sábado, 27 de junho de 2009
Certezas (14)
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Nuno
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17:28:00
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Etiquetas: Benfica, Certezas, Destaques Individuais, Nélson Oliveira
quarta-feira, 24 de junho de 2009
A fraqueza da Espanha
Primeiro, a Espanha de Aragonés jogava num sistema completamente diferente, sistema esse que tornava o jogar da equipa completamente diferente. O futebol não era de pé para pé como o do Barcelona, não havia a capacidade para trocar a bola como há no Barcelona, não havia a quantidade assustadora de tabelas, as triangulações, etc. Havia, isso sim, jogadores inteligentes que, pelas suas características individuais, emprestavam inteligência à equipa. Mas essa inteligência era sempre uma coisa individual ou, quando muito, entre dois atletas. Não havia a coordenação, o entendimento, a organização, o pensamento igual. Não havia, em suma, uma inteligência colectiva, que é o que define o Barcelona de Guardiola. Isso foi evidente, durante o passado europeu. A Espanha sagrou-se campeã, mas toda e qualquer semelhança com o Barcelona de Guardiola é puro engano.
Já a Espanha de Vicente del Bosque, em termos esquemáticos, aproxima-se mais do Barcelona, o que permite maior número de triangulações, maior qualidade na posse e circulação de bola, por virtude de haver mais apoios próximos do portador da bola. E a sua Espanha consegue explorar melhor as qualidades dos seus jogadores dessa forma, jogando com eles mais próximos. Assim sendo, e ainda que Iniesta não tenha jogado nesta Taça das Confederações, seria de prever que esta Espanha jogasse tanto à bola como o Barcelona, acreditando que a virtude da equipa catalã está nos jogadores que possui e na conjugação destes com o modelo que implementou. Nada mais errado. Tudo o que a Espanha faz é resultado dos jogadores que tem, que são muito bons. Mas isso é pouco. E o que distingue o Barcelona é precisamente o facto de o seu futebol não ter nada a ver com a qualidade dos jogadores. Com estes jogadores e jogando numa táctica que potencia as suas qualidades, um 433 assimétrico, sem ala direito, mas com ala esquerdo, a Espanha de Vicente del Bosque consegue ter alguma qualidade porque tem jogadores que interpretam bem as necessidades da equipa nos diversos momentos. O que não tem é uma equipa que interprete isso bem. E quando assim é, mais fácil se torna não obter resultados.
Falando agora da meia-final da Taça das Confederações, a Espanha dominou o jogo praticamente todo e - pode dizer-se - perdeu por culpa própria, com dois erros individuais graves, frente a um adversário demasiado fraco para que pudesse colocar em causa o favoritismo dos espanhóis. Esse domínio, contudo, foi feito às custas das capacidades individuais dos seus atletas. E isso é pouquíssimo. Contra uma equipa num 442 clássico rígido, com referências homem a homem em muitos momentos, que pressionavam em profundidade e tresloucadamente, era facílimo, com um futebol de posse e circulação, vencer o jogo. No entanto, a equipa espanhola abusou da verticalidade, procurou em demasia os dois avançados no meio. Contra uma equipa que pressiona tão mal, é muito simples jogar. Basta ir progredindo gradualmente. Para o fazer, basta recorrer a um passe vertical seguido de uma lateralização. Mas a Espanha nunca lateralizou o jogo, nunca jogou horizontalmente. Preferiu sempre chegar rapidamente à frente, saltar etapas, utilizar passes longos que, ainda que rasteiros, permitiam aos adversários recuperar posições. O jogo da Espanha, ainda que esclarecido, primou pela objectividade em excesso, pela pouca racionalidade e frieza. E, mesmo com jogadores imaginativos como Fabregas e Xavi, não foi capaz de furar a muralha defensiva dos norte-americanos. A esta equipa faltou, sobretudo, ser menos objectiva, mais calma, menos directa, mais criativa, mais paciente, mais imprevisível. Jogando um futebol tão vertical, facilitou a pressão em profundidade dos americanos, não soube procurar os espaços, caiu no jogo de choque do adversário. E, ao fazê-lo, vitimou o seu favoritismo, deixou tudo mais equilibrado, mais dependente da sorte. E a sorte pendeu para o outro lado. O pouco que ainda conseguiu fazer de verdadeiramente bom, os primeiros vinte minutos da segunda parte, altura em que sufocou o seu adversário, fê-lo por obra da capacidade intelectual de Xavi e Fabregas, que souberam ocupar os espaços certos e servir de apoios aos colegas nos momentos certos, fazendo fluir rapidamente o jogo da sua equipa. Ao se tirar Fabregas para colocar Cazorla, era fácil de adivinhar que esse pouco depressa desapareceria. E a Espanha não fez mais nada com cabecinha desde essa altura.
Esta Taça das Confederações demonstra inequivocamente, além da pouca argúcia táctica e estratégica de Vicente del Bosque, que esta Espanha não tem nada a ver com o Barcelona de Guardiola e que a base do bom futebol praticado por uma equipa não é a mesma base que a da outra. A Espanha vive das individualidades e estas podem ser potenciadas pelo esquema táctico apresentado, mas o modelo de jogo e a capacidade colectiva ficam muito aquém do desejado. É por isso que o Barcelona não ganhou tudo ao acaso. Ganhou tudo porque colectivamente é muito mais forte do que qualquer outra equipa no mundo. E é mais forte porque aquilo que está por trás desse colectivo é diferente de tudo o que é normal encontrar noutra qualquer equipa do mundo. Esta Espanha é forte individualmente e consegue, graças a isso, jogar bem em alguns momentos; melhora ainda se jogar num sistema táctico que ajude a potenciar as características dos seus jogadores, como é o caso do sistema adoptado por Vicente del Bosque; mas colectivamente não é extraordinária, não é diferente das demais. E é precisamente na ausência de capacidade colectiva que reside a sua principal fraqueza.
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Nuno
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21:55:00
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segunda-feira, 22 de junho de 2009
Sporting 2009/2010
Veio o defeso e com isso o habitual corropio de possíveis contratações, dispensas, etc. E eu, como adepto do Sporting, não consigo evitar a tentação de calcular quais as melhores estratégias, de forma a levar o clube do meu coração ao caminho do sucesso. Nos parágrafos seguintes, vou-me debruçar sobre a politica que eu adoptaria, na tentativa de sustentar, da melhor forma, o modelo e estilo de jogo que me oferece mais garantias.
PLANTEL
Um plantel curto, com 24 jogadores, facto que me permitiria ter uma maior margem de manobra "orçamental".
Guarda-Redes - Tiago, Ricardo Baptista, Rui Patrício.
Defesas - Caneira, Abel; Polga, Tonel, Carriço, Pedro Mendes; André Marques, Grimi.
Médios - Adrien, Hugo Leal; Hugo Viana, Moutinho; Pereirinha, Izmailov; Romagnoli, Rosado.
Avançados - Djaló, Vukcevic; Saleiro, Postiga, Ricardo Nogueira.
A estratégia passa por um reajuste do plantel sem que este facto se torne um elemento desequilibrador na saúde financeira do clube de Alvalade. Tanto Hugo Viana como Ricardo Nogueira não implicam custos nas suas aquisições (assim como Hugo Leal não representará, de certo, um grande esforço financeiro). Por outro lado, o facto de não pretender contar com elementos como Liedson, Veloso, Rochemback, e até Pedro Silva, permitiria realizar mais-valias importantes para o tão desejado equilíbrio financeiro do Sporting.
A escolha deste plantel é feita à luz do modelo de jogo que gostaria de ver implementado em Alvalade. Uma equipa equilibrada em todos os momentos do jogo, obcecada com a posse de bola, com os sectores bem juntos, e composta por elementos que são fortes na interpretação do jogo, cujas características seriam potenciadas, ao limite, por uma filosofia que promove e recompensa as decisões colectivas ao invés das individuais, sendo que as segundas devem existir apenas como consequência das primeiras. Mas, acima de tudo, fazer da bola o centro do nosso modelo, seja em que momento do jogo nos encontremos.
O 442 losango apresentar-se-ia compacto, sem dar importância à largura do jogo, mas sim á segurança dos seus processos em todos os momentos do jogo. Uma equipa de toque curto, apoiado, em que todos os jogadores, sem excepção, seriam determinantes para esta característica da equipa.
Em termos individuais, a necessidade de fazer perceber a Polga - até poderia recorrer a dados estatísticos, se necessário fosse, para suportar a minha opção - que é proibido jogar longo quando existem opções que permitem à equipa manter a posse do esférico, jogando de forma apoiada. Torna-se essencial que os defesas percebam que eles são tão importantes como quaisquer outros jogadores (avançados, médios) nos processos ofensivos, com e sem bola. Os avançados seriam, qualquer um deles, encarregues, não de fazer golos, tão pouco de dar profundidade, mas de ajudar a equipa a alcançar os seus objectivos: jogar bem.
Este é um plantel que, certamente, concederia muitas alegrias aos seus adeptos. No entanto, fica aqui o desafio, não só aos sportinguistas, mas aos adeptos dos outros clubes também, que, num exercício verosímil e coerente, alinhem o plantel que gostariam de ver no vosso clube.
P.S.: A opção de resgatar Ricardo Nogueira passa pelo reconhecimento de um jogador que é fortíssimo em todos os aspectos colectivos do jogo, e tal facto só pode passar ao lado de alguém que não consiga avaliar a qualidade de um jogador de forma contextualizada. Gostaria de o ver a trabalhar com um grande treinador, numa verdadeira equipa.
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Gonçalo
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18:10:00
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domingo, 21 de junho de 2009
Um questão de qualidade...
Não dá para trocar o Rochemback e o Liedson pelo Josué Pesqueira?
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Gonçalo
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09:44:00
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quarta-feira, 17 de junho de 2009
Barcelona: a invulgaridade de um jogar
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Nuno
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13:10:00
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quinta-feira, 11 de junho de 2009
O Dilema das Funções vs Posições
Há uns tempos, talvez há mais de um ano, publiquei um texto em que defendi que o trinco, o pivô, o médio-defensivo,como queiram, devia ser a âncora de uma equipa. Não sendo por este ser de facto mais importante do que qualquer outro jogador, mas porque lhe conferia um relevância muito particular no desenrolar do jogo.
No entanto, depois de ler um texto em que se defendia algo de muito semelhante, dei comigo a sentir que havia algo que, para mim, já não fazia tanto sentido como outrora. É sobre este assunto que eu me vou debruçar nas próximas linhas.
O médio-defensivo, por se posicionar numa zona central da estrutua da equipa, é requisitado com mais frequência, nos vários momentos do jogo. No entanto, não o considero mais importante do que um lateral, por exemplo. Isto no futebol que preconizo.
Não considero que, numa equipa que seja verdadeiramente una, que jogue verdadeiramente como um todo, o jogador que ocupe esta posição tenha de compreender mais variáveis do jogo, ou que seja mais determinante do que qualquer outro elemento. Desta posição diz-se pretender que procure sempre dar os apoios, que mantenha sempre a equipa ligada e equilibrada, que fosse o ponto de orientação da equipa. Não digo o contrário, apenas digo que todas estas "funções" não são exclusivas de uma posição, mas antes do todo.
No referido texto, que me levou a esta reflexão (texto esse que podem encontrar no blogue Falemos de Futebol), fazia-se alusão ao princípio do farol, princípio que acho correcto, mas que não considero exclusivo de uma posição específica. Defendo isto na perspectiva de um conjunto mais forte, ou seja, mais complicado de dividir e enfraquecer, mais complicado de analisar. Mas não só. O nosso jogar sairá sempre reforçado segundo o paradigma que defendo porque a compreensão total e una do jogo, no limite, exigirá isto mesmo. A nossa âncora, ou o nosso farol, como queiram, é a bola. É em função da mesma que nos posicionamos em campo, que adequamos a nossa estratégia, em todos os momentos do jogo. E só assim poderemos ser "activos" no jogo.
Se cada jogador perceber que em cada momento, esteja ou não perto do colega que detém a posse da bola, a sua movimentação é indispensável para o sucesso do modelo de jogo que preconiza, então essa equipa será um todo. O mesmo jogador que num momento foi "obrigado" a criar linhas de passe, ou a criar apoios, noutro momento, desde que a situação em que a sua equipa se encontre o chame a isso, terá de provocar um desequilíbrio, ou assumir uma movimentação de ruptura, nem que para isso apenas se movimente, lateralmente, metro e meio. Daí que pretenda que os meus jogadores não sejam nem avançados, nem defesas, nem médios. Apenas pretendo uma equipa.
E como distribuo essa equipa em campo? Será um processo aleatório a escolha de posições dentro do campo? Não. Os diferentes momentos do jogo contemplam diferentes movimentações/acções, colocando enfâses variados em cada uma dessas situações. O prazer que cada jogador retira dos diferentes momentos, aliado a uma maior ou menor adequação das suas caracteristicas aos mesmos, deverá decidir em que situções cada jogador se sentirá mais confortável. Porque há posições que, em função do nosso jogar, serão mais expostas a certo tipo de situações, há jogadores que apresentarão diferentes niveis de competência nas diferentes posições. Não porque tenham a obrigação de "compreender" diferentes variáveis, mas porque conseguem oferecer melhores, ou piores, soluções em diferentes momentos do jogo. Daí que se procure colocar cada jogador em contacto com as situações que podem tirar o melhor de cada um. Não porque lhe pretendemos atribuir diferentes funções.
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Gonçalo
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18:06:00
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terça-feira, 9 de junho de 2009
Um tal de Zé Castro
Não queria compará-lo a Pepe ou a Bruno Alves, mas a opinião geral em Portugal sobre estes três jogadores, bem como a tendência para se preferirem defesas impetuosos, carniceiros e atleticamente muito dotados, impõe uma análise desse género. É errado pressupor que um defesa central deva ter determinados atributos físicos. Um defesa central deve ser um defesa central, nada mais. A pressuposição tem por base a ideia de que um defesa central é um jogador que encontra muitas situações de choque, que tem de ser capaz no jogo aéreo, uma vez que joga demasiado recuado para se dar ao luxo de não ganhar bolas de cabeça, que tem de ser duro para impor respeito aos atacantes adversários ou que tem de ser agressivo sobre a bola. Nada disto está correcto. Um central competente do ponto de vista intelectual ocupará melhor os espaços e não necessitará de ir tanto ao choque, conseguirá desarmar pela antecipação ou por ler melhor o lance, sem recorrer à agressividade ou à virilidade, será capaz de ganhar lances de cabeça sem ter de o fazer de uma forma impetuosa, etc. Ao contrário de centrais mais vigorosos, um central deste tipo tem várias vantagens: coloca menos risco em cada uma das suas acções, pois elas comportam mais segurança e mais certeza; está mais lúcido, uma vez que não faz tudo em esforço, para reagir a um percalço, como seja um ressalto ou uma combinação ofensiva rápida do ataque adversário; está mais compenetrado no jogo em si e não tanto na acção decisiva de cortar a bola, o que é o mesmo que dizer que está mais interessado na sua acção colectiva do que na sua acção individual. É esta última característica, que considero aqui vantajosa, que me faz dar clara preferência a centrais de um tipo em detrimento de outro. Um central mais vigoroso, mais aguerrido, está notoriamente focado na bola e na sua acção defensiva individual, no corte, no desarme, no acto de defender por si. Ora bem, um central não deveria servir para defender. É aqui que reside o problema. Este tipo de centrais está interessado em defender, porque consideram que o seu papel numa equipa, em situação defensiva, é defender. E é contra isto que reajo. Mesmo em situação defensiva, o central não deve ter um papel, muito menos um papel tão redutor como seja o de defender. Um central, como qualquer outro jogador, em situação defensiva ou não, deve estar preocupado em jogar, no sentido amplo de jogar. Recuperar a bola deve ser uma preocupação colectiva e não de um jogador em particular, esteja ele a jogar mais recuado ou não. Assim, um jogador que joga de forma mais impetuosa é, na grande maioria das vezes, um jogador que negligencia isto. Enquanto concentrado no seu desempenho defensivo, esquece os colegas, a sua relação com o resto da equipa, as necessidades do colectivo e afins. Quando vai a um lance, vai com o intuito de ganhar a bola por si, quando o acto de ganhar a bola não deve estar confinado a um jogador, mas a toda a equipa. Ao fazê-lo, terá talvez a vantagem de retirar tempo de reacção ao portador da bola, coisa que uma abordagem menos impetuosa não faria ou faria em menor escala, mas incorre em problemas que se sobrepõem claramente aos benefícios. Embora uma abordagem mais impetuosa tenha essa vantagem e, contra uma equipa que não tenha uma organização ofensiva relevante e não saiba jogar colectivamente, reduzindo-se a acções individuais, seja tão ou mais competente que outra abordagem, tem desvantagens óbvias, desvantagens essas potenciadas sempre que se defrontam equipas que privilegiem o colectivo. Exemplo disto foi o jogo entre o Real Madrid e o Barcelona, no qual a abordagem defensiva dos jogadores do Real Madrid foi excessivamente impetuosa, o que propiciou uma desorganização evidente que uma equipa como o Barcelona não poderia deixar de aproveitar. Entre outras coisas, um central que opte por abordagens mais impetuosas está menos apto a reagir a uma tabela (veja-se o golo da Albânia, frente a Portugal, fruto da resposta defensiva de Pepe, facilmente batido por uma simples tabela porque se aproximou impetuosamente do adversário que tinha a bola, sendo que este, ao soltá-la e indo buscá-la mais à frente, evitou, sem recorrer a uma grande perícia, o seu opositor); está menos apto a perceber como se altera, de instante para instante, a estrutura defensiva de que faz parte; está menos apto a travar a sua iniciativa caso haja o perigo de cometer uma falta; etc. Um central que opte por este tipo de jogo pode até ser mais forte do ponto de vista individual, pode até, estatisticamente, ser o responsável directo por mais recuperações de bola, pode até ser mais difícil de ultrapassar individualmente, mas é de certeza menos competente do ponto de vista colectivo e fará parte, portanto, de um colectivo defensivamente mais frágil e fracturado.
Esta é, portanto, uma defesa do central Zé Castro, mas, principalmente, uma defesa de um certo tipo de defesas centrais. Não é, portanto, por capricho que ela é feita, mas com base na repetida ideia de um futebol enquanto um todo que este blogue sempre defendeu. O problema não está na impetuosidade em si, mas nas consequências que, por norma, a impetuosidade acarreta, como sejam a falta de lucidez, a irresponsabilidade colectiva ou o risco de cada iniciativa. É por isso que já se denunciou aqui alguma falta de qualidade a Vidic, central que se baseia na impetuosidade; é por isso também que existe tanta diferença, na nossa opinião, entre Daniel Carriço e Miguel Vítor. Admito que, numa equipa que se fundamente em predicados individuais, que dê mais valor aos elementos que compõem o seu todo, como o são mais de 90% das equipas mundiais, do que às relações entre esses elementos, os jogadores com mais competências individuais sejam mais valorizados. Mas isto acontece porque se tem uma ideia demasiado primitiva do jogo. Apesar de toda a modernidade, há pouquíssima gente que compreende o jogo como ele deveria ser compreendido. Neste sentido, é natural que os jogadores que dão mais nas vistas, ou seja, os jogadores com atributos individuais mais relevantes, tenham mais mercado e sejam preferidos em vez de outros. No caso específico dos centrais, é natural que os centrais mais agressivos, mais impetuosos, mais fortes, capazes de recuperar mais bolas individualmente ou de efectuar mais cortes, ou de ganhar mais duelos físicos, sejam preferidos ao invés de centrais que privilegiam o posicionamento, a fineza, a capacidade técnica e a leitura acertada dos lances. O jogo, no entanto, tem evoluído e centrais matacões, como ainda há dez anos os havia, já não têm lugar nas grandes equipas. Nos dias que correm, porque a competitividade já tornou evidente que não bastam argumentos físicos para se ser jogador, os centrais já têm de possuir alguma inteligência. Falta, contudo, ao jogo continuar a evoluir. E a evolução passará inevitavelmente por entender que os factores intelectuais são mais importantes que os restantes. Nessa altura, entender-se-á que, mesmo aqueles jogadores que jogam mais perto da sua própria baliza devem ser jogadores mais inteligentes do que atleticamente dotados e que aqueles que primam por iniciativas do foro atlético disfarçam nessas iniciativas a escassez de argumentos intelectuais que, nessa altura, se considerarão fundamentais. Enquanto, todavia, a evolução do jogo, lenta como toda a evolução, não torna evidente tudo isto, cá estará o Entre Dez para o afirmar.
Da mesma forma que se defendeu que o futebol do Barcelona de Guardiola veio demonstrar que a evolução do jogo exigia coisas diferentes daquelas que se pensava e que esse futebol era, de algum modo, o futebol do futuro (a propósito, Ibrahimovic disse que o futebol do Barcelona era tão diferente que representava o futebol que se iria jogar em 2015), defende-se também que os centrais com capacidades intelectuais relevantes estão mais aptos às necessidades correntes do jogo do que os outros, isto, como é óbvio, se inseridos numa equipa evoluída, revolucionária, verdadeiramente moderna. Como este blogue nunca foi dado a mediocridades, e apesar de reconhecer que jogadores como Bruno Alves ou Pepe podem dar mais, no contexto actual, a uma equipa de futebol, visto que individualmente têm mais trunfos, defende-se que Zé Castro é melhor jogador, pois que ser melhor implica estar mais apto a jogar numa equipa mais exigente. Numa equipa a sério, cujo conceito de colectivo fosse rigorosamente aplicado, não tenho dúvidas que Zé Castro é francamente melhor jogador que qualquer um destes dois, pelo que, em termos absolutos, a minha preferência tem obrigatoriamente de ir para ele.
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Nuno
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14:25:00
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quarta-feira, 3 de junho de 2009
Os Melhores da Temporada
Fica, como é hábito no fim de cada campeonato, a selecção dos melhores desta temporada, na minha opinião...
Guarda-Redes: Beto
Defesa Direito: Fucile
Defesa Esquerdo: Alonso
Defesas Centrais: Sidnei e Daniel Carriço
Médio-defensivo: Fernando
Médios-ofensivos: Lucho Gonzalez e Izmailov
Extremos: Reyes e Rodriguez
Avançado: Lisandro Lopez
Treinador: Jorge Jesus
Suplentes:
Guarda-Redes: Bracalli
Defesa Direito: Vasco Fernandes
Defesa Esquerdo: Tiago Pinto
Defesas Centrais: Rodriguez e Bruno Alves
Médio-defensivo: Katsouranis
Médio-ofensivos: Hugo Leal e Pablo Aimar
Extremos: Vukcevic e Fábio Coentrão
Avançados: Nené
Treinador: Jesualdo Ferreira
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Nuno
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11:57:00
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domingo, 31 de maio de 2009
Uma Época de Sonho em 4 Capítulos
6-2 ao Real Madrid, 3-0 e 4-0 ao Sevilla, 4-1 e 6-0 ao Málaga, 4-1 ao Numancia, 5-0 ao Deportivo, 4-0 ao Valencia, 6-0 ao Valladolid, 5-0 ao Almeria, 6-1 ao Atlético de Madrid e 6-1 Sporting Gijon. Foram estas as goleadas do Barcelona na Liga Espanhola. Já nem vou falar do Sporting, do Basileia, do Lyon ou do Bayern de Munique, para a Liga dos Campeões. Só no campeonato, foram 12. Das 8 primeiras equipas da Liga Espanhola, só o Villareal se pode gabar de não ter sido goleado pelo campeão. É obra. Johan Cruyff, no seu artigo desta semana, dedica o último ponto da crónica àqueles que precisavam de que este Barcelona ganhasse tudo para acreditarem naquilo que esta equipa propunha. Diz ele o seguinte:
Escribí que no hacía falta ganar esta final para creer en este equipo, para confiar en su propuesta, para elogiar su temporada. No mentí. Pero, para aquellos que solo creen en el resultadismo, en la victoria, este sonoro triunfo, es más necesario que para mi.
Ora bem, a evidência destes resultados esmagadores é também para esses resultadistas, para os quais não bastava que a equipa jogasse o melhor futebol de que há memória. Muito antes da conquista de todos estes títulos e muito antes de haver possibilidade de perceber o quão longe este Barcelona iria na Liga dos Campeões, já o Entre Dez fazia questão de apoiar incondicionalmente a proposta de Guardiola. Para nós, era evidente que este Barcelona não era só mais uma equipa a jogar bem. O que esta equipa propunha era uma revolução no próprio jogo. E essa revolução era precisamente a revolução que o Entre Dez, desde sempre, procurou propor. Daí a afinidade imediata com esta equipa e com este jogar.
2. A Revolução Teórica e o Salto Evolutivo
É exactamente por causa disto que acho que a grande maioria dos que agora aplaudem o Barcelona o fazem apenas por causa dos resultados. É que estes não percebem o quão diferente é o que representa esta equipa. Não se trata só de um conjunto a jogar bonito e a ganhar; não é só um estilo diferente do habitual. É uma lição teórica sobre o jogo. Já tive oportunidade de dissertar sobre isto noutro espaço, mas impõe-se, por esta altura, a repetição de algumas dessas ideias. O Barcelona não é só uma equipa que dá preferência a um pressing alto ou ao passe curto ou ao jogo posicional. É também a própria anulação de predicados ancestrais, a refutação de alguns dos mais antigos dogmas do jogo. É sobre esses dogmas que, de seguida, falarei. 1) Desde sempre se acreditou que qualquer nesga para chutar deveria ser aproveitada e que uma tentativa de alvejar a baliza adversária era sempre de elogiar. O Barcelona de Guardiola vem dizer que não e o próprio treinador disse mesmo que preferia que os seus jogadores, mesmo dentro da área, trocassem a bola até se encontrarem em condições perfeitas para executar o remate. Daí vermos tantas vezes a equipa a entrar pela baliza a dentro em tabelas. Ao contrário, portanto, dessa máxima antiga, defende o Barcelona que o remate deve apenas ser executado em condições ideais. 2) Não serão, também, poucos os treinadores que pedem aos seus laterais para dar preferência a bolas em profundidade ou a lançamentos verticais. Raríssimos são os exemplos de equipas em que a primeira opção do lateral é jogar no meio. Isto porque se achou, desde sempre, que um lateral optar por vir para o meio era muito arriscado e que mais valia jogar pelo seguro assistindo o extremo do seu lado ou jogando comprido. O Barcelona de Guardiola diz que não. O verdadeiro futebol faz-se de riscos e jogar no meio, quando a bola está na linha, é a opção mais adequada para evitar o pressing adversário e manter a posse de bola. 3) Há também quem defenda que só se deve sair a jogar quando é possível sair a jogar. O Barcelona diz que não. Sai-se sempre a jogar, quer o adversário não pressione, quer pressione alto. 4) Um dos maiores dogmas do jogo é aquele que defende que a equipa deve ser sempre objectiva, isto é, deve procurar sempre evoluir com um objectivo delineado. Por outras palavras, atacar pressuporá sempre uma ideia de progressão e jogar para trás só é opção quando em caso de aperto. Este Barcelona diz que isso não é assim. A falta de objectividade em diversas fases de construção do jogo da equipa chega a ser constragedora. Mas isto é a própria essência deste modelo. Antes de privilegiar essa ideia de progressão, essa objectividade, este Barcelona troca inconsequentemente a bola, porque percebe que a objectividade, quando excessiva, se transforma em previsibilidade.
Por tudo isto, esta equipa representa um salto evolutivo no jogo. É um daqueles marcos na evolução das coisas que a História recordará e que modificará tudo o que vier a seguir. Tudo o que se seguir, a partir de agora, terá de ter em conta a imponência demonstrada pela equipa de Guardiola. Qualquer que seja o caminho deste jogo, será em função do que se passou esta época. Quer apareçam cópias do modelo, quer apareçam equipas a aperfeiçoar formas de contrariar o modelo, tudo será feito com este Barcelona em mente. O impacto desta equipa foi demasiado grande para, pura e simplesmente, ser ignorado. Como diz ainda Cruyff, se houve coisa que o Barcelona deixou bem claro foi que é possível ganhar jogando bonito e dando espectáculo:
Este Barça, y de ello me alegro, ha impuesto un estilo de juego que ha provocado millones de elogios en todos los rincones del mundo. Y ha escrito, con letras grandes y de oro, el mensaje de texto más difundido del 2009: se puede ganar jugando bonito, dando espectáculo. Copien esta propuesta. Si se atreven.
3. O Resto do Mundo, a Incompreensão e o Medo
Antes de terminar, gostaria de deixar, também eu, uma pequena referência àqueles que necessitaram de que o Barcelona ganhasse tudo para aceitarem a sua qualidade. No dia da segunda mão da meia-final contra o Chelsea, antes da partida, o Gonçalo previa que o encontro daquela noite ia ser o Barcelona e o Entre Dez contra o resto do mundo. Na altura, achei exagerado, até porque não eram poucos os que, já então, torciam pela vitória do Barcelona. Mas a verdade é que isso não andou muito longe da verdade. Um jogo menos bom, pontuado por uma passagem à final bastante polémica, foi o suficiente para que metade do mundo esquecesse uma época inteira de estrondosas revoluções. Era o sintoma evidente de que o futebol do Barça, ainda que apreciado, não era compreendido. Para muitos, era o sinal de que aquela equipa e aquele modo de jogar não eram assim tão eficazes. Como prognosticara o Gonçalo, o resto do mundo, à mínima falha, aproveitaria para papaguear sobre as supostas lacunas de tal projecto.
Tal comportamento denota claramente uma incerteza quanto à proposta desta equipa. A meu ver, essa incerteza é resultado de uma óbvia incompreensão do que é este Barcelona. O "resto do mundo" é capaz de apreciar o futebol catalão porque tem a capacidade de identificar nele uma componente estética interessante. Mas não consegue compreender de onde vem essa componente, por que razões joga a equipa como joga. Não percebendo isto, só poderia aplaudir essa qualidade quando a ela se sobrepusessem resultados positivos. Como se não bastasse tudo o que estava para trás. O Barcelona esteve em campo contra o resto do mundo, porque era contra o resto do mundo, contra aquilo em que o resto do mundo acreditava e contra a incompreensão do resto do mundo, que esta filosofia de jogo se debatia. E debateu-se até ao fim. E venceu. E agora nem os resultados podem servir de argumentação aos que não a compreendem.
As manifestações contra a passagem do Barcelona à final, além de incrivelmente absurdas, são resultado dessa incompreensão. A azia exagerada que se desnovelou após esse desafio, ilustrada por um comportamento panfletário e arrivista que teve o seu ponto culminante na total falta de ética profissional com que a própria Sporttv lidou com o assunto, optando por não transmitir os dois jogos seguintes da equipa blaugrana, um deles a final da Taça do Rei (uma das mais aliciantes das últimas décadas), foi uma coisa impressionante. Por trás de todo o barulho que se fez, de toda a campanha nazi, está um fundo irracional que importa expor. A voz colectiva que gritava contra a injustiça não gritava contra a injustiça, apesar de pensar que era isso que fazia. Gritava contra a incompreensão. Aqueles que não compreendem determinada coisa têm tendência a desvalorizá-la, de forma a sentirem-se confortáveis consigo mesmos. Só assim conseguem conviver com aquilo que não compreendem. Maior parte das pessoas tem de se defender do irracional, do que não compreende. Este Barcelona produzia uma coisa tão perfeita que os adeptos de futebol tendiam a desconfiar dela. E preferiam apoiar os que não eram capazes de fazer aquilo só para que "aquilo" não saísse vencedor e os deixasse à mercê da sua própria incompreensão e da sua própria pequenez. Olhar na direcção do Barcelona, para muita gente, é um olhar de impotência, um olhar de formiga. E as pessoas, nos tempos que correm, gostam de se imaginar senhoras de si mesmas, racionais, capazes de conduzir a sua vida e de tomar as suas decisões independentemente dos caprichos do destino. Para estes, considerar possível a existência de algo que não compreendiam constituía uma submissão ao desconhecido, ao imprevisível, ao incontrolável. Era por isso que preferiam que o "monstro" fosse eliminado e extinto. As reacções hiperbólicas daqueles que não conseguiram ver que o Barcelona, no conjunto das duas mãos, foi muito mais equipa que o Chelsea e que não foi mais beneficiado do que prejudicado foram reacções de medo, de incompreensão e de mesquinhez. Foi a alma tacanha, miudinha, que prefere ficar do lado dos coitadinhos a compreender os génios, e que define as suas preferências por um ideal anti-darwinista de aproximação progressiva dos mais fracos aos mais fortes. Esses não gostam verdadeiramente de futebol; gostam é que o futebol reproduza o seu ideal marxista de vida, segundo o qual as oportunidades devem ser repartidas por todos, sem olhar a méritos.
Ainda hoje, depois de o Barcelona ter ganho tudo, depois de se ter sagrado a primeira equipa espanhola a ganhar, no mesmo ano, o Campeonato, a Taça do Rei e a Liga dos Campeões, e sobretudo depois de ter ganho tudo isto da maneira categórica como o ganhou, há quem tenha ainda o atrevimento de não reconhecer especial valor a esta equipa. Serão certamente poucos, é verdade, mas serão estes poucos assim tão diferentes daqueles que, embora reconheçam a esta equipa todo o mérito, depressa modificariam a sua opinião caso os resultados tivessem sido outros? O ponto de convergência destes dois tipos de pessoas é precisamente o não compreenderem de onde vem o valor desta equipa e desta proposta. Todo aquele que não achou necessário destacar o tremendo êxito desportivo desta equipa nesta temporada, todo aquele que imagina que a virtude dos catalães residiu no conjunto de jogadores à disposição do treinador, todo aquele que imagina que a força desta equipa se esgota na perfeita comunhão entre as individualidades e o projecto colectivo, todo aquele que, no fundo, não percebe o carácter revolucionário intrínseco a este modelo de jogo, não pode compreender tudo o que significou esta época. Estes não aplaudiram o Barcelona; aplaudiram os resultados do Barcelona. E são precisamente estes os mesmos que, à primeira escorregadela, estarão na fila da frente para caluniar o que antes tão hipocritamente louvaram. O Entre Dez, pelas razões apresentadas, exclui-se automaticamente e desde logo deste grupo singular.
4. Uma Ideologia Controversa em Sintonia com uma Época de Sonho
O Entre Dez não nega o prazer que estas conquistas causaram. É possível até confessar que o regozijo subsequente terá suplantado qualquer outro sentimento até hoje motivado por este desporto. Afinal, trata-se de uma confirmação; trata-se de ter passado a existir uma coisa palpável e de eficácia irrefutável com a qual este projecto se pode identificar plenamente. Esta, mais do que uma vitória emocional, como são todas as vitórias dos adeptos, foi uma vitória ideológica. As ideias controversas deste espaço passam agora a ter um representante real, e um representante que não só deixou boquiaberto o mundo, como ganhou tudo o que poderia ganhar, sem espinhas, de modo a impossibilitar contra-argumentações falaciosas. As vitórias são do Barcelona, dos jogadores do Barcelona e do treinador do Barcelona. Mas essas vitórias, por estarem em absoluta sintonia com aquilo que se defendeu, desde sempre, neste espaço, e que tanta confusão fez a tanta gente, são também vitórias do Entre Dez.
Para finalizar, na brevidade possível, fica um pequeno resumo daquilo que importa reter neste texto e daquilo que, no fundo, é o verdadeiro legado deste Barcelona para a posteridade.
Três provas em disputa; três títulos. A melhor equipa espanhola e a melhor equipa europeia... Em exibições e em títulos. Vencer tudo, vencer tudo jogando sempre bem, vencer tudo marcando 105 golos no campeonato, vencer tudo perfazendo 12 goleadas em 38 jogos no campeonato (quase um terço dos jogos), vencer tudo a cilindrar os adversários mais directos, vencer tudo passando a fase de grupos, os oitavos-de-final e os quartos-de-final da Liga dos Campeões com goleadas atrás de goleadas, vencer tudo jogando a final da Taça do Rei e a final da Liga dos Campeões com uma perna atrás das costas e em ritmo de passeio... Não poderia ser mais categórico. Dificilmente, aliás, terá havido outra equipa na História do jogo que tenha feito uma época tão categórica. 2008/2009 ficará para sempre na História do Futebol. Por tudo isto, foi uma época de sonho para o Futebol, para o Barcelona e, claro, muito particularmente, para o Entre Dez.
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Nuno
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quinta-feira, 28 de maio de 2009
O que é isto???
Chama-se jogar à bola...
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Nuno
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00:42:00
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terça-feira, 26 de maio de 2009
David e Golias
A final da Liga dos Campeões deste ano está aí e o episódio bíblico que serve de tema a este texto é aquilo que, a meu ver, melhor espelha o confronto que se aproxima. De um lado, com uma "estatura de seis côncavos e um palmo", com armas e armaduras pomposas, teremos um Golias inglês, o maior guerreiro entre o seu povo, campeão em título e representante de um futebol em que o músculo e a transpiração são os emblemas maiores. Do outro lado das fileiras, ao contrário do guerreiro filisteu, armado até aos dentes, arrogante e invencível, teremos um David minúsculo e semi-nu, "jovem, louro e de aspecto delicado", sem armadura porque não é seu hábito vesti-la e armado apenas com uma funda e uma pedra. Um gigante se precipitará contra um infante; a força bruta contra o intelecto. Nada mais a propósito. E a diferença acentua-se, se pensarmos nas ausências de Dani Alves, Abidal, Rafa Márquez e ainda na possibilidade das ausências de Henry e Iniesta. Amanhã veremos se haverá razões para Donatello e Michelangelo esculpirem novas obras-primas.
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Nuno
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13:25:00
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sábado, 16 de maio de 2009
Barcelona: para além da superfície
O assunto já vai longe - bem sei - mas o tempo é escasso e não me permitiu abordar o tema na altura devida.
Luís Freitas Lobo, na sua crónica n'A Bola, diferenciava o futebol mais "táctico" do Chelsea do futebol mais intuitivo do Barça. Não escondo a irritação que o texto despoletou em mim. Em que medida uma equipa que apenas consegue contemplar uma parte do jogo é mais forte "tacticamente" que uma outra que no seu jogo contempla de forma clara e una todos os momentos do jogo? O mesmo é dizer que uma pessoa que seja saudável e atraente não pode ser muito interessante. A sensação que fica é que o futebol do Barcelona, a essência do mesmo, está condenado a uma subavaliação aviltante devido à forma brilhante com que é interpretado. O clube catalão apresenta um modelo de jogo cujos alicerces vão muito para lá do que as primeiras impressões do mais "superficial" adepto consegue apreender.
Guardiola é provavelmente dos treinadores mais calculistas e "frios" que o futebol jamais conheceu. É um treinador que não arrisca nada, ou seja, é um treinador que não entrega nenhuma variável do jogo à sorte. Por isso, no modelo de jogo dele, a posse de bola é elemento fundamental. É a única maneira de garantir que o jogo decorre sob os nosso desígnios. Não é fruto do acaso, ou da qualidade individual, a superioridade que a equipa do Barcelona demonstra neste "pormenor estatístico". E não me venham dizer que uma grande percentagem neste campo, relativamente ao adversário, não significa nada. Significa tudo. Significa uma maior probabilidade de atingir o golo e, por consequência, uma menor probabilidade de o adversário obter o golo. Conseguem fazer golos sem ter bola?
É a melhor maneira (a mais eficaz) de gerir os ritmos do jogo e de impedir que o adversário imponha o ritmo que mais lhe convém. Por isso, irrita-me este "desprezo" que a maioria dos adeptos revela por este factor. A posse da bola é a "rainha das virtudes" do melhor futebol do mundo. E agora?
Ao perceber que o jogo e os seus momentos não são separáveis, o conjunto da Catalunha consegue um posicionamento ímpar no terreno, independentemente do momento do jogo. E isso inclui um conhecimento profundo do jogo, significa compreender que a melhor maneira de controlá-lo é fazê-lo da maneira mais segura, ou seja, com a bola. E a bola assume o centro de todo o jogo do Barcelona. O posicionamento da equipa, a maneira como todo o conjunto se movimenta, tudo isto é acerca da bola. Agora digam lá que não é irónico que, com tanta (suposta) evolução no jogo, a maior evolução consista em explorar um dos mais antigos, se não mesmo o mais antigo elemento deste jogo. É uma questão de re-inventar o próprio jogo... Cada vez que ouço treinadores a referir que sabem tudo sobre a equipa adversária, não deixo de pensar para mim próprio: "Porreiro, e da tua equipa? Sabes tudo? E mais importante, os teus jogadores sabem todos o que fazer em cada momento, em função da movimentação do colega que tem a bola? E o da bola sabe o que fazer em função dos restantes?" Muitas equipas, com a obsessão de compreender a "personalidade" da equipa adversária, não conseguem vislumbrar a sua própria esquizofrenia.
A diferença do Barcelona para as restantes equipas é que os seus jogadores não são funções (sim, já sei que já estão fartos de ler isto por estas bandas). A equipa assume todas as funções e o facto de não existir um jogador para organizar, outro para equilibrar, outro para acelerar, etc., liberta todos os jogadores para jogarem em função das necessidades da equipa a cada momento. Mas, por outro lado, isto apenas é possivel com uma equipa que saiba o que faz e, acima de tudo, perceba por que é que o faz. Só com a compreensão total da filosofia de jogo, por parte de todos, é que é possivel uma interpretação sincronizada entre todos os elementos, acerca dos vários momentos do jogo, o que por sua vez vai permitir ao todo "moldar-se" à movimentação individual de uma das partes, e o que por sua vez se movimenta sob o "jugo" da identidade da própria equipa, permitindo uma assimilção recíproca entre o individual e o colectivo.
Nietzsche defendia que o trabalho deve ser feito não por grandes ideias, ou para se ficar na História, mas sim porque é bom (tem qualidade) e porque se gosta de fazê-lo. Dá-me a ideia que o filósofo alemão não defendeu esta ideia a pensar em algo tão frívolo como um jogo de futebol, mas a verdade é que podemos aplicá-lo ao mesmo. O facto de o futebol praticado pelo conjunto catalão ser o MELHOR concede o estímulo necessário aos seus jogadores para se envolverem no projecto em que estão inseridos. Isto, aliado ao prazer que os seus elementos retiram do jogo, permite aos mesmos evoluirem, tornando-se portanto melhores jogadores porque estão inseridos nesta equipa, com estas ideias, com este treinador. Cruyff disse: "There are more coaches who can break people than there are coaches who make footballers play better football."
O Barcelona não é a máquina que é porque tem Iniesta, Messi, Henry, Etoo, Xavi, Piqué, etc. Não! O conjunto de Guardiola é o que é porque aqueles jogadores jogam nesta equipa, com este treinador. Daí que me sinta dividido. Por um lado, soa-me a uma injustiça tremenda qualquer possibilidade de Iniesta falhar a final, mas, por outro, a (forte) possibilidade de o Barcelona vencer a final da Champions, mesmo sem Henry, Iniesta e Daniel Alves, talvez servisse para "abrir" os olhos ao mundo e demonstrar que uma grande equipa se faz com GRANDE FUTEBOL, independentemente das individualidades.
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Gonçalo
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16:54:00
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Certezas (13)
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Nuno
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quinta-feira, 14 de maio de 2009
Semana de Decisões
2. No rescaldo da conquista do campeonato, insiste-se num erro que não faz sentido. Os méritos de Jesualdo são evidentes e a justiça não poderia consagrar outra equipa. Mas se há coisa em que o professor continua a mostrar ser pouco dotado é na apreciação de jogadores. No entanto, a douta sabedoria da populaça afirma com galhardia que Jesualdo sabe, melhor que ninguém, explorar o potencial dos jogadores e fazê-los crescer. Isso não é verdade. As contratações falhadas voltaram a ser bastantes: Sapunaru, Benitez, Pelé e Guarín vieram juntar-se a Kazmierczak, Bollati e Stepanov, de anos anteriores. E para o ano já estão anunciados pelo menos mais dois jogadores que não terão vida fácil no Dragão: Varela e Miguel Lopes. O Porto continua a depender muito de alguns jogadores fulcrais como Helton, Lucho, Meireles e Lisandro. Fala-se em renovação do plantel, mas esquece-se que, à excepção de Hulk, todos os jogadores que entraram este ano na equipa fizeram-no por não haver outras soluções. Rolando e Cissokho são jogadores medianos, ao nível do que há nos rivais, de Tonel e Grimi, de David Luiz e Jorge Ribeiro. Daí até serem uma mais-valia individual vai um bocado. São melhores que as alternativas, mas não foram nunca jogadores determinantes. Fernando veio fazer a pré-época e acabou por agarrar o lugar, não sem antes o professor experimentar várias outras opções. A qualidade de Fernando veio logo ao de cima e a única coisa que foi melhorando ao longo da época foi a sua confiança. Não houve mão de Jesualdo, também aqui. Teve a sorte de lhe aparecer ali aquele fulano e de não ter uma opção para o lugar que reunisse consenso. Quanto a Rodriguez, o seu valor ficara já evidente a época passada. Pelo que resta Hulk, o único em quem Jesualdo apostou continuamente, em que demonstrou depositar uma confiança inexcedível. Resumindo, os jogadores que despontaram neste Porto, à excepção de um ou outro, despontaram não porque Jesualdo tenha olho para a coisa, mas porque alguém tinha de agarrar o lugar. E o que dizer de Tarik, praticamente ostracizado depois de ser uma das peças fundamentais na época passada? E a não aposta deliberada em nenhum jovem da casa, chegando ao cúmulo de mandar vir Hélder Barbosa a época passada para logo o preterir? Jesualdo continua a demonstrar não ser muito competente na hora de escolher jogadores. Os seus méritos existem, são o motivo pelo qual o Porto é um justo vencedor, mas estão noutro lado.
3. No Benfica, antecipa-se o cenário mais lógico: a demissão de Quique. O treinador espanhol tem coisas boas, mas a incapacidade para perceber como é que isso pode ser exponenciado chega a ser bizarra. A persistência num sistema que nunca funcionou e que, aos poucos, todos foram percebendo que não podia dar mais não deixaria antever uma segunda época brilhante. Há quem seja contra trocas constantes de treinadores e que queira dar mais tempo a Quique. O problema, para mim, não está nos resultados. Era admissível, num primeiro ano em Portugal, com uma equipa completamente nova, não se conseguir bons resultados. O que não é admissível é não haver evolução, não haver planos alternativos, não se perceber coisas básicas acerca da forma como se trabalha e, em última instância, não se perceber o que se está a fazer mal para poder melhorar. Perante tudo isto, Quique não pode continuar. Seria prolongar o vínculo com a mediocridade.
4. Por falar em mediocridade, o que dizer do futebol actual do Sporting? A era Paulo Bento terá chegado ao fim. Para bem do Sporting, é o melhor que pode acontecer. O futebol praticado foi perdendo riqueza à medida que a era de Paulo Bento avançava. Nos primeiros tempos, o Sporting jogava de forma fluida e alegre. Hoje, é tudo em esforço, sem imaginação, apelando às individualidades em vez de apelar ao colectivo. Em tempos, cheguei a pensar que Paulo Bento conseguiria impor um futebol suficientemente competente para ser campeão, ainda que com parcos recursos financeiros, quando comparados com os dos rivais. Hoje, repetidos até à exaustão os muitos erros que foi cometendo, já não possuo essa crença. Não perceber que o mal de Romagnoli é causado pelo mal da equipa, não perceber que certos jogadores precisam de certos mimos, não perceber que não pode gerir um balneário com indiscutíveis de qualidade discutível, não perceber que os atributos colectivos dos jogadores devem ser preferidos aos atributos individuais, não perceber que Liedson é nocivo a qualquer estratégia que pretenda dos avançados algo mais do que competência individual, tudo isto são pequenas falhas que, juntas, condicionam a capacidade da equipa. E o futebol ressente-se; e torna-se medíocre.
5. Jaime Pacheco foi finalmente despedido a duas jornadas do fim. O Belenenses está com um pé na segunda divisão e Rui Jorge deverá assumir a liderança do barco. Talvez fosse uma boa aposta para manter na próxima época, aconteça o que acontecer. Rui Jorge é daqueles para com quem o futebol ainda está em dívida.
6. Lá por fora, o Barça empatou mas acrescentou um ponto à diferença para o segundo classificado, o que o deixa ainda mais perto do título. Mas a notícia é mesmo a lesão de Iniesta. A sua ausência da final da Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real e pode ser um duro revés nas ambições blaugranas. O médio-espanhol confere à equipa algo que, além dele, só Xavi consegue dar, doses abundantes de imaginação. A sua ausência não torna o Barcelona menos forte em termos atléticos ou técnicos, mas sim mais previsível, menos capaz de furar em espaços curtos. No futebol de toque curto da equipa catalã, Iniesta é o seu melhor intérprete e isso pode ser decisivo.
7. Entretanto, veio a final da Taça do Rei e o Barcelona venceu o primeiro troféu da época. Expressivos 4-1 frente ao Atlético de Bilbao, pelo menos mais 6 ou 7 oportunidades de golo, e uma segunda parte jogada unicamente num dos meios-campos. O futebol do Barça é demolidor e a quantidade de goleadas esta época uma coisa sem par. Falta a Liga dos Campeões para ser uma época inesquecível.
8. Depois da polémica meia-final entre Barcelona e Chelsea, a Sporttv não transmitir, em três canais possíveis, a final da Taça do Rei, optando por transmitir, à mesma hora, a interessantíssima final da taça de Itália entre Lazio e Sampdoria, ou um interessantíssimo Wigan vs Manchester United, não cheira nada bem. A mim, em particular, cheira-me a ressabiamento. Ou a malta que tinha apostado bom dinheiro no Chelsea e ficou a ver navios. O que é interessante tentar perceber é o que vai dentro da cabeça de quem escolhe transmitir um jogo do campeonato inglês, e a final da taça de Itália, e também outro jogo do campeonato francês, em vez de uma final da taça que, além de muito aguardada em Espanha, colocaria em campo a melhor equipa da época e o futebol mais espectacular da década. A mim, isto parece-me propaganda nazi. Virada para Cristiano, não para Adolfo, claro está.
9. Por falar em finais, Diego vai estar ausente da final da UEFA. Tudo por causa de um amarelo daqueles que dá vontade de perguntar ao árbitro se ele gosta mesmo de futebol. A UEFA já deveria ter intervindo, há muito, sobre estes casos. A hipótese de os melhores jogadores ficarem excluídos de uma final devido a um amarelo é absurda. Diego carregou literalmente o Bremen às costas e é inequivocamente a figura da edição deste ano da prova. Sem ele, a final nem sequer vale a pena ser vista. Restar-lhe-á o consolo de ter voltado à ribalta do futebol mundial e de lhe ser finalmente reconhecido todo o talento que tem e do qual certas pessoas não foram capazes de se aperceber.
10. De resto, em Itália é praticamente certo que o "scudetto" é de Mourinho, naquela que terá sido a pior época da carreira do técnico português. Em Inglaterra, o Manchester também já poderá encomendar as faixas.
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Nuno
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01:53:00
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quinta-feira, 7 de maio de 2009
Mentiras sobre o Chelsea - Barcelona
2. Também há quem diga que o Barcelona pode agradecer ao árbitro a passagem à fase seguinte. Concordo que o Chelsea tem algumas razões de queixa da arbitragem neste jogo, mas não tantas como querem fazer crer. A mão de Piqué é evidente. A de Eto'o não tanto e se uns árbitros marcariam, outros não. A falta sobre Malouda é fora da área. E não há mais nada. Não esquecer ainda que a expulsão de Abidal é forçadíssima. Mas se é verdade que o Chelsea se pode queixar deste jogo, o que dizer do jogo da primeira mão? A expulsão perdoada a Ballack, o penalty não assinalado sobre Henry e o amarelo a Puyol (que o impediu de jogar este jogo), na sequência da mesma jogada, não equivalem ao que se passou neste jogo? Parece-me evidente que sim. Nenhuma das equipas se pode queixar de ter sido mais prejudicada do que a outra.
3. Também há quem sugira que Hiddink deu um banho táctico a Guardiola. Admiro muitíssimo Hiddink, mas defender com uma linha de quatro e outra de cinco à frente da área não é táctica, é respeitinho. A táctica do Chelsea passava por defender o melhor possível o último terço do terreno e depois confiar na sorte. Se se reparar bem, as transições dos ingleses nem sequer eram bem definidas. Avançavam aos trambolhões, mais com o coração do que com ciência. E as oportunidades que tiveram foram quase todas consentidas pelo Barça, que revelou um desacerto defensivo anormal. No cômputo das duas mãos, o Barcelona foi muito melhor equipa, em todos os níveis, do que o Chelsea, embora neste jogo, sobretudo pelos erros defensivos, não tenha conseguido ser superior à equipa inglesa. Fez-se justiça, por isso.
4. Há ainda quem avente que Messi passou uma vez mais ao lado do jogo. Messi mostrou hoje o que é um grande jogador. É evidente que poderia ter tentado agarrar na bola e usar o seu poder de drible para resolver as coisas. Teve várias oportunidades para o fazer, mas nunca o fez. E nunca o fez porque optou por não fazê-lo. Preferiu sempre não desvirtuar o colectivo; preferiu sempre privilegiar a troca sustentada da bola em detrimento dos desequilíbrios individuais. No último lance de ataque da sua equipa, apoderando-se da bola no interior da grande área, poderia ter chutado, poderia ter ido para o drible, poderia até ter tentado cavar o penalty, mas preferiu assistir Iniesta para o golo. Nesta partida, sem fazer uma exibição de gala, Messi mostrou por que é o melhor do mundo. Porque os melhores do mundo também sabem pôr outros a brilhar; porque os melhores do mundo também são aqueles que percebem que o colectivo está acima do individual. Messi esteve apagado? Não. Esteve ao serviço do colectivo. E o colectivo está na final.
P.S. Faltam duas finais para a melhor equipa do ano poder entrar para a História.
P.S.2. Num jogo de nervos, a três minutos do apito final, com a partida a caminhar para o fim e com um resultado que não o satisfazia, ver Guardiola alegremente abraçado a Guus Hiddink, por entre sorrisos, é de homem.
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Nuno
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01:34:00
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terça-feira, 5 de maio de 2009
Os erros de Vidic
Serve este texto, além da exposição desta opinião, para iniciar uma nova rubrica no blogue. A discussão de lances concretos, sobretudo da parte de quem tem uma percepção tão genuína do fenómeno que é o futebol, é das coisas mais interessantes que se pode levar a debate. Até aqui, o Entre Dez rejeitou, por princípio, algo mais além das palavras. Não fazia sentido, num blogue com estas características, haver espaço para imagens ou para vídeos. E não fazia sentido porque o caractér teórico deste espaço foi sempre prioritário. Acontece, porém, que discutir lances concretos sem a ajuda de imagens é um pouco vago e pode dar azo a opiniões ambíguas. Ora bem, iniciando uma nova rubrica que consistirá em debater um ou mais lances concretos, tentando demonstrar um ponto de vista de acordo com factos, com evidências, imagens e vídeos passarão a ter espaço, consoante as necessidades. Assim, e não fugindo ao assunto do texto, gostaria de recuperar o já não tão recente confronto entre Manchester United e Liverpool, para a Liga Inglesa, no qual o defesa sérvio em questão foi a figura decisiva. O Liverpool venceu por 4-1 e Vidic foi o responsável directo pelo primeiro e pelo terceiro golo, lance que lhe valeu também a expulsão. São esses dois lances que destaco no vídeo que se segue.
No primeiro lance, um alívio de um defesa do Liverpool cai na zona de Vidic. Não querendo cabecear a bola de primeira, prefere deixá-la bater. A proximidade de Fernando Torres faz com que o central do Manchester tenha de ser, após esta primeira má decisão, agressivo sobre a bola. Chega primeiro a ela, mas em vez de cabeceá-la para o guarda-redes ou de aliviá-la, terá pensado em contornar o avançado do Liverpool. O excesso de confiança de Vidic acaba por se transformar num erro, com Torres a roubar a bola e a fazer golo. Esta incapacidade para perceber quando deve jogar de forma simples é comum em Vidic porque a confiança nas suas capacidades técnicas excede as mesmas capacidades técnicas. Lances como este não são pontuais, ainda que muitos acabem por não ser fatais como este acabou por ser.
No segundo lance, há um desvio que leva a bola na direcção de Vidic. Com a pressa de se aproximar de Gerrard, não consegue reagir a este desvio e a bola toca-lhe inadvertidamente no peito e depois na coxa, ficando à mercê de Gerrard, que fica isolado. Quando Gerrard está a passar por Vidic, este faz falta, agarrando-o na tentativa de corrigir o erro inicial, e é expulso (o livre consequente acabaria por dar o terceiro golo ao Liverpool). A falha consiste sobretudo na desarticulação com que reage ao lance. A incapacidade de dominar a bola que vem na sua direcção é resultado de uma acção excessivamente impetuosa na tentativa de encurtar, sem necessidade, o espaço para o avançado do Liverpool, quando se recomendaria que ficasse em contenção. A forma agressiva, em constante sobressalto, com que Vidic joga proporciona lances deste tipo, em que um simples desvio torna impossível uma reacção atempada. É graças ao movimento repentino que enceta para marcar ostensivamente Gerrard que depois não consegue estar bem colocado e, sobretudo, concentrado, para dominar a bola. Este lance evidencia, portanto, a principal falha do central sérvio, a incapacidade que ele demonstra em estar concentrado naquilo que importa. Estando essencialmente preocupado em ser rápido, agressivo, combativo, não consegue estar, ao mesmo tempo, bem posicionado, nem consegue ler, correctamente, a abordagem que o lance requer.
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Nuno
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segunda-feira, 27 de abril de 2009
Coisas que se passaram
3. Entretanto, Lisandro resolveu com classe e Fernando já é comparado a Paulo Assunção. O Entre Dez, como é hábito, resolveu antecipar-se às modas e disse, há coisa de seis ou sete meses, basicamente o mesmo. Não podem ouvir nada...
4. O Sporting, sem nenhum dos habituais titulares do meio-campo, rubricou uma exibição como há muito não se via. Pereirinha, o tal que não tinha talento, agora já tem muito potencial. Romagnoli joga demasiado para a equipa e no futebol, como todos sabemos, pensar primeiro no colectivo e depois em si não leva a lado nenhum. Postiga é outro que é fraquinho... Que paciência para isto. O Sporting, jogando desde o início da época com Patrício, Abel, Grimi, Carriço, Tonel, Moutinho, Izmailov, Pereirinha, Romagnoli, Vukcevic e Postiga já era campeão por esta altura.
5. Diz-se que Liedson fez um jogão, que continua a levar o Sporting às costas e que vai ficar mais uns anos em Alvalade. Em relação à última destas notícias, tenho a dizer que lamento, mas até 2012 (ano do termo do novo contrato do Levezinho, segundo consta), haverá apenas dois candidatos ao título: Benfica e Porto. Quanto ao jogo em si, ao contrário do que se disse, Liedson fez um jogo medíocre, mais um. Destaco dois lances que ilustram o modo primitivo com que se vê futebol em Portugal e que está na base do facto de se continuar a idolatrar um jogador absolutamente banal como ele: primeiro, aquela bicicleta na área, quando Postiga estava atrás de si, em muito melhores condições para finalizar; depois, aquela bola que recupera a meio do meio-campo adversário e com a qual tenta fazer um chapéu a um guarda-redes que já tinha voltado para a baliza há meia-hora. Além de o remate nunca poder dar em golo, foi um balão tão grande que mesmo que o guarda-redes ainda não tivesse regressado, podia ir tomar café, limpar o pó à casa, voltar e apanhar a bola. Mas o público aplaudiu. Mesmo tendo Liedson feito um disparate quando poderia ter iniciado uma jogada de perigo, face ao desposicionamento da defesa do Estrela. Depois, fala-se na assistência para Postiga como se fosse uma coisa extraordinária. Mas alguém viu o lance como deve ser? A movimentação é horrível, aproximando-se de Pedro Silva quando este tem a bola e obrigando-o a desenvencilhar-se sozinho. Por sorte, Pedro Silva conseguiu vir para dentro, o que soltou Liedson. Depois, um cruzamento com a bola a saltitar é uma coisa dificílima de efectuar. É isso e fazer um ovo estrelado. E então quando comparam essa assistência à do Postiga, na segunda parte, para o mesmo Liedson (que falha vergonhosamente), só podem estara gozar. A exibição de Liedson salda-se por um golo, num lance em que a defesa do Estrela está muito mal colocada. O resto são disparates, burrices e a alcateia das bancadas a uivar cerimoniosamente.
6. Ainda Liedson. Há quem diga que ele faz a diferença. Vamos ver. Tem esta época uma média de 0,64 golos por jogo, o que até é melhor do que a sua média desde que está em Portugal. Comparemo-lo com outros avançados do nosso campeonato. Cardozo tem o mesmo número de golos, mas a sua média é bem superior: 0,76 golos por jogo. Farias tem 7 golos e uma média de 0,90 golos por jogo. Nuno Gomes tem 7 golos e uma média de 0,58 golos por jogo. De facto, Liedson faz uma diferença do caraças.
7. Lá por fora, Arshavin marcou 4 ao Liverpool. Isto depois de os pupilos de Benitez terem encaixado 7 golos numa eliminatória da Champions. Mas há quem defenda que o Liverpool é a equipa que melhor defende na Europa. Está certo. Quer-me parecer que eles até são certinhos a defender quando jogam enfiados lá atrás. Mas quando têm que ir para cima do adversário, dão quilómetros de espaço. Isso não é defender bem. Isso é defender muito. E é sobretudo abdicar de lançar muitos elementos na frente para os ter cá atrás. O Liverpool não é a melhor equipa europeia a defender, porque defender também é atacar. E, quando ataca, o Liverpool defende francamente mal.
8. Chocante, chocante, era eu dizer que a melhor equipa europeia a defender é o Barcelona. Mas digo-o. Por várias razões. Primeiro, porque percebe que a melhor maneira de defender é ter a bola. Segundo, porque é das poucas equipas que, balanceadas para o ataque, se mantém posicionalmente equilibrada. Terceiro, porque não separa o acto de defender do de atacar. Quarto, porque em situação defensiva, mesmo pressionando alto, mesmo utilizando um bloco alto, ocupa na perfeição os espaços e mantém os sectores unidos.
10. Entretanto, o Real, aos trambolhões, vai encurtando terreno para o Barça. Sem jogar bem, mais com o coração e com Raúl do que com ciência, a equipa de Juande Ramos chega à fase derradeira do campeonato, em vésperas de clássico no Bernabéu, apenas a quatro pontos dos catalães e com a vantagem de não jogar a meio da semana. Vou-me armar em vidente e fazer um previsãozinha: só por azar é que a remontada não acaba já para a semana.
sábado, 18 de abril de 2009
Més que un club
O preâmbulo anterior tem o condão de justificar as asserções que farei de seguida. Dito isto, tive a oportunidade de assistir ao vivo, há dias, em pleno Camp Nou, ao desafio que opôs o Barcelona ao Recreativo de Huelva, a contar para o campeonato espanhol. O jogo foi pouco intenso do ponto de vista emocional, não teve oscilações significativas e foi quase sempre jogado ao mesmo ritmo. Não terá sido um dos melhores jogos do Barcelona, tal a abundância de boas exibições, mas a verdade é que a equipa catalã fez o jogo que mais lhe interessava. Marcou cedo, geriu a vantagem, sempre com mais bola que o adversário, e geriu as expectativas e as energias dos seus jogadores mais influentes. Messi, então, esteve em campo apenas para desentorpecer os músculos, como se fosse um treino de recuperação activa. Ainda assim, foi um desafio agradável, com muitos dos ingredientes habituais: trocas de bola sucessivas, bom jogo posicional e elevada concentração de todos os jogadores. Deste ponto de vista, uma vez que foi um jogo pausado, com poucas transições rápidas de parte a parte, jogado quase sempre com os conjuntos organizados, foi talvez o jogo perfeito para quem tenta perceber os pormenores mais profundos do modelo de Guardiola. Será precisamente a isso que me dedicarei de seguida.
1. Tabelas
Há quem diga que jogar bem não é jogar bonito. Normalmente, isto acontece porque baseiam o conceito de bonito em algo que não o é, na verdade. Em futebol, ou em tudo o que tem um carácter objectivo, o bonito é o que satisfaz essa objectividade. Ou seja, é igual ao bom. Jogar futebol bonito não é andar a fazer cabritos ou cuecas, não é fazer passes longos a toda a hora ou fintar três adversários no sentido contrário à baliza; é jogar bem. Ao contrário do que estas pessoas diriam, o futebol do Barcelona não é atractivo porque é bonito; é atractivo porque é bom. E é bonito porque é bom. Essencialmente, é um futebol em que a taxa de opções correctas é muito elevada. E esta taxa é aquilo que, em futebol, define o que é bom e, por arrasto, o que é bonito. O futebol deste Barcelona é, na sua essência, isto: uma taxa de boas opções francamente superior a toda a concorrência. O seu futebol é reconhecidamente formidável graças à qualidade das opções dos seus jogadores. Isto permite, como consequência, que a equipa tenha uma taxa elevada de passes acertados, bem como a facilidade de progredir em posse. Neste momento, os que discordam de mim, dirão que há equipas que não jogam tão bonito, isto é, de forma tão atractiva, mas que jogam igualmente bem, isto é, são igualmente equipas eficazes e competentes no que diz respeito à objectividade. A divergência de opinião terá unicamente a ver com o conceito de "objectivo". Para maior parte das pessoas, o objectivo do futebol é o golo, ou a vitória. Nesse sentido, uma equipa joga bem se cumprir ou fizer tudo o que estiver ao seu alcance para cumprir esse objectivo. Assim, uma equipa que jogue de forma directa, sem "rodriguinhos", com um ritmo elevadíssimo, sempre com vista à vitória, fará um bom jogo. Não concordo com isto. E a razão prende-se com o facto de não concordar que o objectivo do futebol seja o golo ou a vitória. Como o defendi aqui, o objectivo do golo é um objectivo circunstancial, que só é activado no momento de chutar à baliza. Todos os outros momentos têm por objectivo fazer o melhor possível para passar ao momento seguinte. O objectivo do futebol não é assim o golo ou a vitória, mas sim o fazer o melhor em cada momento. Ora, o Barcelona adopta uma filosofia que se identifica claramente com isto. Em muitos momentos do jogo - eu diria mesmo na maior parte deles - a equipa está menos interessada em marcar golos do que em manter a posse de bola ou fazer o que é melhor a cada momento, ainda que isso implique cinco ou seis acções para progredir o mesmo que poderia progredir numa só acção. Mas o que é mais interessante é que há ocasiões, mesmo quando o resultado está nivelado, em que o futebol do Barça é absolutamente contra-intuitivo. Em certas alturas, quando outra equipa qualquer aproveitaria para progredir no terreno ou para impor velocidade, o Barça joga para trás, envolve-se em tabelas aparentemente inconsequentes e diverte-se a trocar a bola entre os seus jogadores, sem qualquer objectivo aparente. Não é raro, por exemplo, vermos um passe vertical em que o jogador que recebe a bola se pode virar, pois tem espaço, e progredir perigosamente, mas não o faz, preferindo tabelar ou jogar para trás. Estes lances, na minha opinião, definem este Barcelona. As coisas, obviamente, não se fazem apenas por fazer e a ausência de objectividade é apenas aparente. Há, nestes gestos, o reflexo óbvio da forma de estar em campo da equipa. Tabelar quando pode progredir, jogar para trás quando tem espaço para a frente, fazer passes absolutamente inconsequentes quando tem espaço para avançar, são formas de treinar, de mecanizar, de criar rotinas nos jogadores. Preferir trocar a bola sem qualquer espécie de objectividade é precisamente aquilo que os deixa, depois, completamente confortáveis a jogar de costas para a baliza, a fazer tabelas, a considerar apoios, a romper linhas em trocas de bola sucessivas. O divertimento incosequente acaba por funcionar como treino, ou seja, por ter consequências, ainda que não imediatas.
3. Simplicidade Complexa
Muita gente há também que considera o futebol do Barcelona de uma simplicidade incrível. E consideram que essa simplicidade é louvável. O futebol do Barça não tem nada de simples. O facto de aquilo que eles fazem parecer simples deriva do erro comum de não se valorizar coisas como um passe de dez metros, quando são claramente mais complicadas de fazer do que outras que muitas vezes se consideram difíceis, como dribles fantásticos ou remates fortíssimos. Fazer um bom passe envolve tantas variáveis que é um gesto muito mais difícil do que se pensa. E a essência do Barça é o passe. Simplesmente, um pequeno passe não é só um pequeno passe; é um conjunto de movimentos coordenados entre todos os elementos da equipa. A simplicidade do Barcelona não é simples, não é só um futebol de "toca e foge" constante; cada "toca e foge" joga com todas as movimentações dos outros jogadores. Jogar como o Barça joga, com uma tal qualidade de troca de bola, só é possível porque existe uma coordenação colectiva fantástica e porque a movimentação de todos os colegas sem bola é de tal forma correcta que propicia, a cada instante, variadíssimas soluções de passe ao portador da bola. A aparência da simplicidade é o resultado de um processo muito complexo.
4. Atacar de forma verdadeiramente colectiva
Para muita gente, ser bom tacticamente é saber arrumar defensivamente a equipa. Para outros, acresce a isto o mecanizar o melhor possível os momentos de transição. Assim, uma equipa só é colectiva em momento defensivo ou quando está em transição. Daí que, a nível ofensivo, se pense que um treinador só pode treinar, isto é, rotinar, o momento da transição defesa-ataque. Para estas pessoas, em ataque organizado, o que conta é a qualidade, a inspiração, os atributos individuais de cada um dos jogadores, e não nada que possa ser mecanizado. Isto é absolutamente falso. E a maior lição de Guardiola, este ano, é precisamente essa. É indubitável que as individualidades influenciam a qualidade com que o colectivo manobra, mas é tão possível defender bem sem grandes individualidades do ponto de vista defensivo como é possível atacar bem sem grandes individualidades do ponto de vista ofensivo. Isto, claro, se essa falta de individualidades for compensada por um desempenho colectivo relevante. Uma equipa que defenda à zona, e a entreajuda entre os jogadores, as compensações, o posicionamento em função dos colegas estiver correcto, é óbvio que minoriza a falta de qualidade individual de cada um dos atletas, pois estão menos expostos às suas debilidades. Mas por que não seria assim em termos ofensivos? A falta de explosão de um extremo não pode ser compensada utilizando uma tabela com um companheiro? Claro que pode. E se não tem capacidade de ultrapassar o adversário pelo drible, tem-no certamente com uma tabela, por mais lento que seja. Daí que todo o gesto colectivo seja uma arma para compensar a individualidade. Este Barcelona ataca de forma verdadeiramente colectiva. Ao jogar em constantes tabelas, num futebol claramente apoiado, de toque curto, de passes verticais, de exploração do espaço entre linhas, está a valorizar não as características individuais dos seus atletas, mas as relações entre cada um deles. Não é, portanto, na qualidade individual dos seus elementos, mas sim na relação entre eles que reside a força ofensiva do Barça.
5. Qualidade individual
6. Zona Perfeita
7. Apoios
Muito da capacidade do Barcelona passa pela facilidade que tem em criar apoios constantes. Quanto mais apoios houver, mais soluções tem quem leva a bola e mais fácil é fugir à actividade defensiva do adversário. A forma de jogar sem bola deste Barcelona potencia, em muito, essa facilidade. Ao contrário do que muitas vezes se pensa e do que, à partida, parece ter mais lógica, nem sempre faz sentido, quando a equipa tem bola, fazer o chamado "campo grande", isto é, dispor os jogadores o mais afastados de si de forma a preencherem todos os espaços do campo e a haver mais espaço para jogar. A principal intenção deste tipo de estratégia é levar o adversário, se este jogar ao homem, a abrir brechas entre os seus elementos. Mas contra equipas que joguem bem à zona, isto não acontece. Pode, de facto, haver mais espaço para receber a bola, mas haverá menos espaço para furar. Na prática, as equipas podem lateralizar infinitamente o jogo, se tiverem qualidade para isso, mas não ganham nada com isso se os adversários, defensivamente, forem bem organizados. Fazer "campo grande" faz sentido quando tem de fazer sentido. E ao contrário do que se pensa, este Barcelona não joga extremamente aberto, com os jogadores a darem sistematicamente largura e profundidade. É raríssimo que os dois extremos, em processo ofensivo, estejam os dois abertos ao mesmo tempo; é raríssimo que os dois médios-ofensivos estejam longe um do outro. Há sempre gente perto uma da outra. A equipa evolui em harmónio e não de forma rectilínea, torcendo-se sobre si mesma para permitir que os laterais dêem profundidade ou que o avançado baixe para tabelar com o médio. O Barcelona não faz "campo grande" a não ser quando lhe interessa e é até, muitas vezes, uma equipa encolhida, jogando em pouco espaço de terreno, quer seja a defender, quer seja a atacar, só esticando o jogo quando o adversário fica emaranhado na teia de apoios que conseguem criar. Os seus jogadores, por causa disto, têm a possibilidade de correr menos, uma vez que têm menos espaço para cobrir.
8. Ausência de passes longos
9. Ritmo
Antes da partida com o Recreativo, Guardiola disse que a sua equipa teria de tentar evitar um ritmo de jogo baixo e tranquilo, pois isso interessava ao adversário. Para evitar isso, o treinador do Barça dizia que seria importante circular bem a bola. O ritmo elevado de jogo não é senão o ritmo elevado a que a bola circula. Nesse aspecto, sim, o Barcelona tem um ritmo de jogo frenético, se for preciso. Mas não é uma equipa constantemente vertical, constantemente a tentar chegar à frente. O seu ritmo de jogo, isto é, a intensidade com que ataca as redes adversárias, não é alto. E isso é um pormenor importantíssimo. Jogar apoiado, em toque curto, de forma segura, privilegiando a posse de bola não é compatível com um ritmo de jogo elevado, pois os riscos de efectuar maus passes aumenta com o aumento do ritmo de jogo. O Barça troca velozmente a bola, mas não joga velozmente. A sua evolução defesa-ataque é, porventura, das mais demoradas do mundo, servindo essa demora para a equipa se manter unida e apoiada, o que permite crescer por etapas, sempre em condições de ser ela a mandar na partida.
10. Dois médios-ofensivos
Para muitos, o esquema táctico, isto é, a disposição dos jogadores em campo não tem qualquer influência na forma como a equipa joga, uma vez que são as dinâmicas que interessam, e qualquer esquemo táctico permite jogar de todas as maneiras com igual eficácia. Para esses, o Barcelona poderia jogar da mesma forma em 442 clássico, por exemplo. Não concordo com isto. Aliás, imaginar que só as dinâmicas têm importância, numa equipa, seria imaginar, por exemplo, que não há qualquer razão lógica para um treinador optar por um esquema táctico em vez de outro. Sinceramente, este Barcelona, com outra qualquer táctica, era outra equipa, jogaria de forma absolutamente diferente. Uma das coisas mais importantes, porventura, é a utilização de dois médios-ofensivos. Já nem vou falar das características individuais dos médios que jogam nestas duas posições, apesar de elas serem únicas, no futebol europeu, mas é completamente diferente jogar em 433 com dois médios-ofensivos de jogar, por exemplo, apenas com 1, em 4231. Em termos ofensivos, a presença de mais um jogador permite à equipa, em zonas avançadas do terreno, uma rede de apoios muito mais eficaz. Depois, haver dois médios-ofensivos potencia um pressing muito mais alto, uma melhor ligação entre meio-campo e ataque e, em termos gerais, uma melhor arrumação dos jogadores em função do espaço ocupado pela equipa.
11. Movimentos típicos dos extremos com bola
12. Verticais ou diagonais sem bola e passes verticais
Outro dos movimentos ofensivos mecanizados na equipa são as verticais ou as diagonais sem bola. Normalmente, um dos médios-ofensivos volta-se para trás e joga a bola no médio-defensivo. Nesse momento, o outro médio-ofensivo inicia um movimento umas vezes vertical, outras diagonal, mas nunca recebe a bola. Esta é novamente endereçada ao mesmo médio-ofensivo, num passe vertical, e este agora tem mais espaço, fruto da desmarcação do colega, que arrastou adversários. A partir daqui, a bola entrará nas linhas ou subirá no ponta-de-lança, que tem por hábito descer para dar um apoio vertical, sendo um dos extremos a dirigir-se, na diagonal, para o centro do ataque. Outro movimento sem bola semelhante, com os mesmos fins, são as diagonais dos extremos. Associado a isto está a quantidade incrível de passes verticais, rasteiros, que a equipa consegue. Com estes passes, usualmente propiciados por estas movimentações ilusórias, a equipa progride verticalmente no terreno sem levantar a bola do chão, de forma segura, etapa a etapa.
13. Bolas paradas defendidas à zona.
O Barcelona defende os cantos à zona, colocando, por norma, 8 jogadores zonalmente e ainda um à entrada da área. Isto poderá variar de adversário para adversário, mas é usual não colocar nenhum jogador em nenhum dos postes (o que não deixa de ser curioso, tendo em conta maior parte das zonas), um jogador na zona do primeiro desvio, na linha vertical da pequena área, uma linha de quatros jogadores na linha de pequena área e ainda outra linha, um pouco mais adiantada que esta, com três homens nos intervalos dos outros quatro. Um dos defeitos que se aponta ao Barcelona, ou uma das dúvidas em relação à sua capacidade competitiva, prende-se com os lances de bola parada. Diz-se que a equipa é muito permeável de bola parada, mas dos 24 golos sofridos na Liga apenas 3 foram de bola parada, ao passo que, na Liga dos Campões, só 2 em 12 (excluo os livres directos). Só 1 em cada 6 golos sofridos são de bola parada, pelo que me parece francamente exagerado falar de permeabilidade nesses lances.
14. Importância da parte estratégica do jogo
15. Rotatividade do plantel
Resumindo, este Barcelona, definido pela expressão catalã que encabeça este texto, é mesmo mais do que um clube. Não querendo apropriar-me do sentido exacto da expressão, que encerra questões políticas e culturais bem mais fortes e que não são chamadas para o caso, considero este Barcelona bem mais do que uma equipa normal, no sentido em que funciona de forma totalmente diferente, com princípios bem próprios e uma mentalidade incrivelmente distinta. O prazer que extraio ao ver esta equipa jogar e todo o reconhecimento que agora lhe dão é uma espécie de vitória ideológica. Afinal, nenhuma equipa, na actualidade e não só, reflecte com maior exactidão aquilo que se defendeu desde sempre no Entre Dez como este Barcelona. Guardiola e o seu Barça são o rosto visível das ideias deste espaço e o seu sucesso será também o sucesso dessas ideias.
Escrito por
Nuno
às
01:27:00
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bolas ao poste
Etiquetas: Barcelona, Raciocínios Tácticos