quinta-feira, 24 de junho de 2010

Di Maria e o Real Madrid

A especulação acerca da ida de Angel Di Maria para o Real Madrid tem sido insistente e o interesse dos merengues, ao que parece, não refreou com a chegada de José Mourinho. Antes da consumação ou não do negócio, gostaria de falar do jogador, da sua evolução desde que chegou ao Benfica e daquilo que pode fazer no futuro.

Quando chegou, relativamente desconhecido, muitos demoraram a perceber as suas competências. Afirmei peremptoriamente que se tratava de um jogador muito evoluído do ponto de vista técnico e que fora uma boa contratação. Do oito ao oitenta, as opiniões que antes desconfiavam do seu valor, defendem agora que se trata de um jogador extraordinário, que foi dos principais responsáveis pelo excelente campeonato do Benfica e que tem qualidade suficiente para jogar num grande clube europeu. Não concordo com nenhuma das três etiquetas acima. Acho que Di Maria tem qualidades, é um bom jogador, mas está longe de ser extraordinário, de ter sido dos jogadores mais importantes do Benfica e de ter qualidade para dar o salto para outras montras. Aliás, não acho que a sua evolução tenha sido tão pronunciada quanto isso.

Di Maria é um atleta cujas principais virtudes são individuais. Digo "individuais" por oposição a colectivas, mas o que quero, na verdade, dizer com isto não é apenas que se trata de um jogador individualista. Há jogadores cuja utilidade para o colectivo se resume àquilo que inventam individualmente. Não é neste grupo que quero colocar Di Maria, até porque me parece que o principal crescimento que teve nas mãos de Jorge Jesus foi o de pôr ao serviço de uma ideia colectiva as suas principais características. Há um segundo grupo de jogadores que, devidamente enquadrados, servem o colectivo de um modo individual. O que quero dizer com isto é que há jogadores cujas principais características são "individuais" e que podem ser úteis do ponto de vista colectivo apenas se o colectivo se adaptar a essas características e lhas requerer. Maior parte dos treinadores procura sistematizar um modelo de jogo que possa tirar partido das características individuais dos seus atletas e, conseguindo-o, conseguem também que a individualidade desses atletas tenha um sentido colectivo que antes não tinha. Foi o que Jorge Jesus fez com Di Maria. De certo modo, Di Maria não cresceu, não melhorou competências; o que se modificou foi que as suas competências passaram a servir uma intenção colectiva. Daí o seu futebol ter ganho algum sentido.

De acordo com esta sugestão, Di Maria não cresceu como jogador; beneficiou, isso sim, de as suas acções passarem a ter um sentido que antes não tinham. Foi portanto necessário, para que pudesse ser minimamente útil, que o colectivo tomasse a iniciativa de lhe incorporar a individualidade e que o modelo de jogo lhe concedesse certas regalias. O terceiro tipo de jogadores, do qual ainda não falei, é aquele cujas principais características são "colectivas". Estou a falar, claro está, da tomada de decisão, do sentido posicional, da inteligência, da cultura táctica, da criatividade, do talento, etc. Estes são aqueles que não precisam da adequação do modelo, são aqueles que, por perceberem o jogo, são capazes de se adequar à variedade dos modelos, desde que modelos que valorizem o colectivo, são aqueles que mantêm a bitola quando aumenta a exigência competitiva e a exigência dos próprios modelos. Di Maria não se insere nestes, nem tem, em muita quantidade, nenhuma destas características. É evidente que há coisas que um bom treinador, num curto espaço de tempo, consegue fazer perceber a um jogador que carece destas características, como seja o seu papel em campo, as suas responsabilidades tácticas, aquilo que se espera dele nos diferentes momentos do jogo, etc. Mas ninguém, por melhor que seja, modifica de um ano para o outro, a capacidade de decisão ou o talento de um atleta já formado. Jorge Jesus não mudou isto em Di Maria. Aquilo que fez foi conceder à velocidade e à capacidade de desequilibrar de Di Maria um papel importante no seu modelo. E isto, sobretudo porque o modelo tinha qualidade, fez com que o futebol de Di Maria ganhasse utilidade.

Ora, é aqui que entram o Real Madrid e José Mourinho. Ao chegar a Madrid, Mourinho tratou de mitigar a euforia em torno da contratação do argentino do Benfica. Não creio, porém, que tenha referido as principais razões pelas quais se deveria pensar melhor nessa contratação. Para ser honesto, é com algumas reservas que vejo Mourinho novamente interessado em contratar um atleta, tal como acontecera com Quaresma, que precisa de usufruir de várias regalias dentro do modelo de jogo da equipa para que consiga ter algum protagonismo. A dúvida em relação a Di Maria não terá a ver, por certo, apenas com o rendimento do jogador num campeonato mais competitivo e perante um grau de exigência superior. Essa dúvida deve ser posta essencialmente em confronto com aquilo que se espera do jogador. No Benfica, tal como Quaresma no Porto, Di Maria era a principal referência da equipa no momento de transição defesa-ataque e o modelo de jogo estava preparado para fazer uso do argentino nesse momento específico. Foi essa conjuntura que permitiu que as características individuais do atleta chegassem para que se tratasse de um jogador útil ao colectivo. No Real, a menos que seja concedido a Di Maria um papel e um protagonismo idênticos, não acredito que o rendimento do argentino venha a ser suficientemente bom. É com isto, creio, que Mourinho vai ter de lidar e é com base nesta ideia que a contratação do argentino deveria ser pensada.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A Primeira Surpresa e a Melhor Equipa

Na estreia daquela que era unanimemente considerada como uma das principais favoritas à vitória final na competição, a primeira surpresa. Os suíços, recorrendo a uma estratégia que, para gáudio dos pragmáticos, parece ser moda neste mundial, conseguiram levar de vencida os campeões europeus. Significa isto que está encontrada a fórmula mágica para vencer os espanhóis e todos aqueles que se impõem pela posse de bola? Há quem ache que sim. O Miguel, um dos nossos leitores, disse o seguinte há uns dias:

"A atitude para ganhar a Espanha é simples: organização na defesa e não deixar-se embalar pelo joguinho deles. E ver muitas vezes o Barcelona-Inter..."

Será que o Miguel tinha razão e que os suíços, ao fazer precisamente isto, encontraram um modo infalível de vencê-los? Só um tolo poderia achar que sim. Ou alguém que não tenha visto o jogo. A Espanha dominou do princípio ao fim, criou 8 ou 9 ocasiões de golo e sofreu um muito esquisito, não num contra-ataque, como parece que querem crer, mas no seguimento de um pontapé de baliza e após vários ressaltos muito felizes. O que se pode dizer é que a razão para a Espanha não ter vencido os suíços, mais do que ter sido a estratégia dos helvéticos e a fórmula mágica do Miguel, foi o simples acaso. Só por manifesta infelicidade é que os espanhóis não ganharam o jogo inaugural e o resto é conversa. A fórmula mágica é apenas mágica para quem acredita em magia. A Espanha fez o seu jogo e encontrou uma boa resistência do outro lado. Dominou, circulou a bola e penetrou várias vezes na defensiva adversária. Se não marcou, foi porque não conseguiu concluir as muitas jogadas que criou. Mais nada. Bastava que qualquer um desses lances tivesse dado golo e os suíços tinham imediatamente de mudar de estratégia. Já a selecção helvética jogou para o empate e acabou por ganhar. É por isso que o futebol é tão fascinante, porque permite a equipas mais fracas encontrarem estratégias que podem conduzir a bons resultados, ainda que para isso dependam muito da sorte. Ao contrário, porém, de muita gente, sobretudo dos comentadores televisivos que, após o primeiro jogo, já fazem da Suíça vencedora do grupo e concedem ao Chile ou à Espanha o segundo lugar, acho que os suíços estão muito longe de terem carimbado o apuramento. Em primeiro lugar, porque terão bastantes dificuldades para vencer as Honduras, até porque os hondurenhos deverão jogar de um modo parecido com aquele em que os suíços jogaram e a Suíça tem carências ofensivas muito relevantes, e depois porque o Chile é, a par da Espanha e da Alemanha, a equipa mais interessante a nível ofensivo, não fosse treinado por Marcelo Bielsa.

É precisamente aqui que quero chegar, ao Chile. Embora os cépticos do futebol ofensivo se centrem no resultado da Espanha para justificar o seu cepticismo, houve no mesmo grupo um jogo que serviu de contraprova dessa justificação. As Honduras jogaram como a Suíça e o Chile venceu. Os chilenos, como os espanhóis, são ofensivamente muito bons. Diria, até, que são a melhor equipa da prova, em termos colectivos, neste particular. São das poucas equipas deste campeonato que opta por um só médio-defensivo e das poucas que tem movimentos verdadeiramente colectivos na base da sua estratégia ofensiva. A facilidade com que a equipa conseguiu fazer passes verticais, introduzindo a bola entre as linhas hondurenhas, tem a ver com a capacidade colectiva da equipa e com a criação constante de linhas de passe nesse sentido. Ao contrário de selecções mais cotadas, como a França ou o Brasil, só para citar dois exemplos de equipas que não conseguiram superar um bloco defensivo baixo e solidário e que revelaram uma tremenda inépcia no momento ofensivo, os chilenos souberam sempre como penetrar no bloco hondurenho. É evidente que existe qualidade individual nisto tudo, com Matías Fernandez à cabeça, bem secundado por Valdivia, Isla e Carmona, sobretudo, mas há essencialmente mão de Marcelo Bielsa na forma como o colectivo se comporta. Não admira, portanto, a extraordinária fase de qualificação dos chilenos. É de Bielsa a responsabilidade por os laterais procurarem o meio como solução de passe; é de Bielsa a responsabilidade pela formação constante de apoios próximos ao portador da bola; é de Bielsa a responsabilidade pela movimentação educada sem bola dos médios, que permite à equipa contornar as zonas de pressão dos adversários; é de Bielsa a responsabilidade pela forma como a equipa cria zonas de pressão alta eficazes. Isto é uma lição. Uma lição aos cépticos e uma lição a treinadores como Dunga, Domenech, Queiroz e Capello. Uma lição que consistiu em demonstrar que não é só o momento defensivo que pode ser fruto de trabalho de um treinador. Deu também uma lição a Carlos Carvalhal, no que toca a demonstrar que só os tolos não aproveitam os mais talentosos.

O Chile pode não ir longe, até porque além de estar incluído no grupo mais difícil da prova, está no grupo que se cruza com o segundo grupo mais difícil da prova, mas este mérito já ninguém lhe tira. Marcelo Bielsa - lembremo-nos - é o mesmo que defende que, ao contrário do que se passa no momento defensivo, o momento ofensivo tem infinitas possibilidades:

"Jamás los técnicos obsesivos se preocuparon por jugar ofensivamente. Yo soy un obsesivo del ataque. Yo miro videos para atacar, no para defender. ¿Saben cuál es mi trabajo defensivo? "Corremos todos." El trabajo de recuperación tiene 5 o 6 pautas y chau, se llega al límite. El fútbol ofensivo es infinito, interminable. Por eso es más fácil defender que crear. Correr es una decisión de la voluntad, crear necesita del indispensable requisito del talento."

Não é por acaso, portanto, que o Chile joga como joga. O seu futebol é fruto do trabalho de um treinador que percebe que o momento ofensivo não pode ficar a cargo da inspiração dos jogadores mais talentosos, mas que deve ser, tal como o momento defensivo, resultado de um trabalho metódico do treinador. O Chile denota uma inteligência táctica, em termos ofensivos, extraordinariamente invulgar. E o que é irónico é que, numa competição em que as principais equipas europeias parecem incrivelmente ineptas do ponto de vista ofensivo, seja uma equipa sul-americana a ensinar como é que se faz. Mais irónico, só se pensarmos que, tirando a Espanha, a única equipa europeia que parece ter ideias é a selecção germânica. Num mundial em que, finalmente, parece haver mais equipas interessadas em defender do que equipas que joguem ao ataque, é de salutar que ainda existam selecções com outra filosofia. A bem do futebol, o Chile, a Espanha e a Alemanha são por isso as equipas em quem mais se deveriam centrar as atenções, sob pena de haver nova regressão na modalidade. Vamos ver que sorte lhes reserva este mundial.

P.S. Um dos comentadores do encontro do Brasil referiu, muito indignado, que um qualquer responsável norte-coreano teria sugerido que Portugal jogava como a Alemanha, e desmentiu-o categoricamente, como se isso fosse um ultraje para os portugueses. A verdade é que, como já tive oportunidade de referir, Portugal tem vindo a tornar-se, aos poucos, numa selecção germânica, uma selecção que dá preferência ao músculo e ao rigor táctico, uma selecção cautelosa, fria, mas na qual não abundam ideias. O mais irónico é que, pelo menos neste mundial, os próprios germânicos são menos germânicos que os portugueses. Por isso, se há algo a condenar na afirmação do norte-coreano, não é o facto de ser ultrajante comparar Portugal à Alemanha, mas o ultraje de comparar a Alemanha a Portugal.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Ballack, Schweinsteiger, Müller e Özil

Começou o mundial e estas são as primeiras notas acerca da competição. Devo adiantar, em primeiro lugar, que o blogue não procurará acompanhar exaustiva e regularmente o campeonato do mundo. Considerações pontuais, como esta, deverão surgir de tempos a tempos, durante a prova, mas análises a jogos, perspectivas mais profundas e considerações mais atentas ficarão para os nossos artigos semanais na Academia de Talentos. Assim, para os mais interessados, após cada uma das três rondas desta primeira fase e após cada eliminatória, será possível ler as nossas considerações acerca da prova no respectivo site.

Antes de passar ao assunto alemão, gostaria de referir que, para já, a prova não tem suscitado grandes surpresas. A França é medíocre, mas ninguém, por mais ingénuo que fosse, poderia esperar muito mais. O principal problema da equipa é a incapacidade para formar apoios próximos. A equipa tenta não jogar comprido, mas os jogadores parecem sempre o mais afastados possível uns dos outros. Gourcuff, coitado, parecia ter peçonha, tal era a separação para o duplo pivot e para os extremos, demasiado agarrados às posições. Dizer ainda que, apesar da qualidade, há jogadores na selecção francesa incrivelmente sobrevalorizados: Toulalan, Anelka e, sobretudo, Govou. É quase criminoso não ter levado Nasri. Da Inglaterra, não se esperava muito mais. Mas é uma das principais favoritas. Isto porque as equipas de Capello são geneticamente assim. Pouco criativas, mal arrumadas em termos ofensivos, incapazes de criar apoios com facilidade, com poucas ideias, mas com argumentos individuais óptimos e uma consistência defensiva suficientemente boa. Contra adversários menos cotados, dão sempre a impressão de não serem capazes de exercer um domínio claro. Mas são difíceis de bater, mesmo pelas principais potências, e têm atletas que podem resolver a qualquer instante. Já a Argentina de Maradona vive de Messi. E cairá quando Messi não chegar para compensar todos os problemas tácticos desta selecção.

Agora, a Alemanha. A primeira goleada da prova dirá muito mais dos australianos do que propriamente dos alemães. Foi um teste demasiado fácil e nenhuma consideração optimista poderá ser mais do que uma precipitação. Ainda assim, não percebo o espanto de grande parte das pessoas. Tirando a Espanha, cujo futebol é de uma qualidade inigualável, os alemães tinham de vir no segundo grupo de favoritos. A qualidade da selecção germânica tem vindo a melhorar gradualmente e este ano, com alguns jovens com um futuro muito promissor, está ainda mais forte. Persistem, porém, os problemas colectivos que Joachim Löw parece não compreender. O espaço entre os dois médios e a defesa, se bem explorado, será uma vulnerabilidade demasiado grande e o sistema táctico, ainda que alimentado por alguns talentos indiscutíveis, é excessivamente rígido. Contra a Austrália, os alemães tiveram sempre espaço para trocar a bola e até para se recriarem, mas contra uma equipa que pressione condignamente terão mais dificuldades, pois não são extraordinariamente competentes a criar apoios ao portador da bola. O calcanhar de Aquiles, contudo, parece-me ser claramente a transição defensiva. Sempre que é necessário baixar rapidamente, aparece espaço para jogar. Os dois médios, já sendo poucos, tornam-se ainda mais vulneráveis por ambos parecerem ter liberdade para aparecer em zonas de finalização, e o meio-campo germânico demora bastante a reorganizar-se sempre que perde a bola.

Quanto a nomes, muito se falou de Ballack e da sua ausência. Discordo de que o carismático capitão faça alguma falta a esta equipa. Aliás, Ballack nunca foi um jogador que apreciasse muito. Trata-se de um jogador cerebral, competente na distribuição de jogo, mas com índices de criatividade banalíssimos. Emprestaria experiência à selecção, mas subtrair-lhe-ia certamente alguma da criatividade que, deste modo, possui. Schweinsteiger é quem aparece ao meio, tal como fez ao longo da época no Bayern. Há quem considere que o irreverente alemão terá encontrado finalmente a vocação certa. No meu entender, como médio, Schweinsteiger é um jogador vulgar. Além de relativamente fraco a nível táctico, com graves problemas em termos posicionais, por exemplo, não é também um jogador imaginativo. Será ele quem substituirá Ballack, nesta competição e, porventura, no futuro, mas não lhe auguro muito melhor que o antigo capitão germânico, tendo até ainda muito que trabalhar para se tornar no jogador cerebral que o médio do Chelsea é. Com Thomas Müller e Mesut Özil a história é outra. O criativo do Werder Bremen não me entusiasma tanto como à generalidade dos adeptos, sobretudo porque precisa de ser mais consistente e um jogo contra um adversário tão insignificante não é um teste suficientemente exigente, mas trata-se de um jogador imaginativo, com excelentes pés e capaz de coisas muito boas. Para muitos, foi o melhor em campo, por tudo o que fez. Mas misturou fintas e assistências interessantes com alguns momentos de irreflexão e má decisão. Müller, embora mais discreto, fez um jogo perfeito. Ainda assim, com estes dois jovens, a selecção germânica deixa de ser aquela selecção apenas forte fisicamente, reputada, com experiência e carisma, mas pouco imaginativa.

Ballack e Schweinsteiger são médios que dão continuidade à tradição alemã: experientes, seguros a distribuir, cerebrais, até, mas pouco imaginativos, pouco capazes de modificar, de súbito, as coordenadas de uma partida, não necessariamente com uma arrancada fulminante, mas com um passe menos previsível, com uma qualquer invenção de génio. Müller e Özil são muito mais talentosos. E embora ainda tenham de crescer, para o confirmar, constituem as principais referências para o futuro. A principal diferença entre um e outro, por sua vez, está essencialmente no facto de Özil ser muito mais espalhafatoso, de apostar muito mais vezes nos lances individuais, de arriscar mais no passe, etc. Por essa razão, nem sempre opta pela melhor decisão. Müller é mais inteligente, percebe melhor as necessidades da equipa a cada momento. E isto sem que signifique que não tem a capacidade adequada para fazer um passe deslumbrante, para descobrir uma solução imprevista. É por isso que a opinião foi tão favorável em relação a Özil. As pessoas não valorizam adequadamente a discrição, atributo que pode dizer muito de um atleta. Contra adversários mais competentes, Müller manterá certamente o nível exibicional. A sua inteligência e a sua maturidade assim o permitem. Já Özil, embora se possam sempre esperar dele rasgos formidáveis, estará muito mais vulnerável a oscilações de exibição e desaparecerá do jogo com muito mais facilidade, sempre que não for capaz de deslumbrar como deslumbrou neste primeiro desafio.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Lições de Mestre (4)

O mundial está aí à porta e, enquanto uns suam as estopinhas para ganhar a Moçambique, outros fazem os polacos comer pó e vencem-nos por seis golos sem resposta. A selecção espanhola é aquela que me parece, à partida, melhor apetrechada para vencer a competição e aquela cujo futebol mais espanta. Já o era para mim antes do Euro 2008 (prova que veio a vencer), apesar de o modelo de jogo e o trabalho técnico em torno do colectivo ter sido francamente pobre, e a substituição de Luis Aragonés por Vicente del Bosque no cargo de seleccionador só veio reforçar essa opinião. Depois de uma qualificação brilhante, só com vitórias, os espanhóis partem agora para o mundial no grupo dos maiores favoritos. Nunca antes a expectativa em torno de nuestros hermanos fora tão alta.



A jogada é a do segundo golo da Espanha frente à Polónia e, além de mostrar como o futebol, quando jogado de modo colectivo, pode ser extraordinário, é uma imagem de marca desta selecção, à qual Xavi, Iniesta, Fabregas e Silva, principalmente, forçam o seu estilo. O futebol rendilhado, de toque curto, dos espanhóis, a privilegiar os espaços centrais para penetrar nas linhas adversárias, teve neste lance a perfeição idealizável. O lance começa na esquerda e os polacos não têm propriamente os espaços centrais desprotegidos. Ainda assim, Iniesta conduz a bola para o meio, deixando-a em Xavi, que tabela de imediato com David Silva. Xavi aguenta depois a carga e joga em Iniesta, que se tinha posicionado no espaço entre linhas. Este, embora tenha David Silva a apenas um metro, não hesita em jogar de frente com ele, de primeira, recebendo a devolução de imediato. Iniesta roda, espera que Xavi se desmarque nas costas da defesa e, com um passe açucarado por cima de toda a defensiva, isola o colega de equipa no Barcelona. Isolado e perante a saída do guarda-redes adversário, Xavi não aponta à baliza, optando antes por passar de primeira para David Silva, que fica com a baliza escancarada e só tem de encostar.

Tudo isto, descrito assim, parece simples, mas é preciso notar que ocorre quase tudo num espaço de pouco mais de dez metros quadrados e no meio de sete adversários. Não sei se a dimensão do lance estará a ser bem compreendida. Três jogadores, sem a ajuda de mais ninguém, conseguiram passar pelo meio de sete adversários, num espaço reduzidíssimo, não em força ou em velocidade, mas recorrendo a trocas de bola curtas e rápidas. No total, desde o passe inicial de Iniesta até ao remate de Silva para o fundo da baliza, houve oito trocas de bola. Há quem ache que isto é simples e que o que estes jogadores fazem é simplificar o jogo. Mas isto é precisamente o oposto. O futebol dos espanhóis não podia ser mais complexo e de difícil execução. É por isso que, para jogar assim, é preciso índices de criatividade elevadíssimos em todos os jogadores e uma capacidade de raciocínio muito acima da média. Aqueles toques de primeira parecem fáceis porque a bola percorre poucos metros, mas os requisitos intelectuais para se poder executar um passe daqueles não estão ao alcance de todos. Cada uma daquelas trocas de bola exige mais do que o mais fantástico dos dribles individuais, do que o mais perfeito passe longo. Estes jogadores, antes de receberem a bola, já leram a mente dos colegas e já sabem como estes se vão comportar. Para que o saibam e para que possam tirar partido disso, não precisam apenas de estar à vontade tecnicamente para jogar de primeira; precisam, sobretudo, de ter a capacidade de se colocar no lugar dos outros, isto é, precisam de uma capacidade imaginativa suficientemente ampla para que percebam não só qual a melhor solução para o lance como também de que modo está o colega a pensar. O que esta jogada está, no fundo, a fazer, de um modo bem menos perceptível, é a troçar dos Raúis Meireles da bola. Este é o futebol do futuro e, mais do que isso, o próprio indício de quais serão os mais competentes jogadores do futuro. Haverá poucas lições mais perfeitas que esta e todos os treinadores do mundo deveriam pegar neste lance e mostrá-los aos seus jogadores, dizendo de seguida: "Estão a ver? É assim que se joga futebol!"

terça-feira, 1 de junho de 2010

Os erros de Pepe

Antes de iniciar, gostaria de dizer, em jeito de preâmbulo, que este texto está preparado há já bastante tempo e que, reportando-se à temporada 2008/2009, deveria ter sido publicado no final da época anterior ou no início desta que agora terminou. Por força das circunstâncias, a sua publicação foi sendo adiada sucessivamente. Apesar de tudo, o texto acaba por conhecer a luz do dia numa altura apropriada, alguns dias apenas antes do Mundial da África do Sul, e no momento em que Pepe parece finalmente apto a dar o seu contributo à selecção nacional. Tendo em conta que, em mais de metade desta época, Pepe esteve parado, o texto acabou por não perder assim tanta relevância. Embora o seu conteúdo não seja actual, as conclusões que dele se podem tirar são-no. É com isso em vista que ele deve ser lido.

Já aqui, noutras ocasiões, ficou a minha opinião sobre defesas centrais e sobre que tipo de defesas me parecem mais competentes. Retomando, em traços gerais, as minhas denúncias em relação a centrais mais impetuosos, queria reforçar que, por norma, impetuosidade acarreta falta de atenção, desposicionamento desnecessário, precipitações, acumulação de erros, etc. O central luso-brasileiro Pepe foi sempre, para mim, um destes centrais. Nunca lhe reconheci o valor que lhe queriam imputar nem consigo incluí-lo, de maneira nenhuma, nos melhores centrais europeus da actualidade, como o quer muita gente. A sua abordagem aos lances, o seu excesso de agressividade, a forma irracional com que desempenha o seu papel dentro de campo foram sempre, na minha óptica, um problema. Mesmo quando esse comportamento não causava directamente problemas, fui sempre da opinião que era um sinal inequívoco de falta de qualidade. Lembro-me, por exemplo, de ser dos poucos a afirmar que a primeira fase do Euro 2008 de Pepe foi medíocre, quando a opinião pública defendia que estava a ser o melhor central do certame. A razão era óbvia: ainda que não tivesse sido o causador de nenhum golo sofrido ou não tivesse protagonizado qualquer fífia, a sua postura em campo denunciava um risco que, mais tarde ou mais cedo, iria ser pago. Lembro-me, por exemplo, de cometer três erros graves no primeiro jogo de Portugal, erros esses que ou não deram em nada ou que ele próprio conseguiu corrigir, graças à sua velocidade e à sua agressividade. Ora, não sou capaz de gabar um jogador que, mesmo quando não é o responsável directo pelo insucesso da sua equipa, comete erros que podem, em situações idênticas, comprometer esse mesmo sucesso. E Pepe comete-os com uma frequência assustadora. E sempre os cometeu. Não consigo elogiar um jogador deste tipo, mesmo reconhecendo que tem algumas características acima da média e que, em comparação com outros defesas centrais, faz coisas que nem toda a gente é capaz de fazer. Um central que não é seguro, que comete erros com frequência, mesmo que alguns desses erros não tenham consequências relevantes, jamais pode ser um central de eleição.

Muita gente achará, por certo, que estou a exagerar, que a frequência dos erros de Pepe não é assim tanta. Antes de passar ao conteúdo propriamente dito deste texto, gostaria de transcrever um artigo de Jorge Valdano, intitulado "O Erro", publicado no jornal A Bola, no dia 29 de Novembro de 2008, no qual o ilustre dirigente merengue refere precisamente o mesmo que eu, que Pepe dá erros atrás de erros:

"Pepe é um colosso. Um central rápido, poderoso, que faz sentir a sua presença na marcação, sempre pronto a auxiliar e que transmite segurança. Mas desconcerta-me que em cada partida cometa um erro decisivo: expulsão, penalty, uma prenda a um avançado... Uma fífia calamitosa no meio de uma montanha de acertos arruína a nota final de um jogo. Há jogadores que têm esta debilidade. Treinei um central a quem apelidámos de O erro, assim, no singular. Quando o cometia nos primeiros minutos do jogo, respirávamos de alívio: "Já está", dizíamos. Se tardava em cometê-lo, vivíamos angustiados, porque o erro nunca tem hora, e chegaria seguramente. Pepe é um defesa grande demais para gerar essa incerteza."

(Jornal A Bola, Sábado, 29 de Novembro de 2008)

A minha opinião em relação a Pepe não é tão lisonjeira quanto a de Valdano. Acho que não é "grande demais para gerar essa incerteza" precisamente porque ao gerá-la perde grandeza. E como a gera frequentemente, não tem grandeza frequentemente. Pepe é um central mediano, que tem algumas características muito boas, mas outras péssimas. E as que não são boas são precisamente as mais relevantes: a capacidade de se manter concentrado, o controlo emocional, o sentido posicional, a capacidade de leitura dos lances, etc. Pepe está sobrevalorizado porque no futebol dos dias que correm há tendência para se valorizar aquilo em que Pepe é bom, ignorando precisamente que o resto é que não deveria faltar. E por causa disso equivocam-se muitas vezes.

Depois disto, que já era conhecido, resta falar do processo de fabrico deste texto. Tive a ideia, no início da temporada correspondente a 2008/2009, de seguir com atenção os jogos do Real Madrid e de fazer um inventário dos erros de Pepe. A ideia consistia em arranjar argumentos sólidos - leia-se factos - com que demonstrar inequivocamente que Pepe cometia demasiados erros para a reputação que tinha. Não sabia, na altura, qual seria o prazo dessa investigação, nem que tipo de erros iria incorporar. Depressa me apercebi, porém, que muitos dos seus erros originavam golos dos adversários, pelo que limitei a investigação aos erros de Pepe que se relacionavam directamente com golos sofridos pelo Real. Para dar também um ar unificado à coisa, decidi prolongar a investigação até ao fim da temporada, fazendo um apanhado geral do comportamento do central português no decorrer da mesma. Assim, o que em seguida se mostrará é o conjunto de erros cometidos por Pepe que estiveram directamente relacionados com golos adversários (ainda que haja algumas excepções, como penaltys cometidos por Pepe, mas não sancionados pelo árbitro), ao longo da temporada de 2008/2009, bem como a análise das consequências desses erros. Não poderia ilustrar melhor cada um dos erros a que me refiro do que através de uma montagem com os lances em questão. A compilação dos erros de Pepe ao som da Marcha Eslava de Tchaikovsky dá um lado monumental à coisa. Fica a prendinha:



Depois do filme, importa fazer uma análise numérica dos erros de Pepe. Pepe esteve presente em 26 partidas da Liga Espanhola, tendo o Real Madrid, nesses 26 jogos, averbado 22 golos sofridos. Pepe teve responsabilidade directa nos dois golos frente ao Deportivo, na primeira jornada, nos dois golos frente ao Athletic de Bilbao, na oitava jornada, no golo frente ao Bétis, na vigésima quarta jornada, e nos dois golos frente ao Getafe, na trigésima segunda jornada. São 7 golos, em 22, da sua responsabilidade. Significa isto que 32% dos golos sofridos pelo Real Madrid, na temporada 2008/2009, tiveram o cunho do central luso-brasileiro. Foi ainda responsável pela derrota frente à Juventus, na fase de grupos da Liga dos Campeões, e pela derrota frente ao Liverpool, nos oitavos de final da mesma prova, e que ditou a eliminação do Real Madrid. Registaram-se ainda quatro penálties (só dois foram assinalados), absolutamente desnecessários e estúpidos, que contribuíram ou poderiam ter contribuído para maus resultados da sua equipa.

De acordo com estes números, parece-me pouco defensável a ideia de que Pepe é um dos melhores centrais da Europa. Foi culpado por um número excessivo de golos sofridos pelo Real Madrid na Liga e um dos principais responsáveis pela derrocada de Anfield, que afastou o Real da Liga dos Campeões. É certo que tem características que impressionam. Mas o futebol não é para os que mais impressionam, para os que têm mais músculos, para os que correm mais, para os que lutam mais. É para os que jogam melhor. A um central pede-se, entre outras coisas, sobriedade e segurança. Pepe pode dar agressividade, capacidade de luta, entrega, mas não é sóbrio nem seguro. Sozinho, foi responsável por um terço dos golos sofridos pela equipa. É um exagero. Todos os grandes centrais têm dias maus e falham ocasionalmente. Pepe, contudo, falha muito e com muita frequência. Na temporada de 2008/2009, parte dessas falhas resultaram em golos sofridos pela sua equipa. Faltaria observar as falhas que não tiveram consequências relevantes. Tal análise teria por conclusão, por certo, que o central comete demasiados erros e que a equipa, com ele em campo, permanece constantemente insegura.

O futebol de Pepe é vertiginoso: é um central que vai a todas, que disputa todas as bolas como se não houvesse amanhã, que consegue cortes no limite, que faz recuperações fantásticas. Mas essa vertigem, que tantas vantagens traz, acarreta igualmente desvantagens que este texto elucida categoricamente. Por ser como é, Pepe comete erros atrás de erros. E prejudica regularmente a equipa em que joga. Se as consequências positivas da natureza vertiginosa do seu futebol o tornam um central como poucos, as consequências negativas tratam de colocá-lo bem mais abaixo, na mediania. Ao chegar ao Real Madrid, Pellegrini disse-se impressionado com Pepe. Dizia o técnico chileno que Pepe tinha imponência a sair com a bola e era uma voz de comando. A apreciação do ex-treinador, porém, negligenciava o quão nefastas podem ser tais características. A imponência pode ser uma virtude, com efeito, mas nunca às custas da concentração, da sobriedade, da lucidez, da segurança, da frieza. A um central pede-se essencialmente regularidade e é preferível que não faça um único corte arriscado durante uma temporada do que arrisque constantemente, sendo bem sucedido nuns, mas provocando consequências ruinosas para a equipa noutros.

Há quem diga ainda que Pepe é o melhor central do mundo a jogar alto. O exagero da convicção só não é mais absurdo que o erro de lógica que lhe subjaz. Tal erro consiste em presumir que, para jogar alto, basta possuir velocidade e impetuosidade, coisas em que Pepe, de facto, é dos melhores do mundo no seu posto. Para cobrir com eficácia todo o terreno que fica nas costas de uma defesa que se posiciona muito alto não basta, porém, ser-se rápido e reagir rápida e agressivamente à perda de bola. É preciso, e é até mais importante, estar-se bem posicionado, perceber e ler convenientemente as jogadas e antecipar, mentalmente, as possibilidades das mesmas. Pepe é rapidíssimo em termos musculares. Não o é, de maneira nenhuma, em termos mentais. A interpretação que faz dos lances é, invulgarmente, se não errada, lenta. Além disso, tem problemas posicionais óbvios e, quanto mais veloz o jogo, menos correcto é o seu posicionamento instantâneo. Procura muitas vezes antecipar, porque é rápido a deslocar-se, as investidas dos adversários, mas raramente acautela possibilidades alternativas e, sempre que o adversário opta por uma solução que não a mais previsível, as suas tentativas de antecipação são frustradas e adquirem um carácter pernicioso. A jogar alto, Pepe é útil para contornar a possibilidade de bolas lançadas pelos defesas contrários para as costas da defesa, mas é também nocivo sempre que o jogo do adversário não se reduz à esterilidade de tais lançamentos longos e evolui de modo mais curto e certeiro. Aí, Pepe é uma barata-tonta, querendo tapar buracos a toda a hora e descuidando invariavelmente o seu posicionamento e a estrutura colectiva da sua defesa.

Resumindo, este texto procura demonstrar - e creio que o consegue - que as falhas de Pepe não são ocasionais e, sobretudo, acidentais. Acontecem com excessiva frequência e resultam daquilo que são as suas principais características. Para quem prefere um jogador pelas características individuais e por aquilo que, individualmente, pode oferecer, Pepe tem, de facto, boas qualidades. Quem prefere jogadores por aquilo que podem dar à equipa, pelas suas características colectivas, jamais pode apreciar Pepe. O que este texto demonstra é que, em termos colectivos, Pepe é um jogador vulgar. Resolverá, por certo, uma taxa de problemas individuais superior à da maioria, mas a resolução de problemas individuais é apenas uma parte ínfima das tarefas de um central. Pepe pode ser fortíssimo em lances de um para um, em lances em profundidade, em antecipações, pode ser dos centrais que mais bolas recupera num jogo e que mais activo está durante uma partida de futebol. Mas isso é apenas uma parte quase insignificante do seu papel enquanto central. Se o futebol fosse um jogo de pares e, durante um jogo, um jogador se medisse pelo duelo individual com o adversário que apanhasse, Pepe seria certamente dos melhores centrais do mundo. Mas o futebol não é nada disto. Pepe é fraco em situações de dois para dois, é pouco rigoroso a manter a linha defensiva ou a fazer a cobertura devida a um colega, está frequentemente desconcentrado e mal posicionado, não consegue distinguir situações em que deve arriscar desarmes difíceis de situações em que não deve, não percebe a importância de ficar em contenção, em determinadas situações, não é capaz de interpretar com qualidade as necessidades da equipa a cada instante, etc. Por tudo isto, não pode pertencer a uma elite de jogadores que possuem estes predicados.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Mourinho: a Posse e o Espaço

Há quem diga que o espaço é mais importante que a posse de bola, pois, sem espaço não há posse que valha. O argumento é parvo e consiste em ignorar a outra hipótese. Se sem espaço não há posse que valha, o que fazer com todo o espaço do mundo mas sem posse? Não creio que, sem bola, seja possível fazer mais do que ocupar melhor possível o espaço. Mas há quem afiance, de pés juntos e mão ao peito, que José Mourinho deu este ano uma lição àqueles que acham que a posse de bola é o mais importante num jogo de futebol. E isto com o pressuposto de que deu esta lição pondo em evidência que é o espaço e não a bola que mais interessa a uma equipa.

Em primeiro lugar, José Mourinho não deu lição nenhuma. Mais não fez que ganhar uma Liga dos Campeões como tantos outros já ganharam, de um modo que de genuíno não tem nada e que nem sequer tem muito a ver com aquilo que foram os seus primeiros anos de treinador. A verdade é que, de certo modo, Mourinho ganhou vendendo a alma, ganhou como, por exemplo, Benitez tinha ganho, abdicando da iniciativa de jogo, defendendo o melhor que podia, atacando pela certa e esperando pela graça divina, pela inspiração dos seus avançados e pelos erros dos adversários. Não tenho nada contra ganhar deste modo nem estou a defender que não se pode ganhar deste modo. Está mais do que provado de que é possível ganhar de todas as maneiras, sobretudo provas como esta, cujo modelo potencia o equilíbrio entre equipas mais fracas e equipas mais fortes e facilita o trabalho de equipas que dependem do comportamento dos adversários para fazer valer os seus pontos fortes. Mas não tenho também dúvidas de que, optando por isto, se depende muito mais de factores que não se podem controlar, como a arbitragem, a sorte, a atitude do adversário, a inspiração de dois ou três avançados, os momentos de finalização, etc.. Mourinho ganhou, é certo, mas raramente foi superior, ao longo das quatro eliminatórias da prova, já para não falar das dificuldades que teve para se apurar para a segunda fase. Dependeu sempre da inépcia dos adversários e da felicidade, fazendo do seu modelo de jogo não um modelo único e próprio, mas um contra-modelo, delineado sempre em função do comportamento do opositor. É possível alegar que tal forma de encarar o jogo é perfeitamente legítima e, mais do que isso, possibilita vitórias. Como já referi, acredito que se pode ganhar de várias maneiras, sobretudo provas que não dependem da regularidade exibicional. Aquilo em que não acredito é que todas as maneiras de jogar possibilitem as mesmas probabilidades de ganhar.

Como o que me interessa aqui é discutir o par de opostos em que se constituem a posse de bola e o espaço, não me deterei muito mais naquilo que foi a campanha europeia do Inter, que alguns garantem ter sido exemplar. Como é sabido, defendo que a melhor maneira de ganhar, aquela que maiores probabilidades confere a uma equipa de ser bem sucedida, é aquela que faz da posse da bola a sua filosofia primeira. Do meu ponto de vista, nenhuma equipa que queira ser grande, que queira disputar e vencer tudo, pode negligenciar a posse de bola. Se há casos de vencedores de Ligas dos Campeões ou de Campeonatos Europeus ou Mundiais que o fizeram, como o Inter de Mourinho, o Liverpool de Benitez, ou a Grécia de Rehhagel, é apenas porque esse tipo de competição, sendo decidida em eliminatórias, não confere importância à regularidade, à capacidade de uma equipa jogar constantemente bem, privilegiando, em vez disso, o detalhe e até a arbitrariedade da fortuna. É muito mais difícil encontrar vencedores de campeonatos nacionais cujo modelo de jogo de base se construa com os pressupostos destas equipas, isto é, com um bloco baixo, muitos homens atrás da linha da bola, ofensivas constantemente em inferioridade numérica, privilégio dos momentos de transição, etc.. A razão pela qual as competições nacionais raramente são ganhas por equipas que actuem preferencialmente desse modo é simples. Num campeonato em que se exige regularidade, estas equipas, embora possam ser muito fiáveis defensivamente, carecem de uma capacidade ofensiva evidente e perdem necessariamente pontos contra equipas que não se expõem tanto, que não atacam tanto. Colocar a equipa a jogar deste modo, isto é, dispensando a posse e concentrando-se no espaço, é especialmente útil contra equipas que gostem de atacar e de ter a bola, e ainda em competições a eliminar, em que um empate num dos jogos não é um mau resultado, em que os penálties acabam por equilibrar as diferenças entre os dois conjuntos, e em que os detalhes costumam ser mais decisivos. Perder um desafio numa competição nacional é, por isso, muito menos relevante e os detalhes, nessa competição, não fazem tanta diferença.

Ora, perante isto, é possível dizer que o Inter de Mourinho se adaptou à especificidade desta competição, jogando num modelo que, para esta prova, fazia todo o sentido, jogando porém de outro modo no campeonato italiano. Isto não é verdade. Se há coisa que Mourinho vinha a fazer, já há algum tempo, era a preparar a sua equipa para ser aquilo que foi nesta competição. Há quem possa pensar que surtiu efeito. Não penso assim. De facto, Mourinho venceu tudo, conseguiu algo que ninguém conseguia há muito tempo no Inter e mostrou que é um vencedor como há poucos. Mas a que custo? O modo de jogar do Inter, no campeonato, não foi especialmente diferente. Apanhando-se a ganhar, por exemplo, era comum ver a equipa abdicar da bola, recuar e defender com um bloco baixíssimo, entregando toda a iniciativa ao adversário. Se isto resultou umas vezes, não resultou noutras. E a verdade é que a revalidação do título, num campeonato pautado pela irregularidade de todos os conjuntos e paupérrimo em termos de oposição à hegemonia dos milaneses, chegou a estar tremida, sendo que a Roma, que começou o campeonato muito mal, chegou a estar a catorze pontos do Inter, andou completamente arredada da discussão do título durante três quartos da prova e, mesmo assim, por pouco não era campeã. O futebol à italiana do Inter de Mourinho serviu para ganhar tudo, mas apenas porque em Itália não há, em termos de concorrência, qualquer espécie de oposição. O Inter não fez um campeonato brilhante, não praticou um futebol interessante e sagrou-se campeão mais por demérito dos adversários do que por mérito próprio. É aqui que quero chegar.

Mourinho preparou a sua equipa especificamente para triunfar nas eliminatórias da Liga dos Campeões, passando a estratégia nestes jogos por entregar a iniciativa ao adversário. Resultou, como podia não ter resultado. Com a estratégia adoptada, entregou o destino da sua equipa à sorte, que lhe acabou por ser favorável. De facto, ganhou aquilo a que se propôs. Mas os custos, creio, foram bastante pesados. A equipa tornou-se absolutamente medíocre com bola, sem qualquer imaginação, incapaz de inventar coisas novas. Passou a poder jogar apenas de acordo com os ímpetos dos adversários, passou a ser uma equipa de reacção. Como todas as equipas que só são eficazes em reacção, tornou-se dependente de diversos factores e isso, por pouco, não lhe custava o título italiano. Custar-lhe-á muito mais, de certeza, no futuro. O seu Inter parou de evoluir, passou a ser uma equipa que só se sente bem com espaço e que, quando não o tem, não sabe o que fazer. Eis o problema de se preferir o espaço à posse de bola. Sendo competente apenas nos momentos em que pode utilizar o espaço, é uma equipa competente num número reduzidíssimo de ocasiões, durante um jogo. Isto faz com que a equipa tenha de ser obrigatoriamente muito eficaz, faz com que tenha de aproveitar ao máximo os poucos momentos em que puder activar as suas transições e aproveitar o espaço. Se não o for, fica sempre mais próxima de falhar. A diferença, está bem de ver, é que uma equipa que prefira a posse de bola pode inventar as suas próprias ocasiões, pode sempre aumentar as condições de êxito e depende sempre menos da eficácia que tiver na finalização das jogadas. É por isso que a opção pela posse de bola é sempre uma estratégia mais eficaz que a preferência pelo espaço.

Não significa isto que não haja momentos específicos, num jogo, em que seja útil baixar o bloco e, abdicando da posse de bola, procurar sobretudo aproveitar os espaços concedidos por quem ataca. Poderá ser útil, por exemplo, nos minutos finais do primeiro tempo, para que a equipa não se desorganize nem se desgaste desnecessariamente; ou poderá ser útil imediatamente a seguir a um golo, para impedir a reacção imediata do adversário. Isto é, porém, muito diferente de adoptar esta estratégia durante 90 minutos. Optar por este tipo de jogo a tempo inteiro significa abdicar da iniciativa, significa deixar a faca e o queijo do lado do adversário. Pode traduzir-se numa estratégia eficaz essencialmente quando se marca primeiro e o adversário tem obrigatoriamente de atacar. Mas que tipo de competência, em termos colectivos, tem uma equipa deste tipo para virar resultados? Não tem. Ou essa competência é directamente proporcional à competência individual dos seus atacantes, sobre quem recai a responsabilidade de fazer o que a equipa, em conjunto, não consegue fazer. Saber aproveitar o espaço é uma arma muito importante em futebol. Mas uma equipa cuja única arma seja essa é sempre uma equipa mediana que, sem atletas capazes de decidir partidas sozinhos, pouco ou nada é capaz de conquistar. Se nos recordarmos, esta estratégia resultou na segunda mão frente ao Chelsea porque o Inter teve a sorte de partir em vantagem; resultou na segunda mão frente ao Barcelona porque o Inter conseguiu, sem saber bem como, partir com uma vantagem de dois golos para esse jogo; resultou frente ao Bayern porque defensivamente a equipa de Van Gaal esteve incrivelmente mal; e resultou sobretudo porque havia Milito, Eto'o e Sneijder. Isto é, a estratégia de que tanto se fala e que tantas lições deu, segundo alguns doutores, é uma estratégia que não depende de si própria, mas dos seus executantes, dos erros e da inépcia dos adversários e da sorte. E com bons executantes, com os erros dos adversários e com a sorte qualquer incompetente pode contar. Esperava-se que a distinção entre um dos melhores treinadores do mundo e um simples agricultor se traduzisse de um modo mais categórico. É evidente que Mourinho não é só isto e que, dentro deste tipo de estratégia, é extremamente competente, como poucos. Mas isso não chega. E não chega essencialmente porque é muito mais fácil pôr uma equipa a jogar deste modo, fazendo-a depender destas coisas, como já várias pessoas o tinham feito com sucesso, do que arranjar um modelo com menos vícios, que dependa menos de factores externos.

Eu, que sou exigente e que conheço o trabalho de Mourinho e aquilo de que é capaz, acho que esta vitória não é tão fantástica quanto apregoam. E isto sobretudo porque acho que, sendo dos poucos treinadores do mundo que teria condições para revolucionar o jogo, Mourinho optou pelo caminho mais fácil. Venceu, sim. Mas venceu como Alex Ferguson já venceu, como Rafa Benitez já venceu, como Carlo Ancelotti já venceu. Venceu como outros tantos já venceram. Não venceu categoricamente, como o Barcelona o ano passado, por exemplo; não venceu impondo coisas novas, impondo a sua competência sobre a dos outros. Venceu, como tantos já venceram, e apenas porque há que haver sempre um vencedor, todos os anos. E, como tantos outros que venceram assim, tão depressa vencem e são agraciados pela opinião pública como perdem e caem rapidamente no esquecimento. É por isso que negligenciar a posse de bola e preferir o espaço é uma estratégia condenada logo de partida. Pode conduzir a vitórias, efectivamente, mas nunca trará regularidade; depende de demasiadas circunstâncias para que se possa impor por si própria. É também por isso que defendo que a posse de bola, em futebol, é tudo: é o princípio vital de qualquer equipa que queira não só ganhar tudo, mas ser grande e sempre grande. Quando não se tem espaço, a posse de bola inventa-o. Quando não se tem a posse de bola, não há espaço que a invente e resta-nos tão-somente o próprio espaço. É este o corolário final da minha análise à vitória de Mourinho, uma vitória que muitos aplaudem boquiabertos, mas que não merece, em boa verdade, toda a histeria que a tem envolvido. O próprio Mourinho já fez coisas bem mais impressionantes e merecedoras de registo; o que fez este ano com o Inter não tem nada de extraordinário e roça até a simples banalidade.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Os Melhores de 2009/2010

Eis os melhores, a meu ver, desta Liga, em 442 losango:

Guarda-Redes: Bracalli
Defesa Direito: Fucile
Defesa Esquerdo: Emídio Rafael
Defesas Centrais: Luisão e Daniel Carriço
Médio Defensivo: Javi Garcia
Médios Interiores: Belluschi e Hugo Viana
Médio Ofensivo: Pablo Aimar
Avançados: Saviola e Falcao

Treinador: André Villas Boas

Suplentes:

Guarda-Redes: Quim
Defesa Direito: Rúben Amorim
Defesa Esquerdo: Fábio Coentrão
Defesas Centrais: Bruno Alves e Rodriguez
Médio Defensivo: Fernando
Médios Interiores: Miguel Veloso e Desmarets
Médio Ofensivo: Nuno Assis
Avançados: Cardozo e Mossoró

Treinador: Jorge Jesus

terça-feira, 18 de maio de 2010

Ibrahimovic

Foi publicado a semana passada, na Academia de Talentos, um artigo infame no qual se defendia que Ibrahimovic era um flop europeu. A infâmia do artigo está não só na forma absurdamente exagerada em que são postos os termos e nas coisas que são consideradas, mas também e sobretudo nos argumentos utilizados. As razões que presidiram a tal teoria foram, uma vez mais, os golos que o sueco faz (ou não faz). Dizer que o sueco faz poucos golos na Europa, que se mexe pouco e que, considerando o derradeiro teste o jogo atípico em Camp Nou frente ao Inter, o Barcelona só começou a criar perigo quando ele saiu é não perceber nada de Ibrahimovic nem de pontas-de-lança e é também mentir com quantos dentes se tem. Poderia lembrar o remate de Pedro ao lado ou o remate de Messi para excelente defesa de Júlio César, pois a movimentação de Ibrahimovic está na origem dos mesmos. Poderia lembrar a assistência de calcanhar para Messi, que o deixa na cara de Júlio César antes de Lúcio conseguir, à última, o corte. Poderia também lembrar a assistência de cabeça para Xavi, que fica igualmente em zona de finalização e que só não consegue o remate porque, uma vez mais, alguém corta "in extremis". Podia também lembrar o penalty que sofreu e que não foi assinalado. Tudo isto demonstra que Ibrahimovic não esteve propriamente apagado nesse desafio. O que é, no entanto, grave e que, provavelmente, tem origem na mesma cegueira em que se viu um jogo diferente do verdadeiro, é que se meça o valor do jogador, ou o valor de qualquer ponta-de-lança, pelos golos que marca. Ibrahimovic só é, por isso, um flop europeu para os que não sabem o que é um ponta-de-lança. Esses, como muitos outros, deveriam estar calados na hora de falar sobre coisas das quais não percebem.

Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.

As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.

Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.

Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:

"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."

Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:

"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."

Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Certezas (18)

Apareceu este ano a jogar regularmente, desde o início da época, sendo aposta incondicional do seu treinador, ao contrário de certos jogadores consagrados, que tiveram de penar bastante. Enquanto Luca Toni, Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger e Franck Ribéry, sobretudo, tiveram dificuldades em agradar a Louis Van Gaal, este jovem foi uma aposta firme, primeiro numa das alas e depois no centro do terreno, como médio de ataque que ligava o meio-campo ao ataque no 4231 do holandês. É verdade que Van Gaal é dado a caprichos, mas não será menos verdade que de alguma maneira este miúdo o terá impressionado desde muito cedo. Em mim, desde o primeiro momento em que o vi jogar, fez-me sentir uma natural empatia. A sua inteligência e a sua maturidade, raríssimas num jogador com a sua idade, sobretudo atendendo aos excelentes atributos técnicos de que é dotado, foram as coisas que mais me prenderam a atenção. Achei-o, desde logo, extraordinariamente criativo, capaz de inventar soluções de passe com facilidade, um jogador que, embora muito bom a nível técnico, raramente optava por partir para cima dos seus opositores, que procurava apoios próximos, etc. Com a diferença óbvia no tamanho, pareceu-me um jogador extraordinariamente semelhante a Bruno Pereirinha, quer pelo próprio estilo, quer essencialmente pela forma de pensar e perceber o jogo. Na altura, jogava como extremo mas, tal como sempre vaticinei em relação ao jovem leão, era no meio, como médio de ataque, que me parecia que o seu potencial melhor podia ser explorado. A sua simplicidade, aliada às facilidades técnicas que possuía, permitia, a meu ver, que pudesse jogar metido entre as linhas adversárias, conferindo ao futebol da sua equipa uma solução vertical constante. Van Gaal, creio, percebeu isso mesmo. E estou em crer ainda que o futebol do Bayern se revolucionou para melhor desde que este jovem alemão passou a jogar como médio-ofensivo, jogando nas costas do ponta-de-lança e sempre como apoio vertical ao médio portador da bola. Tem ainda, para além desta influência clara, a capacidade para, aproximando-se das linhas, servir de apoio lateral quando o jogo é conduzido pelas faixas, criando situações de superioridade numérica nessas zonas do terreno. É, no fundo, no modelo de Van Gaal, o jogador responsável pela formação de triângulos nas zonas com maior densidade de adversários e, por isso, o jogador mais importante da equipa no momento da construção ofensiva e a peça mais difícil de substituir no onze do holandês. O futebol do Bayern melhorou significativamente na segunda metade da temporada, consolidando-se. Melhorou sobretudo ao nível da construção ofensiva, sendo agora uma equipa muito personalizada. A principal razão, penso, para que isso tenha acontecido, foi precisamente a aposta neste jogador nesta posição. Numa altura decisiva da época, depois de ter sido pré-convocado para a selecção alemã para o mundial da África do Sul, de ter ajudado o Bayern a sagrar-se campeão e dias antes da primeira de duas finais importantíssimas para o seu clube, não queria deixar de reconhecer o extraordinário valor de Thomas Müller.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Emídio Rafael e Maxwell

Comecemos com a rudeza e a brutidão de todas as certezas: Emídio Rafael é o melhor lateral esquerdo desta Liga Sagres. Quanto às razões para tal afirmação, já lá irei. Confesso primeiro que não o conhecia antes desta temporada, mas confesso igualmente que só a muito custo percebo o anonimato a que foi votado nos últimos anos. Foi campeão de júniores com Paulo Bento e nunca foi aposta deste, na equipa principal, porquê? Se a lateral esquerda foi sempre um problema com que se debateu Paulo Bento, se se deu tanto dinheiro por Grimi e se deu hipóteses a um jogador como André Marques, por que raio nunca foi dada uma hipótese a Emídio Rafael? A única explicação que encontro prende-se com as características físicas do atleta. Aliás, é essa a mesma explicação que encontro para que André Nogueira, um lateral direito de grande qualidade que apareceu no plantel de júniores no ano imediatamente a seguir, tenha desaparecido do mapa. E essa explicação tornaria também claro por que razão Emídio Rafael nunca foi opção e André Marques sim. Afinal, trata-se de um jogador com uma envergadura invejável, enquanto Emídio Rafael é magro e baixo.

Esta preocupação com o tamanho é algo que me causa alguma repulsa. Não é nada de novo, claro, mas parece-me uma teimosia que demora a ser erradicada do futebol. Aliás, numa altura em que já se devia ter percebido a pouca importância que os factores físicos têm num jogador de futebol, com o Barcelona de Guardiola a estender o dedo do meio a todos os imbecis que pensam o contrário, parece que continua a haver uma tendência incrível para se dar atenção a factores secundários como esses. Nos escalões de formação, continuam a ser dispensados atletas talentosos porque os testes do pulso revelam que não vão ser altos; continuam a ser avaliados atletas pelo tamanho dos pais; continuam a ser contratados africanos poderosos fisicamente para colmatarem a baixa estatura dos atletas portugueses. E se isto é assim na formação, cuja principal obrigação deveria ser promover os mais talentosos e não os mais cabeçudos, nos principais escalões as coisas continuam muito primitivas. De tal modo que, depois, se deixam escapar talentos como o de Emídio Rafael.

Quem o vê jogar com olhos de ver, percebe imediatamente que não se trata de um lateral vulgar. É inteligente, tem um pé esquerdo formidável, posiciona-se invariavelmente bem, lê quase sempre bem os lances e permite à equipa uma qualidade incomparável com bola. Não é tão forte no um para um defensivo quanto poderia ser, mas compensa isso com uma boa leitura dos lances e, sobretudo, com um posicionamento defensivo acima de toda a suspeita. A forma como defende por dentro não tem quase paralelo em Portugal. Mas é a atacar que mais se destaca. Não só porque está incumbido das bolas paradas para o pé esquerdo, mas sobretudo pelo que faz em jogo corrido. Muitos acham que um lateral que ataca bem é um lateral possante, ao estilo de Roberto Carlos, que faz o corredor todo, que é veloz e forte no drible. Emídio Rafael não é nada disto. Não é possante, não é explosivo e raramente dribla. Cruza extraordinariamente bem, mas isso é apenas um pormenor. Aquilo em que é, de facto, muito bom, é nas opções com bola, é na forma como encontra soluções por dentro, permitindo à equipa permanecer com a posse de bola. Raramente estica o passe ao longo do corredor, raramente joga comprido ou tenta virar o flanco de jogo. As suas opções são jogar perto, com o apoio mais próximo, vindo para dentro. Um lateral, numa equipa que queira assumir a iniciativa do jogo através da posse de bola, deve ter como principal característica o jogar para dentro, curto. É por essa característica, tão pouco usual num lateral, que o comparo ao lateral brasileiro do Barcelona, Maxwell.

Como Emídio Rafael, Maxwell não é um jogador com uma envergadura extraordinária. Não é pelos atributos físicos que se destaca. Com bola, porém, permite coisas ao Barcelona que Abidal, por exemplo, não permite. A facilidade que tem em jogar de primeira, curto, para dentro, é notável. Isto permite ao Barcelona ir ao flanco e vir rapidamente, estraçalhando a basculação do adversário; permite ao Barcelona sair de zonas de pressão difíceis e trocar a bola rapidamente. Com Maxwell, o Barcelona não é tão vertical a atacar e não tão agressivo a defender. Mas é posicionalmente mais estável e mais imprevisível com bola; é mais dinâmico a trocar o esférico e mais paciente; mais eficaz em tabelas curtas e mais temível a atacar pelos espaços centrais. Para mim, para quem um lateral, ofensivamente, deve valer essencialmente por esta característica tão pouco usual, Maxwell é melhor que Abidal e um dos melhores laterais do mundo. O seu futebol, enquadrado num colectivo que o valorize, como é o caso do Barcelona, é sempre mais interessante que aquele que qualquer lateral que valha pela capacidade de fazer o flanco todo com rigor e pela intensidade que põe em jogo é capaz de oferecer.

Voltando agora a Emídio Rafael e à afirmação inicial de que era o melhor lateral desta liga. Acho que havia um jogador, no início da temporada, que se poderia ter imposto precisamente por coisas semelhantes e que, caso tivesse sido aposta, talvez rivalizasse agora com o jogador da Académica. Falo de Shaffer. Como o referimos aqui atempadamente, o argentino possuía qualidades invulgares a este nível e, caso melhorasse sobretudo em termos posicionais, seria facilmente o melhor lateral a jogar em Portugal. Jorge Jesus nunca confiou nele, acredito que por nunca o jogador lhe ter merecido a confiança no que diz respeito a aspectos defensivos. É, contudo, pouco interessante analisar aqui as razões pelas quais Shaffer acabou por não vingar, embora me pareça que foi um dos maiores erros da campanha de Jesus. O que é facto é que, sem Shaffer, não há outro lateral esquerdo em Portugal, além de Emídio Rafael, que valorize as coisas que ele valorizava. A capacidade que possui para participar na posse de bola da sua equipa e a qualidade que empresta nesse sentido, com opções invariavelmente correctas, fazem dele o único lateral esquerdo que não se impõe pela agressividade ou pela velocidade que dá ao flanco. Poderíamos referir Álvaro Pereira, Evaldo, Alonso ou Fábio Coentrão. São, todos eles, jogadores muito parecidos: agressivos a defender, rápidos a partir para o ataque, bons individualmente e competentes a fazer a linha. Nenhum deles, porém, valoriza a opção interior como Emídio Rafael. A prioridade do defesa academista não é jogar ao longo da linha, solicitando o extremo ou lançando em profundidade nas costas dos defesas. Essa é a prioridade de um lateral que tem medo de ser apanhado em contrapé, se o passe sair mal. Emídio Rafael dá preferência ao meio, ao apoio lateral e não ao apoio vertical, sobretudo porque percebe que, numa equipa que pretende preservar a posse de bola, uma bola que chega à linha deve voltar ao meio, por ser essa a forma mais eficaz de fugir ao pressing e de evitar o constrangimento do décimo segundo defesa do adversário, a linha lateral. Ao perceber isto, o seu futebol torna-se invulgar. E é tão invulgar que não tem par neste campeonato.

sábado, 8 de maio de 2010

Villas Boas: Toda a Verdade

No dia 6 de Novembro de 2009, Paulo Bento, após uma série de maus resultados, demite-se desencadeando um chorrilho (magnífica palavra, bem sei) de acontecimentos que culminaram com a contratação de Paulo Sérgio. Muito se escreveu, e aconteceu, entre a mudança de v(B)entos (que trocadilho fantástico, por esta ninguém esperava!!); coisas boas, como… bem… coisas, e outras menos boas: Carvalhal, Costinha, Carvalhal, João Pereira, Carvalhal, etc. O que ninguém sabe é que a razão de ser para todos estes e outros acontecimentos converge num único elemento. Este é o verdadeiro relato do que aconteceu nas semanas que se seguiram à demissão de Paulo Bento.

No dia 12 de Novembro, o Sporting comunica à CMVM a entrada de Ricardo Sá pinto como director desportivo, sendo que este pega de imediato no dossier do novo treinador. Villas Boas é o treinador que elege. Ao contrário do que é dito e escrito, a sua contratação não cai por falta de acordo de verbas, nomeadamente aquilo que o Sporting Clube de Portugal estaria disposto a pagar para a Académica libertar Villas Boas. O acordo entre os clubes existe, e é uma exigência de última hora, por parte de Villas Boas, que motiva o recuo de Bettencourt: Villas Boas compromete-se a vencer o título ainda em 2009/2010, desde que uma figura proeminente do universo leonino saia de Alvalade: Liedson. A reacção de Bettencourt é inflexível: abandona de imediato a reunião, dizendo que André VilLas Boas é louco, proferindo expressões como "herege", "blasfémia", "Perdoai-o Senhor pois ele é apenas uma criança que não sabe o que diz", etc. Incrédulo, Villas Boas assiste à partida de Bettencourt e de Salema Garção, este último hesitante entre acompanhar o seu presidente de imediato ou ligar para os seus contactos jornalísticos a descrever os mais recentes contornos da reunião entre Villas Boas e o "staff" leonino. No fim deste espectáculo, ficam apenas Sá pinto e Villas Boas, com o último a proferir apenas uma frase:

- Tu vais-me dar uma pêra, não vais?

Dito isto, o director desportivo dirige-se a Villas Boas, enquanto o jovem técnico, desesperado, procura algo com que se defender, pegando por fim numa garrafa de água, meio vazia e sem tampa.

- Tu conseguias mesmo fazer do Sporting campeão? – perguntou-lhe Sá Pinto enquanto lhe esticava a mão, cumprimentando-o.

No dia 14 de Novembro, Sá Pinto conta a alguns jogadores, entre eles Hélder Postiga e Simon Vukcevic, os verdadeiros motivos que levaram a que Villas Boas permanecesse em Coimbra. Mais tarde, Postiga faz uma pequena confidência a Vukcevic, depois do montenegrino corrigir um e-mail que Pedro Silva queria enviar a uma brasileira que conhecera num restaurante de rodízio:

- Enquanto o Liedson permanecer no Sporting, eu não volto a fazer golos.

Esta ideia terá então iluminado Vukcevic, que pensou:

- Epah, e eu, enquanto ele estiver em Alvalade, não volto a jogar bem!

Entretanto, chega Izmailov e pergunta, em russo, o que é que se passa, ao que o número dez leonino responde que lhe explicaria do que se tratava assim que o camisola 7 conseguisse terminar os exercícios de gramática que lhe pedira para fazer. Cabisbaixo, Izmailov pegou no caderno contendo os exercícios que o seu amigo lhe havia preparado e deitou mãos à obra. Entretanto, as exibições do Sporting melhorar ligeiramente, precisamente no período em que o 31 se encontrava lesionado, levando Sá Pinto a pensar que, se calhar, Villas Boas até tinha razão. Esta iluminação, associada à qualidade evidenciada pela equipa de Coimbra, mostrou a Sá Pinto o erro que o presidente do Sporting havia cometido. Decidido, dirigiu-se a Bettencourt para tentar convencer o líder leonino a reconsiderar e a contratar Villas Boas para as próximas temporadas. Bettencourt, todavia, tinha outros planos. No dia anterior tivera uma conversa com Carvalhal e o técnico havia explicado que tinha grandiosos planos para o ano que se seguia, sendo que todos eles assentavam em redor de Liedson.

Desesperado, Sá Pinto tentou demover o seu presidente, mas sem sucesso. No dia da fatídica eliminatória para a Taça de Portugal frente ao Mafra, após nova tentativa frustrada de demover Bettencourt de manter Carvalhal para a época seguinte, Sá Pinto assistiu ao jogo junto do banco, visivelmente enervado com o diálogo entre Carvalhal e Liedson, com o técnico português a perguntar e a pedir a opinião ao Levezinho não só sobre aspectos do jogo como também sobre se o baiano era conhecedor de algumas mezinhas que o ajudassem a combater a calvície. A atitude desrespeitosa de Liedson para com Sá Pinto no final do jogo foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo.

A saída de Sá Pinto deixou em aberto a vaga de director desportivo, que foi assumida temporariamente por Salema Garção. Os poucos dias foram, contudo, suficientes para que Salema Garção pudesse tomar conhecimento do pequeno “pacto” que Postiga e Vukcevic haviam feito,” pacto” esse de que Izmailov, agora que já estava perto de concluir os exercícios de gramática que Vukcevic havia proposto ao russo, queria fazer parte. Entretanto, horas antes do jogo com o Braga para o campeonato, Pereirinha perde uma aposta com Moutinho e é obrigado a enviar uma mensagem a Carvalhal, fazendo-se passar por Bettencourt, dizendo o seguinte:

"Mister Carvalhal, aconteça o que acontecer, contamos consigo para a próxima época. Ass: JEB."

O que Pereirinha não poderia prever era que não só o jogo com o Braga correria mal como a equipa sofreria a quantidade de derrotas que sofreu de seguida, o que levou a que Bettencourt, certo dia, na sauna, soltasse uma lamentação a respeito do trabalho de Carvalhal:

- Mister Carvalhal, isto assim não dá. Começo a ficar com dúvidas acerca da renovação...

- Mas você disse que, acontecesse o que acontecesse, contava comigo.

- Eu??!! Está louco, homem? Uma coisa é estar convencido que o Sporting está a jogar melhor e que você algum dia será campeão com alguma equipa, outra bem diferente é pôr-se a imaginar coisas que eu disse.

Carvalhal, envergonhado e desconfiando que fora enganado por alguém que se fizera passar por Bettencourt, desabafa com Liedson, que lhe diz que sabia que não fora Bettencourt a enviar a mensagem, mas um jogador do plantel. Carvalhal exerce pressão sobre Liedson para que este revele o que sabe, mas Liedson admite apenas confidenciar tal informação caso Carvalhal começasse a encostar Saleiro, pois este andava a fazer alguns golos e isso poderia fazer crer às pessoas que o Sporting não precisava de Liedson. Carvalhal promete a Liedson pensar no assunto e o Levezinho indica o nome de Pereirinha. Na semana seguinte, em jantar com Carlos Queiroz, Carvalhal conta o sucedido, ao que Queiroz sugere:

- Pá, esses putos só estão bem é a fazer porcaria. Castiga-o, pá.

- Pois, pensei nisso. Mas o chavalo tem entrado bem. É quase sempre dos melhores quando o ponho a jogar. - respondeu Carvalhal, hesitando em tomar medidas tão drásticas.

- Pá, o gajo também se pôs com aquela coisa dos penálties na selecção e mandei-o logo para casa. - continuou Queiroz. - Vê lá se voltou a marcar penálties. Eles precisam é de correctivos. Nunca mais o ponhas até ao fim da época, a ver se aprende! Nem que utilizes o Pedro Silva. Eles têm de perceber quem é que manda.

Com medo de que Carlos Queiroz nunca mais lhe falasse, Carvalhal decide então obedecer e Pereirinha não volta a calçar, a não ser muito esporadicamente, até ao duplo desafio com o Atlético de Madrid, lançando-o então às feras para tentar queimá-lo e assim justificar a sua opção. Acontece que Pereirinha acabou por jogar enormidades e Carvalhal teve de fundamentar a sua opção por deixar o 25 sistematicamente de fora alegando que o jovem não gostava de espinafres, razão pela qual continuou a deixá-lo sistematicamente de fora após esses desafios.

No dia anterior ao decisivo jogo da segunda mão contra os espanhóis, quando Izmailov finalmente termina os exercícios de gramática, Postiga e Vukcevic explicam ao russo os contornos do acordo firmado ainda em 2009. Izmailov, sabendo ainda que fora Liedson quem confessara a Carvalhal que fora Pereirinha quem enviara a dita mensagem, decide ser ainda mais assertivo na sua tomada de decisão: ou Liedson ficava no banco frente ao clube de Madrid, ou ele abandonava de imediato o Sporting. O português do russo, no entanto, ainda não era muito fluente, o que leva Carvalhal a procurar Costinha para que este lhe explique as razões pelas quais o jogador não queria defrontar o Atlético de Madrid. O problema é que Costinha fala tão bem russo como Pedro Silva fala português. Resultado: Costinha entende que Izmailov só continuaria no Sporting se Carvalhal saísse, não tolera a audácia do russo e manda-o embora do estágio, comunicando que ele alegava que não se encontrava psicologicamente apto para jogar e apenas contando a Bettencourt a verdade. Este facto resultou no comunicado posterior da Sporting Sad à CMVM, divulgando que Carvalhal não continuaria na próxima época.

Livre de Carvalhal, Bettencourt volta a abordar Villas Boas e, apesar da intransigência do jovem técnico, o presidente do Sporting parece disposto a ceder, entrando em contacto com alguns clubes brasileiros e vários supermercados para efectivar a transferência de Liedson. Costinha, no entanto, traz para o negócio o seu desagrado e confronta Villas Boas:

- És capaz de explicar como é que conseguirias ser campeão sem o Liedson?

Villas Boas nota alguma resistência e finca o pé, dizendo a Costinha que tinha de confiar nele. Costinha diz-lhe que ele tinha perdido quase todos os últimos jogos e que, portanto, não tinha propriamente muita confiança no se trabalho. Sem chegarem a entendimento, Costinha decide abortar as negociações, imaginando que o técnico da Académica era um bluff e salvando assim o Sporting da ameaça do bicho-papão que queria livrar-se do seu mais-que-tudo.

por Gonçalo

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Orgulho

É a única palavra que me ocorre. Não interessam os três penaltys não assinalados, o golo mal anulado, a falta que precedeu o segundo golo do Inter em San Siro. Nada disto tem relevância quando há coisas mais importantes. Não têm relevância também os 76% de posse de bola ou as várias oportunidades de que o Barcelona dispôs, ao contrário do que se diz, por causa dessa predilecção pela posse da bola. Não tem também relevância a ausência de Iniesta, fulcral sempre que o jogo exige rapidez de pensamento e criatividade. Nem sequer tem relevância o facto de o adversário, sempre que dispôs de um livre na última meia-hora, colocar propositadamente um jogador em posição irregular e bater a bola na sua direcção, de modo a provocar o fora-de-jogo, preferindo assim queimar vinte segundos a disputar a bola. O Barcelona de Guardiola não passou a eliminatória, não estará na final. Mas é o único vencedor de hoje. O orgulho que o Entre Dez sente é certamente maior que o alívio que José Mourinho sentiu quando o árbitro apitou para o final da partida. É certamente maior também que o sentimento de vitória daquele que se sagrar campeão europeu. E isto por uma única razão. Porque o futebol do Barça é maior que qualquer conquista. Porque o sentimento do comum adepto é uma coisa religiosa e, como tudo o que é religioso, infundado, ao passo que o sentimento que liga o Entre Dez ao Barcelona de Guardiola redunda numa afinidade intelectual que não tem par. A melhor ilustração deste sentimento de orgulho é aquilo que a equipa de Guardiola fez nos últimos segundos da partida. Podendo usufruir de um pontapé de canto nos últimos segundos, oportunidade que qualquer outra equipa no mundo aproveitaria para, fechando os olhos e rezando a todos os santinhos, bombear uma bola para a área, fazendo fé num desvio milagroso, o Barça manteve a sua dignidade e optou por um canto curto. Não há melhor homenagem ao que se é que defender até às últimas consequências aquilo em que se acredita. E o que os últimos segundos da partida demonstraram foi que o Barcelona preferiu não desvirtuar o seu futebol a acreditar na incerteza da fortuna. É por isto, e só por isto e por tudo o que isto implica, que este Barcelona está a milhas de distância de qualquer outra equipa no planeta.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Agonia Leonina...

Cada vez que vejo a Académica jogar reconheço algo de diferente nesta equipa: a qualidade colectiva, nada condizente com a capacidade individual de grande parte dos seus jogadores, impressiona não só pela organização defensiva, mas principalmente pela qualidade que a equipa demonstra em posse. E isto ainda impressiona mais se tivermos em conta as características dos jogadores que compõem o plantel da Académica, que em nada (à excepção de um ou dois jogadores) ajudam a este estilo de jogo.

Vemos vários treinadores que demonstram qualidade na maneira como organizam a equipa nas situações defensivas, optando por restringir os seus processos ofensivos a transições rápidas, revelando alguma desorientação e dificuldade em confrontos com equipas que possuam a mesma filosofia. Outros aparentam revelar qualidade nos processos ofensivos sem que, no entanto, se consiga destrinçar as ideias do treinador das características dos seus jogadores. É o caso do Vitória de Guimarães. A equipa orientada por Paulo Sérgio revela qualidade com bola. O que não se percebe é se este aspecto é resultado do modelo pretendido pelo técnico ou se é, acima de tudo, uma manifestação inequívoca das características dos seus jogadores. E a mesma questão se pode colocar quando analisamos a equipa orientada por Domingos, o Braga. Nesta parte final do campeonato, entre jogos ganhos de uma forma um pouco esquisita (este esquisito nada tem a ver com arbitragens, mas sim com a forma feliz com que alcançou os resultados positivos, caso da vitória sobre o Guimarães, ou sobre o Leiria) e vitórias muito sofridas, as suas exibições têm estado abaixo do demonstrado no inicio da época, relegando para segundo plano a posse de bola, preocupando-se apenas com as transições rápidas e deixando o processo ofensivo entregue a 4 jogadores, essencialmente rápidos e com propensão para procurar duelos individuais (Alan, Paulo Sérgio, Renteria, Luís Aguiar, etc.).

Não é inocente a chamada destes três treinadores a este texto. E nem dá para disfarçar a minha costela sportinguista no mesmo. Numa altura em que se especula bastante sobre o novo treinador da equipa leonina, a certeza de que esse treinador não será Villas Boas deixa-me algo céptico em relação ao futuro do Sporting. Não estou a dizer que Villas Boas seja único treinador capaz de garantir um futuro recheado de sucessos ao clube de Alvalade, ou que os outros dois não sejam capazes de alcançar títulos em Alvalade. No entanto, o técnico da Briosa demonstra acreditar no modelo que melhor se adequa à matéria humana que, por enquanto, predomina no clube de Alvalade. Pelas referências constantes à posse de bola, pela preocupação em demonstrar qualidade, pela personalidade que incute na equipa, nunca abdicando dos princípios que regem o conjunto por si orientado, por tudo isto aliado à perspicácia que vem ostentando, permitindo-lhe entre outras coisas perceber que Hugo Viana era o jogador que transformava o futebol do Braga em algo de interessante. Por tudo isto, e porque o Benfica de Jesus será cada vez mais forte, Villas Boas parece-me a única solução capaz de permitir ao Sporting ombrear com o clube da Luz num futuro próximo. Já não vem. Espero, assim como todos os sportinguistas, que Costinha e Bettencourt tenham uma solução ao nível de Villas Boas, até porque, como já antes disse, o Sporting encontra-se num momento de viragem. Para ou bem ou para o mal. Por isso mesmo, seria óptimo que, na hora de decidir, se baseassem nas qualidades e características de jogo que as equipas do técnico eleito manifestam, e não na experiência ou nas declarações que proferem. Mourinho e Guardiola são apenas os maiores exemplos do que defendo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Atentados intelectuais

Como é hábito, nesta e noutras áreas, há entre quem fala de futebol gente incompetente, gente simplesmente ingénua e gente que age deliberadamente de má fé. Estas três categorias de pessoas constituem, a meu ver, um conjunto que faz do jogo falado uma coisa empobrecida e que influencia negativamente a opinião pública. São, por isso, atentados ao intelecto do comum adepto, intelecto esse que, como o de uma criança, recebe não-criticamente aquilo com que o educam. Queria, nesta base, falar de três casos evidentes e recentes em que aquilo que se escreve ou diz tem responsabilidades na condução das opiniões de quem lê.

1. Tem vindo a lume, nas últimas semanas, a notícia da possível saída de Pereirinha do Sporting. Não sei se há algum fundamento nestas notícias, mas desconfio que não, até porque é prematuro falar do que quer que seja em relação ao plantel antes de se saber quem é o treinador que o vai comandar. Ora, sendo assim, parece-me claro que a notícia é escrita de um modo absolutamente especulativo e tendo como fundamento o facto de o jogador estar há 3 anos para se afirmar e ainda não o ter conseguido. Trata-se de uma opinião de uma ou mais pessoas que, na urgência de produzir novidades jornalísticas, foi transformada em notícia. O que é cobarde e constitui um atentado intelectual é que este tipo de notícia condiciona opiniões e cola rótulos que, maior parte dos leitores, por não ter convicções fortes, aceita facilmente. Não é certamente o caso mais grave, mas é um exemplo perfeito de como, às vezes, uma opinião aparentemente inocente tem um lado criminoso.

2. O segundo caso tem a ver com David Luiz. Não conheço outro sítio que alerte, com tanta frequência, para a forma precipitada com que a opinião acerca de David Luiz tem crescido. Não está em causa o valor do jogador, que o tem. Está em causa a dimensão desse valor e a magnitude dos elogios que lhe são feitos. Analisemos, primeiramente, o golo com que a Naval se adiantou no marcador, esta segunda-feira. Alguém no seu perfeito juízo consegue desculpar um defesa central que defende daquela maneira primitiva um lance como aquele? O Benfica está equilibrado defensivamente, a bola entra num avançado que está descaído para um flanco, e mesmo assim David Luiz quer à força ganhar o lance em antecipação. Perde-o, como tantas vezes tem acontecido. Mas o pior do lance nem é isso, até porque perder a antecipação, naquela zona, deixava o jogador da Naval apenas com espaço no flanco. O que é grave é que, David Luiz, ao falhar o seu primeiro intuito, fica do lado de fora e continua a força a recuperação da bola. Ao fazê-lo, David Luiz está precisamente a ignorar o mais básico princípio defensivo: o defensor deve dar o lado de fora ao atacante, defendendo sempre por dentro, porque a baliza está por dentro. David Luiz acompanha o avançado da Naval por fora, como se estivesse a defender a bandeirola de canto. São poucos os defesas centrais profissionais que cometem este tipo de erros absurdos. O resultado foi o óbvio. O atacante da Naval protegeu a bola com o corpo e veio para dentro sem oposição. Depois fez o golo, mais um sofrido pelo Benfica às custas de David Luiz. Pode ser o defesa mais espectacular a jogar em Portugal, o mais espalhafatoso, o que faz mais cortes no limite, mas é responsável por praticamente 50% dos golos sofridos pelo Benfica esta temporada, só no campeonato. E não atender a este facto é minimamente grave. Quando se fala de David Luiz, ignora-se este pormenor. E fala-se dele esquecendo que isto lhe diminui drasticamente o valor. Toda a pessoa de bom senso deve ser alertada para este tipo de coisas. Porque a diferença entre uma opinião sensacionalista e uma opinião informada é, muitas vezes, uma coisa ténue.

3. O terceiro caso é, porém, aquele que me parece mais grave, aquele em que há, além de incompetência, verdadeira má fé. Deparei recentemente com uma notícia que dava conta de que Hulk era o rei das assistências do campeonato português. O anúncio deixou-me imediatamente desconfortável, pois a minha intuição dizia-me que algo de muito errado havia no mesmo. A notícia foi veiculada por um reputado diário desportivo e baseava-se numa estatística alegadamente séria. Segundo a teoria, Hulk, com duas assistências no Restelo e uma diante do Marítimo, tinha passado para o topo da lista dos jogadores com mais assistências no campeonato, com 5 assistências. A minha primeira reacção foi pensar que não se consideravam assistências provenientes da marcação de bolas paradas, mas duas destas assistências recentes de Hulk tinham sido obtidas desse modo, o que invalidava esta suposição. Fiz questão de rever todos os golos do Benfica, porque estava em crer que Aimar, só na primeira volta, tinha mais do que 5 assistências. Não me enganei. Pablo Aimar tem 8 assistências: duas ao Setúbal (para Javi e para Luisão, na transformação de livres), uma ao Belenenses (para Javi, na transformação de um canto), uma ao Leixões (para David Luiz, na transformação de um livre) uma ao Leiria (para Saviola, na transformação de um livre), uma ao Guimarães (num passe atrasado para Carlos Martins), uma ao Setúbal (para David Luiz, na transformação de um canto), e uma agora à Naval (para Weldon, na transformação de um canto). Desconfio ainda que as contas não batem certo em relação a Hugo Viana, Coentrão e Di Maria, pelo menos. Já se sabe que, para mim, uma tabela de assistências pouco ou nada significa, em relação aos méritos de um jogador. Mas não é assim que pensa maior parte das pessoas. E publicar uma notícia com este grau de irregularidade, ainda por cima eivada de preconceitos e claramente tendenciosa (referindo-se por exemplo com amargura em relação ao lance do golo anulado a Falcao no Restelo, que garantiria a Hulk mais uma assistência), é algo que condiciona fortemente quem lê e não tem espírito crítico para contestar o que lê. Este tipo de acção constitui, na verdade, um atentado intelectual e é uma das mais perigosas consequências da liberdade de imprensa. Assim se constroem mitos e se manipulam verdades. Assim se inflacionam ideias e se conquistam simpatias. É por causa de coisas como estas que as opiniões erradas abundam na praça pública. Se em parte a falta de espírito crítico dos leitores explica a situação, não deixa de haver culpas de quem escreve atrocidades como estas. Lamentavelmente, claro.

sábado, 3 de abril de 2010

De tirar o chapéu...

Sufoco, asfixia, massacre. De diversas outras formas poderia ser descrito o que se passou nos primeiros vinte minutos entre Arsenal e Barcelona. Wenger fez questão de dizer que foi a melhor equipa que alguma vez enfrentou. Fabregas ficou assombrado com a capacidade, ao vivo, do adversário. O extraordinário da exibição catalã está porém no adversário que subjugou. Era só a segunda melhor equipa do mundo a trocar a bola, aquela que, à partida, mais facilidades teria para evitar ser encostada lá atrás, aquela que melhor saberia fugir ao pressing e aquela que mais facilmente repartiria a posse de bola com os comandados de Guardiola. Pois era! Desenganem-se. Nos primeiros vinte minutos da partida, para além das inúmeras oportunidades de golo desperdiçadas, para além de não permitir ao Arsenal uma pausa para respirar, para além do elevado número acertado de passes, o Barcelona quebrou com o record de posse de bola na competição: 76%! Mais uma fasquia suplantada por Guardiola.

A eliminatória está longe de estar resolvida. A própria Liga dos Campeões tem outros candidatos em boa forma. O campeonato está ao rubro. Esta época, a glória catalã pode até vir a ser significativamente inferior à da época anterior. Mas esta equipa continua a mandar às urtigas tudo aquilo com que pretendem diminui-la. Este é o futebol do futuro, como o referiu Ibrahimovic há uns meses, ainda ao serviço do Inter; este é o futebol que vale a pena, que não só é belo, como é eficaz; este é o futebol que convence e pasma. Esta é a melhor forma de ganhar, querendo mais a bola, pressionando mais alto, fazendo menos faltas, privilegiando mais o intelecto que a vontade, mais a concentração que a força bruta, mais a troca de bola que o transporte. Esta é a melhor equipa de sempre. Nunca o mundo assistiu a um jogo com igual assombro. O Barcelona continua a ser, e a tendência é para que isto prevaleça, uma afirmação categórica de uma nova era, uma nova era que, embora deixe em êxtase quase todos, teima em agarrar-se aos predicados do passado. Faz-me confusão que, depois deste Barcelona, seja possível continuar a idolatrar tractores agrícolas ou moinhos de café, que se continue a falar de rapazes com músculos e de tipos que fazem muitos golos. Se há coisa que este Barcelona deveria estar a fazer era a mudar mentalidades. No entanto, parece que o comum mortal, que assiste abismado a um jogo do Barcelona, persiste em achar possível que há algum mérito em ser diferente do que vê. É o instinto conservador das massas e contra isso não há muito a fazer. Resta admirar Guardiola e esperar que o tempo lhe preste a justa homenagem.

P.S. As declarações de Guardiola no final da partida, acerca da sua mentalidade ofensiva, são algo que vale a pena ver e rever. Não se trata somente de um treinador a transmitir aquilo em que acredita. Trata-se da própria essência do melhor futebol possível. Entre outras coisas, confessou Guardiola que "o risco é não arriscar." Não se trata aqui de ganhar somente, de estar em vantagem por marcar golos fora. Trata-se de continuar a atacar, estando a perder ou estando a golear. Trata-se de jogar sempre - sempre! - o mais ao ataque possível. É este o recado, aparentemente trivial, que poucos perceberão.