quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Criatividade e acaso...

"Nenhuma outra actividade é tão continuamente e universalmente influenciada pelo acaso. E por intermédio do acaso, o acidental e a sorte desempenham um papel da maior importância na guerra." (in Clausewitz, On War, Liv.1, Cap.1, p.85)

Não direi que Clausewitz tenha sido o primeiro pensador estratégico a conferir ao acaso e à incerteza a devida importância. No entanto, podemos afirmar que ele conseguiu com enorme discernimento perceber a importância das vertentes não-lineares que caracterizam os sistemas complexos, como é o caso da doutrina a que ele se entregou (a guerra), mas que se pode a aplicar a outros exemplos que terão mais afinidade com esse objecto do que se poderia julgar à partida (pelo menos, para alguns).

E é a partir da sua interpretação da arte da guerra, e das variantes que a condicionam, que vamos defender à importância dos factores intelectuais na abordagem ao processo de combate, ficando ao nosso encargo a analogia com o futebol.

"A arte da guerra lida com forças vivas e morais. Por consequência, nunca pode atingir o absoluto, ou a certeza; restará sempre uma margem para a incerteza, tanto nas coisas grandes como nas mais pequenas"
(in Clausewitz, On War, Liv.1, Cap.1, p.86)


A constante evolução no futebol, mormente no que toca a factores relacionados com as abordagens feitas ao jogo pelos mais variados técnicos, tem como objectivo o maior controlo possível sobre as inúmeras variáveis que compõem um jogo de futebol. Procura-se “fabricar” um ambiente que seja familiar à equipa e que vá de encontro a um formato que lhes permita retirar o máximo rendimento possível das características da mesma.

Através das mais avançadas metodologias e abordagens ao jogo, juntamente com uma vasta panóplia de informações, poderemos conceber um quadro de previsões e expectativas bem conseguido. Todavia, estamos sempre sujeitos aos caprichos do acaso e da incerteza. Ralf Dahrendorf definiu esta tentativa de controlar algo tão complexo, neste caso um jogo de futebol, como "uma marcha activa para o desconhecido".

Ter a consciência das nossas características, das nossas qualidades e dos nossos defeitos, relacioná-las com as características dos nossos adversários, para conseguirmos reproduzir da forma mais fiel possível o cenário em que irá decorrer o jogo, é uma das chaves para o sucesso de uma equipa. A partir daqui, poderemos trabalhar, com base nas probabilidades que esse cenários nos concedem, a melhor maneira de nos impormos ao adversário. Atenção, não quero dizer com isto que vamos abdicar do nosso modelo de jogo; é precisamente o oposto, pretende-se criar condições para que seja mais fácil implementar a nossa ideia de jogo.

Acções recíprocas a vários níveis, quer entre colegas de equipa, quer entre adversários, tornam complicado controlar o embate entre adversários. Por muito "apurados" que sejam os nossos princípios de jogo e apesar da importância dos mesmos para implementação da nossa filosofia e organização, estes são insuficientes para dar resposta ou compreender as situações que surgem pela fricção entre duas forças antagónicas. Ou seja, a estratégia delineada para cada jogo não passa de um ideal que se pretende. Como tal, dificilmente os moldes desejados se proporcionarão como pretendemos.

A vulnerabilidade de um jogo de futebol a perturbações causadas por pequenos incidentes, leva a que as equipas sejam constantemente colocadas perante situações de conhecimento imperfeito, ou seja, situações em que o trabalho desenvolvido nos "bastidores" não as pode prever ou trabalhar.

Clausewitz defendia que na guerra, apesar de toda a táctica e estratégia implícita na execução da mesma, existe um sem-número de situações que leva a um conhecimento imperfeito da situação.

"..., é porque o acto de guerra não é um puro cálculo matemático, mas uma actividade actividade conduzida no seio das trevas, ou quando muito numa fraca penumbra..."
(in Clausewitz, On War, Liv.VII, Cap.XV, P.665)

A única maneira de escaparmos à incognoscibilidade do futuro estará no “coup d’oeil”, ou seja, na capacidade de descobrir num labirinto de incertezas a solução que, apesar de ser a melhor, e mais eficaz, nem sempre é visível aos olhos de todos. Um futebolista, muitas vezes, encontra-se na mesma situação.


É neste ponto que encontramos a importância de contar com jogadores de grande criatividade, pois são estes que mais facilmente conseguem tirar partido do improviso. É a criatividade que melhor resposta consegue dar aos problemas imprevisíveis. No entanto, temos tendência para confundir criatividade com números de circo, o que leva a que consideremos jogadores sem qualquer tipo de engenho como criativos.

Criatividade nem sempre é sinónimo de uma grande qualidade técnica, aliás, um jogador por não ser tão evoluído tecnicamente até poderá ser mais criativo devido a esse handicap: a necessidade de contornar os problemas que vão surgindo, com algo que não seja a capacidade técnica, ou atributos físicos, impõe que estes jogadores sejam obrigados a encontrar mais soluções do que as que estão ao alcance de todos os outros. Obviamente que isto não se aplica a todos os jogadores que são limitados tecnicamente, ou seja, só por serem limitados tecnicamente não vão ser criativos, mas os jogadores que possuam um pensamento divergente, facilmente encontrarão nesta dificuldade intrínseca uma fonte de estimulo à sua criatividade.

Mas o que é a criatividade num jogador de futebol? Como a reconhecemos? Será que apenas os jogadores que ocupem posições mais ofensivas poderão ser denominados como tal? Eu estou completamente em desacordo com este sofisma. Criatividade não é uma característica exclusiva de uma função, ou de uma fracção do nosso jogar. Não tem de ser obrigatoriamente exuberante. Às vezes a maneira mais criativa é a mais discreta. Por exemplo, muitas vezes um passe que só é simples depois de ter sido executado é muito mais engenhoso que um passe de 40 metros. Temos tendência para dar mais ênfase a este último exemplo porque resulta de situações mais vistosas, mesmo que destas nem sempre venham mais benefícios do que situações em que os resultados não são tão instantâneos como aqueles, da mesma forma como se corta uma linha de passe, ou se desarma um adversário. Em muitos casos, os jogadores têm de recorrer a soluções criativas para resolver situações em que se encontram perante imprevisibilidades e para as quais, como tal, não poderiam estar preparados. O mesmo se aplica a dribles vistosos, mas que no entanto são "pré-fabricados", não é o acaso que leva a que os utilizemos, mas somos nós que conduzimos o jogo de forma a utilizá-los. Estas acções são engraçadas, excelentes para o ego; todavia, são menos úteis que os dribles que, apesar de aparentemente mais simples, são mais complicados, pois surgem como uma forma de contornar um problema inesperado e, como tal, os jogadores não dispuseram de tempo/espaço para preparar a sua execução. E a criatividade, apesar de se manifestar de forma individual, deve ser utilizada em prol do colectivo, não para beneficio próprio e efémero, colocando em risco a estratégia do colectivo. Não! Deve ser utilizada para se conseguir exactamente o oposto. Por outras palavras, deve utilizar-se este atributo como uma arma para contornar todos os problemas que inviabilizem a estratégia do nosso grupo. Isto sim, é criatividade.


Guilford e Godefroid definem a criatividade como algo que se sustenta em três aspectos essenciais: a fluidez, que permite ao criador encontrar um grande número de soluções, onde a maior parte dos jogadores só encontra algumas; a flexibilidade, que permite vislumbrar várias perspectivas sobre os problemas em questão; e a originalidade, que se caracteriza pela pela descoberta de novas formas de resolução para os vários problemas e situações.

Como é óbvio, a convivência com este tipo de jogadores não é fácil, pois estes são mais resistentes aos valores de grupo, se por acaso estes não coadunam com os deles, e dão preferência a soluções mais estéticas do que os jogadores comuns, o que por vezes poderá colocar em causa a eficácia das suas acções. Porém, não nos devemos sentir intimidados com este tipo de personalidades, antes pelo contrário; devemos perceber o estímulo que advém da necessidade de conseguir que este tipo de jogadores se identifique com o nosso modelo de jogo.

Para concluir, deixo-vos aqui uma lista de "crenças" que, na minha opinião, são equívocas, assim como uma lista de jogadores que se apresentam como criativos sem, no entanto, o serem e vice-versa:
- O jogador criativo só pode manifestar a sua criatividade na posse da bola.
- O jogador criativo terá de ser obrigatoriamente evoluído tecnicamente.
- O jogador criativo é, necessariamente, individualista.
- Confunde-se com um criativo qualquer jogador que seja forte no 1x1, apesar de muitos destes jogadores não oferecerem nenhuma solução para além do drible.

Jogadores Pseudo-Criativos: Cristiano Ronaldo, Vieirinha, Dominguez, Anderson, Bruno Gama, Denílson.

Jogadores Realmente Criativos: Farnerud, Mikel, Romagnoli, Aimar, Carlos Martins, Nuno Assis, Ricardo Carvalho, Delfim.

Está aberto o debate.

41 comentários:

zezé disse...

o jogador criativo é aquele que encontra soluções para a equipa num determinado momento. um passe, uma movimentaçao, a partida para o drible.

deste como jogadores pseudo criativos jogadores que jogam nas alas mas, eles também podem acrescentar traços de criatividade ao jogo.

A criatividade desbloqueia o jogo. extremo ou médio centro, qualquer um o pode fazer.

Gonçalo disse...

zeze, o que eu pretendo é explicar que criatividade está relacionada com a capacidade de criar várias soluções para os problemas, e estes jogadores, os pseudo-criativos, só conseguem resolver os problemas através dos seus recursos técnicos, sempre da mesma forma, tornando-se assim previsiveis. Mas admito que o facto de não ter incluido extremos como jogadores criativos pode levar a essa conclusão, foi um erro meu.
Páh jogadores que jogam nas alas, mas são criativo: Nani, Robben, Figo, etc.


Um abraço

zezé disse...

agr estou de acordo ctg gonçalo. jogadores como figo ou robben acrescentam mais á equipa que extremos circences como vierinha, q raramente fazem a diferença. n é á toa que nem no leixoes resultou. tem fugida, largada, mas sao demasiado presos á posiçao. cada vez que me recordo de como dominguez se embrulhava com a bola..

abraço

Anónimo disse...

Concordo, mas não deixa de ser um bocado óbvio. Já agora, vê se ligas ao Mourinho para combinar melhor a vossa estratégia, porque o gajo sempre que abre a boca chama-te burro! Sim, estou a falar do pelé. Um abraço ou beijinhos, não sei do que gostas...

cajo disse...

Bom post, comprido mas bem escrito. Concordo com a maioria das coisas, realmente...

Em relação ao Ronaldo... É complicado, porque não há duvidas que é um jogador incrível, portanto não se englobando nessa definiçao de criativo, não deixa de ser uma mais valia para a equipa, por oposição aos outros que nomeias aí...

Falas do Denílson mais velho, não é?(só para confirmar)



Por falar nisso, gostava de saber a vossa opinião sobre o Carrick, já andava para perguntar mas os posts anteriores não tinham muito a ver...

abraço

Gonçalo disse...

Cajo, o Carrick é dos jogadores ingleses que eu mais aprecio, muito correcto na leitura e posicionamento. Qt ao Denilson, realmente era o mais velho, cm n conheço mt bem o mais novo...

Em relaçao ao Ronaldo, cm é óbvio, é um grande jogador, não ponho isso em causa, a sua capacidade atlética permite-lhe superar essa lacuna, ainda para mais num campeonato como o Inglês, em que o estilo beneficia este tipo de jogadores.
Só ressalvar( para uns cromos que n tem mais nada q fazer do q vir praqui dizer merda) isto: O Ronaldo, apesar de não o considerar criativo, é um excelente jogador, que merece, sem qlq dúvida, o prémio de melhor jogador da epoca transacta.

Anónimo,em relação ao Pelé... Querias que o quÊ? Que o Mourinho dissesse mal de um jogador que nunca lhe colocou problemas?? Bolas, o homem até o B. Alves elogiou. Já agora se ele o acha assim tão bom... Não o acha já pronto para a selecção?

Eu compreendo que ande por ai malta doidinha para conseguir qlq coisa que lhes dê motivo para poder apontar o dedo a este blogue, mas deviam evitar fazer figuras destas... Mas olha, enquanto não percebem isso... o Entredez agradece...

Gonçalo disse...

Qt ao ser óbvio... Ainda bem que´o é para ti, pq para a maioria dos treinadores não o é...

Nuno disse...

Cajó, ando há tempos para fazer um post sobre o West Ham de há uns anos, mas ainda não calhou. No meio-campo jogavam o Carrick e o Joe Cole. Desde essa altura que é dos meus jogadores ingleses preferidos. Lembro-me de defender que a Inglaterra, em 2006, no ano, portanto, antes de se transferir para o Manchester, deveria jogar em 442 losango com um meio-campo formado por Carrick, Beckham, Gerrard e Lampard, ou em 433, com Beckham a fazer a direita e Joe Cole a esquerda, mas cujo trinco seria o Carrick. Nessa altura, o Eriksson, apesar de o ter levado, nunca o pôs a jogar. Um erro que pagou caro. Quanto a mim, é o melhor médio-defensivo inglês de que me lembro e um dos melhores do mundo na sua posição. Neste momento, creio, só Gago e Pirlo me agradam mais que ele...

cajo disse...

É, o Denilson era o jogador que entrava a 15 minutos do fim com o Brasil a ganhar pa dar cueca... Não passava muuuito disso...


O Carrick, é para mim, e depois do Gerrard, o melhor médio centro Inglês da actualidade, ainda bem que disseste bem dele senão passava a ser dos que mandam vir xD

Paulo Santos disse...

"A vulnerabilidade de um jogo de futebol a perturbações causadas por pequenos incidentes, leva a que as equipas sejam constantemente colocadas perante situações de conhecimento imperfeito, ou seja, situações em que o trabalho desenvolvido nos "bastidores" não as pode prever ou trabalhar."

Excelente texto. Esta partefez-me pensar imediatamente no Benfica-porto do final de semana em que uma incidência do jogo (no seu início) alterou toda e qualquer ideia pré-concebida sobre o mesmo.

Quanto à criatividade, subscrevo em absoluto. Há por aí muita confusão relativamente áquilo que é criatividade. Mas, mais uma vez vão aparecer aí uns quantos de cabelos em pé, pela inclusão de Anderson e Ronaldo no lote dos pseudo-criativos :))) mas, ok, vocês insistem em dar pérolas a porcos:)

Quanto ao Carrick, também estou em total acordo, ainda há uns dias estive a discutir com um amigo meu que o considera tudo menos bom jogador. Eu, desde o Totenham que o vejo e que o aprecio bastante, não tem é os focos mediáticos virados na sua direcção...


Grande abraço
Nuno, prepara-te que em breve vamos à bola ;) depois ligo

Peyroteo disse...

O Nuno falou no West Ham. Trata-se, muito provavelmente, da melhor escola de formação de Inglaterra. O clube é mesmo conhecido como "The Academy of Football".
Não só lançou o Carrick e o Joe Cole como também o Frank Lampard, o Rio Ferdinand, o Jermaine Defoe, entre outros.
John Terry e Sol Campbell também passaram por lá nas camadas jovens mas sairam antes de chegarem a seniores.

Batalheiro disse...

Tive de estudar Teoria da Estética na Faculdade e agora apetecia-me desenvolver um raciocinio sobre o que voces escreveram neste post, mas iria ocupar imenso espaço. De qualquer forma, visto que tantas vezes se referem a estética aconselho-vos a lerem uma teoria do LUIGI PAREYSON.

Bom, concordo com o Post, e acrescento que só se é verdadeiramente criativo quando se está limitado. A Liberdade total é castradora da criatividade...lembrei-me disto quando li a parte do C Ronaldo, que em INglaterra goza de muito espaço e liberdade para jogar. AO contrario por exemplo de um Pirlo ou Totti.

Gonçalo disse...

Batalheiro, por mim tens todo o espaço do mundo, quando tiveres oportunidade.. Estas à vontade. Qt ao Luigi Pareyson, não conheço, mas vou tratar disso.

Um abraço

Nuno disse...

Batalheiro, debates profícuos é o que se deseja. Estás à vontade. Quanto ao Pareyson, algum livro em concreto?

Paulo, fico à espera...

Nuno disse...

Farnerud?

Mais um daqueles nomes postos por vocês para espicaçar o pessoal. O homem podia ter sentido táctico, jogar simples e muitas vezes correcto, mas seria muito melhor jogador se o futebol fosse um jogo sem balizas. Se o futebol fosse um jogo de posse de bola sem sentido, num espaço reduzido do campo (era onde o Farnerud pisava), enfim, se fosse um jogo totalmente diferente, ele era muito bom.
Assim não, nunca passou de um jogador vulgar que no pico da carreira chegou ao Stabaek, esse colosso europeu.

Ricardo Carvalho criativo...

Não sei bem a que te referes? ao sentido de antecipação? à leitura de jogo? à inteligência?

É que se tudo é criatividade, então todos somos criativos. E quem sou eu para te cortar essas asas. Procura bem nos autores que tão bem citaste (a melhor parte do post), pode ser que algum defenda que todos somos criativos. Mas o problema talvez seja de semântica.

Anderson?

De facto um jogador horrível. Nada criativo. Até me meteu piada reler as barbaridades nos posts em que dizem mal dele, depois da incrível evolução em Manchester.

Enfim, todos nos divertimos, voces a provocar, nós a responder.

Quanto ao conteúdo do post em si, nada que já não tenha sido falado/discutido mais que cem vezes.

Batalheiro disse...

"Deve-se dar liberdade a um jogador criativo, para que ele
possa desenvolver o seu jogo com fantasia e espontaneidade" Este
é um dos lugares comuns mais vezes repetidos por comentadores e analistas no geral.

A criatividade é uma ferramenta humana que foi sendo desenvolvida como forma de resolver problemas, por isso surge tantas vezes associada a actividades que implicam algum engenho e arte.

A criatividade surge quando uma situação é limitada, ou balizada, com fronteiras (ou regras) muito
concretas. Para que este discurso não se torne enfadonho vou tentar fundamentar com um exemplo:

1º Jimi Hendrix, unanimemente considerado o guitarrista mais influente, criativo e sobretudo original da música popular (Jazz, Blues, Rock, Pop) contemporânea. Quando surgiu na década de 60, jornalistas e músicos disseram que tinha aterrado um extra-terrestre, os sons que ele produzia nunca tinham sido escutados antes, enfim o ponto mais alto da originalidade/criatividade até então. Após um impacto inicial
explosivo, analisando mais profundamente a sua música, todos ficaram abismados com a simplicidade inerente
às suas melodias, nada do que Hendrix fazia era verdadeiramente novo, estava tudo bastante alicerçado em música Blues antiga (uma expressão musical bastante linear, baseada numa escala muito reduzida de apenas 5 notas-escala pentatónica-). O maior guitarrista de todos os tempos criou a maior parte da sua música(absolutamente inovadora, original e, é claro, criativa) baseado numa das formas mais simples de expressão musical.

A verdade é que ao se limitar a essas escalas e padrões tantas vezes repetidos no passado, foi necessário uma abordagem completamente nova desse tipo de música, uma nova perspectiva, pessoal e original que resultou numa explosão de génio e criatividade.

Este é um exemplo fantástico, dentro do mundo das artes, de como funciona a criatividade, como ela é potenciada ao se encontrar limitada, direi mesmo aparentemente encurralada.

Este é o meu ponto de partida para fazer uma analogia para o futebol. Por exemplo o jogador Cristiano Ronaldo encontra em Inglaterra o pior habitat possível para se desenvolver em termos criativos. Um campeonato onde prevalecem situações de um para um, onde um jogador rápido e forte, como ele, aliando capacidade técnica fora
do comum, nunca encontra obstáculos fortes o suficiente para o obrigarem a ter soluções novas e criativas para problemas. No fundo, resolve tudo com velocidade e técnica.

O exemplo oposto seria o jogador Francesco Totti, que jogou a carreira toda em Itália, sem nunca ganhar uma bola de ouro,
mas que foi durante muito tempo o melhor jogador do mundo a par de Zidane. Em Itália, onde o espaço e tempo para pensar são mais raros do que encontrar uma virgem no bairro alto à noite, Totti teve de aprender a executar rápido e bem, e consegue-o, muitas vezes, com soluções que permitem à sua equipa avançar, encontrar novos caminhos para o seu jogo, soluções aparente
mente simples (como o Jimi Hendrix, sendo que uma comparação mais justa seria Maradona-Hendrix) mas que muitas vezes são visíveis
apenas a alguns, cada vez mais raros, génios.

Bom, escrevi isto de seguida, tenho pena de não ter tempo para uma argumentação mais aprofundada, talvez um dia destes faça um blog também...até porque alguém precisa de vos fazer frente na questão do 442 clássico! ehehe. Mas penso que ficou o essencial do que queria dizer.

Ps: Luigi Pareyson "teoria della formativita" é a teoria da estética, neste momento, mais estudada no mundo das artes...mas
boa sorte em encontrar uma versão sem ser em italiano! Sei bem o que sofri quando tive de a ler.

Ps2: Parabéns por este post, foi dos melhores e mais inspiradores que li no vosso blog, keep up the good work! (excepto no caso
do 442 clássico).

Nuno disse...

Nuno diz: "Quanto ao conteúdo do post em si, nada que já não tenha sido falado/discutido mais que cem vezes."

Nuno, esta afirmação, por si só, é bastante reveladora: nem sequer percebeste o texto.

"Ricardo Carvalho criativo...

Não sei bem a que te referes? ao sentido de antecipação? à leitura de jogo? à inteligência?"

Está explicado no texto o que se entende por criatividade. Só viste os nomes? Criatividade implica encontrar novas soluções. O Ricardo Carvalho é um jogador criativo, nesse sentido.

"Anderson?

De facto um jogador horrível. Nada criativo. Até me meteu piada reler as barbaridades nos posts em que dizem mal dele, depois da incrível evolução em Manchester."

O Anderson é como o Ronaldo: vive de argumentos técnicos e físicos. Quando tem de pensar rápido e arranjar soluções diferentes, fica invariavelmente sem a bola. Não é, por isso, um jogador criativo. E não estou a ver que evolução é que ele teve em Manchester. Pelo contrário, para mim, regrediu. Perdeu um ano a jogar numa posição onde nunca fará a diferença, quando poderia vir a ser um bom extremo ou um bom segundo avançado.

"Enfim, todos nos divertimos, voces a provocar, nós a responder."

Pois, eu vi logo que não leste o texto. Mas, neste texto, alguém provocou alguma coisa? Não leias, que não é preciso...

Quanto ao Farnerud, o vosso complexo reside no facto de pensarem que um passe rasteiro para o lado ou para a frente, de 10 metros, é uma coisa fácil de fazer.

Batalheiro, concordo com o facto de a criatividade se demonstrar em condições em que são impostas regras. Um exemplo semelhante ao do Hendrix que dás, é o projecto de Alberto Caeiro, na obra de Pessoa. O Alberto Caeiro nasce com um objectivo claro: fazer poesia como se não se soubesse nada daquilo que é preciso para fazer poesia. Caeiro é o projecto de desaprender. Assim, o que faz é afirmar que a poesia deve ser apenas olhar, mas olhar sem pensar. O que acontece é que ele leva esta ideia aparentemente simples o mais longe possível e constrói um sistema filosófico que abrange imensas coisas. Partindo de uma coisa simples, cria uma poética profundamente original e extraordinária. Os grandes génios são aqueles que conseguem dizer as coisas complexas de uma forma simples.

Quanto ao Ronaldo, já o defendemos várias vezes aqui que, fora de Inglaterra não seria o jogador que era exactamente porque lhe falta criatividade, capacidade de improvisar, espontaneidade, etc. É um jogador que vive dos argumentos técnicos, físicos, da determinação e dos números de circo.

Quanto ao Totti, não o acho tão criativo como, por exemplo, o Del Piero. No ano em que o Figo ganhou o prémio de melhor jogador, para mim o Del Piero foi o melhor. Mas nunca foi reconhecido como tal. E foi um jogador formidável.

Quanto ao Pareyson, não conheço, mas quero ver se leio. Consigo ler relativamente bem em italiano, portanto talvez não seja complicado.

Abraço!

Batalheiro disse...

O Caeiro é um óptimo exemplo, só para completar: alguns poetas escolhem fazer poemas sem a letra "a" por exemplo, ou abdicam de familias inteiras de palavras para construir os seus poemas.

Já percebi que o Farnerud levanta muita polémica por aqui. Acho que é um jogador criativo e inteligente a jogar, mas não tem a capacidade técnica para evoluir muito mais, penso que se encaixa na perfeição num 442 losangulo e como tal a sua dispensa é pouco menos do que absurda.

cajo disse...

O que é que acham do Veloso?

Zezé disse...

o veloso é um menino projectado um pouco pelo apelido herdado do pai, com alguma qualidade de passe, que se revela lento na maior parte das decisões que é obrigado a tomar. notório no jogo de hoje, em que punha em apuros os centrais, retardando sempre o passe. porém, quando joga ao 1º e 2º toque, não é mau médio

João Gonçalo disse...

Com alguma qualidade no passe? Lento a decidir? Não é mau médio?

Zezé estás mesmo a falar de quem? Não é do Veloso do Sporting pois não? Falo sério.

Cumprimentos

Nuno disse...

O Veloso é um jogador de grandes qualidades. A nível posicional, encontro-lhe um defeito que sempre teve, mas que em algumas alturas soube disfarçar: o facto de se colar em demasia aos centrais no processo defensivo. De resto, a nível posicional é praticamente perfeito. Depois, com bola, é tecnicamente muito bom e permite ao Sporting diferentes formas de sair. Tem qualidade de passe e é rápido a decidir e a executar. Considero-o inteligente, embora peque, sobretudo o ano passado, em insistir no lado de onde vem a bola. Acho que é o médio-defensivo de maior futuro em Portugal, mas tem de melhorar algumas coisas, sobretudo os níveis de concentração e a capacidade de percepção do que é a melhor para a equipa. Tirando isto é um jogador que dá muito bem os apoios a nível ofensivo, sendo sempre uma referência recuada ao portador da bola. Outra coisa que o pode prejudicar é o ego, que quando está alto revela sempre falhas de concentração. Mas é um excelente jogador, com potencial para se tornar numa das referências da selecção nos próximos tempos.

cajo disse...

Ou então é um menino que tem a mania que é jogador e que, como ontem ficou provado mais uma vez, quando é posto perante uma situação de pressão alta como a dos ingleses, não sabe decidir e acaba sempre por perder a bola. Tanto ele como o Fernandes ontem fizeram das piores exibições que eu já vi numa camisola de Portugal.

Zezé disse...

concordo cajo. concordamos os dois e o Paulo Bento

Zezé disse...

post seguinte...

Rui Silva disse...

Sofisma é escrever este texto todo, definir criatividade como algo original e que encontra soluções diferentes da dos outros e depois destacar jogadores que tomam essencialmente opções simples e que, podem ser correctas, são tudo menos criativas. Casos do eterno Farnerud e, por exemplo, do Ricardo Carvalho (a não ser que seja criatividade defensiva, o que não estou a ver...). Nada de novo...

Venha o insulto!

Gonçalo disse...

Cajo, em relação ao M. Veloso, nas ultimas analises que fizemos ao Sporting, referentes à época passada, vais comprovar que já há muito que defendiamos que as suas actuações, no conjunto leonino, estavam a compremeter algum equilibrio da equipa.

O veloso qd apareceu, devido às lesões do Custódio, e do Paredes, surgiu em gd estilo, jogando a um, dois toques, arriscando só qd tinha que arriscar, e não por "capricho". Todavia, depois de toda a febre que surgiu o ano passado em redor do mesmo, ele desconcentrou-se, tornando-se lento a soltar a bola, posicionando-se mal, etc.

Eu não vi o jogo de dos su-21, mas tenho alguma dificuldade em compreender isto: se criticam( e se foi esse o caso, bem!) o Veloso por ser lento a soltar a bola, então porque é que toda a gente criticava o Custódio?

Rui Silva, que o meu texto é mau, e que não acrescenta nada, e que não tenhas conseguido entender o que se defende no mesmo, para mim é na boa, e até previsível da tua parte.
Mas se depois da explicação do Batalheiro, ainda não percebeste o que é criatividade...

Um abraço

Rui Silva disse...

Obrigado Gonçalo pela excelente explicação e pela forma como mais uma vez assumes a tua superioridade intelectual. Como ainda ninguém explicou verdadeiramente porque é que o Farnerud ou R.Carvalho são criativos (depois de terem debatido tanto tempo o que é criatividade) já que as suas opções são, ainda que correctas, normalmente simples, fico-me com a explicação do preconceito que, afinal, orienta todos os posts deste blog. Nada de novo.

Mas me não vou sem enriquecer com mais uma revolucionária frase do Nuno:

"o vosso complexo reside no facto de pensarem que um passe rasteiro para o lado ou para a frente, de 10 metros, é uma coisa fácil de fazer."

Que grande "complexo"! Toda a gente sabe que o que é fácil é fazer passes de 40 metros. Um passe de 10 metros para o lado é uma obra criativa!

Anónimo disse...

Dápara votar nessa tua pérola dita pelo Rui, Nuno?

lol disse...

Um passe rasteiro de 10 metros (para o lado!!) é dificil??

Bem... vocês devem ser cá uns talentos!

Nuno disse...

Rui Silva diz: "
Venha o insulto!"

Pá, não há insulto que valha a pena para quem não percebeu um texto destes.

"Sofisma é escrever este texto todo, definir criatividade como algo original e que encontra soluções diferentes da dos outros e depois destacar jogadores que tomam essencialmente opções simples e que, podem ser correctas, são tudo menos criativas."

Tu não sabes o que é criatividade e não percebeste o que o batalheiro disse. Vou dar uma achega. Os maiores génios são aqueles que fazem tudo de forma aparentemente simples.

"Como ainda ninguém explicou verdadeiramente porque é que o Farnerud ou R.Carvalho são criativos (depois de terem debatido tanto tempo o que é criatividade) já que as suas opções são, ainda que correctas, normalmente simples, fico-me com a explicação do preconceito que, afinal, orienta todos os posts deste blog."

Explicar, até já se explicou. Com meia-dúzia de neurónios tinhas chegado lá. Presumires que uma coisa simples é equivalente a "coisa fácil de fazer" é o maior atestado de estupidez que poderias passar a ti mesmo.

"Toda a gente sabe que o que é fácil é fazer passes de 40 metros. Um passe de 10 metros para o lado é uma obra criativa!"

Olha, há um post neste blogue a ensinar ao Pelé o que é um passe. Se quiseres, procura. Nesse post, defino o passe não como um gesto técnico e individual, mas como um gesto colectivo e intelectual. Rapidamente, a qualidade de um passe tem a ver não com a precisão e perícia técnica do executante, mas com a descoberta da melhor solução em cada momento. Isto faz do passe, muito mais do que um gesto técnico, um gesto intelectual. Além disso, só tem qualidade enquanto a equipa puder ganhar algo com isso, por isso é um gesto colectivo. Depois desta explicação, posso-te dizer que, se calhar, em 80% das situações de jogo, um passe de 10 para o lado é melhor do que um passe de 40 metros. E como é melhor, requer maior capacidade intelectual. Fazer passes de 40 metros, qualquer gajo que treine sozinho e que tenha o mínimo de técnica consegue. Mas o problema é que se meteres onze adversários e lhe pedires para fazer isso apenas quando a equipa ganha alguma coisa com isso, ele não é capaz. É o caso do Pelé. O Pelé mete a bola onde quer porque tecnicamente é dotado. Mas quantas vezes é que os passes de 40 metros dele são a coisa mais indicada? Raramente. Ou seja, criativo é aquele que consegue descobrir, em cada momento de jogo, a melhor solução. O Farnerud não fazia só passes de 10 metros. Vai ver o estudo que fiz sobre ele. Nesse jogo, fez 2 passes a rasgar. Contra equipas fechadas lá atrás, um médio-defensivo ou um médio que jogue na posição dele raramente tem oportunidade para fazer mais do que 1 ou 2 passes de 40 metros por jogo. O Farnerud era criativo porque sabia encontrar a melhor solução em cada momento de jogo. Muitas vezes a melhor solução era jogar para o lado ou para trás e isso até pode não ser difícil de fazer. Mas tantas vezes ele fazia passes verticais de 10/15 metros que são só das coisas mais complicadas em futebol. E sabes por que é que são complicados? Porque precisas de perceber que tipo de apoios é que o jogador a quem dás a bola vai ter, uma vez que vai receber a bola de costas para a baliza e com um adversário à perna. O Farnerud, tirando o Pereirinha (que neste detalhe é genial), era o jogador do Sporting que melhores e mais passes verticais fazia. O problema é que as pessoas assumem que fazer um passe pelo chão é fácil porque o gesto técnico é fácil. Para quem tem cérebro, a técnica, no passe, é uma parte ínfima do mesmo. Num passe, saber executar é quase irrelevante, porque isso é facilmente treinável.

Quanto ao Ricardo Carvalho, acho que está bem explicado o porquê de ele ser criativo. É aquele central que percebe, antes de toda a gente, o que pode acontecer. É criativo porque sabe ver as soluções que tem ao seu dispor e descobrir qual a melhor; é criativo porque, mentalmente, sabe descobrir o que parece difícil. Está explicado no texto que ter a bola não é um critério para se ser criativo. A criatividade existe com e sem bola. Tu é que pensas que criatividade é meter a bola na cabeça, como o Kerlon, ou fazer números de circo. Números de circo, passar a perna por cima da bola, fazer vírgulas, são números de circo. Criatividade é outra coisa. Mas admito que alguém como tu não o perceba...

anónimo diz: "Dápara votar nessa tua pérola dita pelo Rui, Nuno?"

Não, Homais, não dá. Já fizeste essa piada e não resultou. Continuas a insistir. Ficaste dorido por seres o autor de 5 ou 6 comentários hilariantes, foi?

lol diz: "Um passe rasteiro de 10 metros (para o lado!!) é dificil??

Bem... vocês devem ser cá uns talentos!"

A mesma resposta dada ao Rui. É difícil na medida em que a dificuldade ao efectuar um passe tem muito pouco a ver com o gesto técnico.

Batalheiro disse...

"Sofisma é escrever este texto todo, definir criatividade como algo original e que encontra soluções diferentes da dos outros e depois destacar jogadores que tomam essencialmente opções simples e que, podem ser correctas, são tudo menos criativas."

Penso que foi o Rui Silva que disse isto;

Um jogador pode jogar sempre simples e não ser criativo. Não é isso que está em causa, esse é todo um outro tema sobre o que é a "simplicidade".

Em relação ao porquê do Ricardo Carvalho ser criativo:

Porque encontra soluções correctas, simples, coerentes, inteligentes, originais e a maior parte das vezes diria mesmo perfeitas, para os problemas que lhe surgem.

Anónimo disse...

Carvalho dá a bola a Pepe que se encontra ao lado dele, sem oposição. Brilhante e criativo. lol

Nuno disse...

Depois de ter dito que "a criatividade existe com e sem bola", este último comentário é um atentado à estupidez...

Anónimo disse...
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Batalheiro disse...

Penso que querias dizer um atestado de estupidez ou então um atentado à inteligência. Desculpa, não resisti hehehe.

A maneira como a maioria das pessoas se banha alegremente no charco da ignorância e da estupidez abrutalhada nunca para de me surpreender...e entristecer. O irónico da chamada "era da informação" é que parece produzir cada vez mais espécimes destes, e não o contrário. Enfim, é o resultado do relativismo egoista absoluto em que vivemos...

Nuno disse...

:) Era mesmo um "atentado à estupidez". Foi tão estúpido que até atentou contra a própria estupidez...

Rui Silva disse...

Algumas frases sobre ignorancia para ti Nuno há um provérbio que diz assim: "Perguntem aos jovens: eles sabem sempre tudo.". Lembra-me muito as tuas verdades inatacáveis.

Já agora fica outra frase que te cai bem: "Envergonha-te menos de confessar a tua ignorância do que de teimar numa discussão tola" (Elizabeth Joceline).

Sobre estupidez há uma frase do Nietzsche que me parece fazer escola neste blog: "Muitas vezes, ajudar no triunfo de uma idéia significa apenas associá-la tão fraternalmente com a estupidez, que o peso da última se torna também obrigatória a vitória da primeira"

Nuno disse...

Ena, provérbios e citações... Não tarda começam a transcrever receitas...

Batalheiro disse...

Uma citação implica uma compreensão profunda de uma determinada obra e um poder de síntese admirável!

Ah não espera, implica fazer copy/paste.

“O que seria do amarelo se todos gostassem do azul?” Pato Donald in “As férias do tio patinhas”

rui disse...

Sobre o anderson n posso deixar de comentar... ve o ultimo jogo pa tça da liga onde foi ele a acelerar o jogo o manchester e a fazer os passes de ruptura kd necessario...alias esta epoca ele tem feito uns poucos...è a tal inteligência de pensr rapido e executar melhor. Como o deco.