terça-feira, 1 de junho de 2010

Os erros de Pepe

Antes de iniciar, gostaria de dizer, em jeito de preâmbulo, que este texto está preparado há já bastante tempo e que, reportando-se à temporada 2008/2009, deveria ter sido publicado no final da época anterior ou no início desta que agora terminou. Por força das circunstâncias, a sua publicação foi sendo adiada sucessivamente. Apesar de tudo, o texto acaba por conhecer a luz do dia numa altura apropriada, alguns dias apenas antes do Mundial da África do Sul, e no momento em que Pepe parece finalmente apto a dar o seu contributo à selecção nacional. Tendo em conta que, em mais de metade desta época, Pepe esteve parado, o texto acabou por não perder assim tanta relevância. Embora o seu conteúdo não seja actual, as conclusões que dele se podem tirar são-no. É com isso em vista que ele deve ser lido.

Já aqui, noutras ocasiões, ficou a minha opinião sobre defesas centrais e sobre que tipo de defesas me parecem mais competentes. Retomando, em traços gerais, as minhas denúncias em relação a centrais mais impetuosos, queria reforçar que, por norma, impetuosidade acarreta falta de atenção, desposicionamento desnecessário, precipitações, acumulação de erros, etc. O central luso-brasileiro Pepe foi sempre, para mim, um destes centrais. Nunca lhe reconheci o valor que lhe queriam imputar nem consigo incluí-lo, de maneira nenhuma, nos melhores centrais europeus da actualidade, como o quer muita gente. A sua abordagem aos lances, o seu excesso de agressividade, a forma irracional com que desempenha o seu papel dentro de campo foram sempre, na minha óptica, um problema. Mesmo quando esse comportamento não causava directamente problemas, fui sempre da opinião que era um sinal inequívoco de falta de qualidade. Lembro-me, por exemplo, de ser dos poucos a afirmar que a primeira fase do Euro 2008 de Pepe foi medíocre, quando a opinião pública defendia que estava a ser o melhor central do certame. A razão era óbvia: ainda que não tivesse sido o causador de nenhum golo sofrido ou não tivesse protagonizado qualquer fífia, a sua postura em campo denunciava um risco que, mais tarde ou mais cedo, iria ser pago. Lembro-me, por exemplo, de cometer três erros graves no primeiro jogo de Portugal, erros esses que ou não deram em nada ou que ele próprio conseguiu corrigir, graças à sua velocidade e à sua agressividade. Ora, não sou capaz de gabar um jogador que, mesmo quando não é o responsável directo pelo insucesso da sua equipa, comete erros que podem, em situações idênticas, comprometer esse mesmo sucesso. E Pepe comete-os com uma frequência assustadora. E sempre os cometeu. Não consigo elogiar um jogador deste tipo, mesmo reconhecendo que tem algumas características acima da média e que, em comparação com outros defesas centrais, faz coisas que nem toda a gente é capaz de fazer. Um central que não é seguro, que comete erros com frequência, mesmo que alguns desses erros não tenham consequências relevantes, jamais pode ser um central de eleição.

Muita gente achará, por certo, que estou a exagerar, que a frequência dos erros de Pepe não é assim tanta. Antes de passar ao conteúdo propriamente dito deste texto, gostaria de transcrever um artigo de Jorge Valdano, intitulado "O Erro", publicado no jornal A Bola, no dia 29 de Novembro de 2008, no qual o ilustre dirigente merengue refere precisamente o mesmo que eu, que Pepe dá erros atrás de erros:

"Pepe é um colosso. Um central rápido, poderoso, que faz sentir a sua presença na marcação, sempre pronto a auxiliar e que transmite segurança. Mas desconcerta-me que em cada partida cometa um erro decisivo: expulsão, penalty, uma prenda a um avançado... Uma fífia calamitosa no meio de uma montanha de acertos arruína a nota final de um jogo. Há jogadores que têm esta debilidade. Treinei um central a quem apelidámos de O erro, assim, no singular. Quando o cometia nos primeiros minutos do jogo, respirávamos de alívio: "Já está", dizíamos. Se tardava em cometê-lo, vivíamos angustiados, porque o erro nunca tem hora, e chegaria seguramente. Pepe é um defesa grande demais para gerar essa incerteza."

(Jornal A Bola, Sábado, 29 de Novembro de 2008)

A minha opinião em relação a Pepe não é tão lisonjeira quanto a de Valdano. Acho que não é "grande demais para gerar essa incerteza" precisamente porque ao gerá-la perde grandeza. E como a gera frequentemente, não tem grandeza frequentemente. Pepe é um central mediano, que tem algumas características muito boas, mas outras péssimas. E as que não são boas são precisamente as mais relevantes: a capacidade de se manter concentrado, o controlo emocional, o sentido posicional, a capacidade de leitura dos lances, etc. Pepe está sobrevalorizado porque no futebol dos dias que correm há tendência para se valorizar aquilo em que Pepe é bom, ignorando precisamente que o resto é que não deveria faltar. E por causa disso equivocam-se muitas vezes.

Depois disto, que já era conhecido, resta falar do processo de fabrico deste texto. Tive a ideia, no início da temporada correspondente a 2008/2009, de seguir com atenção os jogos do Real Madrid e de fazer um inventário dos erros de Pepe. A ideia consistia em arranjar argumentos sólidos - leia-se factos - com que demonstrar inequivocamente que Pepe cometia demasiados erros para a reputação que tinha. Não sabia, na altura, qual seria o prazo dessa investigação, nem que tipo de erros iria incorporar. Depressa me apercebi, porém, que muitos dos seus erros originavam golos dos adversários, pelo que limitei a investigação aos erros de Pepe que se relacionavam directamente com golos sofridos pelo Real. Para dar também um ar unificado à coisa, decidi prolongar a investigação até ao fim da temporada, fazendo um apanhado geral do comportamento do central português no decorrer da mesma. Assim, o que em seguida se mostrará é o conjunto de erros cometidos por Pepe que estiveram directamente relacionados com golos adversários (ainda que haja algumas excepções, como penaltys cometidos por Pepe, mas não sancionados pelo árbitro), ao longo da temporada de 2008/2009, bem como a análise das consequências desses erros. Não poderia ilustrar melhor cada um dos erros a que me refiro do que através de uma montagem com os lances em questão. A compilação dos erros de Pepe ao som da Marcha Eslava de Tchaikovsky dá um lado monumental à coisa. Fica a prendinha:



Depois do filme, importa fazer uma análise numérica dos erros de Pepe. Pepe esteve presente em 26 partidas da Liga Espanhola, tendo o Real Madrid, nesses 26 jogos, averbado 22 golos sofridos. Pepe teve responsabilidade directa nos dois golos frente ao Deportivo, na primeira jornada, nos dois golos frente ao Athletic de Bilbao, na oitava jornada, no golo frente ao Bétis, na vigésima quarta jornada, e nos dois golos frente ao Getafe, na trigésima segunda jornada. São 7 golos, em 22, da sua responsabilidade. Significa isto que 32% dos golos sofridos pelo Real Madrid, na temporada 2008/2009, tiveram o cunho do central luso-brasileiro. Foi ainda responsável pela derrota frente à Juventus, na fase de grupos da Liga dos Campeões, e pela derrota frente ao Liverpool, nos oitavos de final da mesma prova, e que ditou a eliminação do Real Madrid. Registaram-se ainda quatro penálties (só dois foram assinalados), absolutamente desnecessários e estúpidos, que contribuíram ou poderiam ter contribuído para maus resultados da sua equipa.

De acordo com estes números, parece-me pouco defensável a ideia de que Pepe é um dos melhores centrais da Europa. Foi culpado por um número excessivo de golos sofridos pelo Real Madrid na Liga e um dos principais responsáveis pela derrocada de Anfield, que afastou o Real da Liga dos Campeões. É certo que tem características que impressionam. Mas o futebol não é para os que mais impressionam, para os que têm mais músculos, para os que correm mais, para os que lutam mais. É para os que jogam melhor. A um central pede-se, entre outras coisas, sobriedade e segurança. Pepe pode dar agressividade, capacidade de luta, entrega, mas não é sóbrio nem seguro. Sozinho, foi responsável por um terço dos golos sofridos pela equipa. É um exagero. Todos os grandes centrais têm dias maus e falham ocasionalmente. Pepe, contudo, falha muito e com muita frequência. Na temporada de 2008/2009, parte dessas falhas resultaram em golos sofridos pela sua equipa. Faltaria observar as falhas que não tiveram consequências relevantes. Tal análise teria por conclusão, por certo, que o central comete demasiados erros e que a equipa, com ele em campo, permanece constantemente insegura.

O futebol de Pepe é vertiginoso: é um central que vai a todas, que disputa todas as bolas como se não houvesse amanhã, que consegue cortes no limite, que faz recuperações fantásticas. Mas essa vertigem, que tantas vantagens traz, acarreta igualmente desvantagens que este texto elucida categoricamente. Por ser como é, Pepe comete erros atrás de erros. E prejudica regularmente a equipa em que joga. Se as consequências positivas da natureza vertiginosa do seu futebol o tornam um central como poucos, as consequências negativas tratam de colocá-lo bem mais abaixo, na mediania. Ao chegar ao Real Madrid, Pellegrini disse-se impressionado com Pepe. Dizia o técnico chileno que Pepe tinha imponência a sair com a bola e era uma voz de comando. A apreciação do ex-treinador, porém, negligenciava o quão nefastas podem ser tais características. A imponência pode ser uma virtude, com efeito, mas nunca às custas da concentração, da sobriedade, da lucidez, da segurança, da frieza. A um central pede-se essencialmente regularidade e é preferível que não faça um único corte arriscado durante uma temporada do que arrisque constantemente, sendo bem sucedido nuns, mas provocando consequências ruinosas para a equipa noutros.

Há quem diga ainda que Pepe é o melhor central do mundo a jogar alto. O exagero da convicção só não é mais absurdo que o erro de lógica que lhe subjaz. Tal erro consiste em presumir que, para jogar alto, basta possuir velocidade e impetuosidade, coisas em que Pepe, de facto, é dos melhores do mundo no seu posto. Para cobrir com eficácia todo o terreno que fica nas costas de uma defesa que se posiciona muito alto não basta, porém, ser-se rápido e reagir rápida e agressivamente à perda de bola. É preciso, e é até mais importante, estar-se bem posicionado, perceber e ler convenientemente as jogadas e antecipar, mentalmente, as possibilidades das mesmas. Pepe é rapidíssimo em termos musculares. Não o é, de maneira nenhuma, em termos mentais. A interpretação que faz dos lances é, invulgarmente, se não errada, lenta. Além disso, tem problemas posicionais óbvios e, quanto mais veloz o jogo, menos correcto é o seu posicionamento instantâneo. Procura muitas vezes antecipar, porque é rápido a deslocar-se, as investidas dos adversários, mas raramente acautela possibilidades alternativas e, sempre que o adversário opta por uma solução que não a mais previsível, as suas tentativas de antecipação são frustradas e adquirem um carácter pernicioso. A jogar alto, Pepe é útil para contornar a possibilidade de bolas lançadas pelos defesas contrários para as costas da defesa, mas é também nocivo sempre que o jogo do adversário não se reduz à esterilidade de tais lançamentos longos e evolui de modo mais curto e certeiro. Aí, Pepe é uma barata-tonta, querendo tapar buracos a toda a hora e descuidando invariavelmente o seu posicionamento e a estrutura colectiva da sua defesa.

Resumindo, este texto procura demonstrar - e creio que o consegue - que as falhas de Pepe não são ocasionais e, sobretudo, acidentais. Acontecem com excessiva frequência e resultam daquilo que são as suas principais características. Para quem prefere um jogador pelas características individuais e por aquilo que, individualmente, pode oferecer, Pepe tem, de facto, boas qualidades. Quem prefere jogadores por aquilo que podem dar à equipa, pelas suas características colectivas, jamais pode apreciar Pepe. O que este texto demonstra é que, em termos colectivos, Pepe é um jogador vulgar. Resolverá, por certo, uma taxa de problemas individuais superior à da maioria, mas a resolução de problemas individuais é apenas uma parte ínfima das tarefas de um central. Pepe pode ser fortíssimo em lances de um para um, em lances em profundidade, em antecipações, pode ser dos centrais que mais bolas recupera num jogo e que mais activo está durante uma partida de futebol. Mas isso é apenas uma parte quase insignificante do seu papel enquanto central. Se o futebol fosse um jogo de pares e, durante um jogo, um jogador se medisse pelo duelo individual com o adversário que apanhasse, Pepe seria certamente dos melhores centrais do mundo. Mas o futebol não é nada disto. Pepe é fraco em situações de dois para dois, é pouco rigoroso a manter a linha defensiva ou a fazer a cobertura devida a um colega, está frequentemente desconcentrado e mal posicionado, não consegue distinguir situações em que deve arriscar desarmes difíceis de situações em que não deve, não percebe a importância de ficar em contenção, em determinadas situações, não é capaz de interpretar com qualidade as necessidades da equipa a cada instante, etc. Por tudo isto, não pode pertencer a uma elite de jogadores que possuem estes predicados.

11 comentários:

R. Galeiras disse...

o video nao funciona...

PedroBM disse...

Nuno,

Poderias referir, seguindo os mesmos principios, quais sao os centrais que achas os melhores, actuais ou de um passado recente?

Nuno disse...

Ricardo, não faço ideia de qual seja o problema. Fi-lo como tenho feito todos os outros e utilizei a plataforma do próprio blogger. No meu computador está a funcionar. Estás a utilizar o Firefox?

PedroBM, dez assim de repente, Ricardo Carvalho, Piqué, Rio Ferdinand, John Terry, Jamie Carragher, Gallas, Chiellini, Cannavaro, Córdoba. Haveria certamente mais alguns a incluir nesta lista, mas para já acho que serve.

Joao Vieira disse...

Podes juntar também o David Luis e o Lucio, muito generosos mas um pouco desconcertantes na analise do jogo.

PedroBM disse...

Nuno,

Ricardo Carvalho, Cannavaro, Gallas, concerteza, grandes centrais.
Agora John Terry e Rio Ferdinand? O John Terry provoca muito mais perigo devido a erros proprios do que o Pepe e muitas vezes o perigo so passa porque tem o Carvalho ao lado, coisa de que o Pepe nao costuma beneficiar.

Na minha modesta opiniao, de futebol nos ultimos 10/20 anos acho que nenhum central me impressionou tanto como Gamarra. A sua leitura de jogo, posicionamento e a capacidade de jogar limpo era simplesmente excelente - infelizmente nunca chegou a equipa de topo e por isso nunca teve a exposicao merecida.

João Gonçalo disse...

Boa tarde a todos.
O Gamarra jogou no Atlético de Madrid na época 1999/2000 e teve no Inter de Milão de 2002 a 2005. E sim, foi um central formidável.

Um abraço

Vitor Hugo disse...

Concordo com o PedroBM. E acrescento: Carragher, defesa fabuloso, mas perguntem a qualquer adepto do Liverpool... às vezes é o drama, o horror! :)

Agora, de facto, o Pepe tem características que são ideais para jogar mais à frente. E, se calhar, Queirós já percebeu isso (mas foi criticado, para não variar)!

No entanto, dilema: central kamikaze (como muitos dos melhores, lamento) ou trinco sem técnica de passe.

Zezé disse...

Pela tua análise o David Luiz tb n é de elite, certo? é que o brasileiro o benfica tb se caracteriza principalmente pela impetuosidade e velocidade...

(atenção, eu concordo com o que dizes sobre o pepe. mas não tanto a partir da época a que te referes..talvez vá dando o seu erro crasso, mas nada que chegue aos "calcanhares" do que fazia no porto)

Nuno disse...

Zezé, sim, é conhecido o meu desapreço pelo David Luiz. Mas não tem a ver com o ser impetuoso e veloz. Há jogadores com esses atributos que não cometem erros a toda a hora. Tem a ver com concentração. O que acontece é que esses jogadores, por estarem concentrados nesse tipo de coisas, esquecem muitas vezes outras. Mas há quem seja impetuoso e, ainda assim, consiga ser posicionalmente bom: o Terry é um exemplo. De resto, talvez o Pepe não dê tantos erros como antigamente, mas ainda dá muitos, como se comprova pelos lances referentes a 2008/2009.

Ricardo disse...

Sem dúvida, concordo. Excelente texto e o vídeo ajuda a demonstrar a ideia na perfeição.

Já agora, uma questão: o que achas do Pepe a trinco?

Se percebo a ideia de Queiroz (por quem, aliás, tenho respeito como treinador, ao contrário da maior parte dos portugueses) em retirá-lo de zonas tão recuadas para que esses erros não se notem tanto e, ao mesmo tempo, usar das suas características melhores para preencher um meio-campo necessitado de algum fulgor, velocidade e capacidade de pressão, tenho obviamente de discordar dele, na medida em que se não há posição fundamental no futebol (porque todas o são), a do jogador à frente da defesa apresenta-se como a mais "cerebral", digamos assim. Ora, cerebral e Pepe não combinam.

Abraço!

Paulo Silva disse...

Blog porreiro e bem estruturado. Também tenho um sobre futebol, se houver interesse podemos trocar links:

http://portuguesesnoestrangeiro.wordpress.com/