Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.
As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.
Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.
Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:
"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."
Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:
"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."
Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.