sábado, 4 de julho de 2009

Um treinador competente ou um fala-barato?

Aplaudo de pé, quando assim tem de ser, os clubes que decidem ter à frente da sua equipa técnica treinadores que, apesar de um currículo curto ou pouco reputado, parecem discernir, com relativa facilidade, as exigências do futebol moderno. Muitas dessas contratações, contudo, devem-se ao acaso e não a uma estratégia ponderada. Por exemplo, a contratação de Jorge Jesus pode mesmo ser o melhor que Vieira fez até hoje à frente do Benfica, mas duvido que isso se tenha ficado a dever a uma ponderação acertada. Falando de treinadores, é cada vez mais normal os clubes procurarem académicos que não tiveram, enquanto jogadores, um percurso necessariamente interessante. Esta distinção, porém, radica num erro. É tão errado presumir que um ex-jogador tem vantagens em relação a quem não jogou ou a quem não jogou ao mais alto nível, porque viveu o jogo por dentro, quanto presumir que um académico, porque leu e investigou certas coisas mais ao pormenor, tem vantagens em relação a quem não o fez. A qualidade de um treinador não depende da quantidade de literatura que conseguiu acumular, nem da quantidade de experiência que o seu currículo enquanto jogador lhe forneceu. Ser um bom treinador tem essencialmente a ver com competência. Saber muito ou ter muita experiência pode não ter nada a ver com competência.

Esta posição extrema, que é a posição de muito boa gente, tornaria fácil identificar bons treinadores. Assim, aqueles que estudaram, que se educaram, que tiveram contacto com os mais modernos métodos de treino, estariam numa posição privilegiada. Isto não é verdade e há exemplos de treinadores bastante competentes que foram jogadores no passado. Acredito, de facto, que a experiência enquanto jogador não chega e que um ex-jogador só se pode tornar um bom treinador se se cultivar, se for inteligente. Mas o contrário não é menos verdade. Por mais culta que seja uma pessoa, a reflexão sobre o jogo, a aplicação da cultura à particularidade do futebol é essencial. Poderia dar o exemplo de Queiroz. Para muitos, porque é um académico, tem de ser bom treinador. Mas não é. Nem nunca foi. É apenas alguém que teve um percurso diferente. Até pode ter métodos de treino mais sofisticados que muitos dos treinadores actuais, até pode conhecer mais coisas, até pode estar mais informado, mas se as suas ideias não são boas, de nada lhe vale. E as ideias são aquilo que de mais importante um treinador deve ter. Ter ideias não se segue de estudar muito, como não se segue de conhecer o jogo enquanto jogador. São coisas distintas; não existe uma relação de causalidade entre elas.

Posto isto, queria individualizar o problema. Carlos Azenha, o agora treinador do Vitória de Setúbal, pertence evidentemente à segunda classe de treinadores, aos académicos. Para muitos, a presença de Carlos Azenha na primeira liga é uma boa notícia e um sinal de esperança em relação ao avanço, a nível técnico, do nosso futebol. Não sei se concordo com isto. Por uma razão simples: porque não conheço a fundo as ideias de Carlos Azenha. Aliás, aqueles que acham que Azenha é um dos mais competentes treinadores portugueses só o podem achar porque consideram acertada a premissa acima repudiada. Isto é, quem acha que Carlos Azenha pode trazer boas coisas ao futebol português pensa imediatamente que, por ser um académico, tem vantagens em relação aos outros treinadores. Ou então conhece melhor as suas ideias do que eu. Aquilo que posso dizer com relativa segurança é que Carlos Azenha é uma pessoa informada, provavelmente com métodos de treino bastante modernos, etc. Mas nada disto, como demonstrei, implica ter boas ideias. E é aqui que reside o problema. Do pouco que conheço das ideias de Carlos Azenha, sobretudo das suas intervenções ao longo da época no Domingo Desportivo, não tenho uma opinião tão optimista. Parece-me, de facto, alguém com conhecimentos acima da média, mas parece-me também ter demasiadas certezas infundadas, demasiadas opiniões banais, demasiadas demagogias, demasiados lugares-comuns...

Certa vez, por exempo, Carlos Azenha referiu-se ao avançado hondurenho do Benfica, David Suazo, de uma forma absolutamente convencional e errada. Segundo ele, Suazo era um jogador para jogar na profundidade, útil quando era possível lançar a bola para as costas da defesa, mas que tinha imensas dificuldades quando assim não era. Ora, isto é falso. Está na base deste pensamento um erro bastante comum: pensar que os jogadores valem pelo seu atributo mais interessante. Porque Suazo era veloz, pensava-se que só era forte num tipo de jogo que beneficiasse essa velocidade. Não ver que Suazo era muito mais do que um jogador veloz é um tipo de cegueira grave. Quando Carlos Azenha, ou qualquer outra pessoa, diz que Suazo só é bom nesse tipo de jogo, está a mostrar que não vê as coisas como elas deveriam ser vistas, está a revelar que só tomou atenção, como maior parte das pessoas, aos lances em que o hondurenho, fazendo valer a sua individualidade, conseguiu produzir alguma coisa de útil. Mas produzir alguma coisa de útil não é só ter iniciativas individuais, não é só fazer valer as suas melhores características. É até, essencialmente, fazer valer as suas características colectivas. Suazo não valia só pela sua capacidade de explosão; era um jogador inteligente, muito forte a segurar a bola de costas para a baliza e a tabelar com os colegas, respeitador do colectivo e interessado em jogar em equipa. O que Carlos Azenha evidencia, ao dizer tal coisa, é que não percebeu quem era David Suazo. O que ele percebeu foi o que o hondurenho produziu e não o que poderia produzir. Se a equipa não foi capaz de tirar nada de útil dele além da sua capacidade de explosão, ele não tem culpa. Ou seja, o facto de a equipa jogar para ele de uma determinada maneira não implica que ele não pudesse ser forte noutro tipo de jogo. Aliás, foi muito útil ao Inter e nem sempre pelo seu poder de arranque ou pela sua velocidade. Carlos Azenha, como tantos outros - parece-me - fica-se pelo evidente, pelo que salta à vista, pelo espalhafatoso, pelos golos, por aquilo que toca o nervo óptico sem a mediação da racionalidade. E isso é indicador de uma falta de atenção e de uma falta de finura intelectual que me deixa com muitas reticências quanto à sua pretensa competência...

Poderia, se me lembrasse, concentrar-me noutras ideias com as quais não concordei. Vou antes concluir com as palavras que disse ao ser contratado pelo Vitória de Setúbal. Carlos Azenha disse então, com mais pompa do que com correcção, que queria o seu Vitória a "defender à Sacchi e a atacar à Van Gaal". A expressão é daquelas que entra no ouvido. Cita dois nomes pomposos e as pessoas ficam atentas. Sacchi e Van Gaal são, afinal, das melhores referências que um treinador pode ter. Mas, além da maneira forçada com que os nomes são citados, é a associação entre eles e a divisão entre processos ofensivos e defensivos que mais choca. Eu sei o que é jogar à Sacchi e o que é jogar à Van Gaal, mas o que é jogar defendendo à Sacchi e atacando à Van Gaal? A única resposta que tenho é que isto é parvoíce. São duas coisas incompatíveis. Resta saber se Carlos Azenha o sabia e o disse mais para impressionar ou se, de facto, essas são as suas ideias. Resta saber, por isso, se Carlos Azenha tem competência para corresponder às expectativas ou se não é mais do que um fala-barato...

6 comentários:

filipe disse...

Nuno,

Estas coisas de perfis de treinadores é algo, que como sabes, abordo muito. Pessoalmente valorizo muito o discurso. A compreensão que os treinadores demonstram ter do jogo, se sabem porque perdem ou porque ganham ou se apenas ganham ou perdem sem saber muito bem porquê. A componente de treino é para mim mais secundária porque entendo que pode ser facilmente colmatada com um bom especialista na equipa técnica. A outra componente que julgo ser ainda mais decisiva é a da liderança.

Em relação ao Azenha, o seu conhecimento do jogo é de facto muito elevado e acima da média e não tenho muitas dúvidas sobre isso. Agora, isso não faz dele automaticamente um bom treinador porque lhe falta, precisamente, mostrar se é ou não um bom líder, o que é absolutamente decisivo.

O meu ponto de discordância em relação ao que dizes tem a ver com a forma como colocas a questão entre um "treinador competente" ou "fala barato".

Carlos Azenha pode não vir a ser um bom treinador, com capacidade para ter sucesso ao mais alto nível, mas não será seguramente um "fala barato". Fala barato são outros treinadores e comentadores que revelam pouca capacidade de análise e conhecimento sobre o jogo. Esses nunca serão competentes e serão fala baratos. Mas há outros que não precisam de estar ou num lado ou no outro. Podem estar no meio.

Dou-te 2 exemplos. Um é o André Vilas Boas. Disse recentemente que quer ser treinador quando terminar o contrato com o Inter. Vai ser de certeza um bom treinador? Não. Mas também não será um "fala barato". Outro caso poderá ser Carvalhal. O seu conhecimento é inquestionável e até tem experiência como jogador ao mais alto nível (a questão para mim não é essa). Mas permanece para mim a dúvida se terá a capacidade de liderança para se impor num clube de maior pressão.

PB disse...

uma coisa é ter conhecimentos, outra é saber transmiti-los, atraves dos melhores exercicios. Acredito que ele seja bom.

A forma como um jogador como o Suazo foi desperdiçado foi das coisas mais estúpidas de que tenho memória. O pior é q para a maioria dos adeptos, é o hondurenho q é um flop...

Nuno disse...

Filipe, não sei se concordo com a divisão que fazes das competências dos treinadores. Separar a componente da liderança da componente de treino e da componente dos conhecimentos não é assim tão simples. Daí não conseguir perceber, para já, se o seu discurso polido e informado corresponde a boas ideias ou simplesmente à ostentação de conhecimentos que, nos dias que correm, estão ao dispor de muita gente. Quando falei em fala-barato foi para reforçar essa possibilidade. Pode ser alguém competente, mas também pode ser alguém que ouve coisas interessantes e consegue formular discursos interessantes partindo das ideias dos outros, o que implicaria que teria algumas dificuldades em fazer algo de bom. É que é muito fácil falar em Sacchi e Van Gaal. Perceber do que se trata e conseguir pôr uma equipa a jogar de um modo inovador e interessante já é outra coisa. Por isso, vou esperar para ver, sendo que, para já, a discordância de algumas das suas ideias me deixa um pouco desconfiado...

PB, também acho isso. Aliás, houve alguns jogadores que na temporada passada não renderam o que podiam, mas que não deixam de ser bons. Para mim, além do Suazo, acho que o Carlos Martins foi bastante vitimado pela forma de jogar da equipa. Assim como o Yebda e o Aimar, por exemplo. Acho que todos eles vão render mais esta época.

apenasfutebol disse...

Nuno,

Subscrevo por inteiro este teu texto. Particularmente em relação a Carlos Azenha...é das coisas que mais me tem impressionado, o tratamento que a imprensa lhe tem dado, e claro, o tratamento ridículo que ele dá a si próprio...
O exemplo de Suazo é, sem dúvida, um bom exemplo das insuficiências analíticas reveladas por este tal de Azenha...

Grande abraço

Yazalde disse...

Sobre o azenha não conheço muito, mas da dicotomia jogador/treinador temos exemplos extremos como Di Stefano e Mourinho, ou outros bons em ambas as funções como Cruijff ou Beckhenbauer. Ha uns que nasceram para isso como recentemente Pepe Guardiola, outros que vão acumulando experiência como Fergusson, Jesus ou Jesualdo. Há aqueles que jogaram toda a vida medianamente e são medianos tacticamente como Paulo Bento, que poderão melhorar no futuro com a experiência.
Enfim, há um pouco de tudo, independentemente de se ter sido bom ou mau jogador há aqueles com jeito e os sem jeito e aqueles que vão aprendendo e podem-se safar.

Pedro disse...

Nuno, talvez estejas coberto de razão em tudo aquilo que tu dizes mas penso que este não vai ser a altura adequada pa verificarmos isso, tendo em conta as dificuldades que estão a surgir para ele conseguir construir um plantel. Talvez ele ja soubesse dessas dificuldades quando assinou mas mesmo assim penso que é um factor muito limitante e não poderemos tirar conclusões da sua valia ou ausência dela... No entanto concordo totalmente quando dizes que paleio não lh falta... vamos lá ver o que dá... Abraços ;)