quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Bruno Alves, Chygrynskiy e o que significa sair a jogar

Desde, pelo menos, o início do defeso que se falou, com insistência de pregador, que Bruno Alves interessava ao Barcelona. Confesso que esse interesse me pareceu, desde logo, estranho. Não que não fosse possível Bruno Alves sair para um grande clube europeu. A sua reputação, ainda que ache que esteja sobrevalorizada, faz com que os melhores clubes europeus possam olhar para ele como um possível reforço. O problema não estava em Bruno Alves, mas no Barcelona. Isto porque o Barcelona de Guardiola privilegia centrais que pouco ou nada têm a ver com Bruno Alves. É fulcral, nos centrais de Guardiola, uma capacidade para sair a jogar bem acima da média. Os centrais do Barcelona, por aquilo que Guardiola pretende, têm de ter, por principais características, uma capacidade técnica, um poder de decisão e uma segurança no passe notáveis. Isto porque interessa à equipa, numa primeira fase de construção, preservar a posse de bola e progredir no terreno de forma apoiada. Por exemplo, enquanto teve Rafa Marquez e Piqué, Guardiola não utilizou Puyol a central, deixando-o no banco ou fazendo-o alinhar a defesa esquerdo. Puyol é um excelente central, um líder em campo, o melhor representante da alma culé na formação do Barcelona, o mais experiente dos centrais, mas mesmo assim não é das primeiras opções para Guardiola. A razão está no facto de Puyol não ter certas características tão apuradas quanto as suas características defensivas. Piqué e Marquez são menos agressivos, menos rápidos sobre a bola, menos impetuosos, mas possuem atributos técnicos e, sobretudo, intelectuais que lhes permitem, com bola, oferecer algo à equipa quando em construção. A capacidade de passe à distância dos dois é notável, mas não é o único factor a ter em conta. Ambos sobem notavelmente bem com a bola e ambos conseguem encontrar com facilidade um companheiro a quem entregar a bola. Isto é importantíssimo na manobra ofensiva do Barcelona. Ora, em que medida é que Bruno Alves se encaixava nisto? Não se encaixava, de modo nenhum. Bruno Alves não é um defesa que saiba subir com a bola, que encontre soluções de passe com relativa facilidade ou que seja tecnicamente desenvolto. Melhorou substancialmente, ao longo dos últimos anos, a sua capacidade de colocar a bola à distância, mas isso é muito pouco para aquilo que é exigido a um central inserido num modelo de jogo como o do Barcelona. Quando se falava, por isso, do interesse do Barcelona em Bruno Alves, só poderia estar a especular-se. Ora, a especulação advém de certos factos que, por inferência, levam a certas ideias. Beguiristain ter-se-á encontrado com os representantes do jogador e do Porto e isso terá levado a crer a muita gente que o Barcelona estaria interessado em Bruno Alves. De facto, é possível que o Barcelona, na pessoa de Beguiristain, tenha manifestado vontade de contratar o português. O problema aqui é, porém, a pessoa Guardiola. Duvido seriamente que algum dia Guardiola tenha dado o aval para a contratação de Bruno Alves. Aliás, compreende-se facilmente a indefinição nas negociações pela discordância entre Beguiristain e Guardiola. O treinador catalão terá sempre preferido o ucraniano Chygrynskiy e recusado sempre Bruno Alves por via dessa preferência. A dada altura, disse-se que o principal entrave no negócio entre Porto e Barcelona eram os 25 milhões pretendidos pelos dragões, quantia demasiado alta para aquilo que o Barcelona estaria disposto a desembolsar por um central. A verdade, contudo, é que o Barcelona acabou por pagar exactamente isso pelo ucraniano, refutando portanto essa hipótese. Se Bruno Alves não foi para Barcelona, foi porque não interessou a Guardiola.

Por que preferia Guardiola Chygrynskiy a Bruno Alves? É possível que haja quem diga que eles são parecidos e que a idade do ucraniano acabou por ser o factor decisivo. Obviamente, Chygrynskiy tem nos seus 22 anos uma vantagem em relação ao portista, mas discordo totalmente da ideia de que sejam parecidos. A opção de Guardiola não teve a ver com factores extrínsecos como a idade e a margem de evolução, mas sim com características do próprio jogador. Embora tenham alturas parecidas, creio que Bruno Alves faz desse factor uma arma maior que o ucraniano. O problema é que a capacidade aérea dos seus defesas não é uma das coisas mais importantes para Guardiola. Chygrynskiy, apesar de grande, não foi contratado pela sua estatura. A obsessão de Guardiola por ele tem a ver com a sua capacidade técnica, com o facto de ser exímio no passe longo e com a facilidade que tem em sair a jogar, tudo características adequadas ao perfil dos defesas centrais pretendidos pelo treinador catalão. Chygrynskiy é muito mais "macio" que Bruno Alves, não é impetuoso, não é ríspido. No entanto, é muito seguro defensivamente, muito calmo a jogar, posicionando-se normalmente bem e contribuindo com bastante classe na construção ofensiva. Antes da Supertaça Europeia, Guardiola falou da sua obsessão por Chygrynskiy e disse que, além de um defesa central muito bom, como havia muitos, era um central com as características certas para o Barcelona, sendo raro encontrar defesas tão bons com essas características. Parece óbvio, portanto, que a obsessão de Guardiola se explica pelo facto de considerar que não havia grandes alternativas a Chygrynskiy, que os defesas de classe mundial que possuíam as características por ele pretendidas não eram assim tantos. Ou seja, para Guardiola, sempre terá sido Chygrynskiy ou ninguém. Não faria sentido, até, contratar um central se o mesmo não viesse trazer algo de diferente. O Barcelona tinha até, antes da contratação do ucraniano, um excesso de centrais: Marquez, Piqué, Puyol, Henrique e o jovem Muniesa, se não contarmos com Gabriel Milito para já. O problema é que, destes, só Piqué tem qualidade suficiente e é, ao mesmo tempo, o tipo de central que Guardiola prefere, tendo em conta que Marquez iniciaria a época lesionado. Contratar Bruno Alves seria apetrechar-se com algo que já existe, quer em Puyol, quer em Milito, quer até em Cáceres, que mais tarde viria a ser emprestado. Viria trazer apenas quantidade e não diversidade.

A discussão em torno das valências de Bruno Alves e Chygrynskiy pode ser transportada para o futebol português e é possível tentar comparar jogadores segundo as suas capacidades para sair a jogar. Antes, porém, é preciso definir com exactidão o que significa sair a jogar. Sair a jogar tem pouco a ver com correr com bola, com tentar driblar adversários ou com ser capaz de colocar a bola à distância com facilidade. Sair a jogar tem a ver com classe, com elegância, com certeza no passe, com inteligência. Um central bom a sair a jogar raramente tem de tirar adversários do caminho recorrendo ao drible. Faz-me por isso alguma confusão que se afirme que David Luiz é bom a sair a jogar porque de vez em quando galga trinta metros com a bola numa corrida desenfreada e enfrenta os adversários utilizando o seu drible. Um central que drible é um central pouco precavido. Sempre. Sair a jogar não tem a ver com isto. Tem a ver com o privilegiar um desarme em vez de um corte, de modo a que a equipa possa automaticamente reiniciar o ataque; tem a ver com o jogar de cabeça levantada, procurando o melhor colega a quem dar a bola; tem a ver com o perceber quando há espaço para progredir individualmente com a bola e quando não há; tem a ver com o saber pesar as vantagens e as desvantagens de uma subida no terreno; tem a ver com o entender qual a melhor solução para a equipa em cada momento. Quem é, segundo estes parâmetros, melhor a sair a jogar? David Luiz ou Sidnei? Pepe ou Zé Castro? John Terry ou Ricardo Carvalho? Miguel Vítor ou Daniel Carriço? As minhas escolhas ficam invariavelmente pelas segundas opções.

13 comentários:

BIBOFCP disse...

Análise 5 estrelas.

André disse...

Muito bem!

Boa Análise.

Pedro disse...

Hoje foi um dia desportivo complicado para ti!!

Hattrick do levezinho e fenomenal exibição (mais uma) do David Luiz...
:)

Em relação à análise Bruno Alves/Chygrynskiy/Barça concordo totalmente ctg.

daniel duarte disse...

concordo quase quase quase com a totalidade da analise...
excepto quando diz e passo a citar "...A obsessão de Guardiola por ele tem a ver com a sua capacidade técnica, com o facto de ser exímio no passe longo e com a facilidade que tem em sair a jogar, tudo características adequadas ao perfil dos defesas centrais pretendidos pelo treinador catalão...."vejo muito poucas vezes os estes centrais catalães a optar pelo passe longo, a serem portanto eximios no passe longo... alias, muitas das vezes são dos jogadores do barça que mais passes executam durante um jogo, a par de xavi hernandez...
quanto a comparação entre david luiz e sidnei...tambem vejo no sidnei mais potencial...mais tecnica e mais classe e elegancia...tenho receio que se perca um optimo central..

PB disse...

o Benfica está brutal a defender...

o único senão, tem sido o David Luiz (em Belem, as únicas x q o Belenenses meteu a bola na área do Benfica, foram as faltas absurdas que cometeu).

Se ele ganhar tino, os 7 golos sofridos na liga toda, pode n ser assim tão utópico.

No Braga, tirando os golos sofridos contra os grandes, JJ só sofreu 10 golos (em 24 jogos...) Fantastico, n?

Metralha disse...

Não conheço o ucraniano, o que sei é que o Barcelona está uma autentica máquina de jogar futebol. Ridicularizou o Inter e o seu treinador, que no fim do jogo, para disfarçar o baile que levou diz que foi um grande jogo táctico. Ai José "narciso" Mourinho quando o espelho se partir...

E o que dizer das todas as movimentações ridiculas de Liedson nos 3 golos que marcou? A assistencia horrorosa para o super-ponta-de-lança Postiga fazer um remate de cabeça de impossivel execução tal a merda de passe do Levezinho?

Já te(se) calavas com o Liedson e essa obsessão, não? Ou queres continuar a ser ridicularizado como o Especial no jogo vs Barça?

Nuno disse...

Metralha, em que parte do texto é que eu falei do Liedson, desta vez? Referi a má movimentação no texto anterior, coisa que é evidente. Se queres falar de algo que eu não falei, tudo bem. Mas não me venhas falar de obsessões. Sobre os golos, é a única coisa que tem competência para fazer. Sempre que não marca, não justifica a sua presença em campo. Tendo em conta que marca 1 golo a cada 2 jogos, em metade dos jogos do Sporting é prejudicial à equipa. O resto é conversa.

Daniel, é verdade que os centrais do Barça fazem poucos passes longos, porque essa é a cultura da equipa, mas ainda assim fazem-no. O Marquez e, sobretudo, o Piqué, são fortíssimos no passe longo. Há poucos, na Europa, como eles. E o Chygrynskiy é um deles.

JFC disse...

Metralha não é por nada mas a super assistencia de que falas é uma miséria...a melhor opcçao era jogar pelo chão não levantar a bola para um sitio onde o colega iria chegar em esforço..

Metralha disse...

Nuno, seja do que for o Liedson leva-te ao ridiculo.

JFC, espero que que estejas a ironizar.

JFC disse...

não nao estou. se nao me engano era uma situaçao de 3 para dois em que o Liedson podia ter feito bem melhor. Estava com dois sportinguistas defensores do liedson que concordaram que aquele cruzamento naquela situaçao nao foi claramente a melhor opçao...

PB disse...

"o Benfica está brutal a defender...

o único senão, tem sido o David Luiz (em Belem, as únicas x q o Belenenses meteu a bola na área do Benfica, foram as faltas absurdas que cometeu).

Se ele ganhar tino, os 7 golos sofridos na liga toda, pode n ser assim tão utópico.

No Braga, tirando os golos sofridos contra os grandes, JJ só sofreu 10 golos (em 24 jogos...) Fantastico, n?"

Mete mais um "azar" na conta do David Luiz. (parece-me tb q ele precisa de jogar, e ser corrigido, para atingir o nível q o seu potencial indicia)

António Pista disse...

David Luiz arrisco-me a dizer é neste momento o melhor central do Mundo com a bola nos pés!

http://aguia-de-ouro.blogspot.com/

Nuno disse...

António, essa afirmação é das coisas mais imponderadas que se poderiam dizer. Mas a minha opinião também não, porque também estou convencido que o meu porco-espinho é o melhor guarda-redes do mundo...