domingo, 5 de fevereiro de 2017

O Campeão Inglês

Ainda há alguém que acha que Claudio Ranieri é um génio, e que a conquista histórica do Leicester, o ano passado, implica necessariamente um óptimo trabalho do seu treinador? A equipa que este ano está a lutar para não descer é basicamente a mesma equipa que o ano passado surpreendeu tudo e todos. Como é que aqueles que insistiram em explicar o sucesso do Leicester através da competência do seu treinador explicam agora o que se está a passar este ano? Ranieri era genial o ano passado e banal este ano? Foi uma febre que lhe deu? O verdadeiro retrato do Leicester, do mesmo Leicester que o ano passado ganhou o campeonato inglês, é o que está abaixo. É o momento do passe de Mkhitaryan que isola Mata para o terceiro golo do Manchester United, hoje à tarde.



O Leicester de Ranieri é isto: jogadores ao monte, desorganização geral, referências ao homem, etc.. Muita fé e pouca ciência, em suma! Foi isto que foi campeão inglês o ano passado. Se querem elogiar o Leicester, muito bem. Mas o que estão a elogiar é isto. E isto é a Pré-História do jogo. Foi campeão porque o ano passado as únicas equipas que jogavam um jogo minimamente parecido com aquilo que o futebol é actualmente fizeram uma má época, porque os jogadores do Leicester se convenceram a dada altura de que eram melhores do que na verdade são e porque, em Inglaterra, o jogo continua a ser pré-histórico.

50 comentários:

Ricardo disse...

Espera, que o Humpty Dumpty já virá aqui dizer que a culpa é do Slimani!

João Filipe disse...

E porque lá habitava um fulano que dá pelo nome de Ngolo Kanté 😉

Pedro Carmo disse...

Não deixa de ser curioso que mantenha esse estilo pré histórico apesar de carregado de jogadores estrangeiros de classe mundial e treinadores, igualmente estrangeiros, muitos com créditos firmados.

Por outro lado, será essa primitividade que o torna super emocionante.

Nuno disse...


Ricardo diz: "Espera, que o Humpty Dumpty já virá aqui dizer que a culpa é do Slimani."

Não tarda está aí.

João Filipe diz: "E porque lá habitava um fulano que dá pelo nome de Ngolo Kanté"

O Kanté era importante para a forma como a equipa pressionava, sem dúvida. Mas um jogador não pode explicar uma discrepância destas. Além de que, apesar dessa saída, o Leicester se reforçou.

Pedro Carmo diz: "Não deixa de ser curioso que mantenha esse estilo pré histórico apesar de carregado de jogadores estrangeiros de classe mundial e treinadores, igualmente estrangeiros, muitos com créditos firmados."

Eu já comentei isto várias vezes, mas apetece-me escrever um texto sobre o fenómeno. Na minha opinião, o estilo britânico não desapareceria mesmo que todas as equipas fossem treinadas por estrangeiros e todas tivessem vários jogadores estrangeiros de classe mundial. A mentalidade britânica, por exemplo, impôs-se às ideias do Guardiola, a dada altura esta época. Isto numa equipa praticamente sem jogadores britânicos, com o treinador mais convicto de si que eu conheço. Para que essa mentalidade muda, serão precisos muitos anos. Mais do que jogadores e treinadores estrangeiros, que são importantes, é o tempo. É preciso dar tempo aos adeptos, aos árbitros, aos treinadores, aos responsáveis pela formação, às novas gerações de jogadores, que só agora começam a ter exemplos dignos de imitação, etc..

Jorge B. disse...

Exatamente o que eu ia dizer. Ei atualmente só a liga inglesa é jogos do meu clube em Portugal.

Pedro Carmo disse...

E infelizmente ganha o prémio de treinador do ano.
Sempre foi fraco, SEMPRE!!!

Às vezes, as circunstâncias alinham-se de tal forma que acontece.
Ganharam tantas vezes e algumas de forma surpreendente que para os jogadores a crença que era possível tornou-se muito real. E nessas alturas essa mesma motivação torna-se a maior força de todas superando o treino e as ideias do treinador.

Não correndo tão bem o trabalho do treinador é mais visível.
É a minha opinião!

Mike Portugal disse...

Nuno,

Percebo o ponto que queres mostrar. No entanto tem que se dar algum mérito ao homem por ter conseguido dar aos jogadores uma injeção de confiança suficiente para eles darem mais do que podiam (um bocado como o famoso Boavista campeão de Jaime Pacheco). Claro que para isto acontecer, teria sempre que haver pouca oposição por parte dos eternos candidatos, mas isto não é, também, o que muita gente gosta de ver no futebol? A incerteza de quem será campeão?

Vítor Hugo Vieira disse...

Tal como o ano passado a equipa não era tão boa como a faziam pintar, e aproveitou bem o facto de não jogar nas competições europeias, de ser a equipa surpresa, de não ter pressão nenhuma e de ainda ter a galvanização que ocorre em todas equipas que estão numa série de bons resultados, este ano não é tão má como a pintam, e sofre com as saídas de alguns jogadores, por ter jogos extra nas competições europeias, de já não ser supresa para ninguém, e por o balão da galvanização ter esvaziado. Tudo normal, portanto.

Mas há sempre quem ache que é mais esperto que os outros, e fique todo emocionado quando algo ou alguém que esteve no topo volta à terra(como acontece em 99% dos casos), e diga com contentamento infantil:
- Estão a ver, eu bem disse que não valia(m) nada!

Nuno disse...

Mike Portugal diz: "No entanto tem que se dar algum mérito ao homem por ter conseguido dar aos jogadores uma injeção de confiança suficiente para eles darem"

Não consigo. Não consigo dar mérito a um treinador por ter conseguido uma coisa que este ano não consegue. Ou seja, não consigo dar mérito a um treinador por ter conseguido uma coisa que conseguiu ao calhas. O texto, na verdade, é contra a presunção de que o Ranieri teve mérito nisso. Por que é que foi o Ranieri, e não simplesmente as circunstâncias, que motivou os jogadores?

Vitor Hugo Vieira diz: "Tal como o ano passado a equipa não era tão boa como a faziam pintar, e aproveitou bem o facto de não jogar nas competições europeias, de ser a equipa surpresa, de não ter pressão nenhuma e de ainda ter a galvanização que ocorre em todas equipas que estão numa série de bons resultados, este ano não é tão má como a pintam, e sofre com as saídas de alguns jogadores, por ter jogos extra nas competições europeias, de já não ser supresa para ninguém, e por o balão da galvanização ter esvaziado. Tudo normal, portanto."

Vítor, tudo normal como? É que o ponto é precisamente esse. O Leicester foi uma equipa banal o ano passado. Banalíssima. Ganhou a liga por uma série de coisas. Nenhuma delas foi a qualidade da equipa. Isto é completamente diferente de defender que o Leicester teve mérito em ser campeão. É completamente diferente. E é por isso que é legítimo dizer agora: "estão a ver?". Este Leicester é igual ao Leicester do ano passado. Igual. É uma equipa banal, com um treinador banal, com ideias banais, que em circunstâncias normais luta para não descer. Não há um pingo de mérito naquilo que o Leicester fez o ano passado. Foram as circunstâncias que determinaram esse sucesso. Não foi nem o treinador, nem a qualidade extraordinária dos jogadores, nem a competência particular da equipa. Foram as circunstâncias.

Benfiquista Primário disse...

As circunstâncias, essas putas que teimam em conspurcar os conceitos abstractos.

Pedro Marques disse...

"Não há um pingo de mérito naquilo que o Leicester fez o ano passado." lol

omeiocampo disse...

"Mas o que estão a elogiar é isto. E isto é a Pré-História do jogo"
Outra equipa que parece regredir cada vez mais para este tempo é o Barcelona. A defesa ultimamente anda a jogar ao jogo da amizade, em que cada um tem o seu par e não o pode largar. Ou a busca excessiva e a aproximar-se da exclusividade dos corredores laterais, tendo até jogos em que a única função dos interiores foi ajudar no corredor. Curiosamente o Barcelona já foi, pelo menos para mim, a equipa mais vanguardista do mundo.

César Vieira disse...

Nuno, para ti quais foram os treinadores campeões com mérito na época passada e quais estão agora em primeiro lugar com mérito nas principais ligas europeias e em pt?

Nuno disse...

Benfiquista Primário diz: "As circunstâncias, essas putas que teimam em conspurcar os conceitos abstractos."

Sim, que têm?

Pedro Marques diz: ""Não há um pingo de mérito naquilo que o Leicester fez o ano passado."

Há? Então qual é? E como é que se explica que uma equipa que teve mérito em ser campeã possa agora não ter mérito nenhum? O mérito é uma coisa que vai e vem?

omeiocampo diz: "Outra equipa que parece regredir cada vez mais para este tempo é o Barcelona. A defesa ultimamente anda a jogar ao jogo da amizade, em que cada um tem o seu par e não o pode largar. Ou a busca excessiva e a aproximar-se da exclusividade dos corredores laterais, tendo até jogos em que a única função dos interiores foi ajudar no corredor. Curiosamente o Barcelona já foi, pelo menos para mim, a equipa mais vanguardista do mundo."

Este comentário não podia ter melhor timing. O Barcelona de Luís Enrique é hoje uma sombra do Barcelona de Guardiola. Mas acho que aquilo que resta hoje é o produto de um afastamento do Barcelona de Guardiola que foi sendo gradual, e se tornou decisivo com Luís Enrique. Quando esse Barça de Luis Enrique se sagrou campeão europeu, eu defendi que esse título era o fim da linha da grande equipa catalã dos últimos anos. A forma como esse título foi obtido fazia antever esse fim. Era uma questão de tempo até se tornar uma equipa banal.

César Vieira diz: "Nuno, para ti quais foram os treinadores campeões com mérito na época passada e quais estão agora em primeiro lugar com mérito nas principais ligas europeias e em pt?"

César, a tua pergunta é tendenciosa e mistura duas coisas. Eu acho que o sucesso do Atlético de Madrid é mérito do Simeone. Mas também acho que a equipa do Atlético de Madrid é limitada. Uma coisa é haver treinadores cujos modelos de jogo me agradam e treinadores cujo modelo de jogo não me agradam; outra é haver equipas que ganham coisas por causa do trabalho do treinador (tenha ele o modelo de jogo que tiver) e equipas que ganham coisas por força das circunstâncias. Não vejo especial mérito naquilo que o Fernando Santos fez no Europeu, concordando ou não com as suas ideias. Portugal foi campeão europeu, principalmente, porque se reuniram uma série de circunstâncias favoráveis, e acredito que o seria com outro treinador qualquer. O mesmo se passa com o Ranieri. O que é que te garante que foi a forma como o Ranieri motivou os seus atletas, e que é diferente da forma como outros treinadores motivam os seus, que fez com que o Leicester fosse campeão? Em que medida é que aquele modelo de jogo, que este ano é o mesmo, é que fez a diferença? Por que é que temos de atribuir mérito todo e qualquer sucesso? Ninguém atribui mérito a quem acerta no euromilhões, certo? Por que será?

César Vieira disse...

Nuno, eu coloquei uma pergunta clara. Estás a comentar aspetos que não estão na pergunta.
É uma pergunta que, se lhe quiseres responder concretamente e se é essa a tua visão, pode ter na resposta quais os treinadores que pensas terem mérito e dentro deles quais os diferentes tipos de mérito que reconheces.
Se quiseres responder, poderei tentar entender melhor de que forma separas o teu gosto e preferências pessoais da atribuição de mérito.

Miguel Pinto disse...

Como é possível o Leicester despedir aquele que foi eleito como o melhor treinador do Mundo na época transacta depois de ter sido campeão na premier league???

Ingratos!

Benfiquista Primário disse...

Que têm, Nuno? São umas putas que teimam em conspurcar os conceitos abstractos. Pensei que tinhas percebido à primeira.

Se precisares que repita outra vez, avisa.

Toni Casimiro disse...

"o futebol que eu gosto não ganhou, por isso vou fazer um post no meu blog para que fique claro que não deveria ter sido assim, o bom futebol teria ganho, se as equipas que jogam o bom futebol não estivessem de férias e não os neanderthais do lester"

o teu blog está-se a tornar aborrecido, parecem mais desculpas para negar o evidente: que há diferentes formas jogar e de ganhar.

Toni Casimiro disse...

"esqueci-me de dizer, eu sou o Nuno e o mais perto que estive de treinar futebol de alta competição foi ter visto o guardiola das bancadas. por essa razão a minha opinião é mais qualificada do que o gajo do lester"
Não é, Nuno. Devias reconhecer que o Ranieri que realmente treinou (e ganhou) sabe mais desta merda do que tu. Desculpa estar a salientar o evidente, mas tenho impressão que vives iludido, não consigo resistir.

Honoris disse...

https://gyazo.com/e88219e6c89493ac56a1c55a33ef442c

Nuno, uma vez que esse meu comentário não foi aceite no lateral esquerdo, deixo-te o aqui para me responderes. Tenho curiosidade em perceber a maneira como olhas para o Napoles do Sarri.

Abraço

Nuno disse...

Benfiquista Primário diz: "Que têm, Nuno? São umas putas que teimam em conspurcar os conceitos abstractos. Pensei que tinhas percebido à primeira."

Certo. E o que é que eu tenho a ver com isso?

Toni Casimiro diz: "o teu blog está-se a tornar aborrecido"

Tens bom remédio.

"parecem mais desculpas para negar o evidente: que há diferentes formas jogar e de ganhar."

Claro que há. Assim como há maneiras melhores e maneiras piores.

"Devias reconhecer que o Ranieri que realmente treinou (e ganhou) sabe mais desta merda do que tu."

Desculpa desiludir-te, mas acho mesmo que não sabe. Sabe mais de processos de treino, sabe melhor como lidar com um balneário, e sabe de certeza muitas outras coisas. Tenho sérias dúvidas de que saiba assim tanto do jogo.

"Nuno, uma vez que esse meu comentário não foi aceite no lateral esquerdo, deixo-te o aqui para me responderes. Tenho curiosidade em perceber a maneira como olhas para o Napoles do Sarri."

Honoris, tinha pensado escrever um texto sobre o Nápoles nas últimas semanas, mas não consegui arranjar tempo. A ver se ainda esta semana o faço. Respondendo, acho que no Nápoles existe bastante liberdade posicional. É uma das suas virtudes, aliás. Mas a grande virtude é mesmo, a meu ver, o jogo interior da equipa. É dos melhores da Europa. Estão sempre à procura de meter um passe vertical. É pena que, individualmente, sejam tão inferiores à Juventus.

Pedro Marques disse...

Nuno...

A malta do lateral esquerdo não deixa que questione os teus conhecimentos(a moderação de comentários pelos vistos anda hipersensível) então coloco aqui uma questão em relação ao que lá escreveste a propósito do Barça de Luís Enrique. Referes que...

"O 442 clássico não permite pressionar tão alto quanto, por exemplo, o 433, sem que, em simultâneo, a solidez defensiva fique comprometida"

Qual a limitação de um 442 clássico (com 2 avançados ao centro para pressionar alto) relativamente a um 433 onde normalmente só lá fica o Ponta de Lança com os Extremos a baixarem para uma segunda linha de pressão ou de organização defensiva? E se forem os 3 pressionar alto porque é que isso afeta menos a solidez defensiva do que os 2 avançados do 442 clássico?

Nuno disse...

Pedro, não sei o que se passou com os comentários. O meu ponto é o de que os sistemas de jogo não permitem todos o mesmo tipo de pressão. Se a posição relativa dos jogadores é diferente, é natural que a pressão seja diferente. Admitindo que essa pressão não é feita ao homem (se for, não interessa propriamente o sistema de jogo), o 442 clássico permite um tipo de pressão diferente do 433. Concretamente a respeito do pressing, o 442 clássico é mais eficaz a pressionar verticalmente. Isto porque a pressão é efectivada por quatro homens no meio, em duas linhas (os dois da frente cobertos pelos dois médios centro). O 433 não garante este tipo de eficácia tão bem justamente porque só a efectiva com 3 homens (o médio defensivo é responsável pela cobertura dos dois médios que efectivam a pressão). Por outro lado, o 433 é mais eficaz a pressionar para fora, horizontalmente. Isto porque efectiva a pressão junto à linha com mais um homem (o avançado, o extremo, um interior, e o médio defensivo) do que o 442 clássico (um dos avançados, o médio ala e um dos médios centro). Além disso, os dois modelos permitem ainda outras coisas: o 442 clássico permite defender com mais eficácia a largura (sendo por isso mais adequado quando se opta por um pressing baixo) e o 433 permite defender com mais linhas (sendo por isso menos perigoso em pressing alto. Um pressing alto, em 442 clássico, deixa necessariamente espaço entre linhas. A menos que só lá vão os avançados. E isso já não é pressing. É só iniciativa própria. Em pressing alto, vão lá os 2 avançados e vai lá logo a cobertura deles, que neste caso é toda a linha média. Como a linha defensiva não pode estar colocada depois de meio-campo, abre-se naturalmente um buraco entre ela e a linha média. Num 433, há pelo menos uma linha a mais, logo o espaço entre linhas tende a ser menor. E, como tal, o pressing alto não compromete tanto a solidez defensiva da equipa.

Pedro Marques disse...

Nuno... discordando de muito do que escreves (embora apreciando o mesmo tipo de modelo de jogo - só não sou apologista de que há modelos melhores independentemente do contexto) não posso deixar de elogiar a política de livre contraditório do teu blogue. Por isso mesmo as tuas caixas de comentários ao contrário do que acontece no atual LE ainda vão sendo um espaço de discussão/entretenimento).

Em relação a este tópico permite-me discordar.

Qualquer equipa que na primeira linha de pressão tenha 2 jogadores vai conseguir pressionar mais alto e com mais eficiência do que uma equipa que tenha lá apenas o PL. Isto porque os centrais com a ajuda do GR ou do Médio Defensivo se quiserem circulam a bola até ao PL deixar de condicionar o quer que seja. A alternativa é colocar os Alas a ajudar nesta pressão mas isso normalmente facilita imenso o passe vertical (interior ou exterior) pois apenas sobram 3 na linha intermédia o que vai deixar buraco de certeza.

"Um pressing alto, em 442 clássico, deixa necessariamente espaço entre linhas".

Não necessariamente. Isto porque ao mesmo tempo que um dos avançados pressiona o Central do seu lado o outro avançado baixa ligeiramente em cobertura dificultando o passe vertical no espaço entre os 2 avançados. Se sair passe Central-Central o jogador em cobertura vai pressionar, baixando ligeiramente o outro. Claro que nem todos os PLs têm disponibilidade física e mental para isto. Por exemplo Rodrigo e Lima faziam isto muito bem com o JJ no SLB como o poderão fazer agora Soares e André Silva.

De resto existe muita variabilidade nos modelos de organização defensiva e nada impede uma equipa de atacar em 433 e defender com duas linhas de 4 mais 2 na frente. Aliás o Ronaldo começou a fazer mais golos a partir do momento em que (ainda no Manchester e ainda claramente como Ala a atacar) deixou de defender como Ala e passou literalmente a descansar na linha da frente à espera de um contra-ataque. E sim com "estrelas" na linha da frente o 442 clássico não permite pressionar ninguém e o melhor mesmo é baixar bloco para evitar males maiores.

Nuno disse...

Pedro Marques diz: "Qualquer equipa que na primeira linha de pressão tenha 2 jogadores vai conseguir pressionar mais alto e com mais eficiência do que uma equipa que tenha lá apenas o PL."

Pedro, eu a isso não chamo pressionar. Chamo ir lá chatear os adversários. Quando me refiro a "pressionar", estou a pensar naquilo que os onze jogadores fazem ao mesmo tempo. É natural que dois avançados consigam pressionar melhor do que um os centrais adversários, mas não era a isso que me estava a referir.

"A alternativa é colocar os Alas a ajudar nesta pressão mas isso normalmente facilita imenso o passe vertical (interior ou exterior) pois apenas sobram 3 na linha intermédia o que vai deixar buraco de certeza."

Isto é um bocado redutor. Há só 3 na linha intermédia, mas por outro lado há 1 médio-centro a mais do que no 442 clássico. Ou seja, no centro até há mais gente. E, geralmente, um meio-campo com três médios não defende na mesma linha, pelo que conseguem ocupar mais espaço em profundidade. Seja como for, nada disto faz sentido. Estás a dividir o teu pensamento de forma sectorial, como se o trabalho de pressing de um sector não tivesse nada a ver com o dos outros. E não é assim que funciona.

"Isto porque ao mesmo tempo que um dos avançados pressiona o Central do seu lado o outro avançado baixa ligeiramente em cobertura dificultando o passe vertical no espaço entre os 2 avançados. Se sair passe Central-Central o jogador em cobertura vai pressionar, baixando ligeiramente o outro."

Isto que estás a descrever não é pressão. É o trabalho defensivo dos dois avançados, de cortar linhas de passe para impedir a ligação entre a primeira e a segunda fase de construção do adversário. E esse trabalho é relativamente simples de superar, se a linha média não estiver próxima dos dois avançados. Basta trazer outro médio para receber nas costas desses avançados. Se isso acontecer, a cobertura dos avançados tem de aproximar. O problema é que a aproximação dessa cobertura implica a aproximação de toda uma linha de 4 jogadores. A menos, lá está, que a aproximação seja feita por um único homem. E nesse caso não estamos a falar propriamente de pressing, mas de perseguição ao homem. Para que a pressão dos 2 avançados não seja infrutífera, a linha média tem que pressionar também muito alto e tem de fazê-lo enquanto linha média. Ou seja, se os avançados estiverem a poucos metros da área adversária, no espaço entre centrais e médios defensivos adversários, a linha média tem de pressionar a meio do meio-campo adversário, sensivelmente. Como não há mais nenhum jogador entre essa linha e a linha defensiva, que tem de estar no máximo na linha de meio-campo, cria-se um buraco de 20/25 metros. É a esse espaço que me refiro.

LyricalGhost disse...

Muito bons estes últimos comentários sobre o pressing, Nuno!

E já que até vem no contexto do que disseste aí no fim, sobre a linha defensiva ter de estar no máximo na linha do meio-campo, o que acharias de uma mudança na Lei do Jogo que determinasse que passaria a existir fora-de-jogo no campo todo, e não apenas a partir da linha divisória do meio-campo (também se poderia estender a lançamentos laterais e pontapés de baliza, mas isso parece-me menos relevante para a discussão)? Achas que podia ser positiva para a evolução do jogo? Por acaso há uns tempos estive a discutir isso, e gostava de saber a tua opinião...

Nuno disse...

Acho que não seria positivo. Se as equipas pudessem passar a colocar a linha defensiva, por exemplo, à saída da área adversária, creio que isso iria potenciar a estratégia do autocarro (os defesas iriam ser todos empurrados para trás), assim como iria potencia as correrias de um lado ao outro do campo. Parecendo que não, passava a ser a equipa que tem a bola a definir o posicionamento defensivo do bloco adversário. O futebol tornar-se-ia mais parecido com andebol.

César Vieira disse...

Nuno, lamento que tenhas optado por não responder.

Nuno disse...

César, a quê?

César Vieira disse...

Repito:
Listares os treinadores vencedores na época passada e em primeiro neste momento aos quais reconheces mérito (diferentes tipos de mérito se for o caso), nas principais ligas europeias (Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália) e Portugal.

Benfiquista Primário disse...

O que é que tu tens a ver com isso, Nuno? Tudo, mas mesmo tudo. Aliás, até acho que a minha afirmação é um bom resumo deste teu blog.

Talvez um dia percebas...

Nuno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

César, sabes o que penso do Guardiola. Tirando isso, reconheço mérito ao Luis Enrique, ao Conte, ao Ancelloti, ao Leonardo Jardim e ao Blanc. Não reconheço grande mérito nem ao Allegri nem ao Ranieri, e não consigo imputar grandes méritos, tirando à forma como a linha defensiva do Benfica se comporta, ao Rui Vitória. Sobre o Zidane, ainda não tenho uma opinião fixa. Para já, não posso dizer que a minha opinião seja positiva. Dito isto, nenhum desses 5 aos quais reconheço mérito me enchem as medidas. O que não é, necessariamente, mau, dado que se contam pelos dedos os treinadores que considero especiais, neste momento.

Benfiquista Primário, não sei qual é a tua intenção quando te referes às circunstâncias. E, como tal, não sei o que tenho a ver com isso.

César Vieira disse...

Nuno, obrigado.

Entendes que é muito diferente dizeres que não reconheces grande mérito ao Ranieri, como agora disseste, do que dizer que não consegues dar mérito ao homem.

Assim como, teres escrito o que escreveste do Benfica do Vitória, em determinada altura, teres quase que um apagão de comentários sobre o Benfica e dizeres agora que não consegues dar grande mérito ao Benfica, exceto no comportamento da linha defensiva.

O mesmo aconteceu no passado no, penso que, primeiro debate que tive contigo sobre o Luis Enrique, onde não lhe davas mérito em nada e afinal até lhe reconheces algum.

Eu não sou, em primeiro lugar, dono da interpretação, e, em segundo lugar, polícia da coerência, mas, acho importante salientar este tipo de pormenores, por errada que seja a minha interpretação, a uma pessoa que, pela forma como escreve, parece valorizar a coerência. Não a coerência do burro que não muda de ideias mesmo que os factos mudem, mas a coerência de quem procura ter uma argumentação sustentada. Dito isto, acredito que é por se extremar a argumentação desviando por vezes até um pouco a mesma relativamente ao que se pensa de facto para enfatizar, que se validam aparecimentos de extremos maiores e mais radicais.

Sobre o atual momento do Guardiola, pensas escrever algo mais em breve?

César Vieira disse...

E,
Quais os treinadores que consideras especiais neste momento?

Nuno disse...

"Entendes que é muito diferente dizeres que não reconheces grande mérito ao Ranieri, como agora disseste, do que dizer que não consegues dar mérito ao homem."

Não, não entendo. Não lhe reconhecer grande mérito, na minha língua, é igual a não conseguir dar-lhe mérito.

"Assim como, teres escrito o que escreveste do Benfica do Vitória, em determinada altura, teres quase que um apagão de comentários sobre o Benfica e dizeres agora que não consegues dar grande mérito ao Benfica, exceto no comportamento da linha defensiva."

Assim que o Lisandro começou a jogar, depois da lesão do Luisão contra o Sporting, a linha defensiva do Benfica passou a jogar mais subida. Apercebi-me disso imediatamente e referi isso, pelo menos em caixas de comentários. Como deves compreender, demorei algum tempo até atribuir esse comportamento ao trabalho do Rui Vitória, sobretudo porque com o Luisão aquilo funcionava de modo diferente. Mas rapidamente percebi que, nesse aspecto, tinha de ter algum mérito.

"O mesmo aconteceu no passado no, penso que, primeiro debate que tive contigo sobre o Luis Enrique, onde não lhe davas mérito em nada e afinal até lhe reconheces algum."

Está boa. Tu nem sequer sabes em que é que eu acho que o Luis Enrique tem mérito, mas tens a certeza absoluta que achas que eu antes não lhe reconhecia mérito em nada. Aquilo que eu gosto no Luis Enrique é basicamente o que já gostava quando ele treinou a Roma: tem a escola do Barcelona, e gosta de um futebol de um determinado estilo. Tem o mérito de querer implementar isto.

Tens mais alguma incoerência, ou podemos concluir que não há nenhuma?

"Sobre o atual momento do Guardiola, pensas escrever algo mais em breve?"

O que entendes por momento actual?

"Quais os treinadores que consideras especiais neste momento?"

Guardiola, Pochettino, Sarri e Sampaoli. Gosto do Tuchel, mas acho que é demasiado obcecado com posicionamentos ofensivos e isso retira um pouco de brilhantismo e criatividade à sua equipa. Preciso de ver melhor o Eusebio e gostava de ver o Paco Jémez noutro contexto. Depois há treinadores de que gosto pelo que apresenta em termos ofensivos (que para mim continua a ser o que diferencia os melhores) mas aos quais reconheço muitas deficiências sobretudo a nível de processos defensivos: Wenger e Bielsa.

César Vieira disse...



Nuno,

Na "tua língua" pode ser igual, mas não conseguir dar mérito a uma pessoa, ou seja, não se dar mérito algum a essa pessoa, não será igual a não reconhecer grande mérito, ou seja, algum mérito, por pequeno que seja, poderá essa pessoa ter.

Achas que, além desse aspeto, o Vitória não tem mérito em mais nada?

Sobre o Luis Enrique eu não disse que antes não lhe reconhecias mérito, disse sim que naquele que penso ter sido o meu primeiro debate contigo não deste qualquer mérito ao Luis Enrique e que depois até lhe reconheces algum.
Aliás, houve um momento intermédio no passado em que eu te disse o seguinte é diferente dizeres que o Luis Enrique tem alguns méritos quando antes me tinhas dito que as conquistas que teve no Barcelona dependiam do que veio de trás e das contratações. Tu até reconheceste na altura que realmente pode ser diferente.

Poderia falar de mais incoerências, mas não vêm, para já, ao caso.

Quando digo momento atual do Guardiola, refiro-me à adaptação ao futebol inglês. Afinal já escreveste sobre alguns desacordos que tens relativos a abordagens que ele tem tido e achava interessante atualizares a (re)contextualizares isso nesta fase, antes da reta final do campeonato.

Obrigado por listares os treinadores especiais, para ti. O que faltará a alguns deles, ou a quem decide contratações de treinadores, para serem convidados para o nível seguinte?

Nuno disse...

César Vieira diz: "Na "tua língua" pode ser igual, mas não conseguir dar mérito a uma pessoa, ou seja, não se dar mérito algum a essa pessoa, não será igual a não reconhecer grande mérito, ou seja, algum mérito, por pequeno que seja, poderá essa pessoa ter."

Enfim...

"Achas que, além desse aspeto, o Vitória não tem mérito em mais nada?"

Em termos tácticos, que é o que me interessa, é a única coisa que não me parece banal. Pode ser uma excelente pessoa, e ter uma boa relação com os jogadores, e isso pode ter importância. Mas isso não me compete a mim avaliar. Nem sei fazê-lo.

"Sobre o Luis Enrique eu não disse que antes não lhe reconhecias mérito, disse sim que naquele que penso ter sido o meu primeiro debate contigo não deste qualquer mérito ao Luis Enrique e que depois até lhe reconheces algum."

Estás a misturar mérito absoluto com mérito relativo. Sempre reconheci mérito ao Luis Enrique, pelas razões aditadas acima. O que posso ter dito é que não tinha mérito nenhum no sucesso que teve naquele ano, ou seja, mérito relativo a uma determinada coisa. É uma discussão completamente diferente. Há pessoas que têm alguns méritos no que fazem, mas cujo sucesso não se explica por isso.

"Poderia falar de mais incoerências, mas não vêm, para já, ao caso"

Podias tentar.

"Quando digo momento atual do Guardiola, refiro-me à adaptação ao futebol inglês. Afinal já escreveste sobre alguns desacordos que tens relativos a abordagens que ele tem tido e achava interessante atualizares a (re)contextualizares isso nesta fase, antes da reta final do campeonato."

Escrevi sobre isso no Lateral Esquerdo e, pouco depois, as coisas mudaram. Coincidiu com a utilização do Yaya Touré a médio-defensivo. Neste momento, o City é novamente uma equipa à Guardiola. Já vai tarde, a meu ver, para ganhar o campeonato esta época, mas está bem melhor. Aqueles dois meses finais de 2016 foram muito maus e acho que atrasaram a evolução da equipa, mas, como antecipei nesse texto, creio que serviram para o Guardiola aprender com os erros.

"Obrigado por listares os treinadores especiais, para ti. O que faltará a alguns deles, ou a quem decide contratações de treinadores, para serem convidados para o nível seguinte?"

Salvo raras excepções, os treinadores são contratados pelos resultados que apresentam. Não é por serem muito bons que se fala no Sampaoli para o Barça, ou no Sarri para o Milan. Têm apresentado resultados recentemente. Basta uma época em que não apresentem resultados para se duvidar logo das competências deles.

Honoris disse...

Nuno, já viste alguma coisa do Las Palmas? Que te parece a organização ofensiva deles?

Miguel Pinto disse...

Pouco percebo de futebol mas se fosse dirigente de um clube grande escolheria um treinador como o Luis Castro ou o Miguel Leal do que Ranieri, precisamente pela forma como vejo o jogar das suas equipas. No caso do Rio ave (tenho visto alguns jogos na TV) nota-se que o treinador teve influência directa na abordagem ao jogo pelos seus jogadores, independentemente dos resultados por vezes não corresponderem ao futebol praticado pela equipa.
De qualquer maneira Ranieri merecia pelo menos continuar até ao final da época.
Deixo-te uma pergunta: até que ponto consideras, ou não, que a forma como os elementos de uma equipa técnica se relacionam entre si e a cumplicidade que se cria com os jogadores poderá ter influência no desempenho destes no jogo? Consegues perceber se existe alguma diferença perceptível nesse sentido entre a equipa técnica do SCP e a do SLB face ao discurso adoptado até hoje pelos líderes respectivos, JJ e RV?

Abraço e parabéns pela crónica no Record, que seja a primeira de muitas, tu e o Pedro Bouças são uma lufada de ar fresco.

César Vieira disse...

Sim, claro, há também sempre a hipótese de não se assumirem incoerências. Umas vezes tenho paciência para continuar a explicar, como já fiz várias vezes, outras vezes não tenho. Hoje, sobre incoerências, fico por aqui.
 
Não me parece que este seja um City totalmente à Guardiola. O Guardiola tentou um City à Guardiola, não estava a funcionar, ajustou demasiado, voltou a ter problemas e reajustou de forma intermédia e parece ter finalmente alguma tendência a estabilizar. Os resultados serão outra questão que a prazo vão ditar o sucesso ou insucesso do Guardiola no City - o nível dele é esse, o de se exigirem resultados.
Por muito que não se goste do jogar do campeonato inglês, os treinadores não britânicos, quando chegam, passam um mau bocado com a forma como a meio da tabela se jogam os jogos pelos jogos, na profundidade, nas tentativas de bolas nas costas, etc, contra qualquer adversário. É difícil assentar o jogo e há sempre compromissos entre a forma que o treinador recém chegado realmente gostaria e a que acaba por considerar viável.
A pressão vem dos próprios adeptos que insistem que querem ver o que consideram ser o bom jogo e os próprios árbitros acabam por ter posições que ajudam quem joga daquela forma.
Ora, posso até não gostar, podes tu não gostar, o resto do mundo pode não gostar. Sendo certo que, quanto mais treinadores não britânicos vão para lá, mais influenciam, aos poucos, o futebol que lá se pratica, mas também são influenciados. O nosso gostar ou não gostar é praticamente irrelevante para a realidade de lá quando ainda por cima é sustentável financeiramente e também por isso atrativa para grandes treinadores. O futebol inglês é um produto vendido para todo o mundo via Commonwealth e não só. Gostando mais ou menos do futebol praticado, gosto pelo menos da capacidade de criarem e manterem razoavelmente e de forma bastante sustentável uma forte identidade.
 
Acho que os treinadores são contratados por vários motivos, alguns até porque ganharam em algum momento que não agora ou só porque têm um bom empresário.
A minha questão vai noutro sentido. Considerar treinadores aptos para o mais alto nível pelos aspetos técnicos que demonstram dominar, é redutor. Também, nisso há um compromisso entre aspetos técnicos e aspetos que traduzem a política dos clubes, a estratégia de visibilidade, a capacidade de manter uma forma de estar, mesmo que o jogar não seja o state of the art em aspetos técnicos, porque os resultados desmentem todos os dias que são os treinadores mais evoluídos tecnicamente que ganham, sendo que sem duvida alguma que o objetivo do futebol é ganhar.

Nuno disse...

Honoris diz: "Nuno, já viste alguma coisa do Las Palmas? Que te parece a organização ofensiva deles?"

Vi mal e porcamente. Não consigo formar uma opinião. Do que vi, gostei. Mas é pouco.

Miguel Pinto diz: "No caso do Rio ave (tenho visto alguns jogos na TV) nota-se que o treinador teve influência directa na abordagem ao jogo pelos seus jogadores, independentemente dos resultados por vezes não corresponderem ao futebol praticado pela equipa."

Também tenho gostado do que o Rio Ave tem apresentado.

"De qualquer maneira Ranieri merecia pelo menos continuar até ao final da época."

Depende. Percebo que haja uma dívida de gratidão, mas o que quer que tivesse funcionado muito bem na época passado já não estava a funcionar esta época. Imagina que chegaram à conclusão de que, afinal, o que aconteceu o ano passado não teve nada a ver com o Ranieri.

"Deixo-te uma pergunta: até que ponto consideras, ou não, que a forma como os elementos de uma equipa técnica se relacionam entre si e a cumplicidade que se cria com os jogadores poderá ter influência no desempenho destes no jogo?"

Pode ter influência, mas não sei como é que isso se mede. E, sobretudo, não consigo conceber esse factor como indissociável dos resultados. Quando se fala em "capacidade de liderança", como se fosse um atributo isolado e complementar, só me consigo rir. Ninguém é capaz de liderar ninguém se não convencer as pessoas que lidera, seja de que maneira for, das suas competências técnicas ou tácticas. A relação entre treinadores e jogadores é indissociável dos resultados que a equipa obtiver.

"Consegues perceber se existe alguma diferença perceptível nesse sentido entre a equipa técnica do SCP e a do SLB face ao discurso adoptado até hoje pelos líderes respectivos, JJ e RV?"

Não consigo medir essas coisas. Há jogadores que se dão melhor com treinadores abrutalhados, e há jogadores que se dão pior. Há equipas que só funcionam com pulso forte, e equipas que funcionam melhor com outro tipo de liderança. Depende de tantas coisas.

César Vieira diz: "Não me parece que este seja um City totalmente à Guardiola. O Guardiola tentou um City à Guardiola, não estava a funcionar, ajustou demasiado, voltou a ter problemas e reajustou de forma intermédia e parece ter finalmente alguma tendência a estabilizar."

Não concordo nada com isto. A única coisa, neste momento, que não é a cara do Guardiola é o guarda-redes. É a única coisa, neste momento, que se pode dizer que o Guardiola abdicou. E abdicou do Bravo sobretudo porque percebeu que há uma tendência em Inglaterra para não proteger os guarda-redes nos contactos dentro da pequena área. Ele queixou-se disso, aliás. Assim, optou por um guarda-redes mais robusto, ainda que menos competente com os pés. Tirando isso, o City está mais à sua imagem do que alguma vez esteve. O Yaya Touré é bem melhor que o Fernandinho, naquela posição, e o Aguero já consegue fazer aquilo que o Guardiola quer que o seu avançado faça muitas vezes: aparecer entre linhas para dar um apoio vertical. Nesses dois aspectos, por exemplo, o City está muito melhor do que no início da época. O Guardiola tentou implementar as suas ideias, e elas estavam a funcionar, ao contrário do que dizes. Mas teve algumas lesões, perdeu alguns apesar de dominar, foi pressionado, e deu o braço a torcer. E isso é que foi fatal. Andou ali 2 meses a tentar jogar à inglesa, e a equipa não desenvolvia. Com a expulsão de Fernandinho, puxou o Yaya Touré para trás e voltou a assumir um meio-campo com o Silva e o De Bruyne. E isso fez toda a diferença. Hoje o City é muito mais competente a gerir a posse, muito mais seguro a construir de trás e a controlar os momentos do jogo. Continua a ter alguns defeitos. O Sterling não é nada. Mas é hoje muito mais à imagem de Guardiola.

Nuno disse...

"Por muito que não se goste do jogar do campeonato inglês, os treinadores não britânicos, quando chegam, passam um mau bocado com a forma como a meio da tabela se jogam os jogos pelos jogos, na profundidade, nas tentativas de bolas nas costas, etc, contra qualquer adversário. É difícil assentar o jogo e há sempre compromissos entre a forma que o treinador recém chegado realmente gostaria e a que acaba por considerar viável."

Passam maus bocados quando? O Guardiola não passou maus bocados. Empatou com o Everton e com o Middlesborough, e perdeu com o Chelsea. Como pelo meio teve a derrota para a taça da Liga com o United (num jogo em que o Guardiola apresentou uma equipa alternativa) e os dois jogos da Champions com o Barça, as pessoas começaram a dizer que aquilo estava a correr mal porque em Inglaterra o jogo é muito diferente. Desses maus resultados, só um é que foi com uma equipa que se pode dizer que joga à britânica. O Conte chegou a Inglaterra, tentou ser inglês, e estava a correr mal. Quando passou a jogar como sempre jogou é que as coisas começaram a correr bem. O Pochettino foi altamente criticado, na primeira época no Tottenham. Primeiro que convencesse as pessoas de que era preciso jogar de maneira diferente... Mas conseguiu. Impôs o seu estilo, e hoje consegue que o Tottenham, com um orçamento muito inferior às principais equipas, esteja ao nível delas. O que estás a dizer é um mito. Os treinadores, para terem sucesso em Inglaterra, não precisam de chegar a quaisquer compromissos. Precisam de insistir nas suas ideias, resistir às críticas e suportar a adversidade da mentalidade britânica. Poderão perder jogos por causa do estilo de futebol que se joga em Inglaterra, mas as vantagens compensam amplamente essas derrotas pontuais. Concordo contigo quando dizes que os adeptos fazem pressão para ver outra coisa, e que os árbitros acabam por ajudar, muitas vezes, a que o estilo britânico cause desconforto. Mas acho que funciona precisamente ao contrário. Sujeitos a essas pressões, muitos treinadores que lá chegam acabam por ceder a esse estilo antes mesmo de tentarem impor o seu. Quando o conseguem impor, porém, é que têm sucesso e se destacam. Tirando o Ferguson, os treinadores de maior sucesso em Inglaterra nos últimos foram estrangeiros que impuseram estilos muito pouco britânicos. É o caso do Wenger e do Mourinho, por exemplo. Os que não o fizeram ou não tiveram sucesso ou tiveram um sucesso pontual.

"Considerar treinadores aptos para o mais alto nível pelos aspetos técnicos que demonstram dominar, é redutor."

Eu não tenho dúvidas de que os treinadores não são contratados apenas pelas suas competências. Assim como não tenho dúvidas de que deviam sê-lo.

César Vieira disse...

Podes até querer discordar quando digo que este não é um City totalmente à Guardiola (não vejo por exemplo a forma de gerir a largura e circulação em organização ofensiva nos últimos metros), mas dizeres agora que o Guardiola não passou maus bocados quando tu próprio já falaste deles… para além disso está, em qualquer caso, muito aquém dos objetivos que terá aceite e com várias oscilações e hesitações pelo meio, maus bocados portanto.

“Eu não tenho dúvidas de que os treinadores não são contratados apenas pelas suas competências. Assim como não tenho dúvidas de que deviam sê-lo.”
Depende a que competências te referes vs as opções de perfil que cada clube define.
Em muitos clubes grandes, o treinador principal ou o manager é isso mesmo, mais gestor e menos coach, é um frontman de uma equipa técnica. Os conhecimentos técnicos profundos e de sistematização em alguns grandes clubes podem estar no(s) adjunto(s).
Dito como dizes, parece que todos os clubes têm que querer um coach e não um manager e isso não funciona assim em muitos clubes porque há vários modelos de gestão que podem conduzir ao sucesso e não apenas um.

César Vieira disse...

Ainda sobre os compromissos,
Entendo o que dizes sobre o Pochettino, sobre o Conte, etc. Mas discordo que o trabalho que fazem não tenha compromissos com a realidade de lá. Os sinais, além de estarem no futebol jogado estão nas conferências de imprensa onde muitas vezes falam disso mesmo.
Claro que também prefiro ver a tentativa de impor ideias e o chegar assim, com compromissos, ao sucesso.
O que vejo é que escrevi, quanto mais treinadores não britânicos vão para lá, mais influenciam, aos poucos, o futebol que lá se pratica, mas também são influenciados. Ou seja, não é só uma coisa nem sobre outra e o resultado é uma evolução.

César Vieira disse...

O meu último parágrafo tem alguns erros que podem confundir. Correção:

O que vejo é o que escrevi, quantos mais treinadores não britânicos vão para lá, mais influenciam, aos poucos, o futebol que lá se pratica, mas também são influenciados. Ou seja, não é só uma coisa nem só a outra e o resultado é uma evolução.

Nuno disse...

César Vieira diz: "Podes até querer discordar quando digo que este não é um City totalmente à Guardiola (não vejo por exemplo a forma de gerir a largura e circulação em organização ofensiva nos últimos metros),"

César, o que é um City totalmente à Guardiola? Se a equipa é tão competente como devia a jogar desta maneira? Não. Falha em alguns momentos, não tem tanta confiança como podia, não é capaz de fazer as coisas ainda com a perfeição devida, etc. Mas as intenções estão lá todas. Nesse sentido, é tão à Guardiola quanto poderia ser. No que o Guardiola pode fazer, a equipa é, neste momento, uma equipa à Guardiola. Não o foi durante 2 meses, é verdade, e eu critiquei isso. E acho que esses 2 meses atrasaram o processo de evolução da equipa. Mas, neste momento, é uma equipa à Guardiola. Tanto quanto poderia ser. Nos últimos metros, por exemplo, é até mais à Guardiola do que em alguns momentos o Bayern do Guardiola.

"mas dizeres agora que o Guardiola não passou maus bocados quando tu próprio já falaste deles…"

Eu falei deles?? Eu não sei se fazes isto de propósito, ou se não percebes o que eu digo. Eu falei dos 2 meses em que o Guardiola abdicou das suas ideias. E critiquei esse City. O Guardiola abdicou de algumas das suas ideias porque a pressão foi enorme, não porque tivesse passado maus bocados. E nunca porque tivesse passado maus bocados por causa do futebol inglês. Como te expliquei acima, essa pressão foi exercida por causa de uma sequência de vários jogos nos quais os resultados não foram os melhores. Mas esses jogos não foram contra equipas inglesas, que jogassem à britânica, pelo que a ideia de que passou maus bocados por causa do futebol inglês é falsa. Eu nunca falei em maus bocados. Mas tu, como é hábito, estás tão obcecado em denunciar as minhas incoerências que ahcas que sim.

"Para além disso está, em qualquer caso, muito aquém dos objetivos que terá aceite e com várias oscilações e hesitações pelo meio, maus bocados portanto."

Está. Fui dos primeiros a referi-lo. E, a meu ver, está precisamente porque não foi persistiu o suficiente nas suas ideias. Aqueles dois meses em que cedeu às pressões, e decidiu jogar um pouco mais à britânica, foram fatais. Como também antecipei, o Guardiola percebeu isso, e entretanto a equipa melhorou muito. Já foi tarde, sobretudo porque o Chelsea está muito confiante e não está nas provas europeias, e já não vai a tempo de ser campeão. Mas ainda vai a tempo de salvar o apuramento para a Champions. A prioridade, seja como for, é a preparação da época seguinte, neste momento.

Nuno disse...

"Dito como dizes, parece que todos os clubes têm que querer um coach e não um manager e isso não funciona assim em muitos clubes porque há vários modelos de gestão que podem conduzir ao sucesso e não apenas um."

Acho que não sei bem do que estás a falar quando falas em "coach" e "manager".

"Entendo o que dizes sobre o Pochettino, sobre o Conte, etc. Mas discordo que o trabalho que fazem não tenha compromissos com a realidade de lá. Os sinais, além de estarem no futebol jogado estão nas conferências de imprensa onde muitas vezes falam disso mesmo."

Como assim? Que sinais são esses? O Conte chegou a Inglaterra e não quis formatar a equipa logo para o seu 343. As coisas correram mal e foi quando decidiu que não tinha nada a perder e adoptou as suas ideias que as coisas começaram a correr bem. O Pochettino, na primeira época, foi criticadíssimo por causa do excesso de jogo interior que promovia. Os resultados demoraram a aparecer, mas ele persistiu nas suas ideias e hoje o Tottenham está num patamar em que não estava antes. Não vejo mesmo em que medida é que o Chelsea do Conte e o Tottenham do Pochettino estão comprometidos com o futebol tipicamente britânico.

"O que vejo é o que escrevi, quantos mais treinadores não britânicos vão para lá, mais influenciam, aos poucos, o futebol que lá se pratica, mas também são influenciados. Ou seja, não é só uma coisa nem só a outra e o resultado é uma evolução."

Eu não acho nem que os treinadores sejam influenciados pelo futebol britânico nem que o futebol britânico seja influenciado por eles. Estou, claro, a falar dos melhores treinadores. Os melhores treinadores mantém-se imunes àquelas ideias retrógradas, e aquelas ideias retrógradas, quando esses treinadores partirem, regressam rapidamente às equipas onde eles se encontram.

César Vieira disse...

O nosso desacordo é que tu consideras que agora sim o Guardiola está a implementar as suas ideias e eu acho que são ideias adaptadas. Serão de facto as ideias, as suas ideias atuais no contexto, depois de oscilações, etc.
No Bayern também adaptou ideias (nos últimos metros especialmente, como bem dizes e como agora, de forma diferente) e acredito que assim irá acontecer em todas as novas realidades por onde possa vir a passar. O conhecimento dele não ficou definido lá atrás, é evolutivo e obviamente que os contextos por onde passa lhe trazem novos desafios e novas aprendizagens que moldam as ideias que tinha antes. Os contextos incluem a realidade do futebol em torno bem a sua interpretação das capacidades dos jogadores que ele tenha em cada momento.

Sim, falaste. Aliás, estarmos a falar sobre este percurso do City é também falar disso mesmo. Acreditas mesmo que aquilo a que chamas algo como 'os dois meses em que o Guardiola pôs o City a jogar à Inglesa' são a única explicação para o grande desvio atual do City relativamente aos objetivos que o Guardiola aceitou? Queres mesmo considerar que só aí o Guardiola se desviou das suas ideias e assim circunscrever os problemas do City do Guardiola a esse período e dessa forma justificar o desvio dos objetivos?
Eu não faço de propósito estar em desacordo contigo, apenas estou.
Se estivesse obcecado em denunciar as tuas incoerências não me colocaria da forma como estou nesta conversa.

Relativamente aos perfis de treinadores, o que digo, dando exemplos que me parecem óbvios e fáceis, é que um treinador com perfil mais técnico, tipo Jorge Jesus, é muito diferente de um treinador com perfil de gestão, como o Alex Fergunson. Uns clubes querem uns tipos de perfil, outros querem outro. Aferir e comparar a competência de perfis semelhantes já é complicado, aferir e comparar a competência de perfis muito diferentes é muito mais complicado.

Achas que estás na cabeça do Conte para poderes dizer que quando as coisas lhe correram mal foi quando decidiu que não tinha nada a perder?
Tal como o Guardiola assume que se tem adaptado, o Conte assume que se tem adaptado, o Pochettino também, etc, etc. Não estou a falar de resignação relativa às ideias vigentes, estou a falar de adaptação das suas ideias a uma nova realidade e isso são compromissos com a realidade de lá.
Será que só tu não ouves estes treinadores a assumirem adaptações ao futebol inglês? Ao futebol inglês, ao alemão e a todo o que tenha uma identidade forte, um nível competitivo intenso e capacidade financeira suficiente para atrair jogadores e treinadores de qualidade.

cobra2 disse...

Compreendo donde vem a tua ideia, no entanto não se pode dissociar a componente psicológica da componente técnica, tática e estratégica. O Ranieiri teve mérito de aproveitar o momento e conseguir motivar a equipa de que ser campeão podia acontecer, tanto que aconteceu. Se gosto do futebol que praticam? Não, mas se os outros não conseguiram fazer melhor, significa que ele soube ter essa visão, pelo menos na minha opinião. De facto futebol que implementa não dá frutos regularmente, mas deu para dar um campeonato a um clube que achava isso uma realidade quase impossível e com um plantel inferior a pelo menos 6 equipas.