segunda-feira, 29 de julho de 2013

Xavi e Iniesta: a Incompatibilidade Compatível

Há 5 anos, antes de Guardiola chegar ao comando do Barcelona, jogar com um médio-defensivo e dois médios à frente dele era coisa em que poucos treinadores apostavam. Mesmo de entre os que o faziam, quantos arriscavam em dois jogadores de características ofensivas, dois jogadores criativos no meio-campo? Desde que o Entre Dez existe que essa foi uma das coisas que mais se defendeu aqui, que não só era compatível jogar com dois médios de ataque à frente de um médio-defensivo como era assim e só assim que uma equipa que se pretendesse ofensiva podia ser dominadora a meio-campo. Desde que chegou, Guardiola apostou em Xavi e Iniesta, lado a lado, dois médios de características ofensivas, pequenos, franzinos, sem capacidade de ir ao choque. Sem medo, entregou o meio-campo a quem tinha cabeça, não a quem tinha pernas. Para muitos treinadores, um criativo chega e sobra. Para esses, o meio-campo serve para vedar o caminho ao adversário e pouco mais; serve para fechar espaços, para roubar bolas e, quando dá, para solicitar o médio com melhores pés, que joga preferencialmente perto do avançado, para que ele possa depois fazer a bola chegar aos atacantes. Para Guardiola, o meio-campo é muito mais do que isso. Percebeu que o trabalho defensivo, o trabalho de cobrir espaços, de reagir à perda, é da competência de toda a equipa em conjunto e que, sendo-o, não precisava de jogadores no meio-campo que se distinguissem pela quantidade de desarmes que conseguem. No meio-campo precisava era dos mais inteligentes, daqueles capazes de perceber melhor as necessidades da equipa. É um chavão dizer-se que o meio-campo é o centro nevrálgico do jogo, mas quantos dos que o dizem tiram as consequências que deviam tirar disso? Dizem que é o centro nevrálgico do jogo, mas depois acham que é lugar para pôr aqueles que têm mais pulmão ou mais músculo. Não. No centro nevrálgico do jogo devem jogar os mais inteligentes, os que sabem desenvencilhar-se melhor dos problemas. Eis o que Guardiola pensava de Iniesta:

"Iniesta es un jugador fino, es de los que priorizan más pensar que correr. Su primer control en movimiento es maravilloso. Le da continuidad y velocidad al juego. Interpreta el juego. Seguramente en otros lugares habrá jugadores de este estilo, pero allí no interesan, no los buscan", sostenía Pep Guardiola."

Poderá isto parecer presunção, mas este blogue nasceu porque, antes de Xavi e Iniesta jogarem juntos, já havia quem reclamasse que Xavi e Iniesta tinham de jogar juntos. Tínhamos descoberto, o Gonçalo e eu, que o futebol de cada um era muito mais fácil quando um andava perto do outro. Fosse para não ser forçado a driblar, fosse para não ser forçado a fazer um passe comprido, fosse por que fosse, com alguém que pensava exactamente da mesma maneira ali ao lado, na mesma posição e com as mesmas obrigações, o futebol era muito mais fácil. Qualquer médio ofensivo habilidoso, sobretudo jogando com dois médios nas costas, com liberdade para fazer mais ou menos o que lhe apetecesse, pode resolver um jogo a qualquer altura, seja com um último passe, seja com uma jogada individual, seja com um remate à entrada da área. E qualquer jogador ambiciona jogar como médio-ofensivo precisamente por isso, porque é aquele a quem o treinador, por norma, entrega a batuta da equipa e a maior fatia de liberdade; é aquele que é invejado pelos colegas, aquele que assume maior protagonismo, etc.. O que a dada altura percebemos é que isso é uma imbecilidade. Quantas bolas tem um médio-ofensivo de entregar ao adversário para que seja o protagonista que esperam que seja? Quanto ganha a equipa com um jogador assim e quanto perde? À medida que íamos ganhando consciência táctica, que íamos percebendo a consequência de cada uma das nossas acções, menos contentes estávamos com o papel de protagonista solitário que nos cabia. Sempre que tínhamos a possibilidade de jogar juntos, por outro lado, a tendência era aproximar-nos, pedir a bola um ao outro, dar ao outro uma solução diferente, uma tabela, uma possibilidade de passe curto que deixasse o adversário indeciso, uma troca de posições, etc.. Dois criativos no meio-campo não é só o dobro da criatividade; é também todo um conjunto de novas possibilidades de lances. Foi isso que Guardiola mostrou ao mundo, quando pôs Xavi a jogar ao lado de Iniesta. Mostrou que dois médios criativos são compatíveis e mostrou ainda que, mais do que serem compatíveis, permitem à equipa coisas que, de outra maneira, a equipa nunca conseguiria fazer.

Para muita gente, uma equipa de futebol é um agregado de operários fabris, cada um com as suas funções específicas. Para esses, se um determinado jogador vai jogar (por exemplo, um médio criativo), é preciso que um jogador de características diferentes jogue a seu lado ou perto dele, para compensar as coisas em que é menos bom. É por isso que quase todos os treinadores sentem a necessidade de utilizar um médio de características defensivas (ou dois) ao lado de um médio mais habilidoso. O que Guardiola mostrou é que o futebol não é nada disso, que não é preciso que as características de um jogador compensem as de outro. É possível construir uma grande equipa sem jogadores altos, sem jogadores musculados, sem jogadores agressivos, etc.. Isto porque, em futebol, tudo isso é secundário. Para muita gente, o trabalho de um treinador consiste essencialmente em montar uma máquina em que cada peça está no sítio certo e desempenha o melhor possível a tarefa que lhe compete. Não acredito em nada disso. Não acredito que o futebol seja um jogo em que a melhor equipa é aquela que tem os onze melhores especialistas em cada uma das onze posições a desempenharem o melhor possível a sua função. E é por não acreditar que o futebol é um jogo desse tipo que não acredito que o trabalho de um treinador seja apenas educar os seus jogadores a comportarem-se o melhor possível de acordo com as funções que desempenharão dentro de campo. O futebol é um jogo de relações, um jogo em que é melhor não a equipa que tiver os onze melhores especialistas a fazerem o melhor que podem, mas um jogo em que é melhor a equipa em que os onze jogadores se compreendem melhor uns aos outros. Para muita gente, a qualidade de uma equipa é a soma da qualidade individual dos onze jogadores que a compõem somada, por sua vez, à capacidade que cada indivíduo tem para cumprir os requisitos colectivos da sua posição. Para mim, a qualidade da equipa mede-se essencialmente pela forma como os onze jogadores se relacionam entre si. É por isso que não acredito na tese da incompatibilidade entre dois jogadores muito parecidos. Para mim, as fragilidades de um jogador devem ser supridas pelo colectivo, não por um jogador com características opostas. Ter dois jogadores parecidos não é um problema, como muita gente pensa; é uma bênção. Dois jogadores parecidos não descompensam uma equipa; equilibram-na. Dois jogadores parecidos não é um excesso ou um luxo; é complementaridade. Vejam como discutem Xavi e Iniesta sobre o assunto, nesta entrevista de 2006:

"X. Justo. Pues ya mete goles y nadie se acuerda de las tonterías que decían: que si el salto cualitativo no lo daba, que si patatín... ¡Listos! Tiempo al tiempo. Eso hay que darle a la gente, tiempo para que madure. Ahora parece que yo estoy acabado; que, si juega él, no puedo jugar yo.
I. Más tonterías. Podemos jugar juntos. No se dónde está escrito que no podemos hacerlo. La putada es que llevaban pidiendo que jugáramos juntos no sé cuánto tiempo y nos ponen en Madrid y perdemos. Dos días antes era la mejor solución. Ni que perdiéramos por jugar nosotros.
X. Es que yo me lo paso muy bien contigo. No somos clónicos, somos complementarios. ¿Sabes cuál es el problema? Que somos de la casa. Si uno de los dos fuese de fuera, no habría debate."

Para Iniesta, não havia razão nenhuma, já em 2006, para que ele e Xavi não jogassem juntos. Xavi, por sua vez, dizia que se sentia bem a jogar com Iniesta. Não compreender isto é não compreender nada de futebol. O que estes dois sentiam, numa altura em que não jogavam juntos, numa altura em que não tinham o estatuto que têm hoje e numa altura em que se dizia que, quando Iniesta começasse a jogar, Xavi deixaria de fazê-lo, era precisamente que o futebol não é tão individual como queriam que acreditassem. Já na altura sentiam que eram melhores jogadores quando jogavam os dois, quando um percebia as necessidades do outro e lhe dava a linha de passe de que precisava, quando o outro percebia que podia ficar com a bola até ao último instante porque sabia que, nessa altura, se precisasse, o outro lá estaria a dar-lhe uma solução de passe alternativa. Com Iniesta ao lado, era como se Xavi jogasse com outro Xavi. E o mesmo ao contrário. É por isso que não é apenas por serem dois criativos e não um, por haver o dobro da criatividade em campo, que acho que uma equipa é melhor com dois criativos em vez de um. É porque, além de a criatividade ser a dobrar, cada um deles é melhor jogador se o outro estiver em campo. Com Iniesta ao lado, Xavi era mais Xavi do que nunca. E Iniesta mais Iniesta do que nunca. É por isso que a qualidade de uma equipa não pode ter apenas a ver com a qualidade de cada um dos jogadores e com a adequação da qualidade de cada um deles à posição que ocupam em campo. Tem também de ter a ver com (eu diria que tem sobretudo a ver com isso) a relação de cada jogador com cada um dos colegas, começando, obviamente, por aqueles que estão mais próximos.

Quando se fala em sintonia entre colegas, fala-se sobretudo em duplas de atacantes ou duplas de centrais e fala-se sobretudo das características complementares que devem ter: um avançado mais fixo e um mais móvel; um defesa mais cerebral e um mais rápido, etc.. Não é disso que falo. A compatibilidade a que me reporto é do foro intelectual e aquilo para o qual estou a tentar chamar a atenção é para jogadores que se compreendem muito bem por pensarem da mesma maneira, que sabem exactamente o que o colega vai fazer porque era aquilo que fariam naquelas circunstâncias, que sabem perfeitamente que, em determinada situação, o colega vai estar a dar o apoio no sítio certo porque, se estivessem na pele dele, perceberiam que o colega iria imaginar que ele ali estivesse. Dir-me-ão que isso só acontecerá em casos extraordinários, que almas gémeas desse tipo só em jogadores que jogam há muitos anos uns com os outros. Também não acredito nisso. Xavi e Iniesta, aliás, não cresceram juntos e não jogaram juntos até coincidirem na equipa principal. Basta que o treinador saiba criar as condições ideais para que isso aconteça, que saiba estimular os jogadores a compreenderem-se, a pensar de forma análoga, a interpretar as necessidades uns dos outros, etc.. Foi o que, de resto, Guardiola fez, ao permitir, sem hesitar, que Iniesta e Xavi jogassem lado a lado. E foi precisamente a dupla Xavi-Iniesta quem primeiro pôs em prática o que Guardiola queria que todos os seus onze jogadores fizessem. Antes de haver verdadeiramente o Barcelona de Guardiola, já havia Xavi e Iniesta a tabelar, a trocar a bola entre si, a dar e a devolver, a oferecerem apoios verticais um ao outro, etc.. No primeiro ano de Guardiola, a equipa catalã ainda não estava totalmente afinada. As únicas almas gémeas que verdadeiramente existiam eram as de Xavi e Iniesta. Foram eles, pela relação que mantiveram um com o outro, quem ensinaram os colegas a jogar. Associou-se a eles depois Messi e, mais tarde, toda a equipa. E assim se cumpriu o sonho de Guardiola.

É por isso que acho que o trabalho de um treinador é muito mais do que desenvolver características individuais e adaptá-las às funções que os jogadores desempenharão em campo. A esmagadora maioria dos treinadores acredita nisso. Para mim, por outro lado, aquilo que verdadeiramente compete a um treinador de futebol é criar onze almas gémeas. É esse o verdadeiro legado de Cruyff, e só assim me parece plausível pensar no jogo de forma colectiva. Ao contrário da maioria dos treinadores (e até da maioria dos treinadores actuais), não eram as características estritamente individuais, mas as características "relacionais", aquelas com as quais alguém se relaciona com o meio envolvente, que mais interessavam a Cruyff. O próprio Guardiola o confessa, nesta conversa com Valdano:

"J.V.:¿Soñabas con ser jugador de Primera División?
P.G.:"Si, por supuesto. De diez niños catalanes, ocho querrán jugar en el Barcelona. Le decia a mi madre: "Si llego al juvenil, ya estaré contento". Pensaba que para jugar al fútbol necesitaba mucho más que: "Pasa bien el balón, juega bien, las pilla todas". El destino y el estilo de un entrenador que le gustaba más el hecho de pasar que el de romper fue lo que me ayudó".
¿Qué hubiera pasado si no hubiera existido ese entrenador?
Lo habría pasado mal. Es de esas cosas en las que he tenido suerte. Jugué desde el primer momento. El primer año, si no juego y estoy mal, igual me voy para casa. Aunque no fue cuestión de supervivencia. Me lo pasaba muy bien siendo jugador infantil del Barcelona."

Quando era jovem, Guardiola achava que precisava de mais do que de passar bem a bola para vingar na modalidade, mas acabou por triunfar única e exclusivamente porque Cruyff era diferente dos outros treinadores. Não tivesse Guardiola sido treinado por alguém assim, dificilmente teria sido o jogador que foi. Poucos há que percebam isto. Para muita gente, quando se tem talento, tem-se talento e ponto final, e quem o tem acaba por triunfar, mais tarde ou mais cedo. Não podia estar mais em desacordo. Para que um jogador triunfe, sobretudo um jogador cujas principais virtudes são as tais características "relacionais", é preciso que o treinador seja especial, que prefira um determinado tipo de atributos e não outros. Ao longo dos anos, muitos dos jogadores que aqui fomos defendendo e que não conseguiram triunfar são jogadores deste tipo, jogadores que, ao contrário de Guardiola, não tiveram a sorte de ser treinados por alguém especial e que, por isso, não atingiram o máximo do seu potencial. Quanto a Xavi e Iniesta, alguém acredita que eles seriam o que são hoje se não fosse Guardiola? Basta ver como se queixavam, em 2006, por todos acharem que não podiam jogar juntos. Toda a gente gaba as habilidades de Iniesta, a capacidade de manter a bola, de rodar sobre si mesmo, a calma com que sai de situações complicadas, etc.. Mas Iniesta é capaz disso tudo porque está inserido num contexto que o favorece, porque sabe que tem sempre alguém muito perto de si e que, por tê-lo, tem também uma solução de recurso a toda a hora, o que lhe permite forçar certos movimentos, arriscar certas iniciativas. Iniesta é o jogador que é porque cresceu no ambiente mais favorável possível; tem aquelas características individuais notáveis, que todos elogiam e que a todos espanta, não porque as tenha e pronto, mas porque tem também certas características "relacionais" e está inserido num modelo que privilegia as últimas.

Ser um jogador de futebol a sério é essencialmente isto: ser extraordinário a relacionar-se com os colegas de equipa. Evidentemente, há jogadores de outro tipo, jogadores cujas habilidades individuais definem o seu talento. A estes é relativamente fácil medir a qualidade; basta contabilizar o sucesso e o insucesso de cada uma das suas acções. Medir o futebol de Xavi ou Iniesta, por exemplo, é muito mais difícil. E é-o porque cada uma das suas acções não se esgota em si mesma. Cada coisa que fazem beneficia o que faz um colega e beneficia o que faz o colectivo. É o talento individual de Xavi que faz com que consiga aquela quantidade absurda de passes por jogo? É Xavi sozinho o responsável por todos aqueles passes de régua e esquadro? É unicamente por ser Xavi o maestro que é que todos reconhecem que é dos pés dele que se inicia boa parte das jogadas do Barcelona? Não. Xavi é o que é porque os colegas fazem com que o seja. Dão-lhe opções constantes de passe, aproximam-se dele para lhe permitir várias decisões, garante-lhe proximidade e segurança para que não tenha de se apressar a tomar uma decisão. Xavi é o que é por força do que o rodeia. E o que o rodeia é um conjunto de jogadores que pensa como ele, que percebe quais possam ser as suas intenções e que fazem tudo para que ele as possa cumprir. Xavi é o que é porque joga com almas gémeas. É o próprio Xavi quem o reconhece, nesta entrevista:

"Your Barcelona team-mate Dani Alves said that you don't play to the run, you make the run by obliging team-mates to move into certain areas. "Xavi," he said, "plays in the future."
They make it easy. My football is passing but, wow, if I have Dani, Iniesta, Pedro, [David] Villa … there are so many options. Sometimes, I even think to myself: man, so-and-so is going to get annoyed because I've played three passes and haven't given him the ball yet. I'd better give the next one to Dani because he's gone up the wing three times. When Leo [Messi] doesn't get involved, it's like he gets annoyed … and the next pass is for him."

Dizer que Guardiola teve o trabalho facilitado porque tinha os jogadores certos para o modelo que pretendia é um disparate. Foi Guardiola que impôs que os jogadores se relacionassem como se relacionam. É claro que ajuda o facto de a grande maioria ter "estudado" no mesmo sítio, ter tido os mesmos "professores" e ter tido as mesmas referências. Mas nada disso teria sido relevante se não fossem obrigados a fazer certas coisas. Não foram a mentalidade do clube ou a educação semelhante que os jogadores tiveram que construíram o modelo de Guardiola; foi Guardiola que, levando-os a comportar-se de determinada maneira, levando-os a executar um determinado modelo de jogo, "obrigou" a que os jogadores recuperassem a mentalidade do clube que lhes tinha sido incutida e a que relembrassem a educação que tinham tido nesse mesmo clube. Mais do que qualquer outro modelo de jogo, o modelo de Guardiola força a que os jogadores se relacionem constantemente. Como tal, força a que sejam aquilo para o qual foram ensinados a ser, ou seja, jogadores que privilegiam determinadas coisas em detrimento de outras.

Regressando à questão da compatibilidade, posso aceitar que um determinado jogador não seja compatível com outro igual a ele, mas apenas se forem jogadores que se distingam pelos seus atributos individuais. Mas, nesse caso, não acho sequer que um só jogador seja compatível com a equipa. Como entendo o jogo, uma equipa de futebol a sério tem de ter onze jogadores que se caracterizem essencialmente pela capacidade com que se relacionam com os colegas. Se for esse o caso, não me interessa ter um jogador de cada tipo, apto para uma coisa específica, mais indicado para um tipo de função e menos para outros tipos. Interessa-me, isso sim, ter jogadores todos do mesmo tipo, jogadores parecidos entre si, que valorizem as mesmas coisas, que se compreendam com facilidade, que percebam quais as dificuldades de cada colega, consoante as circunstâncias em que se encontrem. Não só acho, portanto, que Xavi e Iniesta são compatíveis, como sempre achei, como acho que Xavi é compatível com dez Iniestas, e vice-versa. Para muita gente, Xavi e Iniesta são compatíveis porque Guardiola mostrou que podiam sê-lo. Não pensavam assim há 5 anos, no entanto. E mesmo aceitando agora que o são, aceitam-no por razões erradas, porque acham que, afinal, até dá para ter dois criativos no meio-campo. Eu acho que são compatíveis, mas não por achar que haja espaço para dois médios criativos numa equipa de futebol; acho que são compatíveis porque o futebol é um jogo de médios criativos. E é por isso, em última análise, que acho não só que são compatíveis entre eles como são compatíveis com mais nove jogadores idênticos. O futebol é um jogo para criativos, e o modelo ideal de um jogo que se caracteriza assim é necessariamente aquele em que a criatividade dos jogadores for melhor potenciada. O papel do treinador ideal, deste ponto de vista, não é propriamente trazer ao de cima o melhor de cada atleta, não é conceber as melhores estratégias possíveis para contrariar os adversários, não é ser capaz de manter motivados os seus jogadores; é fazer com que cada jogador aprenda a relacionar-se com os colegas. Só isso: criar almas gémeas. E, para criá-las, há um atributo indispensável: a criatividade, entendendo-se criatividade como imaginação, ou seja, o atributo intelectual que permite a cada um perceber o tipo de soluções que pode empreender para fazer face ao que o rodeia e, por conseguinte, o que permite a cada um perceber aquilo de que precisa cada um dos seus colegas a cada instante.

25 comentários:

Cláudio disse...

Sistema é um conjunto de interelações. O que faz uma equipa não é a soma das individualidades mas sim as relações que se estabelecem entre todos.

" queremos fazer um bolo ( equipa), não basta colocar os ingredientes em cima da mesa ( jogadores) é preciso misturar os ingredientes e fazer com que estes contacetem uns com os outros ( interacção desses jogadores"

Roberto Baggio disse...

Leitura deliciosa!
Grande trabalho Nuno.

Fazendo aqui uma outra comparação, que ajuda no que dizes, basta ver o que as pessoas pensam sobre Ronaldo e Messi nas selecções. Não percebendo que o rendimento deles não será nunca o mesmo, por não estarem rodeados daqueles que lhes permitem ser o melhor que podem ser, e em último caso, por o treinador não ser o mesmo.

Grande abraço

Roberto Baggio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PP disse...

Nuno,

Que excelente ensaio!

Embora, eu não acho que o Iniesta e o Xavi sejam assim tão parecidos, tenho de concordar em absoluto com a ideia de base por detrás deste texto.

Apenas, queria deixar o meu contributo para o debate que este texto possa vir a ter.

"Todos diferentes e todos iguais" é um slogan publicitário, mas que reflecte exactamente aquilo que eu penso que todos nós somos, e em particular, os jogadores.

Nas relações amorosas, há pessoal que entende que "os pólos atraem", i.e., que é na diversidade que se encontra a complementaridade. Outros dirão "temos interesses em comum", ou tal como tu escreveste, "são almas gémeas". Eu acho que as coisas na vida real são um binómio disto tudo. Daí ser apologista do tal slogan publicitário. E daí considerar que não há "incompatibilidades" no futebol.

No final deste belíssimo texto, terminas com "a criatividade, entendendo-se criatividade como imaginação, ou seja, o atributo intelectual que permite a cada um perceber o tipo de soluções que pode empreender para fazer face ao que o rodeia e, por conseguinte, o que permite a cada um perceber aquilo de que precisa cada um dos seus colegas a cada instante".

Na minha opinião, para além disso, acho que o jogador para além da inteligência tem de ter a sensibilidade necessária para reconhecer os limites dos seus colegas de equipa. Por exemplo, não vemos o Iniesta a colocar o Xavi numa situação em que tem de disputar a bola pelo ar com outro jogador, assim como não vemos o Xavi a colocar a bola ao Iniesta numa situação de choque com o adversário, pois sabe que o talentoso espanhol poderá ser derrubado ou perder a bola. Por outras palavras, sabem exactamente qual o "envelope de segurança" de cada um.

Só mais dois pontos sobre o texto:
- há um terceiro elemento criativo no Barcelona: Messi.
- o Barcelona tem tido uma enorme vantagem táctica sobre a maioria das equipas, pois identificou um padrão comum nessas mesmas equipas (utilização de apenas um meio-campista artista e dois médios mais físicos e que não jogam tão bem quando pressionados muito em cima) e optimizou um modelo para fazer face a isso.

Finalizo com uma questão: como será quando as restantes equipas seguirem um modelo idêntico em que se previlegia a posse de bola e a utilização de jogadores criativos?

Mais uma vez, parabéns! Dá gosto ler um texto destes e poder debater ideias com pessoas com esta visão sobre estes temas.

YilmaZ disse...

"Mais do que qualquer outro modelo de jogo,o modelo de Guardiola força a que os jogadores se relacionem constantemente.."...

A propósito,interessante o que ele esta a fazer com Ribéry;vamos la ver se ele pode jogar em zonas mais interiores... Sinceramente tenho muitas duvidas quanto a isto visto que "Scarface" não é verdadeiramente um grande "pensador de jogo".. Acelerar,provocar,dinamitar em espaços no problem,mas pensar(jogar)minuciosamente em espaços reduzidos sob pressão já não sei se será mesmo pra ele...

Gotze,Alcantara,Kroos,Muller.. esses sim,são "cérebros"(criativos)... Serão portanto capazes de relacionar-se com facilidade... (acho que até podemos incluir o Schweinsteiger nesse lote)

Uma questão,Nuno:o que pensas do Ribéry?.. Pode jogar no centro ou estará irremediavelmente "limitado" a jogar na ala esquerda...

Outra coisa.. Queria saber tua opinião sobre 2 jogadores(n°10) que me parecem ser bons(muito bons?),primeiro De Arrascaeta,que jogou no ultimo mundial sub20 com Uruguay;e o segundo Bernardo Silva,que pertence ao Benfica e que deu nas vistas no euro sub19...
Podem vir a ser "craques"?

Nuno disse...

PP diz: " há um terceiro elemento criativo no Barcelona: Messi."

Hoje em dia, até há mais. Mas aquilo começou com 2. Aos poucos, o Messi foi-se-lhes juntando. E depois passou a haver mais: o Busquets, o Thiago, o Fabregas, o próprio Dani Alves, etc..

"Finalizo com uma questão: como será quando as restantes equipas seguirem um modelo idêntico em que se previlegia a posse de bola e a utilização de jogadores criativos?"

Não sei. Nem sei se haverá muita gente a adoptar isto. É demasiado difícil, para muita gente.

Yilmaz diz: "A propósito,interessante o que ele esta a fazer com Ribéry;vamos la ver se ele pode jogar em zonas mais interiores... Sinceramente tenho muitas duvidas quanto a isto visto que "Scarface" não é verdadeiramente um grande "pensador de jogo".."

Pois, o Ribery não é um jogador que me encante. Mas reconheço que, na pré-época, forçado a jogar noutra posição e com outro tipo de incumbências, até parecia um jogador de futebol. De qualquer modo, não sei se, com o Gotze, com o regresso do Schweinsteiger e com a contratação do Thiago, o Ribery ainda vai ser aposta para o meio.

"Queria saber tua opinião sobre 2 jogadores(n°10) que me parecem ser bons(muito bons?),primeiro De Arrascaeta,que jogou no ultimo mundial sub20 com Uruguay;e o segundo Bernardo Silva,que pertence ao Benfica e que deu nas vistas no euro sub19...
Podem vir a ser "craques"?"

Só vi um jogo do Arrascaeta (contra a Espanha) e não me impressionou. Mas confesso que vi pouco para que pudesse ter uma opinião consolidada. Quanto ao Bernardo, ainda não vi mesmo nada.

PP disse...

Nuno,

Por falar na dificuldade de adoptar o mesmo modelo do Barcelona de Guardiola... acho que o mais difícil e talvez o que mais me seduz é o seu sistema defensivo.

O Barcelona, que já é um "produto acabado", parece que é fácil como aquela defesa trabalha, mas noutro dia, ao ver o Bayern contra o City, viu-se claramente as dificuldades de defender tão alto como os bávaros de Guardiola.

É verdade que o tal "tiki-taka" é muito elogiado, mas sem aquele sistema defensivo... não sei não...

Que tal um artigo sobre esse tema específico?

;)

Manuel Nascimento disse...

PP, tu não percebes nada disto, e insistes em encher as caixas de comentários daqui e dali com palpites e sugestões que... enfim.

Enquanto não perceberes que isto não é um desporto de "sistemas defensivos" ou de "tiki-takas", não hás-de conseguir perceber o resto, os detalhes, o desporto em si - aquilo que faz do futebol uma coisa que mais nenhum desporto consegue ser.

A ideia do Guardiola - menciono-o por ter sido o treinador que referiste mais directamente - ou do futebol "de equipa grande" que o Nuno defende há anos é um «continuum», não se fragmenta para análise como estás a sugerir.

Uma explicação disto é que podia abrir muitos olhos, mas muitos de vocês, por mais que leiam, não conseguem lá chegar. Mas é como (também) defende o Nuno: quem é que disse que o futebol, por ser futebol, é algo de que qualquer um possa falar?

E um abraço.

Rodrigo disse...

Ui Manuel Nascimento, o que tu foste dizer... ele é muito sensível a esse tema... acho que nem o abraço te vai valer...agora vais ter de levar com ele dias e dias LOL

Miguel Nunes disse...

"O próprio Barcelona faz isso para criar espaço para o Dani Alves ou o Alba subirem e centrarem."

Nuno, podes comentar isto lol

Nuno disse...

PP, talvez saia um artigo sobre isso nos próximos tempos. Acho que um dos problemas do Barça do Tito foi precisamente a defesa deixar-se ficar muito atrás, estar demasiado longe dos médios no processo ofensivo, com medo das costas, o que fazia com que houvesse algum espaço para os adversários saírem. É verdade que é difícil defender assim, e que não é para todos. Não acho que seja preciso defesas rápidos, mas é preciso defesas inteligentes e corajosos. E é preciso concentração.

Agora, há uma coisa que o Manuel diz que é verdade, que é aquilo da separação de características. Defender bem, no sentido em que expliquei acima, depende sobretudo de coisas que passam quando a equipa tem a bola. O processo defensivo, a estar mal, tem problemas graças ao processo ofensivo.

Miguel Nunes, sem contexto é complicado. De onde vem isso?

Miguel Nunes disse...

"Há exercícios específicos para criação de espaços para um extremo ou lateral ter tempo e espaço para cruzar. O Benfica de Camacho fazia muito isso com o "soneca" e o Miguel. O próprio Barcelona faz isso para criar espaço para o Dani Alves ou o Alba subirem e centrarem."

Juro-te que não foi o Válter que escreveu LOL

PP disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PP disse...

Nuno: e os motivos para a defesa do Barça ficar muito atrás? Muita gente que leio diz que era característica do Tito. Mas, os jogos que fui vendo do Barcelona, desde o início da temporada passada até ao final, fui vendo que a equipa foi-se alongando com a temporada.

Terá sido a gestão do onze? Ou será que os adversários também evoluíram? Inclino-me mais para a segunda opção, mas é uma opinião pessoal.

Concordo que não é necessário jogadores rápidos, mas que ajudam, lá isso ajuda. Inteligência, audácia e sobretudo concentração estou a 110% de acordo contigo. Há muito central que tem as características físicas ideais, mas depois a questão mental (concentração e inteligência) torna-os completamente banais.

O Manuel não me entendeu, nem tão pouco veio a este blog para tentar entender o que escrevi. Parece-me que ele e mais uns dois que podes ver na caixa de comentários estão mais interessados em "bota-abaixo" das minhas opiniões que debater de forma construtiva, procurando entender o alcance das minhas intervenções.

Nunca disse que a forma de defender do Barcelona não tem a ver com a sua forma de reter a bola. Eu apenas quis realçar a forma de defender do Guardiola.

Depois a forma como o Barcelona constrói jogo não é a única ideal. Não estou a dizer que a do Barcelona é a pior ou a melhor. Apenas acho que não é a única forma.

Por exemplo, olho para um Real Madrid, e aquele onze em 4-2-3-1, com capacidade para assimilar e crescer com um sistema defensivo idêntico ao do Barcelona. E talvez a sua qualidade de posse de bola melhorasse. Se a Espanha consegue...

Signori disse...

Não me parece que o Barcelona tenha uma jogada ou jogadas específicas para que venha um lateral de trás tipo seta a cruzar de primeira. Isso faz-me lembrar anos 90, os gloriosos...not. PArece-me é que há siuações, devido à forma de jogar do Barça, em que há um espaço mais livre na zona lateral, e aí o lateral pode aproveitar esse espaço livre, em que o cruzamento pode ser ou não a melhor hipótese, é uma entre várias, consoante as linha de passe. Mas duvido que haja exercícios específicos em que o Daniel Alves fique sorrateiro mais atrás, escondido, para que os colegas metam a bola no espaço para ele vir a correr completamente louco de trás e a cruzar.

Signori disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
PP disse...

Signori: Aquela circulação de bola no meio-campo, fazendo um campo pequeno, é exactamente para atrair e criar espaços ora na ala direita, ora na ala esquerda. Não é à toa certos movimentos dos extremos do Barcelona.

Podem não fazer como faziam nos anos 90, pois as coisas são feitas de forma fluida. Mas, os princípios básicos para criação de espaços são os mesmos.

Acredito que haja alguma mecanização através daqueles princípios simples do modelo de jogo do Barcelona de Guardiola, e algum treino para o Dani Alves fazer cruzamantos.

Mas, isto é só um dos movimentos tipo que o Barcelona acaba por ter tendência a fazer.

Rodrigo disse...

"Aquela circulação de bola no meio-campo, fazendo um campo pequeno, é exactamente para atrair e criar espaços ora na ala direita, ora na ala esquerda

Acredito que haja alguma mecanização através daqueles princípios simples do modelo de jogo do Barcelona de Guardiola, e algum treino para o Dani Alves fazer cruzamantos.

Mas, isto é só um dos movimentos tipo que o Barcelona acaba por ter tendência a fazer."

É tão isto!!!!!! lolololol

PP disse...

Há pessoas mesmo infantis, que nem sabem estar num debate.

Será que o Barcelona não faz campo pequeno quando concentra a sua posse de bola numa zona do seu meio-campo?

Tentando ser mais claro, visto que o nível de literacia de alguns é muito baixo, quando a bola está sobre a meia-esquerda do meio-campo do Barcelona, por exemplo com Iniesta, este acaba sempre por ter imensas linhas de passe que lhe são dadas por Busquets (essa linha está sempre presente), por Xavi, por Messi, pelo extremo esquerdo, e até uma possível linha para o extremo direito que espreita a diagonal entre o lateral e as costas do central. Mas, é preciso entender que o adversário, fruto destas movimentações para mais perto do portador da bola, acaba por "bascular" (como vocês treinadores gostam de dizer), o que acaba por destapar o corredor contrário.

Por isso é que digo que esse campo pequeno, acaba por criar oportunidades para a subida dos laterais e dos movimentos que referi acima.

São estas variações de campo pequeno para campo grande, e o controlo com que o fazem, que acabam por baralhar por completo o adversário. Isso mais o factor Messi e para mim ainda mais importante, o tal sistema defensivo.

Nuno disse...

Miguel Nunes diz: "Há exercícios específicos para criação de espaços para um extremo ou lateral ter tempo e espaço para cruzar. O Benfica de Camacho fazia muito isso com o "soneca" e o Miguel. O próprio Barcelona faz isso para criar espaço para o Dani Alves ou o Alba subirem e centrarem."

Miguel, antes de mais, desculpas pelo atraso. Pois, isso não faz qualquer sentido. Aliás, cada vez mais acredito que exercícios específicos, sobretudo no processo ofensivo, não fazem sentido nenhum. Acreditar que o Barça treina especificamente para que os laterais entrem e, sobretudo, para que possam subir e centrar, é um disparate.

PP, isso foi piorando porque os hábitos adquiridos anteriormente se foram perdendo gradualmente. Por pior que seja, um treinador não é capaz de destruir processos defensivos óptimos de um dia para o outro.

Quanto àquilo que dizes do Real Madrid, parece-me que contradiz a teoria que aceitas acima de que as coisas estão todas ligadas. O Barça defende assim (ou defendia) porque joga como joga. Não percebo como é que queres que o Real defenda com o Barça jogando de outro modo e com outro sistema táctico.

Depois, em relação à teoria de que a posse a meio-campo serve para atrair marcações e criar espaços nas alas, discordo inteiramente. Antes de mais, devias parar de pensar que as coisas servem para alguma coisa específica. Depois, o Barça privilegia as penetrações centrais. Quando a bola vai para a ala, aí sim, é que é usada para criar espaços no meio. E depois de voltar ao meio só vai para a ala se não houver espaço no meio para penetrar. O Barça andou 5 anos a construir um futebol rendilhado pelo meio, marcou centenas de golos com combinações centrais, e tu continuas a acreditar que só fazem aquele jogo no centro do terreno para poderem aproveitar os espaços laterais depois?

PP disse...

Nuno:
«e tu continuas a acreditar que só fazem aquele jogo no centro do terreno para poderem aproveitar os espaços laterais depois»

Palavra-chave na tua afirmação é: "só". A minha questão é: onde é que eu disse que o Barcelona é "só" isso?

Eu dei foi um exemplo de um movimento tipo que costumam fazer. E caso fosse assim tão ridículo, porque é que especialistas da área de grande renome internacional disseram que uma das chaves do sucesso do Bayern nas duas mãos foi ter anulado as alas do Barcelona?

Mais recentemente, porque é que os mesmos e outros especialistas disseram que a chave do sucesso do Brasil frente à Espanha na final da taças das confederações, estevena entrega e trabalho de Neymar e Hulk, que evitaram a subida dos laterais espanhóis. É verdade que a Espanha não é a mesma coisa que o Barcelona, mas que tem muito da equipa catalã, lá isso tem.

O Barcelona não marca só golos através do afunilamento do seu futebol. E quem ler essa tua opinião, é a ideia que fica.

Não entendo onde está a contradição sobre o Real Madrid. Acho que tens de ser mais específico.

E, por fim, sinceramente, o Barça acabou a defender como defendeu, porque encontrou adversários tão ou mais forte do que eles e que souberam sair das zonas de pressão que os jogadores do Barcelona faziam. Basta ver os jogos do Barça em Milão, frente ao PSG, Real Madrid e Bayern Munique. Eles já não tinham o mesmo à vontade.

Acredito que o facto de não poderem contar com o cérebro dessa filosofia, como o Guardiola, e até mesmo de ter um Tito a 25%, tenha influenciado em novas ideias para derrotar esses adversários mais bem preparados. Mas, não acho que a culpa tenha sido por uma alteração da matriz de jogo por opção técnica do Barcelona. Foi mais imposto por certos adversários.

Hélder disse...

Bom artigo. Temo é que seja no funeral deste futebol do barça.

Gostava de saber uma coisa.
Quantos jogos fizeram (como 'médio-centro') juntos e de inicio, Xavi e Iniesta na era pré Guardiola? E quantos fizeram na era Guardiola?


Já investiguei na net, mas não encontri essa estatistica.


Mais uma: Achas que esta filosofia podia-se adoptar no meio campo do real e fazer um meio campo Alonso-Modric-Ozil?

Nuno disse...

PP diz: A minha questão é: onde é que eu disse que o Barcelona é "só" isso?

Foi aqui, em resposta ao Signori: "Signori: Aquela circulação de bola no meio-campo, fazendo um campo pequeno, é exactamente para atrair e criar espaços ora na ala direita, ora na ala esquerda. Não é à toa certos movimentos dos extremos do Barcelona."

"E caso fosse assim tão ridículo, porque é que especialistas da área de grande renome internacional disseram que uma das chaves do sucesso do Bayern nas duas mãos foi ter anulado as alas do Barcelona?"

PP, usar "especialistas da área de grande renome internacional", sejam eles quais forem (já agora, quem são?) como argumento é espectacular. Se calhar, não te fazia nada mal começares a desconfiar dos especialistas.

"O Barcelona não marca só golos através do afunilamento do seu futebol. E quem ler essa tua opinião, é a ideia que fica."

Claro que não. Mas quantos golos marca de cruzamentos? Pouquíssimos. A tua tirada é que deu a ideia de que a maioria dos golos do Barça eram obtidos assim.

"Não entendo onde está a contradição sobre o Real Madrid. Acho que tens de ser mais específico."

PP, tinhas dito isto: "olho para um Real Madrid, e aquele onze em 4-2-3-1, com capacidade para assimilar e crescer com um sistema defensivo idêntico ao do Barcelona."

Em 4231, posso-te garantir, o Real não vai conseguir nunca assimilar e crescer com um sistema defensivo idêntico ao do Barça. Ao mesmo tempo, o sistema defensivo do Barça depende do sistema ofensivo. Se o Real não se dispuser a fazer um jogo de posse, pausado, com muita gente no meio, com muitos apoios próximos, nunca vai conseguir defender depois como o Barça consegue. É isto que significa os processos serem inseparáveis.

"E, por fim, sinceramente, o Barça acabou a defender como defendeu, porque encontrou adversários tão ou mais forte do que eles e que souberam sair das zonas de pressão que os jogadores do Barcelona faziam. Basta ver os jogos do Barça em Milão, frente ao PSG, Real Madrid e Bayern Munique. Eles já não tinham o mesmo à vontade."

Tirando o PSG e, em parte, o Bayern, que tiveram algum mérito como contornaram a pressão do Barça e não contra-atacaram à maluca, ninguém teve mérito em nada. E, mesmo esses, tiveram algum, é certo, mas conseguiram mais coisas porque o Barça não esteve bem. No que diz respeito à pressão, para mim, o que se passou foi que os jogadores não foram capazes, em primeiro lugar, de manter os índices de concentração de antes, e, em segundo, a linha defensiva nunca conseguiu estar tão perto do meio-campo, e tão subida, como antes. Na era de Guardiola, via-se várias vezes o Guardiola a mandar os defesas subir quando tinham bola, a chamar a atenção para que, mesmo quando tinham a bola, estarem bem colocados. Basta o Tito não ser tão interventivo para que isso comece a correr mal. Na minha opinião, no que diz respeito à pressão, o Barça foi menos eficaz por isso. Por isso e por perder mais vezes a bola, ficando sujeito a mais iniciativas do adversário.

Nuno disse...

Hélder, não sei se é preciso estatística. O Iniesta não era titular do Rijkaard.

Quanto ao meio-campo do Real, com esta equipa, eu jogava com o Xabi Alonso, o Modric e o Isco no meio, com o Ozil e o Ronaldo nas alas e o Benzema na frente.

PP disse...

Nuno,

1 - Aquilo foi uma resposta a uma situação que o Signori tinha interpretado de forma incorrecta, ao qual eu tentei explicar a tal circulação para criar espaço numa das alas. Não disse de todo que era esse o único caminho ao golo.

2 - O que entendes por cruzamentos? Cruzamentos do meio-campo como o Arce fazia no Gémio? Cruzamentos a 3/4 de campo, como o Beckham fazia? Cruzamentos sob a linha de fundo como o Giggs fazia? Ou cruzamentos já dentro da área para zonas de finalização como o JVP fazia muitas vezes para o Jardel? Depois temos cruzamentos com bola alta, média e baixa...

Agora diz-me lá se quando o Pedro ou o Alexis, combinam com o Messi ou Iniesta que passa para as costas da defesa, eles vão buscá-la e "assistem" (leia-se cruzam), para o coração da área, não é um cruzamento? Eu vejo como tal. Se o termo técnico é outro, que o seja... agora, acho que não vale a pena estar a discutir sobre sintaxe, quando o que importa é a ideia.

3 - Quanto aos especialistas tens razão. Mas, quando a maioria diz o mesmo, e muitos deles pessoas "independentes"... e depois também temos olhos na cara. Ninguém mete 4 ao Barcelona assim como dá aquela palha.

4 - Então... mas afinal pensamos o mesmo Nuno! O que eu quis dizer com "capacidade para assimilar e crescer com um sistema defensivo idêntico ao do Barcelona", é que isso no aplicado no Real permitiria ter-lhes muito mais posse de bola e por conseguinte controlo do jogo. Teriam a capacidade para controlar os ritmos de jogo.

A época passada, o Real muitas vezes parecia uma equipa partida. Cheguei a ter pena do Alonso e do Khedira... Com centrais rápidos e com nível técnico elevado como são o Pepe e o Ramos, acho que dava para aplicar o sistema defensivo à Barcelona.

5 - O Real em Barcelona, no jogo da segunda mão da semi-final da taça do Rei deu show em Nou Camp, pelo menos a nível táctico. Acho mesmo que esse jogo serviu para o Bayern ter a abordagem que teve contra o Barcelona.

6 - Compreendo o teu ponto de vista da pressão. Parte do problema também foi esse que referes, mas penso que a maior parte foi por causa do trabalho do adversário.

Frente ao Bayern, eu vi um Ribery e um Robben sempre muito bem nas saídas de bola da sua equipa, mas também nos momentos defensivos. E vi igualmente o Dani Alves e o Alba a fazerem pressão e a morderem os calcanhares dos dois "alemães". O problema é que estes dois não são dois menininhos que se intimidam com isso. E, mais chegaram a ganhar vários duelos individuais, muitos deles de costas para o adversário. Forçando muitas vezes ao Dani Alves, Alba e Busquets a cometerem faltas.

Ora quando a equipa comete falta em pressing alto, o que é que a outra equipa faz aquando da cobrança da falta? Reposiciona-se. Os seus jogadores avançam no terreno e os jogadores do Barcelona têm que descer as suas linhas. Ora estas distâncias que se vão percorrendo, provoca enorme desgaste aos jogadores do Barcelona. E isto, acaba por da próxima vez que quiserem subir e fazer o pressing já vão chegar mais tarde e assim sucessivamente.

Convenhamos que em termos físicos, praticamente tirando o Piqué, a equipa do Bayern ganhava a todos os do Barcelona. E, o Bayern a conseguir levar o Barcelona para um estilo de jogo mais físico, estava a levar o Barça a dançar ao seu ritmo e não o contrário.

Por tudo isso é que eu muitas vezes digo que o Barcelona é uma equipa super-optimizada. Aliás, optimizada demais para um determinado estilo de futebol, para um determinado estilo de música.

Por isso é que o óptimo é inimigo do bom.

7 - Uma coisa é certa e se calhar vai ao encontro do teu comentário sobre a exigência do Guardiola: gostava de tê-lo visto a comandar o Barcelona nessa meia-final frente ao Bayern, só para ver que tipo de decisões é que ele tomava para a sua equipa dar luta aos alemães... é que acho mesmo que o Bayern criou uma dificuldade acrescida ao Barcelona que necessitava de inovar um pouco na sua forma de construir jogo para dar cabo da defesa bávara.