terça-feira, 9 de março de 2010

Nuno Assis e Master Kodro

Depois de duas semanas, nos jogos frente a União de Leiria e Nacional da Madeira, em que não só foi decisivo como rubricou excelentes exibições, Nuno Assis é novamente tema deste espaço. A qualidade, mais do que suficiente para que Quique Flores tivesse ficado com ele no Benfica a época passada e para que Carlos Queiroz já se tivesse lembrado dele para a selecção, é inegável. Trata-se de um dos melhores jogadores da Liga a actuar fora dos três grandes e será, juntamente com Hugo Viana, o jogador mais injustiçado quando o seleccionador nacional divulgar a convocatória para o mundial. Há, apesar disso, uma determinada fatia da populaça para quem Nuno Assis é um jogador banal e para quem as suas qualidades são pouco interessantes. A essa fatia de gente escandalosamente impudica decidi chamar Master Kodro. A referência não é, por isso, directa ao conhecido palrador, embora se baseie nele e nas suas ideias tacanhas acerca de Nuno Assis, mas uma sinédoque que, partindo da opinião de uma pessoa, a expande a um universo alargado de carneiros que comungam da opinião e não deviam falar de futebol. O texto é por isso sobre Nuno Assis e sobre pessoas que não percebem, em particular, o valor de Nuno Assis e, em geral, de futebol.

De Nuno Assis tem dito Master Kodro atrocidades como, por exemplo, que é um jogador de contra-ataque. O seu problema com o passado de Nuno Assis é relevante, mas não creio que seja essa a principal causa de tais ideias. A sua opinião radica, isso sim, num erro apreciativo que está enraízado na forma como olha para uma partida de futebol. Como acha que Nuno Assis deve ser responsável por pautar o jogo ofensivo da sua equipa, acha que ele deve fazer passes de ruptura, deve furar por entre a defesa, deve provocar desequilíbrios, etc. Está na base deste erro assumir que os jogadores têm funções. Assim, quando uma equipa cria oportunidades de golo, mas não marca, os culpados são os avançados; quando a equipa não consegue cruzar para os avançados, o problema são os extremos; quando a equipa não consegue penetrar na defensiva adversária, o problema são os médios de ataque. Isto é tão redutor quanto imbecil. E Nuno Assis é precisamente o tipo de jogador que sabe que um médio de ataque não serve para as coisas que Master Kodro pensa que serve.

A teoria assenta ainda na verificação de que é em contra-ataque que Nuno Assis dá mais nas vistas. O que tenho a dizer a isto é que é em contra-ataque que qualquer jogador dá mais nas vistas. Isso não é exclusivo de Nuno Assis. Em contra-ataque, há sempre mais espaços, as jogadas são mais objectivas, a quantidade de soluções a considerar é menor. E bons executantes, como Nuno Assis e tantos outros, têm tendência a fazer-se notar e a serem decisivos neste tipo de lances. É natural, pois, que em contra-ataque Nuno Assis dê nas vistas. Mas em contra-ataque Nuno Assis não é muito diferente de Tiago Targino, por exemplo. E é quase herético tentar assemelhar dois jogadores tão distintos. Aquilo em que Nuno Assis é francamente diferente dessa outra rapaziada que só é boa em contra-ataque é que é um jogador notável do ponto de vista intelectual, que descobre soluções muito rapidamente, que sabe a utilidade de jogar curto. Um jogador de toque curto, que procura prioritariamente uma tabela, extraordinariamente criativo a encontrar soluções inusitadas nunca pode ser um jogador de contra-ataque. É alguém que tem uma facilidade rara para jogar em espaços curtos e entre linhas adversárias. Nuno Assis é, por isso, o oposto daquilo que Master Kodro pensa que é.

A opinião de Master Kodro cai ainda no exagero de dizer que se comprova a si mesma pelo facto de ele só fazer grandes jogos contra as grandes equipas, em desafios em que o Vitória passa a maior parte do tempo em contra-ataque. Além de isto ser mentira, como facilmente se verifica pelos dois últimos jogos, por exemplo, denuncia um problema perceptivo grave e que é comum à grande maioria dos adeptos de futebol. É que, para estas pessoas, fazer um grande jogo é estar associado aos momentos decisivos do mesmo. Ora, sempre que Nuno Assis não protagoniza jogadas de relevo, a opinião de Master Kodro é de que fez um mau jogo. Isto é francamente estúpido. Em muitos jogos, sobretudo em jogos em que os adversários se encolhem lá atrás e reduzem os espaços, é natural que jogadores mais imaginativos, mais criativos e inteligentes procurem soluções mais simples, soluções que permitam à equipa manter a posse de bola e gerir pacientemente o seu ataque. O que Master Kodro pretende é que Nuno Assis se arme em super-herói e invente jogadas de génio. Não é assim que funciona. É precisamente por Nuno Assis ser extraordinariamente inteligente que não cai nessa tentação, que não procura desequilíbrios individuais, que não arrisca passes de ruptura condenados à priori ao fracasso. O seu jogo é o que tem de ser quando há pouco espaço: procura soluções curtas, joga atrás, ao lado, fazendo girar a bola até que o colectivo (e não o indivíduo) consiga desequilibrar o adversário. Nuno Assis põe o colectivo à frente do individual e, como tal, nesse tipo de jogos, dá menos nas vistas. Para pessoas que não sabem olhar para um jogo de futebol, isto significa que não faz um bom jogo. Ora, pelo contrário, é precisamente por isso que ele faz um bom jogo.

A carneirada a que chamo Master Kodro é, por isso, um conjunto alargado de pessoas que não sabe ver futebol, que olha para o jogo como uma soma de bonecos. Há dias, num transporte público, estava sentado ao lado de dois velhos que comentavam o jogo da selecção realizado no dia anterior. Falavam, como qualquer adepto de futebol, pretensiosamente, julgando infalíveis as suas opiniões. Aquela que registei com maior interesse foi a de que Paulo Ferreira jamais poderia ir ao mundial, pois não era nem nunca fora um bom jogador. Admitindo que, sendo velhos, fossem pessoas com um grau de senilidade relevante, não deixa de ser engraçado que sustentassem opiniões que muita gente sustenta. Esquecendo agora a falta de memória das pessoas em causa e a qualidade óbvia que Paulo Ferreira teve há uns anos, é importante tentar perceber por que é que se ousa dizer (e não há pouca gente a pensar assim) que Paulo Ferreira não tem qualidade. Para mim, é óbvio. A opinião de Master Kodro, ou seja, a opinião do comum adepto de futebol, tem tendência a privilegiar jogadores espalhafatosos, jogadores que manifestam atributos visíveis. Paulo Ferreira não é rápido, não é agressivo, logo não presta. Preferem-se Bosingwa, Miguel e João Pereira porque dão mais nas vistas. Paulo Ferreira é melhor jogador que qualquer um destes e só admitiria que fosse suplente de Bosingwa pois aquilo que este pode oferecer, em termos de velocidade, é mesmo extraordinário. Mas Paulo Ferreira é mais inteligente, defende melhor, é posicionalmente muito mais forte e tem na lucidez e na experiência pontos a favor. Não querendo insistir na análise do jogador do Chelsea, serve esta história para ilustrar o modo de pensar de Master Kodro. Master Kodro gosta de jogadores que dêem nas vistas. E gosta desse tipo de jogadores porque o seu cérebro não tem capacidade para processar mais do que é visível. Como não se é capaz de conceptualizar o jogo a um nível mais profundo, tudo o que não sejam correrias loucas, agressividades de gorilas e macacadas com bola não é relevante. A capacidade intelectual de um jogador de futebol é, para Master Kodro, um mito e pouco lhe interessa percebê-la. É por isso que vê em Nuno Assis tanta banalidade. O que, porém, é irónico nisto tudo é que é precisamente ao ver banalidade num jogador que é tudo menos banal que denuncia a própria banalidade do seu olhar. Aquele que, tendo à frente dos olhos um objecto invulgar, é incapaz de perceber onde reside o carácter invulgar da coisa, não tem especial apetência para ver coisas. Master Kodro é aquele que não surpreende no mundo mais do que aquilo que é facilmente perceptível a quem tem olhos, e o seu Nuno Assis, isto é, o objecto que o comum observador julga que vê, é por isso muito mais Master Kodro que Nuno Assis, é muito mais o próprio reflexo da mediocridade de Master Kodro do que o verdadeiro Nuno Assis. É do emaranhado deste novelo de porcaria em que se constitui o conjunto de gente pequena que fala de futebol que este espaço procura escapar, alertando para aquilo que este tipo de gente, Master Kodro, não é capaz de ver. O trabalho é hercúleo e, possivelmente, ineficaz. Mas vale a pena, nem que seja pela consciência de estar certo.

sábado, 6 de março de 2010

Os Gajos Mais Odiados da Blogosfera - Episódio 1: Os Visionários

Os recentes comentários, polidos com cortesia e boas maneiras na caixa de comentários do último texto sobre Liedson, trouxeram a lume a simpatia que as nossas palavras e as nossas ideias provocam em quem nos lê. A quantidade (foram 23!, pelo menos para já) de pessoas que manifestou o seu desprezo por nós é assinalável e vem reforçar a ideia de que há pouca gente que não nos odeie. É com a intenção de retribuir o carinho e a atenção que nos dedicam esses escorreitos leitores que iniciamos esta nova temática. O objectivo é recordar o percurso deste espaço, desde a sua criação até à actualidade, as ideias defendidas desde essa altura, os episódios caricatos, as disputas intelectuais, em suma, esboçar, em vários episódios, uma Autobiografia do Entre Dez e das façanhas dos seus autores e dos seus leitores. Cada episódio será subordinado a um tema, contará uma pequena história, invocará uma citação famosa e trará à baila, pelo menos, uma das coisas que fomos defendendo ao longo deste tempo e que o tempo - soberano juiz - se encarregou de tornar irrefutável.

Episódio 1:
Os visionários

Há muitas coisas que nos definem e às quais somos associados. Os nomes de Farnerud, Pereirinha, Liedson, Pepe, David Luiz e Hulk são apenas alguns dos que maiores controvérsias têm causado. Mas questões mais profundas, como a existência ou não de talento inato, o haver ou não funções numa equipa de futebol, a concepção do golo como consequência e não como objectivo do jogo, a esterilidade do 442 clássico, etc., foram também motivo de acesa polémica. Por causa destas coisas e de muitas mais, fomos vezes sem conta apelidados de "visionários" ou de "iluminados". Eis alguns exemplos:

1) Bruno Pinto, a 6 de Novembro de 2007: "Claro que para eles, os outros é que são incapazes de acompanhar a sua inteligência suprema... Autênticos visionários..."

2) Jonnybalboa, a 7 de Janeiro de 2009: "És um romântico da bola, tu e o "pipi"...

3) João, a 26 de Fevereiro de 2009: "E sim, é muitas vezes assim que se elevam a grandes personalidades, os tais visionarios. Mas para cada visionário existem milhões de gajos como tu."

4) Bruno Pinto, a 29 de Abril de 2009: "Acho que muita gente concorda com isso e as explicações são triviais. Ai Nuno, Nuno, essa tua mania de quereres ser visionário..."

5) Miguel, a 4 de Setembro de 2009: "Fica lá com a tua opinião de pseudo-iluminado. Depois quando a bola começar a ser redonda verás que até nem dizes coisa com coisa."

Não haverá, porém, tema deste espaço mais controverso do que Liedson. São pouquíssimas as pessoas, se as há mesmo, que defendem o mesmo que nós defendemos, desde sempre, sobre o avançado do Sporting. Se há algo que nos faz, de facto, visionários, no sentido de acreditarmos em coisas em que mais ninguém acredita, são as considerações acerca do Levezinho. Enquanto que, em relação a outras temas, as nossas posições, ainda que censuradas por maior parte das outras pessoas, são motivo de discussão, quando se trata de Liedson, a outra parte da contenda raramente se interessa por argumentos, tamanha é a heresia. Não raro, o espaço saudável do debate torna-se um espaço de crenças, como se houvesse verdades que não pudessem ser colocadas em causa por via da racionalidade. Assim, tal como os crentes em Deus não podiam aceitar a discussão racional sobre o que quer que fosse que pusesse em causa os atributos da omnipotência, omnipresença e omnisciência do seu Deus, pois aceitá-la seria aceitar a possibilidade de Ele não possuir esses atributos, também aqueles que acham coisas fantásticas de Liedson não podiam aceitar um debate racional sobre a sua pretensa qualidade, pois estariam a aceitar a possibilidade de ele não ser assim tão bom. Praticamente em todas as discussões sobre Liedson, os defensores da sua qualidade agiram como eclesiásticos radicais, incapazes por vocação de aceitar a possibilidade do erro da sua doutrina. Essa semelhança faz lembrar um episódio histórico que o seguinte diálogo procura retratar com desfaçatez.

A Verdadeira História de Galileu Galilei

Galileu: Senhores, estou firmemente convencido de que o grão Nicolau Copérnico, que embora tenha alcançado uma fama imortal perante alguns, foi ridicularizado e assobiado por uma multidão infinita, pois tão grande é o número dos idiotas, tinha, de facto, razão ao afirmar que os astros giram em torno do Sol e não da Terra.
Teóricos da Época: O quê? Estais louco, Galileu Galilei?
Galileu: Não. De ora em diante, o geocentrismo deveria dar lugar ao heliocentrismo.
Teóricos da Época: O héliocen-quê?
Galileu: Heliocentrismo.
Teóricos da Época: Que é isso? Não conhecemos. Isso não existe. Estais a alucinar, Galileu Galilei.
Galileu: Ao contrário do que se pensa hoje, a Terra não é o centro do Universo; é apenas mais um corpo celeste que gira em torno do Sol.
Teórico da Época: Galileu Galilei, andais metido na droga?
Galileu: É a mais pura das verdades. Apesar de isto poder entrar em choque com as doutrinas eclesiásticas vigentes e de me ter sido aconselhado a ponderar essa hipótese apenas como isso mesmo - uma hipótese - e só porque facilita os cálculos astronómicos, tenho argumentos que sustentam que é bem mais que isso. Aliás, possuo cálculos aprofundados que o comprovam.
Teóricos da Época: Pois, Galileu Galilei, mas a nós os cálculos aprofundados não nos dizem nada.
Galileu: Mas se comprovam...
Teóricos da Época: Tende-los convosco? Podeis mostrar-los?
Galileu: Sim. Aqui estão...
Teóricos da Época: Hmmm... Isto tem um bocado de matemática a mais, não tem? E não deveríeis confiar tão cegamente nestes Pitágoras! É só teoremas, só teoremas. Achamos isto um bocado confuso, ó Galileu Galilei... Do nosso ponto de vista, estes cálculos são só especulações.
Galileu: Matemática especulativa?!?!?!
Teóricos da Época: Pois, quer-nos parecer que sim. Isto são só números e continhas de algibeira... Deveríeis passar a dedicar-vos à pecuária.
Galileu Galilei: À pecuária?
Teóricos da Época: Sim, sim. E de ora em diante, aconselho-vos a ficar caladinho. Isto se não desejardes o Santo Ofício a bater-vos à porta. Já agora, Galileu Galilei, que achais do Liedson?
Galileu Galilei: Acho-o fraquinho...
Teóricos da Época: O quê??? Tendes noção da gravidade das vossas afirmações?
Galileu Galilei: Tenho boas razões para acreditar que assim seja...
Teóricos da Época: Pá, este só vai lá queimado em praça pública. Tragam os archotes...

A nossa posição em relação a Liedson não é só uma posição essencialmente controversa; é algo que vai para além disso, pois é quase unânime que o contrário daquilo que defendemos é que está certo. São poucos os adeptos que não o acham um jogador extraordinário e poucos os treinadores que não se ajoelhariam aos seus pés. Esta vassalagem esquisita e, de acordo com aquilo em que acreditamos, absurda, faz com que todos os que nos rodeiam sejam profundos admiradores de algo que não vale assim tanta admiração. Esse comportamento geracional, similar ao comportamento hodierno de grande parte do povo perante as mais diversas formas de arte, denota um conjunto de atributos dessa mesma geração que, de certa maneira, a caracteriza fielmente e provoca em nós, entre outras coisas, um vontade irreprimível de a invectivar. É nesse âmbito que a citação deste episódio se explica.

Citação

"Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi! É um coio d'indigentes, d'indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir abaixo de zero!

Abaixo a Geração!"

(Almada Negreiros, in Manifesto Anti-Dantas)


Depois de já ter chamado a Liedson Papa-Açorda, Saltitão, Saguim, Tontinho, Burro, Banal, Estúpido e Napoleão, eis que lhe chamo agora Dantas. É provavelmente o avançado luso-brasileiro com mais alcunhas na História do Futebol... Vamos, por fim, ao espaço em que se relembram algumas das disputas mais interessantes.

Coisinhas em que, por acaso, até tínhamos razão

Como disse acima, de entre as várias coisas que cada episódio desta rubrica trará encontra-se algo que defendemos afincadamente e que, na altura, nos motivou acesas críticas. Para iniciar esse espaço, escolhi Pelé, o fantástico médio defensivo oriundo do Vitória de Guimarães e que, à custa de olheiros que dão especial interesse a características anatomicamente relevantes em gorilas e lutadores de boxe, foi contratado pelo Inter de Milão após um mundial de sub-20 em que as suas exibições foram patéticas, embora os seus músculos e os seus truques com a bola tenham sido bastante elogiados.

De Pelé dissémos desde o início que fora sobrevalorizado. Tratava-se de um jogador fisicamente muito poderoso e com alguma habilidade. Como, nos dias que correm, ainda se vê futebol de um modo essencialmente descontextualizado, olham-se para os jogadores como soma de atributos. Pelé tinha força e tinha técnica. Que mais se poderia desejar? Desde o início que fomos peremptórios em dizer que a Pelé faltava a única coisa que interessa num jogador de futebol: inteligência. Pelé foi então para Itália. Com Mancini, ainda fez uns minutos e marcou uns golos. Apressaram-se a dizer que era a comprovação de que tinha valor. Mantivemos a opinião. Pelé não crescera, continuava extraordinariamente burro a jogar. No ano seguinte, veio o fim da linha para o jovem. Mourinho dispensou-o, Jesualdo não contou com ele, e acabou por passar por três clubes sem nunca se afirmar. No futebol adulto, os atributos que Pelé revelava eram meros acessórios. Faltava-lhe o principal. E comprovou-se que o Entre Dez, que tantas críticas ouviu, é que tinha razão: Pelé jamais iria ser um jogador de futebol a sério.

Este é apenas um exemplo, talvez um dos mais esclarecedores, de que não dizemos as coisas à toa. A nossa opinião é sempre sustentada por ideias e as nossas convicções não são somente caprichos. Quando dizemos o que dizemos sobre certos jogadores, não o fazemos apenas por embirração, mas porque esses jogadores denotam problemas para os quais o comum adepto não costuma olhar. Gaba-se em excesso a transpiração, a garra, a agressividade, a capacidade técnica, a velocidade, porque são coisas fáceis de ver. Observar e averiguar talento é muito mais difícil e só pode ser feito no contexto do jogo e com muitos dados. Maior parte das pessoas que vê futebol repara nos atributos visíveis dos jogadores. O Entre Dez vai mais longe e tenta olhar para coisas não visíveis a olho nu. É por isso que acertamos mais vezes que os outros e é por isso que, ao contrário das outras pessoas, possuímos alguma segurança para dar, acerca de certos jogadores, tantas certezas em relação ao seu futuro. De Pelé, como de muitos outros, não nos enganámos. O tempo deu-nos razão e aqueles que, na altura, tanto o defenderam e tanto nos criticaram, devem agora penitenciar-se perante a confirmação do nosso palpite.

terça-feira, 2 de março de 2010

Lições de Mestre (3)

O Barcelona venceu este fim-de-semana, em casa, o Málaga por duas bolas a uma. O jogo não foi fácil e o Barça só conseguiu marcar no segundo tempo. A jogada que destacamos é a marca deste Barcelona de Guardiola e ilustra toda a potencialidade que há em jogar de pé para pé, ao primeiro toque. Um hino e uma lição ao futebol...




O lance começa na direita, entra no avançado, vai à esquerda, volta ao meio, passa novamente à direita e volta ao meio. Um carrossel perfeito, com os jogadores do Málaga apenas a cheirarem a bola. Messi flecte para dentro e joga no apoio vertical que Ibrahimovic oferece; este toca para Pedro, que joga novamente no sueco que entrara na profundidade; Ibrahimovic solta de primeira na linha, em Maxwell, que dera o apoio conveniente; o brasileiro, em vez de cruzar (estava numa posição perfeita para isso), ilude tudo e todos e, de primeira, dá atrasado em Pedro; Pedro roda e dá atrás em Xavi, que dera um apoio recuado perfeito; a partir daqui, cria-se o espaço e o tempo necessários para um passe de ruptura perfeito; Xavi roda sobre si, faz um passe a rasgar por entre a defesa do Málaga, para Dani Alves, que entrara pela direita; Dani Alves, em posição de finalização, dá de primeira no meio, onde ficara sozinho Messi, que finaliza sem oposição. São 8 toques na bola, quase todos de primeira, a fazerem a equipa do Málaga correr de um lado para o outro até que se crie o espaço necessário para a ruptura e se criem as condições necessárias para uma finalização com um grau de exigência reduzido. O Barcelona é isto e isto é o Barcelona. Muita paciência, muita troca de bola, pouco risco no passe. A ideologia ofensiva do Barcelona manda que os jogadores troquem a bola de modo curto, que não arrisquem passes de ruptura senão quando há boas condições de sucesso, que não cruzem à toa apenas porque estão numa posição privilegiada para tal, que não finalizem apenas porque estão em boas condições para fazer golo. Mais extraordinário isto se torna quando olhamos para o marcador e vemos que o jogo estava empatado a uma bola e faltavam apenas 5 minutos para o fim do jogo. A pressão do relógio e do resultado poderiam ter levado a equipa a optar por rematar, por cruzar para a área, por tentar penetrações individuais, por arriscar uma maior verticalidade. Mas não. Apesar de faltarem apenas 5 minutos e o resultado não ser positivo, o Barcelona jogou com a sua identidade. Messi poderia ter chutado assim que flectiu para dentro, Maxwell poderia ter cruzado assim que Ibrahimovic lhe deu a bola e Dani Alves poderia ter finalizado quando recebeu o passe de Xavi. Ninguém o fez. A tudo isto se sobrepôs uma identidade colectiva que não pode ser ignorada. E a preservação dessa identidade deu frutos. É por estas e por outras que este Barcelona é a melhor equipa do mundo, mas de muito muito longe...

P.S. Houve outro momento, este fim-de-semana, digno de registo, pelas razões inversas. Falo do mais novo caso de selvajaria em terras de Sua Majestade, que desta vez vitimou o muito promissor jovem galês do Arsenal, Aaron Ramsey. Os que persistem em defender a pureza e a genuinidade do futebol em Inglaterra são animais irracionais. Provavelmente tão irracionais como os animais irracionais que jogam naqueles país de costumes nada brandos. Ryan Shawcross atingiu Ramsey violentamente e partiu a perna ao galês. Depois, arrependeu-se, chorou, pediu desculpas. Não duvido do seu arrependimento. Mas não há arrependimento que desculpe a sua entrada. É uma entrada animalesca, de quem não tem cérebro. O futebol inglês é pródigo, como nenhum outro, neste tipo de coisas. Shawcross garantiu que não houve maldade. Eu estou-me pouco borrifando para o que ele garantiu. O que ele queria dizer é que não teve a intenção de fazer aquilo. Estou-me pouco borrifando para intenções. Um leão, quando ataca uma gazela, também não tem intenção de matá-la por matar. Quer comê-la. Que a consequência da sua intenção seja a morte da presa pouco importa. Shawcross é como o leão. Não teve intenção de partir a perna de Ramsey. Mas a sua atitude de animal irracional teve por consequência esse acontecimento. Ou somos todos animais irracionais e um jogo de futebol, enquanto evento civilizado e de gente racional, não tem qualquer sentido, ou somos seres humanos, que nos distinguimos dos animais pela forma como raciocinamos e medimos as consequências das nossas acções. No segundo caso, a entrada de Shawcross não tem desculpa e só não é maldosa de um ponto de vista animal. Do ponto de vista do ser humano, uma entrada como aquela, por não se ter preocupado com as consequências, é uma entrada maldosa. A maldade das coisas não se mede apenas pela intenção maldosa com que são feitas. Shawcross garante que não fez por mal. Eu garanto que o fez, pelo simples facto de o ter feito. O problema é que, em Inglaterra, os jogadores são essencialmente animais irracionais. Dizem que não são maldosos, que são brutos mas que não são maldosos. A estupidez disto está em não perceber que ser bruto é ser maldoso. Pelo menos num ser humano. Em mais nenhum campeonato do mundo acontecem estas coisas com a frequência com que acontecem em Inglaterra. O campeonato inglês é o mais maldoso que há, pelo simples facto de ser o mais irracional. Para rematar esta história infeliz, nada melhor que a forma como a própria Liga Inglesa funciona neste tipo de lances. As imagens são censuradas, às televisões não lhes é permitido filmar as pernas partidas e as repetições dos lances são apagadas e proíbidas o mais rapidamente possível. Decerto que não faz sentido pensar-se que seja para não ferir susceptibilidades. Nos últimos meses, vimos coisas bem piores que estas no Haiti, no Chile e na Madeira, só para dar alguns exemplos. Aquilo que se pretende proteger, isso sim, é uma ideia falsa de pureza. A Liga Inglesa é um produto de mercado e, enquanto tal, tem de proteger o seu negócio. Interessa então preservar a ideia de espectáculo e censurar tudo o que possa ferir essa ideia; interessa vedar às pessoas o acesso a evidências da animalidade com que o jogo é jogado e reduzir o impacto de coisas que não acontecem em mais lado nenhum. Tudo para proteger uma identidade falsa, uma ideia de que esse jogo é jogado de um modo inofensivo e limpo. Não o é. E esta semana ficou mais uma vez provado que não o é.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

A Jogada que define Liedson

Ganhar o ressalto, ganhar outro ressalto, voltar a ganhar um ressalto e ganhar um último ressalto. Depois, fechar os olhos e chutar em frente. Eis, em duas frases, a jogada que melhor define o avançado do Sporting.



Há quem ache que ele é recompensado por aquilo que luta, pela forma felina como se mexe e pela sua frieza a finalizar. A verdade é que nada disso é bem assim. É um avançado que tem muita sorte na forma como as bolas acabam por sobrar para si. Uma quantidade considerável dos golos que marca são obtidos após ressaltos caprichosos, infantilidades dos defesas, sorte, etc. Este lance demonstra na perfeição aquilo que Liedson é. Ganha 4 ressaltos - sim, 4! - na mesma jogada e, aos trambolhões, acaba por ficar em posição de finalizar. Depois, como é hábito, dá-lhe com força conforme ela está, porventura tentando trespassar o guarda-redes. Falhou, como é óbvio, como tantas vezes acontece, embora achem que ele falha pouco.

Liedson é isto. Um avançado que, sem saber como nem porquê, consegue ficar isolado em posição privilegiada para finalizar. Depois, nessa posição, é um avançado displicente. Raramente escolhe um lado com convicção. Por norma, dispara para onde está virado, não procurando desviar do guarda-redes. Isto não é um bom finalizador. É um avançado que tem muita sorte e que fica muitas vezes em posição de facturar. Tantas são as vezes que, mesmo não sendo um bom finalizador, acaba por fazer alguns golos. Os suficientes para continuar a enganar meio mundo.

P.S. Aqueles que vierem defender a extremamente parva teoria de que os ressaltos que ganha são fruto da sua atitude em campo e não apenas da sorte podem ficar desde já avisados que serão tratados como mentecaptos.

P.S. II - Um dos comentadores residentes do desafio tentou defender várias vezes, ao longo do jogo, a tese de que o Porto perdeu porque não teve a mesma agressividade que o Sporting. Há de certeza ursos pardos que têm capacidades intelectuais superiores a esse senhor. Terão, certamente, as suficientes para perceber que a agressividade foi o menor dos problemas do Porto.

P.S. III - Ainda bem que andava tudo maluco com os jogos recentes do Porto e com a qualidade de jogo da equipa apresentada frente ao Braga. É como dissémos atempadamente: a goleada em Braga não espelhou um jogo muito conseguido do Porto, e as lacunas da equipa, de novo com Raúl Meireles em campo, iriam ficar brevemente à vista de todos. Francamente, o resultado em Alvalade não me espanta. O Porto não foi inferior ao que tinha sido frente ao Braga. Foi, como já antes tinha sido, totalmente incapaz de controlar o jogo através da posse e, não conseguindo impor o seu jogo de transições, não teve mais nada. Quão diferente está este Porto daquele que goleou este mesmo Sporting para a Taça de Portugal...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lições de Mestre (2)

A jornada tinha, por jogo grande, a recepção do Porto ao Braga. Maior parte dos iluminados não conseguiu perceber que o resultado esteve muito longe de expressar uma supremacia do Porto e que o Porto foi, essencialmente, uma equipa eficaz a aproveitar os espaços em transição. À margem disto, voltou a ser um Porto pouco imaginativo, pouco capaz em organização ofensiva, excessivamente vertical, com os dois médios, Rúben Micael e Raúl Meireles muito precipitados, a tornar o jogo sistematicamente numa vertigem de velocidade. Resultou, é certo, mas porque o Braga não esteve bem onde era importante estar contra este Porto. Duvido seriamente, porém, que isto não seja o primeiro capítulo do afundamento deste Porto. Desde que Belluschi saiu da equipa, o Porto voltou a ser uma formação demasiado preocupada com a velocidade e, contra adversários fechados lá atrás, que optem por blocos baixos, voltará a sentir dificuldades.

Não é, contudo, sobre este jogo que pretendo falar. A análise ao mesmo está no nosso artigo desta semana no Academia de Talentos. Pretendo antes recuperar o lance do primeiro golo do Benfica frente à União de Leiria, num jogo disputado há já algumas semanas, mas correspondente a esta jornada. O lance é genial e merece, por isso, a inclusão nesta rubrica. A tabela entre Saviola e Aimar parece simples, mas não é. Quantos jogadores, na mesma situação, fariam o mesmo? Com um simples toque, Saviola e Aimar ultrapassaram 4 defesas e o cruzamento para Cardozo tornou-se possível. É isto que uma simples tabela permite. Nenhum lance individual, nenhum talento requintado, nenhuma invenção sobre-humana seria capaz de tornar uma jogada aparentemente inofensiva num lance iminente de golo. Saviola e Aimar, em pezinhos de lã, com um movimento aparentemente simples, conseguiram-no. Eis o que, no futebol actual, faz dos processos ofensivos algo mais do que a soma da inspiração de cada jogador.



Há quem ache que, no que diz respeito a processos ofensivos, os treinadores têm responsabilidade essencialmente na transição defesa-ataque e nas primeiras fases de construção. Segundo esta teoria, no último terço do terreno, com o adversário organizado defensivamente, prevalece sobretudo o talento individual, a inspiração, a qualidade de cada jogador da equipa. E, segundo ainda esta teoria, a definição dos processos ofensivos no último terço do terreno não é treinável. Se não bastasse, para contradizer esta teoria, o modelo de Guardiola, eis que dois pequenos argentinos, com um passo de tango, a destroem por completo. Entre vários adversários, Saviola procurou Aimar não porque o seu talento o impeliu nessa direcção, mas porque percebeu que, combinando com o colega, se desembaraçaria muito mais facilmente da situação em que estava. Que isto aconteça mais frequentemente entre estes dois jogadores é explicado pelo facto de ambos terem mais consciência daquilo que isso lhes permite. Mas o movimento é colectivo e pode ser replicado por outros jogadores. Assenta essencialmente na ideia de que, fazendo a bola circular rapidamente entre dois ou três companheiros, o adversário tem menos possibilidades de inviabilizar o lance, e ainda em coisas como movimentos de aproximação, em apoios constantes, em passe e devolução, etc. O que Saviola e Aimar fizeram foi genial e é a prova de que, em organização ofensiva, mesmo com pouco espaço para jogar, o futebol deve ser essencialmente colectivo e que há mais probabilidades de êxito sempre que se procura resolver as coisas colectivamente, isto é, fazendo participar mais do que um elemento da equipa, do que recorrendo às individualidades. O envolvimento colectivo oferece possibilidades ofensivas que a soma das individualidades jamais oferecerá. Esta é a lição de Saviola e Aimar.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O que é um Avançado?

O texto que se segue tem por objectivo esclarecer aquilo que é ou deve ser um avançado. Serão postuladas algumas teorias e denunciadas algumas falácias típicas. O texto estará dividido por secções, mas todo ele será atravessado pela tentativa de resposta à pergunta "O que é um avançado?"

Um Avançado Não serve para fazer Golos


A resposta à pergunta pode parecer intuitiva, mas estou certo de que pouca gente saberá, com exactidão, a relevância específica da posição. A teoria mais convencional consiste em afirmar que um avançado é ou deve ser o responsável pela conclusão dos lances de ataque da sua equipa. Essa teoria não só não faz sentido como também põe a nu as fracas competências analíticas de quem quer que a defenda. Segundo esta doutrina, um avançado serve para marcar golos, como se os golos - esse acontecimento tão especial e único - não devessem ser antes um objectivo geral da equipa. Os defensores desta teoria jamais se podem livrar da terrível concepção de que os jogadores de uma equipa têm funções específicas em campo. Ainda assim, há quem queira defender as duas coisas, não percebendo a incoerência do que defendem. Se um avançado serve para fazer golos, então um médio serve para construir jogadas de ataque, um defesa serve para defender e um médio-ala serve para ir à linha cruzar. Isto é rudimentar e está de tal modo ultrapassado que só um amigo de Jaime Pacheco pode defendê-lo e ainda assim achar que está certo. Mesmo assim, há quem ache que os jogadores não devem ter funções, mas que depois ceda à tentação de classificar um avançado pelos golos que marca. Além de incoerente, este é um comportamento estúpido.

Um avançado não só não serve para marcar golos como não pode, de maneira nenhuma, ser avaliado segundo a competência que denota nesse capítulo. Tudo porque as coisas têm de ser contextualizadas. Por exemplo, um avançado pode marcar muitos golos porque simplesmente não se preocupa com mais nada. Isto não faz nem pode fazer dele um jogador extraordinário. Do mesmo modo, um avançado pode fazer poucos golos porque passa maior parte do tempo a procurar servir a sua equipa de outra maneira. O seu registo pouco impressionante não pode, também, servir para caracterizar a sua qualidade geral. Um avançado que não marca golos pode ser o jogador mais influente da sua equipa. Tudo depende do seu desempenho geral e não de dois ou três lances numa partida. Aqueles que não são capazes de perceber isto devem interromper a leitura imediatamente. Certos saberes não podem ser adquiridos por toda a gente.

Saviola: o melhor Avançado da Liga Portuguesa

Falemos agora um pouco mais concretamente. Actualmente, poucos se atreverão, certamente, a dizer que Saviola não é o melhor avançado desta Liga. Falarão até, muito provavelmente, nas coisas certas, nos movimentos sem bola, na capacidade técnica, no improviso, na inteligência, na capacidade para se movimentar entre linhas e para tabelar com os companheiros. Tenho, porém, sérias dúvidas de que existisse tamanho consenso caso Saviola não tivesse marcado já bastantes golos, embora continuasse a ser extraordinário em tudo aquilo que se lhe reconhece. Por aqui, desde muito cedo que afirmámos que o avançado argentino era o melhor da Liga, numa altura em que Cardozo e Falcao se destacavam na liderança dos melhores marcadores e ele tinha ainda, apenas, dois golos obtidos. Não precisámos que Saviola marcasse a quantidade de golos que já marcou para lhe outorgarmos esse estatuto e continuaríamos a defender esta posição mesmo que o argentino continuasse sem marcar golos. Aquilo que Saviola faz em campo é tão extraordinário que, mesmo retirando os golos que tem marcado, não há ninguém ao seu nível. Saviola é avançado e não é pelos golos que marca que é o melhor avançado da Liga. Se, por azar, não tivesse nenhum golo obtido, continuaria a sê-lo.

Aquilo de que duvido é que a maioria das pessoas que reconhece valor ao argentino consiga ser isenta ao ponto de defender o mesmo nas circunstâncias em que apresentei, ou seja, no caso de ele não ter qualquer golo marcado. O que estou a dizer é que, consciente ou inconscientemente, maior parte das pessoas faz depender o valor que reconhecem em Saviola não de tudo o resto que falei mas dos golos que marca. Sem os golos, não teriam focado a atenção no argentino e não teriam reparado em tudo o resto e na relevância de tudo o resto. Isto não faz sentido. No fundo, é dizer que Saviola vale por tudo aquilo que foi referido, mas ter usado a bitola dos golos para lhe avaliar a competência. Estou certo que há pouquíssimas pessoas que entendem realmente o que é um avançado. Aquilo que vou fazer de seguida é tentar definir, com o grau de precisão que for possível, aquilo que deve ser um avançado.

Requisitos de um Bom Avançado

A única diferença entre um avançado e um defesa, ou entre um avançado e outro jogador qualquer, é a posição relativa em que joga. Por posição relativa entendo o posicionamento em campo em função dos restantes companheiros. Um avançado é, portanto, por definição, um jogador que joga numa posição mais avançada, em relação aos colegas. Isto em teoria, porque na prática, dependendo das situações do jogo, o seu posicionamento pode oscilar. Muita gente acha que, por ser o jogador que, teoricamente, joga mais avançado, deve ser aquele que deve ter por missão fazer golos, uma vez que está mais perto da baliza do que qualquer outro colega. Isso é, contudo, uma forma simplista de ver o jogo. O futebol é tudo menos um jogo simples e um avançado tem mais para fazer em campo do que ser o elemento mais avançado de uma equipa. O futebol, jogado como um todo, não pode estar refém de jogadores com funções específicas; uma equipa, para fazer golos, não pode estar refém do seu atleta mais adiantado. Tem de ser capaz de tornar complexo o seu jogar a ponto de ser absolutamente indiferente quem faz ou não faz os golos.

Um avançado serve para tudo o que outro jogador qualquer serve. Acontece, porém, que o estar numa determinada posição relativa em campo faz com que participe mais vezes numas situações e menos noutras. Deste modo, um avançado estará muito menos vezes de frente para a baliza adversária do que um defesa, pelo simples facto de que, na maior parte do tempo, o jogo está a ocorrer atrás de si. Assim, jogará muito mais vezes de costas para a baliza adversária e será quase sempre de costas para a baliza que será solicitado. Um avançado que se preze, numa equipa que jogue ao ataque, tem portanto de ser competente na maior parte das vezes em que é solicitado. Se maior parte das vezes em que é solicitado está de costas para a baliza e com adversários à ilharga, tanto mais competente será o avançado quanto melhor for a jogar de costas para a baliza, a servir de apoio vertical, a baixar no terreno para tabelar, sem se virar para o jogo. Ao avançado não se pede que seja capaz de ter uma visão periférica porque na maior parte das vezes deve estar preocupado, isso sim, em movimentos de aproximação, em perceber onde estão os colegas mais próximos e em proteger a bola. Ora bem, um bom avançado não é, portanto, um avançado que faça muitos golos. Quem pensar isto, está equivocado. Um bom avançado é alguém capaz de servir de apoio vertical, capaz de baixar no terreno para tabelar, capaz de proteger a bola, capaz de encontrar com celeridade um companheiro perto de si. Um avançado que recebe a bola de costas para a baliza e que a perde invariavelmente, que se vira mais vezes para o adversário do que procura jogar de frente, que não é capaz de encontrar soluções de passe com rapidez e que não sabe a importância de proteger uma bola, é um mau avançado pelo simples facto de, na maioria das situações, ser incompetente.

Numa equipa que joga ao ataque, as competências mais importantes num avançado são estas. A razão é simples e tem a ver com a quantidade de vezes em que as solicitações exigem essas competências. Naturalmente, um avançado não é só solicitado desta forma. Mas uma vez que esta é a forma geral em que mais vezes é solicitado, é um contrassenso imaginar que um avançado que não seja competente nesse aspecto possa ser um grande avançado. Um avançado que - imaginemos - é incompetente em 80% das situações em que é solicitado não pode nunca, por melhor que seja nos outros 20%, ser um grande avançado. Ainda assim, é talvez importante referir de que outras formas pode um avançado ser solicitado e de que outras formas pode ser competente. Sem bola, pode ser útil na forma como se movimenta de modo a arrastar marcações ou a desviar atenções, a esticar a equipa adversária ou a fazer diagonais para permitir linhas de passe aos colegas. Pode ainda ser solicitado através de cruzamentos e pode ser mais ou menos competente a atacar zonas de finalização. Há, no entanto, uma pequena ressalva a fazer em relação a isto.

O Melhor tipo de Avançado

Muita gente não percebe isto, mas penso que é algo que só a muito custo pode ser negado. Muitos dos avançados que passam maior parte do tempo preocupados em movimentos de aproximação, em servir de apoio vertical, em baixar para tabelar com um colega, não têm depois tempo para acorrerem ao cruzamento que toda a sua participação anterior tornou possível. Muitas vezes, quando um avançado baixa para que a equipa consiga desbloquear uma situação no meio-campo e a jogada prossegue e exige uma finalização, o avançado que antes baixara no terreno e possibilitou todo o desenho subsequente não é capaz de chegar à área em condições de atacar as melhores zonas de finalização. Isto é assim por definição. Como tal, é natural que um jogador que não tenha as preocupações anteriores, que não baixe no terreno e se mantenha bem posicionado e concentrado unicamente no ataque das zonas de finalização, seja capaz de marcar mais golos. O que é importante, porém, perceber, é o que é mais útil para a equipa: contar com um avançado que marque mais golos ou contar com um avançado que participa melhor na manobra ofensiva da equipa. Eu não tenho quaisquer dúvidas. Um avançado que esteja preocupado apenas em marcar golos, por mais competente que seja nesse aspecto, faz com que a equipa esteja permanentemente coxa, a jogar com um elemento que não se dá a mostrar, que não procura ser solicitado senão para finalizar.

Isto não é apenas uma questão de preferência. Não é só o facto de preferir um tipo de avançado em detrimento de outro. Trata-se de perceber que um tipo é melhor que o outro porque permite mais coisas à equipa do que o outro. Um avançado não serve para marcar golos e um avançado que só seja competente a marcar golos é um mau avançado. Ponto final. Pode ser melhor que um avançado que também só seja competente a marcar golos, embora não tão competente, mas é sempre inferior a um avançado que seja competente no resto, ainda que não seja tão competente a marcar golos ou, simplesmente, que a sua competência de goleador seja afectada pelo facto de estar mais interessado em outras competências.

Ibrahimovic e a Ausência de relação causal entre Eficácia Colectiva e Avançados Goleadores

Não há, talvez, melhor exemplo para demonstrar a razão do que digo que o do melhor avançado do mundo. Na melhor equipa do mundo, o melhor avançado do mundo, Zlatan Ibrahimovic, não marcava há 2 meses e meio. Voltou a marcar esta semana. Repito: não marcava há 2 meses e meio! E é o melhor do mundo. E joga na melhor equipa do mundo. E o que é extraordinário é que o jejum de golos do sueco coincidiu com o melhor período do Barcelona esta época. Neste período, o Barcelona ganhou praticamente todos os jogos, goleou mais vezes do que o tinha feito até aqui e jogou muito bem. Mais extraordinário ainda é que Ibrahimovic foi quase sempre dos melhores em campo. Esteve excelente na forma como contribuiu para o jogo de posse da equipa e foi, sem dúvidas, dos principais responsáveis pelo esmagador caudal ofensivo apresentado. O Barcelona não precisou que Ibrahimovic fizesse golos para vencer e para jogar bem; precisou, isso sim, que Ibrahimovic contribuísse para a competência ofensiva da equipa, para que a equipa, enquanto equipa, fosse capaz de atacar bem e de criar situações de golo. Durante este período, Ibrahimovic não marcou golos, mas o futebol do Barça melhorou. Para quem esteve atento, as razões são simples. Ibrahimovic esteve excelente nos movimentos de aproximação, no abaixamento no terreno para funcionar como apoio vertical, nas tabelas. Com isto, o futebol atacante do Barcelona fluiu exemplarmente e a equipa conseguiu ser mais acutilante. Em termos individuais, este tipo de coisas talvez tenham prejudicado o pecúlio do sueco, pois acabou por sair das zonas de finalização mais vezes, mas a equipa agradeceu. Um grande avançado, como o é Zlatan Ibrahimovic, é por isso muito mais alguém que propicia tais coisas à equipa do que alguém que faz muitos golos. O Barcelona - repito - esteve imparável, e Ibrahimovic, o único avançado da equipa, não marcou golos. É até irónico que, precisamente no dia em que voltou a marcar golos, o Barça tenha sido finalmente parado no campeonato. Nada poderia ser mais conclusivo: não existe qualquer relação causal entre um avançado que marca muitos golos e uma equipa eficaz. Uma boa equipa, que pratique um bom futebol, não necessita de ninguém em específico que marque muitos golos. Pensar o contrário trata-se de uma falácia absurda que os tempos modernos e o advento de modelos de jogo sofisticados como o de Guardiola ou - por que não dizê-lo? - o de Mourinho, nos seus primeiros anos, já deveriam ter erradicado.

Postiga, Liedson e a Irrelevância de um Avançado que faça golos

O que aconselho, por isso, às pessoas que continuam a achar que um avançado serve para fazer golos é que parem de dizer asneiras. Um avançado é muito mais do que alguém que faz golos e mesmo um avançado que não marque um único golo, numa prova inteira, pode ser um avançado muito importante na manobra da equipa. Para quem não consegue ver mais do que golos, para os cegos que seguem cegamente o fenónemo futebolístico, Hélder Postiga, que não marca há não sei quanto tempo, é um mau avançado. Além de isto ser francamente estúpido, porque ignora que, noutras alturas, Postiga já fez bastantes golos, é uma forma simples de avaliar um atleta. Não conseguem perceber o quanto o futebol do Sporting ganha com um avançado que faz o tipo de coisas que Postiga faz e, como não marca golos, apressam-se a injuriá-lo. A mais mordaz das respostas a este tipo de palermice está bem à vista de todos. Apesar de haver ainda quem o queira ignorar, é um facto indesmentível que o futebol do Sporting, desde que Postiga foi afastado, perdeu muita qualidade. Em Janeiro, quando, por sorte, Liedson esteve parado, o Sporting apresentou invariavelmente Postiga e Saleiro na frente de ataque. O que a equipa ganha com este tipo de jogadores foi aqui, atempadamente, anunciado: melhor circulação de bola, apoios verticais constantes, capacidade para segurar e entregar de frente, aproveitamento do espaço entre linhas. No último terço do terreno, o Sporting tinha jogadores que eram capazes de dar continuidade à troca de bola da equipa, jogadores capazes de propiciar mais soluções de passe e capazes de tabelar com os colegas. É inegável, para quem viu o Sporting jogar nessa altura, que a equipa tenha melhorado significativamente de qualidade. Na altura, referimos a presença destes dois avançados como a principal das causas para a melhoria que se registou. Além de a qualidade ter melhorado em relação ao passado e de a equipa ter apresentado um futebol como já não apresentava há já cerca de dois anos, o Sporting venceu também todos os jogos, entre eles um desafio frente ao Braga. Desde que Liedson regressou, o Sporting soma 1 empate e 5 derrotas, entre elas duas humilhantes goleadas ante os rivais. Nada poderia ser mais conclusivo, de novo. Junte-se a isto o regresso à ausência de ideias, a esterilidade dos processos ofensivos e a má qualidade, em termos gerais, do futebol praticado. O que mudou foi que o Sporting deixou de ter na frente, entre os defesas, um jogador capaz de dar continuidade ao processo ofensivo e passou a ter um jogador que raramente consegue dar continuidade ao que quer que seja e que só é útil no último toque. Com isto, o Sporting passou a jogar pior. Passou a não conseguir entrar no último terço do terreno com a bola controlada, como o fazia com Postiga; passou a perder mais bolas quando tinha de a trocar em espaços mais reduzidos; passou a viver mais do acaso e do improviso. Sugeriu-se, na altura, que a melhoria do mês de Janeiro tinha a ver com os adversários que o Sporting tinha encontrado, com a chegada de João Pereira e até com a mecanização das ideias de Carvalhal. Nada disto é verdade. O Sporting voltou a perder com o Braga e já encontrou adversários acessíveis aos quais não conseguiu ganhar, João Pereira manteve-se na equipa e as ideias de Carvalhal não deixaram de estar mecanizadas de um momento para o outro. O que mudou foi que o avançado que agora joga é completamente diferente do anterior e é alguém que não permite o mesmo tipo de coisas que o anterior. Sem Postiga, o Sporting é menos competente ofensivamente, joga pior, tem menos capacidade para ter a bola e torna-se uma equipa mais frágil. Não há como não reconhecer isto. Pode ganhar um avançado que faz alguns golos, mas perde capacidade de construir jogadas para golo. Pouco interessa que Liedson faça muitos golos se, com ele, a equipa é mais fraca. Postiga poderia nunca mais marcar golos na vida. Desde que continuasse a ter a influência que tem na manobra ofensiva da equipa, o Sporting seria sempre melhor com ele do que com Liedson.

A Mentalidade

Há quem ache ainda que, sobretudo num avançado, não fazer golos implica uma perda de confiança que afecta o seu desempenho geral. Isto não é verdade, como o comprova o exemplo de Ibrahimovic. Sobre a importância da mentalidade num jogador de futebol falarei brevemente. Para já, queria concentrar-me nesta ideia, que não faz sentido nenhum. Um avançado que valha pelos golos pode, de facto, sentir-se afectado se fica muito tempo sem marcar golos. Com o tempo, a ansiedade de voltar a marcar pode ser um factor emocional negativo, na hora de atirar à baliza. Mas achar que a ansiedade de não marcar golos implica um desempenho geral negativo é ridícula. O jogador pode sentir ansiedade quando confrontado com uma situação de finalização, mas dificilmente isso prejudicará o resto do seu jogo se tiver consciência de que, no resto, as coisas lhe têm saído bem. Basta olhar para os casos de Postiga e de Ibrahimovic. Talvez tenham denotado alguma ansiedade na hora de finalizar - sobretudo Postiga - mas continuaram excelentes em tudo o resto. A razão é simples. Ambos percebem a importância do resto das suas acções e não misturam as coisas. Aliás, estou plenamente convencido de que a reacção de Postiga ao facto de não marcar golos há tanto tempo passa por uma tentativa de se concentrar ainda mais naquilo em que é mesmo bom e que pode controlar, a sua inteligência, a sua capacidade para tabelar, para encontrar rapidamente soluções de passe, para jogar de costas para a baliza. Um jogador como Postiga, que sabe que é bom em determinadas acções e que não tem tido a felicidade de marcar, reage tentando estar mais concentrado naquilo em que se sente mais confortável. Talvez também por isso, por estar tão concentrado e preocupado com outras coisas, esteja tantas vezes longe das zonas de finalização. Postiga, ao contrário do que se pensa, não é mentalmente fraco. Se o fosse, todo o seu jogo se teria ressentido. Isso não aconteceu. Postiga tem reagido mentalmente bem, tal como Ibrahimovic o fez durante este período.

Uma coisa que demonstra que esta teoria não está certa é o facto de Postiga praticamente não usufruir de oportunidades de golo. É verdade que, as que teve, não conseguiu aproveitar. Mas não é um avançado que usufrua de muitas. Significa isto que Postiga não se mexe bem dentro da área? Não. Mexe-se bem. O problema é que não está tantas vezes em posição de atacar convenientemente as zonas de finalização porque passa mais tempo preocupado com outras coisas. A ausência de golos não provoca um abaixamento da confiança do jogador, como se pensa. Provoca, isso sim, que o jogador procure melhorar naquilo em que sabe que é bom, de modo a compensar a ausência de golos. Ao fazê-lo, acaba por, consequentemente, ter ainda menos oportunidades para marcar golos. Isto funciona sempre assim, em grandes avançados, em avançados com uma personalidade forte como Postiga. Funcionou assim com Ibrahimovic, também. Esta questão da mentalidade, portanto, é mais uma falácia que não tem qualquer fundamento.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Os erros de Clichy

O Arsenal perdeu este fim-de-semana em casa com o Manchester United e terá dado um passo atrás na luta pelo título inglês. Reiterando uma vez mais o que dissemos em relação a outros deslizes nesta época, o Arsenal não foi de maneira nenhuma inferior ao seu adversário e as causas da derrota são muito mais individuais do que propriamente colectivas. Vou ser sincero. Se estivesse na pele de Wenger, tenho impressão que entrava em campo após o terceiro golo, pegava no Clichy por uma orelha e conduzia-o ao balneário. Depois, na segunda-feira, arranjava maneira de lhe pagar a indemnização devida e dispensava-o. Era capaz também de lhe dizer que era demasiado burro para jogar futebol. Clichy já fora o principal responsável pela derrota frente ao Manchester City, na primeira volta, mas desta vez superou todas as expectativas. Ter responsabilidades directas nos três golos do Manchester United é obra. Vamos aos lances.



No primeiro golo, destaque mais que evidente para o trabalho notável de Nani e para a parvoíce de Almunia, outro que não tem qualidade suficiente para um clube com as ambições do Arsenal. Há, no entanto, no início do lance, um posicionamento defeituoso que permite a Nani aquela brincadeira. Clichy, tendo ajuda de um colega, preocupa-se mais em evitar que Nani chegue à linha do que em fechar o meio. O resultado é o mais óbvio, quando do outro lado está alguém com a habilidade do português. O que Clichy deveria ter feito era dar um passo atrás, assegurando que o espaço entre si e o colega era impenetrável. Com isso, obrigaria Nani a ir para a linha e, nessa altura, poderia fechar e tentar evitar o cruzamento. Ao ignorar isto, posiciona-se mal e permite que Nani faça o que fez. Sem querer tirar mérito a Nani, a jogada acontece apenas porque Clichy não tem neurónios. Esta foi, no entanto, a jogada em que o erro foi menos grave. Fica a faltar o mais interessante.

O segundo golo do Manchester começa num canto a favor do Arsenal. Park consegue colocar a bola em Rooney, que era o jogador mais avançado do Manchester United, e Clichy, que só tinha atrás de si um colega e está a ver todo o lance de frente, encosta-se em Rooney. Quando o avançado inglês recebe e protege a bola, colocando-a junto à relva e começando a ter companheiros em quem soltar de frente, Clichy só tem uma coisa a fazer: falta. A partir do momento em que Rooney consegue dominar a bola, o contra-ataque torna-se uma possibilidade. Clichy, estando encostado a Rooney, só tem que parar a jogada em falta. Não há nada que saber. Uma vez mais, a irresponsabilidade do francês faz com que o Manchester consiga fazer o contra-ataque e o segundo golo torna-se assim possível. O melhor está, no entanto, guardado para o fim.

O terceiro golo, então, é algo que, por mais que se veja e reveja, não faz sentido e algo que faz pensar na possibilidade de o cérebro de Clichy ter ficado esquecido no balneário. Um alívio da defesa do Manchester que nem por isso foi bem feito origina, após uma má recepção de Denilson, um contra-ataque conduzido por Park. Clichy, que ficara para trás, é o último homem. Em vez de tentar travar o coreano, encurtando-lhe o espaço e obrigando-o a tomar uma decisão o quanto antes, Clichy recua estupidamente em direcção à sua baliza, talvez com medo de um eventual passe. Park não se fez rogado e foi por ali fora, finalizando à vontade. O engraçado da situação é que o Manchester, ao passar o meio-campo, não ficou com uma situação de um para um, mas com uma situação de um para zero, porque Clichy simplesmente se esqueceu que existia e que estava a jogar futebol. Um golo ridículo e uma derrota ridícula, causada por um jogador ridículo. Mais uma vez, o Arsenal acaba por perder um jogo por erros individuais de alguns dos seus atletas. Clichy já fora responsável na derrota com o Manchester City; Sagna foi-o contra o Chelsea; Traore foi-o no empate com o Everton. Com tantos erros individuais e com tantos jogadores sem categoria na retaguarda, o Arsenal está condenado a não conseguir os seus objectivos. O extraordinário futebol ofensivo que a equipa pratica, e que, mais uma vez, pôs em água a defesa do adversário, de nada serve quando se cometem tantos disparates. O Arsenal fica assim mais longe do título e, muito honestamente, apesar de admirar o futebol que pratica, só posso reconhecer que, dada a presença de certos jogadores na equipa, tem o que merece.

P.S. Outra coisa que fica evidente é que, ao contrário do que se pensa, um lateral é tão importante como outro jogador qualquer. Quando o mesmo é muito mau, toda a equipa se ressente. Tal como acontece com qualquer outro jogador. Aquela ideia de que se podem adaptar laterais a torto e a direito porque é uma posição de menor responsabilidade ou que joga a lateral aquele que não tem lugar noutra posição, pelas mesmas razões, não faz sentido. A responsabilidade é igual para todos, seja a posição qual for. Não deixa também de ser engraçado que um texto a deitar abaixo um lateral venha a lume no mesmo dia em que outro lateral, de seu nome Grimi, fez uma exibição absolutamente pavorosa. Só não foi pior que Liedson.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Lições de Mestre (1)

Eis que nasce uma nova rubrica neste espaço, dedicada a jogadas geniais. Tínhamos pensado nesta ideia há já algum e tínhamos já algumas jogadas na gaveta de modo a servir-lhe os propósitos. No entanto, visto que este fim-de-semana a jogada genial do segundo golo do Real Madrid não passou despercebida e visto que se tem comentado mais essa jogada num texto dedicado ao Porto do que propriamente os problemas que o texto em causa levanta, decidi antecipar a estreia e aqui vai o lance.



Depois de lançado por Kaká, num lance de contra-ataque em que a defesa do Deportivo da Corunha abre um buraco imenso - onde andas, Zé Castro? - Guti fica isolado perante o guarda-redes adversário. É então que o inesperado acontece, com o jogador do Real a lembrar-se de tocar a bola de calcanhar em vez de tentar a finalização. Atrás dele vinha Benzema, que ficou assim com a baliza escancarada, perante um central e um guarda-redes adversário completamente apanhados de surpresa. O toque de Guti não tem nada de irresponsável. Como é óbvio, Guti sabia que tinha um colega atrás de si. Poderia não saber quem era nem saber exactamente onde estava quando tentou o passe, mas sabia que tinha alguém atrás de si. Nunca, como chegou a ser sugerido, Guti tentaria aquilo se não soubesse tal coisa. No momento anterior a receber a bola, Guti ter-se-á certamente apercebido da posição dos colegas e só terá perdido o contacto com eles a partir do momento em que concentrou o olhar na bola para a receber. Daí que o toque de calcanhar não seja uma tentativa louca de fazer algo extravagante. Foi, isso sim, uma ideia genial baseada numa percepção correcta da posição e da movimentação lógica dos colegas. Se Guti tivesse deixado de ver Benzema a partir do momento em que passou por ele no meio-campo, jamais se lembraria de fazer o que fez.

A jogada é genial e, ao mesmo tempo, uma boa opção. Pode alegar-se que, numa situação de finalização clara, com apenas o guarda-redes pela frente, o avançado deve sempre tentar o golo. Discordo disto. Em todo o instante, a melhor opção é aquela que aumenta as probabilidades de êxito de uma jogada. Quando se está num dois para um com um guarda-redes, é sempre aconselhável transformar essa situação num um para zero, com o avançado a ficar com a baliza escancarada para finalizar. Do mesmo modo, se for possível, numa situação de um para um com o guarda-redes, transformar essa situação numa situação de um para zero, com um colega a ficar com a baliza aberta para finalizar, essa é sempre a melhor opção. Foi o que Guti fez. É verdade que poderia ter corrido mal, mas não é menos verdade que, ao correr bem, aumentou extraordinariamente as probabilidades de êxito. Ter pela frente apenas o guarda-redes é uma jogada de golo óbvia, mas mais óbvio ainda é não ter ninguém pela frente. O génio de Guti transformou uma jogada com algumas probabilidades de sucesso numa jogada de sucesso evidente. Com o seu gesto, não só o fez como deixou imediatamente batidos o guarda-redes e o defesa que o perseguia. A jogada é, portanto, brilhante, porque revela a inteligência e a capacidade de Guti para fazer do óbvio algo verdadeiramente inesperado. Isto não tem nada de irresponsável ou de mal jogado; é fantasia, imaginação, capacidade de improviso. Os grandes jogadores são aqueles que o conseguem fazer e aqueles que, ao fazê-lo, não estão apenas a tentar fazer algo ao acaso, algo de diferente apenas por capricho; fazem-no porque conseguem perceber as verdadeiras consequências do que estão a fazer. Isto não é apenas um número de circo; é um gesto que vale pela intenção. E a intenção é genial.

Rúben Micael, Belluschi, as Necessidades do Porto e um Eventual 442 Losango

Rúben Micael é tido, nos dias que correm, como um extraordinário médio-ofensivo. Cobiçado por equipas estrangeiras e por alguns dos grandes portugueses, e anunciada a sua chegada à selecção, o seu futuro parece prometedor. Não querendo esperar mais, o Porto abriu os cordões à bolsa e contratou o madeirense. Ao contrário da maioria da opinião pública, tenho algumas reservas quanto a Rúben Micael. Que é bom jogador, está fora de questão. Que é aquilo que todos dizem que ele é, já tenho mais dúvidas. Do que tenho a certeza é que Rúben Micael não tinha lugar nem no Sporting nem no Benfica e que não vem trazer ao Porto aquilo de que mais necessita a equipa de Jesualdo Ferreira.

Vamos por partes. Rúben Micael tem as características ideais para o modelo de Jesualdo. É um jogador que pensa e executa rápido e que, sem bola, é fortíssimo a procurar os espaços entre os defesas. Os seus movimentos verticais, a aparecer em zonas de finalização, fazem dele um médio-ofensivo bastante concretizador. Ao mesmo tempo, a bola nos seus pés não queima e o madeirense consegue encontrar com facilidade o seu próximo destino. Em termos de execução, é também suficientemente criterioso. Além disso, percebe com facilidade qual a melhor solução de passe. Depois de tantos elogios, parece quase absurdo voltar à ideia inicial de que Rúben Micael não vem trazer ao Porto aquilo de que a equipa mais precisa. Mas é exactamente isso que pretendo fazer. Apesar de todas as valências, Rúben Micael não é um jogador criativo, não tem imaginação assaz relevante e, constrangido, isto é, quando tem poucas soluções de passe, raramente descobre ou inventa algo de diferente. Não é, também, tecnicamente extraordinário, pelo que é pouco capaz de se desembaraçar sozinho em situações complicadas. O seu futebol é simples, geométrico, veloz. É uma mais-valia em transição, porque há espaço e várias soluções de passe, mas não é um jogador capaz de conferir ao Porto aquilo de que mais necessita o seu sistema, ou seja, de imaginação, criatividade, invenção. É um jogador inteligente, é certo, correcto e criterioso no passe, mas pouco espontâneo, pouco capaz de executar com perfeição em espaços curtos. É um jogador que precisa de espaço e, sobretudo, que precisa que haja espaço para onde endereçar a bola. No Nacional, que actuava preferencialmente em transição, tinha o seu habitat predilecto. O Porto de Jesualdo também potencia as situações de transição e Rúben Micael pode ser influente nesse tipo de jogo. Mas aquilo de que a equipa de Jesualdo Ferreira mais necessita é de jogadores capazes de pensar de maneira diferente, irreverentes em termos de raciocínio, jogadores que fabriquem espaços e não apenas os que sabem aproveitá-los. Rúben Micael é dos médios-ofensivos portugueses que melhor aproveita os espaços existentes, mas não os fabrica. Em espaços curtos, não é um jogador para inventar soluções de passe, para imaginar coisas extravagantes. Contra equipas que optem por baixar o bloco, Rúben Micael não é especialmente útil. Contra essas equipas, seria bem mais interessante um jogador que, além de tecnicamente mais evoluído, soubesse explorar melhor as tabelas e que soubesse interpretar melhor os poucos espaços que há.

Há um jogador no actual plantel do Porto que o sabe: Belluschi. O argentino é o único jogador verdadeiramente criativo ao dispor de Jesualdo e não goza de muito apreço. Aliás, com Rúben Micael, desconfio que o argentino passará bastante mais tempo no banco. Isto apesar de ser francamente superior ao jogador madeirense. O problema é que Belluschi é essencialmente forte em espaços curtos e o que tem de melhor para oferecer à equipa é precisamente aquilo que esta, assente num modelo específico, mais negligencia. O Porto de Jesualdo sente-se melhor em transição ou em ataques rápidos e raramente procura circular a bola de forma lateralizada. O excesso de verticalidade do próprio modelo faz com que a equipa passe menos tempo com a posse de bola contra um adversário arrumado defensivamente. Como tal, jogadores que se podem distinguir precisamente quando os espaços são mais curtos e quando é necessário ser mais veloz a pensar e ser capaz de imaginar coisas diferentes têm menos preponderância. O modelo de Jesualdo privilegia o músculo, a velocidade de execução e a verticalidade. Belluschi, nessas condições, é um jogador banal. Se o Porto fosse uma equipa mais competente com bola, uma equipa em que fosse requerida maior elaboração ofensiva, Belluschi não teria rival à sua altura.

As necessidades do Porto, ao contrário do que se pensará, são necessidades inerentes ao modelo. O que está mal não são os intérpretes do modelo, mas o próprio modelo; as carências da equipa são colectivas e não individuais. Rúben Micael, por isso, não vem trazer nada de novo. É só mais um intérprete, capaz de corresponder às necessidades que o modelo de Jesualdo exige, mas incapaz de corresponder às verdadeiras necessidades da equipa. O que Lucho e Lisandro davam ao modelo de Jesualdo não era uma melhor interpretação; a sua contribuição ia para lá do modelo. A presença dos argentinos mascarava, isso sim, as carências do modelo. Com Lucho e Lisandro, o Porto não era apenas uma equipa rectilínea, capaz de responder a cada momento do jogo de uma forma mecânica. Com eles, o Porto possuía alguma criatividade, alguma invenção, alguma diferença. Belluschi é o único que pode contribuir com esse tipo de coisas. Penso, portanto, que a aquisição de Rúben Micael não vem trazer nada de novo e que a monotonia do futebol dos campeões nacionais tem tendência a perpetuar-se até final da temporada.

Há, para além disto, apenas uma outra coisa importante a reter: a possibilidade do 442 losango. Jesualdo experimentou essa hipótese nos minutos finais do desafio frente ao Nacional, com Mariano e Belluschi a posicionarem-se como médios interiores e Rúben Micael como médio-ofensivo. É uma hipótese interessante e a única, em meu entender, que poderá facilitar a coabitação de Belluschi e Rúben Micael. Com Raúl Meireles de regresso ao meio-campo, só neste sistema acredito que Jesualdo possa usar estes dois jogadores em simultâneo. Será, talvez, uma boa solução para o seu Porto, mantendo a criatividade de Belluschi e os movimentos verticais e a simplicidade de Rúben Micael. Mas não creio que Jesualdo recorra a este esquema senão de modo esporádico. Primeiro, porque não corresponde àquilo que idealiza; depois porque isso implicaria que os extremos ao dispor de Jesualdo teriam um papel pouco significativo neste desenho. Com a eventual chegada de Kléber, o 442 losango poderá até servir para fazer coabitar no ataque o brasileiro e Falcao. Mas Hulk, Varela e Rodriguez teriam certamente menos destaque. E não me parece, tendo em conta aquilo que, para Jesualdo, significam este tipo de jogadores, que isso venha a acontecer. O teste do 442 losango não terá passado, por isso mesmo, de um teste. E a hipótese de Belluschi e Rúben Micael jogarem juntos será, certamente, apenas uma hipótese remota.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As Teorias de João Rosado e mais um Disparate de David Luiz

É, para mim, sempre reconfortante assistir a jogos na televisão quando comentados por João Rosado. E é-o porque a estupidez continua a ter aquele lado cómico que me encanta. Haverá certamente comentadores desportivos mais irritantes que ele, mas confesso que há qualquer coisa de esquisito nas teorias de João Rosado que me fascina. É, muito provavelmente, o comentador desportivo no activo mais palerma, não sendo porém dos mais mediáticos. João Rosado já aqui foi alvo de alguma chacota e ontem, durante o jogo que opôs o Rio Ave ao Benfica, conseguiu não só superar-se a si mesmo como também repetir uma teoria atoleimada que já antes nos arrancara ruidosas gargalhadas.

A primeira das duas teorias que fazem de João Rosado um autêntico comediante é, portanto, uma repetição, o que, possivelmente, ainda é mais grave. Quando, dentro da área, Cardozo tentou jogar em Aimar e a bola embateu no braço de Gaspar, João Rosado teve a infelicidade de se mostrar convicto de que o paraguaio levantara a bola de propósito para que esta tocasse no braço do adversário. Claro que o fez. Entre dois adversários, estando preocupado em proteger a bola e em encontrar os companheiros a quem iria passar, Cardozo ainda arranjou tempo para pensar na possibilidade que tinha diante de si: ganhar um penalty fazendo a bola tocar num braço adversário. Está certo... João Rosado nunca jogou à bola. Ou então é mentecapto. É que qualquer palerma que já tenha jogado à bola sabe perfeitamente que enviar uma bola contra um braço não é propriamente algo fácil de fazer. Além disso, tendo tanto em que pensar e tendo que o fazer rapidamente, é estúpido imaginar que alguma vez isso passe pela cabeça de um jogador. O mais extraordinário, como disse, é que João Rosado já tinha expressado esta teoria noutra ocasião. Quanto a mim, João Rosado está convencido de que, entre outras coisas, há jogadores que, quando entram na área adversária, em vez de estarem a pensar em marcar golo, em fintar ou em assistir um colega, estão preocupados em tentar mostrar que são peritos a chutar bolas contra braços. Pessoas que estão convencidas deste tipo de coisas são parvas. João Rosado é parvo. Curiosamente, as qualidades "ser parvo" e "ser jornalista desportivo" parecem andar muitas vezes juntas.

Mas João Rosado não se ficou por aqui. Como se não bastasse, passou o jogo a insinuar qualquer coisa que não entendi muito bem. Quando o outro comentador do desafio sugeriu que Aimar estava a passar um pouco ao lado do jogo, João Rosado expressou, bem contente, um "Como é hábito!". Mais tarde, desenvolveu um pouco melhor a teoria e deixou no ar a ideia de que era costume Aimar estar ausente da partida. Para João Rosado, Aimar tem jogado constantemente mal, tem sido incapaz de se impor, perde muitas bolas. Para mim, João Rosado tem-se esquecido constantemente dos medicamentos, tem sido incapaz de se manter mentalmente saudável e perde muitas oportunidades para estar calado. Ou isso ou esteve fora do país durante os últimos seis meses. Ao longo de toda a partida, João Rosado procurou justificar a sua opinião sobre Aimar com o jogo menos brilhante do argentino. O problema, aqui, é que a opinião de João Rosado não faz sentido. Dizer o que quer que seja de negativo em relação a Aimar, depois do que o argentino tem feito, é estúpido. Procurar sustentar a teoria de que Aimar é habitualmente um jogador a menos na equipa não merece, sequer, que se lhe conceda espaço para argumentos. Pessoas com opiniões ridículas são tontinhos. E aos tontinhos deve-se apenas dar-lhes um bocado de plasticina e mudar-lhe a fralda de vez em quando. Mais nada. João Rosado, como tantos outros por aí, tem um canudo que diz que pode exercer jornalismo, tem amigos que o deixam dizer quantidades assustadoras de porcaria na televisão, e até tem a sorte de nunca lhe ter caído um relâmpago em casa, coisa que deveria acontecer a todos os seres humanos com um Q.I. inferior ao de um rinoceronte africano médio. O que não tem é competência para fazer o que faz.


Tempo agora para o disparate do desafio. Como é que é possível alguém continuar a aplaudir um jogador que, jogo após jogo, continua a insistir em fazer disparates em campo? Depois de se colocar mal no lance, permitindo que a bola entre em Tarantini, David Luiz vai atrás do médio do Rio Ave e, em plena grande área, arrisca um carrinho por trás do adversário? Nem está em causa se toca na bola ou não. Atropelando-o, só por azar é que não tocaria naquela bola. Agora, aquilo é sempre penalty, em qualquer parte do planeta. E a entrada é a roçar o vermelho. David Luiz nunca pode entrar a uma bola daquela maneira estando por trás do adversário, porque vai sempre derrubá-lo. Já contra o Nacional havia protagonizado um lance semelhante, embora esse, escandalosamente, não tivesse sido assinalado. Para atacar uma bola daquelas de carrinho, tem de fazê-lo estando minimamente de lado, de modo a que o seu movimento para chegar à bola não perturbe a acção do adversário. Por trás, é natural que, antes de chegar à bola, toque de alguma maneira no adversário. A única coisa que David Luiz poderia ter feito, naquele lance, depois de deixar fugir Tarantini, era correr ao lado dele e enviar-se de carrinho para a frente do jogador do Rio Ave, com o pé em posição de interceptar o remate. A opção pelo desarme, nas condições em que se encontrava, ou seja, atrás de Tarantini, foi por isso a pior possível. Dentro da área, então, uma burrice do tamanho do mundo. Mais um disparate e mais uma evidência do pouco crescimento intelectual de David Luiz, nos últimos meses.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Rosto de Liedson agride com Cabeçada o Punho de Sá Pinto!

Agora a sério, o Entre Dez agradece a atenção do ex-jogador, mas rejeita quaisquer responsabilidades...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ficar em contenção

Dois lances, dois golos, duas abordagens diferentes. Os lances em questão dizem respeito aos dois golos sofridos pelo Sporting este fim-de-semana. Apesar de o desfecho de cada um dos lances ter sido igual (golo sofrido), a verdade é que as abordagens defensivas foram diferentes, tendo uma delas sido correcta e a outra não. As jogadas são relativamente parecidas, embora ocorram em flancos opostos, e é por isso que é possível compará-las. Um avançado adversário tem a bola junto à linha e um defesa sai-lhe ao encalço. A missão do defesa, neste tipo de lances, é impedir que o avançado consiga progredir e evitar o mais que puder que se aproxime da sua baliza. Só. Não tem por missão fazer um corte, roubar a bola, parar a jogada. O único objectivo que a sua presença deve ter é a de criar um obstáculo e obrigar o avançado a ter de tomar uma opção. Ainda por cima, em situações como as duas em questão, em que as coberturas não estão imediatamente garantidas, é altamente irresponsável o defesa pensar noutra coisa que não em ficar em contenção. Ir à queima e procurar ganhar o lance tem o risco de, caso o perca, permitir que o avançado se aproxime da sua baliza, uma vez que não tem colegas por perto para o ajudar.



Ora, no primeiro golo do Nacional, Daniel Carriço toma precisamente a melhor das opções, saindo ao avançado madeirense, mas ficando em contenção, não correndo o risco de ser ultrapassado. Ao fazê-lo, deu a iniciativa ao adversário, o que se recomenda, em casos como este. A partir desse momento, o avançado pode ir para o drible, pode jogar para trás, ou pode tirar um cruzamento pouco perigoso, uma vez que não é feito da linha de fundo e a defesa está de frente para o lance. Qualquer das opções é preferível a tentar o corte, opção que acarretaria o risco de, caso não fosse bem sucedida, permitir que o avançado levasse a bola mais para perto da baliza e, aí sim, causar estragos irreparáveis. Como o atacante não tinha a possibilidade de soltar a bola num colega, o defesa não tem que ir direito a ele para ganhar a jogada a qualquer custo. Como a situação é de um para um e nem o atacante tem apoios próximos nem o defesa tem atrás de si a cobertura que lhe permita o risco de tentar ganhar a jogada, o melhor a fazer é parar à frente dele. Ao parar à frente do adversário, Carriço dá-lhe a iniciativa. Isto não só faz com que fique preparado para aquilo que o atacante vai fazer, como dá tempo aos colegas para se reorganizarem. Carriço adopta a postura correcta, não procurando ganhar o lance e obrigando o avançado a definir a jogada. Se, por acaso, a opção tivesse sido o drible, o defesa tem sempre mais probabilidades de ganhar duelos no um para um quando deixa ser o adversário a iniciar o drible, porque está preparado para essa eventualidade. Tendo sido a opção o cruzamento, não é propriamente algo que constitua perigo imediato, tendo em conta que a defesa está de frente para o lance. O facto de o lance ter dado golo não pode servir de justificação contra isto. Não só era muito improvável que, naquelas condições, acontecesse um golo, como a probabilidade de ele acontecer aumentaria muito se a postura de Carriço tivesse sido outra. Apesar do golo sofrido, o central do Sporting esteve, por isso, muito bem.



No segundo golo do Nacional, a história é outra. O lance é muito semelhante, mas acontece no flanco contrário e, em vez de Daniel Carriço, é João Pereira quem sai ao adversário. Ao contrário do colega que interveio no primeiro lance, João Pereira ignora por completo o facto de não ter cobertura nas costas e vai ao lance para ganhá-lo. Em vez de ficar em contenção, esperando pela iniciativa do adversário, ataca a bola. Ao fazê-lo, deixa parte do desfecho do lance entregue ao acaso e acaba por perdê-lo. Isso permite que o adversário se acerque da baliza e que cruze numa zona muito mais perigosa. As consequências, apesar de serem as mesmas que no lance anterior, podiam facilmente ter sido evitadas se João Pereira tivesse tomado a melhor opção, que passaria por ficar em contenção e obrigar o adversário a optar pelo drible ou a cruzar bem de longe. João Pereira teve um comportamento, portanto, incorrecto, potenciando a jogada de perigo adversária. Ao contrário, portanto, de Daniel Carriço, no primeiro lance, é o principal responsável pelo golo sofrido.

Estes dois comportamentos antagónicos ilustram, com exactidão, aquilo que se pode esperar dos dois intervenientes em termos de interpretação dos lances. Daniel Carriço é um jogador sóbrio, com escola, que entende as necessidades de cada lance. O seu comportamento é, por isso, invariavelmente condizente com aquilo que a jogada requer dele. Já João Pereira é um jogador impetuoso, que vale pelos seus atributos físicos e técnicos, pela velocidade de reacção e pela agressividade. Em lances defensivos, a sua interpretação é quase sempre a mesma: atacar a bola, sejam as condições quais forem. João Pereira está, por isso, muito mais susceptível ao erro. Não tendo propriamente concorrente à altura para a sua posição na equipa comandada por Carlos Carvalhal, não deixa de ser, por isso, um jogador cujo comportamento, em alguns aspectos do jogo, não é o melhor, e um jogador que não tem tanta qualidade quanto a que lhe querem conferir. Muito se tem falado, nos últimos dias, da qualidade que João Pereira veio trazer à equipa. Acredito que veio trazer presença no ataque ao seu flanco e agressividade ao mesmo, mas pouco mais. Este é apenas um exemplo daquilo que faz de João Pereira um jogador menos correcto do que o têm feito. Mais coisas virão, certamente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Certezas (17)

Pequeno, ágil e tecnicista. É no cérebro, porém, que moram as principais virtudes deste jovem jogador. Desde a pré-época que me pareceu o jovem mais habilitado a servir as necessidades do plantel principal da sua equipa, embora outros nomes fossem bem mais falados. Irmão de outro jogador cuja reputação supera a sua real qualidade, e que não vingou, até agora, no mundo do futebol, apesar de todos os prognósticos, este jovem é das maiores esperanças do seu país e já foi mesmo chamado à principal selecção do mesmo. A velocidade a que pensa e a perfeição técnica fizeram com que lhe predissesse o futuro que agora parece começar a raiar. A sua criatividade faz com que deva ser aproveitado em posições ofensivas, mas o seu jogo cerebral, a capacidade de jogar ao primeiro toque e a grande visão de jogo que possui não podem fazer dele senão um médio de ataque. Está na calha para ficar, para já, na sombra de Xavi e de Iniesta, mas é o melhor jovem que o Barcelona tem para aquela posição. O futebol curto dos catalães precisa, para aquela posição em particular, de jogadores que o saibam interpretar bem, jogadores imaginativos, inteligentes, com uma capacidade técnica acima da média, e que ponham as suas qualidades ao serviço do colectivo, pensando e executando rápido. Este miúdo tem tudo isso. Faltar-lhe-á, ainda, a confiança dos graúdos ao lado de quem joga, mas o resto já lá está. Será, pois, uma questão de tempo para que comece a dar, realmente, nas vistas. Quando se fala na possibilidade de Cesc Fabregas voltar a Camp Nou, pergunto-me que tipo de meio-campo pode o Barcelona constituir em anos vindouros com jogadores como Fabregas, Xavi, Iniesta, Busquets e este jovem prodígio. Tal como Bojan Krkic, o tamanho é inversamente proporcional ao seu talento e, tal como o sérvio-espanhol, é das maiores pérolas que os catalães possuem. O futuro é dos pequeninos e a Jonathan dos Santos antevejo um bem promissor...

domingo, 10 de janeiro de 2010

O que fazer?

O Arsenal empatou esta tarde em casa frente ao Everton e esteve mesmo a ponto de perder o desafio, não fosse o golo marcado já em período de descontos por Rosicky. O que me traz aqui, porém, não é o jogo em si, mas aquilo que permitiu, de certo modo, o desfecho negativo para os homens de Wenger. Falo do segundo golo, um lance de contra-ataque que Pienaar concluiu com categoria e que, para muitos exemplifica um contra-ataque bem gizado. A apreciação que faço do lance é, todavia, bem diferente. E explica, de certo modo, não só este resultado mas também a frequência com que os deslizem acontecem a este Arsenal. Já frente ao Chelsea tinha identificado os erros individuais de Sagna como as principais causas do mau resultado e já contra o Manchester City a derrota pode bem ser explicada por vários erros de Clichy. Agora foi a vez de Traore, um jogador veloz e que até cruza bem, mas cujas deficiências a nível posicional e de interpretação dos lances fazem dele uma constante ameaça à sua própria equipa. O lance do golo encontra-se já a seguir; a análise ao mesmo logo abaixo.



Após um canto do Arsenal, o Everton recupera a bola e fá-la chegar ao seu homem mais adiantado - creio que Bilyaletdinov - e Traore é o último homem. Nasri vem a recuar para compensar e Pienaar aparece apenas atrás de Nasri. Tendo Nasri feito a aproximação a Bilyaletdinov, Traore não tem que ir cair em cima do russo. Sendo o último homem, não pode ir obstruir a passagem ao russo sem esperar por reforços. Mas foi o que fez. Ao ir direito ao jogador do Everton, desguarneceu a zona central do terreno e permitiu que a bola aí entrasse depois. Naquela situação, recomendava-se uma de duas coisas: 1) ou fazer contenção, procurando que Bilyaletdinov avançasse com a bola, de preferência obrigando-o a derivar ligeiramente para a linha, e esperando que os restantes jogadores do Arsenal recuperassem posições para, aí sim, poder atacar o portador da bola; 2) ou então, se é para ir direito ao russo, que fosse para fazer falta ou para recuperar a bola a qualquer custo. Traore nem ficou em contenção, nem foi morder os calcanhares ao russo ou impedi-lo de soltar a bola. Naquela situação, sendo o último homem, se decide atacar o portador da bola, tem de, pelo menos, impedi-lo de passá-la. Mas Traore foi só para cima do russo, ficando a um metro dele, à espera do que ele ia fazer para reagir a isso. Esperava, certamente, que este arrancasse individualmente, para depois persegui-lo, não antecipando a possibilidade de ele passar a bola a um colega. Ao preocupar-se apenas com o russo, não antecipou as possibilidades que o russo teria depois de receber a bola. Conclusão: uma cratera enorme a facilitar a entrada de Pienaar, que conclui sem oposição, e o Arsenal em desvantagem, outra vez por causa da infantilidade de alguns dos seus jogadores.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sergio Busquets e o 343 de Guardiola

Busquets apareceu numa altura em que, por azar, ainda o Entre Dez não se preocupava em escrever sobre jovens talentos que não os portugueses. Se assim não fosse, teria certamente constado de entre os vários jogadores já avaliados na rubrica "Certezas". Desde os primeiros jogos que nos pareceu ser um jogador de qualidade inegável e alguém que, mais tarde ou mais cedo, se iria impor na alta roda do futebol europeu. Confesso que a minha referência actual como médio-defensivo, aquele jogador que me encanta como me encantaram Redondo, Guardiola e Paulo Sousa, por exemplo, não faz sequer parte dos principais planos da sua equipa, sendo o terceiro médio-defensivo do seu plantel. Falo de Gago. Não estando a jogar, é difícil prever a sua evolução e não sei que jogador será daqui a uns anos. Como tal, a referência volta a ser Andrea Pirlo. O que tem o jovem catalão, então, a ver com Pirlo? O facto de ser aquele que, no futuro, me parece ter melhores condições para seguir o legado do italiano, tendo em conta que Gago permanece ignorado em Madrid.

O futebol de Busquets começou por ser correcto e simples. As suas decisões, não raro as melhores, eram a sua imagem de marca. Não inventava, não complicava; tudo o que saía dos seus pés era simples. A matemática exacta do seu jogo, não sendo este muito extravagante, muito imaginativo, de levantar estádios, sustentava-se por si mesma. Para a posição que ocupava em campo, era, mais do que suficiente, aconselhável. Um médio-defensivo deve ser um jogador de toque curto, de apoios, um jogador que consiga municiar os médios mais criativos sem comprometer, que consiga fazer fluir o jogo atacante o mais rapidamente possível, embora sem se precipitar. Busquets fazia isto tudo e a equipa agradecia. Dificilmente poderia fazer mais. E já a época passada defendíamos que, apesar da sua imaturidade, tornava o futebol do Barcelona mais inteligente do que quando no seu lugar se apresentava Yaya Touré. Volvida que está a primeira volta do campeonato espanhol, Busquets apresenta-se como primeira opção para Guardiola, tendo relegado para o banco de suplentes o costa-marfinense. Mas o catalão não se ficou por aqui. A sua tenra idade permite que continue a evoluir. E à magia da simplicidade de processos, aos pezinhos de lã com que joga, juntou agora a classe e os números dos predestinados. Têm sido habituais, para quem tem visto os jogos do Barcelona, algumas ousadias de Busquets, toques de calcanhar, fintas em zonas complicadas, números artísticos colectivamente eficazes. E tudo isto sem sacrificar a eficácia e a qualidade das suas decisões. O menino certinho, bem comportado, parece ter dado lugar ao adulto emancipado, com um autodomínio assinalável e competências antes ignoradas.



Tomei a liberdade de resgatar o vídeo acima do extraordinário blogue Paradigma Guardiola. É composto de várias intervenções de Busquets no último jogo do Barcelona para o campeonato, frente ao Villareal, sendo que algumas dessas intervenções corroboram o que acima foi dito. A qualidade de Busquets com bola e a sua evolução em termos mentais terá mesmo permitido a Guardiola utilizá-lo de um modo que, antes, não acreditava ser possível. Guardiola preparou a equipa, no início desta época, para jogar em 343 sempre que isso fosse recomendável. Com efeito, quando com 4 defesas, o Barcelona, para sair a jogar, faz subir muitíssimo os laterais e abre os centrais. A bola sai então num dos centrais, que deve dar início ao processo ofensivo. Acontece, porém, que equipas que pressionem muito alto e com dois avançados podem constranger esta estratégia usando cada um dos avançados para pressionar os dois centrais catalães. Prevendo essa situação e para não abdicar de sair a jogar desde a defesa, Guardiola projectou a equipa para se estender no campo em 343 quando a bola está no seu guarda-redes. Assim, sempre que se justificasse, o médio-defensivo baixava, ocupando o centro da defesa que estaria vago pela abertura dos centrais, e os laterais subiriam para a linha dos dois médios-ofensivos. No início da época, vimos o Barcelona optar por esta estratégia várias vezes, mas sempre com Yaya Touré. Talvez porque isso não era treinado com Busquets, sempre que o médio catalão jogava, o Barcelona não optava por este método, mesmo quando o mesmo se justificava. Com o Villareal, contudo, várias foram as vezes que Busquets baixou para a linha dos centrais, de modo a ocupar um espaço livre, dada a pressão altíssima protagonizada pelos avançados adversários. Acredito que a inclusão de Busquets nesta estratégia não tem apenas a ver com o facto de o jovem parecer ter agarrado a posição, mas sobretudo com o facto de ter já maturidade suficiente para que não seja um risco entregar-lhe a bola sendo o último homem.

Posto isto, falta falar da utilidade do 343 de Guardiola e de como o Barcelona, mesmo utilizando essa estratégia, acabou por não se conseguir soltar das amarras da pressão da equipa de Ernesto Valverde. Creio que a estratégia é especialmente útil para facilitar ao Barcelona a saída de bola, sempre que pressionado em cima. Baixando o médio-defensivo, cria uma situação de superioridade numérica e pode começar a construir sem ter de recorrer a passes mais longos. Importa, por isso, que depois dessa primeira fase o médio-defensivo reocupe o seu lugar natural, aproximando-se dos médios-ofensivos para lhe dar os devidos apoios. O jogo contra o Villareal, porém, não é exemplo. O jogo não correu bem aos catalães por várias razões. Em primeiro lugar, falharam-se muitos passes, alguns deles em zonas complicadas. Isso fez com que a equipa não tivesse tanta bola e, sobretudo, que se intranquilizasse. Fora isso, seria plausível que uma equipa como o Barcelona, fazendo uso da estratégia do 343, conseguisse anular a pressão alta do adversário e fosse capaz de sair a jogar, de pé para pé, de forma faseada, sem saltar etapas. No entanto, o Barcelona poucas vezes o conseguiu fazer. A forma como o Villareal pressionava nem sequer era exemplar, muito focada nas individualidades. Em 442 clássico, os dois avançados atacavam os dois centrais do Barcelona, os alas fixavam-se nos laterais e os médios nos dois médios-ofensivos do Barça. Às vezes, quando Busquets baixava, um dos médios saía para pressioná-lo. Nestas alturas, o médio do Barça que ficava solto deveria ter aproveitado para procurar receber a bola. Creio que faltou, acima de tudo, maior movimentação dos dois médios-ofensivos e essencialmente a passagem da primeira fase de construção à segunda. Não conseguindo ligar os defesas e Busquets aos médios-ofensivos, o Barça foi recorrendo cada vez mais aos lançamentos longos para Ibrahimovic, acabando por não conseguir permanecer com a posse de bola, como tanto gosta. Concedendo maior mobilidade aos médios-ofensivos quando a equipa tinha a bola na defesa ou em Busquets, o Barcelona teria certamente desamurrado as marcações e criado buracos importantes no meio-campo. Por exemplo, poderia ter sido estratégia obrigar Xavi, que era quem estava mais policiado, a movimentar-se, sem bola, numa diagonal para a ala esquerda, por exemplo. Levaria, pelo menos momentaneamente, o seu adversário com ele, o que daria espaço, por exemplo, para Ibrahimovic baixar e receber de costas para a baliza, e servir de apoio vertical. As solicitações para o sueco seriam assim pelo chão e mais curtas, facilitando-lhe a vida. Entrando a bola em Ibrahimovic, estaria feita a ponte da primeira para a segunda fase de construção. Depois disto, fazia sentido o sueco jogar de frente com Jonathan dos Santos ou obrigar Pedro a aproximar-se de Ibrahimovic para que ele lhe desse a bola.

Estas são apenas algumas possibilidades estratégicas que teriam sido proveitosas para desbloquear aquele que me pareceu o principal problema do Barça no desafio, a capacidade de fazer a bola entrar em condições jogáveis na zona intermediária do adversário. O papel de Busquets, nessa manobra, como já o disse, foi importante. Mas mais importante ainda é o Barcelona saber que pode contar com ele para este tipo de soluções. O seu crescimento está à vista e a sua qualidade parece cada vez mais. Para terminar com chave-de-ouro, arrisco-me a dizer que será um dos grandes nomes deste desporto durante a próxima década.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dois Avançados com Escola

A jogada é a do primeiro golo do Sporting frente ao Braga, ontem, e a razão pela qual a trago a lume prende-se com o desenho da mesma. Após o golo, os comentadores enalteceram a jogada e a assistência de Grimi, assim como a finalização de Saleiro. Esqueceram-se, porque é assim que vêem futebol, da principal causa do golo, daquilo que, de facto, teve maiores responsabilidades na construção da oportunidade de golo. A execução do remate de Saleiro e a execução do passe de Grimi não são coisas extraordinárias e têm pouco a ver com as razões pelas quais o Sporting chegou ao golo. A principal causa do desfecho da jogada é o movimento, sem bola, dos dois atacantes leoninos, sobretudo o movimento de Postiga, por ter sido aquele que soltou Saleiro.



Este lance é especialmente útil para várias coisas. Em primeiro lugar, para demonstrar como, sem tocar na bola, alguém pode ser o principal responsável por um golo. O movimento de Postiga é óptimo, trocando posicionalmente com Saleiro na altura exacta, ou seja, quando Grimi conduzia a bola e ia ter de decidir para quem enviá-la. Ao movimentar-se como se movimentou, arrastou o central que tinha mais perto de si e abriu um espaço entre esse central e o lateral que o movimento de Saleiro acabou por aproveitar. Sem o movimento de Postiga, nunca este golo tinha sido possibilitado. Em segundo lugar, para demonstrar como a referência do homem pode ser nociva para quem defende, mesmo que em zonas próximas da área. Ter-se preocupado com Postiga fez com que André Leone se movimentasse para cima do seu colega de sector, Moisés, abrindo um espaço entre si e Evaldo que foi aproveitado por outro jogador do Sporting. Se Leone estivesse preocupado com as referências certas, com a posição da bola, com a posição dos colegas e com a baliza, deveria ter permanecido na sua posição, mantendo a linha de quatro e o espaço interior protegido, e nunca Saleiro gozaria do espaço que gozou. Assim, a par do movimento de Postiga, o erro de Leone pesou na obtenção do golo do Sporting. Em terceiro lugar, para relembrar a importância da inteligência e da "escola" num jogador de futebol. Um lance aparentemente inofensivo é transformado, com um só passe, numa ocasião de golo. Isto só foi possível por causa da movimentação de Postiga e Saleiro, algo que se aprende na formação e que constitui uma movimentação canónica em lances de 3 para 2. Jamais o Sporting obteria este golo sendo um dos dois avançados alguém sem escola, alguém que jamais corresponderia à diagonal de Saleiro com uma diagonal no sentido inverso, alguém que não compreende que pode soltar um colega meramente através da sua movimentação. É por causa deste tipo de lances e das possibilidades que se abrem à equipa tendo este tipo de jogadores no ataque em detrimento de jogadores que não possibilitam este tipo de coisas que é com este tipo de jogadores e não com o outro tipo que o Sporting é mais equipa.