quarta-feira, 3 de maio de 2017

O mesmo que se faz aqui, mas em mau...

Sabem por que é que aquilo que o António Tadeia faz é o mesmo que se faz aqui, mas em mau? Em poucas palavras: porque não consegue distinguir entre o que é intencional do que não é. Para perceber o que se passa num campo de futebol é preciso, antes de mais, saber identificar as intenções dos jogadores. A actividade de um comentador desportivo não é, desse ponto de vista, muito diferente de outras actividades. Aquilo que distingue o bom crítico literário, o bom analista político e o bom polícia de investigação é a capacidade, no fundo, de compreender as intenções dos escritores, dos políticos e dos criminosos. Confundir uma recepção orientada com uma má recepção não é, por isso, aceitável. Sê-lo-ia, talvez, em quem vê o jogo descontraído no café, ou em quem o vê sem a responsabilidade profissional de interpretar tão bem quanto possível aquilo que acontece dentro das quatro linhas. Há incidências cuja interpretação, de facto, não é fácil, mesmo para quem faz isto há muito tempo, está diante de um ecrã e tem ao seu dispor um número infindável de repetições de todos os ângulos. Nem sempre é possível ter a certeza acerca das intenções dos jogadores, e isso pode desculpar certas interpretações. Mas há incidências que, de tão óbvias para quem já jogou ou tem o mínimo de experiência a ver jogos de futebol, um comentador profissional não pode não saber interpretar. Não saber distinguir entre um toque involuntário e um toque propositado na bola é como não saber distinguir entre um cadáver putrefacto e a bela adormecida. Não, António, o primeiro toque de Lucas Vázquez não foi mau; foi óptimo. Má foi a análise do António, que não percebeu que o atleta do Real Madrid, calculando que podia tirar o defesa do Atlético da frente alargando o drible até à linha de fundo, orientou de pronto a recepção para esse efeito.


video

Hoje em dia, quase toda a gente fala em decisões. Mas a maioria das pessoas não percebe bem o que é uma decisão, em futebol. Para as pessoas como o António Tadeia, os jogadores só tomam decisões quando decidem chutar em vez de passar, ou quando escolhem uma opção de passe em detrimento de outra. Nas suas cabeças, só faz sentido falar em decisões quando é evidente que há tempo para decidir antes de executar. Na verdade, tudo o que um jogador faz em campo é decidir. Uma simples recepção, por exemplo, acarreta uma decisão. E, mais importante do que isso, tais decisões são geralmente tomadas em fracções de segundo. Assim é porque as circunstâncias de uma jogada mudam em fracções de segundo. Este lance é um bom exemplo disso. No momento em que a bola sai do pé de Ronaldo, a jogada está ainda longe de estar definida, e é absurdo assumir que o jogador que a vai receber já tenha tomado uma decisão acerca do destino a dar à bola (cruzar de primeira ou dominar a bola, por exemplo). Mais do que isso, precisa de perceber como se vão comportar os colegas e os adversários nos instantes seguintes, e só então, avaliando as circunstâncias tais como se apresentarem nessa altura, poderá tomar uma decisão. A verdade é que Godin, o central do Atlético que sai ao caminho de Lucas Vázquez, não protege devidamente a baliza e ainda se aproxima em demasia do portador da bola, tentando dificultar-lhe a recepção. No último instante, o jogador do Real Madrid percebe que, orientando a recepção, tem espaço suficiente para driblar o uruguaio, e é isso que faz. A decisão foi tomada no último instante antes de chegar à bola, e em função das circunstâncias que só nessa altura tornaram claro que o drible era exequível. Não, António, não era preciso acreditar no Pai Natal para acreditar que havia espaço suficiente para tirar o adversário do caminho e cruzar para um dos colegas que se movimentavam na área. Os jogadores de futebol não fazem as coisas ao calhas; são agentes racionais. Lêem circunstâncias específicas, estimam o sucesso de determinadas decisões e agem em conformidade. Ainda que as suas acções não sejam precedidas de uma ponderação demorada, são determinadas por processos racionais. Recebem estímulos, interpretam-nos e decidem o melhor que conseguem. Avaliando os sinais corporais do adversário, a distância até à linha de fundo e a movimentação dos colegas na área, foi possível a Lucas Vázquez perceber (no último instante) que podia ultrapassar Godin, que teria espaço para chegar à bola antes de esta sair e que, entretanto, teria opções de passe diferentes das que havia nesse instante. Não fez nada ao calhas, e o toque que deu na bola foi tudo menos involuntário e mau. António Tadeia não percebeu isto e fez figura de urso. Anda a fazê-la há anos, aliás, desde que lhe disseram que falar de futebol na televisão não era muito diferente de brincar com ursinhos de peluche. E agora não larga o ursinho.

P.S. A figura de urso, na verdade, foi feita ao longo de toda a partida de ontem, sempre que António Tadeia se lembrava de que Isco, cujo virtuosismo técnico não deixou de gabar com toda a condescendência do mundo, não é capaz de acções colectivas relevantes.

7 comentários:

Luís1904_ disse...

Quando ele mandou esse comentário sobre o Isco senti tanta vergonha alheia.....
O Tadeia é péssimo... Lembra-me eu e os meus amigos quando jogávamos Championship Manager 01/02 com 14 anos a mandar larachas cheios de nós a achar que percebíamos imenso de futebol....
As conclusões que tira do que vê são péssimas mesmo.... Once again, o dinheiro do ursinho de peluche que ele recebe vem dos nossos impostos.... #verynice

RG disse...

Quando sei que é o Tadeia, Bruno Prata, Carlos Daniel ou o Lobo tiro o som e vejo o jogo mudo.

Blog de Portugal disse...

E o Casemiro ainda decide (e bem) não rematar a bola que o Lucas lhe passou, porque sabia que vinha um colega atrás dele melhor enquadrado do que ele para fazer o remate, e sabendo que pela forma como tinha o corpo em relação à bola, o adversário que o estava a marcar não poderia intercetar a bola.

Apenas não consigo saber se ele sabe que o Ronaldo iria aparecer nas costas ou se era o outro colega (acho que o Benzema...)

Gonçalo Rijo disse...

Pensei o mesmo quando ouvi o comentário, e são estes comentadores que temos....

Excelente post.

Magro vai ao ataque disse...

Nuno

Percebo o teu ponto. É quase como alegar que o Cristiano no segundo golo domina a bola de propósito para levantar e poder bater na descida... Parece que a intencionalidade é um fenómeno que aparece apenas quando dá jeito a proteger os "nossos". Fosse esse domínio do Lucas Vasquez feito pelo Cristiano e seria alvo de capa de jornal.

Sobre isos, para quando um post sobre as verdadeiras características do Cristiano Ronaldo? Um que diga a verdade sem ter a necessidade de compará-lo com ninguém. E que não se limite aos números que aparecem no livescore ou no zerozero para levar à discussão ensurdecedora do "melhor".

Estou certo que seria um post bem quente! Vá lá, sem medo!

Blogger disse...

Não percebo tanta crítica ao António Tadeia. Não é mentira que o primeiro toque não foi brilhante, pois foi muito arriscado e outro árbitro até poderia ter invalidado o lance caso interpretasse que a bola poderia ter saído.

Nuno disse...

Não é mentira?? O toque foi óptimo. Só assim tirava o Godin da frente. Ele tinha que alargar a finta e usar toda a dimensão do campo.