quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Eusébio

Não quero ser hipócrita. Aquilo que costumo fazer é falar de um jogo que não existia nas décadas de 60 e 70. Nessa altura, o futebol era de tal maneira diferente que as considerações que faço, respeitantes ao jogo que hoje existe, não têm, na sua grande maioria, qualquer validade. O jogo evoluiu, e é daquilo que é hoje que tenho o hábito e sei falar. Tenho pouco a dizer, por isso, acerca do que era o futebol há 30 ou 40 anos, e aliás são pouquíssimos os textos que versam sobre a História do Futebol, sobre jogos antigos, sobre jogadores lendários, etc.. Quando criei este espaço, juntamente com o Gonçalo, o objectivo era falar de um jogo que tinha evoluído de tal maneira que devia ser perspectivado de um modo completamente diferente do que se fazia nessa altura. Temos sido fiéis a isso, e não faria sentido deixá-lo de ser. Por essa razão, os grandes jogadores do passado raramente foram tema de um texto. Não vou ser hipócrita agora e dizer que o Eusébio foi isto e aquilo enquanto jogador de futebol. Além de não o ter visto jogar, de conhecer apenas os seus momentos mais famosos (o que é manifestamente pouco para esboçar ideias concretas acerca do jogador que foi), não posso falar dele, e do futebol que se praticava na altura, com as ideias que tenho acerca de futebol, pois elas foram moldadas por aquilo em que o futebol se transformou nos últimos 20 anos. Para ser sincero, nem de Maradona já posso falar sem antes estipular que o jogo que jogava era outro.

Do que posso falar é de lendas. E falar disso é falar, na minha opinião, de tudo o que é honesto falar acerca de Eusébio. Tirando aqueles que ainda o viram jogar, que acompanharam os momentos áureos da sua carreira in loco, tirando portanto, uma geração de adeptos de futebol que, nos dias que correm, é uma minoria, uma geração que, de facto, pode recordar com emoção alguns dos principais momentos da sua carreira, que vibrou com certos episódios da sua vida futebolística, os restantes adeptos do jogo relacionam-se com Eusébio como nos relacionamos com qualquer herói mitológico. Desde que era criança que sei que Eusébio (como, de resto, os nomes maiores da História do Futebol) é imortal. Para mim, nunca foi o jogador de futebol e muito menos foi o cidadão Eusébio da Silva Ferreira; foi sempre uma personagem de livros, a estátua no Estádio da Luz, o deus olímpico. Sim, sabia que Eusébio estava vivo, que a mesma pessoa que tinha feito todas aquelas coisas que via em imagens de arquivo ainda respirava. Mas Eusébio nunca foi, para mim, a pessoa que via na televisão, sempre que a selecção ia jogar ao estrangeiro, por exemplo. Foi sempre, desde que me lembro, uma lenda, uma lenda sobre a qual aprendi a ver imagens antigas e a ler livros sobre a História do jogo. O facto de ainda estar vivo era mera contingência; o seu significado estava há muito morto, no sentido em que estava há muito petrificado na memória colectiva. Aquilo que Eusébio será daqui para a frente já o era há muito anos, e é aquilo que vai ser agora, ou seja, um mito, que foi sempre para mim. Para mim, e quero acreditar que para muita gente também, o que aconteceu este fim-de-semana foi um pormenor insignificante; para mim, Eusébio morrera já há muito tempo. E com a sua morte nascera já há muito tempo a lenda. Transformar-se em lenda é, talvez, um dos objectivos mais nobres de quem anda vivo, pelo que dizer que Eusébio não morreu há três dias mas há três décadas e que, de lá para cá, o que tem vivido é a lenda, é tão-somente a melhor homenagem que me parece possível prestar à pessoa que foi.

Tenho muitas dúvidas, de resto, que a História do Futebol continue a criar lendas como as que criou em tempos. Não que não me pareça que alguns dos jogadores actuais venham a ficar na História, pois creio que vão ficar. Mas Eusébio, como muito poucos, parece ter ficado nela sem mácula. Nem Pelé, nem Maradona, por exemplo, são figuras tão consensuais como a de Eusébio. Não o são, claro está, porque de Eusébio não se conhece quase nada que macule o jogador que foi. É como se, tal como dizia atrás, tivesse morrido no momento em que parou de jogar futebol. Um dos atributos que, nos últimos dias, mais se referiu foi a humildade de Eusébio. Na minha opinião, a humildade é a última das razões pelas quais pode alguém imortalizar-se, a menos que se tivesse imortalizado por ser caridoso. Eusébio foi jogador de futebol; não foi santo. Por questões políticas ou por questões religiosas, as pessoas têm tendência a confundir o talento de alguém que foi exemplar numa determinada actividade com o carácter público dessa pessoa. Se Eusébio não tivesse sido dos melhores jogadores de sempre, ninguém se lembraria dele, por mais humilde que fosse. Aclamar a sua humildade é, deste ponto de vista, rebaixá-lo. Não, Eusébio não foi humilde. Ou melhor, não interessa para nada que tenha ou não tenha sido humilde. Foi, isso sim, jogador de futebol, e é por isso que é lembrado. É uma figura mais consensual do que Pelé ou Maradona não porque tenha sido mais humilde do que estes, mas porque, depois de terminar a sua carreira, não esteve ligado ao futebol, quer politicamente, como Pelé, quer enquanto treinador, como Maradona. Ao contrário destes, e ainda que tenha continuado a aparecer com regularidade em estádios, Eusébio não teve ligação oficial àquilo que se passa dentro do relvado: assim que se reformou, imortalizou-se. O último pontapé que deu numa bola transformou-se na sua eternidade. É por essa razão que me parece dificílimo que o Futebol actual seja capaz de criar lendas como as daquele tempo. A mediatização actual divulga demasiado acerca das pessoas e destrói os mitos. Quando se ouve falar em Eusébio, pensa-se em heróis homéricos, em pessoas que foram capazes de proezas inexplicáveis. Pensa-se nisso porque a figura humana não macula a figura divina que entretanto dela se esculpiu. Como qualquer mártir, para quem a decadência da velhice, pela morte prematura, não se torna pública, Eusébio ficou sempre (e essa parece-me uma dos seus maiores feitos) o jogador que foi.

É também por isso que, quando dizem que Eusébio (ou qualquer outro jogador lendário), seria hoje muito superior a qualquer outro jogador, fico sempre sem saber o que querem dizer. Se querem dizer que, com as condições de treino e com os estímulos que o futebol actual propicia, um talento natural como o de Eusébio seria infinitamente maior, fico sempre com a sensação de que acreditam em potenciais de talento predefinidos que se desenvolvem mais ou menos, consoante o meio em que crescem; se querem dizer, pelo contrário, que o talento de Eusébio, no futebol actual, se manifestaria da mesma maneira, fico com a sensação de que acreditam que hoje em dia é tão fácil fazer o que Eusébio fazia como o era antigamente. O futebol é diferente. Individualmente e colectivamente, é muito mais evoluído, e é impossível a alguém ser bem sucedido a fazer o que Eusébio fazia, com sucesso, na sua altura. Evidentemente, o talento de Eusébio seria diferente, porque teria crescido num meio diferente, com índices competitivos diferentes, etc.. Mas isso não significa que desenvolvesse as suas aptidões infinitamente. As pessoas parecem acreditar que, transpondo talentos de uma época para a outra, as diferenças do jogador mais talentoso para os restantes se mantêm. Isto é, acham que, como o Eusébio eram muito melhor do que os restantes jogadores, seria hoje em dia muito melhor do que os jogadores actuais. Isso é falacioso. O talento dele não seria maior em proporção; seria de tipo diferente. O futebol actual exige coisas aos atletas que não exigia antes, e portanto Eusébio seria um jogador de espécie diferente. Eusébio foi uma lenda precisamente porque jogou num tempo em que, por o futebol não estar ainda muito evoluído, sobretudo do ponto de vista técnico e táctico, e por não haver a mediatização que há hoje, era propícia a criação de lendas. Isso não lhe tira valor. Não se pode saber como seria hoje em dia, enquanto jogador, porque não se pode saber como desenvolveria as suas capacidades futebolísticas. O que se sabe é que foi o que foi na época em que o foi. E, nessa época, foi um dos maiores. Que se tenha imortalizado por isso é tudo o que vale a pena preservar.


9 comentários:

Mike Portugal disse...

O Eusébio é mais consensual porque não teve casos de droga como o Maradona e discussões com jogadores da sua seleção como o Pelé. A sua humildade que é falada agora é mais por causa disso, mas diz quem o conhece pessoalmente que ele era mesmo uma pessoa humilde. E isso é aproveitado agora como mais um elogio para a lista de elogios que lhe fazem.

Quando Pélé falecer de certeza que ninguém irá falar das discussões que teve e dos momentos maus, mas apenas do que foi como jogador e do representou para o Brasil.

Quanto a transpôr jogadores duma época para outra, também concordo com o que dizes. Acho que pelas características físicas de Eusébio e pela sua dedicação ao treino, ele seria semelhante ao Ronaldo (tinha aquela velocidade e potência física, sabia rematar de longe e até marcar livres com potência). Agora isto é tudo teoria. Se seria assim na prática...

Fenómeno disse...

Deixa-me dar-te os parabéns por este texto sobre lendas, nada a acrescentar :)

Mike, em relação a essa comparação (mesmo sendo completamente contra o intuito do texto), penso que, apesar das óbvias semelhanças físicas com Ronaldo, estaria a meio caminho entre ele e Messi, até pela sensibilidade que ele tinha para o futebol (por exemplo no caso cardozo o vale a azevedo). Claro que este meu pensamento é tão válido quanto o teu, só num universo paralelo poderíamos saber quem teria razão :P

DC disse...

O último parágrafo está fantástico.
Vejo muita gente a dizer que hoje Eusébio seria ainda maior e, com base apenas em vídeos, parecem-me afirmações ridículas.

Vendo o vídeo de Eusébio no Portugal-Brasil assistimos a dezenas de remates completamente despropositados (alguns da zona do meio-campo), a dribles constantes, etc...
Ou seja, aquilo a que hoje chamaríamos de más decisões.
Obviamente o futebol era diferente, a organização das equipas era diferente e como tal Eusébio jogava provavelmente duma forma muito eficaz e coerente com o jogo à data.
Agora, se Eusébio tivesse hoje 18 anos, teria necessariamente que ter um perfil ao nível da decisão totalmente diferente. Portanto sim, até se poderia dizer que Eusébio podia ser melhor hoje, mas só podia se intelectualmente conseguisse atingir um nível excelente também. Porque níveis físicos e técnicos muito bons também os vemos no Hulk, por exemplo e em mais umas valentes dezenas de jogadores.

Daí achar que, realmente, esse teu último parágrafo é do melhor que vi, abordando este tema.

Roberto Baggio disse...

Brilhante!

Pedro disse...

Excelente texto.

António Teixeira disse...

Caro Nuno,

O parágrafo de abertura e o último vão de encontro à minha opinião.

Cumprimentos,
António Teixeira

Fernando Pessoa disse...

Gostam do Markovic?

Nuno disse...

Sim. Parece-me é que seria melhor aproveitado ao meio, ao lado do outro avançado, do que numa ala, apenas por causa da velocidade que tem.

Ricardo disse...

Extraordinário, Nuno. E é mesmo só o que há a dizer e preservar deste texto. Obrigado.