terça-feira, 29 de março de 2011

Robben e as Individualidades

Arjen Robben é um dos maiores desequilibradores do futebol mundial e, certamente, um dos melhores na sua posição. À margem das muitas lesões que tem sofrido ao longo da sua carreira, poucos não gostariam de contar com os seus serviços. O que pretendo defender, neste texto, é que, apesar de apreciar Robben e de lhe reconhecer capacidades individuais soberbas, dificilmente encaixaria a especificidade do seu futebol (pelo menos do futebol que, nos últimos anos, tem feito seu) numa equipa com um ideal colectivo como eu o concebo. Aliás, será objectivo deste texto argumentar que Robben, tal como joga no Bayern de Munique, apesar de temível individualmente, é nocivo à evolução da equipa enquanto colectivo. Por arrasto, será defendido que todo o jogador que tenha a tarefa específica de ser o principal desequilibrador da equipa é nocivo à desenvoltura colectiva dessa equipa.

O Bayern de Van Gaal, apesar de, muitas vezes, parecer uma equipa frágil a defender e não ter ideias ofensivas, é uma equipa muitíssimo responsável em termos posicionais, com fio de jogo como poucas e com bastantes princípios ofensivos. O 4231 implementado pelo técnico holandês é mais arrojado que um 4231 tradicional, nem que seja pelo facto de não jogar com um único médio de características tradicionalmente defensivas. À parte dos problemas que a equipa tem em fechar os espaços entre os defesas e os médios, o modelo é interessante. Ofensivamente, as movimentações de Müller, como eram as de Litmanen no Ajax de Van Gaal, são das mais interessantes naquela posição. O Bayern é também das equipas europeias que melhor joga com o espaço entre linhas, e das que melhor procura os espaços certos para atacar. O problema, a meu ver, está na especificidade de alguns dos seus atletas. O ano passado, sem Robben, que esteve grande parte da época lesionado, o Bayern teve de procurar resolver os seus problemas de variadíssimas maneiras e, com isso, evoluiu colectivamente. Ribery, por melhor que seja em termos individuais, não é Robben. Não é um chamariz como o holandês e não tem a influência do seu colega. Sem Robben, o Bayern jogava mais pelo meio, era mais vertical, solicitava menos as acções individuais dos seus extremos e envolvia mais atletas no processo ofensivo.

Este ano, com Robben em condições, uma grande fatia das soluções ofensivas da equipa passa por circular a bola até ao holandês, normalmente na extrema direita, em afastar todos os colegas dele, de modo a arrastar adversários e a conceder-lhe espaço, e a deixar entregue ao seu talento a solução individual de cada ataque. É estratégico, neste Bayern, levar a bola até Robben e depois autorizar-lhe e fornecer-lhe as condições ideais para que desequilibre. O problema desta estratégia é que, por mais que desequilibre individualmente, é previsível. A previsibilidade do futebol dos bávaros, este ano, é inacreditável. Ainda que Robben, por si, não seja normalmente previsível, o simples conhecimento desta estratégia por parte dos adversários prepara-os para a mesma. E, por a estratégia ser previsível, as acções de Robben têm também muito menos consequências. Por norma, os adversários obrigam-no a vir para o meio, a procurar cruzamentos largos pouco eficazes. Por Robben ter tanto destaque, o Bayern, enquanto equipa, tornou-se mais fácil de parar. Bastou, para isso, que os adversários se preparassem para os momentos em que a bola entrasse no holandês.

O grande problema do Bayern, segundo esta análise, foi por isso aquilo que era, aparentemente, a sua melhor solução. É um caso ímpar de como o peso excessivo de uma unidade numa equipa, ainda que uma unidade individualmente muito útil, pode comprometer o colectivo. O que Van Gaal fez foi o contrário do que se deve fazer: submeteu as características do modelo à especificidade de Robben, quando deveria ter encaixado o holandês na estrutura colectiva. O que este exemplo, no fundo, ilustra é aquela velha teoria que sempre se defendeu aqui de que o modelo tem de estar acima da especificidade dos jogadores. Pouquíssimos defenderão o mesmo que nós. Para a grande maioria, o modelo ideal deve aproveitar e adaptar-se à especificidade dos atletas, tirando desse modo o melhor de cada um. Para nós, o modelo ideal está acima de qualquer individualidade e compete ao treinador não adaptar a sua ideia de jogo aos jogadores que possui, mas o contrário, adaptar os jogadores que possui à ideia de jogo, que lhes é anterior. Arjen Robben é fortíssimo no um para um, mas o Bayern não precisava de focar-se estrategicamente nessa capacidade para ser bem sucedido. Pelo contrário, seria bem mais sucedido se preconizasse um modelo estrategicamente diferente, em que todas as individualidades obedecessem a uma ideia homogénea. Incluído num conjunto com uma ideia estritamente colectiva do jogo, sem estar presa à tarefa de desequilibrar individualmente, a especificidade de Robben acabaria por ser eficaz quando tivesse que ser. Nessas condições, nem o Bayern estaria dependente da inspiração de Robben, procurando o êxito por outros caminhos e tornando-se menos previsível, nem Robben estaria dependente de si mesmo. Os grandes jogadores só adquirem a excelência se não dependerem exclusivamente de si mesmos, o que é o mesmo que dizer que só podem valorizar-se quando integrados em conjuntos em que não têm a missão hercúlea de resolver tudo e mais alguma coisa. Nada disto é uma crítica a Robben. Nem tão-pouco a Louis Van Gaal. Trata-se de um vício muitíssimo abrangente de cuja natureza tóxica só um treinador do mundo me parece ter consciência clara.

16 comentários:

Jay disse...

de certeza que esta época tiveste a ver com atenção mais de 40 minutos de jogo do bayern.

teenagewasteland disse...

O guardiola?

JFC disse...

se não estou em erro o Robben jogou bem mais a época passada que este ano! mais, quando o holandes o ano passado "explode" coincide com a melhoria dos resultados do Bayern. De todas as formas isto não invalida em termos gerais o teu raciocínio..

Joao disse...

" (...) a identidade do FC Porto é esta, uma cultura de posse, de jogo e de toque. O futebol do Benfica é a vertigem da velocidade e nosso é a cultura da pausa, da temporização e da posse" .
Andre Villas-Boas.

Nuno disse...

teenagewasteland, sim, era ao Guardiola que me referia.

João, estive quase para fazer um texto sobre esse comentário do Villas-Boas. Parece que andou a ler aqui o blogue. É que até as palavras usadas coincidem em muito com o vocabulário com que distinguimos os dois modelos em textos anteriores.

Joao disse...

Ainda vais a tempo Nuno !

O Andre é jovem, é capaz de ter passado aqui umas horas.....

Abraço.

Batalheiro disse...

eu aprendi a ver futebol aqui!

Joao disse...

muito bem batalheiro, muito bem. agora responde me, disse o professor com os olhos bem redondos,quantos sao 2 e 2 ?

Batalheiro disse...

João,

Não sei se estou correcto ao detectar um tom de ironia no teu comentário. Ademais, a forma sintética (qualidade que muito aprecio) como te expressaste, adiciona alguma imprecisão quanto ao alvo do teu hipotético sarcasmo. Penso que ultrapassaste aquela linha ténue entre síntese e ambiguidade.

Podes estar a referir-te a uma certa forma de estar dos professores em tempos idos, infiro principalmente pelo tom do teu comentário; ou então, e penso que esta será a hipótese mais provável, talvez o teu comentário seja uma dupla critica: por um lado aplicando uma metáfora do aluno subserviente e um bocado burro à minha pessoa, por outro lado deixas a ideia que o blogue EntreDez não será o local indicado para aprender o que quer que seja.

Ah! E alternar entre dirigires-te a mim na primeira pessoa e uma espécie de narrador omnisciente “disse o professor(...)” também não ajuda à melhor interpretação das tuas intenções.

Seja como for, um grande bem haja para ti.

BAD-RELIGION disse...

Nesta jornada o Robben faz um passe fabuloso para o 1.º golo do Bayern

Joao disse...

1) bad religion: aprende a ler.

2) batalheiro: o entredez é sem duvida um dos melhores blogs sobre futebol.

mikepintas disse...

"...será defendido que todo o jogador...o principal desequilibrador da equipa é nocivo à desenvoltura coletiva da equipa." Como é que é? Importam-se de repetir? É que uma asneirola desse tamanho e por ninguém desmentida poderá tornar-se numa regra de ouro nos próximos compêndios sobre futebol. Então e o Messi, o Cristiano, o Xavi, o Eto'o, o Gerrard, o Zidane, o Ronaldinho Gaúcho, o Ronaldo Fenomeno, o Del Piero, o Sneijder, o Lothar Mathaus, o Francescoli, o Maradona, o Figo, o Rui Costa, o Deco, o Pelé, etc, o que é que personificam(ram) no futebol? O individualismo, o egoísmo, a antítese do jogador de equipa?

Nuno disse...

Mikepintas, não me parece que tenhas percebido. O que disse foi que todo o jogador, seja o Messi ou não, que tenha a tarefa de desequilibrar individualmente é nocivo à equipa. Isto porque a equipa, enquanto colectivo, estará montada para que esse jogador desequilibre e dependerá desse jogador. Essa equipa nunca será verdadeiramente colectiva por isso. Ninguém está a dizer que estes jogadores não devem ser individualistas, de quando a quando. O que não devem é ter, por definição, a tarefa ou o dever de o ser. Só isso.

Blog do Tavares disse...

Grande texto!

Acredito que são poucas as equipes e treinadores que têm peito de colocar um jogador diferenciado no mesmo patamar dos outros do plantel.

Concordo contingo quando citas (implicitamente) o Guardiola como um dos treinadores que prefere o coletivo ao individualismo de seu craque maior (Messi). Principalmente colocando o Pulga como aquele falso 9, insinuante e ofensivíssimo, mas sem a incubência de resolver sozinho.

Saudações do Brasil.

Pepe Cadena disse...

Robben es uno de los jugadores que mas le ha costado se una super estrella, muy retrogrados fueron los dirigentes de El Real Madrid al dejar a ir a este extraordinario jugador!

Pepe Cadena disse...

Robben es uno de los jugadores que mas le ha costado se una super estrella, muy retrogrados fueron los dirigentes de El Real Madrid al dejar a ir a este extraordinario jugador!