terça-feira, 2 de março de 2010

Lições de Mestre (3)

O Barcelona venceu este fim-de-semana, em casa, o Málaga por duas bolas a uma. O jogo não foi fácil e o Barça só conseguiu marcar no segundo tempo. A jogada que destacamos é a marca deste Barcelona de Guardiola e ilustra toda a potencialidade que há em jogar de pé para pé, ao primeiro toque. Um hino e uma lição ao futebol...




O lance começa na direita, entra no avançado, vai à esquerda, volta ao meio, passa novamente à direita e volta ao meio. Um carrossel perfeito, com os jogadores do Málaga apenas a cheirarem a bola. Messi flecte para dentro e joga no apoio vertical que Ibrahimovic oferece; este toca para Pedro, que joga novamente no sueco que entrara na profundidade; Ibrahimovic solta de primeira na linha, em Maxwell, que dera o apoio conveniente; o brasileiro, em vez de cruzar (estava numa posição perfeita para isso), ilude tudo e todos e, de primeira, dá atrasado em Pedro; Pedro roda e dá atrás em Xavi, que dera um apoio recuado perfeito; a partir daqui, cria-se o espaço e o tempo necessários para um passe de ruptura perfeito; Xavi roda sobre si, faz um passe a rasgar por entre a defesa do Málaga, para Dani Alves, que entrara pela direita; Dani Alves, em posição de finalização, dá de primeira no meio, onde ficara sozinho Messi, que finaliza sem oposição. São 8 toques na bola, quase todos de primeira, a fazerem a equipa do Málaga correr de um lado para o outro até que se crie o espaço necessário para a ruptura e se criem as condições necessárias para uma finalização com um grau de exigência reduzido. O Barcelona é isto e isto é o Barcelona. Muita paciência, muita troca de bola, pouco risco no passe. A ideologia ofensiva do Barcelona manda que os jogadores troquem a bola de modo curto, que não arrisquem passes de ruptura senão quando há boas condições de sucesso, que não cruzem à toa apenas porque estão numa posição privilegiada para tal, que não finalizem apenas porque estão em boas condições para fazer golo. Mais extraordinário isto se torna quando olhamos para o marcador e vemos que o jogo estava empatado a uma bola e faltavam apenas 5 minutos para o fim do jogo. A pressão do relógio e do resultado poderiam ter levado a equipa a optar por rematar, por cruzar para a área, por tentar penetrações individuais, por arriscar uma maior verticalidade. Mas não. Apesar de faltarem apenas 5 minutos e o resultado não ser positivo, o Barcelona jogou com a sua identidade. Messi poderia ter chutado assim que flectiu para dentro, Maxwell poderia ter cruzado assim que Ibrahimovic lhe deu a bola e Dani Alves poderia ter finalizado quando recebeu o passe de Xavi. Ninguém o fez. A tudo isto se sobrepôs uma identidade colectiva que não pode ser ignorada. E a preservação dessa identidade deu frutos. É por estas e por outras que este Barcelona é a melhor equipa do mundo, mas de muito muito longe...

P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.

10 comentários:

Pedro disse...

Tens toda a razão mas não deves apontar só baterias para Inglaterra. Em Itália, campeonato q tu defendes pela inteligência táctica, há muito mais violência que em Inglaterra. Entradas violentas há em todo o lado, felizmente as consequências nem sempre são tão graves como esta. Concordo qd dizes q o jogo em Inglaterra é um jogo mais básico, mais primitivo, menos táctico. Q o jogador "inglês" é, por norma, mais "burro" q o italiano ou espanhol por exemplo mas é pá, no calcio, vê-se cada coisa...

joão bobe disse...

Pedro, discordo. Em Itália os defesas são duros. Mas não há estas entradas assassinas que por vezes se vê em Inglaterra.

Pedro disse...

João qqr video do Materazzi no Youtube te contraria. E sim não são burros como os ingleses q têm estas entradas disparatadas, são mesmo mauzinhos.

MB disse...

Em relação ao golo do Barça, não há muito a dizer, é apenas um de muitos que são marcados desta forma.

Vi os minutos finais do jogo com o Arsenal e impressionou-me que, empatando o jogo e a precisar de ganhar para manter-se na corrida pelo título, a equipa tenha optado por continuar a jogar de pé para pé, pacientemente procurando um buraco na zona central para conseguir uma situação de finalização. Normalmente nestas situações 90% das equipas opta pela táctica "chutão-para-a-áera-e-seja-o-que-Deus-quiser". Felizmente o Arsenal parece ser ateu.

Não sou tão crítico, no entanto, com o defesa do Stoke que partiu a perna ao Ramesey. Foi uma entrada bastante desastrosa, admito, mas faz-me muito mais confusão entradas a pés juntos, ou com a mostrar a sola ao joelho quando a bola está no chão (estilo Roy Keane, ou Secretário).

A intenção do Shawcross foi claramente chutar a bola, mas chegou ligeiramente atrasado. Não foi uma entrada assassina tipo Materazzi ou Bruno Alves.

Por exemplo, o Filipe Luis também partiu a perna há pouco tempo num lance completamente casual e não foi culpa de ninguém, foi apenas azar: caiu mal, com o Guarda-redes adversário a disputar o lance.

P.S. Claro que se a perna fosse minha provavelmente tinha uma opinião diferente!

Pedro Veloso disse...

Também sou da opinião do MB. Não foi uma entrada bárbara como muitas vezes acontece. Mas infelizmente causou uma lesão grave. Dito isto, sem dúvida que é a liga onde se vê mais burrice e brutalidade.

Jorge Frias disse...

Julgo que não está em causa a barbaridade da entrada.

Talvez todos consigamos perceber que a entrada não é tão dura como a que partiu o pé ao Eduardo ou muitas outras de pitão à frente.. Contudo acho que a opinião do "blogger" é a mesma do treinador do Arsenal, que vem hoje dizer e passo a citar «Tenho tanta admiração por um corte limpo, como por uma assistência. Cortar uma jogada é uma forma de arte. Agora, fechar os olhos e apostar no físico, pode não querer significar que queira magoar alguém, mas existe sempre esse perigo.»

Jorge Frias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Jorge Frias disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

Pedro, é incomparável a violência nos dois campeonatos.

Jorge, sem dúvida. Penso precisamente como o Wenger.

Só em relação ao golo do Barça e para reforçar a grandiosidade do lance. O site "Paradigma Guardiola" enaltece o golo e recorda que Guardiola, quando Messi marcou aquele golo fantástico ao Getafe em que fintou toda a gente, foi convidado a comentar o lance. Disse Guardiola que o seu golo de sonho não envolvia fintas nem iniciativas individuais, que era passe, passe, passe, passe. Dizer isto, naquela altura, revela tudo o que o Guardiola viria a ser depois. Este golo é a imagem das ideias de Guardiola e ilustra um modo de pensar que não é sequer parecido com nenhum outro. É incrível que haja sítios que tenham por hábito referir os melhores golos da semana que se tenham esquecido de referir este golo, certamente um dos melhores, se não o melhor, desta época.

Pedro disse...

"Pedro, é incomparável a violência nos dois campeonatos"

Concordo.
:)