segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

As Teorias de João Rosado e mais um Disparate de David Luiz

É, para mim, sempre reconfortante assistir a jogos na televisão quando comentados por João Rosado. E é-o porque a estupidez continua a ter aquele lado cómico que me encanta. Haverá certamente comentadores desportivos mais irritantes que ele, mas confesso que há qualquer coisa de esquisito nas teorias de João Rosado que me fascina. É, muito provavelmente, o comentador desportivo no activo mais palerma, não sendo porém dos mais mediáticos. João Rosado já aqui foi alvo de alguma chacota e ontem, durante o jogo que opôs o Rio Ave ao Benfica, conseguiu não só superar-se a si mesmo como também repetir uma teoria atoleimada que já antes nos arrancara ruidosas gargalhadas.

A primeira das duas teorias que fazem de João Rosado um autêntico comediante é, portanto, uma repetição, o que, possivelmente, ainda é mais grave. Quando, dentro da área, Cardozo tentou jogar em Aimar e a bola embateu no braço de Gaspar, João Rosado teve a infelicidade de se mostrar convicto de que o paraguaio levantara a bola de propósito para que esta tocasse no braço do adversário. Claro que o fez. Entre dois adversários, estando preocupado em proteger a bola e em encontrar os companheiros a quem iria passar, Cardozo ainda arranjou tempo para pensar na possibilidade que tinha diante de si: ganhar um penalty fazendo a bola tocar num braço adversário. Está certo... João Rosado nunca jogou à bola. Ou então é mentecapto. É que qualquer palerma que já tenha jogado à bola sabe perfeitamente que enviar uma bola contra um braço não é propriamente algo fácil de fazer. Além disso, tendo tanto em que pensar e tendo que o fazer rapidamente, é estúpido imaginar que alguma vez isso passe pela cabeça de um jogador. O mais extraordinário, como disse, é que João Rosado já tinha expressado esta teoria noutra ocasião. Quanto a mim, João Rosado está convencido de que, entre outras coisas, há jogadores que, quando entram na área adversária, em vez de estarem a pensar em marcar golo, em fintar ou em assistir um colega, estão preocupados em tentar mostrar que são peritos a chutar bolas contra braços. Pessoas que estão convencidas deste tipo de coisas são parvas. João Rosado é parvo. Curiosamente, as qualidades "ser parvo" e "ser jornalista desportivo" parecem andar muitas vezes juntas.

Mas João Rosado não se ficou por aqui. Como se não bastasse, passou o jogo a insinuar qualquer coisa que não entendi muito bem. Quando o outro comentador do desafio sugeriu que Aimar estava a passar um pouco ao lado do jogo, João Rosado expressou, bem contente, um "Como é hábito!". Mais tarde, desenvolveu um pouco melhor a teoria e deixou no ar a ideia de que era costume Aimar estar ausente da partida. Para João Rosado, Aimar tem jogado constantemente mal, tem sido incapaz de se impor, perde muitas bolas. Para mim, João Rosado tem-se esquecido constantemente dos medicamentos, tem sido incapaz de se manter mentalmente saudável e perde muitas oportunidades para estar calado. Ou isso ou esteve fora do país durante os últimos seis meses. Ao longo de toda a partida, João Rosado procurou justificar a sua opinião sobre Aimar com o jogo menos brilhante do argentino. O problema, aqui, é que a opinião de João Rosado não faz sentido. Dizer o que quer que seja de negativo em relação a Aimar, depois do que o argentino tem feito, é estúpido. Procurar sustentar a teoria de que Aimar é habitualmente um jogador a menos na equipa não merece, sequer, que se lhe conceda espaço para argumentos. Pessoas com opiniões ridículas são tontinhos. E aos tontinhos deve-se apenas dar-lhes um bocado de plasticina e mudar-lhe a fralda de vez em quando. Mais nada. João Rosado, como tantos outros por aí, tem um canudo que diz que pode exercer jornalismo, tem amigos que o deixam dizer quantidades assustadoras de porcaria na televisão, e até tem a sorte de nunca lhe ter caído um relâmpago em casa, coisa que deveria acontecer a todos os seres humanos com um Q.I. inferior ao de um rinoceronte africano médio. O que não tem é competência para fazer o que faz.


Tempo agora para o disparate do desafio. Como é que é possível alguém continuar a aplaudir um jogador que, jogo após jogo, continua a insistir em fazer disparates em campo? Depois de se colocar mal no lance, permitindo que a bola entre em Tarantini, David Luiz vai atrás do médio do Rio Ave e, em plena grande área, arrisca um carrinho por trás do adversário? Nem está em causa se toca na bola ou não. Atropelando-o, só por azar é que não tocaria naquela bola. Agora, aquilo é sempre penalty, em qualquer parte do planeta. E a entrada é a roçar o vermelho. David Luiz nunca pode entrar a uma bola daquela maneira estando por trás do adversário, porque vai sempre derrubá-lo. Já contra o Nacional havia protagonizado um lance semelhante, embora esse, escandalosamente, não tivesse sido assinalado. Para atacar uma bola daquelas de carrinho, tem de fazê-lo estando minimamente de lado, de modo a que o seu movimento para chegar à bola não perturbe a acção do adversário. Por trás, é natural que, antes de chegar à bola, toque de alguma maneira no adversário. A única coisa que David Luiz poderia ter feito, naquele lance, depois de deixar fugir Tarantini, era correr ao lado dele e enviar-se de carrinho para a frente do jogador do Rio Ave, com o pé em posição de interceptar o remate. A opção pelo desarme, nas condições em que se encontrava, ou seja, atrás de Tarantini, foi por isso a pior possível. Dentro da área, então, uma burrice do tamanho do mundo. Mais um disparate e mais uma evidência do pouco crescimento intelectual de David Luiz, nos últimos meses.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Rosto de Liedson agride com Cabeçada o Punho de Sá Pinto!

Agora a sério, o Entre Dez agradece a atenção do ex-jogador, mas rejeita quaisquer responsabilidades...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Ficar em contenção

Dois lances, dois golos, duas abordagens diferentes. Os lances em questão dizem respeito aos dois golos sofridos pelo Sporting este fim-de-semana. Apesar de o desfecho de cada um dos lances ter sido igual (golo sofrido), a verdade é que as abordagens defensivas foram diferentes, tendo uma delas sido correcta e a outra não. As jogadas são relativamente parecidas, embora ocorram em flancos opostos, e é por isso que é possível compará-las. Um avançado adversário tem a bola junto à linha e um defesa sai-lhe ao encalço. A missão do defesa, neste tipo de lances, é impedir que o avançado consiga progredir e evitar o mais que puder que se aproxime da sua baliza. Só. Não tem por missão fazer um corte, roubar a bola, parar a jogada. O único objectivo que a sua presença deve ter é a de criar um obstáculo e obrigar o avançado a ter de tomar uma opção. Ainda por cima, em situações como as duas em questão, em que as coberturas não estão imediatamente garantidas, é altamente irresponsável o defesa pensar noutra coisa que não em ficar em contenção. Ir à queima e procurar ganhar o lance tem o risco de, caso o perca, permitir que o avançado se aproxime da sua baliza, uma vez que não tem colegas por perto para o ajudar.



Ora, no primeiro golo do Nacional, Daniel Carriço toma precisamente a melhor das opções, saindo ao avançado madeirense, mas ficando em contenção, não correndo o risco de ser ultrapassado. Ao fazê-lo, deu a iniciativa ao adversário, o que se recomenda, em casos como este. A partir desse momento, o avançado pode ir para o drible, pode jogar para trás, ou pode tirar um cruzamento pouco perigoso, uma vez que não é feito da linha de fundo e a defesa está de frente para o lance. Qualquer das opções é preferível a tentar o corte, opção que acarretaria o risco de, caso não fosse bem sucedida, permitir que o avançado levasse a bola mais para perto da baliza e, aí sim, causar estragos irreparáveis. Como o atacante não tinha a possibilidade de soltar a bola num colega, o defesa não tem que ir direito a ele para ganhar a jogada a qualquer custo. Como a situação é de um para um e nem o atacante tem apoios próximos nem o defesa tem atrás de si a cobertura que lhe permita o risco de tentar ganhar a jogada, o melhor a fazer é parar à frente dele. Ao parar à frente do adversário, Carriço dá-lhe a iniciativa. Isto não só faz com que fique preparado para aquilo que o atacante vai fazer, como dá tempo aos colegas para se reorganizarem. Carriço adopta a postura correcta, não procurando ganhar o lance e obrigando o avançado a definir a jogada. Se, por acaso, a opção tivesse sido o drible, o defesa tem sempre mais probabilidades de ganhar duelos no um para um quando deixa ser o adversário a iniciar o drible, porque está preparado para essa eventualidade. Tendo sido a opção o cruzamento, não é propriamente algo que constitua perigo imediato, tendo em conta que a defesa está de frente para o lance. O facto de o lance ter dado golo não pode servir de justificação contra isto. Não só era muito improvável que, naquelas condições, acontecesse um golo, como a probabilidade de ele acontecer aumentaria muito se a postura de Carriço tivesse sido outra. Apesar do golo sofrido, o central do Sporting esteve, por isso, muito bem.



No segundo golo do Nacional, a história é outra. O lance é muito semelhante, mas acontece no flanco contrário e, em vez de Daniel Carriço, é João Pereira quem sai ao adversário. Ao contrário do colega que interveio no primeiro lance, João Pereira ignora por completo o facto de não ter cobertura nas costas e vai ao lance para ganhá-lo. Em vez de ficar em contenção, esperando pela iniciativa do adversário, ataca a bola. Ao fazê-lo, deixa parte do desfecho do lance entregue ao acaso e acaba por perdê-lo. Isso permite que o adversário se acerque da baliza e que cruze numa zona muito mais perigosa. As consequências, apesar de serem as mesmas que no lance anterior, podiam facilmente ter sido evitadas se João Pereira tivesse tomado a melhor opção, que passaria por ficar em contenção e obrigar o adversário a optar pelo drible ou a cruzar bem de longe. João Pereira teve um comportamento, portanto, incorrecto, potenciando a jogada de perigo adversária. Ao contrário, portanto, de Daniel Carriço, no primeiro lance, é o principal responsável pelo golo sofrido.

Estes dois comportamentos antagónicos ilustram, com exactidão, aquilo que se pode esperar dos dois intervenientes em termos de interpretação dos lances. Daniel Carriço é um jogador sóbrio, com escola, que entende as necessidades de cada lance. O seu comportamento é, por isso, invariavelmente condizente com aquilo que a jogada requer dele. Já João Pereira é um jogador impetuoso, que vale pelos seus atributos físicos e técnicos, pela velocidade de reacção e pela agressividade. Em lances defensivos, a sua interpretação é quase sempre a mesma: atacar a bola, sejam as condições quais forem. João Pereira está, por isso, muito mais susceptível ao erro. Não tendo propriamente concorrente à altura para a sua posição na equipa comandada por Carlos Carvalhal, não deixa de ser, por isso, um jogador cujo comportamento, em alguns aspectos do jogo, não é o melhor, e um jogador que não tem tanta qualidade quanto a que lhe querem conferir. Muito se tem falado, nos últimos dias, da qualidade que João Pereira veio trazer à equipa. Acredito que veio trazer presença no ataque ao seu flanco e agressividade ao mesmo, mas pouco mais. Este é apenas um exemplo daquilo que faz de João Pereira um jogador menos correcto do que o têm feito. Mais coisas virão, certamente.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Certezas (17)

Pequeno, ágil e tecnicista. É no cérebro, porém, que moram as principais virtudes deste jovem jogador. Desde a pré-época que me pareceu o jovem mais habilitado a servir as necessidades do plantel principal da sua equipa, embora outros nomes fossem bem mais falados. Irmão de outro jogador cuja reputação supera a sua real qualidade, e que não vingou, até agora, no mundo do futebol, apesar de todos os prognósticos, este jovem é das maiores esperanças do seu país e já foi mesmo chamado à principal selecção do mesmo. A velocidade a que pensa e a perfeição técnica fizeram com que lhe predissesse o futuro que agora parece começar a raiar. A sua criatividade faz com que deva ser aproveitado em posições ofensivas, mas o seu jogo cerebral, a capacidade de jogar ao primeiro toque e a grande visão de jogo que possui não podem fazer dele senão um médio de ataque. Está na calha para ficar, para já, na sombra de Xavi e de Iniesta, mas é o melhor jovem que o Barcelona tem para aquela posição. O futebol curto dos catalães precisa, para aquela posição em particular, de jogadores que o saibam interpretar bem, jogadores imaginativos, inteligentes, com uma capacidade técnica acima da média, e que ponham as suas qualidades ao serviço do colectivo, pensando e executando rápido. Este miúdo tem tudo isso. Faltar-lhe-á, ainda, a confiança dos graúdos ao lado de quem joga, mas o resto já lá está. Será, pois, uma questão de tempo para que comece a dar, realmente, nas vistas. Quando se fala na possibilidade de Cesc Fabregas voltar a Camp Nou, pergunto-me que tipo de meio-campo pode o Barcelona constituir em anos vindouros com jogadores como Fabregas, Xavi, Iniesta, Busquets e este jovem prodígio. Tal como Bojan Krkic, o tamanho é inversamente proporcional ao seu talento e, tal como o sérvio-espanhol, é das maiores pérolas que os catalães possuem. O futuro é dos pequeninos e a Jonathan dos Santos antevejo um bem promissor...

domingo, 10 de janeiro de 2010

O que fazer?

O Arsenal empatou esta tarde em casa frente ao Everton e esteve mesmo a ponto de perder o desafio, não fosse o golo marcado já em período de descontos por Rosicky. O que me traz aqui, porém, não é o jogo em si, mas aquilo que permitiu, de certo modo, o desfecho negativo para os homens de Wenger. Falo do segundo golo, um lance de contra-ataque que Pienaar concluiu com categoria e que, para muitos exemplifica um contra-ataque bem gizado. A apreciação que faço do lance é, todavia, bem diferente. E explica, de certo modo, não só este resultado mas também a frequência com que os deslizem acontecem a este Arsenal. Já frente ao Chelsea tinha identificado os erros individuais de Sagna como as principais causas do mau resultado e já contra o Manchester City a derrota pode bem ser explicada por vários erros de Clichy. Agora foi a vez de Traore, um jogador veloz e que até cruza bem, mas cujas deficiências a nível posicional e de interpretação dos lances fazem dele uma constante ameaça à sua própria equipa. O lance do golo encontra-se já a seguir; a análise ao mesmo logo abaixo.



Após um canto do Arsenal, o Everton recupera a bola e fá-la chegar ao seu homem mais adiantado - creio que Bilyaletdinov - e Traore é o último homem. Nasri vem a recuar para compensar e Pienaar aparece apenas atrás de Nasri. Tendo Nasri feito a aproximação a Bilyaletdinov, Traore não tem que ir cair em cima do russo. Sendo o último homem, não pode ir obstruir a passagem ao russo sem esperar por reforços. Mas foi o que fez. Ao ir direito ao jogador do Everton, desguarneceu a zona central do terreno e permitiu que a bola aí entrasse depois. Naquela situação, recomendava-se uma de duas coisas: 1) ou fazer contenção, procurando que Bilyaletdinov avançasse com a bola, de preferência obrigando-o a derivar ligeiramente para a linha, e esperando que os restantes jogadores do Arsenal recuperassem posições para, aí sim, poder atacar o portador da bola; 2) ou então, se é para ir direito ao russo, que fosse para fazer falta ou para recuperar a bola a qualquer custo. Traore nem ficou em contenção, nem foi morder os calcanhares ao russo ou impedi-lo de soltar a bola. Naquela situação, sendo o último homem, se decide atacar o portador da bola, tem de, pelo menos, impedi-lo de passá-la. Mas Traore foi só para cima do russo, ficando a um metro dele, à espera do que ele ia fazer para reagir a isso. Esperava, certamente, que este arrancasse individualmente, para depois persegui-lo, não antecipando a possibilidade de ele passar a bola a um colega. Ao preocupar-se apenas com o russo, não antecipou as possibilidades que o russo teria depois de receber a bola. Conclusão: uma cratera enorme a facilitar a entrada de Pienaar, que conclui sem oposição, e o Arsenal em desvantagem, outra vez por causa da infantilidade de alguns dos seus jogadores.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Sergio Busquets e o 343 de Guardiola

Busquets apareceu numa altura em que, por azar, ainda o Entre Dez não se preocupava em escrever sobre jovens talentos que não os portugueses. Se assim não fosse, teria certamente constado de entre os vários jogadores já avaliados na rubrica "Certezas". Desde os primeiros jogos que nos pareceu ser um jogador de qualidade inegável e alguém que, mais tarde ou mais cedo, se iria impor na alta roda do futebol europeu. Confesso que a minha referência actual como médio-defensivo, aquele jogador que me encanta como me encantaram Redondo, Guardiola e Paulo Sousa, por exemplo, não faz sequer parte dos principais planos da sua equipa, sendo o terceiro médio-defensivo do seu plantel. Falo de Gago. Não estando a jogar, é difícil prever a sua evolução e não sei que jogador será daqui a uns anos. Como tal, a referência volta a ser Andrea Pirlo. O que tem o jovem catalão, então, a ver com Pirlo? O facto de ser aquele que, no futuro, me parece ter melhores condições para seguir o legado do italiano, tendo em conta que Gago permanece ignorado em Madrid.

O futebol de Busquets começou por ser correcto e simples. As suas decisões, não raro as melhores, eram a sua imagem de marca. Não inventava, não complicava; tudo o que saía dos seus pés era simples. A matemática exacta do seu jogo, não sendo este muito extravagante, muito imaginativo, de levantar estádios, sustentava-se por si mesma. Para a posição que ocupava em campo, era, mais do que suficiente, aconselhável. Um médio-defensivo deve ser um jogador de toque curto, de apoios, um jogador que consiga municiar os médios mais criativos sem comprometer, que consiga fazer fluir o jogo atacante o mais rapidamente possível, embora sem se precipitar. Busquets fazia isto tudo e a equipa agradecia. Dificilmente poderia fazer mais. E já a época passada defendíamos que, apesar da sua imaturidade, tornava o futebol do Barcelona mais inteligente do que quando no seu lugar se apresentava Yaya Touré. Volvida que está a primeira volta do campeonato espanhol, Busquets apresenta-se como primeira opção para Guardiola, tendo relegado para o banco de suplentes o costa-marfinense. Mas o catalão não se ficou por aqui. A sua tenra idade permite que continue a evoluir. E à magia da simplicidade de processos, aos pezinhos de lã com que joga, juntou agora a classe e os números dos predestinados. Têm sido habituais, para quem tem visto os jogos do Barcelona, algumas ousadias de Busquets, toques de calcanhar, fintas em zonas complicadas, números artísticos colectivamente eficazes. E tudo isto sem sacrificar a eficácia e a qualidade das suas decisões. O menino certinho, bem comportado, parece ter dado lugar ao adulto emancipado, com um autodomínio assinalável e competências antes ignoradas.



Tomei a liberdade de resgatar o vídeo acima do extraordinário blogue Paradigma Guardiola. É composto de várias intervenções de Busquets no último jogo do Barcelona para o campeonato, frente ao Villareal, sendo que algumas dessas intervenções corroboram o que acima foi dito. A qualidade de Busquets com bola e a sua evolução em termos mentais terá mesmo permitido a Guardiola utilizá-lo de um modo que, antes, não acreditava ser possível. Guardiola preparou a equipa, no início desta época, para jogar em 343 sempre que isso fosse recomendável. Com efeito, quando com 4 defesas, o Barcelona, para sair a jogar, faz subir muitíssimo os laterais e abre os centrais. A bola sai então num dos centrais, que deve dar início ao processo ofensivo. Acontece, porém, que equipas que pressionem muito alto e com dois avançados podem constranger esta estratégia usando cada um dos avançados para pressionar os dois centrais catalães. Prevendo essa situação e para não abdicar de sair a jogar desde a defesa, Guardiola projectou a equipa para se estender no campo em 343 quando a bola está no seu guarda-redes. Assim, sempre que se justificasse, o médio-defensivo baixava, ocupando o centro da defesa que estaria vago pela abertura dos centrais, e os laterais subiriam para a linha dos dois médios-ofensivos. No início da época, vimos o Barcelona optar por esta estratégia várias vezes, mas sempre com Yaya Touré. Talvez porque isso não era treinado com Busquets, sempre que o médio catalão jogava, o Barcelona não optava por este método, mesmo quando o mesmo se justificava. Com o Villareal, contudo, várias foram as vezes que Busquets baixou para a linha dos centrais, de modo a ocupar um espaço livre, dada a pressão altíssima protagonizada pelos avançados adversários. Acredito que a inclusão de Busquets nesta estratégia não tem apenas a ver com o facto de o jovem parecer ter agarrado a posição, mas sobretudo com o facto de ter já maturidade suficiente para que não seja um risco entregar-lhe a bola sendo o último homem.

Posto isto, falta falar da utilidade do 343 de Guardiola e de como o Barcelona, mesmo utilizando essa estratégia, acabou por não se conseguir soltar das amarras da pressão da equipa de Ernesto Valverde. Creio que a estratégia é especialmente útil para facilitar ao Barcelona a saída de bola, sempre que pressionado em cima. Baixando o médio-defensivo, cria uma situação de superioridade numérica e pode começar a construir sem ter de recorrer a passes mais longos. Importa, por isso, que depois dessa primeira fase o médio-defensivo reocupe o seu lugar natural, aproximando-se dos médios-ofensivos para lhe dar os devidos apoios. O jogo contra o Villareal, porém, não é exemplo. O jogo não correu bem aos catalães por várias razões. Em primeiro lugar, falharam-se muitos passes, alguns deles em zonas complicadas. Isso fez com que a equipa não tivesse tanta bola e, sobretudo, que se intranquilizasse. Fora isso, seria plausível que uma equipa como o Barcelona, fazendo uso da estratégia do 343, conseguisse anular a pressão alta do adversário e fosse capaz de sair a jogar, de pé para pé, de forma faseada, sem saltar etapas. No entanto, o Barcelona poucas vezes o conseguiu fazer. A forma como o Villareal pressionava nem sequer era exemplar, muito focada nas individualidades. Em 442 clássico, os dois avançados atacavam os dois centrais do Barcelona, os alas fixavam-se nos laterais e os médios nos dois médios-ofensivos do Barça. Às vezes, quando Busquets baixava, um dos médios saía para pressioná-lo. Nestas alturas, o médio do Barça que ficava solto deveria ter aproveitado para procurar receber a bola. Creio que faltou, acima de tudo, maior movimentação dos dois médios-ofensivos e essencialmente a passagem da primeira fase de construção à segunda. Não conseguindo ligar os defesas e Busquets aos médios-ofensivos, o Barça foi recorrendo cada vez mais aos lançamentos longos para Ibrahimovic, acabando por não conseguir permanecer com a posse de bola, como tanto gosta. Concedendo maior mobilidade aos médios-ofensivos quando a equipa tinha a bola na defesa ou em Busquets, o Barcelona teria certamente desamurrado as marcações e criado buracos importantes no meio-campo. Por exemplo, poderia ter sido estratégia obrigar Xavi, que era quem estava mais policiado, a movimentar-se, sem bola, numa diagonal para a ala esquerda, por exemplo. Levaria, pelo menos momentaneamente, o seu adversário com ele, o que daria espaço, por exemplo, para Ibrahimovic baixar e receber de costas para a baliza, e servir de apoio vertical. As solicitações para o sueco seriam assim pelo chão e mais curtas, facilitando-lhe a vida. Entrando a bola em Ibrahimovic, estaria feita a ponte da primeira para a segunda fase de construção. Depois disto, fazia sentido o sueco jogar de frente com Jonathan dos Santos ou obrigar Pedro a aproximar-se de Ibrahimovic para que ele lhe desse a bola.

Estas são apenas algumas possibilidades estratégicas que teriam sido proveitosas para desbloquear aquele que me pareceu o principal problema do Barça no desafio, a capacidade de fazer a bola entrar em condições jogáveis na zona intermediária do adversário. O papel de Busquets, nessa manobra, como já o disse, foi importante. Mas mais importante ainda é o Barcelona saber que pode contar com ele para este tipo de soluções. O seu crescimento está à vista e a sua qualidade parece cada vez mais. Para terminar com chave-de-ouro, arrisco-me a dizer que será um dos grandes nomes deste desporto durante a próxima década.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dois Avançados com Escola

A jogada é a do primeiro golo do Sporting frente ao Braga, ontem, e a razão pela qual a trago a lume prende-se com o desenho da mesma. Após o golo, os comentadores enalteceram a jogada e a assistência de Grimi, assim como a finalização de Saleiro. Esqueceram-se, porque é assim que vêem futebol, da principal causa do golo, daquilo que, de facto, teve maiores responsabilidades na construção da oportunidade de golo. A execução do remate de Saleiro e a execução do passe de Grimi não são coisas extraordinárias e têm pouco a ver com as razões pelas quais o Sporting chegou ao golo. A principal causa do desfecho da jogada é o movimento, sem bola, dos dois atacantes leoninos, sobretudo o movimento de Postiga, por ter sido aquele que soltou Saleiro.



Este lance é especialmente útil para várias coisas. Em primeiro lugar, para demonstrar como, sem tocar na bola, alguém pode ser o principal responsável por um golo. O movimento de Postiga é óptimo, trocando posicionalmente com Saleiro na altura exacta, ou seja, quando Grimi conduzia a bola e ia ter de decidir para quem enviá-la. Ao movimentar-se como se movimentou, arrastou o central que tinha mais perto de si e abriu um espaço entre esse central e o lateral que o movimento de Saleiro acabou por aproveitar. Sem o movimento de Postiga, nunca este golo tinha sido possibilitado. Em segundo lugar, para demonstrar como a referência do homem pode ser nociva para quem defende, mesmo que em zonas próximas da área. Ter-se preocupado com Postiga fez com que André Leone se movimentasse para cima do seu colega de sector, Moisés, abrindo um espaço entre si e Evaldo que foi aproveitado por outro jogador do Sporting. Se Leone estivesse preocupado com as referências certas, com a posição da bola, com a posição dos colegas e com a baliza, deveria ter permanecido na sua posição, mantendo a linha de quatro e o espaço interior protegido, e nunca Saleiro gozaria do espaço que gozou. Assim, a par do movimento de Postiga, o erro de Leone pesou na obtenção do golo do Sporting. Em terceiro lugar, para relembrar a importância da inteligência e da "escola" num jogador de futebol. Um lance aparentemente inofensivo é transformado, com um só passe, numa ocasião de golo. Isto só foi possível por causa da movimentação de Postiga e Saleiro, algo que se aprende na formação e que constitui uma movimentação canónica em lances de 3 para 2. Jamais o Sporting obteria este golo sendo um dos dois avançados alguém sem escola, alguém que jamais corresponderia à diagonal de Saleiro com uma diagonal no sentido inverso, alguém que não compreende que pode soltar um colega meramente através da sua movimentação. É por causa deste tipo de lances e das possibilidades que se abrem à equipa tendo este tipo de jogadores no ataque em detrimento de jogadores que não possibilitam este tipo de coisas que é com este tipo de jogadores e não com o outro tipo que o Sporting é mais equipa.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Previsões de Ano Novo

Em futebol, fazer previsões sem as justificar é algo que parece muito pouco interessante. Nem foi nunca algo que me cativasse. Fazer previsões é, desse ponto de vista, como dar palpites, como tirar à sorte. Interessa, sobretudo, saber que fundamentos levam alguém a predizer algo. Este espaço foi sempre um espaço de fundamentos, um espaço mais preocupado com os processos que conduzem a uma determinada conclusão do que com a conclusão em si. Ainda assim, porque esta é uma altura em que é costume fazer-se este tipo de coisas, farei as minhas previsões, anunciando de antemão que a elas, embora só por quatro ou cinco linhas justificadas, presidem razões e convicções profundas.

1. Vencedor do Campeonato Português: Benfica. Acredito que este é o ano dos encarnados e acredito nisto mais ou menos desde o início da prova. A boa prestação do Braga até aqui tem ensombrado, de alguma maneira, a boa prova da equipa de Jorge Jesus, com percalços aqui e ali justificados pelo facto de se ignorarem os melhores princípios da equipa, mas a segunda parte do campeonato será o derradeiro teste à turma da Luz. O embate com o Porto, além de mostrar que o Benfica não vinha em decréscimo de produção, terá mostrado finalmente que a equipa de Jorge Jesus é o mais sério candidato ao título.

2. Vencedor do Campeonato Espanhol: Barcelona. Está tudo em aberto e o Real Madrid conseguiu um início de campeonato muito bom. Não foi tão assertivo quanto o Barcelona, ganhando vários jogos com muito sofrimento, mas conseguiu, pelo menos, manter-se colado ao líder. O Barcelona, no entanto, tem sido igual a ele próprio e, com o regresso em pleno de Iniesta espera-se que volte a ser regular como antes. A equipa está a jogar ainda melhor do que o ano passado e se as lesões não perturbarem a segunda metade do campeonato, o principal problema deste Barcelona, o plantel pequeno que possui, não ficará manifesto.

3. Vencedor do Campeonato Italiano: Inter. Em Itália, antevi no início da época que a Juventus era a equipa que melhor poderia fazer frente ao Inter de José Mourinho. Percorrido que está metade do caminho, a Juventus parece estar mais próxima da qualidade do Milan do que da do Inter. Assim sendo, e não me parecendo que venham a ocorrer modificações exibicionais extraordinárias, o Inter continuará a ser o único candidato ao título. Será mais um êxito na carreira de Mourinho, ainda que não coroado do brilho de outrora.

4. Vencedor do Campeonato Inglês: Arsenal. Quando o Arsenal perdeu com o Chelsea, parecia irremediavelmente afastado da luta pelo título. As últimas jornadas, com os sucessivos empates do Chelsea, colocaram porém a equipa de Arséne Wenger novamente na rota do título. Se ganhar o jogo que tem em atraso, o Arsenal fica apenas a 1 ponto do Chelsea, com a equipa comandada por Carlo Ancelotti a ter de jogar em Janeiro sem Drogba e Kalou, e tendo ainda Anelka lesionado. Com esta conjectura e a jogar o que está jogar, o Arsenal tem tudo para se impor. É a equipa que melhor futebol pratica em terras de Sua Majestade. O Manchester também terá uma palavra a dizer, mas parece-me francamente debilitado e dependerá muito dos desempenhos dos outros dois candidatos.

5. Vencedor do Campeonato Francês: Bordéus. Em França, o Bordéus não tem dado propriamente grandes hipóteses. Lyon e Marselha, os mais apresentáveis dos rivais, têm sido bastante irregulares e a equipa comandada por Laurent Blanc já leva uma vantagem considerável. Gourcuff e companhia são, também por isso, a minha aposta.

6. Vencedor do Campeonato Alemão: Bayern. O Bayern de Louis Van Gaal não começou bem, mas a recuperação é visível. Não só conseguiu o apuramento para os oitavos de final da Liga dos Campeões, como está apenas a dois pontos da liderança do campeonato. A segunda volta deverá consolidar as ideias do controverso treinador holandês e o tempo tenderá a fortalecer esta equipa. Como a concorrência no campeonato alemão não é muito forte, o Bayern, ainda com alguns deslizes, é o grande favorito à vitória final.

7. Vencedor da Liga dos Campeões: Barcelona. A minha aposta é, uma vez mais, o Barcelona de Guardiola. Seria a consumação final daquela que é a melhor equipa de sempre e o lugar no Olimpo que tanto merece. Nunca uma equipa venceu por duas vezes seguidas a Liga dos Campeões, mas nenhuma também apresentou o futebol que esta equipa apresenta. Dependerá, como é óbvio, da fortuna das lesões e da sua capacidade para se superar continuamente. Ainda assim, acredito que é o candidato que reúne melhores condições.

8. Vencedor do Campeonato do Mundo: Espanha. A Espanha é a equipa que melhor colectivo apresenta. Neste tipo de provas, é sabido, isso não chega. Quando toca a eliminar, e ainda por cima a uma só mão, os melhores nem sempre se consagram. Ainda assim, e com as melhorias que a equipa teve em termos de competitividade sob o comando de Del Bosque, é a formação que me parece melhor preparada. Ainda estamos longe da prova e em seis meses muita coisa pode acontecer. Como acontece nestes torneios, dependerá muito da forma em que os jogadores chegarem à África do Sul.

9. Participação de Portugal no Campeonato do Mundo: Oitavos de final. A Espanha deverá passar em primeiro lugar, no seu grupo, e Portugal terá a difícil missão de se apurar à frente do Brasil ou da Costa do Marfim. Nenhum dos adversários será fácil, mas numa competição deste género é difícil fazer previsões acertadas no que diz respeito a um conjunto de três jogos. Ainda assim, os campeonatos recentes mostraram que a capacidade de superação da equipa lusitana neste tipo de competição é notável. É claro que isso era com Scolari e tudo pode ser diferente agora. Tendo em conta a dificuldade do grupo, a qualidade do futebol apresentado durante a fase de apuramento e a equipa técnica comandada por Carlos Queiroz, a eliminação logo na fase de grupos não seria de espantar. Mas admito que Portugal consiga superar essa primeira fase. A partir daí, já acho mais complicado.

10. João Pereira. É um dos nomes sonantes da reabertura do mercado. Ao contrário da maioria, acho que João Pereira está longe de ser um grande lateral direito. É um jogador rápido, muito agressivo, mas tem pouco mais que isso. Chega a um grande depois de ser um dos principais protagonistas, do ponto de vista do comum adepto, do Braga. Há alguns anos, morava em Braga um lateral direito em tudo idêntico ao que é hoje João Pereira: um jogador veloz, que participava muito nas investidas ofensivas da equipa, e que era tido como o melhor lateral direito a jogar num clube que não um grande. Alguém se lembra de quem era? Na altura, ao contrário do comum adepto, achei que a sua vinda para um grande lhe tornaria visíveis as debilidades. Assim foi. Entendo que João Pereira venha a ter um destino parecido. Os seus problemas posicionais, a má leitura dos lances, as más decisões com bola são coisas que no Braga não são tão importantes. No Braga, esse tipo de problemas é algo que mais jogadores possuem. Por isso mesmo, a exigência no Braga é mais baixa. No Sporting, não terá Alans, Vandinhos, Moisés, Evaldos ou Paulos Césares com quem se comparar. Terá jogadores de maior craveira, jogadores mais perfeitos, que cometem menos erros. Os problemas de João Pereira, no Sporting, serão por isso mais evidentes. É óbvio que pode corrigi-los, mas não é algo que consiga fazer de um dia para o outro. Pode até, porque a equipa está a atravessar um mau momento, conseguir destacar-se. Quando as coisas estão mal, normalmente jogadores vistosos como ele, jogadores que fazem das suas características físicas e técnicas as suas mais-valias, são mais apreciados. Mas dificilmente conseguirá construir uma carreira sólida, regular. João Pereira não é muito diferente de Nélson, por exemplo, se bem que não tão bom tecnicamente. É um lateral ofensivo, que pode causar desequilíbrios quando apoia o ataque, mas a qualidade das suas decisões e a sua capacidade defensiva não é brilhante. Nélson durou um ano, num ano em que a equipa do Benfica pouco ou nada jogava. Depois, quando foi preciso evoluir, estagnou, cometeu erros e foi-se embora. João Pereira será assim tão diferente? A minha previsão é que não trará ao Sporting a tão desejada qualidade para a lateral direita.

Antes de acabar o ano, gostaria ainda de fazer referência a um projecto em que eu e o Gonçalo estamos inseridos há aproximadamente três meses. Os mais atentos terão talvez estranhado a ausência, há já algum tempo, de textos sobre uma determinada jornada ou sobre a generalidade da actualidade futebolística. A ausência desses textos explica-se porque todas as semanas escrevemos um texto para o jornal online "Academia de Talentos" com esse tipo de conteúdos. Aqueles que nos quiserem seguir ainda mais podem sempre procurar os nossos textos na Área Técnica do respectivo jornal. A ligação encontra-se entre as várias ligações aqui ao lado. O "Academia de Talentos" é, possivelmente, o local com mais e melhor informação sobre a actividade futebolística a nível dos escalões de formação. Nesse aspecto, a sua relevância está para além de qualquer dúvida e qualquer pessoa que esteja interessada em acompanhar o que se passa na actualidade desportiva nos mais variados escalões de formação terá interesse em consultar com regularidade o jornal. Mais recentemente, o jornal tem procurado evoluir noutros sentidos e expandir os seus horizontes. O espaço designado por "Área Técnica" reúne, por isso, textos de outro carácter e com outros conteúdos. É precisamente nesse projecto que colaboramos e, além de nós, podem ser encontrados textos de outros bloggers que, normalmente, valem a pena ser lidos, como os do Pedro Bouças e do Rodrigo Rodrigues, do blogue "Lateral-Esquerdo" ou os do Paulo Santos, do "Apenas Futebol". Fica o anúncio e o convite, claro...

sábado, 26 de dezembro de 2009

Liedson, Saleiro e Postiga: um Estudo Comparativo

No passado fim-de-semana, o Sporting defrontou a Naval e Carlos Saleiro actuou ao lado de Liedson. Abaixo fica o registo das intervenções de ambos, assim como as de Hélder Postiga, que entrou a render o primeiro aos 75 minutos de jogo.

1 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)

2 mins: Boa opção. (Saleiro joga de frente em Miguel Veloso.)

3 mins: Perda de bola. (Liedson recebe, vira-se, tenta fintar e perde a bola.)

3 mins: Boa opção. (Saleiro recebe e dá pelo ar para João Moutinho.)

5 mins: Boa opção. (Liedson dá de primeira em Izmailov.)

7 mins: Mau passe. (Liedson tenta jogar com Saleiro, mas um defesa corta a jogada.)

8 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)

8 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson esconde-se atrás de um defesa, ignorando a linha de passe que deveria dar, e não recebe o passe de Miguel Veloso, que se perde.)

10 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça após passe longo de Tonel.)

10 mins: Remate. (Liedson recebe depois de um ressalto e chuta contra o guarda-redes.)

12 mins: Perda de bola. (Saleiro recebe uma bola à queima-roupa e perde no ressalto.)

13 mins: Boa opção. (Saleiro recebe na esquerda, alonga o passe para Adrien, que ganha canto.)

15 mins: Faz falta. (Saleiro ganha de cabeça, vira-se e faz pé em riste.)

15 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça para Veloso, que chega tarde.)

17 mins: Cabeceamento. (Saleiro salta de cabeça e perde.)

18 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)

18 mins: Boa opção. (Liedson recebe na esquerda, roda sobre si mesmo e joga para trás para Moutinho.)

19 mins: Perda de bola. (Liedson, entre dois adversários, tenta fazer cueca e perde a bola.)

20 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)

21 mins: Cabeceamento. (Liedson ganha de cabeça.)

21 mins: Cabeeamento. (Saleiro ganha de cabeça.)

22 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)

24 mins: Perda de bola. (Liedson tenta fintar, perde a bola e faz falta.)

24 mins: Corte. (Liedson, em esforço, corta para fora.)

25 mins: Má opção. (Liedson, na esquerda, recebe passe longo, mas deixa a bola bater duas vezes e permite o corte do defesa da Naval.)

26 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)

28 mins: Boa opção. (Saleiro joga de frente, embora a bola viesse pelo ar e difícil.)

29 mins: Recuperação de bola. (Liedson recua e ganha de cabeça, recuperando a bola para a sua equipa.)

30 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)

33 mins: Boa opção. (Saleiro recebe a bola, roda para a direita e dá em Izmailov.)

33 mins: Sofre falta. (Liedson recebe e sofre falta.)

34 mins: Cruzamento. (Saleiro recebe a bola na esquerda e cruza contra um defesa.)

35 mins: Boa opção. (Liedson, após um canto, fica com a bola e joga para trás.)

35 mins: Remate. (Liedson salta dentro da área, tenta rematar de cabeça, a bola bate no defesa que saltara com ele e sobra para Saleiro, que marca golo.)

35 mins: Golo. (Saleiro, ao segundo poste, aproveita um ressalto para introduzir a bola na baliza.)

36 mins: Cruzamento. (Liedson falha a recepção e vai cruzar à linha para as mãos do guarda-redes da Naval.)

37 mins: Recuperação de bola. (Saleiro ganha a bola e com um pontapé lança Liedson, que estava em posição irregular.)

37 mins: Fora-de-jogo. (Liedson é apanhado em fora-de-jogo.)

38 mins: Recuperação de bola. (Saleiro ganha a bola.)

38 mins: Má opção. (Saleiro perde muito tempo a soltá-la e embrulha-se. A bola acaba por sobrar para Veloso.)

40 mins: Boa opção. (Saleiro dá de primeira para Liedson.)

40 mins: Má opção. (Liedson recebe a bola de Saleiro, tenta fintar e perde a bola, que no entanto sobra para Izmailov.)

40 mins: Remate. (Saleiro é lançado por Izmailov, chuta em esforço, no chão, o guarda-redes defende e choca com Saleiro. Ao levantar-se para perseguir a bola, Saleiro é agarrado pelo guarda-redes. Penalty não assinalado.)

42 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)

42 mins: Má opção. (Liedson faz a bola passar por cima de um adversário e perde a bola.)

42 mins: Perda de bola. (Saleiro é solicitado de frente, joga de primeira, mas Adrien e Veloso não percebem, ficando a bola à mercê de um adversário.)

43 mins: Faz falta. (Liedson chega atrasado ao lance e faz falta.)

44 mins: Sofre falta. (Saleiro sofre falta.)

45 mins: Remate. (Liedson responde a um cruzamento, tocando ao de leve na bola, que chega ao guarda-redes adversário.)

45 mins: Má recepção. (Saleiro recebe um passe longo, mas a recepção não é a melhor e acaba por perder a bola.)

45 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson deixa-se antecipar depois de um bom passe vertical.)

46 mins: Mau passe. (Saleiro recebe mas entrega mal.)

46 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson deixa-se antecipar.)

46 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)

46 mins: Boa opção. (Saleiro entrega de cabeça, de frente.)

48 mins: Boa opção. (Saleiro ganha um lance disputado e joga de frente.)

48 mins: Sofre falta. (Liedson sofre falta.)

49 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha um lance de cabeça na direcção de Liedson, que no entanto fica quieto atrás do defesa.)

49 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson fica atrás de um defesa e deixa-se antecipar.)

50 mins: Boa opção. (Saleiro recebe a bola na linha e ganha lançamento.)

52 mins: Sofre falta. (Saleiro sofre falta por trás.)

53 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça, mas a bola sobra para Moutinho.)

53 mins: Bom passe, mas má opção. (Liedson recebe de Moutinho na zona central, dá três toques na bola, permitindo a recolocação da defensiva contrária, e acaba por dar atrasado em Moutinho, novamente.)

57 mins: Sofre falta. (Liedson sofre falta.)

57 mins: Boa opção. (Saleiro ganha a bola no meio de vários adversários e joga com Izmailov.)

59 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)

60 mins: Boa opção. (Saleiro tabela com Moutinho.)

60 mins: Boa opção. (Saleiro recebe novamente de Moutinho e dá em Adrien.)

60 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)

60 mins: Recuperação de bola. (Liedson recupera uma bola.)

63 mins: Boa opção. (Saleiro tabela com Miguel Veloso.)

65 mins: Cabeceamento. (Liedson ganha de cabeça.)

65 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde de cabeça.)

67 mins: Má opção. (Liedson recebe a bola através de um passe longo, tenta inventar, perde, mas a bola sobra para Grimi.)

67 mins: Boa opção. (Saleiro recebe de um lançamento lateral e dá em Veloso.)

69 mins: Cabeceamento. (Saleiro ganha de cabeça.)

69 mins: Corte. (Liedson corta para fora.)

70 mins: Boa opção. (Saleiro assiste Veloso, que remata.)

70 mins: Má opção. (Liedson recebe de Moutinho e tenta lançar Saleiro, quando tinha apoios de frente. A bola bate em Diego Ângelo e fica em poder da Naval.)

70 mins: Boa opção. (Saleiro recebe e joga no meio, em João Moutinho.)

73 mins: Cabeceamento. (Saleiro perde lance de cabeça.)

74 mins: Má recepção. (Liedson recebe e perde a bola depois de má recepção.)

75 mins: Sai Saleiro, entra Postiga.

76 mins: Perda de bola. (Postiga recebe a bola e perde.)

77 mins: Cabeceamento. (Postiga ganha de cabeça para o meio.)

78 mins: Boa opção. (Postiga recebe de Moutinho e tenta lançar Liedson, que no entanto é apanhado em posição irregular.)

78 mins: Fora-de-jogo. (Liedson é apanhado em fora-de-jogo.)

79 mins: Boa opção. (Postiga recebe e dá em Adrien.)

79 mins: Boa opção. (Postiga recebe e dá em Veloso.)

79 mins: Remate. (Postiga recebe novamente de Veloso, finta e remata de pé esquerdo, obrigando o guarda-redes a defesa apertada para canto.)

80 mins: Cabeceamento. (Liedson perde de cabeça.)

80 mins: Boa opção. (Postiga entra na área e, fingindo o remate, assiste Liedson, que no entanto se deixa antecipar.)

80 mins: Deixa-se antecipar. (Liedson não percebe a intenção de Postiga e deixa-se antecipar.)

82 mins: Boa opção. (Liedson dá atrás em Moutinho.)

84 mins: Recuperação de bola. (Postiga pressiona, recupera a bola e dá atrás.)

84 mins: Boa opção. (Postiga recebe novamente e joga de primeira.)

84 mins: Remate. (Liedson recebe no meio e remata ao lado.)

85 mins: Cabeceamento. (Liedson ganha de cabeça.)

86 mins: Boa opção. (Postiga joga com Liedson, que lhe devolve a bola)

86 mins: Boa opção. (Liedson tabela com Postiga.)

86 mins: Deixa-se antecipar. (Postiga vai para rematar, após tabela com Liedson, mas um defesa corta a bola.)

87 mins: Boa opção. (Liedson assiste Adrien, que remata.)

89 mins: Má opção. (Liedson recebe a bola, fá-la passar por cima de um defesa e perde-a.)

89 mins: Boa opção. (Postiga tabela com Veloso.)

89 mins: Boa opção. (Postiga recebe a devolução de Veloso, progride e dá em Liedson.)

89 mins: Má opção. (Liedson recebe de Postiga, vira-se e perde a bola.)

89 mins: Recuperação de bola. (Postiga recupera a bola.)

89 mins: Sofre falta. (Liedson recebe, vira-se e ganha falta.)

90 mins: Liedson sai.

90 mins: Boa opção. (Postiga dá atrás.)

91 mins: Boa opção. (Postiga tabela com Pereirinha, mas a bola perde-se.)

92 mins: Boa recepção. Postiga recebe em esforço com o peito.

Para que seja mais fácil distinguir a acção de cada um, as suas acções estarão denotadas com cores diferentes: vermelho para Saleiro, verde para Liedson e azul para Postiga. As boas acções de cada um ficam em negrito, para melhor apreciação. Vamos às conclusões:

1) Liedson teve 48 acções durante o tempo que esteve em campo; 20 acções positivas; 42% de acções positivas. Saleiro teve 45 acções durante o tempo que esteve em campo; 32 acções positivas; 71 % de acções positivas. Postiga teve 17 acções durante o tempo que esteve em campo; 15 acções positivas; 88% de acções positivas.
2) Considerando agora os lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou disputas de cabeça, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), Liedson teve 8 boas opções contra 10 más opções; 44% de boas opções. Saleiro teve 20 boas opções contra 3 más opções; 87% de boas opções. Postiga teve 11 boas opções contra 1 má opção; 92% de boas opções.
3) Liedson foi responsável por 14 perdas de bola, 1 por má recepção, 2 por maus passes, 5 por se deixar antecipar e 6 por se virar para o adversário ou por tentar fintar (de fora destas contas ficaram ainda dois lances em que tentou inventar, perdeu a bola, mas ela sobrou para um colega de equipa); Saleiro foi responsável por 4 perdas de bola, 2 por má recepção e 2 por maus passes; Postiga foi responsável por 2 perdas de bola, 1 por mau passe e 1 por se deixar antecipar.
4) Liedson recuperou 2 bolas e fez 2 cortes; Saleiro recuperou 2 bolas; Postiga recuperou 2 bolas.
5) Liedson sofreu 4 faltas e cometeu 1; Saleiro sofreu 2 faltas e cometeu 1; Postiga não sofreu nem cometeu faltas.
6) Liedson foi apanhado em fora-de-jogo por 2 ocasiões; Saleiro e Postiga não foram apanhados em fora-de-jogo.
7) Liedson efectuou 4 remates, sendo que apenas 1 deles levou perigo, 1 foi para fora, outro foi para as mãos do guarda-redes e outro acabou por bater no defesa e sobrar para Saleiro, que fez golo; Saleiro efectuou 2 remates, sendo que 1 deles deu golo e outro foi defendido à queima pelo guarda-redes, que de seguida agarrou Saleiro, fazendo penalty; Postiga fez apenas 1 remate, após boa combinação com Miguel Veloso.
8) Liedson disputou 8 bolas de cabeça, tendo ganho 3 e perdido 5; 38% de lances de cabeça ganhos. Saleiro disputou 16 bolas de cabeça, tendo ganho 9 e perdido 7; 56% de lances de cabeça ganhos. Postiga disputou apenas 1 lance de cabeça, ganhando-o.
9) Liedson recebeu 13 bolas de costas para o jogo e jogou de frente apenas 5 vezes; em 62% dos lances, optou por se virar para o jogo, tendo perdido maior parte das bolas nessas situações. Saleiro recebeu 14 bolas de costas para o jogo, tendo jogado de frente 13 dessas vezes; optou por se virar apenas em 7% dos lances. Postiga recebeu 9 bolas de costas para o jogo, tendo jogado de frente em 8 ocasiões; optou por se virar em apenas 11% dos lances.

Comentários:

O Sporting, enquanto equipa grande, dificilmente se pode dar ao luxo de ter um jogador que, no centro do terreno, funcione tão mal como apoio vertical. Está já exausto o nosso desapreço pelo futebol de Liedson, mas este estudo ajuda a comprovar, uma vez mais, o quão nocivo o jogador é a todo o processo ofensivo. Deste ponto de vista, é muito frutuosa, a meu ver, a comparação com o seu colega de ataque, seja ele Saleiro ou Postiga. Estes dois são os avançados que melhor jogam de costas para a baliza, no plantel, e os que maior quantidades de boas decisões são capazes. Em meu entender, um avançado tem de ser muito mais do que os golos que faz e Saleiro e Postiga, ao contrário de Liedson, são-no.

Saleiro e Postiga têm mais ou menos o dobro da percentagem de boas opções que Liedson, o que indicia que, em relação ao Levezinho, conseguem dar continuidade a duas vezes mais jogadas. A quantidade de bolas que os três jogadores perdem é outro indício do quão problemático é o futebol de Liedson e de quão melhor servido estaria se, na frente, o Sporting jogasse com qualquer um dos outros dois. Há quem diga, ainda, que Liedson não vale apenas pelos golos, mas pelo trabalho defensivo, pelo esforço, pela abnegação. Este estudo demonstra que isso é uma mentira em que muitos quiseram acreditar. Liedson é responsável por tantas recuperações de bola quantas os seus companheiros de ataque, sendo que ambos estiveram em campo menos tempo que ele. O facto de correr muito, como sempre disse, de parecer um tontinho atrás dos outros, não significa que seja bom em termos defensivos. Se quisermos falar em esforço e em dedicação, podemos ainda olhar para quem foi a principal referência no futebol aéreo. Saleiro disputou o dobro das bolas de cabeça de Liedson, mostrando-se competente o suficiente no mesmo e mostrando-se com capacidade de choque. Como se vê, na capacidade de luta não há grande diferença.

A principal característica de Liedson - e a única verdadeiramente relevante, diria eu - é a sua capacidade concretizadora. Como é óbvio, o facto de, neste jogo, Carlos Saleiro se ter revelado bastante mais eficaz que Liedson não demonstra nada. Não significa isto que Liedson seja um exímio finalizador. Não é. É um jogador com uma taxa de aproveitamento até relativamente baixa, embora se pense que não. A principal diferença está na quantidade de vezes que aparece em zonas de finalização. Nisso, Liedson revela de facto um instinto felino. Mas é minha convicção que essa faculdade é conseguida a expensas de outras coisas. No meu entender, Liedson consegue aparecer em zonas de finalização mais vezes que os colegas porque é a única coisa com a qual se preocupa. Enquanto Saleiro e Postiga, por exemplo, estão preocupados em procurar os colegas, em entender a movimentação colectiva, em perceber qual a melhor forma de a equipa criar perigo, Liedson está apenas preocupado com a baliza. O exemplo do lance do Hungria-Portugal, que referimos aqui atempadamente, ilustra bem tudo isto. Com bola, Liedson pensa mais em virar-se para a baliza do que em fazê-la girar, recuando se necessário, permanecendo de costas se necessário. Não é estranho, por isso, que 62% dos lances em que recebe a bola de costas sejam resolvidos virando-se para o adversário. Sem bola, Liedson está sempre mais interessado em fugir aos defesas, de modo a aparecer em zonas privilegiadas, do que em aproximar-se do portador da bola para servir como apoio vertical. Não é, por isso, de estranhar, que se tenha deixado antecipar 5 vezes nesta partida, contribuindo para 5 perdas de bola da equipa.

Liedson só é bom em zonas muito próximas da baliza, em zonas em que é mais importante fugir a marcações, demonstrar agilidade e reflexos, aparecer em sítios certos e atacar zonas importantes. Em todo o resto do campo, é miserável. Talvez seja mais expedito que Postiga e Saleiro dentro da área, mas é sem dúvida menos inteligente fora dela, com e sem bola. Saleiro e Postiga compreendem colectivamente o jogo e, com eles em campo, o Sporting jogará sempre melhor. Liedson é um jogador útil num espaço diminuto do campo e perfeitamente inútil na maior parte dele. Nenhuma equipa grande, que queira impor-se como grande, pode ter jogadores que sejam apenas úteis numa zona do terreno. É por isso que Mantorras não joga no Benfica e é por isso que Farías é apenas um plano B no Porto. Liedson é um jogador deste tipo. Poderia ser uma arma para lançar nos minutos finais das partidas, em jogos em que o coração manda mais que a razão, mas jamais um jogador para ser titular indiscutível.

Como já aqui o dissemos várias vezes e não apenas por capricho ou ousadia, o Sporting jamais será campeão enquanto tiver Liedson. A razão pela qual afirmamos repetidamente tal coisa encontra-se relevantemente ilustrada por este estudo. Com Liedson, o Sporting só pode ser uma equipa de coração, uma equipa que tanto ganha um jogo como perde outro, uma equipa incapaz de se impor convenientemente, incapaz de sustentar um futebol de ataque, baseado na posse e circulação de bola, uma equipa, em última análise, pequena, sem ideias, esforçada mas irregular, lutadora mas irracional. Com Saleiro e Postiga, ainda que nenhum destes marcasse talvez tantos golos quantos Liedson, a equipa seria bem mais ofensiva, passaria bastante mais tempo com bola, seria capaz de construir mais jogadas de ataque, seria bem mais racional, bem maior. A resolução dos problemas actuais do Sporting começaria, portanto, aqui, na compreensão de que, com Liedson, jamais se erradicarão tais problemas.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Hexa

O Barcelona entrou hoje para a História do Futebol como a primeira equipa a ganhar as seis competições possíveis numa época: à Taça do Rei, à Liga Espanhola, à Liga dos Campeões, à Supertaça de Espanha e à Supertaça Europeia juntou agora o Mundial de Clubes, troféu que não conquistara ainda na sua História. Esta vitória é a consagração inevitável da melhor equipa de sempre na História do Futebol.

À homenagem gostaria, porém, de acrescentar algumas palavras de desapreço por aquilo que se passou em Abu Dabi. Não foi uma vitória fácil e o Barcelona conseguiu empatar a partida apenas em cima da hora, levando o jogo para prolongamento, durante o qual o viria a resolver. Para quem não assistiu à partida, haverá certamente a suspeita de que a equipa comandada por Guardiola sofreu bastante para conseguir alcançar o triunfo final. Sofrimento houve. Mas não o tipo de sofrimento que imaginam. É que o Barcelona, além de ter de lutar contra um conjunto de argentinos atrevidos, teve ainda de lutar contra uma arbitragem francamente tendenciosa. De outra maneira, só com muita simpatia dos catalães poderia uma equipa tão banal como o Estudiantes arrastar o jogo até prolongamento.

O Barcelona foi prejudicadíssimo pela arbitragem, mas não porque ficou um penalty claríssimo por marcar sobre Xavi, ainda a partida ia em 0-0, ou porque o golo dos argentinos foi obtido em posição irregular. Isso são erros pontuais e que acontecem em todos os campos, por esse mundo fora, e aos melhores árbitros. Nem o Barcelona precisaria da correcção desses lances para vencer a partida, se esta tivesse sido apitada competentemente. O Barcelona foi prejudicado, isso sim, porque do primeiro ao último minuto os argentinos puderam jogar à sul-americana, acertando nas pernas do adversário a cada disputa de bola, fazendo carrinhos assassinos a cada lance. E a quantidade de faltas que ficaram por marcar, com os catalães no chão e os argentinos a seguir a bola, foi uma coisa absurda. Não me lembro de uma arbitragem tão má desde os malogrados anos 90 em Portugal e não me lembro de uma equipa fazer tantos carrinhos num só jogo e sofrer um golo apenas no último minuto.

Para ser sincero, nem sequer acho que houvesse muita maldade da parte dos argentinos, mas aquilo que o árbitro foi concedendo dotou-os de uma arma quase invencível. Apoiando-se numa agressividade bem à margem das leis, conseguiam invariavelmente interromper os lances de ataque do Barcelona sem cair no risco de acumular faltas perto da sua baliza. E os catalães, procurando exercer o seu domínio através do futebol de posse e circulação a que nos habituaram, eram repetidamente travados por atropelos, por rasteiras, por empurrões, sem que isso lhes concedesse a compensação de um livre. Para o final, com o cansaço, as entradas dos argentinos passaram a ser mais ríspidas e ainda foram várias vezes admoestados com o cartão amarelo. Mas uma arbitragem honesta deixá-los-ia, ao fim de meia-hora, com menos dois ou três jogadores em campo e com maior parte dos restantes jogadores amarelados. Foi contra isto que o Barça teve de lutar.

Não creio que a arbitragem tivesse a intenção de prejudicar propriamente a equipa catalã. Acho, isso sim, que o estilo permissivo da arbitragem prejudica qualquer equipa que se destaque pela inteligência e pela técnica, uma vez que favorece o jogo agressivo do adversário. E é isso que tem de ser erradicado do futebol. Na última década, as arbitragens têm melhorado gradualmente a este nível e isto tem permitido ao futebol tornar-se um jogado muito mais elaborado. Esta arbitragem permitiu aos argentinos jogarem como se jogava há 20 anos, ou seja, numa altura em que vencia quem fosse mais agressivo, quem "comesse mais relva". Os argentinos correram tanto, esforçaram-se tanto, deram tanta porrada que por volta dos 70 minutos já não se mexiam. Acabaram por perder também pela estratégia que empreenderam, mas por pouco essa estratégia não lhes trazia proveitosos frutos.

Não acho, como disse, que o árbitro tenha agido de má fé, mas sim por manifesta incompetência. E essa incompetência foi de tal forma gritante que, para além de permitir o jogo duro e ilegal dos argentinos, ainda cometeu erros de apreciação que só podem comprovar essa mesma incompetência. Destaco dois lances patéticos que tornam evidente que esta arbitragem prejudicou o futebol técnico e de categoria do Barcelona e beneficiou a combatividade e a agressividade dos argentinos. No primeiro lance, ainda na primeira parte, já depois de suportar duas cargas à margem das leis, Ibrahimovic finca o pé no chão e protege a bola de um adversário que vem atrás dele. O adversário despenha-se com toda a força contra o sueco, com o intuito claro de prejudicar a sua acção de uma forma ilegal e, obviamente, não estando tão equilibrado e não tendo a força de Ibrahimovic, cai por terra, permanecendo o avançado do Barça com a bola. Por ordem do fiscal de linha, o árbitro assinala falta contra o Barcelona. O ridículo da situação não está só no facto de aquele que tem a posse de bola ter sido acusado de fazer falta a quem lhe tentou tirar a bola; está ainda mais no facto de, mesmo tendo a bola e levando porrada, mesmo tendo evitado a agressividade, ter sido penalizado por ter conseguido permanecer na posse de bola contra alguém que não teve outra intenção senão acertar nele. O segundo lance é já na segunda parte e é protagonizado por Henry. O francês consegue driblar o central do Estudiantes, na entrada da área, e é rasteirado. Antes de cair, consegue tocar a bola para Ibrahimovic, que se encontrava dentro da área e poderia ter dado seguimento à jogada. O árbitro não só não deu a lei da vantagem, o que possivelmente beneficiaria o Barcelona, como assinalou falta a favor dos argentinos e amarelou Henry. Confesso que, a não ser que agora ser rasteirado seja motivo para amarelo, não percebi a decisão. Se o árbitro tiver interpretado que Henry o tentou enganar, simulando uma falta à entrada da área, fica por explicar então por que razão ainda se teria esforçado para endereçar a bola para Ibrahimovic.

Após este segundo lance, viu-se Xavi com as mãos na cabeça, não acreditando no que estava a acontecer. A incompetência da arbitragem acabara de exceder todos os limites e o Barcelona parecia condenado. Felizmente para o futebol, já em cima do minuto 90, Pedro conseguiu igualar a partida e levá-la para prolongamento. Já com os argentinos a pagar a factura de um jogo jogado à máxima intensidade, o Barcelona dominou por completo e Messi, com o peito, selaria a vitória. A tendência da arbitragem acabou por não ser suficiente para uma equipa ridícula vencer este Barcelona. O Estudiantes, enquanto colectivo, foi francamente mau, aguentando o desafio até tão tarde apenas graças à permissividade do árbitro. Com marcações homem a homem demasiado cerradas e em quase todo o campo, uma equipa só se poderá aguentar contra este Barcelona se puder jogar repetidamente à margem das leis. Foi o que aconteceu. Os argentinos, pela deficiência posicional, chegavam sempre tarde aos lances, mas, como podia atropelar os adversários, essa deficiência não era preocupante. Assim, com os argentinos entregues a marcações ao homem em todo o campo e pressionando alto, o Barcelona não conseguiu jogar como habitualmente porque a sua capacidade para sair de zonas de pressão ficava invariavelmente posta em causa por aquilo que o árbitro permitia aos adversários e foi tendo problemas em conseguir circular a bola como tão bem faz. O triunfo acabou por lhes sorrir também porque os argentinos não conseguiram continuar a ser agressivos como no início e o árbitro não poderia ajudar de outra forma. Para bem do futebol, o Barcelona venceu. Mas arbitragens como esta deveriam ser seriamente punidas pelos dirigentes da FIFA. O futebol agradecia. E evitar-se-ia a possibilidade de um conjunto de cães com cio ganhar uma final à melhor equipa do mundo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Certezas (16)

No Arsenal estão alguns grandes jovens jogadores que importa referenciar no futuro. Para já, é relevante falar deste extraordinário avançado, até porque já apareceu há algumas épocas e o devido destaque ainda não lhe tinha sido feito neste espaço. É um jogador muito móvel, como é hábito nos avançados de Arsène Wenger, com uma capacidade técnica invulgar, rápido e, sobretudo, muito inteligente. Conheci-o durante o mundial de sub-20 de 2007, quando a sua selecção enfrentou a congénere portuguesa. Jogava na frente de ataque juntamente com aquele que era, no momento, a grande figura da sua selecção na altura: Giovani dos Santos. Desde logo, achei-o superior ao então jovem promissor do Barcelona. Essa superioridade não residia nos atributos técnicos, igualmente presente no craque do Barça, mas sim na maturidade, na inteligência, na forma adulta como compreendia o jogo e o levava para dimensões colectivas raramente presentes em escalões jovens. Fiquei impressionado, na altura, para além dos seus 18 anos, pela capacidade que tinha para jogar de costas para a baliza e em espaços curtos, encontrado boas soluções com relativa facilidade. Esta capacidade, e não os dribles estonteantes ou a força bruta, é a principal prova daquilo que um jovem jogador conseguirá fazer no futuro. Ao contrário de Giovani dos Santos, que impressionava os mais facilmente impressionáveis porque ia muitas vezes no drible e era muito explosivo, este jogador era mais fino, mais elegante com a bola, menos interessado em ultrapassar vários adversários e mais objectivo. Dois anos e qualquer coisa volvidos, parece quase inquestionável que o potencial de Giovani dos Santos está no seu limite e que os mais facilmente impressionáveis estavam enganados. Ao contrário do compatriota e ao contrário de grande parte dos jovens jogadores que são considerados promissores pelos atributos físicos e técnicos que demonstram precocemente, Carlos Vela tem um potencial infinitamente superior porque é inteligentíssimo e isso é tudo o que é necessário para expandir as suas capacidades ao longo da sua carreira.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Os erros de Sagna

No derby londrino do passado fim-de-semana, o Arsenal ambicionava aproximar-se do rival Chelsea. Para isso, precisava de vencer o desafio. Quem não viu o encontro, certamente pensará que o resultado final de 3-0 a favor dos "blues" expressa a supremacia do conjunto orientado por Carlo Ancelotti. Tal não foi o caso. O Arsenal, esta época, está a jogar muitíssimo bem e os deslizes que teve, até agora, podem ser explicados pelo azar, no caso do desafio contra o Manchester United, e pelos erros individuais de Clichy, frente ao Manchester City. Desta vez, o jogador a comprometer foi o lateral direito, Bacary Sagna, um jogador muito apreciado pelas suas capacidades ofensivas, mas que continua a denotar problemas defensivos gravíssimos. Em suma, o Arsenal dominava claramente a partida com o Chelsea, dispondo de várias oportunidades para marcar e sendo capaz de constantemente entrar nas linhas defensivas adversárias. O Chelsea raramente teve bola e as suas iniciativas ofensivas, até ao primeiro lance em destaque, eram pouco mais que nulas. No entanto, e apesar do domínio claro do Arsenal, o Chelsea viria a adiantar-se no marcador, graças a um erro individual, e adiantar-se-ia mais ainda logo depois, num auto-golo do infeliz Vermaelen. A história do jogo não é a de uma equipa superior a outra e que venceu expressivamente, mas a de uma equipa bastante superior, que atacou muito e bem, e a de outra que, nas primeiras duas vezes que consegue chegar à frente, faz dois golos. Os pragmáticos dirão que o Chelsea se mostrou mais determinado e que foi letal. Os sensatos dirão que tiveram sorte, sobretudo graças ao contributo de Sagna. Vamos aos dois lances que importa observar.



No primeiro lance, Sagna (que aparece ao fundo da imagem) está demasiado aberto em relação aos restantes colegas do sector defensivo. Assim, um passe que até era direccionado para Drogba, acaba por passar por entre Sagna e o central, caindo em Anelka, que passara nas costas do lateral francês sem que este conseguisse reagir condignamente. Bastava, para anular toda esta jogada, que Sagna tivesse defendido por dentro, ocupando um espaço mais central e deixando a linha para o compatriota Anelka. Sagna, talvez demasiado preocupado com a marcação ao homem, talvez desconcentrado, estava por isso mal posicionado e quando reagiu já era tarde. A jogada termina com o falhanço de Anelka, mas Sagna, como se não bastasse o erro inicial, ainda cometeu penalty, puxando o avançado do Chelsea e impedindo-o de concretizar nas melhores condições. Esta falta, para felicidade do Arsenal, passou em claro. Foi o primeiro lance de perigo do Chelsea na partida e estava dado o mote para o que se seguiria.

O segundo lance é o do primeiro golo do Chelsea, lance que determinou toda a partida. Com o Chelsea manietado atrás, raramente capaz de actuar em organização ofensiva e a sofrer para manter o nulo frente a um Arsenal muito competente na dinâmica ofensiva, só um lance pontual como uma bola parada ou um erro grosseiro poderia suscitar um golo para a equipa de Ancelotti. Foi precisamente o que aconteceu, uma vez mais com o contributo de Bacary Sagna. A linha defensiva do Arsenal está uns bons cinco metros atrás, mas ainda assim Sagna avança para ocupar um espaço onde a acção era perfeitamente inútil. Em vez de se manter na linha dos colegas, recuado e inviabilizando um passe entre si e Arshavin, que recuara para ajudar a defender, Sagna dá dois passos à frente, permitindo que a bola entre precisamente nessa zona. O passe provém de John Terry e, até por aí, se pode perceber que não foi extraordinariamente bem executado. Aquilo que permitiu, contudo, que se tornasse num passe providencial para o desfecho da jogada foi o mau movimento do lateral francês. Ao colocar-se onde se colocou, permitiu que Ashley Cole recebesse a bola numa zona privilegiada. Depois, o lateral inglês trabalhou bem e cruzou para Drogba, que apareceu muito bem na zona de finalização. Mas o mais difícil estava feito logo desde início. Sem grande elaboração, o Chelsea conseguiu introduzir a bola em zona de cruzamento e com a defensiva dos da casa a recuar, ou seja, com as condições ideais para uma boa finalização. Sagna, ao colocar-se horrivelmente, contribuiu de forma decisiva para aniquilar a boa pressão que o resto da equipa estava a fazer, constrangendo o Chelsea a procurar as linhas, onde supostamente seria menos perigoso.

Vistos os lances, gostaria de concluir reforçando uma ideia que costumo defender. Raramente aponto erros de carácter técnico a jogadores e não chamaria a atenção para estes lances se tal fosse o caso. Mas erros de concentração ou erros intelectuais são coisa para me irritar. O futebol espectacular do Arsenal, esta época, tem sido esmagador e só erros deste tipo têm contribuído para os poucos maus resultados da equipa. A jogar como estava a jogar, vergando o líder do campeonato, perder por causa de burrices destas devia ser coisa para deixar os nervos em franja a Wenger. O problema aqui é que me parece que o treinador francês, embora muito competente em vários aspectos do jogo e na capacidade de análise de atletas, tem um defeito crónico do qual continua sem se conseguir livrar e que tem a ver directamente com a fase defensiva da sua equipa. Embora este ano tenha abdicado do seu 442 clássico, fonte de problemas defensivos que impediam o Arsenal de ser uma equipa tão competitiva quanto o seu desempenho ofensivo merecia, Wenger continua a parecer-me um treinador pouco competente na fase defensiva do jogo. E aqui entra tanto a avaliação das características dos jogadores, preferencialmente jogadores rápidos e tecnicamente evoluídos, mas muitas vezes sem cérebro para conseguirem ler adequadamente os lances, como é o caso de Sagna, como a própria postura defensiva da equipa, muitas vezes negligente em termos tácticos. O Arsenal de Wenger, defensivamente, é uma equipa que não ocupa bem os espaços, que raramente mantém a linha de quatro defesas bem formada e com os jogadores bem próximos entre si. Não havendo uma preocupação vincada em relação a isso, é natural que depois os jogadores se sintam tentados a atacar zonas que não devem e a ocupar espaços consoante os adversários e a posição da bola. Sagna deixa muito a desejar na leitura dos lances e no posicionamento defensivo, mas Wenger, apesar de todas as competências que lhe reconhecemos, não pode ficar ilibado de responsabilidades quando os comportamentos defensivos dos seus jogadores se manifestam tão anárquicos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Milevsky

É certo que o devido destaque ao extraordinário avançado do Dinamo de Kiev teima em em ser adiado e o jogador permanece longe dos principais palcos do futebol mundial. Aliás, com a exclusão da Ucrânia do próximo mundial, será, a par de Ibrahimovic, Berbatov, Modric, Rosicky e Arshavin, uma das principais ausências do certame a realizar na África do Sul. Artem Milevsky não é um avançado típico de área, com inclinação apenas para a finalização. Daí o destaque feito neste espaço. Há muito que lhe sigo as pisadas e que me regozijo com o seu futebol. Chegou a ser falado para o Sporting, mas o avultado preço do seu passe inviabilizou a contratação. Na altura, pareceu-me que seria um investimento grande, mas pouco arriscado, dado o potencial que já lhe reconhecia. Nos últimos dois anos, confirmou tudo o que esperava dele. A classe e a inteligência são as suas principais características. A jogar de costas para a baliza, é dos melhores do mundo e faz lembrar, em larga medida, Dimitar Berbatov. A capacidade de perceber o jogo e de se relacionar com os colegas é altamente invulgar. A calma e a competência técnica fazem o resto. É daqueles jogadores em quem os médios sabem que podem confiar, colocando-lhe a bola nos pés; daqueles de quem se espera, mesmo que rodeado de adversários, que resolva sempre bem, encontrando a melhor solução para dar continuidade a uma jogada de ataque. Milevsky é o típico avançado que o Entredez aprecia, um avançado que se faz valer pela forma como contribui para todo o processo ofensivo e não apenas para a finalização do mesmo, um avançado que permite à equipa uma maior variedade de soluções e uma capacidade natural para progredir através de passes verticais rasteiros, funcionando como âncora ofensiva. A forma como serve de referência, parecendo procurar sempre linhas de passe e sabendo sempre encontrar a melhor solução depois de receber a bola, fazem dele um ponto de apoio óbvio para a equipa onde jogue e uma solução regular, quer em transição, quer em ataque organizado. Com estas características, há poucos avançados da sua qualidade. É por isso que me faz alguma confusão que ainda não tenha despertado a cobiça de emblemas mais conceituados. Numa altura em que o Arsenal parece carenciado de avançados de um certo tipo, nomeadamente avançados mais estáticos e capazes de segurar a bola de costas para a baliza, como tão bem o fazia Adebayor, estando essencialmente servido por avançados mais velozes e móveis como Eduardo da Silva, Carlos Vela, Arshavin, Walcott e Van Persie, e numa altura em que o holandês, a principal referência do ataque neste início de temporada, está lesionado, acredito que Milevsky assentaria perfeitamente no modelo dos londrinos e traria à equipa comandada por Arséne Wenger um acréscimo de qualidade assaz relevante. A mim, para quem o futuro de Milevsky sempre pareceu risonho, uma transferência desse tipo traria enorme satisfação: seria a oportunidade de ver com mais regularidade um avançado de grande qualidade e seria o reforço ideal para uma equipa à qual me parece que só falta mesmo um jogador destas características para poder surpreender tudo e todos esta temporada.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Evolução a frio...

Na anterior ronda da Champions, vimos o conjunto de Guardiola realizar uma exibição que apelou a um grande esforço dos catalães. E este esforço tem uma relação exígua com factores externos à equipa do Barcelona.

Perante um adversário que procurou acima de tudo tapar os caminhos da sua baliza, os campeões europeus fizeram uma primeira parte de uma qualidade e concentração irrepreensíveis. O jogo posicional da equipa espanhola, com os sectores sempre juntos, e um notável critério no passe permitiu-lhes jogar os primeiros 45 minutos em cima do adversário sem, no entanto, se exporem a qualquer situação de perigo por parte da equipa russa. E foi neste último aspecto que encontrei motivos para dissertar sobre o dito encontro.

Se, por um lado, o jogo posicional e a excelente qualidade da posse e circulação de bola já não espanta ninguém, a maneira como o conjunto catalão conseguiu impor o seu estilo a um conjunto que "defende" uma cultura tão antagónica à sua foi um sinal inequívoco de uma equipa sem limites no que toca à evolução do seu modelo de jogo. É verdade que os altos níveis de concentração apenas duraram 45 minutos, mas, deste jogo, o Barcelona, mais do que perder dois pontos, evoluiu. Evoluiu com a experiência que lhe foi proporcionada durante a partida. Por mais que se treine, por mais que se incuta nos jogadores as dinâmicas que são pretendidas, só mesmo perante grandes adversidades eles podem evoluir e melhorar os seus conceitos de jogo.

A maneira como o Barcelona desmontava o "ferrolho" adversário (que começava com os seus dois avançados na linha de meio-campo, oscilando em função da bola, tentado cortar as linhas de passe para os médios no corredor central, ou criando superioridade nas linhas, para, desta forma, impedir a progressão compacta que caracteriza os catalães) foi perfeita. Sem precipitações, ou ansiedade, rodavam o esférico até conseguirem a linha de passe mais "sólida", não caindo na tentação de procurar em demasia, através do jogo directo, Ibrahimovic.

Seriam certamente poucas as equipas a conseguir, durante todo o jogo, o mesmo número de ocasiões que o Barcelona, perante um conjunto que simplesmente se dedicou a um único momento de jogo, alcançou. E isto sem se desequilibrar (a única vez que o conjunto russo logrou visar a baliza catalã com algum perigo foi no seguimento de um pontapé de canto... do Barcelona). Mais do que uma equipa de futebol ofensivo, o Barcelona é, cada vez mais, uma equipa "brutal" em todos os seus momentos.

Se há algo de importante a retirar deste jogo, não é o resultado, mas sim a capacidade do Barcelona em evoluir a cada adversidade com que se depara. E isto só é possivel porque a equipa respeita a sua identidade, o seu modelo. É desta "massa" que se fazem grandes equipas, grandeza essa que encontra fundamento na capacidade que têm para evoluir a cada jogo.

Ponto de viragem?

O Sporting vive, neste momento, uma fase extremamente importante. Mais do que tentar salvar a época, é imperativo que a equipa leonina encontre um treinador que a possa colocar no rumo certo. Não será fácil, mas acredito que existem soluções que podem catapultar o clube de Alvalade para um patamar superior.

Não acredito que os treinadores devam procurar o melhor modelo para os seus jogadores; antes devem procurar o modelo que serve melhor a concepção que detêm sobre o jogo. Posto isto, o que os dirigentes leoninos devem ter em consideração é a filosofia do treinador que vão escolher. Devem procurar alguém com um modelo que permita ao clube leonino voltar ao trilho do sucesso, cujo estilo, por defeito, valorize os activos do Sporting. E isto não pode ser feito senão através de um estilo que valorize a inteligência dos seus jogadores.

Vendo as soluções ventiladas para suceder a Bento, a melhor solução, no meu entender, surge através de Villas Boas. Só porque o seu nome está associado a tudo o que representa Mourinho? Não. Porque Vítor Pontes também tem uma forte ligação com o "Special One" e dificilmente o veria como uma solução que pudesse servir da melhor forma o clube leonino.

Baseio-me nos jogos que tive a oportunidade de ver da Briosa. É cedo? É. No entanto, os princípios que têm servido de base às exibições da Académica são os melhores. A Académica é uma equipa que revela organização em todos os momentos do jogo, privilegiando a posse do esférico, procurando sair sempre de forma apoiada, obrigando os extremos a jogar mais por dentro. Enfim, procura-se que todas as acções sejam verdadeiramente colectivas. Este factor retira alguma "objectividade" à equipa, impedindo que seja mais rápida nas situações de contra-ataque. No entanto, torna a equipa mais forte no momento ofensivo, assim como retira vulnerabilidade às transições ataque-defesa da sua equipa. Outra coisa que me impressiona é a constante criação de apoios efectuada por toda a equipa. Não é responsabilidade de um ou dois jogadores, mas sim de toda a equipa. Resumindo, é um modelo que não relega para segundo plano a capacidade dos seus elementos em relacionar-se entre si, sempre em função das linhas gerais que guiam a consciência colectiva da equipa. E que melhor modelo, que não este, para fazer crescer jogadores como Pereirinha, Adrien, Carriço, Rosado, André Martins, Rui Fonte, Diogo Amado, Pedro Mendes, ou até, porque não, João Moutinho, Veloso, etc.?

sábado, 7 de novembro de 2009

Napoleão joga em Alvalade?

Há fármacos - disseram-me há tempos - que atenuam certas doenças mentais. Dedicar-se, por isso, à droga, era capaz de ser uma boa ideia para muito bom jornalista. É o caso de Nuno Madureira, autor deste brilhante artigo de opinião, no MaisFutebol. O jornal já nos habituou à demência dos seus opinadores, mas nunca é demais referir certos casos. Este vale francamente a pena, até porque assenta numa opinião amplamente difundida por mais de metade dos malucos que têm opiniões sobre futebol.

O que Nuno Madureira tenta fazer é explicar de forma simples o problema que se abateu sobre o Sporting. Acontece que só procura explicar coisas complexas de forma simples quem não tem muito juízo. Assim, a manifestação das perturbações mentais de Nuno Madureira começa logo com a sua primeira frase:

"Há muitas maneiras de enumerar os problemas do Sporting. Uma das mais básicas e directas resume-se a uma frase: afinal, Liedson é humano."

A falta de siso começa logo com um problema no discurso. Nuno Madureira diz que há várias formas de enumerar problemas e propõe-se a enumerá-los numa frase, mas depois não enumera nada e resume uma enumeração de várias coisas a apenas uma coisa. O resto deve ter-se, certamente, perdido pelo caminho. Mas antes de ler o resto do artigo, adivinhamos logo que o problema mental do senhor tem por origem uma desilusão relacionada com a natureza de Liedson. Ao que parece, a precipitação do estado de demência ter-se-á ficado a dever à descoberta de que o enormíssimo jogador brasileiro era, afinal, apenas um humano. Convém dizer que nem toda a gente está mentalmente preparada para descobertas deste tipo. Mas eis que prossegue a demonstração de loucura:

"Quantas vezes, nas últimas épocas, a uma exibição mediana - ou medíocre, ou mesmo má - do Sporting, se seguiu a entrada em cena do 31, aparecendo do nada, para resolver o jogo e atenuar as diferenças para a concorrência?"

Posso estar enganado, mas não me lembro de uma única ocasião em que Liedson tenha aparecido "do nada", a fintar os onze adversários e a fazer golos. Mas como não tinha por hábito assistir aos treinos dos leões, posso estar a fazer juízos precipitados. Continuemos:

"De tanto habituar os seus adeptos - e os dos adversários - a um rendimento superlativo, semana após semana, o «levezinho» construiu nos últimos anos, por mérito próprio, uma imagem de super-herói."

Superlativa é a pancada deste senhor; super-heróis foram os pais dele, que tiveram que lhe aturar a estupidez. Adiante:

"Agora, que a sua inacreditável regularidade conhece uma quebra consistente e prolongada - dois golos em nove jornadas, o último há mais de mês e meio - tudo o que andava disfarçado, ou atenuado, parece mais evidente."

Agora?? Mas é a primeira vez que o rapaz fica muito tempo sem marcar?? E quantos jogos resolveu o Sporting nesse mês e meio, sem Liedson? Comecemos pelo fim: foi Saleiro quem marcou frente ao Venstpils, dando o empate; foi Matías Fernandez quem marcou frente ao Guimarães e frente ao Marítimo, o que valeu, das duas vezes, um empate; foram João Moutinho e Miguel Veloso quem marcaram na vitória ante o Ventspils; foram João Moutinho, Daniel Carriço e Vukcevic quem marcaram na vitória frente ao Olhanense; foi Adrien Silva quem marcou na vitória ante o Hertha de Berlim. O problema é mental, mas também é de memória. E de matemática, já agora. O que "andava disfarçado, ou atenuado" e que agora é evidente é que doentes mentais não têm competência para serem jornalistas. Continua Nuno Madureira, dizendo:

"A equipa tem poucas soluções tácticas alternativas? Sim, como sempre teve."

O senhor Nuno Madureira tem poucas ideias que não sejam idiotas? Sim, como sempre teve.

"Falta qualidade individual em quase todos os sectores? Sim, de há muito tempo para cá."

Falta qualidade individual a cada uma das sinapses deste senhor? Sim, é provável que falte.

"Paulo Bento repete receitas e discursos, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez também nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas."

Nuno Madureira repete sentenças populares e discursos de massas idiotas, sem um rasgo de novidade? Sim, como o fez nos anos em que, sucessivamente, superou as expectativas e conseguiu completar um curso superior. Mas eis o que diz no último parágrafo:

"A maior diferença - não a única, claro - é que noutras épocas o Sporting tinha um fenómeno a ponta-de-lança."

Um fenómeno? Mas um fenómeno natural? Era o El Niño? Ia jurar que esse jogava no Liverpool. E será permitido por lei fazer alinhar, no onze inicial, furacões, anti-ciclones, tsunamis e fenómenos dessa natureza?

"Nesta altura, tem apenas um excelente avançado, a lutar para recuperar os superpoderes."

Agora sim, percebo o que o senhor quer dizer. Na cabeça de Nuno Madureira, Liedson é o Super-Homem e o problema do Sporting é que ninguém consegue descobrir onde é que o Lex Luthor pôs a Kriptonyte. Será isso? E Nuno Madureira conclui a sua análise ao problema do Sporting do seguinte modo:

"Afinal, Liedson é humano. E o Sporting não estava preparado para lidar com isso."

Como se depreende, para Nuno Madureira, a humanidade de Liedson estragou os planos ao Sporting. A equipa estava preparada para jogar com dez seres humanos e uma entidade divina, mas a partir de agora vai ter de passar a jogar só com onze seres humanos. E isso, de facto, é um problema, visto que mais nenhuma equipa no campeonato português joga só com onze seres humanos. Aliás, vai ser muito difícil ao Sporting continuar a ser competitivo num desporto como o futebol, em que poucas são as equipas que não têm três ou quatro alienígenas, dois ou três veículos de guerra e um alguidar.

Resumindo, todo o maluco que se preze pensa que é Napoleão. Nuno Madureira é um maluco mais sofisticado. Está convencido de que Liedson é Napoleão. Isto se não estiver convencido de que é Napoleão quem é Liedson. Repito as primeiras palavras do texto: "há fármacos que atenuam certas doenças mentais." É capaz de ser altura, até porque vem aí o Natal, de oferecer ao senhor Nuno Madureira um colete de forças e umas férias pagas no Miguel Bombarda. Ou isso ou autógrafo de Deus... perdão, de Liedson.

P.S. Um bom fármaco contra este tipo de maluquice em particular e que ajuda a compreender os verdadeiros problemas do Sporting é o texto que escrevi a 31 de Julho de 2009 e que pode ser encontrado aqui. Aconselha-se a sua ingestão, duas vezes ao dia, durante três meses e vinte e sete dias...