio entre linhas, uma pequena lateralização, um passe e uma devolução curta - tudo isto me parecem maneiras muito mais eficazes de ultrapassar uma acção de pressão junto a um flanco do que a simples variação de jogo. Evidentemente, há ocasiões em que nenhuma destas coisas é possível ou razoável. Nessas alturas, parece-me que a melhor forma de agir é recuar, dar no central, obrigar o adversário a desfazer a pressão, e recomeçar lenta e organizadamente a construção noutro sítio. Virar o flanco parece-me, por isso, uma das coisas menos indicadas quando a equipa que ataca se vê encurralada num dos flancos. Pode, é claro, ser a melhor decisão a tomar, mas apenas em circunstâncias muito particulares. Não se pode ainda esquecer que a organização defensiva do adversário, sobretudo se esse adversário for competente, depende essencialmente da posição da bola em relação à baliza que defende. Ou seja, essa organização só se desfaz no momento imediatamente a seguir à bola mudar de posição, altura essa em que, colectivamente, há um rearranjo no sentido de recuperar essa organização. Uma variação de flanco é apenas uma mudança do posicionamento da bola e implica, por isso, apenas um momento de reorganização defensiva. Dois passes curtos, por exemplo, implicam duas reorganizações defensivas. E implicam, por arrasto, mais tempo de desorganização do adversário. Se a verdadeira finalidade de uma cadeia de acções ofensivas é desposicionar o colectivo adversário, então virar o flanco é menos útil do que a maioria das outras acções. Se, em vez de variarem o centro do jogo quando não conseguem progredir por um flanco, as equipas se preocupassem a criar condições para sair de zonas de muita densidade populacional, através de movimentos de aproximação, de passes e devoluções, de tabelas, de movimentações constantes de quem não tem a bola, etc., seriam sem dúvida alguma equipas muito mais competentes. Como noutros casos, já era tempo de se perceber que certas ideias feitas acerca do jogo pouco sentido fazem, nos dias que correm. Este é só mais um caso.