terça-feira, 18 de maio de 2010

Ibrahimovic

Foi publicado a semana passada, na Academia de Talentos, um artigo infame no qual se defendia que Ibrahimovic era um flop europeu. A infâmia do artigo está não só na forma absurdamente exagerada em que são postos os termos e nas coisas que são consideradas, mas também e sobretudo nos argumentos utilizados. As razões que presidiram a tal teoria foram, uma vez mais, os golos que o sueco faz (ou não faz). Dizer que o sueco faz poucos golos na Europa, que se mexe pouco e que, considerando o derradeiro teste o jogo atípico em Camp Nou frente ao Inter, o Barcelona só começou a criar perigo quando ele saiu é não perceber nada de Ibrahimovic nem de pontas-de-lança e é também mentir com quantos dentes se tem. Poderia lembrar o remate de Pedro ao lado ou o remate de Messi para excelente defesa de Júlio César, pois a movimentação de Ibrahimovic está na origem dos mesmos. Poderia lembrar a assistência de calcanhar para Messi, que o deixa na cara de Júlio César antes de Lúcio conseguir, à última, o corte. Poderia também lembrar a assistência de cabeça para Xavi, que fica igualmente em zona de finalização e que só não consegue o remate porque, uma vez mais, alguém corta "in extremis". Podia também lembrar o penalty que sofreu e que não foi assinalado. Tudo isto demonstra que Ibrahimovic não esteve propriamente apagado nesse desafio. O que é, no entanto, grave e que, provavelmente, tem origem na mesma cegueira em que se viu um jogo diferente do verdadeiro, é que se meça o valor do jogador, ou o valor de qualquer ponta-de-lança, pelos golos que marca. Ibrahimovic só é, por isso, um flop europeu para os que não sabem o que é um ponta-de-lança. Esses, como muitos outros, deveriam estar calados na hora de falar sobre coisas das quais não percebem.

Posto isto, gostaria de referir que a minha opinião acerca de Ibrahimovic não mudou nada em relação ao início da época e que discordo inteiramente das críticas que têm sido feitas ao seu desempenho esta temporada. As pessoas que o fazem têm certamente memória curta e não consideram todos os dados. Dizem que marcou poucos golos, mas ignoram, além de que um avançado não se dever medir somente pelos golos que faz, que Ibrahimovic nunca foi um goleador nato, que fez tantos golos como é normal fazer (à excepção da época passada, em que Mourinho trabalhou a equipa especificamente para servir o sueco) e que não foi certamente por essa razão que Guardiola o contratou. Dizem também que esteve particularmente apagado em jogos decisivos e que não se adaptou ao Barcelona, mas ignoram certamente o excelente arranque de temporada, a excelente capacidade que denotou para se adaptar a um estilo de jogo totalmente diferente e as lesões que teve durante a época e que o privaram do melhor dos ritmos competitivos. Dizem ainda, finalmente, que o Barcelona ficou a perder com a troca do sueco por Samuel Eto'o, pois é evidente que não só a equipa não conquistou o que tinha conquistado a época passada como o sueco não ajudou, com golos, tanto como o camaronês, mas ignoram que a presença de Ibrahimovic é indissociável do extraordinário pecúlio de golos de Messi e que, em comparação com o desempenho colectivo do ano anterior, a ausência de Iniesta na fase decisiva da temporada é muito mais significativa do que a troca de avançados entre o Barcelona e o Inter.

As pessoas dizem estas parvoíces principalmente porque não sabem o que é um avançado. Pensam que serve para fazer golos e acham que a qualidade se mede desse modo. Pois estão enganadas. Ibrahimovic é a prova. Embora não tenha alcançado um número de golos extraordinário, aquilo que ofereceu à equipa, em termos de apoio ofensivo, é mais do que suficiente. Foi, aliás, para isso e não para fazer golos que Guardiola o foi buscar. Foi por causa da sua capacidade para segurar a bola e para tabelar, para servir de apoio vertical, que Guardiola o contratou. Ibrahimovic não é um ponta-de-lança vertical, isto é, que se evidencie pelos movimentos de aproximação à baliza, que jogue no limite do fora-de-jogo e espere passes de ruptura, que se movimente na direcção da baliza quando a equipa se aproxima das zonas de último passe. É o oposto. É um avançado para colaborar na construção ofensiva no último terço do terreno, que prefere movimentos de aproximação ao portador da bola, funcionando como apoio, e que serve para desbloquear zonas de pressão. Se o faz - e fá-lo muitíssimo bem - não pode depois estar tantas vezes na área, à espera do momento exacto para atacar as zonas de finalização. As pessoas que criticam o seu desempenho em termos de golos não percebem que esse desempenho é relativamente baixo porque Ibrahimovic está concentrado em coisas mais importantes. No modelo do Barcelona, o avançado, se fizer bem o que tem de fazer, tem menos oportunidades para concretizar que os extremos, que são quem mais aproveita, em termos de golos, o trabalho do avançado. Foi por isso que, esta época, Messi fez tantos golos. Com Ibrahimovic, e não com Eto'o, o Barcelona criou mais situações de finalização para os extremos do que para o avançado, sendo assim menos previsível do que era o ano passado.

Destruído que está o argumento pateta dos golos marcados e compreendidas que ficaram agora as vantagens de ter Ibrahimovic ou, de um modo geral, um ponta-de-lança que se preocupe com mais do que com fazer golos, é talvez possível perceber por que razão discordo da teoria de que Ibrahimovic teve uma má época. O sueco fez uma temporada muito boa, dentro das expectativas que se deviam ter, temporada essa que só não foi melhor porque passou maior parte da segunda volta lesionado ou a recuperar de lesão, sem o ritmo competitivo desejado, e permitiu ao Barcelona melhorar, em relação à época passada, no que diz respeito à construção ofensiva no último terço do terreno. É por isso que continuo a dizer, ainda que se levantem vozes críticas que não sabem do que falam, que Ibrahimovic é o melhor ponta-de-lança do mundo. Não é, nem nunca foi, um exímio goleador, mas isso não significa nada. É aquele que melhor compreende as exigências colectivas da sua posição e aquele que melhor contribui para um jogo de posse e circulação de bola constantes, coisa que qualquer equipa grande que se preze deve privilegiar. Wayne Rooney, Fernando Torres, Didier Drogba, Dimitar Berbatov, David Villa e Diego Milito são talvez os senhores que se seguem, mas nenhum deles tem estas competências tão apuradas quanto o sueco. Vou até mais longe. Não me recordo sequer de um avançado, em toda a História do Futebol, tão forte como Ibrahimovic para este tipo de jogo, isto é, um avançado que se iguale ao sueco na capacidade que empresta à equipa enquanto apoio vertical. É por isso que é, para mim, o melhor do mundo no seu posto e que o escolheria, pelas características que acho que um avançado deve ter, se tivesse de escolher um onze ideal de sempre.

Acerca da influência de Ibrahimovic no modelo de Guardiola, e para se perceber melhor aquilo que era esperado dele, tenho a corroborar a minha opinião a de Johan Cruyff, que dizia assim, a 7 de Setembro de 2009:

"Con Ibrahimovic, las variantes con las que trabajar se multiplican. Por técnica, puede salir a recibir y tocar en corto; por físico, puede pelear en largo; por estatura, debería de verse incrementada la cifra de centros en jugada. Por físico, técnica y estatura, su sola presencia fija la marca de uno o incluso dos marcadores. En los córneres, este efecto imán libera a otro compañero. Lo comprobamos el otro día ante el Sporting. Los defensores estaban tan atentos, tan temerosos del juego de cabeza del sueco, que Keita se puso las botas. En función de cómo se mueva y de dónde arrastre a su marcador o marcadores, en función de dónde recibe, de cómo la suelte, de si encara o no, aparecerán más o menos espacios para sus socios en ataque. [...] La cuestión no estriba en si Ibrahimovic marcará más o menos goles que Etoo porque estamos ante futbolistas distintos. Tuvo mala suerte al llegar lesionado en una mano. Un problema menor. La forma física la cogerá muy pronto. La cuestión estriba en cómo recortar los plazos de adaptación. Y ahí todos han de multiplicar esfuerzos, no solo el recién llegado. Para lo que para muchos ahora es un problema, que no está sincronizado con el equipo, para mi es excitante. El tipo es tan distinto a Etoo que, en cierto modo, toca empezar casi de cero. Y así, todos atentos. Máxima atención. Tras ganarlo todo, es lo que quería Guardiola."

Para Cruyff, Ibrahimovic é nitidamente uma mais-valia sem bola e possibilita aos colegas mais espaço e mais facilidades. Além disso, não está em causa o marcar mais ou menos golos que Eto'o, mas sim o impacto colectivo que um e outro têm. Ibrahimovic permitiu ao Barcelona, enquanto equipa, uma variedade maior de soluções, mas permitiu também aumentar a sua imprevisibilidade e manter a motivação e a concentração competitiva, uma vez que toda a equipa se teve de adaptar às diferentes rotinas que, com Ibrahimovic no onze, passaram a ser exigidas. Sobre a mudança de Eto'o por Ibrahimovic, a necessidade dessa mudança e o impacto que essa mudança teve no colectivo, Cruyff diz ainda isto, desta feita a 5 de Outubro de 2009, noutro artigo:

"De entrada, y a diferencia de hace tres años, tras la Champions de París, alguien se dio cuenta de que se tenía que hacer algo, algo importante, algo chocante, para romper de una forma u otra lo que se veía, por muy bueno que fuera. Me pongo en la piel de Guardiola y miro a mis mejores efectivos: Messi, Xavi, Iniesta, Etoo... ¿A cuál elijo para dar ese golpe a la plantilla? ¿A cuál doy salida y a quién doy entrada? Sé lo que quiero provocar: que no decaigan las virtudes exhibidas y que aparezca un nuevo reto con el que trabajar. Y lo quiero con el cambio de un solo jugador. Un futbolista que, por calidades distintas, implique la máxima atención del resto que le rodea. Xavi e Iniesta te dan el sello Barça. Messi es distinto a todos. Por tanto, la decisión estaba clara. Además, un detalle: Etoo era el único que acababa contrato. Y siendo el 9, los movimientos de tu jugador referencia siempre condicionan al resto. Un solo cambio, pero certero."

Em resumo, o Barcelona melhorou com Ibrahimovic. Além de ter permanecido uma equipa competitiva, tendo a chegada do sueco servido para que todo o conjunto mantivesse a concentração táctica necessária para se adaptar a um novo jogador e a novas maneiras de jogar, a equipa de Guardiola conseguiu evoluir precisamente naquilo em que já era fortíssima e naquilo que se julgaria, por essa mesma razão, mais difícil e desnecessário de evoluir: a construção ofensiva. Com isso, tornou-se uma equipa ainda mais temível em posse, menos dependente das individualidades, com mais soluções para furar blocos baixos. Há quem ache que a meia-final de Camp Nou foi um tremendo fracasso. Do meu ponto de vista, há algo importante a reter desse desafio. Comparando-o com o do ano anterior em Londres, no qual o Barcelona jogou em circunstâncias idênticas, contra um adversário ao qual só interessou defender, o jogo deste ano revelou um Barcelona mais capaz, um Barcelona que conseguiu criar várias oportunidades de perigo ao longo dos 90 minutos. Não o conseguiu variando o seu tipo de jogo, mas sempre no seu estilo, o que revela que o estilo se afinou, que tem mais qualidade. Mesmo sem Iniesta, que empresta a este tipo de jogo soluções evidentes, o Barcelona foi mais competente do que havia sido contra o Chelsea. Ainda que não tenha sido suficiente, isso é um bom sinal. E tem muito a ver com a evolução que a equipa teve ao longo desta época e que muito se relaciona com a chegada de Ibrahimovic. O sueco é isto tudo. E é por isto tudo que não tem quem se assemelhe a ele.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Certezas (18)

Apareceu este ano a jogar regularmente, desde o início da época, sendo aposta incondicional do seu treinador, ao contrário de certos jogadores consagrados, que tiveram de penar bastante. Enquanto Luca Toni, Miroslav Klose, Bastian Schweinsteiger e Franck Ribéry, sobretudo, tiveram dificuldades em agradar a Louis Van Gaal, este jovem foi uma aposta firme, primeiro numa das alas e depois no centro do terreno, como médio de ataque que ligava o meio-campo ao ataque no 4231 do holandês. É verdade que Van Gaal é dado a caprichos, mas não será menos verdade que de alguma maneira este miúdo o terá impressionado desde muito cedo. Em mim, desde o primeiro momento em que o vi jogar, fez-me sentir uma natural empatia. A sua inteligência e a sua maturidade, raríssimas num jogador com a sua idade, sobretudo atendendo aos excelentes atributos técnicos de que é dotado, foram as coisas que mais me prenderam a atenção. Achei-o, desde logo, extraordinariamente criativo, capaz de inventar soluções de passe com facilidade, um jogador que, embora muito bom a nível técnico, raramente optava por partir para cima dos seus opositores, que procurava apoios próximos, etc. Com a diferença óbvia no tamanho, pareceu-me um jogador extraordinariamente semelhante a Bruno Pereirinha, quer pelo próprio estilo, quer essencialmente pela forma de pensar e perceber o jogo. Na altura, jogava como extremo mas, tal como sempre vaticinei em relação ao jovem leão, era no meio, como médio de ataque, que me parecia que o seu potencial melhor podia ser explorado. A sua simplicidade, aliada às facilidades técnicas que possuía, permitia, a meu ver, que pudesse jogar metido entre as linhas adversárias, conferindo ao futebol da sua equipa uma solução vertical constante. Van Gaal, creio, percebeu isso mesmo. E estou em crer ainda que o futebol do Bayern se revolucionou para melhor desde que este jovem alemão passou a jogar como médio-ofensivo, jogando nas costas do ponta-de-lança e sempre como apoio vertical ao médio portador da bola. Tem ainda, para além desta influência clara, a capacidade para, aproximando-se das linhas, servir de apoio lateral quando o jogo é conduzido pelas faixas, criando situações de superioridade numérica nessas zonas do terreno. É, no fundo, no modelo de Van Gaal, o jogador responsável pela formação de triângulos nas zonas com maior densidade de adversários e, por isso, o jogador mais importante da equipa no momento da construção ofensiva e a peça mais difícil de substituir no onze do holandês. O futebol do Bayern melhorou significativamente na segunda metade da temporada, consolidando-se. Melhorou sobretudo ao nível da construção ofensiva, sendo agora uma equipa muito personalizada. A principal razão, penso, para que isso tenha acontecido, foi precisamente a aposta neste jogador nesta posição. Numa altura decisiva da época, depois de ter sido pré-convocado para a selecção alemã para o mundial da África do Sul, de ter ajudado o Bayern a sagrar-se campeão e dias antes da primeira de duas finais importantíssimas para o seu clube, não queria deixar de reconhecer o extraordinário valor de Thomas Müller.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Emídio Rafael e Maxwell

Comecemos com a rudeza e a brutidão de todas as certezas: Emídio Rafael é o melhor lateral esquerdo desta Liga Sagres. Quanto às razões para tal afirmação, já lá irei. Confesso primeiro que não o conhecia antes desta temporada, mas confesso igualmente que só a muito custo percebo o anonimato a que foi votado nos últimos anos. Foi campeão de júniores com Paulo Bento e nunca foi aposta deste, na equipa principal, porquê? Se a lateral esquerda foi sempre um problema com que se debateu Paulo Bento, se se deu tanto dinheiro por Grimi e se deu hipóteses a um jogador como André Marques, por que raio nunca foi dada uma hipótese a Emídio Rafael? A única explicação que encontro prende-se com as características físicas do atleta. Aliás, é essa a mesma explicação que encontro para que André Nogueira, um lateral direito de grande qualidade que apareceu no plantel de júniores no ano imediatamente a seguir, tenha desaparecido do mapa. E essa explicação tornaria também claro por que razão Emídio Rafael nunca foi opção e André Marques sim. Afinal, trata-se de um jogador com uma envergadura invejável, enquanto Emídio Rafael é magro e baixo.

Esta preocupação com o tamanho é algo que me causa alguma repulsa. Não é nada de novo, claro, mas parece-me uma teimosia que demora a ser erradicada do futebol. Aliás, numa altura em que já se devia ter percebido a pouca importância que os factores físicos têm num jogador de futebol, com o Barcelona de Guardiola a estender o dedo do meio a todos os imbecis que pensam o contrário, parece que continua a haver uma tendência incrível para se dar atenção a factores secundários como esses. Nos escalões de formação, continuam a ser dispensados atletas talentosos porque os testes do pulso revelam que não vão ser altos; continuam a ser avaliados atletas pelo tamanho dos pais; continuam a ser contratados africanos poderosos fisicamente para colmatarem a baixa estatura dos atletas portugueses. E se isto é assim na formação, cuja principal obrigação deveria ser promover os mais talentosos e não os mais cabeçudos, nos principais escalões as coisas continuam muito primitivas. De tal modo que, depois, se deixam escapar talentos como o de Emídio Rafael.

Quem o vê jogar com olhos de ver, percebe imediatamente que não se trata de um lateral vulgar. É inteligente, tem um pé esquerdo formidável, posiciona-se invariavelmente bem, lê quase sempre bem os lances e permite à equipa uma qualidade incomparável com bola. Não é tão forte no um para um defensivo quanto poderia ser, mas compensa isso com uma boa leitura dos lances e, sobretudo, com um posicionamento defensivo acima de toda a suspeita. A forma como defende por dentro não tem quase paralelo em Portugal. Mas é a atacar que mais se destaca. Não só porque está incumbido das bolas paradas para o pé esquerdo, mas sobretudo pelo que faz em jogo corrido. Muitos acham que um lateral que ataca bem é um lateral possante, ao estilo de Roberto Carlos, que faz o corredor todo, que é veloz e forte no drible. Emídio Rafael não é nada disto. Não é possante, não é explosivo e raramente dribla. Cruza extraordinariamente bem, mas isso é apenas um pormenor. Aquilo em que é, de facto, muito bom, é nas opções com bola, é na forma como encontra soluções por dentro, permitindo à equipa permanecer com a posse de bola. Raramente estica o passe ao longo do corredor, raramente joga comprido ou tenta virar o flanco de jogo. As suas opções são jogar perto, com o apoio mais próximo, vindo para dentro. Um lateral, numa equipa que queira assumir a iniciativa do jogo através da posse de bola, deve ter como principal característica o jogar para dentro, curto. É por essa característica, tão pouco usual num lateral, que o comparo ao lateral brasileiro do Barcelona, Maxwell.

Como Emídio Rafael, Maxwell não é um jogador com uma envergadura extraordinária. Não é pelos atributos físicos que se destaca. Com bola, porém, permite coisas ao Barcelona que Abidal, por exemplo, não permite. A facilidade que tem em jogar de primeira, curto, para dentro, é notável. Isto permite ao Barcelona ir ao flanco e vir rapidamente, estraçalhando a basculação do adversário; permite ao Barcelona sair de zonas de pressão difíceis e trocar a bola rapidamente. Com Maxwell, o Barcelona não é tão vertical a atacar e não tão agressivo a defender. Mas é posicionalmente mais estável e mais imprevisível com bola; é mais dinâmico a trocar o esférico e mais paciente; mais eficaz em tabelas curtas e mais temível a atacar pelos espaços centrais. Para mim, para quem um lateral, ofensivamente, deve valer essencialmente por esta característica tão pouco usual, Maxwell é melhor que Abidal e um dos melhores laterais do mundo. O seu futebol, enquadrado num colectivo que o valorize, como é o caso do Barcelona, é sempre mais interessante que aquele que qualquer lateral que valha pela capacidade de fazer o flanco todo com rigor e pela intensidade que põe em jogo é capaz de oferecer.

Voltando agora a Emídio Rafael e à afirmação inicial de que era o melhor lateral desta liga. Acho que havia um jogador, no início da temporada, que se poderia ter imposto precisamente por coisas semelhantes e que, caso tivesse sido aposta, talvez rivalizasse agora com o jogador da Académica. Falo de Shaffer. Como o referimos aqui atempadamente, o argentino possuía qualidades invulgares a este nível e, caso melhorasse sobretudo em termos posicionais, seria facilmente o melhor lateral a jogar em Portugal. Jorge Jesus nunca confiou nele, acredito que por nunca o jogador lhe ter merecido a confiança no que diz respeito a aspectos defensivos. É, contudo, pouco interessante analisar aqui as razões pelas quais Shaffer acabou por não vingar, embora me pareça que foi um dos maiores erros da campanha de Jesus. O que é facto é que, sem Shaffer, não há outro lateral esquerdo em Portugal, além de Emídio Rafael, que valorize as coisas que ele valorizava. A capacidade que possui para participar na posse de bola da sua equipa e a qualidade que empresta nesse sentido, com opções invariavelmente correctas, fazem dele o único lateral esquerdo que não se impõe pela agressividade ou pela velocidade que dá ao flanco. Poderíamos referir Álvaro Pereira, Evaldo, Alonso ou Fábio Coentrão. São, todos eles, jogadores muito parecidos: agressivos a defender, rápidos a partir para o ataque, bons individualmente e competentes a fazer a linha. Nenhum deles, porém, valoriza a opção interior como Emídio Rafael. A prioridade do defesa academista não é jogar ao longo da linha, solicitando o extremo ou lançando em profundidade nas costas dos defesas. Essa é a prioridade de um lateral que tem medo de ser apanhado em contrapé, se o passe sair mal. Emídio Rafael dá preferência ao meio, ao apoio lateral e não ao apoio vertical, sobretudo porque percebe que, numa equipa que pretende preservar a posse de bola, uma bola que chega à linha deve voltar ao meio, por ser essa a forma mais eficaz de fugir ao pressing e de evitar o constrangimento do décimo segundo defesa do adversário, a linha lateral. Ao perceber isto, o seu futebol torna-se invulgar. E é tão invulgar que não tem par neste campeonato.

sábado, 8 de maio de 2010

Villas Boas: Toda a Verdade

No dia 6 de Novembro de 2009, Paulo Bento, após uma série de maus resultados, demite-se desencadeando um chorrilho (magnífica palavra, bem sei) de acontecimentos que culminaram com a contratação de Paulo Sérgio. Muito se escreveu, e aconteceu, entre a mudança de v(B)entos (que trocadilho fantástico, por esta ninguém esperava!!); coisas boas, como… bem… coisas, e outras menos boas: Carvalhal, Costinha, Carvalhal, João Pereira, Carvalhal, etc. O que ninguém sabe é que a razão de ser para todos estes e outros acontecimentos converge num único elemento. Este é o verdadeiro relato do que aconteceu nas semanas que se seguiram à demissão de Paulo Bento.

No dia 12 de Novembro, o Sporting comunica à CMVM a entrada de Ricardo Sá pinto como director desportivo, sendo que este pega de imediato no dossier do novo treinador. Villas Boas é o treinador que elege. Ao contrário do que é dito e escrito, a sua contratação não cai por falta de acordo de verbas, nomeadamente aquilo que o Sporting Clube de Portugal estaria disposto a pagar para a Académica libertar Villas Boas. O acordo entre os clubes existe, e é uma exigência de última hora, por parte de Villas Boas, que motiva o recuo de Bettencourt: Villas Boas compromete-se a vencer o título ainda em 2009/2010, desde que uma figura proeminente do universo leonino saia de Alvalade: Liedson. A reacção de Bettencourt é inflexível: abandona de imediato a reunião, dizendo que André VilLas Boas é louco, proferindo expressões como "herege", "blasfémia", "Perdoai-o Senhor pois ele é apenas uma criança que não sabe o que diz", etc. Incrédulo, Villas Boas assiste à partida de Bettencourt e de Salema Garção, este último hesitante entre acompanhar o seu presidente de imediato ou ligar para os seus contactos jornalísticos a descrever os mais recentes contornos da reunião entre Villas Boas e o "staff" leonino. No fim deste espectáculo, ficam apenas Sá pinto e Villas Boas, com o último a proferir apenas uma frase:

- Tu vais-me dar uma pêra, não vais?

Dito isto, o director desportivo dirige-se a Villas Boas, enquanto o jovem técnico, desesperado, procura algo com que se defender, pegando por fim numa garrafa de água, meio vazia e sem tampa.

- Tu conseguias mesmo fazer do Sporting campeão? – perguntou-lhe Sá Pinto enquanto lhe esticava a mão, cumprimentando-o.

No dia 14 de Novembro, Sá Pinto conta a alguns jogadores, entre eles Hélder Postiga e Simon Vukcevic, os verdadeiros motivos que levaram a que Villas Boas permanecesse em Coimbra. Mais tarde, Postiga faz uma pequena confidência a Vukcevic, depois do montenegrino corrigir um e-mail que Pedro Silva queria enviar a uma brasileira que conhecera num restaurante de rodízio:

- Enquanto o Liedson permanecer no Sporting, eu não volto a fazer golos.

Esta ideia terá então iluminado Vukcevic, que pensou:

- Epah, e eu, enquanto ele estiver em Alvalade, não volto a jogar bem!

Entretanto, chega Izmailov e pergunta, em russo, o que é que se passa, ao que o número dez leonino responde que lhe explicaria do que se tratava assim que o camisola 7 conseguisse terminar os exercícios de gramática que lhe pedira para fazer. Cabisbaixo, Izmailov pegou no caderno contendo os exercícios que o seu amigo lhe havia preparado e deitou mãos à obra. Entretanto, as exibições do Sporting melhorar ligeiramente, precisamente no período em que o 31 se encontrava lesionado, levando Sá Pinto a pensar que, se calhar, Villas Boas até tinha razão. Esta iluminação, associada à qualidade evidenciada pela equipa de Coimbra, mostrou a Sá Pinto o erro que o presidente do Sporting havia cometido. Decidido, dirigiu-se a Bettencourt para tentar convencer o líder leonino a reconsiderar e a contratar Villas Boas para as próximas temporadas. Bettencourt, todavia, tinha outros planos. No dia anterior tivera uma conversa com Carvalhal e o técnico havia explicado que tinha grandiosos planos para o ano que se seguia, sendo que todos eles assentavam em redor de Liedson.

Desesperado, Sá Pinto tentou demover o seu presidente, mas sem sucesso. No dia da fatídica eliminatória para a Taça de Portugal frente ao Mafra, após nova tentativa frustrada de demover Bettencourt de manter Carvalhal para a época seguinte, Sá Pinto assistiu ao jogo junto do banco, visivelmente enervado com o diálogo entre Carvalhal e Liedson, com o técnico português a perguntar e a pedir a opinião ao Levezinho não só sobre aspectos do jogo como também sobre se o baiano era conhecedor de algumas mezinhas que o ajudassem a combater a calvície. A atitude desrespeitosa de Liedson para com Sá Pinto no final do jogo foi apenas a gota de água que fez transbordar o copo.

A saída de Sá Pinto deixou em aberto a vaga de director desportivo, que foi assumida temporariamente por Salema Garção. Os poucos dias foram, contudo, suficientes para que Salema Garção pudesse tomar conhecimento do pequeno “pacto” que Postiga e Vukcevic haviam feito,” pacto” esse de que Izmailov, agora que já estava perto de concluir os exercícios de gramática que Vukcevic havia proposto ao russo, queria fazer parte. Entretanto, horas antes do jogo com o Braga para o campeonato, Pereirinha perde uma aposta com Moutinho e é obrigado a enviar uma mensagem a Carvalhal, fazendo-se passar por Bettencourt, dizendo o seguinte:

"Mister Carvalhal, aconteça o que acontecer, contamos consigo para a próxima época. Ass: JEB."

O que Pereirinha não poderia prever era que não só o jogo com o Braga correria mal como a equipa sofreria a quantidade de derrotas que sofreu de seguida, o que levou a que Bettencourt, certo dia, na sauna, soltasse uma lamentação a respeito do trabalho de Carvalhal:

- Mister Carvalhal, isto assim não dá. Começo a ficar com dúvidas acerca da renovação...

- Mas você disse que, acontecesse o que acontecesse, contava comigo.

- Eu??!! Está louco, homem? Uma coisa é estar convencido que o Sporting está a jogar melhor e que você algum dia será campeão com alguma equipa, outra bem diferente é pôr-se a imaginar coisas que eu disse.

Carvalhal, envergonhado e desconfiando que fora enganado por alguém que se fizera passar por Bettencourt, desabafa com Liedson, que lhe diz que sabia que não fora Bettencourt a enviar a mensagem, mas um jogador do plantel. Carvalhal exerce pressão sobre Liedson para que este revele o que sabe, mas Liedson admite apenas confidenciar tal informação caso Carvalhal começasse a encostar Saleiro, pois este andava a fazer alguns golos e isso poderia fazer crer às pessoas que o Sporting não precisava de Liedson. Carvalhal promete a Liedson pensar no assunto e o Levezinho indica o nome de Pereirinha. Na semana seguinte, em jantar com Carlos Queiroz, Carvalhal conta o sucedido, ao que Queiroz sugere:

- Pá, esses putos só estão bem é a fazer porcaria. Castiga-o, pá.

- Pois, pensei nisso. Mas o chavalo tem entrado bem. É quase sempre dos melhores quando o ponho a jogar. - respondeu Carvalhal, hesitando em tomar medidas tão drásticas.

- Pá, o gajo também se pôs com aquela coisa dos penálties na selecção e mandei-o logo para casa. - continuou Queiroz. - Vê lá se voltou a marcar penálties. Eles precisam é de correctivos. Nunca mais o ponhas até ao fim da época, a ver se aprende! Nem que utilizes o Pedro Silva. Eles têm de perceber quem é que manda.

Com medo de que Carlos Queiroz nunca mais lhe falasse, Carvalhal decide então obedecer e Pereirinha não volta a calçar, a não ser muito esporadicamente, até ao duplo desafio com o Atlético de Madrid, lançando-o então às feras para tentar queimá-lo e assim justificar a sua opção. Acontece que Pereirinha acabou por jogar enormidades e Carvalhal teve de fundamentar a sua opção por deixar o 25 sistematicamente de fora alegando que o jovem não gostava de espinafres, razão pela qual continuou a deixá-lo sistematicamente de fora após esses desafios.

No dia anterior ao decisivo jogo da segunda mão contra os espanhóis, quando Izmailov finalmente termina os exercícios de gramática, Postiga e Vukcevic explicam ao russo os contornos do acordo firmado ainda em 2009. Izmailov, sabendo ainda que fora Liedson quem confessara a Carvalhal que fora Pereirinha quem enviara a dita mensagem, decide ser ainda mais assertivo na sua tomada de decisão: ou Liedson ficava no banco frente ao clube de Madrid, ou ele abandonava de imediato o Sporting. O português do russo, no entanto, ainda não era muito fluente, o que leva Carvalhal a procurar Costinha para que este lhe explique as razões pelas quais o jogador não queria defrontar o Atlético de Madrid. O problema é que Costinha fala tão bem russo como Pedro Silva fala português. Resultado: Costinha entende que Izmailov só continuaria no Sporting se Carvalhal saísse, não tolera a audácia do russo e manda-o embora do estágio, comunicando que ele alegava que não se encontrava psicologicamente apto para jogar e apenas contando a Bettencourt a verdade. Este facto resultou no comunicado posterior da Sporting Sad à CMVM, divulgando que Carvalhal não continuaria na próxima época.

Livre de Carvalhal, Bettencourt volta a abordar Villas Boas e, apesar da intransigência do jovem técnico, o presidente do Sporting parece disposto a ceder, entrando em contacto com alguns clubes brasileiros e vários supermercados para efectivar a transferência de Liedson. Costinha, no entanto, traz para o negócio o seu desagrado e confronta Villas Boas:

- És capaz de explicar como é que conseguirias ser campeão sem o Liedson?

Villas Boas nota alguma resistência e finca o pé, dizendo a Costinha que tinha de confiar nele. Costinha diz-lhe que ele tinha perdido quase todos os últimos jogos e que, portanto, não tinha propriamente muita confiança no se trabalho. Sem chegarem a entendimento, Costinha decide abortar as negociações, imaginando que o técnico da Académica era um bluff e salvando assim o Sporting da ameaça do bicho-papão que queria livrar-se do seu mais-que-tudo.

por Gonçalo

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Orgulho

É a única palavra que me ocorre. Não interessam os três penaltys não assinalados, o golo mal anulado, a falta que precedeu o segundo golo do Inter em San Siro. Nada disto tem relevância quando há coisas mais importantes. Não têm relevância também os 76% de posse de bola ou as várias oportunidades de que o Barcelona dispôs, ao contrário do que se diz, por causa dessa predilecção pela posse da bola. Não tem também relevância a ausência de Iniesta, fulcral sempre que o jogo exige rapidez de pensamento e criatividade. Nem sequer tem relevância o facto de o adversário, sempre que dispôs de um livre na última meia-hora, colocar propositadamente um jogador em posição irregular e bater a bola na sua direcção, de modo a provocar o fora-de-jogo, preferindo assim queimar vinte segundos a disputar a bola. O Barcelona de Guardiola não passou a eliminatória, não estará na final. Mas é o único vencedor de hoje. O orgulho que o Entre Dez sente é certamente maior que o alívio que José Mourinho sentiu quando o árbitro apitou para o final da partida. É certamente maior também que o sentimento de vitória daquele que se sagrar campeão europeu. E isto por uma única razão. Porque o futebol do Barça é maior que qualquer conquista. Porque o sentimento do comum adepto é uma coisa religiosa e, como tudo o que é religioso, infundado, ao passo que o sentimento que liga o Entre Dez ao Barcelona de Guardiola redunda numa afinidade intelectual que não tem par. A melhor ilustração deste sentimento de orgulho é aquilo que a equipa de Guardiola fez nos últimos segundos da partida. Podendo usufruir de um pontapé de canto nos últimos segundos, oportunidade que qualquer outra equipa no mundo aproveitaria para, fechando os olhos e rezando a todos os santinhos, bombear uma bola para a área, fazendo fé num desvio milagroso, o Barça manteve a sua dignidade e optou por um canto curto. Não há melhor homenagem ao que se é que defender até às últimas consequências aquilo em que se acredita. E o que os últimos segundos da partida demonstraram foi que o Barcelona preferiu não desvirtuar o seu futebol a acreditar na incerteza da fortuna. É por isto, e só por isto e por tudo o que isto implica, que este Barcelona está a milhas de distância de qualquer outra equipa no planeta.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Agonia Leonina...

Cada vez que vejo a Académica jogar reconheço algo de diferente nesta equipa: a qualidade colectiva, nada condizente com a capacidade individual de grande parte dos seus jogadores, impressiona não só pela organização defensiva, mas principalmente pela qualidade que a equipa demonstra em posse. E isto ainda impressiona mais se tivermos em conta as características dos jogadores que compõem o plantel da Académica, que em nada (à excepção de um ou dois jogadores) ajudam a este estilo de jogo.

Vemos vários treinadores que demonstram qualidade na maneira como organizam a equipa nas situações defensivas, optando por restringir os seus processos ofensivos a transições rápidas, revelando alguma desorientação e dificuldade em confrontos com equipas que possuam a mesma filosofia. Outros aparentam revelar qualidade nos processos ofensivos sem que, no entanto, se consiga destrinçar as ideias do treinador das características dos seus jogadores. É o caso do Vitória de Guimarães. A equipa orientada por Paulo Sérgio revela qualidade com bola. O que não se percebe é se este aspecto é resultado do modelo pretendido pelo técnico ou se é, acima de tudo, uma manifestação inequívoca das características dos seus jogadores. E a mesma questão se pode colocar quando analisamos a equipa orientada por Domingos, o Braga. Nesta parte final do campeonato, entre jogos ganhos de uma forma um pouco esquisita (este esquisito nada tem a ver com arbitragens, mas sim com a forma feliz com que alcançou os resultados positivos, caso da vitória sobre o Guimarães, ou sobre o Leiria) e vitórias muito sofridas, as suas exibições têm estado abaixo do demonstrado no inicio da época, relegando para segundo plano a posse de bola, preocupando-se apenas com as transições rápidas e deixando o processo ofensivo entregue a 4 jogadores, essencialmente rápidos e com propensão para procurar duelos individuais (Alan, Paulo Sérgio, Renteria, Luís Aguiar, etc.).

Não é inocente a chamada destes três treinadores a este texto. E nem dá para disfarçar a minha costela sportinguista no mesmo. Numa altura em que se especula bastante sobre o novo treinador da equipa leonina, a certeza de que esse treinador não será Villas Boas deixa-me algo céptico em relação ao futuro do Sporting. Não estou a dizer que Villas Boas seja único treinador capaz de garantir um futuro recheado de sucessos ao clube de Alvalade, ou que os outros dois não sejam capazes de alcançar títulos em Alvalade. No entanto, o técnico da Briosa demonstra acreditar no modelo que melhor se adequa à matéria humana que, por enquanto, predomina no clube de Alvalade. Pelas referências constantes à posse de bola, pela preocupação em demonstrar qualidade, pela personalidade que incute na equipa, nunca abdicando dos princípios que regem o conjunto por si orientado, por tudo isto aliado à perspicácia que vem ostentando, permitindo-lhe entre outras coisas perceber que Hugo Viana era o jogador que transformava o futebol do Braga em algo de interessante. Por tudo isto, e porque o Benfica de Jesus será cada vez mais forte, Villas Boas parece-me a única solução capaz de permitir ao Sporting ombrear com o clube da Luz num futuro próximo. Já não vem. Espero, assim como todos os sportinguistas, que Costinha e Bettencourt tenham uma solução ao nível de Villas Boas, até porque, como já antes disse, o Sporting encontra-se num momento de viragem. Para ou bem ou para o mal. Por isso mesmo, seria óptimo que, na hora de decidir, se baseassem nas qualidades e características de jogo que as equipas do técnico eleito manifestam, e não na experiência ou nas declarações que proferem. Mourinho e Guardiola são apenas os maiores exemplos do que defendo.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Atentados intelectuais

Como é hábito, nesta e noutras áreas, há entre quem fala de futebol gente incompetente, gente simplesmente ingénua e gente que age deliberadamente de má fé. Estas três categorias de pessoas constituem, a meu ver, um conjunto que faz do jogo falado uma coisa empobrecida e que influencia negativamente a opinião pública. São, por isso, atentados ao intelecto do comum adepto, intelecto esse que, como o de uma criança, recebe não-criticamente aquilo com que o educam. Queria, nesta base, falar de três casos evidentes e recentes em que aquilo que se escreve ou diz tem responsabilidades na condução das opiniões de quem lê.

1. Tem vindo a lume, nas últimas semanas, a notícia da possível saída de Pereirinha do Sporting. Não sei se há algum fundamento nestas notícias, mas desconfio que não, até porque é prematuro falar do que quer que seja em relação ao plantel antes de se saber quem é o treinador que o vai comandar. Ora, sendo assim, parece-me claro que a notícia é escrita de um modo absolutamente especulativo e tendo como fundamento o facto de o jogador estar há 3 anos para se afirmar e ainda não o ter conseguido. Trata-se de uma opinião de uma ou mais pessoas que, na urgência de produzir novidades jornalísticas, foi transformada em notícia. O que é cobarde e constitui um atentado intelectual é que este tipo de notícia condiciona opiniões e cola rótulos que, maior parte dos leitores, por não ter convicções fortes, aceita facilmente. Não é certamente o caso mais grave, mas é um exemplo perfeito de como, às vezes, uma opinião aparentemente inocente tem um lado criminoso.

2. O segundo caso tem a ver com David Luiz. Não conheço outro sítio que alerte, com tanta frequência, para a forma precipitada com que a opinião acerca de David Luiz tem crescido. Não está em causa o valor do jogador, que o tem. Está em causa a dimensão desse valor e a magnitude dos elogios que lhe são feitos. Analisemos, primeiramente, o golo com que a Naval se adiantou no marcador, esta segunda-feira. Alguém no seu perfeito juízo consegue desculpar um defesa central que defende daquela maneira primitiva um lance como aquele? O Benfica está equilibrado defensivamente, a bola entra num avançado que está descaído para um flanco, e mesmo assim David Luiz quer à força ganhar o lance em antecipação. Perde-o, como tantas vezes tem acontecido. Mas o pior do lance nem é isso, até porque perder a antecipação, naquela zona, deixava o jogador da Naval apenas com espaço no flanco. O que é grave é que, David Luiz, ao falhar o seu primeiro intuito, fica do lado de fora e continua a força a recuperação da bola. Ao fazê-lo, David Luiz está precisamente a ignorar o mais básico princípio defensivo: o defensor deve dar o lado de fora ao atacante, defendendo sempre por dentro, porque a baliza está por dentro. David Luiz acompanha o avançado da Naval por fora, como se estivesse a defender a bandeirola de canto. São poucos os defesas centrais profissionais que cometem este tipo de erros absurdos. O resultado foi o óbvio. O atacante da Naval protegeu a bola com o corpo e veio para dentro sem oposição. Depois fez o golo, mais um sofrido pelo Benfica às custas de David Luiz. Pode ser o defesa mais espectacular a jogar em Portugal, o mais espalhafatoso, o que faz mais cortes no limite, mas é responsável por praticamente 50% dos golos sofridos pelo Benfica esta temporada, só no campeonato. E não atender a este facto é minimamente grave. Quando se fala de David Luiz, ignora-se este pormenor. E fala-se dele esquecendo que isto lhe diminui drasticamente o valor. Toda a pessoa de bom senso deve ser alertada para este tipo de coisas. Porque a diferença entre uma opinião sensacionalista e uma opinião informada é, muitas vezes, uma coisa ténue.

3. O terceiro caso é, porém, aquele que me parece mais grave, aquele em que há, além de incompetência, verdadeira má fé. Deparei recentemente com uma notícia que dava conta de que Hulk era o rei das assistências do campeonato português. O anúncio deixou-me imediatamente desconfortável, pois a minha intuição dizia-me que algo de muito errado havia no mesmo. A notícia foi veiculada por um reputado diário desportivo e baseava-se numa estatística alegadamente séria. Segundo a teoria, Hulk, com duas assistências no Restelo e uma diante do Marítimo, tinha passado para o topo da lista dos jogadores com mais assistências no campeonato, com 5 assistências. A minha primeira reacção foi pensar que não se consideravam assistências provenientes da marcação de bolas paradas, mas duas destas assistências recentes de Hulk tinham sido obtidas desse modo, o que invalidava esta suposição. Fiz questão de rever todos os golos do Benfica, porque estava em crer que Aimar, só na primeira volta, tinha mais do que 5 assistências. Não me enganei. Pablo Aimar tem 8 assistências: duas ao Setúbal (para Javi e para Luisão, na transformação de livres), uma ao Belenenses (para Javi, na transformação de um canto), uma ao Leixões (para David Luiz, na transformação de um livre) uma ao Leiria (para Saviola, na transformação de um livre), uma ao Guimarães (num passe atrasado para Carlos Martins), uma ao Setúbal (para David Luiz, na transformação de um canto), e uma agora à Naval (para Weldon, na transformação de um canto). Desconfio ainda que as contas não batem certo em relação a Hugo Viana, Coentrão e Di Maria, pelo menos. Já se sabe que, para mim, uma tabela de assistências pouco ou nada significa, em relação aos méritos de um jogador. Mas não é assim que pensa maior parte das pessoas. E publicar uma notícia com este grau de irregularidade, ainda por cima eivada de preconceitos e claramente tendenciosa (referindo-se por exemplo com amargura em relação ao lance do golo anulado a Falcao no Restelo, que garantiria a Hulk mais uma assistência), é algo que condiciona fortemente quem lê e não tem espírito crítico para contestar o que lê. Este tipo de acção constitui, na verdade, um atentado intelectual e é uma das mais perigosas consequências da liberdade de imprensa. Assim se constroem mitos e se manipulam verdades. Assim se inflacionam ideias e se conquistam simpatias. É por causa de coisas como estas que as opiniões erradas abundam na praça pública. Se em parte a falta de espírito crítico dos leitores explica a situação, não deixa de haver culpas de quem escreve atrocidades como estas. Lamentavelmente, claro.

sábado, 3 de abril de 2010

De tirar o chapéu...

Sufoco, asfixia, massacre. De diversas outras formas poderia ser descrito o que se passou nos primeiros vinte minutos entre Arsenal e Barcelona. Wenger fez questão de dizer que foi a melhor equipa que alguma vez enfrentou. Fabregas ficou assombrado com a capacidade, ao vivo, do adversário. O extraordinário da exibição catalã está porém no adversário que subjugou. Era só a segunda melhor equipa do mundo a trocar a bola, aquela que, à partida, mais facilidades teria para evitar ser encostada lá atrás, aquela que melhor saberia fugir ao pressing e aquela que mais facilmente repartiria a posse de bola com os comandados de Guardiola. Pois era! Desenganem-se. Nos primeiros vinte minutos da partida, para além das inúmeras oportunidades de golo desperdiçadas, para além de não permitir ao Arsenal uma pausa para respirar, para além do elevado número acertado de passes, o Barcelona quebrou com o record de posse de bola na competição: 76%! Mais uma fasquia suplantada por Guardiola.

A eliminatória está longe de estar resolvida. A própria Liga dos Campeões tem outros candidatos em boa forma. O campeonato está ao rubro. Esta época, a glória catalã pode até vir a ser significativamente inferior à da época anterior. Mas esta equipa continua a mandar às urtigas tudo aquilo com que pretendem diminui-la. Este é o futebol do futuro, como o referiu Ibrahimovic há uns meses, ainda ao serviço do Inter; este é o futebol que vale a pena, que não só é belo, como é eficaz; este é o futebol que convence e pasma. Esta é a melhor forma de ganhar, querendo mais a bola, pressionando mais alto, fazendo menos faltas, privilegiando mais o intelecto que a vontade, mais a concentração que a força bruta, mais a troca de bola que o transporte. Esta é a melhor equipa de sempre. Nunca o mundo assistiu a um jogo com igual assombro. O Barcelona continua a ser, e a tendência é para que isto prevaleça, uma afirmação categórica de uma nova era, uma nova era que, embora deixe em êxtase quase todos, teima em agarrar-se aos predicados do passado. Faz-me confusão que, depois deste Barcelona, seja possível continuar a idolatrar tractores agrícolas ou moinhos de café, que se continue a falar de rapazes com músculos e de tipos que fazem muitos golos. Se há coisa que este Barcelona deveria estar a fazer era a mudar mentalidades. No entanto, parece que o comum mortal, que assiste abismado a um jogo do Barcelona, persiste em achar possível que há algum mérito em ser diferente do que vê. É o instinto conservador das massas e contra isso não há muito a fazer. Resta admirar Guardiola e esperar que o tempo lhe preste a justa homenagem.

P.S. As declarações de Guardiola no final da partida, acerca da sua mentalidade ofensiva, são algo que vale a pena ver e rever. Não se trata somente de um treinador a transmitir aquilo em que acredita. Trata-se da própria essência do melhor futebol possível. Entre outras coisas, confessou Guardiola que "o risco é não arriscar." Não se trata aqui de ganhar somente, de estar em vantagem por marcar golos fora. Trata-se de continuar a atacar, estando a perder ou estando a golear. Trata-se de jogar sempre - sempre! - o mais ao ataque possível. É este o recado, aparentemente trivial, que poucos perceberão.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Os erros de Lúcio

A opinião aqui lançada há dias sobre o real valor do central brasileiro Lúcio mereceu desaprovação por parte da grande maioria dos nossos leitores. O texto em questão reportava-se ao jogo frente ao Catania, o qual o Inter perdera e em cuja derrota Lúcio tivera a sua parte de responsabilidade. Aqueles que o defendem alegam dizendo que se tratou de um caso isolado ou vão até mais longe afirmando que, apesar de não ser óptimo em termos posicionais, é um excelente central. A mim, faz-me confusão a possibilidade de existir um excelente central que não seja excelente em termos posicionais. Lúcio é fraco nesse particular, assim como é fraco em termos de abordagem aos lances, e erros como aqueles frente ao Catania são recorrentes. É um jogador impetuoso, muito agressivo, que vai a todas e não vira a cara à luta. O problema é a falta de frieza, a incapacidade para perceber que nem todos os lances devem ser disputados na sua máxima intensidade, a incompetência posicional, o facto de não perceber que a sua concentração deve estar centrada em perceber o que se está a passar a cada momento e não em perceber unicamente quando é que deve arrancar para a bola. O problema de Lúcio é o mesmo problema de David Luiz, Pepe ou Vidic, defesas centrais já aqui apontados como francamente displicentes. São jogadores que, do ponto de vista intelectual, deixam muito a desejar. E não é raro que contribuam para maus desempenhos defensivos das equipas em que jogam. Aqui fica então um conjunto de erros, assim como a análise a cada um desses erros, protagonizados por Lúcio no desafio frente ao Chelsea, na segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões.



1. No primeiro lance, o pormenor menos importante é o choque com Malouda. A meu ver, não existe penalty, e não é por aí que o comportamento defensivo de Lúcio neste lance pode ser condenável. O problema é tudo o que antecede esse choque. Em primeiro lugar, o desrespeito táctico pela cobertura ao seu lateral, estando extremamente afastado de Maicon; depois, o facto de se encontrar uns bons metros abaixo do resto dos defesas, desrespeitando a linha defensiva do Inter. Maicon sobe para pressionar, num lance que se desenrola do seu lado, e Lúcio, responsável por manter a linha defensiva, naquele momento, unida, afunda-se no campo, separando-se do colega. Lúcio está demasiado baixo e demasiado longe do seu lateral, o que possibilita que haja tanto espaço no meio, espaço esse que Malouda aproveita para explorar, numa penetração interior que só não teve piores consequências porque não calhou.

2. No segundo lance, o espírito abnegado de Lúcio vem ao de cima. Num lance bem longe do seu raio de acção, sente-se na necessidade de ir ser ele a travá-lo. A bola vai para Ballack, que não encontra oposição, e Lúcio, ainda que apenas momentaneamente (ter-se-á arrependido depois), sai da sua posição para ir impedir o remate. O seu movimento faz com que praticamente ultrapasse Walter Samuel e que abra um buraco entre si e Maicon. Esse buraco acaba por não ser aproveitado pelo Chelsea, até porque Drogba acabou por ficar em posição irregular, mas não deixa de demonstrar, com alguma clareza, o tipo de comportamento defensivo aparvalhado de Lúcio.

3. Repare-se agora onde vai Lúcio pressionar no terceiro lance. Num lance de organização defensiva, numa zona extraordinariamente bem povoada, Lúcio não hesita em sair da sua posição para ir pressionar um jogador (Anelka), que até estava pressionado por um atleta do Inter. Resultado? Dois jogadores batidos e o Inter obrigado a reposicionar-se rapidamente sem necessidade. No caso, é Cambiasso quem dobra, e bem, o companheiro. Mas o Inter desposiciona-se sem necessidade nenhuma, o que permite ao Chelsea gozar de espaço suficiente para conseguir fazer a bola entrar em Malouda. Lúcio, uma vez mais, parecia um tontinho.

4. No quarto lance, Lúcio não respeita, uma vez mais, a linha defensiva. Repare-se que, dos quatro elementos, é aquele que parece que está no campo e não sabe bem o que tem de fazer. Hesita em subir, hesita em recuar, fica ali no meio, um pouco aluado. Os perigos deste tipo de comportamento podem não ser fáceis de perceber. Nem ficariam à vista se Drogba não tivesse cruzado para a área. Mas o que resulta daqui é que o posicionamento alto de Lúcio permite que Malouda entre nas suas costas, entre ele e Walter Samuel. O argentino, para evitar que Malouda ficasse em posição privilegiada para receber a bola atrás de Lúcio, tem de acorrer ao espaço deixado vago pelo colega, abrindo necessariamente um buraco entre si e o lateral esquerdo. É aí que Anelka entra e é aí que recebe à bola, à vontade. O comportamento displicente de Lúcio, uma vez mais, é a causa da desorganização defensiva momentânea do Inter e do espaço que os avançados do Chelsea acabam por auferir.

5. Para finalizar, uma má abordagem a um lance. A bola vem na direcção de Drogba, que tem Walter Samuel nas costas, e Lúcio decide interceptar a bola no ar, à frente de Drogba. Nenhum defesa deve tentar uma intercepção, se não tiver a certeza absoluta de que vai consegui-la. Ao falhar, deixou uma vez mais um buraco na sua zona, por onde entrou Lampard. Drogba conseguiu dominar a bola e conseguiu passá-la a Lampard. O médio do Chelsea só não conseguiu finalizar porque Walter Samuel saiu bem da marcação e acorreu prontamente, impedindo o remate. O que fica, porém, na retina, é a forma absolutamente desconcentrada com que Lúcio leu este lance, arriscando uma intercepção difícil que não era, de modo nenhum necessária, estando a equipa bem arrumada defensivamente.

Antes de terminar, gostaria ainda de fazer referência a uma ideia que parece consensual e com a qual não concordo. Lúcio, é verdade, é um central rápido. Mas rapidez, por si só, não é argumento suficiente para justificar que seja um defesa competente a jogar alto. Ao contrário do que é comum afirmar, não creio que Lúcio seja bom para jogar num bloco alto e acredito até que Mourinho percebeu isso mesmo ao fim de algum tempo a treinar com o atleta. Tê-lo-á contratado com a ilusão de que serviria para pôr a equipa a jogar alto, mas terá percebido que isso lhe traria problemas. E os problemas surgiriam essencialmente de dois defeitos nesta ideia. Lúcio é rápido, mas não é ágil; é rápido depois de embalar, mas não o é no arranque. Para jogar alto, mais do que velocidade, é necessário aceleração, capacidade para mudar de direcção e de velocidade rapidamente, capacidade para reagir a mudanças do centro de jogo, jogo de rins, etc.. Lúcio não tem nada disto. É rápido, mas perde muito tempo a virar-se e a equilibrar-se. Neste particular, é muito diferente, por exemplo, de Pepe ou David Luiz. Além deste pormenor, há outro problema que me parece não poder deixar de afectar uma defesa constantemente subida no campo: o posicionamento. Sendo Lúcio tão errático em termos posicionais e tão desconcentrado, jogar tão subido tornaria ainda mais visíveis tais defeitos. Jogando num bloco baixo, qualquer central com problemas de posicionamento fica mais protegido e terá sido isso, eventualmente, que Mourinho percebeu. Discordo, por isso, de que Lúcio permite à equipa em que joga que esta jogue mais alta. Acho, aliás, que ele pode ser especialmente útil em blocos mais baixos, pela imponência física, pela capacidade para disputar lances aéreos e pela capacidade de luta que demonstra, muito mais relevante quando há pouco espaço para jogar.

domingo, 21 de março de 2010

Filosofia do instinto...

Se perguntássemos a qualquer treinador qual o melhor modelo de jogo existente, muitos ou, porventura, até todos, diriam que não há um sistema melhor, que existem vários modelos de sucesso, sendo impossível determinar um melhor que outros. Aceito que o digam; todavia, não concordo com tal reflexão. E são várias as variáveis que temos de considerar para poder perceber a razão pela qual acho que há um modelo mais susceptível de proporcionar o sucesso do que outros. Neste texto, a nossa presunção prende-se apenas com uma “espécie” de introdução para se compreender a opção por determinado paradigma.

Uma das modas do futebol actual, principalmente do futebol português, é a periodização táctica. Uma metodologia de treino que obteve uma enorme popularização devido ao “fenómeno” Mourinho, mas que não se esgota aí. É sem ponta de dúvida um método de treino de inegáveis virtudes que radica, fundamentalmente, na necessidade eficaz de criar hábitos específicos do jogo de futebol nos futebolistas. Assim, tudo o que é feito num treino é com a expectativa de se criar as rotinas pretendidas para se alcançar um estilo de jogo.
As avaliações e decisões instantâneas são frugais, e essa qualidade, a frugalidade, é indispensável para garantir a qualidade das mesmas. A questão que se coloca é a seguinte: Como respeitar este princípio, enquadrando as nossas decisões num plano maior?

A melhor forma de se “obrigar” o jogador a interpretar a totalidade do jogar que se pretende é treinando o seu inconsciente. O objectivo é padronizar os instintos dos jogadores de modo a que estes convirjam em redor do modelo estabelecido pelo técnico. Os hábitos adquiridos vão facilitar as rotinas necessárias à evolução da equipa, garantindo com isto a base necessária para o desenvolvimento da identidade pretendida. O instinto é algo que se constrói, e é importantíssimo que o treinador consiga incluir neste processo de construção a maior quantidade possível de informação sobre o seu modelo de jogo. E isto tudo para o benefício do jogador. Queremos com isto dizer que se pretende que o jogador insira no seu jogo a maior quantidade possível de pontos coincidentes com o que é pedido pelo seu técnico sem que este se aperceba ou se preocupe directamente em fazê-lo.

Imaginemos um jogador inteligente e responsável. Numa situação de maior pressão, em que tem de decidir rápido, o instinto é algo que o ajuda a deliberar a melhor opção naquele momento. De outra forma, e tendo em conta a quantidade de informação a ser processada, em tão pouco tempo, esse jogador ficaria bloqueado: que tipo de passe deve fazer, deve segurar a bola ou não, a equipa ficará desequilibrada com o movimento que vai fazer, etc. É importante que o jogador não seja bombardeado com a necessidade de incorporar, de forma consciente, demasiada informação na sua decisão. A sua atenção deve centrar-se sobretudo naquele momento e deve ser o instinto do jogador a conduzir, de forma inconsciente, a decisão do individual a respeitar o ideal colectivo. Imaginemos que caminhávamos durante uma noite escura. O nosso instinto seria a iluminação que nos ajudaria na nossa caminhada, ficando apenas entregue à nossa consciência a preocupação em ultrapassar os obstáculos que surgissem nesse caminho. Assim, apesar do jogador respeitar o pretendido e esperado pela equipa, é “livre” de poder escolher a melhor opção naquele instante, focando-se apenas naquele instante.Daí a necessidade de criar hábitos que possam servir os propósitos do colectivo, reciclando aqueles que acompanham os jogadores.

Até aqui, demos sobretudo importância aos factores aplicáveis ao inconsciente, aos motivos que inconscientemente nos parecem empurrar na direcção de um certo tipo de decisões. Isto tudo através do método da repetição, aliado esporadicamente a factores orientadores. No entanto, acredito que esta fórmula sairia reforçada se incluíssemos um outro elemento nesta equação: a compreensão e o entendimento das razões que levam a que se opte por determinado estilo de jogo, determinado sistema, etc.

O objectivo de elucidar os jogadores sobre as razões a que levaram o seu técnico a optar por determinado modelo vai permitir aos mesmos perceberem como terão de reagir em qualquer situação do jogo, compreendo por que é importante que reajam de determinada forma. Esta questão, da compreensão dos motivos fundamentais do modelo de jogo, é determinante para o desempenho dos jogadores. Perceberem por que é que aquele modelo de jogo é o melhor, vai formar um colectivo mais forte através da convergência das individualidades. Só assim os jogadores vão poder, em conjunto, determinar o que está certo ou errado, qual a melhor opção em determinado momento, antecipando os movimentos dos seus colegas, ajustando posicionamentos em função de um erro, forçado ou não, por um elemento do todo, etc. Perceber a filosofia que orienta o todo (e o que está certo, ou errado, à luz da filosofia vigente), permitirá uma melhor, mais coordenada e mais rápida resposta dos jogadores nos mais variados momentos. O objectivo passa por conseguir incorporar o acaso, a dinâmica, e a imprevisibilidade do jogo nas acções individuais, sem que, com isso, o jogador seja afastado quer da linha orientadora que rege o colectivo onde está inserido, quer da liberdade de decisão, por mais paradoxal que isto pareça.

A verdade é que nenhum jogador é verdadeiramente “livre”; todos somos “escravos” dos nossos instintos, das nossas ideologias, da informação que fomos processando e interpretando. No entanto, não temos de recorrer conscientemente às nossas influências e hábitos, na hora de tomarmos uma decisão, concentrando-nos apenas na situação actual que temos de resolver. Porque não utilizar isso de uma forma positiva, na perspectiva do colectivo? O ideal será que o jogador sinta que não tem que tomar aquela decisão, mas que perceba que aquela é a melhor solução. Se conseguirmos alargar este sentimento à restante equipa, então, nesse momento, a nossa equipa funcionará inequivocamente como tal.

Por fim, gostaria de abordar um assunto de grande importância, se bem que nem sempre reconhecido como tal: a felicidade e auto-estima do indivíduo, neste caso, o jogador. Existe em todos os jogadores a necessidade de se evidenciarem, de se sentirem importantes, de perceberem que acrescentam algo à equipa. E nós respeitamos isso. Tão pouco pretendemos jogadores que, por partilharem da mesma ideologia futebolística, não consigam emprestar fantasia ou criatividade ao colectivo. A crença que reside exactamente nos antípodas disto. A percepção de que o todo compreende e conhece as partes vai permitir que os jogadores gozem da liberdade criativa que necessitam para se sentirem importantes, felizes e empenhados.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Improvisação e Aleatoriedade

Quando pensamos em jogadores imprevisíveis, partimos do princípio que o são devido à sua natureza, ou seja, que é algo inato. Nada mais errado. A imprevisibilidade é algo que se adquire, é algo que se forma através da aquisição de determinados padrões de jogo.

Grande parte dos jogadores que temos como imprevisíveis, desenvolveram essa característica em jogos de rua, entre amigos, onde acima de tudo são obrigados a melhorar competências individuais. Concluímos assim que esta noção de imprevisibilidade se adquire através da necessidade de ultrapassar as dificuldades que vamos encontrando. Somos obrigados a procurar soluções que possam surpreender os nossos adversários, as mesmas que, por sua vez, não só são influenciadas pelos nossos heróis, aqueles com os quais nos identificamos mais, mas também pelas limitações físicas que possuímos.

Por outras palavras, até uma certa altura da formação de um atleta, a imprevisibilidade é algo que pode ser desenvolvido só a partir de premissas individuais: as nossas influências, a nossa fisionomia, tudo isto é importante e perfeitamente legítimo na nossa formação. Daqui deduzimos que a espontaneidade não é aleatória, responde à maneira como a diferente informação que recebemos é processada por cada um de nós.

Todavia, assim que começamos a interiorizar os conceitos colectivos do jogo, a necessidade de adaptarmos as nossas características aos requisitos que o jogo impõe obriga a que se altere a nossa forma de jogar. E é aqui que entram em campo as competências dos técnicos que vamos encontrando. Neste caso, vou sobretudo debruçar-me sobre técnicos que trabalhem com jogadores já formados e que, como tal, têm sobretudo a preocupação de formar uma equipa cada vez mais forte. A questão será principalmente esta: como tornar a imprevisibilidade dos seus jogadores um factor positivo para a equipa? Como retirar tudo o que esta característica pode oferecer, sem sofrer o reverso da medalha, os desequilíbrios que estas movimentações aparentemente aleatórias podem provocar?

Uma questão importante na imprevisibilidade das várias partes do todo está relacionada com a concordância entre as mesmas. E muitas vezes atinge-se este ideal de uma forma quase fortuita. Muito por isto se encontram treinadores que, defendendo as mesmas ideias, por vezes nos mesmos clubes, acabam na maioria das vezes por apresentar equipas tão diferentes entre si, ainda que em alguns casos nem um ano de intervalo exista entre elas. Em Portugal, o caso mais paradigmático do que acabei de defender é o Sporting, na época 2006/2007. Bento, na altura, até conseguiu criar a ilusão de que poderia estar ali um enorme treinador. O acaso proporcionou a Bento um lote de jogadores que, na sua maioria, eram criativos e dotados de imprevisibilidade suficiente para tornar complicada a acção defensiva dos seus adversários, sem que com isso o colectivo actuasse de forma desagregada. Nesse ano uma das coisas que mais me agradava era a maneira como a equipa jogava com os sectores muito próximos, com enorme posse de bola, e sempre com bastante equilíbrio, independentemente do adversário que defrontavam. Foi, muito provavelmente, o melhor Sporting da última década. Jogadores como Romagnoli, Nani, Veloso, Custódio, Martins, Deivid, Moutinho, Tello, Farnerud, etc., apesar de criativos e imprevisíveis, relacionavam-se de forma positiva dentro de campo. As suas acções individuais respondiam a uma visão do jogo semelhante entre eles. Se efectuássemos uma abordagem holística ao Sporting, facilmente conseguiríamos encontrar um padrão no seu jogo. Era previsível que eles jogassem de uma certa forma, curto, através da criação de inúmeros apoios ao portador da bola, mas era muito complicado perceber de que forma é que esse estilo de jogo se manifestaria. Seria através de uma combinação directa simples, ou seria através de uma combinação indirecta envolvendo um terceiro elemento? Era portanto, uma equipa que a cada momento sugeria aleatoriedade, mas que, quando observávamos uma porção maior do jogo, existia a sugestão de um comportamento colectivo premeditado. Nada mais errado. O padrão não era consciente, a intuição não era treinada para deliberadamente padronizar a criatividade, enfim, a movimentação colectiva estava despida de um significado consciente. O resultado foi o que se viu: a destruição e descaracterização do colectivo. Este foi um caso claro em que as ideias do treinador foram prejudiciais para o colectivo, pois destruiu o padrão que a co-habitação daquele grupo de jogadores, por si só, garantia. Bento teve a sorte de, sem qualquer tipo de critério, conseguir juntar uma equipa com um elevado padrão de qualidade porque as características dos seus jogadores eram concordantes.

Este ano, os casos mais flagrantes de jogadores imprevisíveis que retiram proveito da concordância da sua interpretação pessoal do jogo jogam de águia ao peito: Aimar e Saviola. No entanto, só uma estrutura muito sólida, com um modelo de muita qualidade, é que pode sustentar um jogador imprevisível como Di Maria. E escolho estes jogadores porque fazem parte da melhor equipa a actuar em Portugal. A diferença é que a imprevisibilidade de Aimar e Saviola permite à equipa ficar mais forte nos processos ofensivos sem que, com isso, a estabilidade da equipa seja colocada em causa, enquanto, no caso de Di Maria, é o argentino que se serve da estabilidade da equipa para seu benefício. Neste caso, a imprevisibilidade deste jogador apenas serve as movimentações individuais do mesmo, funcionando muitas vezes como um bloqueio ao desempenho colectivo da sua equipa.

Nesta época, o melhor Porto foi o que defrontou o Sporting para a Taça de Portugal. E isso está relacionado com os jogadores que Jesualdo resolveu utilizar nesse encontro. Mais uma vez, o facto de utilizar 4/5 jogadores que se enquadram no mesmo paradigma, que “obedecem” a determinado estilo futebolístico. Jogadores como Mariano, Belluschi, Falcao, Fucile, Fernando, ou até mesmo Ruben Micael, apresentam e emprestam à equipa mais qualidade quando jogam juntos, ou com jogadores que respondam às várias circunstâncias de forma semelhante à deles, do que quando jogam com Meireles, Hulk, e companhia limitada. Nesse jogo, a equipa portista aliou imaginação colectiva a um equilíbrio impressionante, permitindo-lhe cilindrar por completo o conjunto de Carvalhal. E isto só é possível quando os jogadores da própria equipa não são surpreendidos pela movimentação dos seus colegas. Evitar os equívocos inerentes aos próprios jogadores da mesma equipa é meio caminho para um equilíbrio fundamental para o desenvolvimento do futebol de cada equipa. Há uma necessidade imperial de que os jogadores conheçam e compreendam o futebol, e as suas razões, de cada colega. Só assim poderão prever e incorporar nos seus movimentos as movimentações do colega que conduz a bola. Se isto pode ser trabalhado de forma a aumentar, à medida do pretendido pelo treinador, a concordância entre jogadores? Pode, mas isso fica para um outro post.

domingo, 14 de março de 2010

Como perder um jogo em 15 minutos...

Faltavam menos de vinte minutos para o fim da partida e o Inter vencia calmamente o Catania. Num jogo de pouca intensidade, com o Inter a reservar energias para o embate a meio da semana com o Chelsea, os pupilos de Mourinho, baseando-se numa estrutura colectiva relativamente forte e concentrada, iam conseguindo manter o adversário à distância. O jogo parecia caminhar calmamente para o seu final, com o Catania a mostrar pouca capacidade para furar as linhas defensivas dos de Milão. Nesta conjuntura, como perder então um desafio? Simples. Possuir jogadores que, do ponto de vista intelectual, deixem algo a desejar.



Três golos, três infantilidades inadmissíveis a este nível. No primeiro lance, é Lúcio, um central excessivamente valorizado ao longo da sua carreira por certos atributos que, além de não possuir, não eram os mais importantes para a sua posição, quem falha clamorosamente. A jogada nem sequer é muito rápida, mas o defesa do Inter ocupa uma posição incrivelmente baixa, mantendo-se afastado da linha defensiva em cerca de dois metros. O que esta desconcentração causou, neste lance, foi evidente, com Maxi López a entrar no espaço à sua frente e posto em jogo pelo seu erro posicional. Do nada, graças a uma desconcentração que é até frequente no defesa brasileiro, o Catania igualava a partida. Estava dado o mote para o que viria a seguir.

Tentando mexer no jogo, Mourinho colocou em campo Muntari. O médio esteve em campo cerca de dois minutos. No primeiro lance que teve, rasteirou um adversário à entrada da área, fazendo uma falta perfeitamente escusada, dado que tinha vários colegas a tapar o caminho da baliza. De seguida, na cobrança do livre, fazendo parte da barreira, salta para tentar impedir que a bola o sobrevoe. Esqueceu-se que estava dentro da área, que já tinha um amarelo e que o futebol não se joga com as mãos. Em dois minutos, viu dois amarelos e ofereceu de bandeja o segundo golo ao adversário. Converter a grande penalidade à Panenka, estando o jogo empatado, é merecedor de destaque. O autor foi Mascara.

Em poucos minutos, o Inter passara da condição de vencedor à de vencido e tinha agora um jogador a menos. Mas não era ainda tudo. Já a acabar, Lúcio volta a falhar uma abordagem a um lance, não conseguindo cabecear a bola, e Martinez fica com ela. A forma como o uruguaio do Catania conseguiu passar por Lúcio tem a ver também com a incapacidade que este sempre demonstrou, ao longo da carreira, para ficar em contenção. Procurando estar em cima do adversário, quando lhe deveria ter dado mais algum espaço, de modo a poder reagir condignamente, ficou demasiado perto deste e não foi capaz de lhe evitar o drible. Mas Lúcio não foi o pior defensor neste lance. Materazzi, que só tinha que fazer cobertura ao colega, veio à parva tentar ser ele a desarmar Martinez. Passara-lhe possivelmente pela cabeça até pontapear o adversário. O que os neurónios de Materazzi não previram, porém, foi que no momento exacto em que tenta ultrapassar Lúcio, pela esquerda, o uruguaio finta o colega pelo outro lado, ultrapassando assim, de uma assentada, dois opositores. Depois, ainda driblou Júlio César e fez o terceiro.

Resultado final: três golos oferecidos. É o que dá confiar em jogadores intelectualmente displicentes. Materazzi, Muntari e Lúcio podem ter certos atributos louváveis, mas são francamente medíocres do ponto de vista intelectual. E, hoje em dia, o intelecto é o requisito máximo de um atleta de alta competição. Jogadores de alto nível não podem cometer erros deste tipo e prejudicar um colectivo desta maneira. As grandes equipas, por definição, não se podem dar ao luxo de possuir nas suas fileiras jogadores que, a qualquer momento, por não estarem concentrados, oferecem brindes deste tipo aos adversários. Mourinho, em tempos, era um treinador que dava especial valor ao intelecto. Parece agora excessivamente acomodado ao que ganhou e à sua própria fama. As suas equipas são cada vez menos imaginativas, os seus jogadores cada vez menos inteligentes e cada vez mais brutos. Não sei se Mourinho terá capacidade para se reinventar e para perceber onde estão as suas principais falhas. Se a tiver, talvez consiga tirar deste desafio as ilações devidas.

terça-feira, 9 de março de 2010

Nuno Assis e Master Kodro

Depois de duas semanas, nos jogos frente a União de Leiria e Nacional da Madeira, em que não só foi decisivo como rubricou excelentes exibições, Nuno Assis é novamente tema deste espaço. A qualidade, mais do que suficiente para que Quique Flores tivesse ficado com ele no Benfica a época passada e para que Carlos Queiroz já se tivesse lembrado dele para a selecção, é inegável. Trata-se de um dos melhores jogadores da Liga a actuar fora dos três grandes e será, juntamente com Hugo Viana, o jogador mais injustiçado quando o seleccionador nacional divulgar a convocatória para o mundial. Há, apesar disso, uma determinada fatia da populaça para quem Nuno Assis é um jogador banal e para quem as suas qualidades são pouco interessantes. A essa fatia de gente escandalosamente impudica decidi chamar Master Kodro. A referência não é, por isso, directa ao conhecido palrador, embora se baseie nele e nas suas ideias tacanhas acerca de Nuno Assis, mas uma sinédoque que, partindo da opinião de uma pessoa, a expande a um universo alargado de carneiros que comungam da opinião e não deviam falar de futebol. O texto é por isso sobre Nuno Assis e sobre pessoas que não percebem, em particular, o valor de Nuno Assis e, em geral, de futebol.

De Nuno Assis tem dito Master Kodro atrocidades como, por exemplo, que é um jogador de contra-ataque. O seu problema com o passado de Nuno Assis é relevante, mas não creio que seja essa a principal causa de tais ideias. A sua opinião radica, isso sim, num erro apreciativo que está enraízado na forma como olha para uma partida de futebol. Como acha que Nuno Assis deve ser responsável por pautar o jogo ofensivo da sua equipa, acha que ele deve fazer passes de ruptura, deve furar por entre a defesa, deve provocar desequilíbrios, etc. Está na base deste erro assumir que os jogadores têm funções. Assim, quando uma equipa cria oportunidades de golo, mas não marca, os culpados são os avançados; quando a equipa não consegue cruzar para os avançados, o problema são os extremos; quando a equipa não consegue penetrar na defensiva adversária, o problema são os médios de ataque. Isto é tão redutor quanto imbecil. E Nuno Assis é precisamente o tipo de jogador que sabe que um médio de ataque não serve para as coisas que Master Kodro pensa que serve.

A teoria assenta ainda na verificação de que é em contra-ataque que Nuno Assis dá mais nas vistas. O que tenho a dizer a isto é que é em contra-ataque que qualquer jogador dá mais nas vistas. Isso não é exclusivo de Nuno Assis. Em contra-ataque, há sempre mais espaços, as jogadas são mais objectivas, a quantidade de soluções a considerar é menor. E bons executantes, como Nuno Assis e tantos outros, têm tendência a fazer-se notar e a serem decisivos neste tipo de lances. É natural, pois, que em contra-ataque Nuno Assis dê nas vistas. Mas em contra-ataque Nuno Assis não é muito diferente de Tiago Targino, por exemplo. E é quase herético tentar assemelhar dois jogadores tão distintos. Aquilo em que Nuno Assis é francamente diferente dessa outra rapaziada que só é boa em contra-ataque é que é um jogador notável do ponto de vista intelectual, que descobre soluções muito rapidamente, que sabe a utilidade de jogar curto. Um jogador de toque curto, que procura prioritariamente uma tabela, extraordinariamente criativo a encontrar soluções inusitadas nunca pode ser um jogador de contra-ataque. É alguém que tem uma facilidade rara para jogar em espaços curtos e entre linhas adversárias. Nuno Assis é, por isso, o oposto daquilo que Master Kodro pensa que é.

A opinião de Master Kodro cai ainda no exagero de dizer que se comprova a si mesma pelo facto de ele só fazer grandes jogos contra as grandes equipas, em desafios em que o Vitória passa a maior parte do tempo em contra-ataque. Além de isto ser mentira, como facilmente se verifica pelos dois últimos jogos, por exemplo, denuncia um problema perceptivo grave e que é comum à grande maioria dos adeptos de futebol. É que, para estas pessoas, fazer um grande jogo é estar associado aos momentos decisivos do mesmo. Ora, sempre que Nuno Assis não protagoniza jogadas de relevo, a opinião de Master Kodro é de que fez um mau jogo. Isto é francamente estúpido. Em muitos jogos, sobretudo em jogos em que os adversários se encolhem lá atrás e reduzem os espaços, é natural que jogadores mais imaginativos, mais criativos e inteligentes procurem soluções mais simples, soluções que permitam à equipa manter a posse de bola e gerir pacientemente o seu ataque. O que Master Kodro pretende é que Nuno Assis se arme em super-herói e invente jogadas de génio. Não é assim que funciona. É precisamente por Nuno Assis ser extraordinariamente inteligente que não cai nessa tentação, que não procura desequilíbrios individuais, que não arrisca passes de ruptura condenados à priori ao fracasso. O seu jogo é o que tem de ser quando há pouco espaço: procura soluções curtas, joga atrás, ao lado, fazendo girar a bola até que o colectivo (e não o indivíduo) consiga desequilibrar o adversário. Nuno Assis põe o colectivo à frente do individual e, como tal, nesse tipo de jogos, dá menos nas vistas. Para pessoas que não sabem olhar para um jogo de futebol, isto significa que não faz um bom jogo. Ora, pelo contrário, é precisamente por isso que ele faz um bom jogo.

A carneirada a que chamo Master Kodro é, por isso, um conjunto alargado de pessoas que não sabe ver futebol, que olha para o jogo como uma soma de bonecos. Há dias, num transporte público, estava sentado ao lado de dois velhos que comentavam o jogo da selecção realizado no dia anterior. Falavam, como qualquer adepto de futebol, pretensiosamente, julgando infalíveis as suas opiniões. Aquela que registei com maior interesse foi a de que Paulo Ferreira jamais poderia ir ao mundial, pois não era nem nunca fora um bom jogador. Admitindo que, sendo velhos, fossem pessoas com um grau de senilidade relevante, não deixa de ser engraçado que sustentassem opiniões que muita gente sustenta. Esquecendo agora a falta de memória das pessoas em causa e a qualidade óbvia que Paulo Ferreira teve há uns anos, é importante tentar perceber por que é que se ousa dizer (e não há pouca gente a pensar assim) que Paulo Ferreira não tem qualidade. Para mim, é óbvio. A opinião de Master Kodro, ou seja, a opinião do comum adepto de futebol, tem tendência a privilegiar jogadores espalhafatosos, jogadores que manifestam atributos visíveis. Paulo Ferreira não é rápido, não é agressivo, logo não presta. Preferem-se Bosingwa, Miguel e João Pereira porque dão mais nas vistas. Paulo Ferreira é melhor jogador que qualquer um destes e só admitiria que fosse suplente de Bosingwa pois aquilo que este pode oferecer, em termos de velocidade, é mesmo extraordinário. Mas Paulo Ferreira é mais inteligente, defende melhor, é posicionalmente muito mais forte e tem na lucidez e na experiência pontos a favor. Não querendo insistir na análise do jogador do Chelsea, serve esta história para ilustrar o modo de pensar de Master Kodro. Master Kodro gosta de jogadores que dêem nas vistas. E gosta desse tipo de jogadores porque o seu cérebro não tem capacidade para processar mais do que é visível. Como não se é capaz de conceptualizar o jogo a um nível mais profundo, tudo o que não sejam correrias loucas, agressividades de gorilas e macacadas com bola não é relevante. A capacidade intelectual de um jogador de futebol é, para Master Kodro, um mito e pouco lhe interessa percebê-la. É por isso que vê em Nuno Assis tanta banalidade. O que, porém, é irónico nisto tudo é que é precisamente ao ver banalidade num jogador que é tudo menos banal que denuncia a própria banalidade do seu olhar. Aquele que, tendo à frente dos olhos um objecto invulgar, é incapaz de perceber onde reside o carácter invulgar da coisa, não tem especial apetência para ver coisas. Master Kodro é aquele que não surpreende no mundo mais do que aquilo que é facilmente perceptível a quem tem olhos, e o seu Nuno Assis, isto é, o objecto que o comum observador julga que vê, é por isso muito mais Master Kodro que Nuno Assis, é muito mais o próprio reflexo da mediocridade de Master Kodro do que o verdadeiro Nuno Assis. É do emaranhado deste novelo de porcaria em que se constitui o conjunto de gente pequena que fala de futebol que este espaço procura escapar, alertando para aquilo que este tipo de gente, Master Kodro, não é capaz de ver. O trabalho é hercúleo e, possivelmente, ineficaz. Mas vale a pena, nem que seja pela consciência de estar certo.

sábado, 6 de março de 2010

Os Gajos Mais Odiados da Blogosfera - Episódio 1: Os Visionários

Os recentes comentários, polidos com cortesia e boas maneiras na caixa de comentários do último texto sobre Liedson, trouxeram a lume a simpatia que as nossas palavras e as nossas ideias provocam em quem nos lê. A quantidade (foram 23!, pelo menos para já) de pessoas que manifestou o seu desprezo por nós é assinalável e vem reforçar a ideia de que há pouca gente que não nos odeie. É com a intenção de retribuir o carinho e a atenção que nos dedicam esses escorreitos leitores que iniciamos esta nova temática. O objectivo é recordar o percurso deste espaço, desde a sua criação até à actualidade, as ideias defendidas desde essa altura, os episódios caricatos, as disputas intelectuais, em suma, esboçar, em vários episódios, uma Autobiografia do Entre Dez e das façanhas dos seus autores e dos seus leitores. Cada episódio será subordinado a um tema, contará uma pequena história, invocará uma citação famosa e trará à baila, pelo menos, uma das coisas que fomos defendendo ao longo deste tempo e que o tempo - soberano juiz - se encarregou de tornar irrefutável.

Episódio 1:
Os visionários

Há muitas coisas que nos definem e às quais somos associados. Os nomes de Farnerud, Pereirinha, Liedson, Pepe, David Luiz e Hulk são apenas alguns dos que maiores controvérsias têm causado. Mas questões mais profundas, como a existência ou não de talento inato, o haver ou não funções numa equipa de futebol, a concepção do golo como consequência e não como objectivo do jogo, a esterilidade do 442 clássico, etc., foram também motivo de acesa polémica. Por causa destas coisas e de muitas mais, fomos vezes sem conta apelidados de "visionários" ou de "iluminados". Eis alguns exemplos:

1) Bruno Pinto, a 6 de Novembro de 2007: "Claro que para eles, os outros é que são incapazes de acompanhar a sua inteligência suprema... Autênticos visionários..."

2) Jonnybalboa, a 7 de Janeiro de 2009: "És um romântico da bola, tu e o "pipi"...

3) João, a 26 de Fevereiro de 2009: "E sim, é muitas vezes assim que se elevam a grandes personalidades, os tais visionarios. Mas para cada visionário existem milhões de gajos como tu."

4) Bruno Pinto, a 29 de Abril de 2009: "Acho que muita gente concorda com isso e as explicações são triviais. Ai Nuno, Nuno, essa tua mania de quereres ser visionário..."

5) Miguel, a 4 de Setembro de 2009: "Fica lá com a tua opinião de pseudo-iluminado. Depois quando a bola começar a ser redonda verás que até nem dizes coisa com coisa."

Não haverá, porém, tema deste espaço mais controverso do que Liedson. São pouquíssimas as pessoas, se as há mesmo, que defendem o mesmo que nós defendemos, desde sempre, sobre o avançado do Sporting. Se há algo que nos faz, de facto, visionários, no sentido de acreditarmos em coisas em que mais ninguém acredita, são as considerações acerca do Levezinho. Enquanto que, em relação a outras temas, as nossas posições, ainda que censuradas por maior parte das outras pessoas, são motivo de discussão, quando se trata de Liedson, a outra parte da contenda raramente se interessa por argumentos, tamanha é a heresia. Não raro, o espaço saudável do debate torna-se um espaço de crenças, como se houvesse verdades que não pudessem ser colocadas em causa por via da racionalidade. Assim, tal como os crentes em Deus não podiam aceitar a discussão racional sobre o que quer que fosse que pusesse em causa os atributos da omnipotência, omnipresença e omnisciência do seu Deus, pois aceitá-la seria aceitar a possibilidade de Ele não possuir esses atributos, também aqueles que acham coisas fantásticas de Liedson não podiam aceitar um debate racional sobre a sua pretensa qualidade, pois estariam a aceitar a possibilidade de ele não ser assim tão bom. Praticamente em todas as discussões sobre Liedson, os defensores da sua qualidade agiram como eclesiásticos radicais, incapazes por vocação de aceitar a possibilidade do erro da sua doutrina. Essa semelhança faz lembrar um episódio histórico que o seguinte diálogo procura retratar com desfaçatez.

A Verdadeira História de Galileu Galilei

Galileu: Senhores, estou firmemente convencido de que o grão Nicolau Copérnico, que embora tenha alcançado uma fama imortal perante alguns, foi ridicularizado e assobiado por uma multidão infinita, pois tão grande é o número dos idiotas, tinha, de facto, razão ao afirmar que os astros giram em torno do Sol e não da Terra.
Teóricos da Época: O quê? Estais louco, Galileu Galilei?
Galileu: Não. De ora em diante, o geocentrismo deveria dar lugar ao heliocentrismo.
Teóricos da Época: O héliocen-quê?
Galileu: Heliocentrismo.
Teóricos da Época: Que é isso? Não conhecemos. Isso não existe. Estais a alucinar, Galileu Galilei.
Galileu: Ao contrário do que se pensa hoje, a Terra não é o centro do Universo; é apenas mais um corpo celeste que gira em torno do Sol.
Teórico da Época: Galileu Galilei, andais metido na droga?
Galileu: É a mais pura das verdades. Apesar de isto poder entrar em choque com as doutrinas eclesiásticas vigentes e de me ter sido aconselhado a ponderar essa hipótese apenas como isso mesmo - uma hipótese - e só porque facilita os cálculos astronómicos, tenho argumentos que sustentam que é bem mais que isso. Aliás, possuo cálculos aprofundados que o comprovam.
Teóricos da Época: Pois, Galileu Galilei, mas a nós os cálculos aprofundados não nos dizem nada.
Galileu: Mas se comprovam...
Teóricos da Época: Tende-los convosco? Podeis mostrar-los?
Galileu: Sim. Aqui estão...
Teóricos da Época: Hmmm... Isto tem um bocado de matemática a mais, não tem? E não deveríeis confiar tão cegamente nestes Pitágoras! É só teoremas, só teoremas. Achamos isto um bocado confuso, ó Galileu Galilei... Do nosso ponto de vista, estes cálculos são só especulações.
Galileu: Matemática especulativa?!?!?!
Teóricos da Época: Pois, quer-nos parecer que sim. Isto são só números e continhas de algibeira... Deveríeis passar a dedicar-vos à pecuária.
Galileu Galilei: À pecuária?
Teóricos da Época: Sim, sim. E de ora em diante, aconselho-vos a ficar caladinho. Isto se não desejardes o Santo Ofício a bater-vos à porta. Já agora, Galileu Galilei, que achais do Liedson?
Galileu Galilei: Acho-o fraquinho...
Teóricos da Época: O quê??? Tendes noção da gravidade das vossas afirmações?
Galileu Galilei: Tenho boas razões para acreditar que assim seja...
Teóricos da Época: Pá, este só vai lá queimado em praça pública. Tragam os archotes...

A nossa posição em relação a Liedson não é só uma posição essencialmente controversa; é algo que vai para além disso, pois é quase unânime que o contrário daquilo que defendemos é que está certo. São poucos os adeptos que não o acham um jogador extraordinário e poucos os treinadores que não se ajoelhariam aos seus pés. Esta vassalagem esquisita e, de acordo com aquilo em que acreditamos, absurda, faz com que todos os que nos rodeiam sejam profundos admiradores de algo que não vale assim tanta admiração. Esse comportamento geracional, similar ao comportamento hodierno de grande parte do povo perante as mais diversas formas de arte, denota um conjunto de atributos dessa mesma geração que, de certa maneira, a caracteriza fielmente e provoca em nós, entre outras coisas, um vontade irreprimível de a invectivar. É nesse âmbito que a citação deste episódio se explica.

Citação

"Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a Geração!"

(Almada Negreiros, in Manifesto Anti-Dantas)


Depois de já ter chamado a Liedson Papa-Açorda, Saltitão, Saguim, Tontinho, Burro, Banal, Estúpido e Napoleão, eis que lhe chamo agora Dantas. É provavelmente o avançado luso-brasileiro com mais alcunhas na História do Futebol... Vamos, por fim, ao espaço em que se relembram algumas das disputas mais interessantes.

Coisinhas em que, por acaso, até tínhamos razão

Como disse acima, de entre as várias coisas que cada episódio desta rubrica trará encontra-se algo que defendemos afincadamente e que, na altura, nos motivou acesas críticas. Para iniciar esse espaço, escolhi Pelé, o fantástico médio defensivo oriundo do Vitória de Guimarães e que, à custa de olheiros que dão especial interesse a características anatomicamente relevantes em gorilas e lutadores de boxe, foi contratado pelo Inter de Milão após um mundial de sub-20 em que as suas exibições foram patéticas, embora os seus músculos e os seus truques com a bola tenham sido bastante elogiados.

De Pelé dissémos desde o início que fora sobrevalorizado. Tratava-se de um jogador fisicamente muito poderoso e com alguma habilidade. Como, nos dias que correm, ainda se vê futebol de um modo essencialmente descontextualizado, olham-se para os jogadores como soma de atributos. Pelé tinha força e tinha técnica. Que mais se poderia desejar? Desde o início que fomos peremptórios em dizer que a Pelé faltava a única coisa que interessa num jogador de futebol: inteligência. Pelé foi então para Itália. Com Mancini, ainda fez uns minutos e marcou uns golos. Apressaram-se a dizer que era a comprovação de que tinha valor. Mantivemos a opinião. Pelé não crescera, continuava extraordinariamente burro a jogar. No ano seguinte, veio o fim da linha para o jovem. Mourinho dispensou-o, Jesualdo não contou com ele, e acabou por passar por três clubes sem nunca se afirmar. No futebol adulto, os atributos que Pelé revelava eram meros acessórios. Faltava-lhe o principal. E comprovou-se que o Entre Dez, que tantas críticas ouviu, é que tinha razão: Pelé jamais iria ser um jogador de futebol a sério.

Este é apenas um exemplo, talvez um dos mais esclarecedores, de que não dizemos as coisas à toa. A nossa opinião é sempre sustentada por ideias e as nossas convicções não são somente caprichos. Quando dizemos o que dizemos sobre certos jogadores, não o fazemos apenas por embirração, mas porque esses jogadores denotam problemas para os quais o comum adepto não costuma olhar. Gaba-se em excesso a transpiração, a garra, a agressividade, a capacidade técnica, a velocidade, porque são coisas fáceis de ver. Observar e averiguar talento é muito mais difícil e só pode ser feito no contexto do jogo e com muitos dados. Maior parte das pessoas que vê futebol repara nos atributos visíveis dos jogadores. O Entre Dez vai mais longe e tenta olhar para coisas não visíveis a olho nu. É por isso que acertamos mais vezes que os outros e é por isso que, ao contrário das outras pessoas, possuímos alguma segurança para dar, acerca de certos jogadores, tantas certezas em relação ao seu futuro. De Pelé, como de muitos outros, não nos enganámos. O tempo deu-nos razão e aqueles que, na altura, tanto o defenderam e tanto nos criticaram, devem agora penitenciar-se perante a confirmação do nosso palpite.

terça-feira, 2 de março de 2010

Lições de Mestre (3)

O Barcelona venceu este fim-de-semana, em casa, o Málaga por duas bolas a uma. O jogo não foi fácil e o Barça só conseguiu marcar no segundo tempo. A jogada que destacamos é a marca deste Barcelona de Guardiola e ilustra toda a potencialidade que há em jogar de pé para pé, ao primeiro toque. Um hino e uma lição ao futebol...




O lance começa na direita, entra no avançado, vai à esquerda, volta ao meio, passa novamente à direita e volta ao meio. Um carrossel perfeito, com os jogadores do Málaga apenas a cheirarem a bola. Messi flecte para dentro e joga no apoio vertical que Ibrahimovic oferece; este toca para Pedro, que joga novamente no sueco que entrara na profundidade; Ibrahimovic solta de primeira na linha, em Maxwell, que dera o apoio conveniente; o brasileiro, em vez de cruzar (estava numa posição perfeita para isso), ilude tudo e todos e, de primeira, dá atrasado em Pedro; Pedro roda e dá atrás em Xavi, que dera um apoio recuado perfeito; a partir daqui, cria-se o espaço e o tempo necessários para um passe de ruptura perfeito; Xavi roda sobre si, faz um passe a rasgar por entre a defesa do Málaga, para Dani Alves, que entrara pela direita; Dani Alves, em posição de finalização, dá de primeira no meio, onde ficara sozinho Messi, que finaliza sem oposição. São 8 toques na bola, quase todos de primeira, a fazerem a equipa do Málaga correr de um lado para o outro até que se crie o espaço necessário para a ruptura e se criem as condições necessárias para uma finalização com um grau de exigência reduzido. O Barcelona é isto e isto é o Barcelona. Muita paciência, muita troca de bola, pouco risco no passe. A ideologia ofensiva do Barcelona manda que os jogadores troquem a bola de modo curto, que não arrisquem passes de ruptura senão quando há boas condições de sucesso, que não cruzem à toa apenas porque estão numa posição privilegiada para tal, que não finalizem apenas porque estão em boas condições para fazer golo. Mais extraordinário isto se torna quando olhamos para o marcador e vemos que o jogo estava empatado a uma bola e faltavam apenas 5 minutos para o fim do jogo. A pressão do relógio e do resultado poderiam ter levado a equipa a optar por rematar, por cruzar para a área, por tentar penetrações individuais, por arriscar uma maior verticalidade. Mas não. Apesar de faltarem apenas 5 minutos e o resultado não ser positivo, o Barcelona jogou com a sua identidade. Messi poderia ter chutado assim que flectiu para dentro, Maxwell poderia ter cruzado assim que Ibrahimovic lhe deu a bola e Dani Alves poderia ter finalizado quando recebeu o passe de Xavi. Ninguém o fez. A tudo isto se sobrepôs uma identidade colectiva que não pode ser ignorada. E a preservação dessa identidade deu frutos. É por estas e por outras que este Barcelona é a melhor equipa do mundo, mas de muito muito longe...

P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.