terça-feira, 21 de julho de 2009

Técnica: um Atributo Mental

Serve o presente texto de argumento contra a ideia de que é possível perder técnicas. Nele tentarei expor aquilo que entendo por técnica e rebater a ideia, aparentemente querida de muita gente, de que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, perdeu atributos técnicos. A extensão do mesmo resulta da complexidade do assunto e da dimensão filosófica pela qual decidi enveredar.

Coisas que não se esquecem


Por que razão, depois de aprendermos a andar de bicicleta, nunca mais desaprendemos? Por que é que, depois de se aprender a fazer malabarismo com três bolas, nunca mais se desaprende? Como é que conseguimos falar ao telefone e conduzir ao mesmo tempo? Por que é um canhoto consegue escrever tão bem com a mão esquerda e parece um deficiente mental com a direita? A resposta a estas perguntas tem um denominador comum: a técnica. Aprendemos uma técnica e, ao contrário do que querem crer algumas pessoas, nunca mais a voltamos a perder. Ter uma técnica ou ser capaz de uma habilidade consiste num processo de aprendizagem mental, processo esse que, uma vez concluído, fica "gravado" em nós, muito possivelmente na parte subconsciente do nosso cérebro. O acesso a essa "gravação", nestes casos, será imediato e instintivo. Executamos todas estas técnicas sem raciocinar, sem pensar se o estamos a fazer bem, mas de uma maneira natural. Isto ainda que, numa determinada altura da vida, não fôssemos capazes de fazê-lo. Noutros casos mais complexos, o acesso à "gravação" pode ser mais demorado e pode requerer, por falta de prática, uma determinada afinação.

No caso do futebol, a aquisição da técnica é um processo gradual, de constante modificação e aperfeiçoamento da relação entre indivíduo e bola, que é obviamente influenciado pelo crescimento do corpo. Durante o crescimento, a relação com os objectos tem de ser constantemente reavivada, pois o corpo, conforme vai crescendo, vai alterando a forma como reage aos estímulos. Ao contrário do que muita gente pensa, ser alto não é sinónimo de ser tosco. É verdade que o facto de ter um centro de gravidade mais baixo permite outras coisas aos jogadores, mas permite sobretudo agilidade, velocidade de reacção. É perfeitamente possível que um jogador alto seja tão dotado tecnicamente quanto um jogador baixo e há inúmeros casos de jogadores prodigiosos a nível técnico que não tinham um centro de gravidade baixo: Zidane, Riquelme, Ibrahimovic. Assim, a técnica não depende de uma certa estrutura morfológica, mas sim de um processo aquisicional. O facto de os jogadores altos, de uma maneira geral, terem menores competências técnicas não se explica pelo seu corpo, mas sim pela forma como o seu corpo cresceu. É portanto uma questão do foro da história do crescimento e da relação que se mantém, ao longo do crescimento, com o corpo. Maior parte dos jogadores grandes que são toscos terão tido, por certo, um crescimento gradual. Uma vez que o seu corpo cresceu de forma progressiva, não se estabelecia durante muito tempo de maneira a que desse tempo ao atleta para perceber exactamente como o seu corpo funcionava, o que, por fim, gerou um futebolista com competências técnicas abaixo do desejado. Por outro lado, os atletas cujo crescimento foi mais abrupto, tiveram mais tempo, em cada uma das fases de crescimento, para se relacionar com o seu corpo e para adquirir uma técnica aceitável. Por exemplo, dificilmente o crescimento de Ibrahimovic terá sido uma coisa gradual. O mais certo é ter crescido por etapas, muito de cada vez, o que lhe deu tempo para se aperceber das faculdades motoras ao seu dispor e para desenvolver uma competência técnica que, de outro modo, não poderia desenvolver.

Ter técnica é, pois, ter adquirido uma determinada competência mental. Aceder a essa competência mental, porém, não é um processo automático e depende muito da natureza da própria competência. No caso de andar de bicicleta, provavelmente porque envolve menos coisas e porque o aperfeiçoamento é menos exigente, temos poucos problemas, mesmo que o nosso corpo sofra modificações significativas. No caso do futebol, porque envolve muito mais coisas, porque implica não só a relação com o próprio corpo como a relação com uma bola e com um jogo muito específico e complexo, o acesso à técnica pode ser mais complicado. Mas detenhamo-nos, para já, em dois exemplos: bater livres e fazer truques com a bola. Estes dois exemplos são peculiares porque eliminam boa parte das variáveis que tornam o futebol um jogo cuja competência técnica depende de muita coisa. No caso dos livres, um jogador aperfeiçoa a sua técnica ao longo da carreira. Aperfeiçoar a técnica de bater livres é aperceber-se, gradualmente, das melhores condições para ter êxito nessa actividade. Ao longo do processo de aprendizagem, o jogador vai retendo as condições ideais de equilíbrio, a posição do corpo no momento de tocar na bola, o ponto específico da bola no qual deve acertar, a potência que deve dar ao remate, etc. Essa retenção nunca mais desaparece, embora o seu acesso possa não ser imediato. A interrupção da prática constante de bater livres pode tornar o acesso às condições ideais para o fazer mais complicado. Mas, nesse caso, é uma questão de retomar a prática constante, que "aviva" de certo modo a "gravação" do processo técnico. É por isso que, mesmo em idades avançadas, em idades em que já perderam grande parte das faculdades físicas, maior parte dos exímios marcadores de livres continuam exímios marcadores de livres. Lembremo-nos de André Cruz, por exemplo. Não passa pela cabeça de ninguém, certamente, que David Beckham algum dia deixe de ser periogoso a bater livres, sofra o seu corpo as alterações que sofrer (desde que essas alterações não impeçam que continue apto para praticar futebol ao mais alto nível). De igual modo, fazer truques com uma bola depende de uma aquisição técnica que não se volta a perder. Fazer a chamada "volta ao mundo" só custa antes de sabermos fazê-la. Depois de aprendermos a técnica, sai naturalmente, porque "gravamos" as condições ideais para a sua execução. Nestes dois casos específicos, a execução perfeita pode ser afectada pela ausência de prática, mas nunca existe um esquecimento do que foi adquirido mentalmente.

A aquisição de uma técnica é, por isso, segundo esta defesa, um processo irreversível. Uma vez adquirida, temo-la para sempre. O que pode mudar é o acesso a essa técnica, sendo que este pode ser influenciado pela regularidade do acto de aceder a essa técnica, ou seja, a prática dessa técnica, ou pela modificação dos estímulos que nos fazem aceder à técnica. Um atleta, ao modificar o seu corpo, modifica a relação que tem com ele. Por outras palavras, modificará a forma como capta os estímulos exteriores. Ora bem, era aqui que pretendia chegar. Um jogador, ao modificar o seu corpo, não perde faculdades técnicas. O que acontece é que põe em conflito uma determinada "gravação", ajustada para responder de determinada maneira em função de um conjunto de estímulos específico, com um corpo que, por estar diferente, é estimulado de forma diferente. O novo conjunto de estímulos, uma vez que é diferente, não conduz à mesma "gravação" e tem de haver, nesta altura, uma readaptação da "gravação" ao novo conjunto de estímulos. Essa readaptação não constitui necessariamente, todavia, uma perda da "gravação" anterior. Trata-se somente de um ajuste.

Terá Cristiano Ronaldo perdido Técnica?

Dito isto, há quem defenda, muito seriamente, que Cristiano Ronaldo, ao modificar o seu corpo, tornando-o mais potente, perdeu faculdades técnicas. Por tudo o que foi dito acima, não concordo com isto. Perdeu, certamente, alguma coisa, mas nada do que perdeu é técnica. Terá perdido agilidade, capacidade de reacção, reflexos. Nada disto é técnica. São coisas, é certo, que podem participar do acesso à técnica. Mas não são a técnica em si. Podem facilitar a sua execução, mas não são, em concreto, a técnica. Aliás, no caso de Cristiano Ronaldo, a importância destas faculdades na sua técnica era até diminuta. A sua técnica nunca foi apurada ao ponto de necessitar do máximo de agilidade ou do máximo da capacidade de reacção imediata. Nunca foi forte, por isso, em espaços curtos; o seu drible curto estava pouquíssimo trabalhado, a sua capacidade para proteger a bola em condições espaciais reduzidas nunca foi relevante, etc. Assim, a perda necessária de algumas dessas características terá até tido uma participação diminuta na readaptação dos novos estímulos corporais à técnica pré-existente.

Ronaldo não perdeu a técnica que tinha, nem sequer perdeu capacidade individual, o que é muitas vezes confundido com "técnica". E isto por uma razão simples: aquilo que perdeu não era, já antes, predicado necessário na capacidade individual que tinha. A sua capacidade individual era manifestada mais pela potência do que pela agilidade ou pela velocidade de reacção. A competência individual de Ronaldo sempre dependeu da sua potência muscular e não dos seus atributos técnicos. Há, de facto, diferenças, mas elas não têm necessariamente a ver com técnica. O Ronaldo de antes fazia meia-dúzia de truques quando encarava os adversários no um para um, mas o factor que desequilibrava era sempre a sua explosão, a velocidade com que saía do drible. E isto ele não perdeu. Pelo contrário, a sua potência muscular actual permite-lhe ser mais forte até neste pormenor. A única diferença é que agora, antes de fazer valer a sua potência muscular, já não recorre a tantos malabarismos. E não porque não seja capaz de fazê-los (ainda que, muito provavelmente, a velocidade com que os executava não possa ser a mesma), mas antes porque percebeu a pouca importância dos mesmos no desfecho do duelo individual. Aquilo que mudou em Ronaldo foi o seu comportamento perante as situações. Ao ganhar experiência, percebeu que o recurso determinante era a forma como saía do drible e não tudo o que antecedia esse momento. Por isso, passou a conceder cada vez menos espaço aos artifícios técnicos e a dar prioridade ao arranque, à explosão, à mudança de velocidade, à velocidade de ponta. Nada disto implica que tenha perdido técnica.

Tem sido usada, para reforçar a tese de que que Cristiano Ronaldo perdeu competências técnicas, a entrevista de Nuno Amieiro a Vítor Frade, publicada no blogue Falemos de Futebol. Não tenho quaisquer problemas com as concepções teóricas veiculadas nessa entrevista e concordo que a aquisição de algumas coisas implica a perda de outras. Mas não considero que isso se passe ao nível da técnica porque simplesmente considero a técnica como um atributo próprio (ainda que, na sua formação, possa ser influenciado por um conjunto de atributos) e não uma soma de atributos. Tentando ser o mais analítico possível, aqueles que defendem que a alteração de atributos como a agilidade, a força, a velocidade, a potência muscular, os reflexos e a capacidade de resposta a estímulos, só para dar alguns exemplos, alteram a competência técnica do atleta não podem crer que exista uma coisa chamada "técnica". Essas pessoas acham que a "técnica" é uma substância predicada pela soma dos seus atributos, sendo esses atributos os acima mencionados. Neste sentido, a técnica seria uma entidade abstracta e o atleta mais competente a nível técnico seria aquele que reunisse o melhor equilíbrio entre os diferentes atributos mencionados. Ao contrário desta hipótese, considero a técnica um atributo em si e não uma substância. Isto é, para mim, a técnica é um atributo como os outros, conquanto de natureza diferente. É esta diferença de natureza que é necessário investigar.

A natureza relacional da Técnica

Atributos como a agilidade, a força, a potência muscular e afins são atributos que podem ser treináveis não-especificamente. Isto é, dependem apenas do indivíduo. Por outro lado, uma técnica, qualquer que seja, depende sempre da relação entre um indivíduo e um objecto. Equilibrar pratos no nariz, andar de bicicleta ou dançar requerem técnicas que só podem ser treinadas com o objecto sobre o qual se debruçam, respectivamente pratos, bicicletas e ritmos musicais, e também sob uma determinada forma de usar esses objectos. Nesse sentido, enquanto os outros atributos são especificamente atributos corporais, uma técnica é um atributo mental cuja execução é mediada pelo corpo. Adquirir uma técnica é, por isso, diferente de adquirir agilidade ou velocidade. Fica, portanto, evidente que a natureza de uma técnica é diferente da natureza de outro tipo de atributos. Falta explicar por que razão considero que essa diferença de natureza não faz da técnica uma substância predicada por vários atributos, mas sim um atributo como tantos outros. Se a técnica fosse uma substância, isto é, uma entidade abstracta que mais não é que um conjunto de vários atributos arranjado de uma forma específica, teria de poder ser treinável de forma descontextualizada, isto é, sem a presença do objecto sobre o qual essa técnica se debruça. Mas ninguém aprende uma técnica sem prática. Para aprender a técnica de andar de bicicleta é preciso andar de bicicleta. Logo, se aprender uma técnica depende do contacto com o objecto sobre o qual essa técnica se debruça, é impossível que ela seja apenas a soma de determinados atributos que não têm uma relação específica com esse objecto. Pelo contrário, a técnica é um atributo mental que se origina pela prática, isto é, que radica unicamente na relação entre indivíduo e objecto. Todo o ser humano adulto aprendeu, em determinada altura da vida, a andar. Andar é uma técnica porque consiste unicamente na relação entre um indivíduo e uma superfície. E é nessa relação e não nos dois pólos (indivíduo e objecto) que jaz a competência técnica.

Ao contrário, portanto, de muitos outros atributos, a técnica é essencialmente um atributo mental, um atributo cuja natureza é relacional e não intrínseca. Para que tudo isto seja coerente, tenho de defender que nenhuns dos atributos mentais são perecíveis. É o que pretendo. A técnica é um atributo semelhante à memória. Quando dizemos que memorizamos algo estamos a mentir. Memorizamos, isso sim, uma impressão de algo. E uma impressão é a relação entre um indivíduo e o algo que impressiona. A natureza da memória é, pois, igualmente relacional. Será que as memórias se perdem? Não creio. Acredito que retemos toda a experiência que acumulamos, (ou grande parte dela, pelo menos) ainda que não tenhamos consciência disso e ainda que certas coisas sejam mais difíceis de relembrar do que outras. Quando achamos que algumas das nossas memórias são pouco claras, não será apenas o acesso a elas que é deficiente? Há técnicas, como a hipnose, que nos permitem aceder a lembranças a que, de outra forma, nunca conseguiríamos aceder. Será, por isso, pelo menos legítimo afirmar que o que se modifica com o tempo é o acesso à memória e não a memória em si. E o mesmo se poderia passar com uma técnica: aquilo que se altera ou danifica é o acesso à técnica e não a técnica em si. O funcionamento de uma memória é assim muito semelhante ao funcionamento de uma técnica. Se exercitarmos recorrentemente uma memória, mantemos intacta a relação entre indivíduo e objecto. Da mesma maneira se mantém intacta essa relação, se exercitarmos recorrentemente uma técnica. Indo mais longe, possuir uma técnica consiste em possuir uma memória de uma relação entre o indivíduo e o objecto sobre o qual se debruça a técnica. Possuiremos sempre essa técnica, embora seja possível que nem sempre a tenhamos afinada, pelas mais variadas razões.

Há, porém, uma diferença relevante entre memórias e técnicas. Ao contrário do que acontece com uma memória, exercitar uma técnica depende daquilo que medeia a relação entre indivíduo e objecto, ou seja, o corpo. Seria possível, portanto, defender que, sendo o corpo precisamente o instrumento pelo qual se estabelece a relação entre indivíduo e objecto, relação essa que é a própria essência da técnica, qualquer alteração nesse instrumento resultaria numa necessária alteração da técnica. Discordo. A técnica mantém-se intacta. O que se modifica são os estímulos. Pensemos no exemplo de um pintor que tem por hábito pintar ora com os dedos ora usando pincéis. Se, por questões profissionais, estiver um ano a pintar com pincéis, perderá o jeito, a habilidade, a técnica de pintar só com os dedos? É óbvio que não. Poderá a sua prática estar enferrujada, mas a técnica não a perde, seguramente. E não consistirão, porventura, pintar com pincéis e pintar com os dedos duas técnicas diferentes, podendo o pintor dominar as duas? Penso que não. E penso que não porque o objecto sobre o qual se debruça a técnica de pintar não é nem o lápis, nem o pincel, nem os dedos. A técnica de pintar consiste na relação entre pintor (indivíduo) e tela (objecto). Os dedos e os pincéis são o corpo, isto é, aquilo que medeia a relação entre pintor e tela, sendo que o pincel é uma extensão do corpo na mesma medida em que uma caneta é uma extensão do corpo na técnica de escrever. Dito isto, é evidente que pintar com os dedos produz efeitos diferentes de pintar com pincéis. Mas o que produz esses efeitos diferentes é tão-somente a execução da técnica, que tem logicamente de ser diferente, pois é mediada de forma diferente. Assim, uma mesma técnica pode ter diferentes execuções, consoante o instrumento (e as potencialidades desse instrumento) através do qual se materializa a sua execução, mas não se modifica. Isto não implica que quem domina uma técnica seja capaz de executá-la das mais variadas formas. Como já ficou dito acima, uma técnica não se aperfeiçoa descontextualizadamente, mas pela prática. E praticar é executar a técnica, dependendo a execução do instrumento que se usa.

Ora bem, um pintor que tenha passado toda a vida a pintar com os dedos terá dificuldades, no imediato, em exprimir a sua técnica através do uso de um pincel. Mas aprender a usar um pincel não é o mesmo que aprender uma técnica. É uma questão meramente instrumental e requer apenas uma ligeira habituação. É certo que as potencialidades de pintar com pincéis são diferentes das potencialidades de pintar com os dedos, mas a técnica de desenho será igual nos dois casos. O que varia é a forma como essa técnica é colocada em prática e não a técnica em si. Um jogador de futebol, ao "engrossar", modifica a relação que tem com o corpo. Perde agilidade, reflexos, rapidez de execução. Ou seja, altera o instrumento através do qual executa a técnica que possui. Mas nada disto é técnica. A perda destas coisas pode implicar uma execução deficiente da técnica que possui, já que essa técnica está programada para reagir a estímulos diferentes daqueles que agora são captados. Mas da perda dessas coisas não se segue uma perda de técnica. O que ocorre é um conflito, um desajuste entre um conjunto de estímulos desconhecido e uma técnica conhecida e preparada para um determinado conjunto de estímulos específico. Este novo conjunto de estímulos, embora desconhecido, não irá requerer uma nova aprendizagem e não irá produzir uma nova técnica. Isso seria admitir que a mais pequena transformação corporal destruiria por completo a técnica pré-existente. O que vai acontecer é que este novo conjunto de estímulos irá ter de aprender a aceder à técnica já existente. Dessa aprendizagem, dessa habituação, não resultam perdas de técnica, pese embora as potencialidades não sejam as mesmas. Tal como um pintor, ao pintar com os dedos, não tem ao seu dispor as mesmas potencialidades que tem ao pintar com pincéis, um jogador de futebol, ao "engrossar", tem potencialidades diferentes. Provavelmente, não conseguirá executar aquilo que tem em mente com tanta rapidez, pois possuirá menos flexibilidade. Mas também é provável que consiga executar aquilo que tem em mente com mais potência. Assim, não é a técnica que se perde ou se altera; o que sofre modificações é a forma como essa técnica é executada. A execução de uma técnica corresponde àquilo a que chamei "acesso" a uma técnica. Esse acesso pode ser dificultado por ausência de prática, que no fundo é tornar menos presente a relação entre indivíduo e objecto, ou por alterações no indivíduo ou no objecto, o que implica alterações na relação entre os dois. Ultrapassar esta última dificuldade implica, como tentei demonstrar, um ajuste. "Engrossar" não implica, portanto, uma perda de competência técnica, mas um ajuste dessa competência técnica, ajuste esse que só pode ser conseguido pela prática da técnica. Ajustar uma determinada competência técnica passa então por aplicar a técnica pré-existente aos novos estímulos propiciados pela nova relação entre indivíduo e objecto.

Técnica e Talento

Falta dedicar, por fim, algumas palavras em relação à diferença entre técnica e talento. Por técnica entendo, como penso ter ficado claro, a relação de um indivíduo com um objecto, relação essa que é orientada para uma determinada finalidade. Assim, o mesmo indivíduo e o mesmo objecto podem originar técnicas diferentes, mediante a finalidade a que se proponha a própria técnica: um homem pode relacionar-se de diferentes maneiras com uma caneta, consoante o fim a que se proponha, e desenvolver a técnica da escrita, a técnica do desenho, a técnica de equilibrar canetas no nariz, etc. Uma vez que a essência de qualquer técnica é precisamente o ser uma relação específica e contextualizada entre um indivíduo e um objecto, possuir uma técnica é possuir um atributo diferente de atributos como a velocidade, a agilidade, a força, etc. Estes atributos são treináveis por si, podendo ser adquiridos através de um treino analítico, descontextualizado. Como defendi, uma técnica, por ser essencialmente uma relação entre coisas, é um atributo mental, atributo esse cujo aperfeiçoamento não está, de maneira nenhuma, dependente da quantidade existente dos outros atributos. Pode ser que, por esta altura, para muita gente, a noção de talento entre em conflito com a noção de técnica. Não creio que exista problema algum. Uma técnica consiste numa relação simples entre um indivíduo e um objecto; um talento consiste numa relação complexa entre um indivíduo e um objecto e uma situação. Assim, o talento será igualmente um atributo mental, ou seja, será um atributo da mesma natureza que a técnica. Mas será um atributo mental de natureza complexa, que envolverá, mais do que a relação entre um indivíduo e um objecto, a relação entre estes dois e uma situação complexa. Assim, de uma pessoa que sabe andar de bicicleta diz-se que tem técnica para tal, mas não se diz que tem talento. Andar de bicicleta requer técnica, não talento. Andar sobre uma corda, equilibrar pratos, fazer malabarismo são técnicas, não talentos. Aliás, nenhuma arte circense requer talento. É por isso que são artes menores, quando comparadas com as grandes artes. O mesmo se aplica a um guitarrista. É perfeitamente possível que consiga desenvolver uma técnica perfeita e que consiga tocar guitarra de uma forma exemplar. Mas isso não basta para ser talentoso. Através do uso dessa técnica será capaz de imitar os grandes guitarristas, mas é possível que não consiga criar nada de verdadeiramente grandioso. Isto porque o talento para a música é muito mais do que o domínio perfeito da relação entre o indivíduo e uma guitarra.

Contribuem para o desenvolvimento de um talento não só a técnica, mas também outros atributos mentais, como a inteligência, a criatividade, o conhecimento, a intuição, etc. Há inúmeros casos de pessoas que possuem uma técnica perfeita mas que não são minimamente talentosas. Um exímio falsificador de quadros tem de ser alguém possuidor de uma técnica perfeita, mas não é, se não for capaz de produzir arte sua com relativo valor, um artista talentoso. Também no desporto há exemplos destes. Os Globetrotters são tecnicamente perfeitos e conseguem fazer coisas em basquetebol que não está ao alcance de todos. Mas terão talento para jogar basquetebol? Isto é, conseguiriam ser tão competitivos como os melhores jogadores de basquetebol? Em futebol, são incontáveis as pessoas que são capazes de fazer truques com a bola e que dominam com perfeição a relação com a bola. Mas para serem talentosos teriam de saber jogar futebol, e muitas destas pessoas não o sabem. Falcão, o mais reputado jogador de futsal do planeta, é tecnicamente perfeito, domina a relação com a bola como poucos. No entanto, o seu talento para jogar futebol de 11 é diminuto, não obstante ser um muito talentoso jogador de futsal. É possível concluir, portanto, que ao contrário da técnica, o talento não depende apenas de uma relação específica, orientada para uma determinada finalidade, entre indivíduo e objecto, mas de uma relação entre essa relação e uma situação complexa que exige uma competência diferente de uma competência técnica. Adquirir um talento depende por isso, muito mais do que do domínio da relação com um objecto, de uma determinada percepção de uma situação complexa. Nesta percepção intervem, muito mais do que quaisquer competências técnicas, todo o intelecto. É por isso que um talento é uma capacidade complexa, passível de ser adquirida apenas pela experiência da situação complexa em questão, e nunca uma predisposição inata. Na sua aquisição influem muitas coisas, nenhuma delas possível de desenvolver na ausência da situação complexa que o determina. Há, para finalizar, ainda outra diferença importante entre uma técnica e um talento. Uma técnica, sendo a relação entre um indivíduo e um objecto, é mediada por um corpo, ou seja, a sua execução depende de um corpo que a concretize. Um talento não tem esta dimensão; não se executam talentos. A execução tem um papel relevante numa técnica, mas não o tem num talento. O xadrez é tipicamente um desporto para o qual não existe uma técnica relevante, mas para o qual é necessário talento, ou seja, formas eficazes de perceber coisas. Assim, ao contrário da técnica, que é um atributo mental que se concretiza pela acção de um corpo num objecto, o talento é um atributo mental puro, desenvolvido independentemente do corpo e do objecto e em função de uma situação complexa.

domingo, 12 de julho de 2009

Certezas (15)

Improvável, deslocado, inadequado. Estes foram alguns dos adjectivos que me ocorreram quando vi jogar este miúdo na equipa de juniores do Porto. Tem futebol que nunca mais acaba, mas este encontrou-se encurralado na mediocridade da equipa onde evoluía. Com um pé esquerdo que parece enfeitiçar tanto o esférico como os próprios adversários, que só vem acentuar as assimetrias existentes entre ele e o resto da equipa, conseguiu disfarçar de aceitável o futebol(?) praticado pela sua equipa. Agora é esperar que o deixem crescer e que a Covilhã não seja demasiado pequena para esta etapa do Josué Pesqueira....

P.S. Depois de ver a actuação de Diogo Viana na Luz, só me apetece perguntar: onde é que andam os críticos que se insurgiram contra a transferêrencia de Diogo Viana para o Porto? A não ser que sejam adeptos do Porto...

sábado, 4 de julho de 2009

Um treinador competente ou um fala-barato?

Aplaudo de pé, quando assim tem de ser, os clubes que decidem ter à frente da sua equipa técnica treinadores que, apesar de um currículo curto ou pouco reputado, parecem discernir, com relativa facilidade, as exigências do futebol moderno. Muitas dessas contratações, contudo, devem-se ao acaso e não a uma estratégia ponderada. Por exemplo, a contratação de Jorge Jesus pode mesmo ser o melhor que Vieira fez até hoje à frente do Benfica, mas duvido que isso se tenha ficado a dever a uma ponderação acertada. Falando de treinadores, é cada vez mais normal os clubes procurarem académicos que não tiveram, enquanto jogadores, um percurso necessariamente interessante. Esta distinção, porém, radica num erro. É tão errado presumir que um ex-jogador tem vantagens em relação a quem não jogou ou a quem não jogou ao mais alto nível, porque viveu o jogo por dentro, quanto presumir que um académico, porque leu e investigou certas coisas mais ao pormenor, tem vantagens em relação a quem não o fez. A qualidade de um treinador não depende da quantidade de literatura que conseguiu acumular, nem da quantidade de experiência que o seu currículo enquanto jogador lhe forneceu. Ser um bom treinador tem essencialmente a ver com competência. Saber muito ou ter muita experiência pode não ter nada a ver com competência.

Esta posição extrema, que é a posição de muito boa gente, tornaria fácil identificar bons treinadores. Assim, aqueles que estudaram, que se educaram, que tiveram contacto com os mais modernos métodos de treino, estariam numa posição privilegiada. Isto não é verdade e há exemplos de treinadores bastante competentes que foram jogadores no passado. Acredito, de facto, que a experiência enquanto jogador não chega e que um ex-jogador só se pode tornar um bom treinador se se cultivar, se for inteligente. Mas o contrário não é menos verdade. Por mais culta que seja uma pessoa, a reflexão sobre o jogo, a aplicação da cultura à particularidade do futebol é essencial. Poderia dar o exemplo de Queiroz. Para muitos, porque é um académico, tem de ser bom treinador. Mas não é. Nem nunca foi. É apenas alguém que teve um percurso diferente. Até pode ter métodos de treino mais sofisticados que muitos dos treinadores actuais, até pode conhecer mais coisas, até pode estar mais informado, mas se as suas ideias não são boas, de nada lhe vale. E as ideias são aquilo que de mais importante um treinador deve ter. Ter ideias não se segue de estudar muito, como não se segue de conhecer o jogo enquanto jogador. São coisas distintas; não existe uma relação de causalidade entre elas.

Posto isto, queria individualizar o problema. Carlos Azenha, o agora treinador do Vitória de Setúbal, pertence evidentemente à segunda classe de treinadores, aos académicos. Para muitos, a presença de Carlos Azenha na primeira liga é uma boa notícia e um sinal de esperança em relação ao avanço, a nível técnico, do nosso futebol. Não sei se concordo com isto. Por uma razão simples: porque não conheço a fundo as ideias de Carlos Azenha. Aliás, aqueles que acham que Azenha é um dos mais competentes treinadores portugueses só o podem achar porque consideram acertada a premissa acima repudiada. Isto é, quem acha que Carlos Azenha pode trazer boas coisas ao futebol português pensa imediatamente que, por ser um académico, tem vantagens em relação aos outros treinadores. Ou então conhece melhor as suas ideias do que eu. Aquilo que posso dizer com relativa segurança é que Carlos Azenha é uma pessoa informada, provavelmente com métodos de treino bastante modernos, etc. Mas nada disto, como demonstrei, implica ter boas ideias. E é aqui que reside o problema. Do pouco que conheço das ideias de Carlos Azenha, sobretudo das suas intervenções ao longo da época no Domingo Desportivo, não tenho uma opinião tão optimista. Parece-me, de facto, alguém com conhecimentos acima da média, mas parece-me também ter demasiadas certezas infundadas, demasiadas opiniões banais, demasiadas demagogias, demasiados lugares-comuns...

Certa vez, por exempo, Carlos Azenha referiu-se ao avançado hondurenho do Benfica, David Suazo, de uma forma absolutamente convencional e errada. Segundo ele, Suazo era um jogador para jogar na profundidade, útil quando era possível lançar a bola para as costas da defesa, mas que tinha imensas dificuldades quando assim não era. Ora, isto é falso. Está na base deste pensamento um erro bastante comum: pensar que os jogadores valem pelo seu atributo mais interessante. Porque Suazo era veloz, pensava-se que só era forte num tipo de jogo que beneficiasse essa velocidade. Não ver que Suazo era muito mais do que um jogador veloz é um tipo de cegueira grave. Quando Carlos Azenha, ou qualquer outra pessoa, diz que Suazo só é bom nesse tipo de jogo, está a mostrar que não vê as coisas como elas deveriam ser vistas, está a revelar que só tomou atenção, como maior parte das pessoas, aos lances em que o hondurenho, fazendo valer a sua individualidade, conseguiu produzir alguma coisa de útil. Mas produzir alguma coisa de útil não é só ter iniciativas individuais, não é só fazer valer as suas melhores características. É até, essencialmente, fazer valer as suas características colectivas. Suazo não valia só pela sua capacidade de explosão; era um jogador inteligente, muito forte a segurar a bola de costas para a baliza e a tabelar com os colegas, respeitador do colectivo e interessado em jogar em equipa. O que Carlos Azenha evidencia, ao dizer tal coisa, é que não percebeu quem era David Suazo. O que ele percebeu foi o que o hondurenho produziu e não o que poderia produzir. Se a equipa não foi capaz de tirar nada de útil dele além da sua capacidade de explosão, ele não tem culpa. Ou seja, o facto de a equipa jogar para ele de uma determinada maneira não implica que ele não pudesse ser forte noutro tipo de jogo. Aliás, foi muito útil ao Inter e nem sempre pelo seu poder de arranque ou pela sua velocidade. Carlos Azenha, como tantos outros - parece-me - fica-se pelo evidente, pelo que salta à vista, pelo espalhafatoso, pelos golos, por aquilo que toca o nervo óptico sem a mediação da racionalidade. E isso é indicador de uma falta de atenção e de uma falta de finura intelectual que me deixa com muitas reticências quanto à sua pretensa competência...

Poderia, se me lembrasse, concentrar-me noutras ideias com as quais não concordei. Vou antes concluir com as palavras que disse ao ser contratado pelo Vitória de Setúbal. Carlos Azenha disse então, com mais pompa do que com correcção, que queria o seu Vitória a "defender à Sacchi e a atacar à Van Gaal". A expressão é daquelas que entra no ouvido. Cita dois nomes pomposos e as pessoas ficam atentas. Sacchi e Van Gaal são, afinal, das melhores referências que um treinador pode ter. Mas, além da maneira forçada com que os nomes são citados, é a associação entre eles e a divisão entre processos ofensivos e defensivos que mais choca. Eu sei o que é jogar à Sacchi e o que é jogar à Van Gaal, mas o que é jogar defendendo à Sacchi e atacando à Van Gaal? A única resposta que tenho é que isto é parvoíce. São duas coisas incompatíveis. Resta saber se Carlos Azenha o sabia e o disse mais para impressionar ou se, de facto, essas são as suas ideias. Resta saber, por isso, se Carlos Azenha tem competência para corresponder às expectativas ou se não é mais do que um fala-barato...

sábado, 27 de junho de 2009

Certezas (14)

O futebol português, ao contrário do que se pensa, não é tão infecundo assim em pontas-de-lança de qualidade. Há, isso sim, um critério errado na observação de jogadores, bem como um muito mau aproveitamento daqueles que aparecem com qualidade suficiente. Basta ver como Nuno Gomes não tem o destaque que devia, como Postiga é mal-amado, como Saleiro ou Djaló não têm o reconhecimento que mereciam, como se desaproveitaram Diogo Tavares ou João Paiva, quase sempre dos melhores goleadores das equipas jovens por onde passaram, como se ignora a capacidade de Ricardo Nogueira e se chegou a dar oportunidades a fiascos como Tó Mané, como se preferem avançados estrangeiros desconhecidos a jovens portugueses, como se dá preferência a quem apenas marca golos e não a quem faz mais do que isso, etc. Este jovem jogador, todavia, terá uma palavra a dizer quanto a essa estúpida tendência de desaproveitamento. E as suas características podem até ajudar a isso. Além de bom a jogar de costas para a baliza e de tomar boas decisões com frequência, sabendo servir de apoio e pondo o colectivo à frente do individual, é robusto, forte fisicamente e tem bons pés. Alia a tudo isto uma capacidade de explosão invulgar para o seu tamanho e é, por isso, muitas vezes uma dor de cabeça constante para as defesas contrárias. Além de tudo isto, tem faro de baliza e é extremamente lutador, como muita gente pensa que devem ser todos os pontas-de-lança de eleição. Com tantas características interessantes, só mesmo a incompetência dos seus futuros treinadores justificará uma eventual paragem evolutiva. Tendo ainda mais um ano de júnior pela frente e ainda um campeonato para decidir já este Sábado, não chegará ao plantel sénior do Benfica tão depressa, mas se tudo correr bem é possível que dentro de dois ou três anos o Nélson Oliveira seja uma referência do clube encarnado, bem como uma possibilidade para a selecção nacional...

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A fraqueza da Espanha

Um dos argumentos para defender que o Barcelona de Guardiola valia pelas suas individualidades era comparar essa equipa à selecção espanhola, também ela constituída por jogadores baixinhos, inteligentes e tecnicamente dotados. Este argumento é, evidentemente, falacioso. A Espanha não tem nada a ver com o Barcelona.

Primeiro, a Espanha de Aragonés jogava num sistema completamente diferente, sistema esse que tornava o jogar da equipa completamente diferente. O futebol não era de pé para pé como o do Barcelona, não havia a capacidade para trocar a bola como há no Barcelona, não havia a quantidade assustadora de tabelas, as triangulações, etc. Havia, isso sim, jogadores inteligentes que, pelas suas características individuais, emprestavam inteligência à equipa. Mas essa inteligência era sempre uma coisa individual ou, quando muito, entre dois atletas. Não havia a coordenação, o entendimento, a organização, o pensamento igual. Não havia, em suma, uma inteligência colectiva, que é o que define o Barcelona de Guardiola. Isso foi evidente, durante o passado europeu. A Espanha sagrou-se campeã, mas toda e qualquer semelhança com o Barcelona de Guardiola é puro engano.

Já a Espanha de Vicente del Bosque, em termos esquemáticos, aproxima-se mais do Barcelona, o que permite maior número de triangulações, maior qualidade na posse e circulação de bola, por virtude de haver mais apoios próximos do portador da bola. E a sua Espanha consegue explorar melhor as qualidades dos seus jogadores dessa forma, jogando com eles mais próximos. Assim sendo, e ainda que Iniesta não tenha jogado nesta Taça das Confederações, seria de prever que esta Espanha jogasse tanto à bola como o Barcelona, acreditando que a virtude da equipa catalã está nos jogadores que possui e na conjugação destes com o modelo que implementou. Nada mais errado. Tudo o que a Espanha faz é resultado dos jogadores que tem, que são muito bons. Mas isso é pouco. E o que distingue o Barcelona é precisamente o facto de o seu futebol não ter nada a ver com a qualidade dos jogadores. Com estes jogadores e jogando numa táctica que potencia as suas qualidades, um 433 assimétrico, sem ala direito, mas com ala esquerdo, a Espanha de Vicente del Bosque consegue ter alguma qualidade porque tem jogadores que interpretam bem as necessidades da equipa nos diversos momentos. O que não tem é uma equipa que interprete isso bem. E quando assim é, mais fácil se torna não obter resultados.

Falando agora da meia-final da Taça das Confederações, a Espanha dominou o jogo praticamente todo e - pode dizer-se - perdeu por culpa própria, com dois erros individuais graves, frente a um adversário demasiado fraco para que pudesse colocar em causa o favoritismo dos espanhóis. Esse domínio, contudo, foi feito às custas das capacidades individuais dos seus atletas. E isso é pouquíssimo. Contra uma equipa num 442 clássico rígido, com referências homem a homem em muitos momentos, que pressionavam em profundidade e tresloucadamente, era facílimo, com um futebol de posse e circulação, vencer o jogo. No entanto, a equipa espanhola abusou da verticalidade, procurou em demasia os dois avançados no meio. Contra uma equipa que pressiona tão mal, é muito simples jogar. Basta ir progredindo gradualmente. Para o fazer, basta recorrer a um passe vertical seguido de uma lateralização. Mas a Espanha nunca lateralizou o jogo, nunca jogou horizontalmente. Preferiu sempre chegar rapidamente à frente, saltar etapas, utilizar passes longos que, ainda que rasteiros, permitiam aos adversários recuperar posições. O jogo da Espanha, ainda que esclarecido, primou pela objectividade em excesso, pela pouca racionalidade e frieza. E, mesmo com jogadores imaginativos como Fabregas e Xavi, não foi capaz de furar a muralha defensiva dos norte-americanos. A esta equipa faltou, sobretudo, ser menos objectiva, mais calma, menos directa, mais criativa, mais paciente, mais imprevisível. Jogando um futebol tão vertical, facilitou a pressão em profundidade dos americanos, não soube procurar os espaços, caiu no jogo de choque do adversário. E, ao fazê-lo, vitimou o seu favoritismo, deixou tudo mais equilibrado, mais dependente da sorte. E a sorte pendeu para o outro lado. O pouco que ainda conseguiu fazer de verdadeiramente bom, os primeiros vinte minutos da segunda parte, altura em que sufocou o seu adversário, fê-lo por obra da capacidade intelectual de Xavi e Fabregas, que souberam ocupar os espaços certos e servir de apoios aos colegas nos momentos certos, fazendo fluir rapidamente o jogo da sua equipa. Ao se tirar Fabregas para colocar Cazorla, era fácil de adivinhar que esse pouco depressa desapareceria. E a Espanha não fez mais nada com cabecinha desde essa altura.

Esta Taça das Confederações demonstra inequivocamente, além da pouca argúcia táctica e estratégica de Vicente del Bosque, que esta Espanha não tem nada a ver com o Barcelona de Guardiola e que a base do bom futebol praticado por uma equipa não é a mesma base que a da outra. A Espanha vive das individualidades e estas podem ser potenciadas pelo esquema táctico apresentado, mas o modelo de jogo e a capacidade colectiva ficam muito aquém do desejado. É por isso que o Barcelona não ganhou tudo ao acaso. Ganhou tudo porque colectivamente é muito mais forte do que qualquer outra equipa no mundo. E é mais forte porque aquilo que está por trás desse colectivo é diferente de tudo o que é normal encontrar noutra qualquer equipa do mundo. Esta Espanha é forte individualmente e consegue, graças a isso, jogar bem em alguns momentos; melhora ainda se jogar num sistema táctico que ajude a potenciar as características dos seus jogadores, como é o caso do sistema adoptado por Vicente del Bosque; mas colectivamente não é extraordinária, não é diferente das demais. E é precisamente na ausência de capacidade colectiva que reside a sua principal fraqueza.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Sporting 2009/2010

Veio o defeso e com isso o habitual corropio de possíveis contratações, dispensas, etc. E eu, como adepto do Sporting, não consigo evitar a tentação de calcular quais as melhores estratégias, de forma a levar o clube do meu coração ao caminho do sucesso. Nos parágrafos seguintes, vou-me debruçar sobre a politica que eu adoptaria, na tentativa de sustentar, da melhor forma, o modelo e estilo de jogo que me oferece mais garantias.

PLANTEL

Um plantel curto, com 24 jogadores, facto que me permitiria ter uma maior margem de manobra "orçamental".

Guarda-Redes - Tiago, Ricardo Baptista, Rui Patrício.

Defesas - Caneira, Abel; Polga, Tonel, Carriço, Pedro Mendes; André Marques, Grimi.

Médios - Adrien, Hugo Leal; Hugo Viana, Moutinho; Pereirinha, Izmailov; Romagnoli, Rosado.

Avançados - Djaló, Vukcevic; Saleiro, Postiga, Ricardo Nogueira.

A estratégia passa por um reajuste do plantel sem que este facto se torne um elemento desequilibrador na saúde financeira do clube de Alvalade. Tanto Hugo Viana como Ricardo Nogueira não implicam custos nas suas aquisições (assim como Hugo Leal não representará, de certo, um grande esforço financeiro). Por outro lado, o facto de não pretender contar com elementos como Liedson, Veloso, Rochemback, e até Pedro Silva, permitiria realizar mais-valias importantes para o tão desejado equilíbrio financeiro do Sporting.

A escolha deste plantel é feita à luz do modelo de jogo que gostaria de ver implementado em Alvalade. Uma equipa equilibrada em todos os momentos do jogo, obcecada com a posse de bola, com os sectores bem juntos, e composta por elementos que são fortes na interpretação do jogo, cujas características seriam potenciadas, ao limite, por uma filosofia que promove e recompensa as decisões colectivas ao invés das individuais, sendo que as segundas devem existir apenas como consequência das primeiras. Mas, acima de tudo, fazer da bola o centro do nosso modelo, seja em que momento do jogo nos encontremos.

O 442 losango apresentar-se-ia compacto, sem dar importância à largura do jogo, mas sim á segurança dos seus processos em todos os momentos do jogo. Uma equipa de toque curto, apoiado, em que todos os jogadores, sem excepção, seriam determinantes para esta característica da equipa.

Em termos individuais, a necessidade de fazer perceber a Polga - até poderia recorrer a dados estatísticos, se necessário fosse, para suportar a minha opção - que é proibido jogar longo quando existem opções que permitem à equipa manter a posse do esférico, jogando de forma apoiada. Torna-se essencial que os defesas percebam que eles são tão importantes como quaisquer outros jogadores (avançados, médios) nos processos ofensivos, com e sem bola. Os avançados seriam, qualquer um deles, encarregues, não de fazer golos, tão pouco de dar profundidade, mas de ajudar a equipa a alcançar os seus objectivos: jogar bem.

Este é um plantel que, certamente, concederia muitas alegrias aos seus adeptos. No entanto, fica aqui o desafio, não só aos sportinguistas, mas aos adeptos dos outros clubes também, que, num exercício verosímil e coerente, alinhem o plantel que gostariam de ver no vosso clube.

P.S.: A opção de resgatar Ricardo Nogueira passa pelo reconhecimento de um jogador que é fortíssimo em todos os aspectos colectivos do jogo, e tal facto só pode passar ao lado de alguém que não consiga avaliar a qualidade de um jogador de forma contextualizada. Gostaria de o ver a trabalhar com um grande treinador, numa verdadeira equipa.

domingo, 21 de junho de 2009

Um questão de qualidade...

Não dá para trocar o Rochemback e o Liedson pelo Josué Pesqueira?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Barcelona: a invulgaridade de um jogar

Como sempre aqui se disse, o futebol do Barcelona de Guardiola, esta temporada, foi mais do que um futebol bonito, agradável, bem jogado; foi algo profundamente diferente de tudo o que era costume ver-se num campo de futebol. As diferenças desta equipa para o resto das equipas europeias já foram aqui expostas, mas ainda assim queria, através do exemplo de três jogadas diferentes, apontar para três particularidades evidentes desta equipa. As jogadas apresentadas, na minha opinião, são uma ilustração perfeita de algumas das características que estão subjacentes à invulgaridade deste Barcelona. É sobre elas que me irei deter.





1. No primeiro lance, num desafio que o Barcelona até perdeu, frente ao Osasuna de Camacho, queria chamar a atenção para três momentos diferentes da jogada, todos eles relacionados com o momento defensivo. Em primeiro lugar, quando a jogada ainda se desenrola no lado esquerdo do ataque do Osasuna, repare-se no posicionamento de toda a equipa do Barcelona, em processo defensivo, bem metida para dentro, com o lateral esquerdo, Sylvinho, a deixar praticamente metade da largura do campo sem estar preenchida. De seguida, a jogada vem para o lado esquerdo. Uma vez mais, a equipa movimenta-se toda em função da bola, reduzindo espaços perto do local onde esta se encontra e deixando vazios os espaços que estão longe dela. Repare-se que a equipa, em acção defensiva, procura fazer "campo pequeno" de uma forma quase extrema. Poucas equipas no mundo reduzem tanto os espaços e unem tanto os seus jogadores como este Barcelona; poucas equipas, quando a jogada se desenrola de um lado, deixam tanto espaço livre do lado contrário. Se se traçar uma linha vertical em todo o comprimento do campo, dividindo-o em dois, vemos que em processo defensivo, quando a jogada se desenrola de um lado, os 11 jogadores do Barcelona estão praticamente enfiados na metade onde se desenrola a jogada. O exagero desta basculação não é ocasional e poucas equipas há que levem isto tão longe. Finalmente, gostaria de apontar para o movimento pressionante de Gudjohnsen, quando a jogada está no lado direito do ataque do Osasuna. Quando Bojan pressiona o portador da bola, é imediatamente evidente que a bola vai entrar no extremo, à frente, que tem nas costas Sylvinho. Gudjohnsen, tendo nas costas Busquets a fechar o espaço central, avança alguns metros rapidamente, não para ir marcar individualmente o médio do Osasuna que sobrava, mas sim para fechar a única linha de passe que poderia ser usada pelo Osasuna para continuar a progredir, ficando a equipa adversária obrigada a recuar o jogo, como aconteceu. Este movimento de Gudjohnsen não é apenas dele; é um movimento colectivo que representa na perfeição a forma de defender desta equipa, o privilégio dado ao espaço, à bola, às linhas de passe, às coberturas sucessivas, ao pressing zonal, etc.

2. Na segunda jogada, num jogo frente ao Valência, que acabou empatado a 2, o Barcelona adiantou-se no marcador com uma jogada que ilustra todo o processo ofensivo da equipa de Guardiola. Após uma tabela perfeita entre Iniesta e Messi, a deixar Iniesta na cara do guarda-redes, o médio espanhol, em vez de chutar à baliza, pára e senta o guarda-redes, servindo novamente o astro argentino, que chuta sem oposição. O desenlace do lance evidencia a prioridade desta equipa em trocar a bola, mesmo quando em condições privilegiadas para chutar à baliza. Tendo o guarda-redes pela frente, Iniesta surpreende ao não chutar, preferindo esperar pelo tempo correcto para que um colega se posicionasse em melhores condições para fazer golo. Não chutar, naquelas condições, é ilustrativo da diferença óbvia que existe nos processos ofensivos desta equipa. É evidente ainda que os jogadores do Valência ficam a reclamar fora-de-jogo de Iniesta, mas por momentos dá a impressão de que os defesas valencianos parecem queixar-se, isso sim, da sua própria impotência perante tamanha qualidade.

3. Na terceira jogada, recupero um lance da primeira mão das meias-finais da Liga dos Campeões, frente ao Chelsea. É o lance que antecede a única jogada de perigo que o Chelsea criou ao longo dos 90 minutos. Nesse lance, o Barcelona encontra-se encurralado junto à linha, pressionado agressivamente pelo meio-campo do Chelsea, mas consegue sair da situação com uma simplicidade que não está ao alcance de todos. Dani Alves dá em Touré, que está apertado; este joga de primeira em Messi, que tem também um adversário em cima; este devolve a Touré, que se mantém vigiado de muito perto; e finalmente a bola chega a Iniesta, no meio, ficando a situação resolvida. Ao contrário de praticamente todas as outras equipas no mundo, o Barcelona resolveu uma situação aproximando jogadores, de modo a formar muitos apoios próximos. Ao contrário do que dizem os livros, o Barcelona saiu de uma situação de pressing não afastando as suas linhas, mantendo jogadores bem perto uns dos outros de modo a conseguir trocar rapidamente a bola até haver condições ideais para a tirar dali. Ao contrário também do que fazem quase todas as equipas do mundo, o Barcelona utilizou passes curtos e trocas de bola entre jogadores que estavam marcados em cima. O penúltimo passe do lance, o passe recuado de Messi para Touré, então, é digno de referência. Touré estava marcado em cima, estorvado até, mas Messi não hesitou em colocar-lhe a bola. Porquê? Porque existe da parte de cada um dos elementos do colectivo uma confiança no poder de decisão dos colegas que não existe em mais lado nenhum; porque as condições que Touré tinha para soltar depois em Iniesta eram melhores que as condições que Messi tinha para dar de imediato em Iniesta; porque, embora menos objectivo, era mais seguro; porque, de tão arriscado, era mais imprevisível. E o Barcelona é isto: confiança nos colegas, busca das melhores condições de passe, inteligência, fuga ao excesso de objectividade, imprevisibilidade, criatividade.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Dilema das Funções vs Posições

Há uns tempos, talvez há mais de um ano, publiquei um texto em que defendi que o trinco, o pivô, o médio-defensivo,como queiram, devia ser a âncora de uma equipa. Não sendo por este ser de facto mais importante do que qualquer outro jogador, mas porque lhe conferia um relevância muito particular no desenrolar do jogo.

No entanto, depois de ler um texto em que se defendia algo de muito semelhante, dei comigo a sentir que havia algo que, para mim, já não fazia tanto sentido como outrora. É sobre este assunto que eu me vou debruçar nas próximas linhas.

O médio-defensivo, por se posicionar numa zona central da estrutua da equipa, é requisitado com mais frequência, nos vários momentos do jogo. No entanto, não o considero mais importante do que um lateral, por exemplo. Isto no futebol que preconizo.

Não considero que, numa equipa que seja verdadeiramente una, que jogue verdadeiramente como um todo, o jogador que ocupe esta posição tenha de compreender mais variáveis do jogo, ou que seja mais determinante do que qualquer outro elemento. Desta posição diz-se pretender que procure sempre dar os apoios, que mantenha sempre a equipa ligada e equilibrada, que fosse o ponto de orientação da equipa. Não digo o contrário, apenas digo que todas estas "funções" não são exclusivas de uma posição, mas antes do todo.

No referido texto, que me levou a esta reflexão (texto esse que podem encontrar no blogue Falemos de Futebol), fazia-se alusão ao princípio do farol, princípio que acho correcto, mas que não considero exclusivo de uma posição específica. Defendo isto na perspectiva de um conjunto mais forte, ou seja, mais complicado de dividir e enfraquecer, mais complicado de analisar. Mas não só. O nosso jogar sairá sempre reforçado segundo o paradigma que defendo porque a compreensão total e una do jogo, no limite, exigirá isto mesmo. A nossa âncora, ou o nosso farol, como queiram, é a bola. É em função da mesma que nos posicionamos em campo, que adequamos a nossa estratégia, em todos os momentos do jogo. E só assim poderemos ser "activos" no jogo.

Se cada jogador perceber que em cada momento, esteja ou não perto do colega que detém a posse da bola, a sua movimentação é indispensável para o sucesso do modelo de jogo que preconiza, então essa equipa será um todo. O mesmo jogador que num momento foi "obrigado" a criar linhas de passe, ou a criar apoios, noutro momento, desde que a situação em que a sua equipa se encontre o chame a isso, terá de provocar um desequilíbrio, ou assumir uma movimentação de ruptura, nem que para isso apenas se movimente, lateralmente, metro e meio. Daí que pretenda que os meus jogadores não sejam nem avançados, nem defesas, nem médios. Apenas pretendo uma equipa.

E como distribuo essa equipa em campo? Será um processo aleatório a escolha de posições dentro do campo? Não. Os diferentes momentos do jogo contemplam diferentes movimentações/acções, colocando enfâses variados em cada uma dessas situações. O prazer que cada jogador retira dos diferentes momentos, aliado a uma maior ou menor adequação das suas caracteristicas aos mesmos, deverá decidir em que situções cada jogador se sentirá mais confortável. Porque há posições que, em função do nosso jogar, serão mais expostas a certo tipo de situações, há jogadores que apresentarão diferentes niveis de competência nas diferentes posições. Não porque tenham a obrigação de "compreender" diferentes variáveis, mas porque conseguem oferecer melhores, ou piores, soluções em diferentes momentos do jogo. Daí que se procure colocar cada jogador em contacto com as situações que podem tirar o melhor de cada um. Não porque lhe pretendemos atribuir diferentes funções.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Um tal de Zé Castro

A afirmação é, para muitos, controversa e sensacionalista. Digo-o, no entanto, sem qualquer espécie de exagero propositado e sem qualquer intenção de rebaixar outros atletas: para mim, excluindo Ricardo Carvalho, o melhor defesa português da actualidade é Zé Castro. Para quem viu jogos do Deportivo esta época e esteve atento ao desempenho do central português, a recente chamada à selecção só peca por incompreensivelmente tardia. Esquecido em terras galegas, o português foi titular indiscutível (jogou 2536 minutos) de uma equipa que fez um campeonato bastante aceitável, terminando em sétimo lugar. O Deportivo foi mesmo a terceira melhor defesa da prova (o Barcelona sofreu 35 golos e o Sevilla 39), com 47 golos sofridos, menos 5 que, por exemplo, o Real Madrid. Estes dados, por si só, não revelam absolutamente nada, a não ser, provavelmente, para Queiroz, que terá decidido chamá-lo mais pelos resultados desta época do que por qualquer reconhecimento da sua qualidade. Evidentemente, há que juntar a estes dados a comprovação das exibições. E, nesse particular, a juntar à classe e à capacidade técnica que possuiu desde sempre, há agora uma maturidade que não pode deixar ninguém indiferente. Zé Castro é o patrão da defesa do Deportivo, um jogador seguríssimo, muito bom na leitura dos lances e no tempo de desarme, pouco impetuoso, como se aconselha a um jogador na sua posição, e rapidíssimo a reagir a mudanças de direcção ou a dobrar os colegas. Nada disto é novo, mas acontece agora com uma regularidade maior. Melhorou ainda no jogo aéreo, impondo-se mais frequentemente, e manteve a habitual boa relação com a bola. A facilidade que tem em sair a jogar, a importância que dá à manutenção da posse de bola, procurando entregar o melhor possível sempre que a recupera, fazem dele um central diferente da maioria.

Não queria compará-lo a Pepe ou a Bruno Alves, mas a opinião geral em Portugal sobre estes três jogadores, bem como a tendência para se preferirem defesas impetuosos, carniceiros e atleticamente muito dotados, impõe uma análise desse género. É errado pressupor que um defesa central deva ter determinados atributos físicos. Um defesa central deve ser um defesa central, nada mais. A pressuposição tem por base a ideia de que um defesa central é um jogador que encontra muitas situações de choque, que tem de ser capaz no jogo aéreo, uma vez que joga demasiado recuado para se dar ao luxo de não ganhar bolas de cabeça, que tem de ser duro para impor respeito aos atacantes adversários ou que tem de ser agressivo sobre a bola. Nada disto está correcto. Um central competente do ponto de vista intelectual ocupará melhor os espaços e não necessitará de ir tanto ao choque, conseguirá desarmar pela antecipação ou por ler melhor o lance, sem recorrer à agressividade ou à virilidade, será capaz de ganhar lances de cabeça sem ter de o fazer de uma forma impetuosa, etc. Ao contrário de centrais mais vigorosos, um central deste tipo tem várias vantagens: coloca menos risco em cada uma das suas acções, pois elas comportam mais segurança e mais certeza; está mais lúcido, uma vez que não faz tudo em esforço, para reagir a um percalço, como seja um ressalto ou uma combinação ofensiva rápida do ataque adversário; está mais compenetrado no jogo em si e não tanto na acção decisiva de cortar a bola, o que é o mesmo que dizer que está mais interessado na sua acção colectiva do que na sua acção individual. É esta última característica, que considero aqui vantajosa, que me faz dar clara preferência a centrais de um tipo em detrimento de outro. Um central mais vigoroso, mais aguerrido, está notoriamente focado na bola e na sua acção defensiva individual, no corte, no desarme, no acto de defender por si. Ora bem, um central não deveria servir para defender. É aqui que reside o problema. Este tipo de centrais está interessado em defender, porque consideram que o seu papel numa equipa, em situação defensiva, é defender. E é contra isto que reajo. Mesmo em situação defensiva, o central não deve ter um papel, muito menos um papel tão redutor como seja o de defender. Um central, como qualquer outro jogador, em situação defensiva ou não, deve estar preocupado em jogar, no sentido amplo de jogar. Recuperar a bola deve ser uma preocupação colectiva e não de um jogador em particular, esteja ele a jogar mais recuado ou não. Assim, um jogador que joga de forma mais impetuosa é, na grande maioria das vezes, um jogador que negligencia isto. Enquanto concentrado no seu desempenho defensivo, esquece os colegas, a sua relação com o resto da equipa, as necessidades do colectivo e afins. Quando vai a um lance, vai com o intuito de ganhar a bola por si, quando o acto de ganhar a bola não deve estar confinado a um jogador, mas a toda a equipa. Ao fazê-lo, terá talvez a vantagem de retirar tempo de reacção ao portador da bola, coisa que uma abordagem menos impetuosa não faria ou faria em menor escala, mas incorre em problemas que se sobrepõem claramente aos benefícios. Embora uma abordagem mais impetuosa tenha essa vantagem e, contra uma equipa que não tenha uma organização ofensiva relevante e não saiba jogar colectivamente, reduzindo-se a acções individuais, seja tão ou mais competente que outra abordagem, tem desvantagens óbvias, desvantagens essas potenciadas sempre que se defrontam equipas que privilegiem o colectivo. Exemplo disto foi o jogo entre o Real Madrid e o Barcelona, no qual a abordagem defensiva dos jogadores do Real Madrid foi excessivamente impetuosa, o que propiciou uma desorganização evidente que uma equipa como o Barcelona não poderia deixar de aproveitar. Entre outras coisas, um central que opte por abordagens mais impetuosas está menos apto a reagir a uma tabela (veja-se o golo da Albânia, frente a Portugal, fruto da resposta defensiva de Pepe, facilmente batido por uma simples tabela porque se aproximou impetuosamente do adversário que tinha a bola, sendo que este, ao soltá-la e indo buscá-la mais à frente, evitou, sem recorrer a uma grande perícia, o seu opositor); está menos apto a perceber como se altera, de instante para instante, a estrutura defensiva de que faz parte; está menos apto a travar a sua iniciativa caso haja o perigo de cometer uma falta; etc. Um central que opte por este tipo de jogo pode até ser mais forte do ponto de vista individual, pode até, estatisticamente, ser o responsável directo por mais recuperações de bola, pode até ser mais difícil de ultrapassar individualmente, mas é de certeza menos competente do ponto de vista colectivo e fará parte, portanto, de um colectivo defensivamente mais frágil e fracturado.

Esta é, portanto, uma defesa do central Zé Castro, mas, principalmente, uma defesa de um certo tipo de defesas centrais. Não é, portanto, por capricho que ela é feita, mas com base na repetida ideia de um futebol enquanto um todo que este blogue sempre defendeu. O problema não está na impetuosidade em si, mas nas consequências que, por norma, a impetuosidade acarreta, como sejam a falta de lucidez, a irresponsabilidade colectiva ou o risco de cada iniciativa. É por isso que já se denunciou aqui alguma falta de qualidade a Vidic, central que se baseia na impetuosidade; é por isso também que existe tanta diferença, na nossa opinião, entre Daniel Carriço e Miguel Vítor. Admito que, numa equipa que se fundamente em predicados individuais, que dê mais valor aos elementos que compõem o seu todo, como o são mais de 90% das equipas mundiais, do que às relações entre esses elementos, os jogadores com mais competências individuais sejam mais valorizados. Mas isto acontece porque se tem uma ideia demasiado primitiva do jogo. Apesar de toda a modernidade, há pouquíssima gente que compreende o jogo como ele deveria ser compreendido. Neste sentido, é natural que os jogadores que dão mais nas vistas, ou seja, os jogadores com atributos individuais mais relevantes, tenham mais mercado e sejam preferidos em vez de outros. No caso específico dos centrais, é natural que os centrais mais agressivos, mais impetuosos, mais fortes, capazes de recuperar mais bolas individualmente ou de efectuar mais cortes, ou de ganhar mais duelos físicos, sejam preferidos ao invés de centrais que privilegiam o posicionamento, a fineza, a capacidade técnica e a leitura acertada dos lances. O jogo, no entanto, tem evoluído e centrais matacões, como ainda há dez anos os havia, já não têm lugar nas grandes equipas. Nos dias que correm, porque a competitividade já tornou evidente que não bastam argumentos físicos para se ser jogador, os centrais já têm de possuir alguma inteligência. Falta, contudo, ao jogo continuar a evoluir. E a evolução passará inevitavelmente por entender que os factores intelectuais são mais importantes que os restantes. Nessa altura, entender-se-á que, mesmo aqueles jogadores que jogam mais perto da sua própria baliza devem ser jogadores mais inteligentes do que atleticamente dotados e que aqueles que primam por iniciativas do foro atlético disfarçam nessas iniciativas a escassez de argumentos intelectuais que, nessa altura, se considerarão fundamentais. Enquanto, todavia, a evolução do jogo, lenta como toda a evolução, não torna evidente tudo isto, cá estará o Entre Dez para o afirmar.

Da mesma forma que se defendeu que o futebol do Barcelona de Guardiola veio demonstrar que a evolução do jogo exigia coisas diferentes daquelas que se pensava e que esse futebol era, de algum modo, o futebol do futuro (a propósito, Ibrahimovic disse que o futebol do Barcelona era tão diferente que representava o futebol que se iria jogar em 2015), defende-se também que os centrais com capacidades intelectuais relevantes estão mais aptos às necessidades correntes do jogo do que os outros, isto, como é óbvio, se inseridos numa equipa evoluída, revolucionária, verdadeiramente moderna. Como este blogue nunca foi dado a mediocridades, e apesar de reconhecer que jogadores como Bruno Alves ou Pepe podem dar mais, no contexto actual, a uma equipa de futebol, visto que individualmente têm mais trunfos, defende-se que Zé Castro é melhor jogador, pois que ser melhor implica estar mais apto a jogar numa equipa mais exigente. Numa equipa a sério, cujo conceito de colectivo fosse rigorosamente aplicado, não tenho dúvidas que Zé Castro é francamente melhor jogador que qualquer um destes dois, pelo que, em termos absolutos, a minha preferência tem obrigatoriamente de ir para ele.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Os Melhores da Temporada

Fica, como é hábito no fim de cada campeonato, a selecção dos melhores desta temporada, na minha opinião...

Guarda-Redes: Beto
Defesa Direito: Fucile
Defesa Esquerdo: Alonso
Defesas Centrais: Sidnei e Daniel Carriço
Médio-defensivo: Fernando
Médios-ofensivos: Lucho Gonzalez e Izmailov
Extremos: Reyes e Rodriguez
Avançado: Lisandro Lopez

Treinador: Jorge Jesus

Suplentes:

Guarda-Redes: Bracalli
Defesa Direito: Vasco Fernandes
Defesa Esquerdo: Tiago Pinto
Defesas Centrais: Rodriguez e Bruno Alves
Médio-defensivo: Katsouranis
Médio-ofensivos: Hugo Leal e Pablo Aimar
Extremos: Vukcevic e Fábio Coentrão
Avançados: Nené

Treinador: Jesualdo Ferreira

domingo, 31 de maio de 2009

Uma Época de Sonho em 4 Capítulos

1. Os Resultados Impressionantes

6-2 ao Real Madrid, 3-0 e 4-0 ao Sevilla, 4-1 e 6-0 ao Málaga, 4-1 ao Numancia, 5-0 ao Deportivo, 4-0 ao Valencia, 6-0 ao Valladolid, 5-0 ao Almeria, 6-1 ao Atlético de Madrid e 6-1 Sporting Gijon. Foram estas as goleadas do Barcelona na Liga Espanhola. Já nem vou falar do Sporting, do Basileia, do Lyon ou do Bayern de Munique, para a Liga dos Campeões. Só no campeonato, foram 12. Das 8 primeiras equipas da Liga Espanhola, só o Villareal se pode gabar de não ter sido goleado pelo campeão. É obra. Johan Cruyff, no seu artigo desta semana, dedica o último ponto da crónica àqueles que precisavam de que este Barcelona ganhasse tudo para acreditarem naquilo que esta equipa propunha. Diz ele o seguinte:

Escribí que no hacía falta ganar esta final para creer en este equipo, para confiar en su propuesta, para elogiar su temporada. No mentí. Pero, para aquellos que solo creen en el resultadismo, en la victoria, este sonoro triunfo, es más necesario que para mi.

Ora bem, a evidência destes resultados esmagadores é também para esses resultadistas, para os quais não bastava que a equipa jogasse o melhor futebol de que há memória. Muito antes da conquista de todos estes títulos e muito antes de haver possibilidade de perceber o quão longe este Barcelona iria na Liga dos Campeões, já o Entre Dez fazia questão de apoiar incondicionalmente a proposta de Guardiola. Para nós, era evidente que este Barcelona não era só mais uma equipa a jogar bem. O que esta equipa propunha era uma revolução no próprio jogo. E essa revolução era precisamente a revolução que o Entre Dez, desde sempre, procurou propor. Daí a afinidade imediata com esta equipa e com este jogar.

2. A Revolução Teórica e o Salto Evolutivo

É exactamente por causa disto que acho que a grande maioria dos que agora aplaudem o Barcelona o fazem apenas por causa dos resultados. É que estes não percebem o quão diferente é o que representa esta equipa. Não se trata só de um conjunto a jogar bonito e a ganhar; não é só um estilo diferente do habitual. É uma lição teórica sobre o jogo. Já tive oportunidade de dissertar sobre isto noutro espaço, mas impõe-se, por esta altura, a repetição de algumas dessas ideias. O Barcelona não é só uma equipa que dá preferência a um pressing alto ou ao passe curto ou ao jogo posicional. É também a própria anulação de predicados ancestrais, a refutação de alguns dos mais antigos dogmas do jogo. É sobre esses dogmas que, de seguida, falarei. 1) Desde sempre se acreditou que qualquer nesga para chutar deveria ser aproveitada e que uma tentativa de alvejar a baliza adversária era sempre de elogiar. O Barcelona de Guardiola vem dizer que não e o próprio treinador disse mesmo que preferia que os seus jogadores, mesmo dentro da área, trocassem a bola até se encontrarem em condições perfeitas para executar o remate. Daí vermos tantas vezes a equipa a entrar pela baliza a dentro em tabelas. Ao contrário, portanto, dessa máxima antiga, defende o Barcelona que o remate deve apenas ser executado em condições ideais. 2) Não serão, também, poucos os treinadores que pedem aos seus laterais para dar preferência a bolas em profundidade ou a lançamentos verticais. Raríssimos são os exemplos de equipas em que a primeira opção do lateral é jogar no meio. Isto porque se achou, desde sempre, que um lateral optar por vir para o meio era muito arriscado e que mais valia jogar pelo seguro assistindo o extremo do seu lado ou jogando comprido. O Barcelona de Guardiola diz que não. O verdadeiro futebol faz-se de riscos e jogar no meio, quando a bola está na linha, é a opção mais adequada para evitar o pressing adversário e manter a posse de bola. 3) Há também quem defenda que só se deve sair a jogar quando é possível sair a jogar. O Barcelona diz que não. Sai-se sempre a jogar, quer o adversário não pressione, quer pressione alto. 4) Um dos maiores dogmas do jogo é aquele que defende que a equipa deve ser sempre objectiva, isto é, deve procurar sempre evoluir com um objectivo delineado. Por outras palavras, atacar pressuporá sempre uma ideia de progressão e jogar para trás só é opção quando em caso de aperto. Este Barcelona diz que isso não é assim. A falta de objectividade em diversas fases de construção do jogo da equipa chega a ser constragedora. Mas isto é a própria essência deste modelo. Antes de privilegiar essa ideia de progressão, essa objectividade, este Barcelona troca inconsequentemente a bola, porque percebe que a objectividade, quando excessiva, se transforma em previsibilidade.

Por tudo isto, esta equipa representa um salto evolutivo no jogo. É um daqueles marcos na evolução das coisas que a História recordará e que modificará tudo o que vier a seguir. Tudo o que se seguir, a partir de agora, terá de ter em conta a imponência demonstrada pela equipa de Guardiola. Qualquer que seja o caminho deste jogo, será em função do que se passou esta época. Quer apareçam cópias do modelo, quer apareçam equipas a aperfeiçoar formas de contrariar o modelo, tudo será feito com este Barcelona em mente. O impacto desta equipa foi demasiado grande para, pura e simplesmente, ser ignorado. Como diz ainda Cruyff, se houve coisa que o Barcelona deixou bem claro foi que é possível ganhar jogando bonito e dando espectáculo:

Este Barça, y de ello me alegro, ha impuesto un estilo de juego que ha provocado millones de elogios en todos los rincones del mundo. Y ha escrito, con letras grandes y de oro, el mensaje de texto más difundido del 2009: se puede ganar jugando bonito, dando espectáculo. Copien esta propuesta. Si se atreven.

3. O Resto do Mundo, a Incompreensão e o Medo

Antes de terminar, gostaria de deixar, também eu, uma pequena referência àqueles que necessitaram de que o Barcelona ganhasse tudo para aceitarem a sua qualidade. No dia da segunda mão da meia-final contra o Chelsea, antes da partida, o Gonçalo previa que o encontro daquela noite ia ser o Barcelona e o Entre Dez contra o resto do mundo. Na altura, achei exagerado, até porque não eram poucos os que, já então, torciam pela vitória do Barcelona. Mas a verdade é que isso não andou muito longe da verdade. Um jogo menos bom, pontuado por uma passagem à final bastante polémica, foi o suficiente para que metade do mundo esquecesse uma época inteira de estrondosas revoluções. Era o sintoma evidente de que o futebol do Barça, ainda que apreciado, não era compreendido. Para muitos, era o sinal de que aquela equipa e aquele modo de jogar não eram assim tão eficazes. Como prognosticara o Gonçalo, o resto do mundo, à mínima falha, aproveitaria para papaguear sobre as supostas lacunas de tal projecto.

Tal comportamento denota claramente uma incerteza quanto à proposta desta equipa. A meu ver, essa incerteza é resultado de uma óbvia incompreensão do que é este Barcelona. O "resto do mundo" é capaz de apreciar o futebol catalão porque tem a capacidade de identificar nele uma componente estética interessante. Mas não consegue compreender de onde vem essa componente, por que razões joga a equipa como joga. Não percebendo isto, só poderia aplaudir essa qualidade quando a ela se sobrepusessem resultados positivos. Como se não bastasse tudo o que estava para trás. O Barcelona esteve em campo contra o resto do mundo, porque era contra o resto do mundo, contra aquilo em que o resto do mundo acreditava e contra a incompreensão do resto do mundo, que esta filosofia de jogo se debatia. E debateu-se até ao fim. E venceu. E agora nem os resultados podem servir de argumentação aos que não a compreendem.

As manifestações contra a passagem do Barcelona à final, além de incrivelmente absurdas, são resultado dessa incompreensão. A azia exagerada que se desnovelou após esse desafio, ilustrada por um comportamento panfletário e arrivista que teve o seu ponto culminante na total falta de ética profissional com que a própria Sporttv lidou com o assunto, optando por não transmitir os dois jogos seguintes da equipa blaugrana, um deles a final da Taça do Rei (uma das mais aliciantes das últimas décadas), foi uma coisa impressionante. Por trás de todo o barulho que se fez, de toda a campanha nazi, está um fundo irracional que importa expor. A voz colectiva que gritava contra a injustiça não gritava contra a injustiça, apesar de pensar que era isso que fazia. Gritava contra a incompreensão. Aqueles que não compreendem determinada coisa têm tendência a desvalorizá-la, de forma a sentirem-se confortáveis consigo mesmos. Só assim conseguem conviver com aquilo que não compreendem. Maior parte das pessoas tem de se defender do irracional, do que não compreende. Este Barcelona produzia uma coisa tão perfeita que os adeptos de futebol tendiam a desconfiar dela. E preferiam apoiar os que não eram capazes de fazer aquilo só para que "aquilo" não saísse vencedor e os deixasse à mercê da sua própria incompreensão e da sua própria pequenez. Olhar na direcção do Barcelona, para muita gente, é um olhar de impotência, um olhar de formiga. E as pessoas, nos tempos que correm, gostam de se imaginar senhoras de si mesmas, racionais, capazes de conduzir a sua vida e de tomar as suas decisões independentemente dos caprichos do destino. Para estes, considerar possível a existência de algo que não compreendiam constituía uma submissão ao desconhecido, ao imprevisível, ao incontrolável. Era por isso que preferiam que o "monstro" fosse eliminado e extinto. As reacções hiperbólicas daqueles que não conseguiram ver que o Barcelona, no conjunto das duas mãos, foi muito mais equipa que o Chelsea e que não foi mais beneficiado do que prejudicado foram reacções de medo, de incompreensão e de mesquinhez. Foi a alma tacanha, miudinha, que prefere ficar do lado dos coitadinhos a compreender os génios, e que define as suas preferências por um ideal anti-darwinista de aproximação progressiva dos mais fracos aos mais fortes. Esses não gostam verdadeiramente de futebol; gostam é que o futebol reproduza o seu ideal marxista de vida, segundo o qual as oportunidades devem ser repartidas por todos, sem olhar a méritos.

Ainda hoje, depois de o Barcelona ter ganho tudo, depois de se ter sagrado a primeira equipa espanhola a ganhar, no mesmo ano, o Campeonato, a Taça do Rei e a Liga dos Campeões, e sobretudo depois de ter ganho tudo isto da maneira categórica como o ganhou, há quem tenha ainda o atrevimento de não reconhecer especial valor a esta equipa. Serão certamente poucos, é verdade, mas serão estes poucos assim tão diferentes daqueles que, embora reconheçam a esta equipa todo o mérito, depressa modificariam a sua opinião caso os resultados tivessem sido outros? O ponto de convergência destes dois tipos de pessoas é precisamente o não compreenderem de onde vem o valor desta equipa e desta proposta. Todo aquele que não achou necessário destacar o tremendo êxito desportivo desta equipa nesta temporada, todo aquele que imagina que a virtude dos catalães residiu no conjunto de jogadores à disposição do treinador, todo aquele que imagina que a força desta equipa se esgota na perfeita comunhão entre as individualidades e o projecto colectivo, todo aquele que, no fundo, não percebe o carácter revolucionário intrínseco a este modelo de jogo, não pode compreender tudo o que significou esta época. Estes não aplaudiram o Barcelona; aplaudiram os resultados do Barcelona. E são precisamente estes os mesmos que, à primeira escorregadela, estarão na fila da frente para caluniar o que antes tão hipocritamente louvaram. O Entre Dez, pelas razões apresentadas, exclui-se automaticamente e desde logo deste grupo singular.

4. Uma Ideologia Controversa em Sintonia com uma Época de Sonho

O Entre Dez não nega o prazer que estas conquistas causaram. É possível até confessar que o regozijo subsequente terá suplantado qualquer outro sentimento até hoje motivado por este desporto. Afinal, trata-se de uma confirmação; trata-se de ter passado a existir uma coisa palpável e de eficácia irrefutável com a qual este projecto se pode identificar plenamente. Esta, mais do que uma vitória emocional, como são todas as vitórias dos adeptos, foi uma vitória ideológica. As ideias controversas deste espaço passam agora a ter um representante real, e um representante que não só deixou boquiaberto o mundo, como ganhou tudo o que poderia ganhar, sem espinhas, de modo a impossibilitar contra-argumentações falaciosas. As vitórias são do Barcelona, dos jogadores do Barcelona e do treinador do Barcelona. Mas essas vitórias, por estarem em absoluta sintonia com aquilo que se defendeu, desde sempre, neste espaço, e que tanta confusão fez a tanta gente, são também vitórias do Entre Dez.

Para finalizar, na brevidade possível, fica um pequeno resumo daquilo que importa reter neste texto e daquilo que, no fundo, é o verdadeiro legado deste Barcelona para a posteridade.

Três provas em disputa; três títulos. A melhor equipa espanhola e a melhor equipa europeia... Em exibições e em títulos. Vencer tudo, vencer tudo jogando sempre bem, vencer tudo marcando 105 golos no campeonato, vencer tudo perfazendo 12 goleadas em 38 jogos no campeonato (quase um terço dos jogos), vencer tudo a cilindrar os adversários mais directos, vencer tudo passando a fase de grupos, os oitavos-de-final e os quartos-de-final da Liga dos Campeões com goleadas atrás de goleadas, vencer tudo jogando a final da Taça do Rei e a final da Liga dos Campeões com uma perna atrás das costas e em ritmo de passeio... Não poderia ser mais categórico. Dificilmente, aliás, terá havido outra equipa na História do jogo que tenha feito uma época tão categórica. 2008/2009 ficará para sempre na História do Futebol. Por tudo isto, foi uma época de sonho para o Futebol, para o Barcelona e, claro, muito particularmente, para o Entre Dez.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O que é isto???

Chama-se jogar à bola...

terça-feira, 26 de maio de 2009

David e Golias

"[...] Saiu do acampamento dos filisteus um guerreiro chamado Golias, de Gat, cuja estatura era de seis côncavos e um palmo. Cobria-lhe a cabeça um capacete de bronze, e o corpo, uma couraça de escamas, cujo peso era de cinco mil siclos de bronze. Tinha perneiras de bronze, e um escudo de bronze defendia os seus ombros. O cabo da lança era como um cilindro de tear, e a ponta pesava seiscentos siclos de ferro. Precedia-o um escudeiro. Apresentou-se diante dos filhos de Israel e gritou-lhes: «Por que é que vos colocastes em ordem de batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saul? Escolhei entre vós um homem que combata comigo, em duelo. Se me vencer e me matar, seremos vossos escravos; mas se eu o vencer e o matar, então vós sereis nossos escravos e servir-nos-eis.» [...] O filisteu apresentava-se pela manhã e pela tarde, e isto durante quarenta dias. Um dia, Jessé disse ao seu filho David: «Toma para os teus irmãos um efá de grão torrado e estes dez pães e leva-os sem demora ao acampamento. Entrega estes dez queijos ao comandante e pergunta se os teus irmãos vão bem ou se têm necessidade de alguma coisa.» Eles estavam com Saul, juntamente com todos os homens de Israel, no vale do Terebinto, em guerra com os filisteus. [...] eis que o guerreiro filisteu Golias, de Gat, avançou das fileiras do seu exército, proferindo os mesmos insultos que nos dias precedentes. E David ouviu-os. Todo o Israel, à vista de Golias, fugiu, tremendo de medo. E diziam: «Vedes esse homem que avança? Ele vem insultar Israel. O rei cumulará de grandes riquezas aquele que o matar, dar-lhe-á a sua filha e há-de isentar de impostos, em Israel, a casa de seu pai. [...] David disse a Saul: «Ninguém desanime por causa desse filisteu! O teu servo irá combatê-lo.» Disse-lhe Saul: «Não poderás ir lutar contra esse filisteu. Não passas de uma criança, e ele é um homem de guerra desde a sua mocidade.» [...] O rei revestiu David com a sua armadura, pôs-lhe na cabeça um capacete de bronze e armou-o de uma couraça. Cingiu-o com a sua espada sobre a armadura. David tentou ver se podia andar com aquelas armas, às quais não estava habituado, e disse a Saul: «Não posso caminhar com esta armadura, pois não estou habituado!» E tirou a armadura. Tomou o seu cajado e escolheu no regato cinco pedras lisas, pondo-as no alforge de pastor que lhe servia de bolsa. Depois, com a funda na mão, avançou contra o filisteu. Este, precedido do escudeiro, aproximou-se de David, mediu-o com os olhos e, vendo que era jovem, louro e de aspecto delicado, desprezou-o. Disse-lhe: «Sou eu, porventura, um cão, para vires contra mim de pau na mão?» [...] Levantou-se o filisteu e avançou contra David. Este também correu para as linhas inimigas ao encontro do filisteu. Meteu a mão no alforge, tomou uma pedra e arremessou-a com a funda, ferindo o filisteu na fronte. A pedra penetrou-lhe na cabeça, e o gigante tombou com o rosto por terra. Assim venceu David o filisteu, ferindo-o de morte com uma funda e uma pedra. [...]" (1 Sm 17)

A final da Liga dos Campeões deste ano está aí e o episódio bíblico que serve de tema a este texto é aquilo que, a meu ver, melhor espelha o confronto que se aproxima. De um lado, com uma "estatura de seis côncavos e um palmo", com armas e armaduras pomposas, teremos um Golias inglês, o maior guerreiro entre o seu povo, campeão em título e representante de um futebol em que o músculo e a transpiração são os emblemas maiores. Do outro lado das fileiras, ao contrário do guerreiro filisteu, armado até aos dentes, arrogante e invencível, teremos um David minúsculo e semi-nu, "jovem, louro e de aspecto delicado", sem armadura porque não é seu hábito vesti-la e armado apenas com uma funda e uma pedra. Um gigante se precipitará contra um infante; a força bruta contra o intelecto. Nada mais a propósito. E a diferença acentua-se, se pensarmos nas ausências de Dani Alves, Abidal, Rafa Márquez e ainda na possibilidade das ausências de Henry e Iniesta. Amanhã veremos se haverá razões para Donatello e Michelangelo esculpirem novas obras-primas.

sábado, 16 de maio de 2009

Barcelona: para além da superfície

O assunto já vai longe - bem sei - mas o tempo é escasso e não me permitiu abordar o tema na altura devida.

Luís Freitas Lobo, na sua crónica n'A Bola, diferenciava o futebol mais "táctico" do Chelsea do futebol mais intuitivo do Barça. Não escondo a irritação que o texto despoletou em mim. Em que medida uma equipa que apenas consegue contemplar uma parte do jogo é mais forte "tacticamente" que uma outra que no seu jogo contempla de forma clara e una todos os momentos do jogo? O mesmo é dizer que uma pessoa que seja saudável e atraente não pode ser muito interessante. A sensação que fica é que o futebol do Barcelona, a essência do mesmo, está condenado a uma subavaliação aviltante devido à forma brilhante com que é interpretado. O clube catalão apresenta um modelo de jogo cujos alicerces vão muito para lá do que as primeiras impressões do mais "superficial" adepto consegue apreender.

Guardiola é provavelmente dos treinadores mais calculistas e "frios" que o futebol jamais conheceu. É um treinador que não arrisca nada, ou seja, é um treinador que não entrega nenhuma variável do jogo à sorte. Por isso, no modelo de jogo dele, a posse de bola é elemento fundamental. É a única maneira de garantir que o jogo decorre sob os nosso desígnios. Não é fruto do acaso, ou da qualidade individual, a superioridade que a equipa do Barcelona demonstra neste "pormenor estatístico". E não me venham dizer que uma grande percentagem neste campo, relativamente ao adversário, não significa nada. Significa tudo. Significa uma maior probabilidade de atingir o golo e, por consequência, uma menor probabilidade de o adversário obter o golo. Conseguem fazer golos sem ter bola?

É a melhor maneira (a mais eficaz) de gerir os ritmos do jogo e de impedir que o adversário imponha o ritmo que mais lhe convém. Por isso, irrita-me este "desprezo" que a maioria dos adeptos revela por este factor. A posse da bola é a "rainha das virtudes" do melhor futebol do mundo. E agora?

Ao perceber que o jogo e os seus momentos não são separáveis, o conjunto da Catalunha consegue um posicionamento ímpar no terreno, independentemente do momento do jogo. E isso inclui um conhecimento profundo do jogo, significa compreender que a melhor maneira de controlá-lo é fazê-lo da maneira mais segura, ou seja, com a bola. E a bola assume o centro de todo o jogo do Barcelona. O posicionamento da equipa, a maneira como todo o conjunto se movimenta, tudo isto é acerca da bola. Agora digam lá que não é irónico que, com tanta (suposta) evolução no jogo, a maior evolução consista em explorar um dos mais antigos, se não mesmo o mais antigo elemento deste jogo. É uma questão de re-inventar o próprio jogo... Cada vez que ouço treinadores a referir que sabem tudo sobre a equipa adversária, não deixo de pensar para mim próprio: "Porreiro, e da tua equipa? Sabes tudo? E mais importante, os teus jogadores sabem todos o que fazer em cada momento, em função da movimentação do colega que tem a bola? E o da bola sabe o que fazer em função dos restantes?" Muitas equipas, com a obsessão de compreender a "personalidade" da equipa adversária, não conseguem vislumbrar a sua própria esquizofrenia.

A diferença do Barcelona para as restantes equipas é que os seus jogadores não são funções (sim, já sei que já estão fartos de ler isto por estas bandas). A equipa assume todas as funções e o facto de não existir um jogador para organizar, outro para equilibrar, outro para acelerar, etc., liberta todos os jogadores para jogarem em função das necessidades da equipa a cada momento. Mas, por outro lado, isto apenas é possivel com uma equipa que saiba o que faz e, acima de tudo, perceba por que é que o faz. Só com a compreensão total da filosofia de jogo, por parte de todos, é que é possivel uma interpretação sincronizada entre todos os elementos, acerca dos vários momentos do jogo, o que por sua vez vai permitir ao todo "moldar-se" à movimentação individual de uma das partes, e o que por sua vez se movimenta sob o "jugo" da identidade da própria equipa, permitindo uma assimilção recíproca entre o individual e o colectivo.

Nietzsche defendia que o trabalho deve ser feito não por grandes ideias, ou para se ficar na História, mas sim porque é bom (tem qualidade) e porque se gosta de fazê-lo. Dá-me a ideia que o filósofo alemão não defendeu esta ideia a pensar em algo tão frívolo como um jogo de futebol, mas a verdade é que podemos aplicá-lo ao mesmo. O facto de o futebol praticado pelo conjunto catalão ser o MELHOR concede o estímulo necessário aos seus jogadores para se envolverem no projecto em que estão inseridos. Isto, aliado ao prazer que os seus elementos retiram do jogo, permite aos mesmos evoluirem, tornando-se portanto melhores jogadores porque estão inseridos nesta equipa, com estas ideias, com este treinador. Cruyff disse: "There are more coaches who can break people than there are coaches who make footballers play better football."

O Barcelona não é a máquina que é porque tem Iniesta, Messi, Henry, Etoo, Xavi, Piqué, etc. Não! O conjunto de Guardiola é o que é porque aqueles jogadores jogam nesta equipa, com este treinador. Daí que me sinta dividido. Por um lado, soa-me a uma injustiça tremenda qualquer possibilidade de Iniesta falhar a final, mas, por outro, a (forte) possibilidade de o Barcelona vencer a final da Champions, mesmo sem Henry, Iniesta e Daniel Alves, talvez servisse para "abrir" os olhos ao mundo e demonstrar que uma grande equipa se faz com GRANDE FUTEBOL, independentemente das individualidades.

Certezas (13)

Já não será novidade falar neste fantástico jogador, mas o simples facto de a sua ascensão ter sido tão meteórica faz com que ainda haja quem não o conheça, ou quem questione o seu real valor, ou quem ponha em causa a continuidade da brilhante época que está a realizar. Devo confessar que, como grande parte dos portugueses, desconhecia este jogador até ao início desta temporada. O facto de ter ido muito novo para Inglaterra terá travado o seu reconhecimento público, ficando vítima da desconfiança que grande parte dos treinadores têm em relação à juventude e de um tipo de futebol em que dificilmente se destacaria. Felizmente, o seu potencial era do conhecimento de quem o vira crescer e, no início da temporada, discretamente, regressou à casa-mãe. No início da época, entre tantas contratações sonantes, o seu nome pouco ou nada era falado. Vinha, segundo muitos, como uma opção de banco, tendo a virtude de conhecer os cantos à casa e de estar familiarizado com a filosofia do clube. O que poucos esperavam é que ganhasse o protagonismo que ganhou. Hoje, é titular indiscutível. Da sua equipa e da selecção do seu país. Admito que a altura que possui possa ser uma mais-valia com que contar, em equipas de estatura baixa, como são aquelas em que joga, mas os seus principais atributos são outros. Não sendo veloz e sendo até pouco ágil, muito por culpa do seu tamanho, é um defesa central que tem a virtude de ser extraordinariamente inteligente. Embora diferente, sobretudo no que concerne a características físicas, consigo encontrar pontos de contacto evidentes com o jovem central do Sporting, Daniel Carriço. O seu jogo posicional é praticamente perfeito e a sua abordagem aos lances francamente acima da média. Sabe ler aquilo que cada lance exige dele e denota, por isso, uma segurança invulgar. Não o vemos, certamente, a ganhar tantos lances em antecipação como outros centrais, não dando por isso tanto nas vistas. Mas isso, por si só, não significa nada. O melhor defesa central não é aquele que ganha mais bolas, mas aquele que percebe melhor o sentido colectivo da palavra "defender". Não é espalhafatoso como outros, não é "brigão", não precisa de ser demasiado agressivo para ser eficaz, e ainda assim é excelente. Tem a ver com inteligência, com superioridade. E, depois, com bola, é formidável. Um defesa, no futebol de hoje, não pode ser só um jogador de lances defensivos. Tem de conseguir conciliar as capacidades defensivas com uma capacidade ofensiva minimamente aceitável. A dele é soberba. A capacidade de passe à distância é muito boa, mas a sua principal característica é a ausência de medo em colocar a bola curta. Raramente entrega mal uma bola, raramente dificulta a recepção a um colega. Procura sair sempre a jogar, como é apanágio do futebol da sua equipa, e fá-lo com elevado êxito. Chega a ser impressionante a forma descontraída como sai de lá de trás em progressão e como entrega a bola em zonas povoadas com total descontracção. Um dos seus movimentos mais típicos é progredir com a bola, gradualmente, ameaçando um passe longo para a direita, mas puxando a bola para a esquerda e continuando a progredir, entrando assim aos poucos nas linhas do adversário, com a bola controlada, à espera de uma tabela ou do espaço necessário para um passe vertical. A importância que tem tido, numa equipa que precisa de ter defesas que saibam sair a jogar na perfeição, espelhará a qualidade que possui. Não é qualquer um que, com 22 anos, se impõe numa das melhores equipas do mundo, e em tão pouco tempo. Por isso, parte do espectáculo que é uma partida de futebol em que uma das equipas é o Barcelona deve-se também à presença em campo de tão astuto jogador. Apesar de ainda ser muito novo e de ter aparecido há tão pouco tempo (o que legitima a sua presença nesta rubrica que tem por objectivo destacar jogadores pouco conhecidos que possuam um potencial fora do comum), encheu-me de tal forma as medidas que, neste momento, Gerard Piqué está já para mim entre os dez melhores na sua posição...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Semana de Decisões

1. O Porto sagrou-se campeão nacional pela quarta vez consecutiva. E foi outra vez um justo vencedor. Apesar das dificuldades, dos contratempos, foi o conjunto mais conjunto, por assim dizer. E isso é o suficiente, quando os rivais se revelam tão fracos. Para mim, Jesualdo só não merecia ter sido campeão no seu primeiro ano. De lá para cá, tem sido capaz de construir uma equipa competitiva, assente numa ideia colectiva clara. A defender, os seus processos estão ao nível dos melhores da Europa e nem sequer tem comparação com o que se faz cá dentro. A atacar, tem algumas limitações, necessitando e muito da capacidade de explosão dos seus jogadores mais ofensivos e, no fundo, das individualidades que um clube grande consegue colocar ao seu dispor. Não sendo perfeito a esse nível, esteve uma vez mais melhor que os treinadores rivais e pode mesmo gabar-se de ser campeão tendo um plantel inferior ao do Benfica e ao do Sporting.

2. No rescaldo da conquista do campeonato, insiste-se num erro que não faz sentido. Os méritos de Jesualdo são evidentes e a justiça não poderia consagrar outra equipa. Mas se há coisa em que o professor continua a mostrar ser pouco dotado é na apreciação de jogadores. No entanto, a douta sabedoria da populaça afirma com galhardia que Jesualdo sabe, melhor que ninguém, explorar o potencial dos jogadores e fazê-los crescer. Isso não é verdade. As contratações falhadas voltaram a ser bastantes: Sapunaru, Benitez, Pelé e Guarín vieram juntar-se a Kazmierczak, Bollati e Stepanov, de anos anteriores. E para o ano já estão anunciados pelo menos mais dois jogadores que não terão vida fácil no Dragão: Varela e Miguel Lopes. O Porto continua a depender muito de alguns jogadores fulcrais como Helton, Lucho, Meireles e Lisandro. Fala-se em renovação do plantel, mas esquece-se que, à excepção de Hulk, todos os jogadores que entraram este ano na equipa fizeram-no por não haver outras soluções. Rolando e Cissokho são jogadores medianos, ao nível do que há nos rivais, de Tonel e Grimi, de David Luiz e Jorge Ribeiro. Daí até serem uma mais-valia individual vai um bocado. São melhores que as alternativas, mas não foram nunca jogadores determinantes. Fernando veio fazer a pré-época e acabou por agarrar o lugar, não sem antes o professor experimentar várias outras opções. A qualidade de Fernando veio logo ao de cima e a única coisa que foi melhorando ao longo da época foi a sua confiança. Não houve mão de Jesualdo, também aqui. Teve a sorte de lhe aparecer ali aquele fulano e de não ter uma opção para o lugar que reunisse consenso. Quanto a Rodriguez, o seu valor ficara já evidente a época passada. Pelo que resta Hulk, o único em quem Jesualdo apostou continuamente, em que demonstrou depositar uma confiança inexcedível. Resumindo, os jogadores que despontaram neste Porto, à excepção de um ou outro, despontaram não porque Jesualdo tenha olho para a coisa, mas porque alguém tinha de agarrar o lugar. E o que dizer de Tarik, praticamente ostracizado depois de ser uma das peças fundamentais na época passada? E a não aposta deliberada em nenhum jovem da casa, chegando ao cúmulo de mandar vir Hélder Barbosa a época passada para logo o preterir? Jesualdo continua a demonstrar não ser muito competente na hora de escolher jogadores. Os seus méritos existem, são o motivo pelo qual o Porto é um justo vencedor, mas estão noutro lado.

3. No Benfica, antecipa-se o cenário mais lógico: a demissão de Quique. O treinador espanhol tem coisas boas, mas a incapacidade para perceber como é que isso pode ser exponenciado chega a ser bizarra. A persistência num sistema que nunca funcionou e que, aos poucos, todos foram percebendo que não podia dar mais não deixaria antever uma segunda época brilhante. Há quem seja contra trocas constantes de treinadores e que queira dar mais tempo a Quique. O problema, para mim, não está nos resultados. Era admissível, num primeiro ano em Portugal, com uma equipa completamente nova, não se conseguir bons resultados. O que não é admissível é não haver evolução, não haver planos alternativos, não se perceber coisas básicas acerca da forma como se trabalha e, em última instância, não se perceber o que se está a fazer mal para poder melhorar. Perante tudo isto, Quique não pode continuar. Seria prolongar o vínculo com a mediocridade.

4. Por falar em mediocridade, o que dizer do futebol actual do Sporting? A era Paulo Bento terá chegado ao fim. Para bem do Sporting, é o melhor que pode acontecer. O futebol praticado foi perdendo riqueza à medida que a era de Paulo Bento avançava. Nos primeiros tempos, o Sporting jogava de forma fluida e alegre. Hoje, é tudo em esforço, sem imaginação, apelando às individualidades em vez de apelar ao colectivo. Em tempos, cheguei a pensar que Paulo Bento conseguiria impor um futebol suficientemente competente para ser campeão, ainda que com parcos recursos financeiros, quando comparados com os dos rivais. Hoje, repetidos até à exaustão os muitos erros que foi cometendo, já não possuo essa crença. Não perceber que o mal de Romagnoli é causado pelo mal da equipa, não perceber que certos jogadores precisam de certos mimos, não perceber que não pode gerir um balneário com indiscutíveis de qualidade discutível, não perceber que os atributos colectivos dos jogadores devem ser preferidos aos atributos individuais, não perceber que Liedson é nocivo a qualquer estratégia que pretenda dos avançados algo mais do que competência individual, tudo isto são pequenas falhas que, juntas, condicionam a capacidade da equipa. E o futebol ressente-se; e torna-se medíocre.

5. Jaime Pacheco foi finalmente despedido a duas jornadas do fim. O Belenenses está com um pé na segunda divisão e Rui Jorge deverá assumir a liderança do barco. Talvez fosse uma boa aposta para manter na próxima época, aconteça o que acontecer. Rui Jorge é daqueles para com quem o futebol ainda está em dívida.

6. Lá por fora, o Barça empatou mas acrescentou um ponto à diferença para o segundo classificado, o que o deixa ainda mais perto do título. Mas a notícia é mesmo a lesão de Iniesta. A sua ausência da final da Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real e pode ser um duro revés nas ambições blaugranas. O médio-espanhol confere à equipa algo que, além dele, só Xavi consegue dar, doses abundantes de imaginação. A sua ausência não torna o Barcelona menos forte em termos atléticos ou técnicos, mas sim mais previsível, menos capaz de furar em espaços curtos. No futebol de toque curto da equipa catalã, Iniesta é o seu melhor intérprete e isso pode ser decisivo.

7. Entretanto, veio a final da Taça do Rei e o Barcelona venceu o primeiro troféu da época. Expressivos 4-1 frente ao Atlético de Bilbao, pelo menos mais 6 ou 7 oportunidades de golo, e uma segunda parte jogada unicamente num dos meios-campos. O futebol do Barça é demolidor e a quantidade de goleadas esta época uma coisa sem par. Falta a Liga dos Campeões para ser uma época inesquecível.

8. Depois da polémica meia-final entre Barcelona e Chelsea, a Sporttv não transmitir, em três canais possíveis, a final da Taça do Rei, optando por transmitir, à mesma hora, a interessantíssima final da taça de Itália entre Lazio e Sampdoria, ou um interessantíssimo Wigan vs Manchester United, não cheira nada bem. A mim, em particular, cheira-me a ressabiamento. Ou a malta que tinha apostado bom dinheiro no Chelsea e ficou a ver navios. O que é interessante tentar perceber é o que vai dentro da cabeça de quem escolhe transmitir um jogo do campeonato inglês, e a final da taça de Itália, e também outro jogo do campeonato francês, em vez de uma final da taça que, além de muito aguardada em Espanha, colocaria em campo a melhor equipa da época e o futebol mais espectacular da década. A mim, isto parece-me propaganda nazi. Virada para Cristiano, não para Adolfo, claro está.

9. Por falar em finais, Diego vai estar ausente da final da UEFA. Tudo por causa de um amarelo daqueles que dá vontade de perguntar ao árbitro se ele gosta mesmo de futebol. A UEFA já deveria ter intervindo, há muito, sobre estes casos. A hipótese de os melhores jogadores ficarem excluídos de uma final devido a um amarelo é absurda. Diego carregou literalmente o Bremen às costas e é inequivocamente a figura da edição deste ano da prova. Sem ele, a final nem sequer vale a pena ser vista. Restar-lhe-á o consolo de ter voltado à ribalta do futebol mundial e de lhe ser finalmente reconhecido todo o talento que tem e do qual certas pessoas não foram capazes de se aperceber.

10. De resto, em Itália é praticamente certo que o "scudetto" é de Mourinho, naquela que terá sido a pior época da carreira do técnico português. Em Inglaterra, o Manchester também já poderá encomendar as faixas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Mentiras sobre o Chelsea - Barcelona

1. Há quem diga que marcar já em tempo de descontos, no único remate certeiro em toda a partida, com apenas dez jogadores em campo, tendo sobrevivido a alguns assaltos à sua baliza, é uma manisfetação inequívoca daquilo a que se chama "estrelinha de campeão". Estão errados. A razão pela qual isto aconteceu confunde-se com a própria essência do Barcelona. Mesmo com dez, foi a única equipa com clarividência em campo, conseguiu evitar zonas de pressão e progredir com a bola no terreno. Mas, mais do que isso, nunca desvirtuou o seu modo de jogar. Mesmo com dez, mesmo estando a fazer um mau jogo, mesmo tendo o melhor do mundo ali pronto para resolver individualmente o que o colectivo não estava a ser capaz de resolver, o Barça manteve-se fiel aos seus princípios. Continuou a circular a bola de um lado para o outro, a tabelar, a tentar furar. E isso deu frutos. Chama-se ter paciência. O simples facto de não ter rematado muito tem a ver com isto. Guardiola já teve oportunidade de dizer que prefere que a sua equipa, dentro da área, troque a bola até arranjar espaço para chutar. Dentro da área. É por isso que se vêem tabelas até quase à linha de golo. Esta equipa só chuta quando a probabilidade de êxito é elevada. Daí o único remate na partida ter dado golo. Não é sorte; é saber.

2. Também há quem diga que o Barcelona pode agradecer ao árbitro a passagem à fase seguinte. Concordo que o Chelsea tem algumas razões de queixa da arbitragem neste jogo, mas não tantas como querem fazer crer. A mão de Piqué é evidente. A de Eto'o não tanto e se uns árbitros marcariam, outros não. A falta sobre Malouda é fora da área. E não há mais nada. Não esquecer ainda que a expulsão de Abidal é forçadíssima. Mas se é verdade que o Chelsea se pode queixar deste jogo, o que dizer do jogo da primeira mão? A expulsão perdoada a Ballack, o penalty não assinalado sobre Henry e o amarelo a Puyol (que o impediu de jogar este jogo), na sequência da mesma jogada, não equivalem ao que se passou neste jogo? Parece-me evidente que sim. Nenhuma das equipas se pode queixar de ter sido mais prejudicada do que a outra.

3. Também há quem sugira que Hiddink deu um banho táctico a Guardiola. Admiro muitíssimo Hiddink, mas defender com uma linha de quatro e outra de cinco à frente da área não é táctica, é respeitinho. A táctica do Chelsea passava por defender o melhor possível o último terço do terreno e depois confiar na sorte. Se se reparar bem, as transições dos ingleses nem sequer eram bem definidas. Avançavam aos trambolhões, mais com o coração do que com ciência. E as oportunidades que tiveram foram quase todas consentidas pelo Barça, que revelou um desacerto defensivo anormal. No cômputo das duas mãos, o Barcelona foi muito melhor equipa, em todos os níveis, do que o Chelsea, embora neste jogo, sobretudo pelos erros defensivos, não tenha conseguido ser superior à equipa inglesa. Fez-se justiça, por isso.

4. Há ainda quem avente que Messi passou uma vez mais ao lado do jogo. Messi mostrou hoje o que é um grande jogador. É evidente que poderia ter tentado agarrar na bola e usar o seu poder de drible para resolver as coisas. Teve várias oportunidades para o fazer, mas nunca o fez. E nunca o fez porque optou por não fazê-lo. Preferiu sempre não desvirtuar o colectivo; preferiu sempre privilegiar a troca sustentada da bola em detrimento dos desequilíbrios individuais. No último lance de ataque da sua equipa, apoderando-se da bola no interior da grande área, poderia ter chutado, poderia ter ido para o drible, poderia até ter tentado cavar o penalty, mas preferiu assistir Iniesta para o golo. Nesta partida, sem fazer uma exibição de gala, Messi mostrou por que é o melhor do mundo. Porque os melhores do mundo também sabem pôr outros a brilhar; porque os melhores do mundo também são aqueles que percebem que o colectivo está acima do individual. Messi esteve apagado? Não. Esteve ao serviço do colectivo. E o colectivo está na final.

P.S. Faltam duas finais para a melhor equipa do ano poder entrar para a História.

P.S.2. Num jogo de nervos, a três minutos do apito final, com a partida a caminhar para o fim e com um resultado que não o satisfazia, ver Guardiola alegremente abraçado a Guus Hiddink, por entre sorrisos, é de homem.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Os erros de Vidic

Nemanja Vidic, o central sérvio do Manchester United, é um jogador muito apreciado por muita gente. Entre esses, não haverá poucos abrangidos pela certeza de que ele é um dos melhores do mundo no seu posto. A minha opinião é completamente diferente e bastante desfavorável em relação ao jogador. As virtudes de Vidic não compensam os seus defeitos e está longe, para mim, dos dez melhores naquela posição. As críticas que lhe faço são as mesmas que faço, por exemplo, ao central luso-brasileiro Pepe: demasiado impetuoso, excessivamente agressivo, incapaz de perceber que nem sempre deve tentar a antecipação, etc. Graças ao seu modo de jogar, chama à atenção. Os cortes no limite, as antecipações, os desarmes arriscados são motivo de aplausos. O problema é que Vidic joga assim em todas as situações e não só naquelas em que o deveria fazer. A diferença entre um grande central e um central espalhafatoso é que o primeiro só faz coisas dessas em último recurso. O seu jogo viril, baseado na velocidade e na agressividade, embora suscite admiração, é o princípio errado pelo qual os erros se acumulam. Não é raro, como acontece com Pepe, que Vidic cometa erros. Muitos deles - é verdade - consegue compensá-los, pela forma como se entrega ao jogo. Mas a categoria de um jogador é directamente proporcional à sua capacidade de evitar meter-se em apuros. E nisso o central sérvio é francamente mau. Apostado em resolver todas as situações através da capacidade atlética, raramente está concentrado em algo mais para além da recuperação de bola. Não percebe, por isso, que muitas vezes deve ficar em contenção; não percebe, por isso, que muitas vezes deve entrar com mais cuidado para não provocar faltas em zonas perigosas. A sua capacidade de interpretação dos lances é reduzidíssima e quando se acabar o vigor físico será um central banal.

Serve este texto, além da exposição desta opinião, para iniciar uma nova rubrica no blogue. A discussão de lances concretos, sobretudo da parte de quem tem uma percepção tão genuína do fenómeno que é o futebol, é das coisas mais interessantes que se pode levar a debate. Até aqui, o Entre Dez rejeitou, por princípio, algo mais além das palavras. Não fazia sentido, num blogue com estas características, haver espaço para imagens ou para vídeos. E não fazia sentido porque o caractér teórico deste espaço foi sempre prioritário. Acontece, porém, que discutir lances concretos sem a ajuda de imagens é um pouco vago e pode dar azo a opiniões ambíguas. Ora bem, iniciando uma nova rubrica que consistirá em debater um ou mais lances concretos, tentando demonstrar um ponto de vista de acordo com factos, com evidências, imagens e vídeos passarão a ter espaço, consoante as necessidades. Assim, e não fugindo ao assunto do texto, gostaria de recuperar o já não tão recente confronto entre Manchester United e Liverpool, para a Liga Inglesa, no qual o defesa sérvio em questão foi a figura decisiva. O Liverpool venceu por 4-1 e Vidic foi o responsável directo pelo primeiro e pelo terceiro golo, lance que lhe valeu também a expulsão. São esses dois lances que destaco no vídeo que se segue.



No primeiro lance, um alívio de um defesa do Liverpool cai na zona de Vidic. Não querendo cabecear a bola de primeira, prefere deixá-la bater. A proximidade de Fernando Torres faz com que o central do Manchester tenha de ser, após esta primeira má decisão, agressivo sobre a bola. Chega primeiro a ela, mas em vez de cabeceá-la para o guarda-redes ou de aliviá-la, terá pensado em contornar o avançado do Liverpool. O excesso de confiança de Vidic acaba por se transformar num erro, com Torres a roubar a bola e a fazer golo. Esta incapacidade para perceber quando deve jogar de forma simples é comum em Vidic porque a confiança nas suas capacidades técnicas excede as mesmas capacidades técnicas. Lances como este não são pontuais, ainda que muitos acabem por não ser fatais como este acabou por ser.

No segundo lance, há um desvio que leva a bola na direcção de Vidic. Com a pressa de se aproximar de Gerrard, não consegue reagir a este desvio e a bola toca-lhe inadvertidamente no peito e depois na coxa, ficando à mercê de Gerrard, que fica isolado. Quando Gerrard está a passar por Vidic, este faz falta, agarrando-o na tentativa de corrigir o erro inicial, e é expulso (o livre consequente acabaria por dar o terceiro golo ao Liverpool). A falha consiste sobretudo na desarticulação com que reage ao lance. A incapacidade de dominar a bola que vem na sua direcção é resultado de uma acção excessivamente impetuosa na tentativa de encurtar, sem necessidade, o espaço para o avançado do Liverpool, quando se recomendaria que ficasse em contenção. A forma agressiva, em constante sobressalto, com que Vidic joga proporciona lances deste tipo, em que um simples desvio torna impossível uma reacção atempada. É graças ao movimento repentino que enceta para marcar ostensivamente Gerrard que depois não consegue estar bem colocado e, sobretudo, concentrado, para dominar a bola. Este lance evidencia, portanto, a principal falha do central sérvio, a incapacidade que ele demonstra em estar concentrado naquilo que importa. Estando essencialmente preocupado em ser rápido, agressivo, combativo, não consegue estar, ao mesmo tempo, bem posicionado, nem consegue ler, correctamente, a abordagem que o lance requer.