quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A Criatividade de Pizzi, o Discernimento de William e a Vox Populi

Não há decerto muitos assuntos que mereçam tanta atenção, neste blogue, como a estupidez generalizada do adepto de futebol. Essa estupidez manifesta-se de muitos modos (em comentários em estádios de futebol, em comentários entre amigos, em comentários online), e grassa geralmente entre aqueles que não têm espírito crítico, que alinham as suas opiniões pelas da maioria e nem sequer se apercebem disso. É por isso natural que tais pessoas não percebam a qualidade de alguns dos melhores jogadores, do nosso campeonato ou de outro campeonato qualquer. Para tanto, basta que tais jogadores não façam aquilo que mais agrada às massas, ou que se distingam por qualidades que as massas, enoveladas na simplicidade da sua própria estupidez, não reconheçam como qualidades. Jogadores que não corram sempre a mil à hora, seja ou não preciso, que não disputem cada lance como se fosse um caso de vida ou morte, que não se livrem da bola assim que a recebem, que não joguem em função de um padrão de decisões previamente estabelecido, condizente com as expectativas mais básicas dos adeptos, mas unicamente em função das circunstâncias, que não passem só por passar nem driblem só por driblar, que não façam, em suma, sempre aquilo que as bancadas exigem, são jogadores que as massas tendem a desvalorizar. Jogadores que pensam antes de agir, que procuram soluções diferentes, muitas vezes distintas daquelas que os adeptos identificam, que se expõem mais ao erro, pelo grau de exigência que assumem na procura de tais soluções, que se caracterizam mais pela velocidade de raciocínio e pela imaginação do que pela velocidade de pernas e pela entrega física, são jogadores a quem os adeptos não reconhecem a devida utilidade. E não o reconhecem unicamente porque, ao seu lado, há sempre mais adeptos que não lhes reconhecem essa utilidade. A estupidez é uma doença contagiosa.

Dois bons exemplos dessa estupidez são as opiniões generalizadas acerca de Pizzi e de William. Ainda que haja muita gente que, hoje em dia, lhes aprecia as qualidades (mal seria, se assim não fosse!), há muitos que ou os consideram relativamente banais ou acham que podiam ser melhores, se juntassem a tais qualidades algumas imprescindíveis que lhes faltam. Acerca dos primeiros, posso apenas lembrar que, desde que feito em condições de segurança, o suicídio é gratuito. A estupidez é, na maior parte dos casos, uma doença incurável, e assim sempre poupariam os ouvidos às pessoas saudáveis. Pizzi é o principal responsável - se não mesmo o único - pela actual liderança do Benfica. Em quase todos os jogos, têm sido dele as acções mais invulgares, os lances de maior génio. Fora as bolas paradas, e a qualidade invididual que abunda no plantel encarnado, tem sido o português a inventar os espaços, a ligar os sectores e a desorganizar as defesas contrárias. Do ponto de vista colectivo, tem sido destacadamente o jogador mais determinante do campeonato. Ao contrário do resto da equipa, cujas acções colectivas são do mais vulgar que pode haver, tudo o que Pizzi faz é feito em função de um benefício colectivo qualquer. Com e sem bola, é sempre uma parte de um todo antes de ser um jogador entre tantos, e quase tudo o que decide fazer é conforme àquilo que, no momento em que o faz, deveria de facto ser feito. Quando falha um passe ou perde uma bola, não o falha ou a perde geralmente nem por distracção, nem por uma má decisão; falha-o ou perde-a, isso sim, porque não o compreendem, porque queriam a bola no pé quando ele vira perfeitamente que era no espaço que ela deveria entrar, porque o colega que lhe devia dar a opção de passe não lha deu e ele teve de optar por uma de maior risco, ou de perder tempo à procura de outra, etc.. Enquanto um jogador normal (deixem-me utilizar o exemplo do André Horta, porque é muito bom do ponto de vista técnico e bastante inteligente) aproveita a desmarcação de um colega para lhe endossar a bola, assim dando continuidade à jogada como propõem os livros, Pizzi endossa-a de modo a que o colega fique em condições de fazer algo com ela a seguir (e não a endossa se perceber que, apesar de ser possível endossá-la, não há vantagem em fazê-lo). Como um xadrezista proficiente, não decide apenas em função das circunstâncias daquele exacto momento. Pelo contrário, pensa sempre por antecipação. Enquanto os outros vêem o que está a acontecer, e executam em função disso, ele levanta a cabeça, vê o que está a acontecer e imagina rapidamente o que vai acontecer a seguir. Quando entrega a bola a um colega, já percebeu quais as opções de passe que o colega vai ter quando a bola lhe chegar, e quais as possibilidades de êxito que terá; quando dá uma linha de passe e solicita a bola, já sabe que opções de passe terá quando a bola lhe chegar, e quais as condições de êxito de cada uma dessas opções. O melhor exemplo que conheço para ilustrar esta virtude, tão difícil de observar, é o segundo golo da Alemanha contra a Inglaterra, no mundial de 2010, do qual falei na devida altura. A forma como Thomas Müller, no momento em que toca na bola, antecipa toda a jogada, é exactamente aquilo que vejo Pizzi fazer frequentemente. Chamemos a essa virtude, como lhe chamei aquando desse texto, "criatividade". É essa criatividade que está na base do primeiro golo do Benfica contra o Braga, esta semana.



A maioria das pessoas concederá a Pizzi, nesse lance, a excelência técnica do apontamento de calcanhar. Eu acho que a virtude do lance está toda no modo como o transmontano, ao ocupar aquele espaço, entre o central, o lateral e os dois médios bracarenses, antecipa o desequilíbrio que tornará possível a situação de golo. Quando Pizzi invade esse espaço, não o faz apenas porque o lateral precisava de um apoio em quem soltar a bola; fá-lo porque, imaginando Gonçalo Guedes a ganhar vantagem sobre o lateral bracarense (como se haveria de verificar), sabe que, recebendo ali o passe, o pode redireccionar de imediato para a esquerda, assim criando um desequilíbrio imediato junto à faixa. Pode não antecipar toda a jogada, não antever que o central do Braga, ao aproximar-se de si no momento em que a bola lhe é passada, fará com que Gonçalo Guedes fique com espaço para ganhar a linha de fundo, mas também não ocupa o espaço, como a maioria dos jogadores, em quem a criatividade não abunda, apenas para que a bola lhe seja endossada. Quando Gonçalo Guedes atrasa a bola para Grimaldo, Pizzi tem já várias ideias acerca do que poderá fazer à bola quando ela lhe chegar (dominar e esperar pelo apoio, devolver de primeira ao lateral, ou colocar em Guedes na linha, etc.), e quando o espanhol se enquadra, algumas fracções de segundo depois, o transmontano já percebeu que a melhor decisão, das três acima mencionadas, será de facto jogar de primeira para Gonçalo Guedes, que entretanto ganhou a frente ao lateral. Pizzi antecipou o lance na medida em que ocupou antecipadamente um espaço cuja mera ocupação, no momento em que receber a bola, será decisiva para que o desequilíbrio se concretize. Ainda que, no momento em que decide ocupá-lo, o desequilíbrio não fosse evidente (era preciso que Gonçalo Guedes ganhasse a frente ao lateral bracarense e criasse aquela superioridade numérica, o que ainda não acontecera), a decisão de ocupá-lo contempla esse desequilíbrio futuro. Claro que, se tal desequilíbrio não se proporcionasse, a decisão a tomar, no momento em que recebesse o passe, seria outra. Mas o que está em causa é a capacidade de imaginar o desequilíbrio antes de ele acontecer. A criatividade é, antes de qualquer outra coisa, essa capacidade imaginativa. Pizzi faz uma leitura perfeita das circunstâncias, imagina o que ainda não aconteceu, e mexe-se em função daquilo que imaginou. Se, instantes depois, acontecer exactamente aquilo que antecipou que aconteceria, está em posição privilegiada para definir a jogada como pensou possível defini-la. O futebol de Pizzi é pensado como o pensam os melhores. Equaciona todas as possibilidades, mas imagina também o que vai acontecer de seguida. Num colectivo que esteja melhor trabalhado, com mais jogadores capazes de pensar bem à sua volta, será sempre mais influente do que é numa equipa que, colectivamente, é apenas o que os jogadores quiserem que seja. Apesar de continuar sem ser chamado à selecção, e de continuar a motivar assobios vindos das bancadas - por razões que só os seus detractores saberão - é, de longe, o melhor jogador português a actuar em Portugal. Já o era, aliás, o ano passado.

O caso de William Carvalho é parecido com o de Pizzi, mas mais fácil de explicar. O estilo pachorrento com que se desloca, a aparente falta de agressividade com que encara os duelos defensivos e o aparente desprezo com que efectua cada uma das suas acções transmitem a ideia de que não se esforça tanto quanto podia. E isso é algo que os adeptos, que vão ao estádio ou ficam agarrados ao televisor para ver quem está em campo a suar as estopinhas, não podem admitir. O crime de lesa-Majestade de William Carvalho, portanto, é o de conseguir fazer tudo bem dando a impressão de que, se quisesse, podia fazer ainda melhor. Nada mais falso. William faz bem o que faz porque o faz daquela maneira. O estilo é uma consequência da sua maneira de pensar o jogo. A pachorra, a pouca agressividade e o desprezo são indissociáveis da qualidade que coloca em cada jogada. Se se deslocasse mais rápido, se procurasse vencer os duelos individuais impondo o físico, se soltasse mais cedo e com mais afinco, não seria o jogador criterioso que é, nem teria o discernimento, a ponderação e a calma que lhe permitem jogar como joga. Um jogador de futebol não é um conjunto de atributos, aos quais se podem somar novos atributos de modo a melhorá-lo pela acumulação de atributos. Se William se modificasse e melhorasse naquilo que as pessoas julgam que pode melhorar, perderia as qualidades (pelo menos em parte) que fazem dele o jogador que é agora. Quando se pensa na pouca intensidade com que parece jogar, deve-se pensar no quanto essa pouca intensidade é parte do que ele é actualmente. A sua melhor qualidade é, a meu ver, o saber perfeitamente que é um ponto de partida (e não um ponto de chegada) da construção ofensiva. Como ponto de partida dessa construção, tem por missão descobrir a melhor linha de passe e fazer avançar o processo ofensivo, tão bem quanto possível, para uma segunda fase de construção. O critério com que decide é absolutamente fabuloso, e a exploração dos apoios verticais do melhor que há no mundo. William está sempre de olhos postos nos colegas que lhe estão à frente, no médio que se esconde temporariamente atrás da linha de pressão, no avançado que desce para tocar, no extremo que vem explorar o espaço interior. O modo como se concentra nas opções de passe que tem perto de si, ignorando provisoriamente as opções mais distantes, é fundamental para que o jogo interior do Sporting seja tão bom. É isso que lhe permite encontrar soluções que não as mais simples e seguras, dando a ilusão de que o faz com simplicidade e segurança. Raramente joga comprido, pelo ar, porque sabe que lhe compete apenas dar início a um processo de construção necessariamente elaborado, porque sabe que não deve queimar etapas, porque sabe que um bom passe vertical, a queimar linhas de pressão, é bem mais útil a uma equipa que privilegia o futebol apoiado do que um passe a explorar a profundidade. Quando a bola sai dos seus pés, a equipa obtém sempre alguma vantagem territorial ou consegue sempre desorganizar provisoriamente o bloco defensivo opositor. Se William fosse mais agressivo sobre a bola ou mais rápido a tomar uma decisão, não seria tão bom a encontrar as linhas de passe que encontra. E o Sporting de Jesus não seria tão competente como é a penetrar nos blocos defensivos dos adversários, a jogar dentre desse bloco, e a criar espaços interiores por onde atacar. É isto que as pessoas não compreendem.

39 comentários:

Dresch disse...

Se concordo em 100% com a opinião sobre o Pizzi, sobre o William só consigo concordar em parte.
É concerteza um excelente médio para sair a jogar com critério, mas acho que o problema dele é alguma falta de "agressividade" defensiva, tendo como caso flagrante o recente jogo na Selecção.

Claro que a minha visão aplica-se se o intuito é usar o William no papel de um médio recuado que destrói mas sabe iniciar o processo ofensivo. Aí falta-lhe a "raça" que o Adrien aplica nos momentos defensivos e espero sinceramente que o JJ consiga alterar-lhe o chip.

Mas se o propósito é ter o William como um médio recuado de construção (algo parecido ao papel do Pirlo), ele é claramente das melhores opções para tal.

Será o contexto onde se encontra em campo que ditará que William vamos ter.


Just my 5cents :)

The Beast OnFire disse...

Era escreveres com mais regularidade e limpavas os prémios de blogs que se realizam em Portugal! Parabéns, está excelente.

PS: O que achas do Benfica? Parece que as férias fizeram mal a alguém.

B Cool disse...

Embora normalmente concorde com as tuas opiniões, deixa-me dizer que discordo de ti Nuno. Acho que o Pizzi quando está próximo da baliza, normalmente tem pouco critério e procura resolver individualmente, em especial, através de remates de fora a área ignorando colegas melhor colocados.

Poderia dar como exemplo a exibição dele contra o Porto na Luz na época passada, em que com o Mitroglou várias vezes melhor colocado optou pelo inconsequente remate, mas também no início desta época tem revelado esse mesmo padrão de decisões em zonas próximas da baliza adversária.

Ao invés acho que no meio-campo tem tido um papel importante, dando linhas de passe, assegurando superioridades e sendo dos pouco que permite a saída de bola controlada quando o Grimaldo, para mim o jogador que melhor tem jogado no Benfica, mesmo que com o decorrer do jogo e com o acumular da fadiga mostre perder esse mesmo critério com que habitualmente conduz, fixa e liberta.

Reconheço que com as movimentações dele, o Benfica consegue desorganizar as defesas através das superioridades momentâneas que cria próximo da área, mas tendo oportunidade de finalizar, raramente pensa no colectivo e tudo o que de bom faz nos primeiros 80 metros, parece que o cérebro frita com a fixação na baliza.

RMSCP disse...

Concordo com a generalidade da tua opinião mas também concordo com o B Cool. O Pizzi é muito criativo mas acho que lhe falta alguma inteligência (para além de alguma técnica) para ser um jogador de topo. Ainda assim é dos jogadores mais influentes no Benfica a par de Grimaldo (os adeptos dizem que o Eliseu é melhor porque ele não defende bem) e Jonas (seria lindo ver a opinião acerca deste se tivesse uma série de jogos sem marcar).

Entretanto no Sporting, William está um autêntico senhor jogador. Ele e o Bryan são pura classe. Como é que é possível haver adeptos que conseguem por Adrien (um jogador banalíssimo independentemente de ter melhorado muito com Jorge Jesus) no mesmo lote destes Deuses?

Cumps

Blessing disse...

Assim como no lance do Muller (que entendo ser talvez o jogador mais inteligente do mundo a jogar sem bola, quando a equipa está em posse, pelas soluções que dá aos colegas), não percebo grande criatividade pela forma como eles se posicionam. Ou se calhar não o ache assim tão impressionante. Acho até os posicionamentos óbvios, sem qualquer demérito para o que fizeram, porque foi o mais acertado.

Qualquer juvenil meu na época passada se teria colocado na mesma posição onde o Pizzi se colocou, porque era isso que lhes pedia no meu modelo de jogo. Linhas de passe "entre os jogadores deles"; apoios frontais constantes; mostrarem-se para receber atrás da pressão; por se ganhar tempo e espaço, e ser mais fácil bater a pressão aí. O que eles não fariam é o seguimento que o lance teve. Portanto, de primeira bater a defesa e colocar o Guedes em posição privilegiada. Para mim, a criatividade está toda aí. Não na execução, mas na forma como percebe que apenas de primeira conseguiria fazer aquilo de forma a que o Guedes tivesse uma real vantagem, sem permitir o ajuste da defesa do Braga. O sítio onde está, parece-me o mais óbvio para estar. Era, aliás, onde faltava linha de passe. Havia esquerda e direita, faltava uma frontal (no centro de jogo).

O lance do Muller parece-me do mesmo tipo, sem bola. A desmarcação que faz é perfeitamente normal, e mesmo que não existisse aquele espaço entre a defesa inglesa seria o melhor a fazer para conquistar espaço para os colegas (arrastando), ou mesmo para bater a defesa e receber nas costas (caso não fosse acompanhado). Porque como se vê, Muller entrega, e estando no corredor lateral inicia um movimento natural de ruptura. Percebendo a presença de Klose, e o espaço que fica por o central ter saído no Ozil, muda a direcção da ruptura para o corredor central. Parece-me que as decisões sem bola são as mais óbvias. Imaginando que o central não sai no Ozil, e fica, está a dar solução de passe diferente ao Klose (ruptura), e ao Ozil a mesma opção caso klose decida devolver-lhe a bola. O que me parece notável no lance é a competência de todos para aproveitarem o que o colega lhes dá. Tanto Muller a jogar dentro, como Ozil que não joga de primeira e permite tempo para Muller ir, ou Klose que de primeira coloca Muller em situação muito privilegiada. O melhor parece-me novamente com bola. O rebuçado que Muller deixa na boca de Podolski. Não que tudo não tivesse importância para o desfecho do lance, mas onde Muller revela mais criatividade é, para mim, na assistência.

DC disse...

Concordo em absoluto com o Bcool sobre o Pizzi. Tanto ano passado como há dois anos, o Benfica em superioridades numéricas foi prejudicado porque a bola estava no Pizzi e ele, de forma completamente idiota, tentou remates de longe disparatados.
Está longe de ser muito bom na decisão.

Quando ao William, continuo sem perceber o que é que, sem bola, no posicionamento defensivo, ser mais agressivo a ajustar prejudicaria o que quer que fosse na tomada de decisão com bola. Ele falha diversos ajustes por ser preguiçoso ou lento a pensar. Não percebo porque é que se fosse mais rápido iria perder o que tem com bola.
O Busquets posiciona-se bem na transição defensiva e perde alguma das qualidades que tem com bola por causa disso?

DC disse...

Faltou-me dizer na parte sobre o Pizzi, que estava a falar dos jogos contra o Porto na Luz. Em especial o 0-0 com o Lope que só não perdemos essencialmente por disparates do Pizzi.

Nuno disse...

Dresch diz: "É concerteza um excelente médio para sair a jogar com critério, mas acho que o problema dele é alguma falta de "agressividade" defensiva, tendo como caso flagrante o recente jogo na Selecção."

Compreendo a opinião, mas não concordo com ela. Não é que não concorde com a ideia de que ele não é agressivo. Não é um jogador que vai a todas as bolas, que morde os calcanhares aos adversários, que se desloca rapidamente e ganha duelos físicos em catadupa, e portanto compreendo que se considere que lhe falta alguma "agressividade". Não concordo é com a ideia de que essa suposta agressividade é um atributo assim tão fundamental. A ideia de que uma equipa defende bem quando os onze jogadores são agressivos não faz sentido. O exemplo é o Atlético de Madrid do Simeone. São todos extraordinariamente agressivos, mas colectivamente nem sempre têm os melhores comportamentos. A agressividade defensiva deve ser um atributo colectivo, e deve ser avaliado em função do que a equipa consegue fazer enquanto equipa. Isso passa por efectivar a pressão, por manter coberturas, por ajustar posicionamentos, etc.. A equipa pode ser muito agressiva a defender tendo jogadores pouco agressivos individualmente. A agressividade individual só é importante quando isso implica não ser capaz de ajustar posicionamentos rapidamente, ou quando isso implica impedir certas vantagens posicionais ao adversário. Mas o William raramente falha nisso. O lance badalado no jogo da selecção é uma caricatura. O William, nesse lance, falha apenas dentro da área, quando era preciso retirar espaço para a finalização do adversário. Mas as pessoas pegaram no lance todo para ilustrar a sua lentidão e - e aqui é que me parece absurdo - para justificar que o seu futebol peca sempre por esta suposta "preguiça". Eu não vejo o William a reagir tarde com frequência, a falhar ajustamentos defensivos a toda a hora, e a prejudicar a arrumação defensiva do Sporting constantemente. Como qualquer jogador, há-de ter as suas falhas. A primeira metade da época passada, aliás, não foi famosa, também por isso. Mas, no cômputo geral, o William é um jogador comprometido, atento e concentrado. Aliás, acho-o posicionalmente muito competente. Mas as pessoas assumem automaticamente que um jogador lento, ou que faz as coisas com pouca agressividade, não é bom posicionalmente. A ideia de que um médio tem de ter "raça", para mim, é absurda. Eu sei que ajuda a que as pessoas formem opiniões. Por exemplo, é quase unânime que o Fejsa tem feito um excelente arranque de época. Para mim, o Fejsa tem tido um papel de destaque porque as deficiências defensivas do modelo do Benfica lhe propiciam esse destaque. É como o Casemiro no Real. Ou como o Kanté no Leicester o ano passado. Quando uma equipa defende como o Benfica, é natural que um jogador com o arcaboiço e com a capacidade de choque dele, a jogar naquela posição, se destaque. Eu reconheço essas competências no Fejsa, mas não consigo dissociar essas competências do colectivo em que ele está inserido. Eu não acho que aquilo que o Fejsa tem feito é extraordinário porque não consigo ver ali nada que transcenda o modelo, como por exemplo a criatividade do Pizzi. Ele faz o que faz porque o modelo lhe coloca nos ombros a responsabilidade de fazer aquilo. Quanto ao William, parece sempre que o criticam por não ser o Fejsa. E é isso que me faz confusão. O William é o que é porque não é o Fejsa. Se ele passasse a desgastar-se no tipo de acções que o Fejsa se desgasta, não teria nem o mesmo discernimento a ocupar espaços, nem o mesmo discernimento com bola. As coisas não são desagregadas.

Nuno disse...

TheBeast OnFire diz: "O que achas do Benfica? Parece que as férias fizeram mal a alguém."

Acho que é exactamente o que era a época passada, em termos colectivos. Em termos individuais, parece-me mais forte. O André Horta é bem mais interessante do que o Renato, e o Gaitán parece ter substitutos à altura, ainda que precisem de algum tempo para adquirir confiança: Cervi, Rafa, Carrillo. E depois há o Grimaldo... Claro que há jogadores que ainda não estão no seu melhor, e tem havido muitas lesões, mas não me parece, para já, que seja muito diferente da época passada.

B Cool diz: "Acho que o Pizzi quando está próximo da baliza, normalmente tem pouco critério e procura resolver individualmente, em especial, através de remates de fora a área ignorando colegas melhor colocados."

Não vejo nada disso. Pelo contrário, não vejo ninguém tão capaz de contemplar um passe, em zona frontal, com espaço para rematar. Posso dar o exemplo do golo do Jonas contra o Braga, na Supertaça. O Pizzi não tem nenhuma opção de passe, e está em zona frontal, com algum espaço, para rematar. E o que ele faz é inventar um lance de 1 para 0 para o Jonas. Literalmente. Esse tipo de acção é aliás frequente no Pizzi. Não foi a primeira vez que, estando em boa posição para rematar, simula o remata e procura a assistência. Daí que ache esquisito dizeres isto.

RMSCP diz: "O Pizzi é muito criativo mas acho que lhe falta alguma inteligência (para além de alguma técnica) para ser um jogador de topo."

Falta-lhe inteligência, especificamente, em que tipo de situações? A criatividade é um atributo intelectual, e não sei se consigo conceber a ideia de haver jogadores criativos que não sejam inteligentes. Eu acho, aliás, que a criatividade, muitas vezes, gera incompreensão. Se calhar as pessoas acham que ele não é inteligente precisamente por ser criativo, por não fazer aquilo que as pessoas consideram que se devia fazer, em determinadas situações, preferindo fazer algo diferente. No texto, procurei justificar algumas das suas falhas com base justamente nessa incompreensão. O que eu sinto, muitas vezes, é que as pessoas lhe imputam erros que não lhe deviam ser imputados. Ontem, por exemplo, já perto do final da primeira parte, o Pizzi conduz um lance de contra-ataque com duas opções de passe à esquerda. O lado direito era o lado mais aberto e o André Almeida devia ter dado uma opção desse lado, mas preferiu parar e ficar em contenção. Resultado: o Pizzi meteu a bola onde devia meter, o André Almeida estava recuado e já não conseguiu criar um desequilíbrio. Quem é que foi o responsável? Para os comentadores, o autor do passe. O autor do passe é sempre o responsável, para quem vê futebol. Mas o Pizzi não tem culpa de que o André Almeida não tenha percebido que, naquela situação, devia fazer de lateral e não de médio. E a jogada perdeu-se não porque o Pizzi tenha feito um mau passe, como se sugeriu, mas porque o colega do Pizzi não percebeu o que devia fazer. Isto acontece a toda a hora. E um jogador criativo, que não faz apenas o que vem nos livros, está sempre mais sujeito a este tipo de incompreensão, e por conseguinte às críticas injustas, do que jogadores menos criativos.

Nuno disse...

Blessing diz: "Qualquer juvenil meu na época passada se teria colocado na mesma posição onde o Pizzi se colocou, porque era isso que lhes pedia no meu modelo de jogo. Linhas de passe "entre os jogadores deles"; apoios frontais constantes; mostrarem-se para receber atrás da pressão; por se ganhar tempo e espaço, e ser mais fácil bater a pressão aí. O que eles não fariam é o seguimento que o lance teve. Portanto, de primeira bater a defesa e colocar o Guedes em posição privilegiada. Para mim, a criatividade está toda aí. Não na execução, mas na forma como percebe que apenas de primeira conseguiria fazer aquilo de forma a que o Guedes tivesse uma real vantagem, sem permitir o ajuste da defesa do Braga. O sítio onde está, parece-me o mais óbvio para estar. Era, aliás, onde faltava linha de passe. Havia esquerda e direita, faltava uma frontal (no centro de jogo)."

Eu não acho impressionante a movimentação. Acho que muitos jogadores a fariam. Mas não é isso que está em causa. O que tentei defender foi que, ao contrário de outros jogadores, que se movimentariam exactamente dessa forma, o Pizzi movimentou-se dessa forma porque imaginou o desequilíbrio que, de facto, se veio a originar. A diferença está na intenção com que se movimentou. Quando dizes que o que é criativo é a forma como "percebe que apenas de primeira conseguiria fazer aquilo de forma a que o Guedes tivesse uma real vantagem", concordo contigo. Mas acho que a criatividade está sobretudo em ter pensado nisso antes de poder fazer aquele toque de primeira, em ter pensado nisso no exacto momento em que se movimentou para aquele espaço.

Quanto ao lance do Muller, não concordamos. A assistência, para mim, é banal. O que desembrulha o lance é a forma como ele se mexe, e como os colegas jogam com esse movimento. E, francamente, parece-me que o Muller tem o desequilíbrio todo na cabeça assim que começa a correr.

Nuno disse...

DC diz: "Tanto ano passado como há dois anos, o Benfica em superioridades numéricas foi prejudicado porque a bola estava no Pizzi e ele, de forma completamente idiota, tentou remates de longe disparatados."

Precisava de vários exemplos. Não digo que isso não tenha acontecido, mas não me recordo de ver o Pizzi a falhar esse tipo de coisas com frequência. Não me lembrava do que se tinha passado nesse 0-0, há 2 épocas, e fui ver o resumo. Nesse resumo, há um lance de contra-ataque em que o Pizzi, tendo um colega a abrir na ala, opta pelo remate. Não era a melhor opção, de facto, mas o passe para a direita também não era uma opção perfeita. A defesa do Porto estava a corrigir o seu posicionamento, e duvido que o Benfica tirasse grande partido de um passe para a direita, naquele momento. Parece-me que ele quis surpreender, não fazendo o que talvez fosse mais óbvio. Para ser sincero, eu talvez tentasse o chapéu, ou fintasse de novo para a esquerda, para aproveitar que os defesas do Porto vinham todos a correr para a direita. Ou talvez metesse na direita, se sentisse na altura que a opção mais segura era a mais eficaz. Mas, lá está, esse tipo de erros todos cometem. Todos. Sem excepção. O Messi comete erros destes todos os jogos. Só que, ao mesmo tempo que os comete, faz muitas outras coisas, em lances idênticos, que os compensam. E achar que um lance, num jogo em que os nervos estão à flor da pele, cometido por um jogador que tinha agarrado o lugar na equipa há pouco tempo, é definidor de alguma coisa, para mim, não faz sentido nenhum. Isto só seria um problema se o Pizzi cometesse este tipo de erros com frequência. E, mais uma vez, não é isso que eu vejo. Podia contrapor a este lance o do Braga de que falei acima, em que estava em posição frontal, sem nenhuma opção de passe óbvia e com espaço para rematar, e inventou uma assistência. Para cada lance deste género em que o Pizzi remata quando devia fazer a assistência óbvia, conseguiria de certeza arranjar dois ou três em que, em vez de rematar, como solução mais óbvia, inventa qualquer coisa de extraordinária. De novo, não se pode querer que um jogador seja criativo, que veja linhas de passe que mais ninguém vê e tire coelhos da cartola, e querer ao mesmo tempo que ele faça sempre o mais óbvio. E a mim parece-me que atacam o Pizzi sistematicamente por não jogar sempre como as bancadas acham que se deve jogar.

Nuno disse...

"Quando ao William, continuo sem perceber o que é que, sem bola, no posicionamento defensivo, ser mais agressivo a ajustar prejudicaria o que quer que fosse na tomada de decisão com bola. Ele falha diversos ajustes por ser preguiçoso ou lento a pensar. Não percebo porque é que se fosse mais rápido iria perder o que tem com bola.
O Busquets posiciona-se bem na transição defensiva e perde alguma das qualidades que tem com bola por causa disso?"

Para mim, é relativamente óbvio que um jogador que tenha por critério de comportamento a "agressividade", tenha mais dificuldades em defender-se de acontecimentos inesperados. Um jogador menos agressivo, que reaja com menos pressa e pânico a um desequilíbrio momentâneo, pode precaver algumas coisas. Acorrer a um espaço vazio com demasiada pressa pode implicar deixar espaço que seria preciso ocupar logo a seguir. É impossível ser "agressivo" e manter o grau de discernimento. Vê o Mascherano. O Mascherano é precipitado porque é agressivo. Se não fosse tão agressivo, talvez se precipitasse menos. Além disso, um jogador que passe a maior parte do tempo sem bola em acções desse género (o exemplo pode ser o Fejsa) não tem de certeza a mesma capacidade para decidir bem quando tem a bola. O desgaste num certo tipo de acções tem implicações. Se o William se desgastaste a fazer deslocamentos rápidos a toda a hora, seria com certeza muito menos criterioso com bola, teria com certeza muito menos disponibilidade física e mental para proteger a bola em acções ofensivas, e não teria com certeza o mesmo tipo de contributo. Não conheço, aliás, um único médio criterioso que seja extraordinário no desarme, ou muito agressivo a defender, como não conheço médios agressivos que sejam extraordinários no passe e na decisão. O Busquets é tudo menos um jogador agressivo, e é tudo menos um jogador competente em transição. Aliás, é muito frequente vê-lo a demorar-se a ocupar certos espaços. Faz parte do seu futebol. As suas energias e a sua atenção estão postas noutras coisas.

DC disse...

Esse do Pizzi é um dos lances sim. Nesse, por exemplo, o ponto em que discordamos é o de que ele terá avaliado ali todas as eventuais probabilidades de sucesso, que terá sido criativo. A mim parece-me que ali uma pequena temporização lhe permitiria optar ou por colocar nas costas dos defesas (que acho que seria a hipótese mais difícil mas com maior probabilidade de golo), na direita mais óbvia, ou rematar. Acho, e digo isto pelo perfil de decisão da segunda-parte desse jogo (altura em que esteve partido), que ele ponderou muito pouco as opções e se precipitou várias vezes.
E não digo que não tenha evoluído nisso, acho que se tem tornado melhor jogador com a continuidade e confiança que tem tido. Mas nesta altura não me parecia que tivesse um perfil de decisão bom e no ano passado, no tal jogo que o Bcool refere, ainda pecou algumas vezes com o Porto.

Quanto ao William compreendo o teu argumento. O que digo é que ele não precisava de ser agressivo "à Mascherano". Acho que podia ser mais responsável em determinados ajustes. Ajustes que nem sequer lhe implicariam grandes sprints, apenas mais atenção ou disponibilidade para isso. Acho-o relaxado demais sem bola. Acho que o Busquets nisso lhe é imensamente superior porque "passito a passito" está sempre onde deve estar. No William não consigo dizer isso.

RMSCP disse...

Para mim, criatividade é conseguir inventar um passe (movimento, remate, etc) que eu, a ver o jogo, não consiga perceber logo à partida. Inteligência é decidir bem. O Pizzi é criativo mas acho que falha algumas decisões básicas.

O exemplo do lance que tu deste até serve para eu explicar a minha ideia. Eu também me lembro do lance e sei que a culpa é do André Almeida mas repara que ele passa a bola sem nem se quer olhar para onde a vai por. Isso para mim é errado. O Bryan Ruiz, por exemplo, nunca faria aquilo. Ele sempre que pode olha para o jogo para perceber a melhor opção. Isso é inteligência. Para mim, qualquer jogador de topo tem de ter esta capacidade.

The Beast OnFire disse...

Eu acho que ainda está pior Nuno. E o que tem saltado à vista mais nos jogos do Benfica, é que perdem imensas bolas por não rodar a cabeça antes de receber, e porque neste momento a transição defensiva do Benfica é muito pior que o ano passado.
E achas que o Rafa vai melhorar o Benfica na posição dele?

Miguel Pinto disse...

Em relação ao Pizzi, concordo que seja um jogador acima da média e que já mereceria ser chamado à seleção nacional pelos desempenhos muito positivos que tem tido no slb. Há coisas que são difíceis de entender como por exemplo a qualidade de jogo patenteada pela nossa seleção contra a suiça. O Pizzi teria dado muito mais qualidade ao nosso jogo caso tivesse jogado porque o que tem faltado (mas deu para ser campeão europeu, eu sei, assim como deu para a grécia) é alguma criatividade (para não parecer demasiado contundente) à equipa de todos nós. Mas pelos vistos foram apenas uns minutos fatais de desconcentração que levaram a seleção ao tapete (o mesmo que aconteceu ao slb em nápoles, não deixa de ser curioso, a mesma argumentação). Mas a vida dá muitas voltas (tipo zé fonte) e pode ser que, quando saldarem as contas com alguns jogadores que se sagraram campeões europeus, haja espaço para jogadores como o pizzi.

Quanto ao W. Carvalho, noto que a principal dificuldade dele está relacionado com as transições defensivas, no entanto a principal razão não será a falta de agressividade mas sim a falta de posicionamento e/ou comunicação com os restantes colegas do setor defensivo. Tanto no jogo da seleção como no jogo contra o rio ave constato que ele tem só olhos para o jogador que faz o último passe, alheando-se do que se passa à sua volta. Curiosamente, no 3º golo do rio ave, a letargia é geral e, ao contrário do que diz Luís Freitas Lobo no comentário ao sucedido, a auto estrada é do lado direito do scp porque o jogador Guedes nunca fará golo daquele sítio apesar de ter ganho a posição.

Deixo o link caso queiram relembrar o lance

https://twitter.com/SPORT_TV/status/777600276194734080?ref_src=twsrc%5Etfw

Abraço

Pedro Pereira disse...

Pois eu acho que o Wiliam não precisa de correr desalmadamente pois ocupa invariavelmente bem os espaços ou seja está sempre onde deve estar por isso defende com critério e sem precisar de tanta agressividade e velocidade como alguns lhe exigem inclusive fazedores de opinião. A forma como ele passou a bola no terceiro golo do Sporting contra o Estoril só denota a justeza das palavras do autor do post.

Toni Casimiro disse...

Nuno disse:

"Não conheço, aliás, um único médio criterioso que seja extraordinário no desarme, ou muito agressivo a defender, como não conheço médios agressivos que sejam extraordinários no passe e na decisão"

Conheces pouco de futebol: Xabi Alonso. Ou então és apenas um ideólogo fundamentalista, cuja solução para o intrincado problema dos contra-exemplos é negar a sua existência.

Qual é o teu caso, Nuno?

João Nogueira disse...

O Xabi Alonso é muito agressivo a defender?!!!!!!!!!
Fds, alguém não tomou a medicação hoje...

Toni Casimiro disse...

Exacto, não és o Nuno, mas no teu caso, João, o teu problema é negar as evidências. Ele é não só agressivo a defender (mais de 150 cartões amarelos na sua carreira), como também extraordinário no desarme. E apenas me bastava uma destas caracteristicas para que o meu contra-exemplo fosse válido.

Toni Casimiro disse...

o problema aqui creio eu, é uma questão de abordagem. Pela minha impressão, o Nuno é uma fundamentalista, o que quer dizer que apenas as suas ideias do futebol são válidas, sendo que as outras formas de ver o jogo não é verdadeiramente futebol. E isso faz com que, para se racionalizar estas ideias se tenha de recorrer a preconceitos insustentáveis como este de que:

"um médio criterioso não pode ser extraordinário no desarme".

Claramente uma falsa dicotomia que ele inventou do nada. O meu exemplo é suficiente para demonstrar quão absurdo é este conceito, mas nem sequer é necessário. Seria o Nuno quem teria de demonstrar. Ele não o faz, porque não é possível: um preconceito, por definição é uma ideia pré-concebida, o que faz com que não seja possível defende-lo e ao mesmo tempo ser racional.

Toni Casimiro disse...

Deixa-me acrescentar que descobri por acaso este blog, e que o achei interessante. Estive a ler uma boa porção de posts antigos. O que é talvez injusto para ti, mas útil para quem quer ter uma boa percepção da capacidade analítica do autor do blog. Pude reparar, por exemplo, que no post de destruição de um miudo de 18 anos abaixo, és elogioso relativamente à contribuição de médios da selecção portuguesa como André Gomes e João Mário. Curioso é que há uns anos atrás a respeito de um qualquer campeonato de putos em que estes já representavam portugal não lhes auguravas um futuro por aí além, enquanto elogiavas e garantias a qualidade de miúdos que andam por aí perdidos algures, se por acaso ainda se dedicam à profissão de futebolista. O que é certo é que ainda não singraram, ao contrário do João Mário e do André Gomes.

Como disse o blog é interessante e o estilo de escrita não é mau, mas do meu ponto de vista, padeces do mesmo defeito que é bastante comum nos dias de hoje principalmente dos aficionados da forma de jogar do Barcelona, ou da selecção espanhola, que é a convicção de que só existe uma forma de jogar bem à bola, que é "a nossa", sendo que todas as outras ideias de jogo são caca e nem merecem ser chamadas de futebol. O meu conselho é que ponderes um pouco mais acerca da história das ideias, e quiçá te apercebas que o fundamentalismo é talvez a pior delas.

Best regards.

João Nogueira disse...

Curioso que o Senhor Casimiro não tenha reparado em outras "previsões" (Pelé por exemplo). É o que dá jeito...
Então se um jogador fizer uma falta por jogo, e essa falta comportar a amostragem de um amarelo, esse jogador é agressivo. Correcto Toni?

Toni Casimiro disse...

João Nogueira disse:

"Curioso que o Senhor Casimiro não tenha reparado em outras "previsões" (Pelé por exemplo). É o que dá jeito..."

Reparei nas previsões que precisava para fazer o meu ponto: que a análise não é muito boa e que o autor padece de um preconceito relativamente a uma determinada ideia de jogo. Que se reflecte na sua avaliação na qualidade de jogadores: quando um médio jovem não dá indicações de ter um jogo parecido ao Xavi/Iniesta/Busquets, o Nuno acha que é caca. Pois bem, agora que aqueles (JM e AG) singraram, o Nuno ficou borrado. O Pelé não é para aqui chamado, é 1 avançado dos anos 50/60 (dizem que com qualidade), mas que nunca vi jogar e não tem lugar nesta discussão.

"Então se um jogador fizer uma falta por jogo, e essa falta comportar a amostragem de um amarelo, esse jogador é agressivo. Correcto Toni?"
Não faço ideia, o número de amarelos durante uma carreira é apenas um indicativo da agressividade de um jogador. Para mim, o Alonso é 1 jogador agressivo, isso é óbvio de o ver jogar. Um médio agressivo, extraordinário no desarme, e, no entanto, criterioso e ainda extraordinário no passe e na decisão. Não existe relação entre as diferentes qualidades e é apenas o preconceito contra médios que jogam de determinada maneira que levam o Nuno a inventar este tipo de regras.

Toni Casimiro disse...

É óbvio que eu estou em vantagem aqui, porque com um par de horas de leitura consegui passar em revista meia dezena de anos do pensamento do autor. Mas pronto, ninguém me pode culpar de má fé aqui: os posts estão acessíveis ao público e eu obviamente aproveito-o para a minha análise.

Continua a ser um bom blogue. Quando o Nuno ultrapassar o preconceito e começar a aceitar outras ideias de jogo como válidas, poderá mesmo vir a ser óptimo.

João Nogueira disse...

Não existe preconceito nenhum, só se for contra idiotas. Além disso o pelé de que falo é um médio português que passou pelo inter e que, julgo eu, ainda está no activo. Afinal essa leitura foi um bocado na diagonal...

Toni Casimiro disse...

Joao Nogueira:

"Não existe preconceito nenhum, só se for contra idiotas. Além disso o pelé de que falo é um médio português que passou pelo inter e que, julgo eu, ainda está no activo. Afinal essa leitura foi um bocado na diagonal..."

O preconceito existe e foi explicado claramente. Tenta rebater os argumentos apresentados, se quiseres. o pelé, seja quem for, não é para aqui chamado. para demonstrar o preconceito apenas preciso de apresentar casos em que ele falhou rotundamente. se acertou em algum, não interessa.

o Nuno pensa que o futebol mudou e que só os pequenos xavis e iniestas e busquets singrarão e já pensa assim há alguns anos. a realidade já o desmentiu e continuará a desmenti-lo certamente, porque existem outras formas de jogar e interpretar o jogo.

Repara que quando a realidade o desmente, o Nuno arranja desculpas, como "sorteio favorável" ou "conjunto de circunstâncias favoráveis" ou "os resultados não interessam" (lol). Nem imagino o que ele terá dito quando o Leicester ganhou, mas estou seguro que alguma desculpa terá inventado. É o que geralmente acontece aos fundamentalistas: têm de justificar internamente porque é que afinal o "futebol de cruyff/guardiola não ganha sempre". Dito numa só expressão, entra em negação.

Como disse, a minha chamada de atenção não tem intenção destrutiva, o blog tem interesse e muitas das ideias são bem fundamentas e apresentadas numa forma com qualidade. Pena o fundamentalismo...

Nuno disse...

DC diz: "Esse do Pizzi é um dos lances sim. Nesse, por exemplo, o ponto em que discordamos é o de que ele terá avaliado ali todas as eventuais probabilidades de sucesso, que terá sido criativo."

Eu não sei se ele as avaliou ou não. Não tenho a certeza. Mas não posso desconsiderar essa possibilidade.

"E não digo que não tenha evoluído nisso, acho que se tem tornado melhor jogador com a continuidade e confiança que tem tido. Mas nesta altura não me parecia que tivesse um perfil de decisão bom e no ano passado, no tal jogo que o Bcool refere, ainda pecou algumas vezes com o Porto."

Eu também acho que o Pizzi evoluiu. Não nos podemos esquecer de que ele era um avançado de raiz, e que chegou ao Benfica e nunca tinha jogado senão na frente de ataque ou numa das alas. Nesse ano, passou a jogar como médio, ainda por cima num modelo de jogo só com dois médios-centro. É natural que cometesse erros, sobretudo quando em acções mais típicas de um médio. Entretanto, evoluiu. Jogou como médio-centro e como médio direito, e isso obrigou-o a aperfeiçoar certos comportamentos.

"Quanto ao William compreendo o teu argumento. O que digo é que ele não precisava de ser agressivo "à Mascherano". Acho que podia ser mais responsável em determinados ajustes. Ajustes que nem sequer lhe implicariam grandes sprints, apenas mais atenção ou disponibilidade para isso. Acho-o relaxado demais sem bola. Acho que o Busquets nisso lhe é imensamente superior porque "passito a passito" está sempre onde deve estar. No William não consigo dizer isso."

Pois, discordamos aqui. Raramente vejo o William a relaxar como dizes. O lance do jogo contra a Suiça não é de modo algum representativo.

RMSCP diz: "O exemplo do lance que tu deste até serve para eu explicar a minha ideia. Eu também me lembro do lance e sei que a culpa é do André Almeida mas repara que ele passa a bola sem nem se quer olhar para onde a vai por. Isso para mim é errado."

E se ele quisesse fazer esse passe, não o fizesse por perceber que o André não estava onde devia e, de tanto esperar, ficasse sem espaço para fazer outra coisa? A quantidade de vezes que um jogador criativo é acusado de perder bolas por não a soltar quando deve, quando na verdade está apenas à espera que os colegas percebam o que deve fazer, é inimaginável. O Pizzi protegeu-se disso, parece-me. Se ficasse com a bola mais algum tempo, nessa jogada, ficava sem soluções. Eu acho que ele viu que o André não estava lá, e meteu lá na mesma a bola. Perdeu-se o tempo necessário para que o lance pudesse ter eficácia, mas não se perdeu a bola. E, sobretudo, o Pizzi não deu razões para o acusarem de lentidão ou de invenções.

Nuno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Nuno disse...

TheBeast onFire diz: "Eu acho que ainda está pior Nuno. E o que tem saltado à vista mais nos jogos do Benfica, é que perdem imensas bolas por não rodar a cabeça antes de receber, e porque neste momento a transição defensiva do Benfica é muito pior que o ano passado.
E achas que o Rafa vai melhorar o Benfica na posição dele?"

Eu acho que o Benfica está pior a defender, mas acredito que tem a ver com o início da época e com o facto de não terem o mesmo género de estímulos que tinham no final da época passada. Quanto ao Rafa, não sei bem a quem é que ele vai tirar o lugar, se todos estiverem operacionais. Mas, evidentemente, é menino para ajudar muito.

Miguel Pinto diz: "Quanto ao W. Carvalho, noto que a principal dificuldade dele está relacionado com as transições defensivas, no entanto a principal razão não será a falta de agressividade mas sim a falta de posicionamento e/ou comunicação com os restantes colegas do setor defensivo."

O William não é um jogador rápido, e é natural que não seja o jogador ideal para transições defensivas. Quanto à falta de posicionamento, não vejo isso. Acho-o posicionalmente muito bom, e bastante concentrado na maior parte dos momentos. As coberturas ofensivas dele, por exemplo, são extraordinárias. Está sempre próximo dos médios, para dar uma linha de passe recuada ou para reagir rapidamente a uma perda de bola. Quanto a posicionamentos defensivos, para ser sincero, vejo-o sempre muito empenhado em antecipações, ou em cortar linhas de passe. Talvez não seja ultra-sónico a reagir a um imprevisto, e a ajustar rapidamente um posicionamento, mas muitas vezes percebe antecipadamente aquilo que vai acontecer e coloca-se em função disso. Quanto ao lance do terceiro golo do Rio Ave, não vejo erro nenhum no comportamento do William.

Nuno disse...

Toni Casimiro diz: "Conheces pouco de futebol: Xabi Alonso. Ou então és apenas um ideólogo fundamentalista, cuja solução para o intrincado problema dos contra-exemplos é negar a sua existência.

Qual é o teu caso, Nuno?"

Toni, o que eu pedia era um médio que se distinguisse critério de decisão (exs. Pirlo, Busquets, Carrick, Weigl) que fosse também extraordinário no desarme, ou muito agressivo a defender, ou um médio que se distinguisse pela agressividade (Mascherano, Gattuso, De Jong, Vidal, Casemiro), que fosse também extraordinário no capítulo da decisão e da inteligência. Tu falas-me no Xabi Alonso, que nem é um jogador extraordinariamente criterioso, nem um médio particularmente agressivo. O Xabi Alonso é um médio com uma qualidade de passe extraordinária, mas nunca foi um jogador extraordinário do ponto de vista da decisão. Nunca. Claro que, comparado com o Vidal, no Bayern, é muito melhor a decidir. Mas não é, nem de perto, nem de longe, um exemplo de jogador criterioso. Por outro lado, também não é particularmente agressivo. Por vezes é maldoso, não é jogador de virar a cara à luta e tem entradas agressivas. Mas quando se fala de "agressividade", fala-se da capacidade de reagir às necessidades de um lance, de rapidez a "comer metros" e a ocupar espaços, na agilidade a pressionar os adversários, etc. O Xabi Alonso não é nada disto.

"Pela minha impressão, o Nuno é uma fundamentalista, o que quer dizer que apenas as suas ideias do futebol são válidas, sendo que as outras formas de ver o jogo não é verdadeiramente futebol."

Por que é que tens esta impressão? Se, como confessas, acabaste de conhecer o blogue, e andaste a ler coisas que, evidentemente, só podem ser completamente compreendidas se lidas à luz das circunstâncias específicas em que foram escritas, como é que podes ter uma impressão acerca das minhas ideias? Deixa-me desiludir-te. Eu não acho que só as minhas ideias são válidas. Acho que há maneiras melhores de jogar futebol e maneiras piores. Isso não implica que as piores ideias não sejam válidas. Claro que são. Todas as ideias são válidas, e em futebol é possível que más ideias produzam bons resultados. Nunca disse que equipas com más ideias não podem ter sucesso. O que defendo é que a probabilidade de o terem é inferior à probabilidade de êxito de ideias que considero melhores.

Nuno disse...

"Pude reparar, por exemplo, que no post de destruição de um miudo de 18 anos abaixo, és elogioso relativamente à contribuição de médios da selecção portuguesa como André Gomes e João Mário. Curioso é que há uns anos atrás a respeito de um qualquer campeonato de putos em que estes já representavam portugal não lhes auguravas um futuro por aí além, enquanto elogiavas e garantias a qualidade de miúdos que andam por aí perdidos algures, se por acaso ainda se dedicam à profissão de futebolista. O que é certo é que ainda não singraram, ao contrário do João Mário e do André Gomes."

É impressionante que não conhecesses o blogue, mas que saibas que hás uns anos eu augurava certas coisas. Não me digas que tiveste sorte em ter lido justamente esse texto sobre o europeu de sub-19 em 2012? Bolas, que pontaria! Vou presumir a tua boa-fé e assumir que, realmente, descobriste o blogue há pouco tempo e, portanto, sabes que augurei certas coisas porque leste esse texto. O texto é este: http://entredez.blogspot.pt/2012/07/hegemonia-e-geracao-espontanea.html. O que é engraçado, sobretudo para quem leu o texto há tão pouco tempo, é que cometas o erro de sugerir que, nesse texto, não augurava grande futuro ao João Mário e ao André Gomes e que garantia qualidade a miúdos que anda por aí perdidos. É que, nesse texto, acontece mais ou menos o contrário disso. Elogiava o Betinho, é verdade, e ele não vingou. Mas posso-te dizer que, ao chegar à equipa principal do Sporting, o Betinho se modificou muito como jogador (passou a tentar corresponder às expectativas que se formavam acerca da sua capacidade goleadora, e nunca mais foi o jogador de toque curto, de apoio frontal e privilégio da inteligência que era nos júniores), e eu deixei de pensar o que pensava nessa altura. Do Esgaio, que era extremo, disse que só daria jogador como lateral, e, de facto, é hoje mais ou menos aceite que assim será. Se ainda vier a dar alguma coisa, é como lateral. Sugeria também que o Ilori podia singrar, desde que fosse bem trabalhado e desde que se modificassem certos preconceitos a respeito de defesas centrais. Pouco depois, o Ilori saiu para Inglaterra. Quanto a preconceitos, basta dizer que o Carriço é titularíssimo anos a fio de uma equipa que ganha sistematicamente a Liga Europa e fica sistematicamente nos lugares europeus em Espanha, e continua a ser preterido na selecção por causa de jogadores como o Bruno Alves. Depois, falava com reservas do Daniel Martins e do Rafael Veloso, e dizia que não acreditava no futuro dos restantes. Com uma excepção e meia. Deixa-me citar a parte importante do meu texto:

Nuno disse...

"A excepção poderá ser o capitão João Mário, de quem não sou particularmente adepto, mas a quem reconheço alguns atributos importantes. João Mário não tem classe; tem tiques de quem tem classe. Se um dia esses tiques derem lugar a um jogador que compreenda quando os deve ter e quando os não deve, talvez venha a poder ser jogador. Para já, é apenas irritante. André Gomes, médio do Benfica, sabe jogar, mas tem contra si o tamanho exagerado, a pouca agilidade, e algumas deficiências técnicas, sobretudo resultantes desses atributos físicos indesejados."

Repara: eu não gostava dos tiques do João Mário, mas reconhecia-lhe qualidades e sugeria que, aprendendo a controlar esses tiques, poderia evoluir. Assim foi. Isto está muito longe de achar que não teria qualquer futuro. De quem eu dizia que não teria futuro era do Bruma e do Agostinho Cá. E, parece-me, não estava errado. Convenientemente, achaste por bem falar apenas do que eu dizia a respeito do João Mário e do André Gomes. Sobre o André Gomes, aliás, a minha previsão prendia-se sobretudo com a sua pouca agilidade. Era talvez o médio que mais me seduzia, naquela selecção, mas achava que teria dificuldades em impor-se sobretudo por causa do seu tamanho, e da pouca agilidade que resultava desse tamanho. Depressa modifiquei a minha opinião. Quando apareceu no Benfica de Jesus, apareceu a fazer um bom uso das suas capacidades técnicas, e a compensar a pouca agilidade com uma excelente capacidade de proteger a bola. Lá está, eu reconhecia que sabia jogar, o que é só a coisa mais elogiosa que podia dizer. Desconfiava é que isso chegasse para se impor. Estava errado a respeito disso, mas certo a respeito da sua qualidade. Como vês, o texto desmente boa parte do que dizes. O que implica que, das duas uma, ou não sabes ler, ou referiste o texto de memória, e não foste rigoroso por isso. Se for a primeira, considera-te corrigido. Se for a segunda, fico à espera da retractação quanto à confissão de que descobriste este blogue há pouco tempo.

Nuno disse...

"Como disse o blog é interessante e o estilo de escrita não é mau, mas do meu ponto de vista, padeces do mesmo defeito que é bastante comum nos dias de hoje principalmente dos aficionados da forma de jogar do Barcelona, ou da selecção espanhola, que é a convicção de que só existe uma forma de jogar bem à bola, que é "a nossa", sendo que todas as outras ideias de jogo são caca e nem merecem ser chamadas de futebol. O meu conselho é que ponderes um pouco mais acerca da história das ideias, e quiçá te apercebas que o fundamentalismo é talvez a pior delas."

Uma pessoa que rejeita saltar de uma altura de quarenta andares, apesar de outra lhe garantir que é seguro fazê-lo, estará a ser fundamentalista? Não. Como pessoa experiente que é, sabe que a probabilidade de sobreviver a uma queda dessa altura é baixa. E um cozinheiro que rejeita fritar os pastéis de bacalhau com o óleo pouco quente, contra a indicação de outro cozinheiro, estará a ser fundamentalista? Não. Como cozinheiro experiente, sabe que fritar os pastéis em óleo pouco quente fará com que os pastéis absorvam o óleo assim que entrem em contacto com ele. E um xadrezista profissional que rejeite começar uma partida de xadrez pelos peões das pontas, estará a ser fundamentalista? Não. Como xadrezista experiente, sabe que essa seria uma má jogada. Todos nós temos convicções fortes acerca dos efeitos de certas acções. Ninguém é fundamentalista por achar que uma queda de quarenta andares é fatal, ou por achar que o sol nascerá no dia seguinte, depois de se ter posto. Temos essa convicção porque já presenciámos várias vezes o nascer do dia, porque até agora não temos razões para acreditar que o sol não voltará a nascer, etc.. Um marciano, porém, achará que essa convicção é demasiado forte. Como não tem a experiência que temos, achará que não podemos ser fundamentalistas acerca do nascimento do sol. O mesmo acontece com o cozinheiro. O mesmo marciano, que não tem a experiência de fritar pastéis que o cozinheiro tem, achará que a convicção de que os pastéis de bacalhau devem ser fritos em óleo bem quente é um fundamentalismo. E o mesmo acontece com o xadrezista. O mesmo marciano, que nunca jogou xadrez, achará que a convicção de que começar um jogo de xadrez pelos peões das pontas é errado se trata de um fundamentalismo. Tu és o marciano desta história. Achas que as minhas convicções fortes acerca de maneiras de bem jogar futebol são fundamentalismo porque não sabes uma série de coisas acerca de futebol.

"Repara que quando a realidade o desmente, o Nuno arranja desculpas, como "sorteio favorável" ou "conjunto de circunstâncias favoráveis" ou "os resultados não interessam" (lol). Nem imagino o que ele terá dito quando o Leicester ganhou, mas estou seguro que alguma desculpa terá inventado. É o que geralmente acontece aos fundamentalistas: têm de justificar internamente porque é que afinal o "futebol de cruyff/guardiola não ganha sempre". Dito numa só expressão, entra em negação."

Quando a realidade me desmente???? A realidade desmentir-me-ia se eu achasse que as más ideias não podem ter sucesso. Eu não acho nada disso. Em futebol, as más ideias podem ter sucesso. Têm menos probabilidade de terem sucesso, mas podem tê-lo. Não o terão, de certeza, é a longo prazo e de forma continuada. O sucesso do Leicester não só não me desmente como, pelo contrário, comprova o que defendo. Basta esperar para ver o que lhe acontecerá daqui para a frente.

João Nogueira diz: "Não existe preconceito nenhum, só se for contra idiotas."

Preconceito contra idiotas não é preconceito; é saúde.

Ricardo disse...

O william é um pino. Ninguem lhe pega

RMSCP disse...

"E se ele quisesse fazer esse passe, não o fizesse por perceber que o André não estava onde devia e, de tanto esperar, ficasse sem espaço para fazer outra coisa?"

Mais vale voltar para trás, ficar com a bola e tentar outra coisa diferente do que entregá-la ao adversário.

"A quantidade de vezes que um jogador criativo é acusado de perder bolas por não a soltar quando deve, quando na verdade está apenas à espera que os colegas percebam o que deve fazer, é inimaginável. O Pizzi protegeu-se disso, parece-me. Se ficasse com a bola mais algum tempo, nessa jogada, ficava sem soluções. Eu acho que ele viu que o André não estava lá, e meteu lá na mesma a bola. Perdeu-se o tempo necessário para que o lance pudesse ter eficácia, mas não se perdeu a bola. E, sobretudo, o Pizzi não deu razões para o acusarem de lentidão ou de invenções."

Concordo com o que dizes. Mas quem quer ser um jogador de topo tem de jogar o jogo como ele é e não como a bancada quer.

The Beast OnFire disse...

E o City de Guardiola? Que estás a achar? Hoje correu-lhe mal, devido muito á grande pressão que o Tottenham faz á equipa adversária, e bem alta a pressão.

() disse...

Srs. jornalistas ou profissionais ligados a editoras, por favor, dediquem-se a explorar os posts e as caixas de texto deste blog. Está aqui o material todo para fazer o melhor livro de futebol já alguma vez escrito. Cada vez mais acho que venderia o suficiente para se pagar o investimento. Seria o primeiro livro de futebol a figurar na secção de filosofia nas livrarias... E na minha opinião de rudimentar conhecedor de filosofia, tenho até uma sugestão para o nome: "Entre Dez: A República do futebol".

DM disse...

Mais um excelente texto. Se há algo que merece ser elogiado no Nuno é que É difícil contraria-li sem ser com argumentos sólidos. Apesar de não achar o Pizzi o melhor jogador português da liga, concordo que é extremamente subvalorizado enquanto outros completamente banais são levados ao colo (como o Gonçalo Guedes). Quanto ao William pouco há a dizer, o pessoal quer que ele tenha a velocidade do Bale e a inteligência do Iniesta. Mas só há um desses no mundo e é o melhor de sempre. Eu fico muito satisfeito com o rendimento dele, está um autêntico monstro.

É para alguns comentários aí, há quem não perceba muito bem o conceito de probabilidade. O Sporting por norma ganhará 8 jogos em 10 contra o Benfica porque está muito melhor preparado. Isto quer dizer que vai ganhar sempre? Não, como o ano passado se provou. O futebol não é uma ciência exata e as probabilidades são isso mesmo, probabilidades. Se fossem certezas não se chamavam probabilidades e nem valia a pena haver casas de apostas que no final ganhava o Guardiola