segunda-feira, 25 de junho de 2012

Euro 2012 - Quartos de Final

República Checa - Portugal

No final do jogo, ninguém contestava a vitória portuguesa, e o discurso era de que Portugal fizera mais uma excelente exibição. Muito sinceramente, não partilho de opiniões tão inflamadas. Não contesto a vitória, que acho que foi merecida pelo que a segunda parte deu, mas um jogo deve ser analisado ao pormenor, tendo em conta todos os momentos, e as razões pelas quais as coisas aconteceram. Antes da partida, tinha dito que, com Rosicky, a República Checa tinha uma palavra a dizer. No final da partida, fico com a sensação de que, com Rosicky em campo, Portugal viria do intervalo com um resultado negativo para virar. É que a primeira parte lusa foi fraquíssima. Os primeiros trinta minutos foram inteiramente dos checos, e só lhes faltou definirem melhor os lances no último terço do terreno. Não tiveram uma oportunidade de golo clara, mas tiveram vários lances em que, se entrasse o último passe, criavam uma situação de perigo. Portugal, por sua vez, nunca soube circular a bola, e acabou por ceder à tentação de solicitar os homens da frente com passes compridos. É verdade que, numa dessas situações, Ronaldo conseguiu atirar ao poste, mas muitas foram as bolas que se perderam desse jeito. Só nos últimos quinze minutos é que o jogo foi mais equilibrado, mas mais porque os checos perderam qualidade a trocar a bola do que propriamente por mérito português. Paulo Bento disse que só os vinte primeiros minutos é que foram maus, mas a verdade é que, aos 35, filmava-se o banco e os sinais de desespero eram evidentes. A segunda parte foi diferente, mas Portugal não melhorou significativamente na forma como circulava a bola. Foi mais atacante, e conseguiu ser superior, mas apenas porque passou a conseguir fazer uso da única arma colectiva em que é forte: a pressão. Com os checos mais desgastados, e sem qualidade individual para se medirem com os portugueses, a subida das linhas lusas, e a agressividade com que os portugueses pressionavam foi o suficiente para asfixiar o adversário. Quase todos os lances interessantes protagonizados por Portugal nasceram de recuperações de bola em zonas adiantadas, e do aproveitamento da desorganização defensiva dos checos nesse instante. O problema é que, agora, já não há equipas contra as quais a capacidade de pressionar chegue, e isso ficará evidente. Outra coisa interessante que deveria ajudar a reflectir os portugueses é o seguinte: sempre que Portugal, neste europeu, assumiu o jogo, as coisas correram bem; sempre que cedeu a iniciativa, por estratégia, ou por incapacidade, as coisas correram mal. Os primeiros oitenta minutos contra a Alemanha, o tempo entre o segundo golo português e o empate dinamarquês, os primeiros 15 minutos contra a Holanda, e a primeira parte contra a República Checa explicam-se muito mais pela postura portuguesa do que por qualquer outra coisa. Aliás, os resultados destes quartos de final são extraordinários para demonstrar aos tontos que acham que o futebol defensivo é o mais ganhador da História, e aos tontos que acham que defender com autocarros é uma estratégia tão eficaz como outra qualquer, que, por norma, ganha quem mais faz por isso. Portugal resolveu o jogo quando decidiu ser mais ofensivo; a Alemanha deu cabo da estratégia defensiva grega; a França teria certamente sido mais competente se não tivesse sido tão medrosa; e os italianos, ainda que só tenham ganho através das grandes penalidades, estiveram sempre mais perto de se apurar. Curioso é também verificar que 3 dos 4 finalistas deste europeu coincidem com aqueles em que apostei, logo no final da primeira ronda. Nada mau para quem costuma falhar nas previsões, segundo muita gente.

Alemanha - Grécia

A Alemanha tem sido a equipa mais consistente da prova, e finalmente deu uma demonstração de força inequívoca. Sem três atacantes titulares, num jogo que se esperava difícil de resolver, os alemães não tiveram grandes problemas. É verdade que o primeiro golo é o que custa mais, e que o remate de Philip Lahm tornou tudo mais fácil. Mas já antes os alemães tinham conseguido penetrar na defesa grega, e a verdade é que se sentia que a vantagem chegaria a qualquer momento. A qualidade das decisões desta equipa é uma coisa assombrosa, e só se pode compará-la à Espanha, nesse capítulo. No entanto, e esta é a minha crítica ao modelo alemão, os jogadores espalham-se pelo campo, e estão, muitas vezes, demasiado afastados uns dos outros, não permitindo combinações curtas com a facilidade com que se exigiria. Gosto da forma como a equipa circula a bola, e gere a posse da mesma, mas tenho algumas reservas quanto à capacidade da equipa para atrair marcações e desmontar defesas. Por outras palavras, o futebol alemão é cirúrgico, e bem jogado, mas carece de alguma criatividade. Quando Ozil entra em cena, tudo isso pode mudar. Mas a criatividade não devia estar a cargo do talento de um jogador, sobretudo quando a Alemanha tem jogadores tão inteligentes, que podiam, em conjunto, fazer do colectivo um colectivo criativo. Bastava, por exemplo, que o sistema não fosse tão rígido, que os alas viessem mais dentro, que um médio procurasse espaços entre linhas. O campeonato dos alemães começa, porém, agora. Itália e Espanha exigirão certamente bem mais do que quaisquer adversários que os alemães encontraram até agora. Quanto aos gregos, chegaram tão longe quanto podiam. Em 2004, não havia adversários altamente competentes como estes alemães, e tudo foi diferente. Desta vez, não foi assim, e Fernando Santos pode dar-se por contente por ter atingido o que atingiu.

Espanha - França

Talvez seja de mim, mas tenho dificuldades em perceber treinadores que modificam todas as ideias das suas equipas quando enfrentam adversários teoricamente mais fortes. Bilic já me tinha decepcionado, e agora foi Laurent Blanc. A França nunca foi prodigiosa, mas jogar em 451, com um lateral a médio, e deixar o único criativo no banco parece-me completamente descabido. Não ter levado Yohann Gourcuff a este europeu já era demasiado mau, mas prescindir de Nasri, só porque do outro lado estava uma equipa que, à partida, ia ter mais bola, é um absurdo. Os espanhóis agradeceram, e fizeram o que quiseram da partida. Desta vez, Vicente del Bosque deixou o avançado no banco, e optou por Fabregas. A exibição da equipa deve ser o suficiente para o convencer dos ganhos extraordinários que há em jogar com mais um jogador capaz de baixar, e de fornecer apoios aos colegas do meio-campo. O estilo de jogo espanhol não requer um avançado que aproveite constantemente os espaços nas costas da defesa. Requer, isso sim, um avançado que saiba baixar, dar apoios entre linhas, e que, por tais movimentos, permita que outros colegas lhe apareçam nas costas. Quando se joga assim, de forma tão apoiada e rendilhada, é importante que os jogadores não tenham a especificidade que Fernando Torres tem; é importante que haja permutas, que haja trocas posicionais, que os espaços sejam preenchidos pela dinâmica colectiva e não por um jogador em particular. A Espanha começou a ganhar o jogo, portanto, antes ainda de começar, com a opção acertada de Del Bosque, e as opções catastróficas de Laurent Blanc. O que aconteceu nos 90 minutos foi acima de tudo o corolário dessas decisões. Na primeira parte, a França praticamente só defendeu; e a Espanha jogou como devia ter jogado, pacientemente, à espera do momento certo para penetrar na defesa adversária. A segunda parte foi ligeiramente diferente, com os espanhóis mais interessados em gerir a vantagem com bola. A França foi mais audaz, mas nunca chegou a incomodar verdadeiramente. Teve o mérito, ainda assim, de fazer descer a percentagem de posse de bola, e mostrou que a melhor arma, contra esta Espanha, é tirar-lhes a bola, e não defender sem bola. 

Itália - Inglaterra 

Depois deste jogo, dificilmente mudarei a opinião acerca do melhor jogador da competição. Aos 34 anos, Andrea Pirlo está a fazer o seu melhor torneio, e entra definitivamente na História do Jogo. Esta Itália, aliás, é extraordinária para desmontar uma série de preconceitos acerca do jogo. Há uns anos, quando levou a sua Fiorentina a uma meia-final da Taça UEFA, considerei Prandelli um dos treinadores italianos mais interessantes, precisamente por ser diferente da grande maioria dos treinadores. Na altura, dispunha a sua equipa em 433, com dois médios ofensivos, e a equipa pretendia ter sistematicamente a bola. O futebol italiano estava, na altura, no final de um ciclo. Quase todos os treinadores faziam parte de uma escola antiga, que dera imensos resultados, mas que se tornara obsoleta, e quase todos eles mantinham as convicções antigas, permanecendo incapazes de se regenerar. Neste contexto, Cesare Prandelli aparecia como alguém com convicções distintas, e eu acreditava que era no modelo de alguém como ele que o futebol italiano se deveria apoiar. Alguns anos depois, Prandelli comanda a selecção italiana mais ofensiva dos últimos 30 anos, pelo menos, uma selecção que gosta de ter a bola, que se sente confortável a trocá-la pacientemente, que é capaz de jogar sem um único médio de vocação defensiva. Está talvez dado o mote para os próximos anos, e para a viragem táctica de que o futebol italiano precisava. Para já, merece todos os aplausos possíveis, pela coragem em quebrar com os costumes, pela firmeza das convicções. Espera-se agora que as suas ideias façam escola, que a Itália de sempre, muito boa tacticamente, passe a aliar à qualidade posicional uma vocação ofensiva mais consistente. Outro preconceito que esta equipa derruba é a necessidade de jogar com médios de competências defensivas. Em 442 losango (depois de um 442 clássico que se transformava num 4222 a atacar), Prandelli apresentou 4 jogadores que se destacam essencialmente pelo que constroem, pela qualidade de passe, pela capacidade para ter a bola; o resto consegue-se pelo posicionamento colectivo. Com Pirlo a médio defensivo, De Rossi e Marchisio como interiores, e Montolivo como médio mais ofensivo, a Itália está constantemente arrumada, e mantém em campo muitos jogadores capazes de inventar coisas com bola. Por fim, o penalty à Panenka de Pirlo. Fazer aquilo com a Itália em desvantagem, e fazê-lo com a impassividade com que o fez, só está ao alcance dos mais corajosos. O penalty é o corolário de uma exibição transcendente. Pirlo, sozinho, demonstra como é possível jogar 120 minutos sem fazer uma mudança de velocidade, como é possível driblar sem precisar de atributos físicos relevantes, como é possível mexer os cordelinhos de toda a equipa praticamente sem transpirar. Notável! Se alguém quiser saber o que é a classe, basta olhar para Pirlo em campo. Ainda acerca do penalty, disse o médio italiano o seguinte: «Vi que o guarda-redes lançava-se bem e pensei em marcar desta forma, era mais fácil fazendo cair o guarda-redes. Quis também colocar um pouco de pressão sobre os ingleses». Nunca percebi aqueles que criticam a opção de bater um penalty à Panenka, porque sempre achei que, num penalty, o objectivo principal é enganar o guarda-redes. Marcá-lo assim é apenas outra forma de marcá-lo, ainda que sugira um certo desleixo, e um certo gozo. As declarações de Pirlo mencionam ainda outro tipo de vantagem, algo que, de facto, é muito importante numa decisão por penalidades: o factor psicológico. Ao bater assim, com aquela frieza e aquela confiança, ainda por cima com a sua equipa em desvantagem, Pirlo demonstrou aos ingleses que, apesar de estarem em desvantagem, os italianos mantinham-se confiantes; aos seus terá fornecido uma certa motivação. Pode parecer insignificante, mas um só penalty pode servir para vencer uma partida, glorificar um jogador, e mudar a mentalidade de muito boa gente. Foi o caso.

7 comentários:

Blessing Lumueno disse...

Concordo com Todas as análises, e realmente também não percebo o porquê de Portugal não se lançar logo de início com toda agressividade sobre o adversário... Temos selecção para isso...

A meu ver isso só trás vantagens...

Equipa compacta longe da baliza que defende.
Se não consegue ganhar na primeira zona de pressão, faz falta e se organiza.
Se recupera está mais perto do golo, e mais perto daquilo onde somos realmente fortes, transição ofensiva (Diagonais do Ronaldo)...
Depois tem a vantagem de conseguir criar superioridades numéricas nas zonas de pressão, onde mais facilmente podemos recuperar a bola.

Acho que concordas, nos golos todos que marcamos no Euro se não me engano metade foram recuperações em zonas adiantadas, ou então com o bloco alto obrigamos eles a baterem e recuperamos a bola sem dificuldade aproveitando a desorganização momentânea.

Que achas disto?

Contra Espanha podemos dar espaço nas costas com eles a jogarem com Cesc, Silva e Iniesta eles não vão ser solicitados no espaço e podemos jogar com ele alto... Pelo tipo de construção de ataque que eles privilegiam.

Quanto as apostas também acertei 3... Portugal Espanha e Alemanha

Blessing Lumueno disse...

E ainda digo mais, apostei antes do sorteio que se Portugal ficasse no grupo da Alemanha iria a final... O sorteio me fez esse favor, vamos ver se Portugal confirma...

Quanto a Pirlo... Pronto é isso mesmo, Pirlo... ASSOMBROSO!

Alguém por favor me explique a dispensa do Milan... Enfim...

Joel disse...

Nuno, em 2004 não houve um jogador muito fraquinho que fez o mesmo?

PB disse...

FDX que Pirlo! Ainda n vi o jogo da 3a jornada. MAs, em todos os outros foi sp o melhor em campo! Fabuloso!

Joao Rodrigues disse...

Em relação a França deixar Gourcoff de fora e não colocar o Nasri em campo, o resultado só podia ser o que se viu.

Também tenho gostado muito de ver a Itália, mas gostaria que a dupla de avançados em vez Balotelli e Cassano, fosse Di Natale e Giovinco, acho que a selecção Italiana seria ainda mais forte e mais perigosa e causaria ainda mais problemas a Alemanha.

Nuno disse...

Blessing Lumueno, sim, não se tem falado nisso, mas a grande maioria das ocasiões de Portugal tem sido resultado de recuperações altas e aproveitamento da desorganização dos adversários. É a nossa única verdadeira arma colectiva, a capacidade de pressionar alto, e de aproveitar esses espaços após a recuperação, e até por isso estranho que a opção, muitas vezes, seja pressionar mais baixo. É que não somos especialmente fortes a sair em transição desde trás.

Joel, é verdade. E hoje é o oposto do Pirlo, na opinião pública. E foi contra a Inglaterra, também. Os ingleses devem gostar tanto do Panenka!

PB, o Pirlo tem sido inexcedível. Inacreditável!

João Rodrigues, também acho que apostaria nessa dupla.

Manuel Nascimento disse...

Pormenor interessante na leitura do jogo pelo treinador espanhol, por acaso. E que, pese embora os defeitos que possa ter e que também lhe aponto - apesar de não lhe poder exigir grande coisa -, demonstra uma postura totalmente diferente da do Blanc.

O Blanc começa à rasca, dois laterais direitos, etc. Às tantas, a perder e com o tempo a passar, decide desistir da ideia e lança quem possa mexer no jogo (Menez e Nasri). Resposta do del Bosque? «Ai atacas? Então agora é que vão ser elas!»

Minuto seguinte, entra Pedro e Iniesta para o meio. Contra um só lateral, mais criatividade no meio e muita profundidade do lado esquerdo. Jogo controladíssimo contra um adversário sem quaisquer ideias.