sábado, 8 de dezembro de 2012

Górgias

Uma das coisas engraçadas de um ser humano adulto, saudável e que vive em sociedade é o ter com quem falar acerca do que bem lhe apetecer. Acho muito bem que o possa fazer. É pena, porém, que seres humanos adultos, saudáveis e que vivem em sociedade não tenham por hábito falar em São Tomás de Aquino, ou discutir entre si os pressupostos teóricos da Teoria da Relatividade. É verdade que não o fazem ou por não saberem nada do assunto, ou porque, mesmo que calhem a sabê-lo, dificilmente estarão constantemente rodeados de quem também o saiba. Como acham, contudo, que devem conversar sobre alguma coisa, decidem escolher assuntos sobre os quais toda a gente acha que sabe alguma coisa. E, ainda que de Filosofia ou de Física Teórica poucos saibam falar, muitos são os assuntos que, normalmente, se consideram acessíveis a toda a gente. De música, de política e, claro está, de futebol, todos acham que sabem qualquer coisa. Dirá quem assim pensa que é natural que assim seja. Música, política e futebol são coisas simples, para as quais basta ter vista (ou audição, no caso da música). São assuntos que não exigem reflexões profundas, que não exigem conhecimentos abstractos, sobre os quais somos bombardeados todos os dias, e sobre os quais, mesmo que inconscientemente, formamos opiniões. Devo dizer que, obviamente, não concordo com isto. O pressuposto errado é o de que há assuntos cujo conhecimento requer esforços intelectuais profundos e assuntos cujo conhecimento é imediato. E a ideia de que se possa conhecer empiricamente o que quer que seja  é suficientemente absurda para que não mereça reprovação.

Para dizer a verdade, conheço tanta gente que sabe falar de São Tomás de Aquino quanta a que sabe falar de futebol. Não significa isto que conheça muita gente que saiba falar de São Tomás; pelo contrário, conheço é poucas que saibam falar de futebol. A principal diferença é que, embora o número dos que sabem falar de uma coisa e de outra seja sensivelmente o mesmo, o número dos que não sabem falar de futebol mas que, ainda assim, insistem em fazê-lo é bem maior do que o número dos que não sabem falar de São Tomás mas falam. Como referi acima, assim é porque se julga que futebol, ao contrário de São Tomás, é coisa de que se pode saber empiricamente. Como nos conta Platão, dos idiotas que, por saberem uns truques de retórica, julgavam que podiam falar de todos os assuntos melhor até do que os especialistas em tais assuntos, tratou exemplarmente Sócrates quando se encontrou com Górgias. Tipicamente, pessoas como Górgias não sabem nada de nada, não têm qualquer arte; mas, como falam, por exemplo, de medicina para plateias de não-médicos, podem persuadir essa plateia. Para Sócrates, tais pessoas eram nocivas à cidade, e aquilo que faziam, disseminar opiniões, era uma das actividades menos nobres que conhecia. A prática da lisonja, se aplicada aos Górgias que falam hoje sobre futebol, encontraria extraordinária manifestação no blogue 442. Aqui fala-se de futebol como as massas gostam que se fale; é-se clubista, fala-se de escândalos e de controvérsias públicas, dizem-se banalidades e contam-se mentiras acerca de tudo e mais alguma coisa. Tal como Sócrates, acho que pessoas como as que por lá falam fazem mais mal do que bem. Os disparates que dizem e a lisonja que praticam são consequência da sociedade livre em que habitam. Mas a liberdade de que gozam não os isenta de serem estúpidos. Tal estupidez reside (e para isso serviu o primeiro parágrafo) em acharem que percebem de futebol só porque têm olhos e já viram muitos jogos. Aliás, também falam de música, de vez em quando. Acontece, todavia, que perceber de futebol não depende nem do tempo que se despende a ver futebol nem da capacidade de visão de ninguém; depende, sim, de saber pensar, como aliás depende qualquer tipo de conhecimento, a respeito de qualquer outra coisa. O que estou a afirmar, para quem ainda não percebeu, é que os palermas do 442, que a dada altura da vida terão percebido que eram demasiado estúpidos para que pudessem falar de assuntos mais complexos e acharam que se deviam dedicar a assuntos mais simples, não percebem que o assunto de que tratam é tão complexo como aqueles dos quais, por serem estúpidos, decidiram não falar. Perceber de futebol, perceber a sério de futebol, é tão complicado como perceber de Filosofia ou de Física Teórica. E todos aqueles que acham o contrário (e são muitos), como reconhecem que são demasiado estúpidos para falar de coisas complicadas, mas conservam, ainda assim, o desejo de dar à língua, devotam-se a falar de assuntos sobre os quais, no entender deles, é fácil ter opiniões. Tal como, para Sócrates, a sociedade seria melhor se as pessoas passassem mais tempo caladas, o debate sobre futebol seria bem melhor se não existisse.

Vem isto a propósito de uma recente opinião do Master Kodro no seu clube de sofistas da bola, a respeito do jogo que opôs o Barcelona ao Benfica. Diz o seguinte este Górgias de meia-tigela, acerca daquilo a que decidiu chamar "a pureza do sistema":

"o Barcelona, na primeira parte, foi um buraco defensivo. Parece que não é preciso esperar para ver o que será o trabalho de Guardiola noutro lado. Ontem, com muitos outros nomes, já se conseguiu perceber onde é que começa e acaba o peso do sistema e o dos nomes que brilhantemente o interpretam."

Implícita no comentário está a ideia, aliás bem consensual, de que o trabalho de Guardiola dependeu praticamente apenas dos jogadores que interpretavam o seu modelo. Como é sabido, discordo inteiramente disto. E confesso que, pelo contrário, se houve coisa que ficou bem visível no jogo de quarta-feira foi que o modelo catalão tem tanta força que sobrevive à ausência dos seus melhores intérpretes. O nosso Górgias acha que um jogo serve de exemplo para alguma coisa; acha que problemas defensivos, ainda por cima apenas manifestos na primeira parte, permitem fazer inferências gerais; e acha ainda que o trabalho de Guardiola, que já não tem nada a ver com este Barcelona, tem a ver com o que se passou na quarta-feira. Se isto não são três ideias das mais estúpidas que se podem ter, não sei o que serão. Disse-se, acerca do jogo, que o Benfica dispôs de oportunidades suficientes para ganhar o jogo, que o Benfica foi superior ao Barcelona, e que o Barcelona, sem as suas principais pedras, foi uma equipa banal. O que posso dizer disto é que é uma idiotice pegada. Não sei que jogo viram estas pessoas, mas sendo verdade que o Benfica podia ter ganho (houve até quem dissesse que podia ter goleado), não é menos verdade que o Barcelona também o podia (aliás, o Barça teve mais oportunidades claras do que o Benfica). Na segunda parte, o Benfica não existiu. E, mesmo na primeira, as oportunidades que conseguiu criar foram mais a partir de erros catalães do que propriamente depois de jogadas desenhadas com critério. O Barcelona, com dez suplentes em campo e um que costuma ser titular mais vezes do que os outros (David Villa) a fazer um frete, com metade da equipa a rondar os 20 anos, a jogar a feijões, contra uma equipa que pressionou alto, teve 72% de posse de bola (e não foi só na sua defesa, como o disse Jorge Jesus), criou variadíssimas ocasiões, e, não obstante alguns erros defensivos, quase sempre erros individuais (de Montoya e de Adriano, a maioria das vezes), controlou amplamente a partida. Mas, ainda assim, há quem ache que o jogo tornou evidente que o sistema não tem nada a ver com o sucesso de Guardiola. Perdoe-se-lhes a estupidez.

Quanto ao que diz o nosso Górgias, é razoável que se lhe conceda que os suplentes do Barcelona não façam um Barcelona tão forte quanto o fariam os titulares. Mas também não sei em que equipa do mundo é que tal acontece. O que sei é que, mesmo com os suplentes, mesmo com uma base de miúdos, mesmo contra uma das 20 melhores equipas da Europa, o Barcelona impôs o seu estilo. Sim, teve alguns erros defensivos, é verdade. Mas, talvez o Górgias não tenha visto os jogos do Barcelona esta época, erros defensivos (sobretudo quando Piqué e Puyol não são a dupla de centrais) têm sido coisas que têm acontecido muito. Achar que permitir 4 ou 5 oportunidades a um adversário tornam evidente que um modelo de jogo não presta, quando o mesmo modelo lhes permitiu 72% de posse de bola contra uma equipa que pressionou alto (não foi o Celtic, enfiado na toca), ou seja, uma posse de bola sempre dentro do bloco do adversário e não à volta, é francamente estúpido. É evidente que, com estes jogadores, o modelo não é tão forte. Mas isso não invalida que, por si só, o modelo não tenha virtudes que nenhum outro tem. Também concordo com o Górgias: não é preciso esperar pelo próximo trabalho de Guardiola. Mas, ao contrário dele, não acho que seja preciso esperar por tal coisa não porque o jogo desta semana tenha evidenciado alguma coisa, mas porque não preciso de ver outra equipa a jogar à Barcelona para perceber que o que Guardiola fez não foi simplesmente adequar um conjunto de jogadores ao modelo que melhor os servia. Os estúpidos precisam invariavelmente de ver coisas e de verificar hipóteses. E mesmo os estúpidos que dizem que já não precisam de verificar nada dizem-no depois de terem verificado alguma coisa (ou julgam que verificaram). Também assim se distingue quem deveria estar calado.

Antes de terminar, 2 reflexões:

1) Pedro Henriques passou o jogo a dizer que aquele Benfica era mais forte do que aquele Barcelona. O Pedro Henriques, para além de estúpido, também é um bocado Górgias. Há 2 coisas a dizer sobre isto. A primeira é que, ao contrário do que Pedro Henriques pensa, o valor de uma equipa não é simplesmente a soma do valor absoluto de um jogador. Mas também não vou argumentar contra alguém que passou o jogo a dizer que era preciso marcar individualmente no meio-campo, pois o Barcelona tinha superioridade numérica nessa zona. As jaimepachequices não merecem esforços deste tipo. A segunda coisa é que, aceitando ainda assim o argumento de Pedro Henriques de que o valor de uma equipa depende da soma do valor das suas unidades, não é claro que aquele Benfica fosse assim tão superior àquele Barcelona. Disse o antigo defesa-esquerdo de segunda categoria, entretanto promovido a comentador e a macaquinho amestrado, que o único jogador do onze catalão que encaixava no onze benfiquista era David Villa. Será que ele viu Puyol em campo? E Song? E Thiago Alcântara? Será que Melgarejo é melhor do que Planas? E não era o Benfica que andava atrás do Tello? Se calhar ficava por aqui. Não, não fico. O André Gomes até tem qualidade, mas dizer que o Thiago Alcântara, o Rafael Alcântara, e sobretudo o Sergi Roberto não jogavam no seu lugar é no mínimo falta de medicamentos. Pelo contrário, eu é que vejo muito poucos jogadores do Benfica que pudessem tirar o lugar aos que jogaram na quarta-feira pelo Barcelona: Artur, Garay e Nolito seriam os únicos.

2) Há quem critique Rodrigo por não ter passado a bola a Nolito, na primeira grande ocasião do jogo. Gosto muito de gente que gosta de certos jogadores, mas que depois os critica por fazerem aquilo que sempre fizeram, ou seja, tomar más decisões. Se gostam de um tipo que é rápido e tem um bom pé esquerdo, e se o preferem ver em campo a alguém como Saviola, que não parecia fazer a diferença em termos individuais, não podem gostar apenas das coisas boas que ele tem. Têm de gostar de tudo. O Rodrigo sempre foi isto e nunca será outra coisa. Se dão tanta importância aos seus atributos técnicos e físicos, não podem ser incoerentes ao ponto de lhe criticarem aquilo em que nunca foi bom. Se gostam de ananás, não podem criticar um vendedor de ananás por não vender alperces no dia em que há apetite por alperces. Eu, que nunca gostei dele, estou à vontade para dizer mal do rapaz. É um jogador banalíssimo, que tem apenas uma característica interessante: as diagonais nas costas da defesa a solicitar o último passe. Tirando isso (o que dá para aí 99% do jogo), Rodrigo é banal. As suas decisões raramente são boas, e nunca jogaria numa equipa como eu entendo que uma equipa deve ser. O pai de Rodrigo veio defender o filho, tentando isentá-lo com uma frase maravilhosa, dizendo que ele não vira Nolito. Se não fizesse parte de um jogador de futebol ver os colegas, sobretudo em lances como este, tal frase podia ser uma boa desculpa. Como faz, não é desculpa nenhuma; é estupidez. Prova que o pai de Rodrigo não sabe que jogo o filho joga. Tal como o filho, de resto.

37 comentários:

Miguel insan disse...

Nuno perdes bastante quando começas a chamar estúpido a tudo o que vai contra as tuas ideias. A arrogância do teu discurso é chega a ser triste pois podias, perfeitamente, ensinar muito mais a quem aqui te lê.

Cumprimentos

Pedro disse...

Isto merecia um frente a frente com o PB do Lateral Esquerdo que gosta de Rodrigo e diz que o André Gomes é fraco! :)

Não concordo nada com o facto de tu não concordares que o Barcelona de Guardiola foi o que foi TAMBÉM pela qualidade fabulosa dos seus intervinientes. E sim, o jogo com o Benfica provou isso mesmo. O jogo com o SLB provou que o sistema de jogo do Barça é unico e qqr jogador q entre na equipa sabe o que fazer em campo e nada se altera no colectivo. O Pinto mete a bola jogável nos centrais que metem a jogar nos colegas...sempre com apoios, sempre em progressão sem com linhas de passe abertas. Correctíssimo. Mas a qualidade dos intervinientes faz a diferença. Pinto cometeu n erros a colocar as bolas, os centrais do Barça não conseguiam sair a jogar com tanta qualidade perante a pressão adversária como é habitual e o tica taca habitual não é tão perfeito, tão certinho na qualidade de passe e procura de espaços. Isso faz q o adversário cresça e possa causar mossa como o SLB ía fazendo. E isto além de ser óbvio é natural. Como tu dizes nenhuma equipa tem um 11 suplente ao nível do 11 titular. Este Barça com todas as rotinas do sistema de Guardiola mas sem os seus principais intervenientes não seria a equipa vencedora q foi. Atenção Nuno, não estou a põr em causa o trabalho de Guardiola, nada disso. Simplesmente a qualidade individual dos jogadores permite que o colectivo do Barcelona assuma proporções extraterrestes. Quando essa qualidade individual é reduzida o Barcelona fica muito mais acessível às outras equipas.

Ricardo Faria disse...

Concordo com o Nuno quando diz que este modelo de jogo mostrou que não precisa de ter os melhores intérpretes para ser jogado.

Imaginem qualquer outra equipa trocar 6/7/8 jogadores, num jogo a feijões, frente a um adversário como o Benfica e a jogar com a personalidade com que este Barcelona jogou. Depois, como é óbvio, jogadores como Xavi, Inieste, Busquets, Messi dão outra expressão e qualidade a esta forma de jogar.

Nuno, sobre o Planas apenas o vi jogar contra o Benfica (salvo erro o 2º jogo que fez) e, sem estar com grande atenção, não me agradou muito, falhando vários passes relativamente simples e com dificuldades a fechar por dentro. Qual a tua opinião sobre ele?

Pedro M Magalhães disse...

meu, tens alguém com quem falar? é que pessoas inteligentes neste mundo não são muitas e tu desatas a chamar estúpido a tudo o que não percebe de nada. tenho-te em boa conta, és vincadamente um dos poucos gajos que conheço que escreve bem sobre futebol, mas és demasiado elitista. ah, e o que é que te motiva para gostares de futebol? se fores a ver o básico da questão, são só vinte e dois gajos a correr num campo...

MM disse...

Ha uns dias quando li o 'post' do 4-4-2 imaginei que farias qualquer coisa parecida isto.

Sobre Rodrigo tudo depende do sitio onde jogue. Tal como Ronaldo, porque (digamos) a 'tipologia' e a mesma: se Rodrigo jogar na frente, se for o jogador do Benfica mais adiantado quando este tem a bola os defeitos reduzir-se-ao em 99% das situacoes a um minimo e as suas enormes qualidades ganharao relevo.

Rodrigo fez o que faz bem: isolou-se. Falhou a decisao, dizem, porque deveria ter dado a bola. Entendam que em futebol, quando o jogador tem a bola nos pes, nao existe decisao. Existe 'fazer', e 'fazer' mais nao e do que executar e pensar em simultaneo. Naquele momento sao a mesma coisa, nao existem processos em separado.

Faz-se. Nuno? Faz-se.
Interioriza: faz-se.
Nao e como escrever um texto onde podes 'decidir' que palavras usar, que ideias transmitir, apagar, reescrever, escolher.
Em futebol nao existe isso. Nao por falta de tempo mas porque simplesmente nao existe.

Ele falhou a execucao. Duas vezes.
A primeira quando nao deu a bola.
A segunda quando atirou ao lado.

Significa isto que Rodrigo e mau? Nao. 19 em cada 20 vezes ele fez / faz / fara golo na mesma situacao.
Noutras situacoes, noutros contextos, dara a bola ao colega do lado. Falhou porque estava a jogar no Camp Nou e porque tinha um bom guarda-redes no caminho, guarda-redes que sem tocar na bola foi responsavel por muitos dos falhancos do Benfica.

MM disse...

Se gostam de um tipo que é rápido e tem um bom pé esquerdo, e se o preferem ver em campo a alguém como Saviola, que não parecia fazer a diferença em termos individuais, não podem gostar apenas das coisas boas que ele tem. Têm de gostar de tudo. O Rodrigo sempre foi isto e nunca será outra coisa. Se dão tanta importância aos seus atributos técnicos e físicos, não podem ser incoerentes ao ponto de lhe criticarem aquilo em que nunca foi bom. Se gostam de ananás, não podem criticar um vendedor de ananás por não vender alperces no dia em que há apetite por alperces.

E mesmo isto, motivo pelo qual o jogador nao deve ser crucificado.

Manuel Nascimento disse...

MM, estás todo baralhado. E já cá andas há tanto tempo, neste e noutros sítios, que nem sei como tens coragem de vir fazer um comentário desses. E logo *neste* post. "..em futebol, quando o jogador tem a bola nos pes, nao existe decisao."

A sério? A sério que o "quando não deu a bola" é uma execução?

Não quero passar à frente do Nuno e responder por ele, até porque vai ter muito mais conteúdo e muita mais piada, mas... pá, tu além de saber ler, consegues perceber aquilo que lês? Ou não? Ou, pior, percebes e não concordas e os teus contra-argumentos são esses?

Eu acho que assim passas por um Górgia. É engraçado como mesmo sem quererem lhe dão ainda mais razão.

Pinto disse...

"...e acha ainda que o trabalho de Guardiola, que já não tem nada a ver com este Barcelona, tem a ver com o que se passou na quarta-feira. Se isto não são três ideias das mais estúpidas que se podem ter, não sei o que serão."

"Mas, ainda assim, há quem ache que o jogo tornou evidente que o sistema não tem nada a ver com o sucesso de Guardiola. Perdoe-se-lhes a estupidez."

Em que ficamos?

Blessing Lumueno disse...

Há aqui malta com doses elevadas de atrevimento...

Blessing Lumueno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MM disse...

Manuel Nascimento,

Li um dia uma série de comentários não lembro onde nem a que propósito e fiquei com a certeza que és um tolinho, porque falas de cor.

Eu percebo o porquê de algumas pessoas falarem insistentemente em 'decisão'. Consigo compreende-las e sei ao que estão a referir-se. O Nuno é uma delas.

Tu pensas que executar é um gesto. E imaginas que antes do gesto, um jogador faz uma escolha. Muitos realmente fazem.

Outros não fazem. Rodrigo é um deles. Poderia explicar-te porquê, mas não irias entender, porque és um autómato. Fica lá por isso com a tua teoria e os termos de Língua Portuguesa como 'decisão' que colam à teoria e tem um excelente domingo.

MM disse...

Além de seres tu o baralhado porque à excepção da referência ao 4-4-2, subscrevo este «post» da 1ª à última vírgula. Por inteiro, o que é muito raro lendo outra pessoa.

Manuel Nascimento disse...

MM,
Não sei se vou a tempo mas vou tentar corrigir os meus modos e começar do zero, porque ontem estive mal e fui mal educado. Não tens culpa nenhuma do que se passa deste lado e, embora continue a "concordar comigo", e pouco contigo, acho que devia ter posto a coisa noutros termos. Até porque hoje já te li muito melhor.

Devia ter começado por te perguntar porque é que consideras "...mas porque simplesmente nao existe" e porque é que colocas os teus dois exemplos de "execução" no mesmo saco.

Eu, deste lado, acho que há tomadas de decisão constantes ao longo do jogo. Há as boas e as más, mas existem. Isto não quer dizer que o processo seja "parar, ver, pensar e fazer", pois o processo de decisão, antes de servir como base para o que acabas por executar, é complexo e pode nem ser mensurável. Mas existe, tem que existir. Tu não fazes nada sem teres tomado a decisão de o fazer, acho eu. Claro que não tens o tempo que tens ao escrever um texto assim, ou um comentário destes, como disseste, mas até na recepção de uma bola existem tomadas de decisão, há alternativas que podem ser comparadas e há o optar por uma delas, pondo como exemplo.

No caso do Rodrigo acho que é ainda mais gritante: ele isolado tempo suficiente para pensar em tudo e mais alguma coisa, e decide rematar (e aqui decidiu mal porque, mesmo acreditando que "19 em cada 20 vezes ele fez / faz / fara golo na mesma situacao", se passa a bola ao Nolito é 20 em 20). Há metodologias de treino que tendem (ou pretendem) a limitar a tomada de decisão e a "formatar" equipas para jogar sempre do mesmo modo, no entanto isto não quer dizer que não se tomem decisões, à mesma. Acho que se estão sempre a tomar, seja em campo, no futebol, seja no teu dia-a-dia. Em tudo. Acho que todas as pessoas fazem escolhas; acho que todos os jogadores fazem escolhas. Há é aqueles que parece que não as fazem, o que normalmente dá em asneira porque são é maus nesse aspecto.

Obrigado por teres mostrado seres um tipo íntegro, coisa que eu não pareci ser com o meu comentário, e não teres respondido "à letra" e feito esta conversa descambar. Um abraço.

Nuno disse...

Pedro diz: "Isto merecia um frente a frente com o PB do Lateral Esquerdo que gosta de Rodrigo e diz que o André Gomes é fraco!"

Não sei se o PB ainda gosta assim tanto do Rodrigo. De qualquer maneira, ele sempre reconheceu que ele é fraco na tomada de decisão. A única diferença é talvez que eu dou uma importância maior a isso do que ele.

"Não concordo nada com o facto de tu não concordares que o Barcelona de Guardiola foi o que foi TAMBÉM pela qualidade fabulosa dos seus intervinientes."

Mas, Pedro, eu também acho que a qualidade dos jogadores teve influência na equipa que o Guardiola criou. O que acho é que as virtudes dos jogadores e as virtudes do modelo não podem ser confundidas.

"Este Barça com todas as rotinas do sistema de Guardiola mas sem os seus principais intervenientes não seria a equipa vencedora q foi."

Muitas vezes se esquece o contrário. Será que, sem o sistema de Guardiola, estes intervenientes viriam a ser o que são hoje? Hoje ninguém nega a qualidade do Xavi e do Iniesta, por exemplo. Mas antes de Guardiola o Iniesta não era titular, e o Xavi queixava-se de não o apreciarem. Olhamos para os jogadores hoje e achamos que eles seriam o que são hoje qualquer que fosse o percurso deles. Mas não é assim. Não fosse o modelo de Guardiola o que foi e a qualidade dos jogadores da qual dizem depender o modelo não seria a mesma.

Ricardo Faria diz: "Nuno, sobre o Planas apenas o vi jogar contra o Benfica (salvo erro o 2º jogo que fez) e, sem estar com grande atenção, não me agradou muito, falhando vários passes relativamente simples e com dificuldades a fechar por dentro. Qual a tua opinião sobre ele?"

Ricardo, o Planas teve uma ou outra falha, sim, mas não me pareceu que tenha sido nada de grave. Não foi muito afoito a atacar, e pareceu um bocado encolhido, mas gosto muito mais dele do que o Montoya, por exemplo, que é da mesma geração. A minha opinião sobre ele, aliás, é muito boa, ainda que reconheça que, neste jogo, não esteve brilhante.

Pedro M Magalhães diz: "ah, e o que é que te motiva para gostares de futebol? se fores a ver o básico da questão, são só vinte e dois gajos a correr num campo..."

As decisões. Ver futebol, para mim, é ver tipos a tomar decisões em microssegundos. É por isso também que futebol não são só 22 gajos a correr.

Nuno disse...

MM diz: "se Rodrigo jogar na frente, se for o jogador do Benfica mais adiantado quando este tem a bola os defeitos reduzir-se-ao em 99% das situacoes a um minimo e as suas enormes qualidades ganharao relevo."

Não, MM, não. Se jogar na frente, as suas acções não são só aquelas em que ele é bom. Daí que não se reduzam as situações em que normalmente comete erros.

"Entendam que em futebol, quando o jogador tem a bola nos pes, nao existe decisao. Existe 'fazer', e 'fazer' mais nao e do que executar e pensar em simultaneo."

Não, MM, não. Existe decisão. É isso que faz a diferença entre o Rodrigo e um tipo que, naquela ocasião, nunca tentaria o que ele tentou. Que me digas que um jogador tem tão pouco tempo para decidir que não pode fazer cálculos, imaginar soluções, ponderar, tudo bem. Que não decide é falso. Decide, sim. E os melhores distinguem-se precisamente por aprenderem a precisar de pouco tempo para decidir. Aliás, o futebol é muito mais um jogo de decisões do que um jogo de execuções, se é possível estipular diferenças. Por outras palavras, é muito mais um jogo do tipo do xadrez do que de um jogo tipo voleibol.

Pinto diz: ""...e acha ainda que o trabalho de Guardiola, que já não tem nada a ver com este Barcelona, tem a ver com o que se passou na quarta-feira. Se isto não são três ideias das mais estúpidas que se podem ter, não sei o que serão."

"Mas, ainda assim, há quem ache que o jogo tornou evidente que o sistema não tem nada a ver com o sucesso de Guardiola. Perdoe-se-lhes a estupidez."

Em que ficamos?"

Pinto, tens razão. Existe alguma ambiguidade. Deixa-me tentar esclarecer. Acho idiota tentar extrair de qualquer jogo de Barcelona actual, que não é orientado pelo Guardiola, conclusões acerca do que o Guardiola vai fazer noutro lado. Acho-o por uma razão simples: porque não sabemos o quanto daquilo que se passou na quarta-feira se deveu a Vilanova, a Guardiola, aos jogadores que estavam em campo, a índices de motivação, etc.. Apesar disso, é consensual que o Guardiola legou algumas coisas a esta equipa, nomeadamente a facilidade com que sempre se "superioriza" aos seus adversários com bola. O que eu acho é que essa superioridade, que foi manifesta, nem que seja, pelos 72% de posse bola, está intimamente ligado ao sucesso do Guardiola. Já que outras incidências do jogo (como os passes falhados, a menor motivação de alguns jogadores, ou os erros individuais) permitam concluir coisas sobre o trabalho do Guardiola tenho mais dúvidas. Assim se explica a aparente ambiguidade.

Daniel Santos disse...

considera-se portanto um suprasumo da area com autoridade para poder falar deste assunto tao restrito que é o futebol? olhe que talvez mourinho ou guardiola tenham passado por aqui, lido os seus textos e pensado: "que gorgias é este Nuno, nao percebe nada de futebol...".

Os melhores cumprimentos e seja mais tolerante com a critico ou com quem discorda das suas ideias.

Daniel Santos

MM disse...

Manuel Nascimento, não te preocupes com isso e devolvo-te o abraço. Sócrates tinha razão: existe a grande possibilidade para uma plateia ser mal-conduzida pela retórica. Dar-te-ei um exemplo: quem ler este texto julgará que Górgias foi alguém com maus intuitos, sem conteúdo, ou que vendia gato por lebre. Tratou-se de um indivíduo brilhante. Nuno está, por isso, a conduzir-se mal e a conduzir a sua plateia mal. Nas palavras do delegado da diocese, está a vestir a pele de Górgias.

Concedo na perspectiva de quem consome, mais importância a Sócrates (ou daria), mas gosto de Górgias (ou gostaria). Assumo-as. E a mesma plateia que escuta a retórica de Górgias, escutará as palestras conforme lógica, política e filosofia de Sócrates. Se enveredasse no tipo de acto público. Que não acontecia.

Não me importo que (me) insultes, insinues não saber ler, ou não perceber o que eu próprio escreva. Mas fá-lo de uma forma simpática, porque ao contrário destruirás a possibilidade para que eu aprenda contigo. E eu não quero sucumbir à ignorância. Se Górgias desse a Sócrates trabalho para casa, seria este: praticar sorrisos e a rima leve porque ninguém gosta de gente carrancuda e toda a gente gosta de música. Claro, num outro nível ainda público mas dotado de importância superior, o património colectivo da humanidade onde o saber inclui-se tem de estar nas mãos de Sócrates e não de Górgias.

Sobre o Cristiano Ronaldo, Rodrigo e tomada de decisão em futebol, compreendo o que dizes.

Imagina que Rui Patrício joga a bola com a mão nos pés de Cédric. Cédric recebe-a e algumas coisas começam a acontecer à sua volta. Um ou mais jogadores do Sporting aproximam-se, outros afastam-se, umas e outras, em si mesmo, decisões, tomadas naquele momento mas também treinadas pelos próprios e pelo senhor Vercauteren, presumo. E alguns adversários aproximam-se também. Cédric decidirá o que fazer. Tem de fazê-lo. Não pode pegar na bola com as mãos e levá-la para casa porque o seu trabalho é estar ali àquela hora a fazer aquilo.

Aqui existe decisão e 90% de um jogo de futebol para 99% das equipas é isto. É a nossa realidade - a coisa não é praticada frequentemente por quem sabe mas por quem decide praticar e adquire competência a fazê-lo, motivo pelo qual os treinadores são - diria - 89% da fórmula de sucesso de uma equipa. Depende quase tudo deles. Os outros 10% são jogadores, 1% destino.

São decisões.

Mas imagina que Rui Patrício dali a 6 minutos no lugar de entregar a Cédric, dá na esquerda a Roberto Carlos. A dimensão é outra. Aqui, independentemente do que acontecer à sua volta, Roberto Carlos fará o que tem de fazer. Não tomará decisões. Executará, tratará do assunto. Consegues colocar-te na minha mente e entender onde quero chegar já que os termos (palavras) que usamos podem ser as mesmas mas possuir significados diferentes ou diferentes nuances?

Manuel Nascimento, no meu «blogue» afirmei hoje que Hugo Viana, Carlos Martins e João Moutinho são melhores jogadores do que Cristiano Ronaldo ou Nani. Não é uma opinião, mas certeza. Aquilo que tratamos por «decisão» ou «critério» é cérebro, inteligência. Jogadores que têm-no são realmente os muito bons. Os outros podem ser astros mas não têm a qualidade dos primeiros. Os segundos não tomam boas ou más decisões - não têm talento para tomar outras. Os primeiros, tal como andar de bicicleta, simplesmente fazem.

Um abraço.

MM disse...

Nuno, no caso de Rodrigo: deve jogar como homem mais adiantado, à frente de todos os outros. No caso de Ronaldo, deverá jogar o mais próximo possível da baliza, mas não como pivô.

Manuel Nascimento só mais uma coisa sobre Rodrigo. Os treinadores podem com exercícios treinar-lhes comportamentos, ou sugerir-lhes via treino processos «decisórios». PB no Lateral Esquerdo deu um exemplo para Rodrigo relativamente ao falhanço em Camp Nou. Acho que dependerá dos treinadores, se acham que vale ou não a pena. Mas fazem-no para todos ou só para alguns?, porque falhanços como aquele ou piores existem centenas por jogo em todas as zonas do campo. E se fizerem-no correm o risco de baralhá-los (mexer numas qualidades comprometendo possivelmente outras)? Rodrigo é um bom jogador e imagina que amanhã não aparece isolado face a Pinto mas entra na área de outra forma, e tem enormes possibilidades de atirar com sucesso porque apesar das aparências o melhor enquadramento com a baliza não é o frontal. Esse é dos piores.

Rodrigo não quer zangar-se com PB e começa a interiorizar que tem de entregar sempre a bola. Não estou a dizer que irá interiorizá-lo. Estou a imaginar. Sairemos nesse caso com prejuízo porque o jogador poderá perder qualidade.

Centro de Jogo disse...

Boas Nuno,

Sobre Rodrigo, também já o tinha referido, acho que está inflacionado! A minha única dúvida deve-se ao modo como joga pela Selecção Espanhola. Não que o faça com excelência, mas sim por ter pormenores diferentes. Não sei até que ponto o contexto não lhe retrai ou inverte determinados comportamentos (ou melhor, de certeza que o faz, não sei é se ele tem consciência disso, se tiver, então tem ainda alguma coisa para evoluir). Mas concordo, não é o meu jogador preferido e acho que nunca será o que já se quis fazer dele.

Sobre Thiago A. pouco há a dizer. É vê-lo pressionado em mais que um sentido dentro da sua área e analisar a forma como reage a isso, a tentar descobrir uma forma de sair dali com a bola controlada, deixando-a jogavel para os companheiros. Não precisa de se dizer mais nada! Mas fiquei fascinado com Sérgio R., sabia que era bom (apenas o tinha visto uma vez) mas não tinha noção do tremendo potencial do miúdo.

O dia que JJ se preocupar com o modo como a equipa ataca, em vez de deixar que determinados jogadores agem apenas em função da própria qualidade, as suas equipas darão um salto qualitativo brutal.

Pedro Henriques peca por falar em demasia. Até nem desgosto da forma como ele "não respeita" a opinião geral, não tenta passar pelo intervalos da chuva, nisso tem mérito. Mas falta-lhe qualidade de análise é certo. Hoje disse umas quantas vezes que A. Young já não tinha pedalada para Zabaleta, como se o objectivo de Young passasse por não deixar Zabaleta correr por cima da linha lateral como se existisse um pote de ouro na bandeirola de canto! Ainda não se apercebeu que o espaço não se controla apenas e somente no número de jogadores (apesar de ter influencia) e no calcular da acção adversária.

Abraço, Jorge D.

Pedro disse...

"Será que, sem o sistema de Guardiola, estes intervenientes viriam a ser o que são hoje? "

Provavelmente não. Sempre defendi que o sistema de Guardiola e o trio Messi/Iniesta/Xavi encaixam que nem uma luva. É um sistema à medida dos jogadores e uns jogadores perfeitos para o aplicarem.

A dúvida que fica, por enquanto, no ar é se o sistema é mais forte do que a qualidade dos jogadores?

Blessing Lumueno disse...

A qualidade dos jogadores, está intimamente ligada ao modelo de jogo da equipa... Ou seja nem é mais forte nem mais fraca... São interdependentes...
Por exemplo, se colocares Ronaldo no lugar de Messi, o modelo se altera. Porque as qualidades de Ronaldo são diferentes das de Messi. E a capacidade de interpretação destes também difere...
O modelo pode ou não fazer realçar as melhores características de um jogador. Daí as diferenças entre os jogadores jovens que jogaram contra o Benfica e a guarda real de Pep.
Esses jovens não têm as características dos outros e normalmente como os modelos de jogo costumam ser abertos a criatividade, Xavi, Iniesta, Messi, Pedro, Busqets, Pique e etc... Interpretam e criam de forma diferente de todos os outros e mesmo uns dos outros...
As características dos jovens podem não ser as melhores para esse modelo e as características do modelo podem não ser as melhores para esses jovens... O modelo fica melhor se tiveres jogadores de melhor qualidade e os jogadores ficam melhores se o modelo for direccionado para as suas melhores qualidades.

É uma relação interdependente... Sem um não existe o outro e vice versa... Porque a prova máxima são todas as equipas que têm modelos muito bons e bons princípios e depois não ganham campeonatos, ficam a meio da tabela, de um ano para outro as vitórias parecem desaparecer... Etc etc etc... E o mesmo para os jogadores... Xavi se farta de dizer que no Real Madrid iria sofrer... Devido ás diferenças de modelo de jogo. O do Real não ia evidenciar as suas melhores características tanto quanto o do Barcelona.

Blessing Lumueno disse...

Toda gente sabe o que o Jesus gosta nos jogadores da frente... Adora cavalos... E está tudo dito por aí...
Eu me lembro no seu primeiro ano, num jogo que fui ver ao estádio Cardozo tem uma situação similar, pode entregar ao Carlos Martins e decide pelo remate e falha... Carlos Martins protesta muito muito com ele durante alguns minutos... E na conferência de imprensa, perguntaram ao senhor treinador do Benfica o que ele achou dessa situação... Vocês se lembram do que ele respondeu? Que a partir daí está tudo dito...

Blessing Lumueno disse...

Olá MM... Então se Rodrigo não percebe o espaço onde está... O espaço a sua volta... A posição dos adversários em relação a baliza... E a posição dos colegas... Pode ser chamado de jogador de futebol?
É que eu tenho a certeza que ele percebe tudo isso... E passando a bola para o lado, naquela situação específica, não em outra qualquer, mas naquela, a probabilidade de a equipa fazer golo é de 99%... Se tu me dissesses que pelo enquadramento Rodrigo tinha 98% de fazer golo, eu ainda assim preferia que naquela situação... Ele tivesse decidido pelo melhor para a equipa, que era dar a oportunidade de aumentar a probabilidade de fazer golo... Isso seria fazer o melhor para a equipa e decidir BEM... ele decidiu mal e tentou fazer o melhor para ele... Mas se um jogador não faz tudo ao seu alcance para ajudar a equipa, esse jogador para mim não serve... E tem de começar a melhorar nesse aspecto...
No Barcelona farto de ver golos fáceis estou eu,onde jogadores isolados com bbom enquadramento, fazem o passe para o colega ao lado...

Abraço

MM disse...

Blessing, percebe isso tudo e mais. Mas rematou à baliza. Achas que nas tais 20 ocasiões idênticas atirará as 20 para a baliza? Não. Devemos presumir que remata nalgumas ocasiões e dá a bola noutras por ser cego ou ter dificuldade em perceber que Nolito está em melhor posição? Acho que não. Era difícil dar a bola ao Nolito? Era uma «decisão» complicada de tomar?

Se fosse benfiquista também +referiria que tivesse dado a bola.

É que neste caso já falamos de 2 níveis de «decisão», porque a mente humana diagnostica ao mesmo tempo que trabalha as soluções. Onde ficamos?

A situação é aquela. Tem a capacidade para ler e perceber o contexto. Sabe e tal como tu não duvido que tem (ele) perfeita noção que Nolito está melhor colocado para fazer golo. Sabendo-o, sabe também qual é a melhor decisão a tomar. Conhecendo a melhor decisão, não a tomou. Porquê? Decidiu mal? Claro que sim, não existe realmente palavra no léxico que (talvez) se aproxime do que pretendemos demonstrar.

Mas será mesmo que decidiu mal? Ele tinha consciência dos riscos. Conhecia a melhor solução.

Não decidiu mal (digo-o). Simplesmente atirou à baliza.

Já imaginaste que fê-lo porque era quase tão fácil fazer golo quanto dar a bola no Nolito? Digo-te que sim, era. Já imaginaste que naquele momento em micro-milésimos-de-segundo-quase-instantaneamente-porque-joga-aquilo-desde-os-5-anos-e-falamos-muitas-vezes-de-uma-prática-reflexiva, na condição de praticante contempla a matemática que lhe diz:

. com uma acção, farei golo.
. se der a bola, é precisa a minha e a de outro para fazer golo.

E opte assim pela primeira por correr menos riscos.

Mais importante Blessing, não para o jogo mas para a discussão que estamos a ter porque os exemplos ajudam-nos a compreender as coisas à nossa volta: tu és treinador de futebol, certo? Treinas certamente tipos que jogam tão bem futebol quanto calhaus da calçada. Faz lá um exercício e mete o calhau a fazer de Rodrigo. Queres apostar como dará a bola ao colega do lado 15 em cada 20 vezes?

Tenho a certeza que no fim do exercício não dirás que o calhau «decide» melhor que Rodrigo.

Definitivamente, achas que se Rodrigo estivesse aqui não diria tal como tu que o jogador na cassete decidiu mal? Di-lo-ia. Mas uma coisa é olharmos para a realidade como um retrato. Outro é perceber porque acontece.

Não decidiu mal. Rematou.

Um abraço.

Blessing Lumueno disse...

Olá MM.

Gostei das tuas metáforas, sem ironias e aqui fica uma pequena história.

Era uma vez um menino na segunda divisão nacional de juniores. Esse menino tinha dificuldade em compreender o "egoísmo" de seus colegas em situações "semelhantes" a do Rodrigo. Esse menino, nos treinos, em 100 situações semelhantes, passava a bola para o lado em todas elas. Se os colegas faziam sempre golo? Não. Se era a decisão mais acertada, para ele? Sim era. Nalgumas das vezes em que se fez golo e nas vezes em que não se fez o treinador dizia: Chuta, assume a responsabilidade, se não chutarmos não fazemos golos. E o menino pensava para si mesmo, mas o passar esta bola a um colega em melhor posição, estou claramente a fazer golo! E continuava a passa-la para o lado.
O treinador tinha por hábito discutir o jogo no treino seguinte, pedindo a opinião dos jogadores. E num jogo onde a equipa estava a ganhar por 3-0 a 10 minutos do final, uma situação similar acontece. A equipa falha o golo, porque um jogador decidiu por não passar a bola. Esse menino foi ao dicionário procurar o significado da palavra EQUIPA e de todos os seus sinónimos e apresentou a equipa. Depois rigidamente criticou o seu colega a frente de todo grupo e treinador, pois ele pensava que numa situação em que a equipa precisasse realmente daquele golo, caso o seu colega votasse a decidir "mal", na opinião dele, a equipa iria pagar a factura.
Continua...

Blessing Lumueno disse...

...
Pelos vistos és da opinião do meu treinador, na altura.

Eu enquanto jogador, já não o compreendia. E agora (embora não tenha deixado de jogar, se bem que a nível distrital) enquanto treinador ainda concordo menos.

Para mim essa situação é simples...

Se tu decidires por rematar a baliza, estás a travar uma luta com: Bola,GR,Relvado e contra ti mesmo (4factores que podem contribuir para o insucesso da acção).
Se tu decidires por passar ao colega do lado lutas com: Bola,Relvado e contra ti mesmo (3 factores).

Ou seja, tiras um factor de impedimento do sucesso da tua acção e que factor! Ou seja, estás a aumentar de sobremaneira as probabilidades de sucesso no objectivo golo.

Para mim, que nem por sombras jogo/joguei/poderia jogar melhor futebol que o Rodrigo, nessa situação, eu daria sempre, sempre a bola para o lado porque tenho para mim que isso é a melhor decisão. Nolito até podia falhar, mas eu tinha tomado a decisão certa na minha opinião.

Nunca posso criticar um jogador, por ter tido uma opção certa e ter falhado por motivos técnicos ou por influência directa do adversário. Agora se falhou por ter tido uma má decisão, a história é outra. E olha que eu nem desgosto do Rodrigo!

Abraço

PB disse...

Nuno, confessa que pelos parâmetros do Blessing tu davas a bola. Já lutares contra a bola é fdd, qt mais contra o gr!!!

ahahahahah

brincadeira. Já vi uns videos teus c o Gonçalo. Aimar/Saviola :)

MM disse...

Blessing, obrigado por partilhares a história. Eu subscrevo que Rodrigo falhou a «decisão», e não acho que "devemos chutar porque se não chutarmos não há golos". Faço apenas é um conjunto de associações ao termo «decisão» que não se resume em:

. decidiu bem.
. decidiu mal.

Não é assim tão simples. Na minha cabeça pelo menos. Embora em última análise repita que decidiu mal - concordo.

Sobre a história subscrevo a mensagem passada, e a pedagogia certa é a tua embora no futebol de crianças o jogo é um meio de expressão individual, nem nenhuma criança aprende a jogar passando a bola. As crianças com menos jeito é que têm de passar a bola porque se ficarem com ela vão perde-la. Como é que se joga então de forma colectiva entre crianças? Os melhores têm de dar a bola aos piores, não podem jogar só entre eles e os que fizerem-no são más crianças, digamos. Assim: os que têm mais jeito têm de passar aos que têm menos jeito mas os últimos têm de passar mal recebam a bola, porque tendo menos jeito não faz sentido que fiquem com a bola durante muito tempo. Assim todos participam. Em matéria de jogo: não se aprende passando, aprende-se progredindo, literalmente, a criança pega na bola e leva-a, passando por outros conduzindo-a. Não são necessários truques de habilidade nem fantochadas. Trata-se de passar pelos 'outros' e criar o hábito, tirando-os do caminho com um toque para o lado e sempre em progressão. É assim que nos familiarizamos com o conceito de jogar no meio de gente e aquilo no fundo faz-se sem pensar.

Se obrigares uma criança a passar sempre a bola e estiveres constantemente a massacrá-la com isso e ralhares com ela por tudo e por nada ela perderá o interesse pelo jogo e vai fazer outra coisa qualquer. O futebol tem de divertir, é um jogo.

Abraço.

Hugo disse...

É sempre triste quando alguém para vincar as suas ideias, precisa de insultar os outros.

Blessing Lumueno disse...

Claro... Mas para uma criança, tudo deve ser instintivo e o treino tem de ser aberto e livre e guiado de forma a que por eles próprios percebam quais são às melhores soluções ou o que funciona e que não funciona.

MM disse...

Sem dúvida Blessing, aprende-se a jogar futebol. Mas só depois de se saber jogar futebol. Saber é mais difícil, raro, e para saber é necessária intuição e talento. Para aprender é (imagino) necessário um bom professor e ser-se bom aluno. Um abraço.

Nuno disse...

Daniel Santos diz: "considera-se portanto um suprasumo da area com autoridade para poder falar deste assunto tao restrito que é o futebol?"

Os meus argumentos falam por mim.

Jorge D. diz: "Mas fiquei fascinado com Sérgio R., sabia que era bom (apenas o tinha visto uma vez) mas não tinha noção do tremendo potencial do miúdo."

Pois, eu também já gostava dele, mas desta vez convenceu-me por completo.

Pedro diz: "Sempre defendi que o sistema de Guardiola e o trio Messi/Iniesta/Xavi encaixam que nem uma luva. É um sistema à medida dos jogadores e uns jogadores perfeitos para o aplicarem."

Pedro, isso dizes tu agora. O Messi não era o que é hoje. Aliás, o Messi nem sequer foi dos primeiros a encaixar perfeitamente neste modelo. No primeiro ano do Guardiola, os únicos que o percebiam verdadeiramente eram o Xavi e o Iniesta.

MM diz: "Já imaginaste que fê-lo porque era quase tão fácil fazer golo quanto dar a bola no Nolito? Digo-te que sim, era."

MM, tens a certeza de que já jogaste futebol? E na televisão, já viste? Os avançados falham metade destes lances de 1 para 1 com o guarda-redes. Quase tão fácil fazer golo como fazer um passe para o lado???

"As crianças com menos jeito é que têm de passar a bola porque se ficarem com ela vão perde-la. Como é que se joga então de forma colectiva entre crianças? Os melhores têm de dar a bola aos piores, não podem jogar só entre eles e os que fizerem-no são más crianças, digamos. Assim: os que têm mais jeito têm de passar aos que têm menos jeito mas os últimos têm de passar mal recebam a bola, porque tendo menos jeito não faz sentido que fiquem com a bola durante muito tempo. Assim todos participam. Em matéria de jogo: não se aprende passando, aprende-se progredindo, literalmente, a criança pega na bola e leva-a, passando por outros conduzindo-a. Não são necessários truques de habilidade nem fantochadas. Trata-se de passar pelos 'outros' e criar o hábito, tirando-os do caminho com um toque para o lado e sempre em progressão. É assim que nos familiarizamos com o conceito de jogar no meio de gente e aquilo no fundo faz-se sem pensar."

MM, isto é provavelmente das coisas mais imbecis que já ouvi. Aprende-se progredindo e não passando??? Que parvoíce é esta? A passar aprendem-se umas coisas; a progredir aprendem-se outras. O que estás a defender é que uns têm jeito e outros não têm. Os que têm jeito devem ser incentivados a progredir, os outros a passar. Isto independentemente da situação. Aprender não é nada disto. O que os miúdos devem aprender é em que situações devem passar e em que situações devem progredir. Mais nada.

"Se obrigares uma criança a passar sempre a bola e estiveres constantemente a massacrá-la com isso e ralhares com ela por tudo e por nada ela perderá o interesse pelo jogo e vai fazer outra coisa qualquer."

Sim, porque o futebol só diverte se a criança souber fintar. Mais uma vez, MM, parece-me que estás 50 anos atrasado no tempo.

"Mas só depois de se saber jogar futebol. Saber é mais difícil, raro, e para saber é necessária intuição e talento."

MM, em resposta a isto, convida a que leias o texto anterior. Estás convencido de que há intuições e talentos especiais, de que há crianças que nascem favorecidas para a prática do jogo, e que essas têm ou adquirem um saber qualquer que é anterior à aprendizagem. Isso é tudo um disparate. Só há aprendizagem. Umas aprendem melhor do que outras, só isso.

Ricardo Faria disse...

Ainda sobre a questão do Rodrigo vejam o 1º golo do Schalke hoje: http://www.tvgolo.com/match-showfull-1355614766---43

Neste golo o defesa ainda está mais perto do que no lance do Barça...

MM disse...

Nuno, em casa 'post' que fazes invariavelmente escreves na caixa de comentários 'isso é das maiores imbecilidades que já li'. E respondes nessa exacta (e pouco original) forma a qualquer pessoa intrometendo-te inclusivamente em conversas onde não participas. Não te cansas de ser parvo?, ou complexado? Há uma diferença enorme entre os 'posts' que escreves e o que comentas nesta caixa e acho que deverias ficar-te pela publicação, por dois motivos:

1) percebe-se (eu percebo pelo menos) que precisas de muito tempo para produzir, és um tipo pouco natural.
2) não tens habilidade para dialogar.

Sobre o conteúdo do que afirmaste, um bom jogador de futebol não 'finta'. As fintas são um recurso de futebolistas habilidosos que querem dar nas vistas. A técnica de um futebolista é incomensuravelmente mais importante do que a habilidade e um bom futebolista usa-se da técnica para passar pelos adversários com a bola sem que os 'finte'. Não sei aliás por que motivo mencionaste 'fintar' em oposição a 'passar', mas suspeito porquê.

No resto se achas que uma criança aprende a jogar futebol passando a bola, estás enganado.
Se leste no que disse ao Blessing que uma criança deve jogar agarrada à bola, estás também enganado.
Se achas que não existe intuição nem talento e só aprendizagem enfim, continua a aprender ou a estudar, mal não te fará ...

Mas não será por aí que a bola te atrapalhará menos.

Achas que não existe talento nem intuição porque não tens talento nem intuição. É por isso Nuno. Quanto ao 'post' anterior acho que deverias seguir os teus próprios conselhos e falar só de futebol ou do Barcelona ou de Guardiola.

Cumprimentos.

Nuno disse...

MM diz: "A técnica de um futebolista é incomensuravelmente mais importante do que a habilidade e um bom futebolista usa-se da técnica para passar pelos adversários com a bola sem que os 'finte'."

MM, como é que, sem usar um colega, ou seja, sem passar a bola, alguém consegue passar por um adversário sem que o finte? Pedindo-lhes com jeitinho que se desviem?

"Não sei aliás por que motivo mencionaste 'fintar' em oposição a 'passar', mas suspeito porquê."

Porquê?

"No resto se achas que uma criança aprende a jogar futebol passando a bola, estás enganado."

MM, aprende a jogar aprendendo quando deve passar e quando deve fazer outra coisa. Aprende a jogar aprendendo contextos de decisão.

"Se leste no que disse ao Blessing que uma criança deve jogar agarrada à bola, estás também enganado."

Disseste ao Blessing e disseste agora mesmo neste comentário que não se aprende a jogar passando a bola, mas sim passando pelos adversários em condução. Cheira-me que isto significa que acreditas que a criança aprende a jogar agarrada à bola.

"Se achas que não existe intuição nem talento e só aprendizagem enfim, continua a aprender ou a estudar, mal não te fará ..."

Queres pelo menos dizer onde é que aprendeste que existem? Ou em que argumentos te baseias para acreditar que existem? Talvez te consiga demonstrar que és tu quem precisa de continuar a aprender ou a estudar. E quem te garante a ti que não estudo sobre isso?

"Achas que não existe talento nem intuição porque não tens talento nem intuição. É por isso Nuno."

Extraordinária conclusão! Sobretudo depois de, nesta mesma caixa de comentários, alguém que já me viu jogar se ter referido aos meus atributos futebolísticos da maneira mais elogiosa possível. É precisamente por achar que tenho, em quantidades assinaláveis, qualidades a que muita gente gosta de chamar "talento", que acho que o talento não é coisa com que se nasça. Isto porque sei perfeitamente como é que o adquiri: jogando muito, treinando muito, pensando muito sobre o jogo, imaginando muito. Aliás, tenho uma teoria parecida com a tua, mas às avessas. E às avessas funciona, sabes. Quem nunca teve talento, quem nunca foi grande espingarda a jogar futebol, ou quem nunca pensou a sério sobre a forma como o adquiriu, é que pode achar que o talento é algo anterior à aprendizagem do jogo. Quem nunca teve talento é que precisa de acreditar que havia qualquer coisa que, à partida, o impediu de ter sido um grande jogador de futebol. Assim consegue dormir mais descansado. Eu, que não tenho grandes problemas em não ter sido um grande jogador de futebol, não preciso de acreditar que sou geneticamente diferente do Messi. Sou igualzinho. Ele não nasceu mais favorecido do que eu para se tornar no melhor do mundo. Não me tornei no melhor do mundo não por não ter o "talento inato" do Messi, mas porque o Messi teve uma vida diferente da minha, passou por experiências diferentes, desenvolveu respostas cognitivas diferentes, etc..

"Quanto ao 'post' anterior acho que deverias seguir os teus próprios conselhos e falar só de futebol ou do Barcelona ou de Guardiola."

O que eu gostava era que tu argumentasses, em vez de dares conselhos. Explica-me por que é que achas que os talentos são inatos, e não, como eu acho, que são coisas que se aprendem em vida, e talvez seja possível ter uma discussão racional. Sem isso, os teus conselhos são só ruído.

MM disse...

Dei-te conselhos sem realmente desejar da-los. Respondi-te ja que entendeste por bem falar em 'imbecilidades'. Es um sujeito desagradavel. Passa bem e nao estou interessado em trocar nada contigo.

Nuno disse...

Pois, logo vi que era difícil passar do mero barulho para uma conversa racional...