terça-feira, 16 de setembro de 2014

O professor Manuel Sérgio

O professor Manuel Sérgio, que de há uns tempos para cá ganhou a fama de saber alguma coisa de futebol, escreve com assiduidade num jornal desportivo. Além da tendência para gostar um pouco de tudo, como se nada fosse suficientemente mau para merecer a sua censura, tendência da qual Luís Freitas Lobo é o principal cultor, o professor Manuel Sérgio gosta de defender que a teoria e a prática andam de mãos dadas. Apesar do truísmo, o professor repete a ideia em todos os seus artigos, como se estivesse a dizer alguma coisa que a maioria das pessoas não percebesse. A ideia, em si, não só não é extraordinária, como é absolutamente vaga. O professor Manuel Sérgio acha que não, acha que ela contém os mistérios do universo, e não é capaz de aceitar a possibilidade de haver um mau treinador que alie a teoria à prática. Do seu ponto de vista, maus treinadores são aqueles que só têm prática, ou aqueles que só têm teoria. Os que aliam a teoria à prática são necessariamente bons. José Mota, cuja teoria podia ser resumida através da fórmula "Futebol = Luta de Galos", costuma saber passar dessa teoria à prática, pondo os seus atletas a jogar qualquer coisa desse género. De acordo com o argumento do professor Manuel Sérgio, isto é um bom treinador. De acordo com o argumento que reforçarei de seguida, o professor Manuel Sérgio é um tontinho.

A Academia, em termos gerais, tem o hábito de criar este tipo de tontos. São pessoas que, por se terem destacado dentro da Academia, acham que ela tem valor por si. E tudo aquilo que dizem é influenciado pela crença de que a formação que têm lhes dá uma determinada autoridade. Para dar um exemplo, o professor Manuel Sérgio costuma inundar os seus textos com citações de pensadores famosos, acreditando que coisas ditas por pessoas que toda a gente conhece, mesmo que fora de contexto, ajudam a enobrecer o que diz e dão força às teorias que sustenta. Este tipo de vício, o de achar que uma frase de Platão ou Nietzsche é lei, é aquilo que estou a tentar dizer que abunda em muitos académicos. Habituaram-se a ouvir pessoas a defender teorias com base no que os antepassados mais célebres diziam, um hábito, aliás, de outro regime, e acham agora que defender ideias é uma espécie de concurso para ver quem consegue citar mais antepassados. A Academia é muito isto. E o professor Manuel Sérgio, que desde que começou a escrever sempre lembrou que era académico, e que isso o distinguia de alguma maneira, costuma defender as suas ideias assim. Argumentar, para ele, é atirar com tralha antiga aos outros. Influenciado por aquilo que antigamente se achava ser um argumento, e que de facto é um argumento em regimes totalitários, o professor Manuel Sérgio chegou aos jornais desportivos e à opinião pública de pança cheia, como se a sua sabedoria acerca do jogo se justificasse por ser um velho jarreta, por ser académico e por conhecer algumas frases de gente que acha que é importante. 

No seu artigo mais recente, insurge-se contra Jorge Valdano, ainda que conte uma história patusca acerca do dia em que o conheceu, e da elegância do argentino, que muito respeita, e tal e tal. A razão pela qual se insurge contra Valdano é uma frase proferida por este num livro: "Nunca ouvi Mourinho dizer uma frase sobre futebol, digna de ser recordada". Mourinho é o campeão pelo qual a donzela Manuel Sérgio torce porque, evidentemente, o fenómeno Mourinho, como a muitas outras pessoas medíocres (o conselheiro Acácio, por exemplo, que agora comenta assiduamente na SportTV), tornou-o famoso. O sucesso de Mourinho foi tal que, para o explicar, deu-se voz a algumas pessoas que, até aí, ninguém conhecia. Desde treinadores a professores, todos ficaram a ganhar com isso. E o professor Manuel Sérgio foi um deles. Foi, digamos assim, o responsável por explicar o lado filosófico do sucesso de Mourinho. Como Mourinho o trouxe para a ribalta, o professor Manuel Sérgio decidiu que devia intervir a favor do seu protegido. E desatou a dizer disparates, uns na forma de argumentos à pedrada, outros na forma de citações sem nexo, a maioria deles revelando a senilidade que o define. Eis um exemplo:

"Há muitos anos já, o José Mourinho me escutou: "Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete"

Não obstante a brasileirismo do português, o professor Manuel Sérgio é suficientemente vaidoso para achar que ensinou o que de mais importante Mourinho aprendeu. Decidiu proteger Mourinho, portanto, porque acha que Mourinho pôs em prática os seus ensinamentos. Decidiu proteger Mourinho porque acha que o futebol das equipas de Mourinho foi, de alguma maneira, influenciado por ele. Eis outro exemplo dos disparates do professor Manuel Sérgio:

"No conhecimento científico, não há teoria sem prática, nem prática sem teoria, se bem que (e volto a palavras minhas) a prática seja mais importante do que a teoria e a teoria só tenha valor, se for a teoria de uma determinada prática."

Ao professor Manuel Sérgio, que gosta tanto de citar autores, bastava que se lhe citasse Aristóteles para que percebesse que estas três linhas não têm pés nem cabeça. Isto para não falar da implicação maior destas afirmações, a de que toda a gente devia ir para cursos profissionais. Para o distinto professor, tudo é prática. E a única teoria que tem valor é a teoria que se debruça sobre uma prática. Na insigne indústria do sapato, por exemplo, só há espaço para sapateiros e para teorizadores do sapato. E o modelo de sociedade que daqui decorre é um em que cada indivíduo ou vai para sapateiro (ou para outra profissão prática qualquer) ou para teorizador de sapatos (ou de outra arte qualquer). É mais ou menos o modelo proposto por Platão, com a importante diferença de só conceber a classe dos artesãos. Isto faria do professor Manuel Sérgio um pedagogo de tontos, não fosse o azar de fazê-lo um pedagogo tonto, como se vê no exemplo seguinte:

"se associarmos, no treinador de futebol Jorge Valdano, a teoria à prática, podemos aplaudir a teoria, até o seu humanismo, mas a prática (como treinador de futebol, repito-me) rasa o sofrível"

Jorge Valdano não teve grande sucesso como treinador, logo tudo o que diz é inconsequente. Para o professor Manuel Sérgio, o que autoriza uma pessoa a falar e a ter razão não são as ideias e os argumentos; são os resultados práticos. Seja o que for que Valdano diga, é necessariamente falso porque ainda não teve sucesso com essas ideias. Não sei o que o professor Manuel Sérgio acha que sabe, mas toda a História da Ciência consiste em pessoas que formularam teorias, que foram ridicularizadas enquanto essas teorias não foram aceites e que passaram à posteridade quando se percebeu que tinham razão. Toda a História da Ciência é sobre teorias que, depois de corroboradas, transformaram a prática para sempre. Valdano pode nem nunca ter sucesso como treinador, mas isso só implica que não diga coisas acertadas na cabeça tacanha de quem não sabe nada do que pensa que sabe. Veja-se mais um exemplo:

"Vejamos agora, sem irmos até ao pormenor, o que de mais significativo fez José Mourinho: completou 100 jogos, na Liga dos Campeões; foi campeão em Itália, em Inglaterra, em Portugal e em Espanha; venceu duas vezes a Liga dos Campeões e uma vez a Taça UEFA (hoje, Liga Europa)"

Para o professor Manuel Sérgio, o currículo de Mourinho fala por si. Com um currículo destes, tem necessariamente de ser bom treinador e de ter boas ideias sobre o jogo. Não interessa muito como e com que meios conseguiu o que conseguiu. O que interessa é que teve sucesso. Há cerca de três quartos de século, também houve quem tivesse dominado a Europa quase toda. Por isso, para o professor Manuel Sérgio, a máquina nazi também deve ser elogiada. Não interessa o poderio bélico desigual; só interessa o sucesso das manobras militares. O que Mourinho fez no Porto, e também na sua primeira passagem no Chelsea, é evidentemente invejável. O que fez depois disso é banal. E é-o não porque passou a ter piores resultados (o que aconteceu), mas porque passou a conceber o jogo de maneira diferente, ou seja, porque passou a teorizar de maneira diferente. Passemos para o último exemplo:

"E se consultarmos o livro Mourinho - a descoberta guiada, do prof. Luís Lourenço, aí encontraremos, na força expressiva das palavras, uma admiração incontida dos seus jogadores, pelo treinador e o homem que José Mourinho é".

Não sei se isto é desonestidade intelectual, se infantilidade. Gostava de conhecer um livro sobre uma pessoa que contivesse testemunhos de outras pessoas que dissessem mal dessa pessoa, mas não conheço. O professor Manuel Sérgio, pelos vistos, deve conhecer, ou não acharia que palavras elogiosas de jogadores num livro sobre um treinador pudessem servir de argumento para comprovar a qualidade desse treinador. Enfim... O professor Manuel Sérgio é um tontinho que tem hoje espaço na opinião pública porque teve a sorte de alguém que conhecia ter tido sucesso. Admira Mourinho não porque Mourinho seja um grande treinador, mas porque acha que Mourinho ilustra a única teoria que tem, e que repete ad nausea, uma teoria que, além de vaga, é falaciosa. Além de tonto, é por isso um bocado parasitário. A sua existência, pelo menos a sua existência pública, depende de outros. Não obstante, acha-se um intelectual de primeira água. Muito da sociedade contemporânea se explica pelo tipo de fénomeno que o professor Manuel Sérgio afinal incorpora: uma pessoa que dá ares de saber alguma coisa, mas que não sabe nada, e que de repente chega a milhares de outras. O melhor que podia fazer o professor Manuel Sérgio era, por isso, pedir que o empalhassem.

28 comentários:

bareira disse...

Chapeau

Rui disse...

Este texto revela tanto preconceito, tanta falta de honestidade intelectual, tanta comparação disparatada, que quem sai menorizado é o autor e não os alvos do autor. Este artigo não passa de uma alarvidade.

Bravo.

Mirza disse...

Gostava de ter escrito isto. Há uma eternidade que os jornais, sobretudo a Bola, nos moem a cabeça com as vacuidades da criatura. Suponho que por caridade, ninguém tem a coragem de dizer a que ponto o homem é nulo.

Nuno disse...

Rui, queres explicar porquê, ou foi só um palpite?

DC disse...

Por acaso já tinha reparado que este gajo basicamente vive à custa do Mourinho e do JJ. Aparece sempre como se os tivesse ensinado a treinar ou qualquer coisa do género.

A prosa dele diz basicamente aquilo que muitos te vêm dizer a ti e ao pessoal do LE e PB: se não treinam um clube grande e não ganham, nunca terão razão para criticar quem ganhou um campeonato.
Ainda este ano ando farto de aturar o pessoal com o Diego Costa apenas e só porque marca. E se marca, ninguém pode dizer que é péssimo em tudo menos encostar para a baliza.

Rui disse...

Nuno,

Sem perder demasiado tempo, porque ideais feitas com a força que as ideias que quis criticar no meu comentário revelam, são ideias que não vale a pena contrariar em demasia, sob pena de iniciarmos uma discussão prolongada, que não nos vai levar a lado algum, aqui vai.

O texto está eivado de preconceitos. Em primeiro lugar, contra a "Academia". Uma pessoa avisada, teria, no mínimo, algum cuidado em generalizar da forma crua e irreflectida como aqui se faz. A "Academia", como em tudo, tem personagens que não se distinguem das que podemos que podemos encontrar em todos os sectores de actividade. Algumas das pessoas mais brilhantes que conheci, são "académicos". Reduzir a "Academia" a "tontos", não só é uma imbecilidade, como releva preconceito e talvez algo mais, mas não quero ir por aí...

Em relação à honestidade intelectual, temos muito por onde pegar. Aquilo que acho mais ilustrativo é comparar o curriculum de um treinador inegavelmente vencedor, ao domínio inicial da Europa pelos nazis. Eu nem quero acreditar que esta comparação é algo que possa sequer ser feita, muito menos por alguém que esteja de boa-fé.
Também acho que é intelectualmente desonesto atacar o mensageiro em vez de atacar a mensagem. Se o que escreve Manuel Sérgio é errado, ataque-se isso, contraponham-se argumentos, mostrem-se factos que desmintam a tese, mas não se procure ridicularizar ou achincalhar a pessoa.

Que fique claro, estou-me a borrifar para o Mourinho e para o Manuel Sérgio, independentemente de achar que algumas coisas que Manuel Sérgio diz me parecem absolutamente correctas, o que até podia parecer estranho num académico. Conheço alguns académicos que só vivem no mundo da teoria e conheço pessoas que exercem actividades onde são "practitioners" e em relação às quais a completa ausência de acompanhamento da teoria, as torna "obsoletas" em pouco tempo, portanto não me custa nada reconhecer muitas circunstâncias onde as afirmações do Manuel Sérgio são absolutamente pertinentes. Se alguma crítica lhe fizesse, seria a do absolutismo (aparente) da afirmação. Tal como critico o absolutismo da generalização implícita, feita no texto, sobre a "Academia", também o absolutismo da afirmação de Manuel Sérgio é criticável.

Para terminar, sobre a presunção. Admitindo que algumas afirmações de Manuel Sérgio possam revelar alguma presunção, em que é que isso difere de algumas presunções feitas pelos autores do blog (a começar pela própria apresentação). Só a “nossa” presunção é boa, com base na “autoridade” que nos reconhecemos a nós próprios?

Batalheiro disse...

Um regresso à boa forma! Um texto corrosivo mas impecavelmente argumentado, elegantemente escrito, e irritantemente (porque me causa alguma inveja) entretido. Quase que não me importa sobre o que escreves mas sim como escreves, por vezes até discordo da tese do texto, mas o raciocínio é tão bem exposto que fico só a admirar a argumentação. Epá, lembras-me o Christopher Hitchens (R.I.P) na implacável aplicação do poder do raciocino fundamentado.

E depois abre-se a caixa de comentários e leva-se com o típico “e tu? já ganhaste alguma coisa? Então não tens moral para falar” e seus derivados; ou com um insulto aleatório. Que falta de imaginação.

Bom, para não ficares demasiado convencido tenho um reparo a fazer: no lugar de “banal” eu qualificaria a tese central do pensamento do Manuel Sérgio como uma “platitude”. Fica a sugestão.

Roberto Baggio disse...

DC, "A prosa dele diz basicamente aquilo que muitos te vêm dizer a ti e ao pessoal do LE e PB: se não treinam um clube grande e não ganham, nunca terão razão para criticar quem ganhou um campeonato."

Dá vontade de perguntar, e você, professor, o que é que você ganhou para ter opinião?!

Roberto Baggio disse...

PS: Nuno, tu és fodido. Não deixas passar nada! Acho até que vou parar de escrever sob pena de fazeres um texto desses com o título Roberto Baggio xD

Um abraço, bom artigo

Álvaro Costa disse...

Sem nada a acrescentar. Perfeito !

Nuno disse...

Rui diz: "Em primeiro lugar, contra a "Academia". Uma pessoa avisada, teria, no mínimo, algum cuidado em generalizar da forma crua e irreflectida como aqui se faz."

Rui, acho que fui claro a este respeito, e não generalizei. Digo que muito da Academia é isto, o que significa que há muitos académicos assim. Isso não significa que sejam todos, evidentemente.

"Em relação à honestidade intelectual, temos muito por onde pegar. Aquilo que acho mais ilustrativo é comparar o curriculum de um treinador inegavelmente vencedor, ao domínio inicial da Europa pelos nazis."

Não és o primeiro a vir aqui queixar-se das minhas comparações. A única coisa que possa dizer é que uma comparação é uma comparação. Se eu quisesse dizer que eram duas coisas iguais, não fazia uma comparação. Fiz uma comparação e pressuponho que as pessoas saibam como funciona uma comparação. Neste caso, a comparação era entre o sucesso futebolístico do Mourinho e o sucesso militar dos nazis. Servia para dizer que, tal como os nazis rapidamente conquistaram meia-europa porque tinham um poderio bélico extraordinário, o Mourinho conquistou coisas nos últimos anos basicamente porque treina equipas com grandes recursos. A comparação não vai mais longe do que isto, e não sei bem o que foi que tu achaste nela.

" Se o que escreve Manuel Sérgio é errado, ataque-se isso, contraponham-se argumentos, mostrem-se factos que desmintam a tese, mas não se procure ridicularizar ou achincalhar a pessoa."

Foi o que fiz. Mostrei que estava errado, argumentei e desmenti-lhe as teses. Depois ridicularizei-o por isso.

"Admitindo que algumas afirmações de Manuel Sérgio possam revelar alguma presunção, em que é que isso difere de algumas presunções feitas pelos autores do blog (a começar pela própria apresentação)."

Argumentos.

Batalheiro, platitude é um bom termo para o descrever.

comentador desportivo disse...

É um prazer ler praticamente tudo o que escreve, mas não estou de acordo com este post.
Independentemente de achar que tem razão, os argumentos, e a forma como elaborou o post, estam aquém do que costuma escrever.

jorge gaspar disse...

Escrevi um comentário no possedebolla no post que tinha esta frase do Manuel Sérgio "Quem só teoriza não sabe, quem só pratica repete" sem saber que tinhas escrito isto sobre ele. Se soubesse nem me dava ao trabalho de ter feito o comentário.
Por outro lado, da próxima vez já posso dizer o que acho do Manuel Sérgio. É que até, tinha medo de ao criticá-lo sofrer as consequências pelas mãos daqueles que o endeusam. Por isso é que só me referia a ele de forma indirecta, sem tentar transmitir uma opinião, não fosse dar a outros a capacidade de me cilindrarem argumentativamente. A forma como o fariam tu já expuseste aqui neste post. È a mesma forma utilizada pelo Manuel Sérgio para se referir a si próprio.
Depois de me ter enervado bastantes vezes com post teus, e com os teus argumentos,e possivelmente ter te criticado uma vez ou outra, tenho que admitir agora, que te pensava uma pessoa diferente. Pensava que eras de um meio, e que basicamente cingias a tua opinião á opinião do meio em que te inserias. Já percebi que estava completamente errado (já tinha percebido à mais tempo).
É pena que faças poucos posts e sempre sobre o mesmo tema (já falamos disso), é provável que estejamos de acordo mais vezes.
Por último:

"uma pessoa que dá ares de saber alguma coisa, mas que não sabe nada, e que de repente chega a milhares de outras"

Tirando a parte do milhares de outras, acabaste de resumir o que acho dos professores que tive na universidade.

Álvaro Costa disse...

http://m.abola.pt/noticia.aspx?id=501205

Rafael Antunes disse...

Há coisas em Manuel Sérgio que são interessantes, coisas de tempos já idos, mas que muitas delas ainda estão atuias...

Chegou a milhares, como refere no texto, talvez quando já pouco tinha a dizer!

Mas sou levado a concordar que, nesta função de escudeiro de Mourinho deixa a desejar... Mas é talvez o (único) papel que lhe deixam desempenhar....

Johnny McCaco disse...

off topic

J+a vi por aqui muitas discussões sobre o tema, que tens a dizer sobre este artigo, que tende a concordar coma influência de factores genéticos no desenvolvimento de capacidades, para além das físicas?

Que literatura aconselhas sobre o tema, já que a discussão na psicologia, biologia, etc, é extensa e por vezes pouco conclusiva?

Bom post

Johnny McCaco disse...

http://www.slate.com/articles/health_and_science/science/2014/09/malcolm_gladwell_s_10_000_hour_rule_for_deliberate_practice_is_wrong_genes.2.html

Miguel Pinto disse...

Olá Nuno, é a 1ª vez que comento neste espaço embora 'conheça' alguns dos participantes.
Em relação ao tema, nada tenho a acrescentar, penso que está bastante esclarecedor.

No que toca ao assunto puxado pelo Johnny McCaco deixo aqui também um vídeo com uma história interessante, alguns de vocês devem conhecê-la, e que seria, na minha opinião, um bom motivo para se discutir um pouco fazendo o transfer para o futebol.

Abraços

Miguel Pinto disse...

http://m.youtube.com/watch?v=2wzs33wvr9E

Aqui fica o video em questão.

Johnny McCaco disse...

Miguel Pinto, fantástic, fantástico documentário. Vem de acordo com o que venho defendido, mesmo dando de barato (que não dou mas for discussion sake, dou), que há aptidões simples à partida onde se podem encontrar diferenças nos indivíduos, e que essas diferenças nas aptidões simples (como as que se "isolam" nos testes de QI) possam ser explicadas pela genética, daí a essas aptidoes, como o cálculo ou diferenças visuo espaciais, explicarem o que envolve uma aprendizagem complexíssima para chegar a um nível altíssimo do xadrez, mesmo o futebol, matemática, e as diferenças entre os indivíduos neste tipo de aprendizagem, é totalmente ridículo. Como o Nuno já defendeu aqui, aprendizagem não é decorar coisas,ou mecanizar tarefas como a taboada. Aprendizagem a este nível altíssimo envolve relacionar coisas, aptidões, aprender sobre a aprendizagem anterior, refletir e ter insights, é um processo longo, e estes níveis altos de rendimento explicam-se por todo este processo, reduzir a uma diferença genética à partida é acreditar mesmo que uma borboleta bate as asas em Lisboa e há um furacão na Tailândia. Não há relação possível, neste tipo de aprendizagem que envolve atividades mentais muito complexas.

Bruno Pinto disse...

Nuno,
O que achas até agora do FC Porto de Lopetegui?
Monsieur Homais

Nuno disse...

Johnny McCaco, desculpa pela demora na resposta. Não tenho muita literatura a aconselhar. Parece-me que há pessoas que defendem uma coisa e pessoas que defendem o oposto, e não me parece que haja uma tendência dominante. De qualquer modo, devo dizer que discordo de que os genes influenciem significativamente as aptidões intelectuais. A esse título, o documentário sugerido pelo Miguel Pinto, a quem agradeço, é uma óptima referência. A razão, aliás, parece-me simples de perceber. O xadrez, como qualquer actividade intelectual complexa, depende tanto de treino, de processos de tentativa e erro, de reflexão sobre o assunto, que dificilmente poderia ser influenciado por aptidões iniciais. A excelência em coisas como essas, cuja complexidade exige o trabalho de aquisição de competências, não pode simplesmente ser atingida por algo que já tínhamos antes de pensar nelas. Essa excelência é o resultado de muitos anos de trabalho, de aquisição de muitas coisas.

Bruno Pinto, divido-me. Já achava o Lopetegui é herdeiro duma escola que defende determinadas coisas, mas não me parece que as perceba exactamente. Já o seu trabalho nas selecções jovens da Espanha me parecia denunciar isso e parece-me que o trabalho no Porto, até agora, reflecte um pouco isso. Gosto, no entanto, de algumas coisas, da atitude dominadora que tentam exercer, do pressing alto, da tentativa de assumir o jogo em posse, na insistência no jogo interior, etc.. Não gosto, no entanto, das variações de flanco a toda a hora, ou da incapacidade que por vezes se nota para insistir num determinado tipo de futebol, e da sofreguidão com que jogam os 90 minutos. A equipa parece não saber gerir os ritmos de jogo e isso, para quem quer impor-se em posse, é uma das coisas mais importantes. De qualquer modo, é uma equipa maioritariamente nova, e há que dar tempo para que cresça. É cedo para tirar ilações definitivas.

Johnny McCaco disse...

Concordo com tudo o que dizes, Nuno. E depois há a tendência de extrapolar que as diferenças entre indivíduos, que têm um ambiente parecido, se devem aos genes. Ora isto é desonesto e falacioso, o ambiente nunca é igual, a inter-relação entre ambiente e indivíduo é sempre diferente. Como se os estímulos do ambiente para cada indivíduo fossem facilmente comparáveis, qualificáveis ou quantificáveis, para se chegar a conclusões que dizem que, sendo quantitativamente e qualitativamente parecidos, a diferença vem dos genes. Não faz sentido absolutamente nenhum, cientificamente e logicamente. Talvez seja a necessidade humana de sentirmos que, entre nós, há uns escolhidos, Messias, que ajudam a dar sentido à existência. É mais colorido e menos angustiante viver e pensar assim, para muitos.

Nuno diz: "Gosto, no entanto, de algumas coisas, da atitude dominadora que tentam exercer, do pressing alto, da tentativa de assumir o jogo em posse, na insistência no jogo interior, etc.."

Nuno, relativamente ao jogo interior, achas que o Porto tem insistido nessse tipo de jogo? Ou quando surge o jogo interior, isso deve-se mais às caraterísticas dos jogadores?

Johnny McCaco disse...

Ainda quanto ao documentário do Miguel Pinto, verificámos que as irmãs Polgar levaram cerca de 15 000 horas para atingir aqueles níveis elevadíssimos, e vencer grandes mestres (A I Divisão do xadrez), leram uma quantidade enorme de livros, com uma propensão e gosto pela aprendizagem, e uma boa reflexão sobre a mesma, com bons estimulos para tal, o que conta muito, a qualidade da aprendizagem e dos estímulos, e como reagimos perante obstáculos, que também é aprendizagem. O que para mim é mais decisivo para compreender isto, foi perceber, quando se fez uma ressonância ao cérebro da irmã mais velha, verificando-se que a área cerebral que é usada por nós para rapidamente reconhecer padrões de faces (faces porque é importante para a sobrevivência reconhecer esses padrões, porque fazem parte do dia a dia, se um humano fosse criado na selva, ia reconhecer padrões de focinhos, por exemplo, tal como os chineses reconhecem mais facilmente faces asiáticas do que europeias, ou nós latinas do que outra raça qualquer) passou, após essas milhares de horas, a ser também usada para reconhecimento rapidíssimo de padrões de jogo de xadrez, e agir sem mediação racional perante essa informação, a chamada intuição. E Achar que essa nova função, especializada, dessa zona cerebral, após 15000 horas, deriva de uma qualquer vantagem genética à partida, é idiota e insultuoso.

GC disse...

Apesar de não ser propriamente sobre futebol, grande texto. Não sou o mais assíduo dos frequentadores, mas aprecio o estilo ácido e mordaz do autor.

P.S.: a referência ao José Mota é deliciosa..

Nuno disse...

Johnny McCaco, é exactamente isso. As pessoas que defendem a genética explicam a intuição de modo religioso ou metafísico. Para esses, um jogador com boas intuições, é alguém que tem qualquer coisa dentro dele, que está "inspirado", etc.. A intuição não é nada disso. É um saber que se adquiriu, como qualquer outro, e que se enraizou em nós depois de muito trabalhou, que não sabemos bem explicar de onde vem, mas que dependeu de aprendizagem.

GC, fico contente por ter gostado.

Edson Arantes do Nascimento disse...

Nuno, da primeira vez que aqui comentei disse logo que não o fazia mais vezes porque apreciava e estava de acordo com a maioria dos teus argumentos.

No entanto, confesso que dizer que o FCP do Lopetegui aplica uma "insistência pelo meio" é demais para mim. Ou não viste os jogos ou então estás claramente em negação. Porque isso é uma mentira. Uma mentira redonda.

De certeza que concordas comigo.

Nuno disse...

Edson, confesso que não vi os últimos jogos do Porto. E, pelo que tenho ouvido, parece que o Lopetegui tentou mudar algumas coisas. O que vi no início, no entanto, é condizente com o que disse. Nos primeiros jogos do Porto, pelo menos, isso verificou-se. Parece que entretanto mudou, mas como não tenho visto não posso saber se é mesmo assim ou não.