quinta-feira, 8 de março de 2007

Em defesa dos grandes

Só os que fazem por isso merecem respeito. Talvez por isso, se Materazzi tropeçar na bola e oferecer um golo a um adversário, a nossa reacção seja uma gargalhada ou um insulto. Com outros, a história é outra. Riquelme falhou um penalty na meia-final da Liga dos Campeões na época passada, o que impossibilitou que a sua equipa chegasse à final, e nem por isso deixou de ser o herói que era para os adeptos do Villareal... Um dos melhores defesas centrais portugueses dos últimos anos arrisca-se a passar ao lado de uma grande carreira por pura ignorância de quem anda no futebol. Quando se fala tanto em Pepe para reforçar a selecção, ou se andam a convocar jogadores como Manuel da Costa, é de assumir que a falta de competência do seleccionador nacional é, de facto, um caso sério.

Zé Castro chegou ao Atlético Madrid e assumiu-se quase imediatamente. Sorte? Não me parece. Na minha opinião, Zé Castro tem uma grande virtude: não é burro, como maior parte dos centrais. Disputa as bolas não para as mandar para a quinta (característica do grande defesa, para a generalidade do público) mas para capturá-las e dar início a novo ataque da sua equipa. E faz isto onde quer que esteja. Muitos podem alegar que um central deve é despachar a bola o mais possível. Errado. Muito errado! Defender bem é apenas metade do que um defesa central deve fazer. Outros podem reconhecer que Zé Castro tem muita classe, mas que, por não ir à bola como um touro investe contra um forcado, não tem grande futuro. Novamente errado. Sem fazer muitas faltas, sem ter entradas por trás, sem qualquer espécie de maldade, passando mesmo discreto, recorrendo apenas a um sentido posicional ímpar e à sua velocidade, Zé Castro é um defesa central de altíssima qualidade. Se são precisos exemplos para reconhecê-lo, poderíamos ir ver quantas vezes, por exemplo, secou Liedson. Depois de muito estudo, conclusão óbvia: sempre! A época transacta, por exemplo, num jogo contra o Benfica, deu um autêntico recital. Ganhou bolas no peito a que os avançados não chegavam de cabeça, saiu sempre a jogar com calma e confiança, iniciou maior parte dos ataques da equipa, etc. E é aqui que é preciso chegar. Um defesa que se limita a limpar a sua zona, com pontapés na bola sem nexo, inviabiliza, é certo, grande parte dos ataques adversários e até pode intimidá-los. Não permite, contudo, que a sua própria equipa inicie o seu ataque ou retenha a posse de bola de modo a que o adversário não tente novo ataque. Despejar bolas para a bancada é apenas uma forma de adiar o ataque adversário e não de o anular.

Em nome do bom futebol e da inteligência rara dos grandes jogadores, Zé Castro deve ter todo o apoio de quem realmente entende de futebol. E deve tê-lo não só porque mantém o espectáculo num nível de qualidade assaz agradável, como tem a categoria para entender que, ao contrário do que fazem maior parte dos seus companheiros de posto, para se ser um bom defesa é necessário contribuir para a qualidade de jogo da equipa. Um defesa não é só uma estaca, nem muito menos um Luisão... Esse tipo de defesas podem evitar que um adversário produza perigo numa determinada jogada, mas não ajudam em nada - e isso é certo - na construção de jogo da equipa. E se uma equipa é um todo, todos têm que construir, como todos têm que saber ocupar devidamente as suas posições no terreno. Além disso, ser-se agressivo ou alto não significa necessariamente ser um bom defesa. As grandes virtudes de um defesa são a inteligência, o posicionamento e a velocidade. Como é óbvio, se aliarmos a isto o tamanho, tanto melhor. Ora, Zé Castro tem isto tudo e ainda uma qualidade técnica invejável para um defesa.

Perante este cenário, apraz-me defender tão ilustre jogador das críticas que lhe possam dirigir. Há duas semanas, o Atlético Madrid não ganhou ao Real Madrid porque Zé Castro perdeu uma bola, aparentemente de maneira infantil, e permitiu o golo dos merengues. Vendo o lance novamente, percebemos o que aconteceu, de facto. Zé Castro, numa situação difícil, em vez de recorrer à arma preferida dos defesas, o pontapé estúpido, preferiu segurar a bola, levantar a cabeça e tentar proporcionar à equipa não só o conforto da posse bola como níveis de confiança mais altos. Correu mal. Ou porque demorou mais tempo a dominar a bola, ou porque o avançado se aproximou dele mais rapidamente do que esperava - o que é certo é que correu mal. Antes de conseguir entregar a bola, foi desarmado. É isto motivo para acharmos que aquilo que ele fez foi errado? Deveria Zé Castro ter sido prático naquela situação, não correndo riscos, entregando a bola ao adversário? Julgo que não. Jamais aquele que dispensa o risco tem a felicidade do êxito. Zé Castro foi fiel às suas ideias. Achando ignóbil despejar uma bola para se livrar de acusações que lhe pudessem dirigir caso o lance corresse mal, como correu, preferiu arriscar. Um defesa, quando despeja uma bola sem nexo, faz duas coisas: limpa a jogada, o que só é bom para a equipa a curto prazo, e limpa-se a si, delegando a eventual falência da equipa para outros companheiros ou para outros factores que não os erros individuais. Zé Castro, se tivesse jogado prático, além de ser mal jogado, estaria a fazer exactamente o mesmo que um jogador ao se demitir da sua função de habitual marcador de penaltys, entregando a responsabilidade a um companheiro apenas por não querer correr o risco, caso falhe, de ser julgado pelo erro. Nem sempre o melhor dá os melhores resultados. Mas é garantido que o melhor dá os melhores resultados a maior parte das vezes. Nem sempre jogar bem, da forma mais acertada significa sucesso. Mas de certeza que não há outro caminho mais lógico para se ter sucesso do que jogar correctamente. Zé Castro, além de tudo, revelou coragem. Coragem e inteligência, pois sabe que, apesar do erro, estava certo. É verdade que correu mal e que por isso o Atlético não somou 3 pontos. É verdade. Mas salvou-se a integridade ideológica de um jogador, integridade essa que pode bem ser a sua melhor arma para, daqui a uns anos, estar entre os melhores do mundo.

2 comentários:

HómémChóc disse...

Concordo plenamente contigo mas permite-me acrescentar só mais duas coisas.

As bolas chutadas para a frente por esses cepos, por norma são sempre ganhas pela equipa adversária ao contrário das que saiem jogáveis.

Uma equipa que jogue um futebol de domínio tem de fazer circular a bola e aí é importantissimo os centrais terem um mínimo de tecnica para fazer um passe a média distância. Os do pontapé para a frente não têm. Essas são as razões de não gostar de R. Rocha.

P.S. Parabéns pelo blog. É dos mais interessantes nas redondezas. U abraço

BAD-RELIGION disse...

Odeio o pontapé para a frente, mas ainda mais estupido é os centrais que até conseguem ganhar uma bola e ficar com ela dominada ou sairem a jogar sem pressão nenhuma dos avançados, e depois vá de uma biqueirada para a frente, ao bom estilo inglês... não é Luisão??

Epa, eu não vi o lance do Zé Castro, mas acho que o despachar uma bola nem sempre é uma solução estupida, as vezes é realmente o melhor, pior ainda é aqueles que querem sempre sair com a bola jogada e fazem um passe á queima para um colega de equipa e este perde a bola e dá golo, isso sim é passar a responsabilidade para os outros.

Para mim mau é quando se deve sair a jogar e manda-se a bola para a bancada, ou quando se deve mesmo mandar a bola para a bancada e tentam dar aquele adorno idiota... não é Butt?

O bom jogador é aquele que toma as melhores decisões nas alturas certas, não aquele que sai sempre a jogar...

p.s.: calma, eu sou fã dos centrais que saiem a jogar, isso sim é mostrar classe e inteligencia como se fala e muito bem no post, mas é so para fazer o papel de advogado do diabo e mostrar que nem sempre essa é a solução acertada, e a que é melhor para a equipa, mais vale ter uma bola na bancada do que uma no fundo das redes, não é Zé Castro? LOL