sábado, 16 de maio de 2009

Certezas (13)

Já não será novidade falar neste fantástico jogador, mas o simples facto de a sua ascensão ter sido tão meteórica faz com que ainda haja quem não o conheça, ou quem questione o seu real valor, ou quem ponha em causa a continuidade da brilhante época que está a realizar. Devo confessar que, como grande parte dos portugueses, desconhecia este jogador até ao início desta temporada. O facto de ter ido muito novo para Inglaterra terá travado o seu reconhecimento público, ficando vítima da desconfiança que grande parte dos treinadores têm em relação à juventude e de um tipo de futebol em que dificilmente se destacaria. Felizmente, o seu potencial era do conhecimento de quem o vira crescer e, no início da temporada, discretamente, regressou à casa-mãe. No início da época, entre tantas contratações sonantes, o seu nome pouco ou nada era falado. Vinha, segundo muitos, como uma opção de banco, tendo a virtude de conhecer os cantos à casa e de estar familiarizado com a filosofia do clube. O que poucos esperavam é que ganhasse o protagonismo que ganhou. Hoje, é titular indiscutível. Da sua equipa e da selecção do seu país. Admito que a altura que possui possa ser uma mais-valia com que contar, em equipas de estatura baixa, como são aquelas em que joga, mas os seus principais atributos são outros. Não sendo veloz e sendo até pouco ágil, muito por culpa do seu tamanho, é um defesa central que tem a virtude de ser extraordinariamente inteligente. Embora diferente, sobretudo no que concerne a características físicas, consigo encontrar pontos de contacto evidentes com o jovem central do Sporting, Daniel Carriço. O seu jogo posicional é praticamente perfeito e a sua abordagem aos lances francamente acima da média. Sabe ler aquilo que cada lance exige dele e denota, por isso, uma segurança invulgar. Não o vemos, certamente, a ganhar tantos lances em antecipação como outros centrais, não dando por isso tanto nas vistas. Mas isso, por si só, não significa nada. O melhor defesa central não é aquele que ganha mais bolas, mas aquele que percebe melhor o sentido colectivo da palavra "defender". Não é espalhafatoso como outros, não é "brigão", não precisa de ser demasiado agressivo para ser eficaz, e ainda assim é excelente. Tem a ver com inteligência, com superioridade. E, depois, com bola, é formidável. Um defesa, no futebol de hoje, não pode ser só um jogador de lances defensivos. Tem de conseguir conciliar as capacidades defensivas com uma capacidade ofensiva minimamente aceitável. A dele é soberba. A capacidade de passe à distância é muito boa, mas a sua principal característica é a ausência de medo em colocar a bola curta. Raramente entrega mal uma bola, raramente dificulta a recepção a um colega. Procura sair sempre a jogar, como é apanágio do futebol da sua equipa, e fá-lo com elevado êxito. Chega a ser impressionante a forma descontraída como sai de lá de trás em progressão e como entrega a bola em zonas povoadas com total descontracção. Um dos seus movimentos mais típicos é progredir com a bola, gradualmente, ameaçando um passe longo para a direita, mas puxando a bola para a esquerda e continuando a progredir, entrando assim aos poucos nas linhas do adversário, com a bola controlada, à espera de uma tabela ou do espaço necessário para um passe vertical. A importância que tem tido, numa equipa que precisa de ter defesas que saibam sair a jogar na perfeição, espelhará a qualidade que possui. Não é qualquer um que, com 22 anos, se impõe numa das melhores equipas do mundo, e em tão pouco tempo. Por isso, parte do espectáculo que é uma partida de futebol em que uma das equipas é o Barcelona deve-se também à presença em campo de tão astuto jogador. Apesar de ainda ser muito novo e de ter aparecido há tão pouco tempo (o que legitima a sua presença nesta rubrica que tem por objectivo destacar jogadores pouco conhecidos que possuam um potencial fora do comum), encheu-me de tal forma as medidas que, neste momento, Gerard Piqué está já para mim entre os dez melhores na sua posição...

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Semana de Decisões

1. O Porto sagrou-se campeão nacional pela quarta vez consecutiva. E foi outra vez um justo vencedor. Apesar das dificuldades, dos contratempos, foi o conjunto mais conjunto, por assim dizer. E isso é o suficiente, quando os rivais se revelam tão fracos. Para mim, Jesualdo só não merecia ter sido campeão no seu primeiro ano. De lá para cá, tem sido capaz de construir uma equipa competitiva, assente numa ideia colectiva clara. A defender, os seus processos estão ao nível dos melhores da Europa e nem sequer tem comparação com o que se faz cá dentro. A atacar, tem algumas limitações, necessitando e muito da capacidade de explosão dos seus jogadores mais ofensivos e, no fundo, das individualidades que um clube grande consegue colocar ao seu dispor. Não sendo perfeito a esse nível, esteve uma vez mais melhor que os treinadores rivais e pode mesmo gabar-se de ser campeão tendo um plantel inferior ao do Benfica e ao do Sporting.

2. No rescaldo da conquista do campeonato, insiste-se num erro que não faz sentido. Os méritos de Jesualdo são evidentes e a justiça não poderia consagrar outra equipa. Mas se há coisa em que o professor continua a mostrar ser pouco dotado é na apreciação de jogadores. No entanto, a douta sabedoria da populaça afirma com galhardia que Jesualdo sabe, melhor que ninguém, explorar o potencial dos jogadores e fazê-los crescer. Isso não é verdade. As contratações falhadas voltaram a ser bastantes: Sapunaru, Benitez, Pelé e Guarín vieram juntar-se a Kazmierczak, Bollati e Stepanov, de anos anteriores. E para o ano já estão anunciados pelo menos mais dois jogadores que não terão vida fácil no Dragão: Varela e Miguel Lopes. O Porto continua a depender muito de alguns jogadores fulcrais como Helton, Lucho, Meireles e Lisandro. Fala-se em renovação do plantel, mas esquece-se que, à excepção de Hulk, todos os jogadores que entraram este ano na equipa fizeram-no por não haver outras soluções. Rolando e Cissokho são jogadores medianos, ao nível do que há nos rivais, de Tonel e Grimi, de David Luiz e Jorge Ribeiro. Daí até serem uma mais-valia individual vai um bocado. São melhores que as alternativas, mas não foram nunca jogadores determinantes. Fernando veio fazer a pré-época e acabou por agarrar o lugar, não sem antes o professor experimentar várias outras opções. A qualidade de Fernando veio logo ao de cima e a única coisa que foi melhorando ao longo da época foi a sua confiança. Não houve mão de Jesualdo, também aqui. Teve a sorte de lhe aparecer ali aquele fulano e de não ter uma opção para o lugar que reunisse consenso. Quanto a Rodriguez, o seu valor ficara já evidente a época passada. Pelo que resta Hulk, o único em quem Jesualdo apostou continuamente, em que demonstrou depositar uma confiança inexcedível. Resumindo, os jogadores que despontaram neste Porto, à excepção de um ou outro, despontaram não porque Jesualdo tenha olho para a coisa, mas porque alguém tinha de agarrar o lugar. E o que dizer de Tarik, praticamente ostracizado depois de ser uma das peças fundamentais na época passada? E a não aposta deliberada em nenhum jovem da casa, chegando ao cúmulo de mandar vir Hélder Barbosa a época passada para logo o preterir? Jesualdo continua a demonstrar não ser muito competente na hora de escolher jogadores. Os seus méritos existem, são o motivo pelo qual o Porto é um justo vencedor, mas estão noutro lado.

3. No Benfica, antecipa-se o cenário mais lógico: a demissão de Quique. O treinador espanhol tem coisas boas, mas a incapacidade para perceber como é que isso pode ser exponenciado chega a ser bizarra. A persistência num sistema que nunca funcionou e que, aos poucos, todos foram percebendo que não podia dar mais não deixaria antever uma segunda época brilhante. Há quem seja contra trocas constantes de treinadores e que queira dar mais tempo a Quique. O problema, para mim, não está nos resultados. Era admissível, num primeiro ano em Portugal, com uma equipa completamente nova, não se conseguir bons resultados. O que não é admissível é não haver evolução, não haver planos alternativos, não se perceber coisas básicas acerca da forma como se trabalha e, em última instância, não se perceber o que se está a fazer mal para poder melhorar. Perante tudo isto, Quique não pode continuar. Seria prolongar o vínculo com a mediocridade.

4. Por falar em mediocridade, o que dizer do futebol actual do Sporting? A era Paulo Bento terá chegado ao fim. Para bem do Sporting, é o melhor que pode acontecer. O futebol praticado foi perdendo riqueza à medida que a era de Paulo Bento avançava. Nos primeiros tempos, o Sporting jogava de forma fluida e alegre. Hoje, é tudo em esforço, sem imaginação, apelando às individualidades em vez de apelar ao colectivo. Em tempos, cheguei a pensar que Paulo Bento conseguiria impor um futebol suficientemente competente para ser campeão, ainda que com parcos recursos financeiros, quando comparados com os dos rivais. Hoje, repetidos até à exaustão os muitos erros que foi cometendo, já não possuo essa crença. Não perceber que o mal de Romagnoli é causado pelo mal da equipa, não perceber que certos jogadores precisam de certos mimos, não perceber que não pode gerir um balneário com indiscutíveis de qualidade discutível, não perceber que os atributos colectivos dos jogadores devem ser preferidos aos atributos individuais, não perceber que Liedson é nocivo a qualquer estratégia que pretenda dos avançados algo mais do que competência individual, tudo isto são pequenas falhas que, juntas, condicionam a capacidade da equipa. E o futebol ressente-se; e torna-se medíocre.

5. Jaime Pacheco foi finalmente despedido a duas jornadas do fim. O Belenenses está com um pé na segunda divisão e Rui Jorge deverá assumir a liderança do barco. Talvez fosse uma boa aposta para manter na próxima época, aconteça o que acontecer. Rui Jorge é daqueles para com quem o futebol ainda está em dívida.

6. Lá por fora, o Barça empatou mas acrescentou um ponto à diferença para o segundo classificado, o que o deixa ainda mais perto do título. Mas a notícia é mesmo a lesão de Iniesta. A sua ausência da final da Liga dos Campeões é agora uma possibilidade real e pode ser um duro revés nas ambições blaugranas. O médio-espanhol confere à equipa algo que, além dele, só Xavi consegue dar, doses abundantes de imaginação. A sua ausência não torna o Barcelona menos forte em termos atléticos ou técnicos, mas sim mais previsível, menos capaz de furar em espaços curtos. No futebol de toque curto da equipa catalã, Iniesta é o seu melhor intérprete e isso pode ser decisivo.

7. Entretanto, veio a final da Taça do Rei e o Barcelona venceu o primeiro troféu da época. Expressivos 4-1 frente ao Atlético de Bilbao, pelo menos mais 6 ou 7 oportunidades de golo, e uma segunda parte jogada unicamente num dos meios-campos. O futebol do Barça é demolidor e a quantidade de goleadas esta época uma coisa sem par. Falta a Liga dos Campeões para ser uma época inesquecível.

8. Depois da polémica meia-final entre Barcelona e Chelsea, a Sporttv não transmitir, em três canais possíveis, a final da Taça do Rei, optando por transmitir, à mesma hora, a interessantíssima final da taça de Itália entre Lazio e Sampdoria, ou um interessantíssimo Wigan vs Manchester United, não cheira nada bem. A mim, em particular, cheira-me a ressabiamento. Ou a malta que tinha apostado bom dinheiro no Chelsea e ficou a ver navios. O que é interessante tentar perceber é o que vai dentro da cabeça de quem escolhe transmitir um jogo do campeonato inglês, e a final da taça de Itália, e também outro jogo do campeonato francês, em vez de uma final da taça que, além de muito aguardada em Espanha, colocaria em campo a melhor equipa da época e o futebol mais espectacular da década. A mim, isto parece-me propaganda nazi. Virada para Cristiano, não para Adolfo, claro está.

9. Por falar em finais, Diego vai estar ausente da final da UEFA. Tudo por causa de um amarelo daqueles que dá vontade de perguntar ao árbitro se ele gosta mesmo de futebol. A UEFA já deveria ter intervindo, há muito, sobre estes casos. A hipótese de os melhores jogadores ficarem excluídos de uma final devido a um amarelo é absurda. Diego carregou literalmente o Bremen às costas e é inequivocamente a figura da edição deste ano da prova. Sem ele, a final nem sequer vale a pena ser vista. Restar-lhe-á o consolo de ter voltado à ribalta do futebol mundial e de lhe ser finalmente reconhecido todo o talento que tem e do qual certas pessoas não foram capazes de se aperceber.

10. De resto, em Itália é praticamente certo que o "scudetto" é de Mourinho, naquela que terá sido a pior época da carreira do técnico português. Em Inglaterra, o Manchester também já poderá encomendar as faixas.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Mentiras sobre o Chelsea - Barcelona

1. Há quem diga que marcar já em tempo de descontos, no único remate certeiro em toda a partida, com apenas dez jogadores em campo, tendo sobrevivido a alguns assaltos à sua baliza, é uma manisfetação inequívoca daquilo a que se chama "estrelinha de campeão". Estão errados. A razão pela qual isto aconteceu confunde-se com a própria essência do Barcelona. Mesmo com dez, foi a única equipa com clarividência em campo, conseguiu evitar zonas de pressão e progredir com a bola no terreno. Mas, mais do que isso, nunca desvirtuou o seu modo de jogar. Mesmo com dez, mesmo estando a fazer um mau jogo, mesmo tendo o melhor do mundo ali pronto para resolver individualmente o que o colectivo não estava a ser capaz de resolver, o Barça manteve-se fiel aos seus princípios. Continuou a circular a bola de um lado para o outro, a tabelar, a tentar furar. E isso deu frutos. Chama-se ter paciência. O simples facto de não ter rematado muito tem a ver com isto. Guardiola já teve oportunidade de dizer que prefere que a sua equipa, dentro da área, troque a bola até arranjar espaço para chutar. Dentro da área. É por isso que se vêem tabelas até quase à linha de golo. Esta equipa só chuta quando a probabilidade de êxito é elevada. Daí o único remate na partida ter dado golo. Não é sorte; é saber.

2. Também há quem diga que o Barcelona pode agradecer ao árbitro a passagem à fase seguinte. Concordo que o Chelsea tem algumas razões de queixa da arbitragem neste jogo, mas não tantas como querem fazer crer. A mão de Piqué é evidente. A de Eto'o não tanto e se uns árbitros marcariam, outros não. A falta sobre Malouda é fora da área. E não há mais nada. Não esquecer ainda que a expulsão de Abidal é forçadíssima. Mas se é verdade que o Chelsea se pode queixar deste jogo, o que dizer do jogo da primeira mão? A expulsão perdoada a Ballack, o penalty não assinalado sobre Henry e o amarelo a Puyol (que o impediu de jogar este jogo), na sequência da mesma jogada, não equivalem ao que se passou neste jogo? Parece-me evidente que sim. Nenhuma das equipas se pode queixar de ter sido mais prejudicada do que a outra.

3. Também há quem sugira que Hiddink deu um banho táctico a Guardiola. Admiro muitíssimo Hiddink, mas defender com uma linha de quatro e outra de cinco à frente da área não é táctica, é respeitinho. A táctica do Chelsea passava por defender o melhor possível o último terço do terreno e depois confiar na sorte. Se se reparar bem, as transições dos ingleses nem sequer eram bem definidas. Avançavam aos trambolhões, mais com o coração do que com ciência. E as oportunidades que tiveram foram quase todas consentidas pelo Barça, que revelou um desacerto defensivo anormal. No cômputo das duas mãos, o Barcelona foi muito melhor equipa, em todos os níveis, do que o Chelsea, embora neste jogo, sobretudo pelos erros defensivos, não tenha conseguido ser superior à equipa inglesa. Fez-se justiça, por isso.

4. Há ainda quem avente que Messi passou uma vez mais ao lado do jogo. Messi mostrou hoje o que é um grande jogador. É evidente que poderia ter tentado agarrar na bola e usar o seu poder de drible para resolver as coisas. Teve várias oportunidades para o fazer, mas nunca o fez. E nunca o fez porque optou por não fazê-lo. Preferiu sempre não desvirtuar o colectivo; preferiu sempre privilegiar a troca sustentada da bola em detrimento dos desequilíbrios individuais. No último lance de ataque da sua equipa, apoderando-se da bola no interior da grande área, poderia ter chutado, poderia ter ido para o drible, poderia até ter tentado cavar o penalty, mas preferiu assistir Iniesta para o golo. Nesta partida, sem fazer uma exibição de gala, Messi mostrou por que é o melhor do mundo. Porque os melhores do mundo também sabem pôr outros a brilhar; porque os melhores do mundo também são aqueles que percebem que o colectivo está acima do individual. Messi esteve apagado? Não. Esteve ao serviço do colectivo. E o colectivo está na final.

P.S. Faltam duas finais para a melhor equipa do ano poder entrar para a História.

P.S.2. Num jogo de nervos, a três minutos do apito final, com a partida a caminhar para o fim e com um resultado que não o satisfazia, ver Guardiola alegremente abraçado a Guus Hiddink, por entre sorrisos, é de homem.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Os erros de Vidic

Nemanja Vidic, o central sérvio do Manchester United, é um jogador muito apreciado por muita gente. Entre esses, não haverá poucos abrangidos pela certeza de que ele é um dos melhores do mundo no seu posto. A minha opinião é completamente diferente e bastante desfavorável em relação ao jogador. As virtudes de Vidic não compensam os seus defeitos e está longe, para mim, dos dez melhores naquela posição. As críticas que lhe faço são as mesmas que faço, por exemplo, ao central luso-brasileiro Pepe: demasiado impetuoso, excessivamente agressivo, incapaz de perceber que nem sempre deve tentar a antecipação, etc. Graças ao seu modo de jogar, chama à atenção. Os cortes no limite, as antecipações, os desarmes arriscados são motivo de aplausos. O problema é que Vidic joga assim em todas as situações e não só naquelas em que o deveria fazer. A diferença entre um grande central e um central espalhafatoso é que o primeiro só faz coisas dessas em último recurso. O seu jogo viril, baseado na velocidade e na agressividade, embora suscite admiração, é o princípio errado pelo qual os erros se acumulam. Não é raro, como acontece com Pepe, que Vidic cometa erros. Muitos deles - é verdade - consegue compensá-los, pela forma como se entrega ao jogo. Mas a categoria de um jogador é directamente proporcional à sua capacidade de evitar meter-se em apuros. E nisso o central sérvio é francamente mau. Apostado em resolver todas as situações através da capacidade atlética, raramente está concentrado em algo mais para além da recuperação de bola. Não percebe, por isso, que muitas vezes deve ficar em contenção; não percebe, por isso, que muitas vezes deve entrar com mais cuidado para não provocar faltas em zonas perigosas. A sua capacidade de interpretação dos lances é reduzidíssima e quando se acabar o vigor físico será um central banal.

Serve este texto, além da exposição desta opinião, para iniciar uma nova rubrica no blogue. A discussão de lances concretos, sobretudo da parte de quem tem uma percepção tão genuína do fenómeno que é o futebol, é das coisas mais interessantes que se pode levar a debate. Até aqui, o Entre Dez rejeitou, por princípio, algo mais além das palavras. Não fazia sentido, num blogue com estas características, haver espaço para imagens ou para vídeos. E não fazia sentido porque o caractér teórico deste espaço foi sempre prioritário. Acontece, porém, que discutir lances concretos sem a ajuda de imagens é um pouco vago e pode dar azo a opiniões ambíguas. Ora bem, iniciando uma nova rubrica que consistirá em debater um ou mais lances concretos, tentando demonstrar um ponto de vista de acordo com factos, com evidências, imagens e vídeos passarão a ter espaço, consoante as necessidades. Assim, e não fugindo ao assunto do texto, gostaria de recuperar o já não tão recente confronto entre Manchester United e Liverpool, para a Liga Inglesa, no qual o defesa sérvio em questão foi a figura decisiva. O Liverpool venceu por 4-1 e Vidic foi o responsável directo pelo primeiro e pelo terceiro golo, lance que lhe valeu também a expulsão. São esses dois lances que destaco no vídeo que se segue.



No primeiro lance, um alívio de um defesa do Liverpool cai na zona de Vidic. Não querendo cabecear a bola de primeira, prefere deixá-la bater. A proximidade de Fernando Torres faz com que o central do Manchester tenha de ser, após esta primeira má decisão, agressivo sobre a bola. Chega primeiro a ela, mas em vez de cabeceá-la para o guarda-redes ou de aliviá-la, terá pensado em contornar o avançado do Liverpool. O excesso de confiança de Vidic acaba por se transformar num erro, com Torres a roubar a bola e a fazer golo. Esta incapacidade para perceber quando deve jogar de forma simples é comum em Vidic porque a confiança nas suas capacidades técnicas excede as mesmas capacidades técnicas. Lances como este não são pontuais, ainda que muitos acabem por não ser fatais como este acabou por ser.

No segundo lance, há um desvio que leva a bola na direcção de Vidic. Com a pressa de se aproximar de Gerrard, não consegue reagir a este desvio e a bola toca-lhe inadvertidamente no peito e depois na coxa, ficando à mercê de Gerrard, que fica isolado. Quando Gerrard está a passar por Vidic, este faz falta, agarrando-o na tentativa de corrigir o erro inicial, e é expulso (o livre consequente acabaria por dar o terceiro golo ao Liverpool). A falha consiste sobretudo na desarticulação com que reage ao lance. A incapacidade de dominar a bola que vem na sua direcção é resultado de uma acção excessivamente impetuosa na tentativa de encurtar, sem necessidade, o espaço para o avançado do Liverpool, quando se recomendaria que ficasse em contenção. A forma agressiva, em constante sobressalto, com que Vidic joga proporciona lances deste tipo, em que um simples desvio torna impossível uma reacção atempada. É graças ao movimento repentino que enceta para marcar ostensivamente Gerrard que depois não consegue estar bem colocado e, sobretudo, concentrado, para dominar a bola. Este lance evidencia, portanto, a principal falha do central sérvio, a incapacidade que ele demonstra em estar concentrado naquilo que importa. Estando essencialmente preocupado em ser rápido, agressivo, combativo, não consegue estar, ao mesmo tempo, bem posicionado, nem consegue ler, correctamente, a abordagem que o lance requer.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Coisas que se passaram

1. A agressão de Pepe foi a notícia da semana. Em poucas palavras, 10 jogos para alguém que não tem antecedentes parece-me um castigo pesado, ainda que a paragem cerebral de Pepe tenha tido consequências pouco desculpáveis. No entanto, o que é importante tentar perceber são os motivos que levaram àquilo. Há quem diga que Casquero, o agredido, terá dito alguma coisa a Pepe, pois só assim se justificaria tal coisa. Mas se isso fosse verdade, não teria o internacional português mencionado o facto, em sua defesa? Para mim, Pepe perdeu a cabeça por frustração. Tivera responsabilidades directas nos dois primeiros golos do Getafe e, a três minutos do fim, cometia um penalty que daria boas hipóteses de derrota ao Real. Ao contrário da posição de Luis Sobral, que opta por não tentar explicar o que não sabe, a reacção de Pepe - parece-me - é apenas consequência da frustração de mais um mau jogo. E consequência também do jogador que é: irreflectido, imponderado, incapaz de conter os ímpetos. Foi a cereja no topo do bolo de uma época absolutamente desastrosa, época esse que o Entre Dez lembrará em breve e que coloca Pepe no seu devido lugar, bem longe dos melhores centrais europeus da actualidade.

2. Por cá, lesionou-se Lucho González e depois Hulk. Na minha óptica, a Providência fez troça do Sporting, como quem dá um chupa-chupa a uma criança e depois o tira quando esta está pronta a pô-la na boca. Se a lesão de Lucho deixou antever um final de época atribulado para o conjunto nortenho, estando o Sporting à espreita de uma escorregadela dos campeões nacionais, já a de Hulk veio permitir que a equipa não jogue manca. Assim, mesmo sem o jogador mais criativo da equipa (como é óbvio, não estou a falar do Hulk), o Porto continuará coeso, a jogar como equipa, com jogadores adultos como Mariano e Farias, e continua o mais sério candidato ao título.

3. Entretanto, Lisandro resolveu com classe e Fernando já é comparado a Paulo Assunção. O Entre Dez, como é hábito, resolveu antecipar-se às modas e disse, há coisa de seis ou sete meses, basicamente o mesmo. Não podem ouvir nada...

4. O Sporting, sem nenhum dos habituais titulares do meio-campo, rubricou uma exibição como há muito não se via. Pereirinha, o tal que não tinha talento, agora já tem muito potencial. Romagnoli joga demasiado para a equipa e no futebol, como todos sabemos, pensar primeiro no colectivo e depois em si não leva a lado nenhum. Postiga é outro que é fraquinho... Que paciência para isto. O Sporting, jogando desde o início da época com Patrício, Abel, Grimi, Carriço, Tonel, Moutinho, Izmailov, Pereirinha, Romagnoli, Vukcevic e Postiga já era campeão por esta altura.

5. Diz-se que Liedson fez um jogão, que continua a levar o Sporting às costas e que vai ficar mais uns anos em Alvalade. Em relação à última destas notícias, tenho a dizer que lamento, mas até 2012 (ano do termo do novo contrato do Levezinho, segundo consta), haverá apenas dois candidatos ao título: Benfica e Porto. Quanto ao jogo em si, ao contrário do que se disse, Liedson fez um jogo medíocre, mais um. Destaco dois lances que ilustram o modo primitivo com que se vê futebol em Portugal e que está na base do facto de se continuar a idolatrar um jogador absolutamente banal como ele: primeiro, aquela bicicleta na área, quando Postiga estava atrás de si, em muito melhores condições para finalizar; depois, aquela bola que recupera a meio do meio-campo adversário e com a qual tenta fazer um chapéu a um guarda-redes que já tinha voltado para a baliza há meia-hora. Além de o remate nunca poder dar em golo, foi um balão tão grande que mesmo que o guarda-redes ainda não tivesse regressado, podia ir tomar café, limpar o pó à casa, voltar e apanhar a bola. Mas o público aplaudiu. Mesmo tendo Liedson feito um disparate quando poderia ter iniciado uma jogada de perigo, face ao desposicionamento da defesa do Estrela. Depois, fala-se na assistência para Postiga como se fosse uma coisa extraordinária. Mas alguém viu o lance como deve ser? A movimentação é horrível, aproximando-se de Pedro Silva quando este tem a bola e obrigando-o a desenvencilhar-se sozinho. Por sorte, Pedro Silva conseguiu vir para dentro, o que soltou Liedson. Depois, um cruzamento com a bola a saltitar é uma coisa dificílima de efectuar. É isso e fazer um ovo estrelado. E então quando comparam essa assistência à do Postiga, na segunda parte, para o mesmo Liedson (que falha vergonhosamente), só podem estara gozar. A exibição de Liedson salda-se por um golo, num lance em que a defesa do Estrela está muito mal colocada. O resto são disparates, burrices e a alcateia das bancadas a uivar cerimoniosamente.

6. Ainda Liedson. Há quem diga que ele faz a diferença. Vamos ver. Tem esta época uma média de 0,64 golos por jogo, o que até é melhor do que a sua média desde que está em Portugal. Comparemo-lo com outros avançados do nosso campeonato. Cardozo tem o mesmo número de golos, mas a sua média é bem superior: 0,76 golos por jogo. Farias tem 7 golos e uma média de 0,90 golos por jogo. Nuno Gomes tem 7 golos e uma média de 0,58 golos por jogo. De facto, Liedson faz uma diferença do caraças.

7. Lá por fora, Arshavin marcou 4 ao Liverpool. Isto depois de os pupilos de Benitez terem encaixado 7 golos numa eliminatória da Champions. Mas há quem defenda que o Liverpool é a equipa que melhor defende na Europa. Está certo. Quer-me parecer que eles até são certinhos a defender quando jogam enfiados lá atrás. Mas quando têm que ir para cima do adversário, dão quilómetros de espaço. Isso não é defender bem. Isso é defender muito. E é sobretudo abdicar de lançar muitos elementos na frente para os ter cá atrás. O Liverpool não é a melhor equipa europeia a defender, porque defender também é atacar. E, quando ataca, o Liverpool defende francamente mal.

8. Chocante, chocante, era eu dizer que a melhor equipa europeia a defender é o Barcelona. Mas digo-o. Por várias razões. Primeiro, porque percebe que a melhor maneira de defender é ter a bola. Segundo, porque é das poucas equipas que, balanceadas para o ataque, se mantém posicionalmente equilibrada. Terceiro, porque não separa o acto de defender do de atacar. Quarto, porque em situação defensiva, mesmo pressionando alto, mesmo utilizando um bloco alto, ocupa na perfeição os espaços e mantém os sectores unidos.

9. Sobre futebol, há poucas coisas que vale a pena ler. Uma delas é a crónica semanal de Johan Cruijff. Na da semana passada, diz o seguinte: "La gente puede pensar que, jugando así, gastas muchas energías. No es verdad. Jugar el balón rápido, con las líneas juntas, requiere más un esfuerzo mental que físico. Si consigues jugar siempre en campo contrario, te cansas menos. Y robar muchos balones en campo del rival no es sinónimo de correr a lo loco, sino de correr lo justo hacia atrás para luego tener que correr poco hacia delante porque ya estás adelantado. Otra vez es el Barça, con su estilo, el que te lleva al engaño. Por su manera de jugar, corre menos de lo que parece. Por eso los jugadores parecen más frescos que el rival. Porque mientras unos sufren sin el balón, los otros se divierten." A melhor maneira de jogar futebol é divertindo-se, diz, entre outras coisas, Cruijff. Este Barcelona diverte-se tanto que no primeiro golo frente ao Valência, esta semana, parecia mesmo que estavam a gozar com os outros. De resto, nada a acrescentar ao que diz Cruijff: o Barcelona, a jogar como joga, despende menos energias que os adversários. Não será por falta de frescura...

10. Entretanto, o Real, aos trambolhões, vai encurtando terreno para o Barça. Sem jogar bem, mais com o coração e com Raúl do que com ciência, a equipa de Juande Ramos chega à fase derradeira do campeonato, em vésperas de clássico no Bernabéu, apenas a quatro pontos dos catalães e com a vantagem de não jogar a meio da semana. Vou-me armar em vidente e fazer um previsãozinha: só por azar é que a remontada não acaba já para a semana.

sábado, 18 de abril de 2009

Més que un club

Que há diferenças entre ver um jogo num estádio ou um jogo pela televisão, toda a gente sabe. A maior parte das pessoas, porém, resume essas diferenças a coisas insignificantes, como o facto de um jogo ao vivo propiciar maiores emoções ou a impossibilidade de assistir às repetições dos lances. Considero que os ganhos de ver um jogo ao vivo excedem em muito as perdas. Mas ao dizer isto não o faço pelas razões mais comuns. Na minha opinião, o principal ganho prende-se com a possibilidade de não se estar a olhar para a bola a todo o momento, coisa que na televisão acontece. Ao contrário, portanto, do que acontece nas transmissões televisivas, um espectador no estádio, com a devida atenção, pode perceber com muito mais facilidade tudo o que acontece numa equipa para além daquilo que acontece perto da zona onde está a bola.

O preâmbulo anterior tem o condão de justificar as asserções que farei de seguida. Dito isto, tive a oportunidade de assistir ao vivo, há dias, em pleno Camp Nou, ao desafio que opôs o Barcelona ao Recreativo de Huelva, a contar para o campeonato espanhol. O jogo foi pouco intenso do ponto de vista emocional, não teve oscilações significativas e foi quase sempre jogado ao mesmo ritmo. Não terá sido um dos melhores jogos do Barcelona, tal a abundância de boas exibições, mas a verdade é que a equipa catalã fez o jogo que mais lhe interessava. Marcou cedo, geriu a vantagem, sempre com mais bola que o adversário, e geriu as expectativas e as energias dos seus jogadores mais influentes. Messi, então, esteve em campo apenas para desentorpecer os músculos, como se fosse um treino de recuperação activa. Ainda assim, foi um desafio agradável, com muitos dos ingredientes habituais: trocas de bola sucessivas, bom jogo posicional e elevada concentração de todos os jogadores. Deste ponto de vista, uma vez que foi um jogo pausado, com poucas transições rápidas de parte a parte, jogado quase sempre com os conjuntos organizados, foi talvez o jogo perfeito para quem tenta perceber os pormenores mais profundos do modelo de Guardiola. Será precisamente a isso que me dedicarei de seguida.

1. Tabelas

Tentarei não referir aqui as coisas mais básicas, como o esquema táctico, a preferência por um futebol apoiado ou directo, a forma de defender (à zona ou ao homem), mas sim os detalhes que, no fundo, distinguem este Barça de qualquer outra equipa do mundo. Nesse sentido, as tabelas serão, porventura, o atributo mais indicado por onde começar. Nenhuma outra equipa no mundo valoriza tanto este gesto quanto o Barcelona. Já o era assim com Rijkaard; é-o incomensuravelmente mais com Guardiola. Pouca gente há que saiba, com rigor, a importância de uma tabela. Para muitos, a sua consequência imediata é igual à consequência imediata de um drible bem sucedido, isto é, ultrapassar um adversário. Isto não é verdade. Numa tabela, o desposicionamento do adversário é muito maior. A razão é simples e tem a ver com o número de atacantes envolvidos. Num drible, os jogadores que defendem têm apenas que se preocupar - digamos - com uma cabeça; têm que estar concentrados apenas naquilo que o jogador que tem a bola faz. A partir do momento em que este aposta em algo individual, como o drible, os defesas têm apenas de corrigir o seu posicionamento de modo a prevenir aquilo que esse jogador fará (que linhas de passe terá, que opções tem, etc.). A tabela, ao envolver dois atacantes, exponencia as dificuldades imediatas da defesa, pois há que ter em conta o que duas cabeças estarão a pensar. Não é, por isso, raro que numa tabela o defesa batido demore muito mais a reagir do que num drible. Mas a maior eficácia de uma tabela em relação a um drible não é a única razão existente para que a tabela deva ser tão valorizada. Sobretudo porque maior parte das equipas continuam a ter por referência de marcação, com maior ou menor grau de exagero, os jogadores adversários, uma tabela, sendo algo que envolve mais do que um atleta e movimentações constantes, é sempre algo que propicia reajustamentos defensivos constantes e uma forma eficaz de manter em permanente movimento os defesas contrários. O Barcelona de Guardiola usa com mestria a tabela. Fá-lo não só para romper linhas adversárias, mas também por uma série de outras coisas. Fá-lo, por exemplo, para sair de zonas de pressão, para manter a posse de bola, para desorganizar momentaneamente a zona onde a bola se encontra, para chamar a atenção do adversário, fazendo depois a bola viajar com celeridade para zonas de menor concentração de defesas ou até mesmo como forma de treino ou mero divertimento. Isto leva-me para o segundo ponto.

2. Falta de objectividade

Há quem diga que jogar bem não é jogar bonito. Normalmente, isto acontece porque baseiam o conceito de bonito em algo que não o é, na verdade. Em futebol, ou em tudo o que tem um carácter objectivo, o bonito é o que satisfaz essa objectividade. Ou seja, é igual ao bom. Jogar futebol bonito não é andar a fazer cabritos ou cuecas, não é fazer passes longos a toda a hora ou fintar três adversários no sentido contrário à baliza; é jogar bem. Ao contrário do que estas pessoas diriam, o futebol do Barcelona não é atractivo porque é bonito; é atractivo porque é bom. E é bonito porque é bom. Essencialmente, é um futebol em que a taxa de opções correctas é muito elevada. E esta taxa é aquilo que, em futebol, define o que é bom e, por arrasto, o que é bonito. O futebol deste Barcelona é, na sua essência, isto: uma taxa de boas opções francamente superior a toda a concorrência. O seu futebol é reconhecidamente formidável graças à qualidade das opções dos seus jogadores. Isto permite, como consequência, que a equipa tenha uma taxa elevada de passes acertados, bem como a facilidade de progredir em posse. Neste momento, os que discordam de mim, dirão que há equipas que não jogam tão bonito, isto é, de forma tão atractiva, mas que jogam igualmente bem, isto é, são igualmente equipas eficazes e competentes no que diz respeito à objectividade. A divergência de opinião terá unicamente a ver com o conceito de "objectivo". Para maior parte das pessoas, o objectivo do futebol é o golo, ou a vitória. Nesse sentido, uma equipa joga bem se cumprir ou fizer tudo o que estiver ao seu alcance para cumprir esse objectivo. Assim, uma equipa que jogue de forma directa, sem "rodriguinhos", com um ritmo elevadíssimo, sempre com vista à vitória, fará um bom jogo. Não concordo com isto. E a razão prende-se com o facto de não concordar que o objectivo do futebol seja o golo ou a vitória. Como o defendi aqui, o objectivo do golo é um objectivo circunstancial, que só é activado no momento de chutar à baliza. Todos os outros momentos têm por objectivo fazer o melhor possível para passar ao momento seguinte. O objectivo do futebol não é assim o golo ou a vitória, mas sim o fazer o melhor em cada momento. Ora, o Barcelona adopta uma filosofia que se identifica claramente com isto. Em muitos momentos do jogo - eu diria mesmo na maior parte deles - a equipa está menos interessada em marcar golos do que em manter a posse de bola ou fazer o que é melhor a cada momento, ainda que isso implique cinco ou seis acções para progredir o mesmo que poderia progredir numa só acção. Mas o que é mais interessante é que há ocasiões, mesmo quando o resultado está nivelado, em que o futebol do Barça é absolutamente contra-intuitivo. Em certas alturas, quando outra equipa qualquer aproveitaria para progredir no terreno ou para impor velocidade, o Barça joga para trás, envolve-se em tabelas aparentemente inconsequentes e diverte-se a trocar a bola entre os seus jogadores, sem qualquer objectivo aparente. Não é raro, por exemplo, vermos um passe vertical em que o jogador que recebe a bola se pode virar, pois tem espaço, e progredir perigosamente, mas não o faz, preferindo tabelar ou jogar para trás. Estes lances, na minha opinião, definem este Barcelona. As coisas, obviamente, não se fazem apenas por fazer e a ausência de objectividade é apenas aparente. Há, nestes gestos, o reflexo óbvio da forma de estar em campo da equipa. Tabelar quando pode progredir, jogar para trás quando tem espaço para a frente, fazer passes absolutamente inconsequentes quando tem espaço para avançar, são formas de treinar, de mecanizar, de criar rotinas nos jogadores. Preferir trocar a bola sem qualquer espécie de objectividade é precisamente aquilo que os deixa, depois, completamente confortáveis a jogar de costas para a baliza, a fazer tabelas, a considerar apoios, a romper linhas em trocas de bola sucessivas. O divertimento incosequente acaba por funcionar como treino, ou seja, por ter consequências, ainda que não imediatas.

3. Simplicidade Complexa

Muita gente há também que considera o futebol do Barcelona de uma simplicidade incrível. E consideram que essa simplicidade é louvável. O futebol do Barça não tem nada de simples. O facto de aquilo que eles fazem parecer simples deriva do erro comum de não se valorizar coisas como um passe de dez metros, quando são claramente mais complicadas de fazer do que outras que muitas vezes se consideram difíceis, como dribles fantásticos ou remates fortíssimos. Fazer um bom passe envolve tantas variáveis que é um gesto muito mais difícil do que se pensa. E a essência do Barça é o passe. Simplesmente, um pequeno passe não é só um pequeno passe; é um conjunto de movimentos coordenados entre todos os elementos da equipa. A simplicidade do Barcelona não é simples, não é só um futebol de "toca e foge" constante; cada "toca e foge" joga com todas as movimentações dos outros jogadores. Jogar como o Barça joga, com uma tal qualidade de troca de bola, só é possível porque existe uma coordenação colectiva fantástica e porque a movimentação de todos os colegas sem bola é de tal forma correcta que propicia, a cada instante, variadíssimas soluções de passe ao portador da bola. A aparência da simplicidade é o resultado de um processo muito complexo.

4. Atacar de forma verdadeiramente colectiva

Para muita gente, ser bom tacticamente é saber arrumar defensivamente a equipa. Para outros, acresce a isto o mecanizar o melhor possível os momentos de transição. Assim, uma equipa só é colectiva em momento defensivo ou quando está em transição. Daí que, a nível ofensivo, se pense que um treinador só pode treinar, isto é, rotinar, o momento da transição defesa-ataque. Para estas pessoas, em ataque organizado, o que conta é a qualidade, a inspiração, os atributos individuais de cada um dos jogadores, e não nada que possa ser mecanizado. Isto é absolutamente falso. E a maior lição de Guardiola, este ano, é precisamente essa. É indubitável que as individualidades influenciam a qualidade com que o colectivo manobra, mas é tão possível defender bem sem grandes individualidades do ponto de vista defensivo como é possível atacar bem sem grandes individualidades do ponto de vista ofensivo. Isto, claro, se essa falta de individualidades for compensada por um desempenho colectivo relevante. Uma equipa que defenda à zona, e a entreajuda entre os jogadores, as compensações, o posicionamento em função dos colegas estiver correcto, é óbvio que minoriza a falta de qualidade individual de cada um dos atletas, pois estão menos expostos às suas debilidades. Mas por que não seria assim em termos ofensivos? A falta de explosão de um extremo não pode ser compensada utilizando uma tabela com um companheiro? Claro que pode. E se não tem capacidade de ultrapassar o adversário pelo drible, tem-no certamente com uma tabela, por mais lento que seja. Daí que todo o gesto colectivo seja uma arma para compensar a individualidade. Este Barcelona ataca de forma verdadeiramente colectiva. Ao jogar em constantes tabelas, num futebol claramente apoiado, de toque curto, de passes verticais, de exploração do espaço entre linhas, está a valorizar não as características individuais dos seus atletas, mas as relações entre cada um deles. Não é, portanto, na qualidade individual dos seus elementos, mas sim na relação entre eles que reside a força ofensiva do Barça.

5. Qualidade individual

Há mesmo quem se atreva a dizer que o Barcelona é o que é porque tem os melhores jogadores do mundo. Isto é absurdo. Digo de caras que o plantel do Barça, em termos individuais, é claramente inferior a Manchester, Chelsea, Liverpool, Milan, Inter e Real Madrid, pelo menos. Tirando Messi e Daniel Alves, que serão os melhores na sua posição, e ainda Iniesta e Xavi, que estarão certamente com Van der Vaart, Guti, Sneijder, Fabregas, Gerrard, Lampard, Essien, e Diego nos 10 melhores médios-ofensivos do planeta, os restantes jogadores estão bem abaixo dos melhores do mundo. Valdez é um guarda-redes banalíssimo, claramente inferior, por exemplo, tanto a Casillas como a Reina, seus colegas na selecção. Puyol e Marquez são bons centrais, mas inferiores a Cannavaro, Córdoba, Rio Ferdinand, Ricardo Carvalho ou John Terry. Piqué tem um potencial fantástico e de Cáceres antevêm-se muito boas coisas, mas estão longe dos melhores do mundo. Abidal está longe dos melhores defesas-esquerdos do mundo. Yaya Touré ou Keita não são Pirlo, Gago, Cambiasso, Mikel, De Rossi, Mascherano, Xabi Alonso ou Carrick. Henry já foi, um dia, dos melhores do mundo. Hoje em dia está longe disso. Eto'o tem à sua frente, pelo menos, Ibrahimovic, Van Nistelrooy, Raul, Rooney, Berbatov, Tevez, Fernando Torres e Drogba. Argumentar isto é querer tapar o sol com uma peneira.

6. Zona Perfeita

Uma das coisas que ver um jogo num estádio facilita é poder perceber, em rigor, como funciona o movimento zonal da equipa sem bola, ou como esta reage à perda de bola e como efectiva o seu pressing. Digo-o sem grandes rodeios: a zona do Barcelona é fenomenal. A forma concentrada com que, por exemplo, os seus defesas encaram um lance disputado longe de si é fantástica.Por exemplo, em jogada a decorrer do lado esquerdo, a forma como procuram assegurar uma linha recta perfeita, ligeiramente na diagonal (aproximando-se da baliza quanto mais se afasta da bola), com os seus jogadores bem perto uns dos outros e preparados para correr caso uma bola passe para as suas costas, é soberba. Em termos de pressing, é absolutamente zonal, sem qualquer preocupação com adversários, assegurando a cada instante uma ocupação perfeita dos espaços. A facilidade que tem em fazer campo pequeno, chegando por vezes toda a equipa a ocupar menos de metade da largura do campo, faz deste Barcelona uma das melhores equipas do mundo a reagir à perda de bola. Esta eficácia, aliada depois à concentração e ao rigor posicional quando não tem bola, fazem desta equipa tão ofensiva uma equipa defensivamente muito bem preparada. O seu pressing é preferencialmente efectivado juntos às linhas, preocupando-se a equipa, em primeiro lugar, em fechar os espaços centrais, fazendo os três atacantes juntarem-se no meio, e em motivar o adversário a ir para a linha.

7. Apoios

Muito da capacidade do Barcelona passa pela facilidade que tem em criar apoios constantes. Quanto mais apoios houver, mais soluções tem quem leva a bola e mais fácil é fugir à actividade defensiva do adversário. A forma de jogar sem bola deste Barcelona potencia, em muito, essa facilidade. Ao contrário do que muitas vezes se pensa e do que, à partida, parece ter mais lógica, nem sempre faz sentido, quando a equipa tem bola, fazer o chamado "campo grande", isto é, dispor os jogadores o mais afastados de si de forma a preencherem todos os espaços do campo e a haver mais espaço para jogar. A principal intenção deste tipo de estratégia é levar o adversário, se este jogar ao homem, a abrir brechas entre os seus elementos. Mas contra equipas que joguem bem à zona, isto não acontece. Pode, de facto, haver mais espaço para receber a bola, mas haverá menos espaço para furar. Na prática, as equipas podem lateralizar infinitamente o jogo, se tiverem qualidade para isso, mas não ganham nada com isso se os adversários, defensivamente, forem bem organizados. Fazer "campo grande" faz sentido quando tem de fazer sentido. E ao contrário do que se pensa, este Barcelona não joga extremamente aberto, com os jogadores a darem sistematicamente largura e profundidade. É raríssimo que os dois extremos, em processo ofensivo, estejam os dois abertos ao mesmo tempo; é raríssimo que os dois médios-ofensivos estejam longe um do outro. Há sempre gente perto uma da outra. A equipa evolui em harmónio e não de forma rectilínea, torcendo-se sobre si mesma para permitir que os laterais dêem profundidade ou que o avançado baixe para tabelar com o médio. O Barcelona não faz "campo grande" a não ser quando lhe interessa e é até, muitas vezes, uma equipa encolhida, jogando em pouco espaço de terreno, quer seja a defender, quer seja a atacar, só esticando o jogo quando o adversário fica emaranhado na teia de apoios que conseguem criar. Os seus jogadores, por causa disto, têm a possibilidade de correr menos, uma vez que têm menos espaço para cobrir.

8. Ausência de passes longos

O passe longo, em Barcelona, é gesto non grato. Não se vêem, praticamente, passes longos, num jogo do Barcelona por várias razões. Primeiro, porque a equipa passa maior parte do jogo em organização, não havendo, por isso, da parte do adversário, tanto espaço. Segundo, porque usar o passe longo entra claramente em choque com aquilo em que se acredita e com as próprias faculdades da equipa, que tem a sua força na forma como circula a bola. Não se vê, por uma única vez que seja, um central a sair a jogar com um passe longo, mesmo estando, muitas dessas vezes, um extremo claramente aberto e com todas as condições para receber a bola. Não, isso não acontece porque isso seria queimar etapas e desvirtuar o modelo de jogo. O Barcelona precisa de evoluir de forma sustentada e é nisso que é forte. Não faz sentido, mesmo quando é mais fácil, apostar no passe longo. Depois, mesmo diagonais ou movimentos verticais dos médios que propiciem um passe para as costas da defesa são apenas movimentos estéreis ou dinâmica sem bola, usada para distrair o adversário daquilo que verdadeiramente importa ou para arrastar marcações. É muito raro, por exemplo, que as diagonais de Henry sirvam para que os defesas ou o médio-defensivo lá ponham a bola. Isto em primeiro lugar, faz com que o Barcelona não perca a posse de bola, aquilo que, no fundo, lhe confere identidade, e depois com que a equipa explore novos espaços, como consequência dessas movimentações.

9. Ritmo

Antes da partida com o Recreativo, Guardiola disse que a sua equipa teria de tentar evitar um ritmo de jogo baixo e tranquilo, pois isso interessava ao adversário. Para evitar isso, o treinador do Barça dizia que seria importante circular bem a bola. O ritmo elevado de jogo não é senão o ritmo elevado a que a bola circula. Nesse aspecto, sim, o Barcelona tem um ritmo de jogo frenético, se for preciso. Mas não é uma equipa constantemente vertical, constantemente a tentar chegar à frente. O seu ritmo de jogo, isto é, a intensidade com que ataca as redes adversárias, não é alto. E isso é um pormenor importantíssimo. Jogar apoiado, em toque curto, de forma segura, privilegiando a posse de bola não é compatível com um ritmo de jogo elevado, pois os riscos de efectuar maus passes aumenta com o aumento do ritmo de jogo. O Barça troca velozmente a bola, mas não joga velozmente. A sua evolução defesa-ataque é, porventura, das mais demoradas do mundo, servindo essa demora para a equipa se manter unida e apoiada, o que permite crescer por etapas, sempre em condições de ser ela a mandar na partida.

10. Dois médios-ofensivos

Para muitos, o esquema táctico, isto é, a disposição dos jogadores em campo não tem qualquer influência na forma como a equipa joga, uma vez que são as dinâmicas que interessam, e qualquer esquemo táctico permite jogar de todas as maneiras com igual eficácia. Para esses, o Barcelona poderia jogar da mesma forma em 442 clássico, por exemplo. Não concordo com isto. Aliás, imaginar que só as dinâmicas têm importância, numa equipa, seria imaginar, por exemplo, que não há qualquer razão lógica para um treinador optar por um esquema táctico em vez de outro. Sinceramente, este Barcelona, com outra qualquer táctica, era outra equipa, jogaria de forma absolutamente diferente. Uma das coisas mais importantes, porventura, é a utilização de dois médios-ofensivos. Já nem vou falar das características individuais dos médios que jogam nestas duas posições, apesar de elas serem únicas, no futebol europeu, mas é completamente diferente jogar em 433 com dois médios-ofensivos de jogar, por exemplo, apenas com 1, em 4231. Em termos ofensivos, a presença de mais um jogador permite à equipa, em zonas avançadas do terreno, uma rede de apoios muito mais eficaz. Depois, haver dois médios-ofensivos potencia um pressing muito mais alto, uma melhor ligação entre meio-campo e ataque e, em termos gerais, uma melhor arrumação dos jogadores em função do espaço ocupado pela equipa.

11. Movimentos típicos dos extremos com bola

Seja Messi na direita, seja Henry ou Iniesta ou Bojan na esquerda, o movimento típico dos extremos é virem para dentro. A partir dessa altura, a colocação do médio-ofensivo e do avançado é absolutamente sistemática. A forma mecânica como a equipa se comporta quando os extremos têm a bola indicia um trabalho específico a esse nível. Este é mesmo um bom exemplo de como é possível trabalhar, e muito, em termos ofensivos, uma equipa. Aliás, na verdade, é um bom exemplo de como o Barcelona, ofensivamente, é uma equipa quase exclusivamente colectiva. Assim que o extremo agarra na bola e flecte para o meio, o médio procura imediatamente ocupar um espaço recuado, dando uma opção de passe recuada, necessária caso o meio seja fechado por um dos médios, e conferindo uma cobertura em caso de perda de bola. Ao mesmo tempo, o lateral desse lado inicia a marcha para que, caso a bola baixe para o médio que deu apoio, esteja já numa posição avançada para receber novamente a bola naquele lado. Ao mesmo tempo, o ponta de lança desce e aproxima-se do extremo que conduz a bola. Ao mesmo tempo, o extremo do lado contrário aproxima-se da posição de ponta-de-lança e é o lateral do lado contrário que vai iniciar a marcha para dar profundidade. Normalmente, o lance termina com o extremo a jogar no avançado, que ou dá no médio de frente, ou tabela de primeira com o extremo, que entretanto entrou entre os defesas contrários.

12. Verticais ou diagonais sem bola e passes verticais

Outro dos movimentos ofensivos mecanizados na equipa são as verticais ou as diagonais sem bola. Normalmente, um dos médios-ofensivos volta-se para trás e joga a bola no médio-defensivo. Nesse momento, o outro médio-ofensivo inicia um movimento umas vezes vertical, outras diagonal, mas nunca recebe a bola. Esta é novamente endereçada ao mesmo médio-ofensivo, num passe vertical, e este agora tem mais espaço, fruto da desmarcação do colega, que arrastou adversários. A partir daqui, a bola entrará nas linhas ou subirá no ponta-de-lança, que tem por hábito descer para dar um apoio vertical, sendo um dos extremos a dirigir-se, na diagonal, para o centro do ataque. Outro movimento sem bola semelhante, com os mesmos fins, são as diagonais dos extremos. Associado a isto está a quantidade incrível de passes verticais, rasteiros, que a equipa consegue. Com estes passes, usualmente propiciados por estas movimentações ilusórias, a equipa progride verticalmente no terreno sem levantar a bola do chão, de forma segura, etapa a etapa.

13. Bolas paradas defendidas à zona.

O Barcelona defende os cantos à zona, colocando, por norma, 8 jogadores zonalmente e ainda um à entrada da área. Isto poderá variar de adversário para adversário, mas é usual não colocar nenhum jogador em nenhum dos postes (o que não deixa de ser curioso, tendo em conta maior parte das zonas), um jogador na zona do primeiro desvio, na linha vertical da pequena área, uma linha de quatros jogadores na linha de pequena área e ainda outra linha, um pouco mais adiantada que esta, com três homens nos intervalos dos outros quatro. Um dos defeitos que se aponta ao Barcelona, ou uma das dúvidas em relação à sua capacidade competitiva, prende-se com os lances de bola parada. Diz-se que a equipa é muito permeável de bola parada, mas dos 24 golos sofridos na Liga apenas 3 foram de bola parada, ao passo que, na Liga dos Campões, só 2 em 12 (excluo os livres directos). Só 1 em cada 6 golos sofridos são de bola parada, pelo que me parece francamente exagerado falar de permeabilidade nesses lances.

14. Importância da parte estratégica do jogo

Guardiola dá especial atenção aos seus adversários e prepara a equipa para certas nuances estratégicas, condicionadas pelo adversário. Contra o Recreativo, um exemplo claro desse lado estratégico, e que dificilmente terá sido perceptível pela transmissão televisa, foi o posicionamento defensivo aquando de um pontapé de baliza do adversário. Saberia, por certo, Guardiola que o Recreativo batia todos os pontapés de baliza para o lado direito do seu ataque, e colocou a sua equipa toda fechada nesse preciso espaço, em duas linhas de quatro jogadores, uma composta pelos centrais, a outra pelos médios e Henry, que, com Busquets, ocupava a zona onde a bola cairia. Para se ter uma ideia, Daniel Alves era o homem mais à direita desta zona e encontrava-se uns bons metros para cá da linha de meio-campo, ficando a equipa toda encolhida em 20/25 metros de largura e pouco mais de comprimento. Sabendo para onde o Recreativo bateria os seus pontapés de baliza, o Barcelona concentrou os seus onze jogadores numa área reduzidíssima de terreno, ganhando, quase de certeza, se não a primeira, pelo menos a segunda bola.


15. Rotatividade do plantel

Outro dos aspectos que merecem referência é a gestão de esforços que Guardiola tem sido obrigado a fazer nos últimos tempos. Ao contrário de grande parte dos treinadores, que optam por fazer descansar jogadores-chave em jogos do campeonato que antecedem desafios da Liga dos Campeões, a gestão de Guardiola, ainda que pretenda o mesmo, efectua-se de forma diferente. Além de nunca fazer descansar muitos dos titulares ao mesmo tempo (4 ou 5, no máximo), mantendo assim a competitividade da equipa, maior parte dos jogadores que serão utilizados no jogo seguinte e que ficaram inicialmente no banco acabam por entrar na partida, fazendo alguns minutos, mesmo que o resultado esteja garantindo. A ideia é óbvia e pretende manter os jogadores com ritmo de jogo. Isto faz todo o sentido. Se evitar o desgaste físico de uma partida de 90 minutos é importante, não nos podemos esquecer que nesse dia não há treino. Fazer eventuais titulares descansar, mas dando-lhes 20 ou 30 minutos para manterem o contacto com a competição é uma forma de gerir energeticamente e psicologicamente um plantel que me parece ter muito mais lógica. Outro exemplo da gestão da fadiga por parte de Guardiola está em Iniesta. O espanhol é um dos titulares indiscutíveis, mas nesta fase de dois jogos por semana nunca foi poupado, numa intenção clara de manter um jogador que passou algum tempo lesionado com um ritmo de jogo cada vez mais alto e apurado.

Resumindo, este Barcelona, definido pela expressão catalã que encabeça este texto, é mesmo mais do que um clube. Não querendo apropriar-me do sentido exacto da expressão, que encerra questões políticas e culturais bem mais fortes e que não são chamadas para o caso, considero este Barcelona bem mais do que uma equipa normal, no sentido em que funciona de forma totalmente diferente, com princípios bem próprios e uma mentalidade incrivelmente distinta. O prazer que extraio ao ver esta equipa jogar e todo o reconhecimento que agora lhe dão é uma espécie de vitória ideológica. Afinal, nenhuma equipa, na actualidade e não só, reflecte com maior exactidão aquilo que se defendeu desde sempre no Entre Dez como este Barcelona. Guardiola e o seu Barça são o rosto visível das ideias deste espaço e o seu sucesso será também o sucesso dessas ideias.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Momentos

A semana e meia que passou foi pródiga em episódios caricatos. É sobre eles que irei falar.

1. Luis Sobral voltou a dizer porcaria. O artigo completo pode ser lido aqui, mas vou deter-me na frase central: "Só há duas verdadeiras razões para seguir uma partida do futebol italiano: ver jogar Ibrahimovic, ver protestar José Mourinho." Ou seja, para Luis Sobral, o futebol italiano é uma trampa e só se aproveita Ibrahimovic e Mourinho (este porque protesta). Fica implícito que o resto do futebol italiano não vale nada e que nem sequer merece o sueco. Resta saber que futebol é que Luis Sobral aprecia, então. Se a liga mais competitiva do mundo não o satisfaz, talvez prefira a segunda liga do Azerbeijão. São gostos. Ainda bem que há liberdade de expressão.

2. Por cá, tivemos um senhor a armar um circo e a acabar feito palhaço. Falo de Queiroz. Pegou num pormenor insignificante e que deveria ser incentivado, fez dele um cavalo de batalha e reprovou-o. Pereirinha e Rui Pedro ousaram fazer uma coisa diferente e tiveram de prestar contas à Inquisição. Não satisfeito com a reprimenda apalermada de Rui Caçador, o seleccionador principal decidiu suspender os jogadores. Não sei se Queiroz terá aprendido com Paulo Bento a castigar todo aquele que revela uma personalidade ambiciosa, mas parece-me claro que o 25 de Abril em sua casa é dia de trabalhos forçados.

3. Entretanto, o Portimonense saiu em defesa de Rui Pedro, sendo que o jogador nem sequer pertence aos quadros do clube. Do Sporting, nem uma palavra de apoio ao capitão da selecção de sub-21. Miguel Veloso bem avisou que os jogadores não têm apoio de ninguém.

4. Ainda sobre o mesmo assunto, a reacção de Caçador e de Queirós foi a de enfatizar até ao absurdo o incidente. Outros, como eles, acharam que aquilo que os jovens fizeram foi repugnante, irresponsável e uma forma de menosprezar o adversário que ilustra a falta de valores e de humildade no nosso país. Ao contrário disto, lembram os valores morais e a dignidade de outros povos, numa atitude provinciana levada ao extremo. O que eu gostava mesmo de saber era o que é que essas pessoas diriam se vissem Henry e Wenger, no flash interview a seguir ao jogo em que o mesmo Henry e Robert Pires falharam um penalty idêntico, a rirem que nem perdidos da situação. Se calhar também são portugueses e também não têm humildade. Destaco as sábias palavras de Wenger, ditas por entre um sorriso, enquanto os jogadores do Manchester City se sentiam desrespeitados: "também faz parte do jogo cometer este tipo de erros". Pois faz. Também concordo que há uma diferença de mentalidades: Wenger não tem a tacanhez de Queiroz.

4. Provavelmente satisfeito com o pulso forte que demonstrou, Queiroz não fez a barba para o jogo com a Suécia. Se tivesse que adivinhar, diria que o seleccionador se cortou da última vez que fez a barba e decidiu castigar as lâminas de barbear por falta de responsabilidade.

5. Entretanto, antes do jogo com os nórdicos, Cristiano Ronaldo, confrontado com o porquê de não render tanto na selecção quanto no Manchester United, disse o seguinte: "Se todos fizessem o que fiz, éramos campeões mundiais". A única coisa que podemos depreender daqui é que Pereirinha e Rui Pedro, infelizmente, têm de se aguentar à bomboca, pois não são Cristiano Ronaldo. Ou seja, tentar marcar um golo de uma maneira diferente, mostrando criatividade e ao mesmo tempo coragem, é motivo para ser castigado; dizer abertamente que nem todos se esforçam como ele é um comportamento louvável. Viva a liberdade de interpretação.

6. Vieram finalmente os suecos e Portugal não jogou nada. Há quem diga que Portugal se fartou de jogar à bola, mas estes se calhar têm medo que Queiroz os castigue se disserem o contrário. Portugal atacou muito, correu muito, impôs um ritmo alto. Nada disto é jogar bem. Houve intensidade, houve vontade de ganhar, houve atitude, houve garra, houve compromisso. Só não houve ideias. Infelizmente, não houve a única coisa que era preciso ter havido. E o futebol praticado foi uma coisa irracional, sempre a uma velocidade estonteante, como se cada jogador tivesse de ir tirar o pai da forca. Futebol não é halterofilismo; joga-se com a cabecinha. Resultado: meia-dúzia de lances interessantes em 90 minutos e tantas oportunidades de golo para um lado como para o outro. A Suécia, uma selecção absolutamente banal sem Ibrahimovic, sem ter feito nada por isso, por pouco não ganhava o jogo.

7. Receita para o sucesso: jogar com um central a trinco porque os outros são grandes, jogar com o Bruno Alves de início, jogar a segunda-parte toda com 4 centrais de raiz em campo, tirar Tiago quando era o único com ideias, manter no meio-campo Meireles e Pepe, não colocar a jogar Nani nem Moutinho, trocar Danny por Hugo Almeida. Poderia acrescentar outras: apostar em Eduardo, não convocar Nuno Gomes, Postiga, Quim, Zé Castro, Fernando Meira, Pedro Mendes, Carlos Martins nem Quaresma. Estou de certeza a esquecer-me de mais qualquer coisa.

8. Imagem de marca do desafio: Queiroz com as mãos na cabeça, provavelmente a cogitar quem é que iria castigar por Cristiano Ronaldo falhar aquele golo.

9. Três jogos em casa, duas equipas medianas e uma fraca, dois empates e uma derrota; 5 jogos, 1 vitória, 6 pontos, três jogos sem marcar, 7 pontos de distância para o primeiro. São os números de Queiroz. Não seriam números maus, se Queiroz fosse seleccionador da Albânia. Assim, é a matématica a lixar a vida ao professor. O próximo a ser castigado é o Pitágoras, por ter ajudado a que houvesse forma de fazer contas.

10. Jogo amigável com a África do Sul. Ganhámos 2-0. Dois golos de bola parada, em dois falhanços incríveis da defesa sul-africana. Viva! A pergunta que se impõe é: para que é que Queiroz convocou três guarda-redes se dois deles nem no amigável entraram? Ou foram castigados a meio do estágio por terem sido encontrados a jogar ao berlinde?

11. A selecção B também jogou e Queiroz esteve na bancada. Acho que depois disso já castigou o operador de câmara que o filmou a roer uma unha. Do jogo em si, é sempre bom destacar o golo de Djaló, bem como o facto de nenhum dos jogadores portugueses ter sido castigado. Pelé fez 30 passes de ruptura inconsequentes e continua um senhor jogador.

12. Na zona sul do nacional de juniores, o Sporting foi vencer ao Seixal o Benfica, dando um passo seguro rumo à fase final. O Belenenses, que vai a Alcochete esta semana, ficou a 1 ponto do Benfica, que não contará com Nélson Oliveira nos próximos jogos, por ter sido expulso. Acho que Queiroz pensou em castigar toda a equipa do Sporting por ser muito melhor que a do Benfica.

13. Se os filhos do Queiroz aparecerem com um olho à belenenses, aposto que foi por o pai ter encontrado os miúdos a dizer que o Ibrahimovic jogava para caramba.

14. Na Liga, Lisandro foi castigado por ter simulado um penalty frente ao Benfica. Isto cheira-me a coisa do Queiroz.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Podias ser mais atrasado, Professor? Não, não podias...

Pereirinha e Rui Pedro, na sequência do penalty não convertido contra a selecção de Cabo Verde, foram suspensos pelo Professor Carlos Queiroz.

Este capricho do principal responsável técnico das selecções nacionais, aliado às declarações de Rui Caçador, poderá ter repercussões a todos os níveis nefastas. E isto não se aplica só aos dois jogadores que foram castigados.

A opção por crucificar dois jogadores que "ousaram" fazer algo de diferente não se esgota no castigo "concedido". Quando se condena um acto destes, desta natureza, está a circunscrever-se a irreverência, a originalidade, a coragem de num dado momento surpreender, mas, acima de tudo, está a condenar-se os que pretendem algo mais. O mais fácil naquela situação seria apontar a grande penalidade de forma vulgar. E isto só não aconteceu porque um jogador, num dado momento, sentiu que poderia fazer mais, porque ousou tentar algo de diferente. E tentar algo de diferente nada tem a ver com desrespeito, ou leviandade.

Mas não deixa de ser engraçado atentar nas declarações de Rui Caçador: "se eles tivessem feito aquilo num jogo com uma selecção mais forte, com o resultado 0-0 e num jogo a doer, aí, talvez até aceitasse a classe e a coragem dos jogadores. Assim, não". Peço desculpa, mas quem é que faltou ao respeito a quem? Quem é que está a tratar os cabo-verdianos como uns coitadinhos? O jogador que achou que devia "caprichar"? Ou o treinador que acha que contra estes "pobres coitados" qualquer um pode fazer algo do género?

E que dizer do seleccionador principal? É para isto que pretende participar mais nas selecções jovens? Para poder mostrar serviço, já que na selecção principal é a miséria que se vê? Cuidado com os "banhos de humildade" professor, não vá ter um tipo alto e loiro a escovar-lhe as costas no próximo sábado.

Depois há uma questão que não podemos ignorar: cada jogador é um caso! Não conheço muito bem o Rui Pedro, mas se há coisa que se não pode apontar ao Pereirinha é tiques de vedeta. Aliás, quem o conhece bem até admite que uma das razões de ele ainda não se ter imposto de forma categórica é a maneira demasiado "correcta" e "certinha" com que tem pautado as suas exibições, não se vislumbrando a coragem e a irreverência que sempre demonstrou, quer nas camadas jovens, quer na liga de Honra, ao serviço do Olivais e Moscavide (na altura ainda com idade de júnior). Não me parece, portanto, que esta opção em retrair a irreverência deste jogador se possa revelar positiva no futuro do mesmo, temendo até que possa suceder exactamente o oposto no desenvolvimento de Bruno Pereirinha.

domingo, 22 de março de 2009

Cruyff contra a Intensidade

Para muitos, a característica mais importante de uma equipa de futebol que queira ser bem sucedida tem de ser a intensidade de jogo. Por intensidade de jogo entende-se capacidade de jogar a um ritmo elevado durante os noventa minutos, índices de concentração e agressividade máximos, capacidade de pressionar activamente em todo o campo, etc. E diz-se que hoje em dia as melhores equipas são aquelas que conseguem ser intensas a este nível. Esta é - dizem as mesmas pessoas - a arma dos colossos ingleses. Concordo que muito do potencial de Manchester e Liverpool, por exemplo, tenha a ver com isto. Afinal, são duas equipas que raramente impõem ritmos baixos aos jogos e que têm na velocidade de processos a principal arma. De formas diferentes, é verdade, serão talvez as equipas com maior intensidade de jogo na Europa. Aquilo com que não concordo é que essa seja a característica fundamental para o sucesso. Ou pelo menos - acredito - há armas com que combatê-la.

Reconheço que Manchester e Liverpool têm as equipas atleticamente mais aptas a vencer a Champions. Mas, como sempre defendi, o futebol tem muito mais de intelectual do que de atlético. Não acredito, por isso, que o empenho físico que subjaz à capacidade de ser intenso, que a simplicidade, a velocidade, a objectividade e a agressividade sejam imbatíveis. Contra equipas que fazem da intensidade a sua arma, que têm um poderio atlético superior, como são o caso do Manchester e do Liverpool, o segredo residirá em possuir a bola, em trocá-la entre os seus jogadores o mais rapidamente possível, em criar sucessivas linhas de passe e assinaláveis redes de apoios. Se há equipa com a qual me identifico é o Barcelona de Guardiola. E é precisamente o futebol do Barcelona que serve de ilustração àquilo que defendo. Cruyff dizia, há dias, nesta entrevista, que não se importava que o Barcelona jogasse já com uma destas duas equipas, para muitos as duas grandes favoritas à vitória final. A razão era simples: não há razão nenhuma para temer qualquer adversário. O futebol do Barcelona é que é difícil de anular, não o contrário. De forma a contrariar a capacidade atlética destes dois adversários, Cruyff sugere o seguinte:

"Por más que te salgan a toda pastilla, por más que te vayan a buscar arriba, por más presión que te den, tú tienes la forma de salvarlo. Y esta pasa con la técnica, el juego de posición y la velocidad que le imprimas al balón. Un pase rápido y bien dirigido a un compañero que se ofrezca en las ayudas es la única forma de hacer que ellos lleguen tarde y que tú ganes ese medio metro para salir de la presión."

Nem mais. Se o Barcelona jogar à Barcelona, o Manchester e o Liverpool é que devem temê-los. Isto porque contra a intensidade há uma arma óbvia: ter a bola. E se há equipa temível nesse aspecto do jogo é o Barcelona. E o que pode fazer uma equipa contra um adversário que tenha a bola? Tentar tirá-la, através da capacidade de pressão, através da entrega, do esforço físico. Será sempre uma disputa entre a competência de ser intenso e a competência de ter bola. O problema é que, se os dois forem competentes naquilo que se lhes impõe, será sempre quem tem bola que estará por cima. É por isso que o Barcelona só deve temer-se a si próprio. Se conseguir impor o seu futebol, a intensidade dos outros não será suficiente para pará-los.

Os quartos-de-final estão aí e, contra os desejos de Cruyff, nem Liverpool nem Manchester se atravessaram no caminho do Barcelona. O adversário será o Bayern de Munique. A diferença será, no entanto, apenas qualitativa, pois os germânicos constituem igualmente uma equipa que vive da intensidade de jogo. Perderá, para os ingleses (sobretudo para o Liverpool), em organização defensiva, mas de resto é uma equipa em tudo idêntica às outras duas. Será, por isso mesmo, um excelente ensaio para o Barcelona e uma primeira ordália às verdadeiras capacidades da única equipa europeia (com qualidade suficiente para jogar a este nível) que joga um futebol verdadeiramente apoiado. Depois do duplo desafio com o Bayern, ficará muito mais claro que espécie de resposta pode dar, nos dias de hoje, um futebol mais elaborado, mais requintado, mais inteligente, face ao músculo e ao suor em que a esmagadora maioria das filosofias hodiernas se baseiam. Tal como Cruyff, acredito que o jogo posicional, a capacidade de criar apoios ao portador da bola, a velocidade com que se circula a bola, a técnica e a inteligência podem fazer frente à capacidade atlética, por mais perfeita que esta seja. Acredito, portanto, que o Barcelona não só tem francas possibilidades de vencer a Liga dos Campeões este ano, como se constituirá, caso o consiga, como um exemplo de como a elegância, a classe e as ideias se podem superiorizar à força, à vontade e ao espírito de sacrifício.

sábado, 14 de março de 2009

O desinteresse kantiano aplicado ao futebol

É usual relacionar-se o futebol com emoções e não é novidade ouvir falar do desporto-rei como um jogo de paixões. Para grande parte das pessoas, assistir a um jogo de futebol é mais do que assistir a um jogo de futebol: é partilhar sentimentos, é libertar ânimos, é fazer parte de um espírito colectivo, é emocionar-se, etc. O futebol, como aliás outras actividades próprias do Homem, serve desta forma ao Homem como fonte de prazer.

Há essencialmente - do meu ponto de vista - duas formas de um desafio de futebol constituir fonte de prazer. Para aqueles que vêem um jogo do seu clube e que são afectados pelo sucesso ou pelo insucesso do seu clube, as peculiaridades de uma partida transformam-se em prazer, pela positiva ou pela negativa, com base num critério puramente arbitrário e que releva de um gosto ou de uma apetência unicamente individual que normalmente não se explica. Tentando transpor este tipo de leitura para o campo das artes, teríamos coisas absolutamente ridículas. Não faz qualquer sentido dizer que se prefere a arte de José Malhoa à de Caravaggio ou a música de Marco Paulo à de Mozart apenas porque somos portugueses. Em arte, não faz qualquer sentido haver avaliações com base em critérios de identificação pessoal. Ora, por que razão haveria então de o futebol ser diferente? Poder-se-á dizer que o futebol tem uma dimensão competitiva que justifica esse tipo de critério. Compreendo e aceito. Mas jamais a avaliação qualitativa de um jogo de futebol pode estar afectada por isso. Onde quero eu chegar? Ao cerne da questão. Ao valor de uma partida de futebol. Haver quem sofra com as vitórias do seu clube ou quem exulte com os êxitos da sua selecção é apenas uma consequência do facto de o futebol ser um fenómeno sócio-cultural. Enquanto fenómeno sócio-cultural, é aceitável que haja quem o veja desse modo. Mas o futebol é mais que isso. O futebol é arte.

Boa parte de quem vê futebol não vê no jogo mais do que um fenómeno desse tipo e um golo da sua equipa é igual a uma vitória política do partido que apoia ou produz uma satisfação parecida com aquela que produz a ingestão de um pedaço da sua fruta preferida. Ora, gostar de futebol não é o mesmo que gostar de maracujá. Há, contudo, um segundo tipo de pessoas que, embora nutra afeição por um determinado clube e vá ao estádio pela euforia da vitória e pela simpatia para com o clube, sabe que o jogo em si é muito mais do que um fenómeno sócio-cultural. Estas pessoas têm a percepção de que a avaliação da qualidade de uma partida não pode ser medida pelo grau de satisfação que o clube do seu coração lhes proporciona e têm até, por vezes, a consciência de que essa relação com esse clube influencia a sua capacidade de tecer considerações objectivas sobre um determinado jogo. Este é o segundo tipo de pessoas para quem o futebol constitui uma fonte de prazer. A diferença essencial tem a ver com o tipo de prazer. Ao contrário do primeiro tipo, para quem o prazer é directamente proporcional à taxa de sucesso do clube apoiado, para este tipo de pessoas o prazer de um jogo residirá noutra coisa. Que coisa será essa? É o que vamos tentar perceber de seguida.

Estas pessoas, ainda que saibam distinguir as emoções proporcionadas pelas vitórias ou derrotas do seu clube do coração das emoções proporcionadas pela qualidade do próprio jogo, continuam a incorrer num erro que consiste em presumir que a qualidade tem a ver com a emoção que propicia. Para estas pessoas, portanto, um bom jogo de futebol é aquele que confere maior satisfação, sendo essa satisfação medida pela carga emocional que o mesmo conseguir transmitir. Desta forma, avaliam a qualidade de um jogo pelo número de golos ou pela intensidade do próprio jogo, pelo ritmo a que os eventos se dão ou pela incerteza no marcador, pela quantidade de oportunidades de golos ou pela quantidade de suor deixada em campo. Todas estas coisas são incidências do jogo que podem ou não significar que o jogo foi bom. Haver muitas oportunidades de golo pode tanto significar que se assistiu a um bom jogo como pode significar que se assistiu a um número elevado de disparates das defesas. Nada destas coisas implica necessariamente que o jogo tenha sido bom. E isto por uma razão simples. Porque a qualidade do jogo não tem nada a ver com o grau de prazer que proporciona.

Há, neste momento, um comparação interessante a fazer. Quando uma pessoa vai a um concerto, ou quando ouve música em casa ou no carro, essa pessoa não está, verdadeiramente, a ouvir música. Isto é, a razão pela qual se vai a um concerto não é a música, do mesmo modo que a razão pela qual se vai ao futebol não é o futebol. Aquilo que uma pessoa vai fazer a um concerto é estabelecer um comunhão entre ela e o músico, entre aquilo que o músico transmite e aquilo que se está a passar dentro dela. Se entendermos a música como arte, um concerto é uma aberração. Aquilo que se passa num concerto é que as pessoas querem assimilar a música e aquele que a interpreta, sendo que a fruição de um concerto consiste nessa capacidade de partilha de sensações. A música em si, num concerto, tem um papel secundário; o que importa é a conformidade entre espectador e artista. Ora, isto não tem nada a ver com arte. Qualquer participação emotiva da parte do espectador é sintoma de que não se está a assistir a arte, mas sim ao interesse que o objecto que se tem pela frente nos provoca. Num jogo de futebol não é diferente. Todo aquele que estiver a assistir a um jogo centrado no interesse que esse jogo lhe provoca, seja esse interesse motivado pelo facto de o seu clube do coração estar em campo ou pela emoção que o jogo em si propicia, não está a assistir a futebol. E, de maneira geral, todo aquele que estiver interessado em fruir com a experiência de ver um jogo não tem, de facto, capacidade para compreender objectivamente o mesmo. Isto só é possível entendendo o jogo como uma obra de arte, como uma experiência estética. A qualidade de algo só pode ser avaliada tendo em conta apenas as propriedades próprias desse algo. Não faz sentido, portanto, avaliar a qualidade dessa coisa através daquilo que provoca em quem a vê, pois essa avaliação estará sempre dependente da pessoa em causa, ou seja, será sempre subjectiva. Neste sentido, a qualidade de um jogo só pode ter a ver com as suas propriedades estéticas.

É aqui que entra Kant e a sua noção de desinteresse. Na Crítica da Faculdade do Juízo, o filósofo alemão diz o seguinte:

"Para distinguir se algo é belo ou não, referimos a representação, não pelo entendimento ao objecto com vista ao conhecimento, mas pela faculdade da imaginação (talvez ligada ao entendimento) ao sujeito e ao seu sentimento de prazer ou desprazer. O juízo de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento, por conseguinte não é lógico e sim estético, pelo qual se entende aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjectivo. Toda a referência das representações, mesmo a das sensações, pode porém ser objectiva (e ela significa então o real de uma representação empírica); somente não pode sê-lo a referência ao sentimento de prazer e desprazer, pelo qual não é designado absolutamente nada no objecto, mas no qual o sujeito se sente a si próprio do modo como ele é afectado pela sensação.
Apreender pela sua faculdade de conhecimento (seja num modo de representação claro ou confuso) um edifício regular e conforme a fins, é algo totalmente diverso do que ser consciente desta representação com a sensação de comprazimento . Aqui a representação é referida inteiramente ao sujeito e na verdade ao seu sentimento de vida, sob o nome de sentimento de prazer ou desprazer; o qual funda uma faculdade de distinção e julgamento inteiramente peculiar, que em nada contribui para o conhecimento, mas somente mantém a representação dada no sujeito em relação com a inteira faculdade de representações, da qual o ânimo se torna consciente no sentimento do seu estado."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §1)

Por outras palavras, o que diz Kant aqui é que o juízo de gosto deve estar orientado unicamente para o objecto e não para o modo como esse objecto afecta o sujeito, sendo que formar representações com base na sensação de comprazimento institui julgamentos peculiares, relacionados unicamente com a pessoa que os forma e incapazes, portanto, de conferir qualquer espécie de conhecimento. Continua Kant:

"Chama-se interesse ao comprazimento que ligamos à representação da existência de um objecto. Por isso um tal interesse sempre envolve ao mesmo tempo referência à faculdade da apetição, quer como seu fundamento de determinação, quer como vinculando-se necessariamente ao seu fundamento de determinação. Agora, se a questão é saber se algo é belo, então não se quer saber se a nós ou a qualquer um importa ou sequer possa importar algo da existência da coisa, mas sim como a ajuízamos na simples contemplação (intuição ou reflexão). [...] Cada um tem que reconhecer que aquele juízo sobre a beleza, ao qual se mescla o mínimo interesse é muito faccioso e não é nenhum juízo de gosto puro. Não se tem que simpatizar minimamente com a existência da coisa, mas pelo contrário ser a esse respeito completamente indiferente, para em matéria de gosto desempenhar o papel de juiz."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §2)

Avaliar uma obra tem de ser um acto puramente desinteressado aquando do qual não está em actividade qualquer espécie de afinidade entre o sujeito que avalia e a obra em causa. "Ser completamente indiferente" a um jogo de futebol é ser capaz de se distanciar o suficiente do jogo para que o mesmo não produza qualquer espécie de efeito em si. Só com esta distanciação e com este desinteresse se está apto a avaliar esteticamente uma partida de futebol.

"Onde pois não é porventura pensado simplesmente o conhecimento de um objecto mas o próprio objecto (a forma ou existência do mesmo) como efeito, enquanto possível somente mediante um conceito do último, aí se pensa um fim. A representação do efeito é aqui o fundamento determinante da sua causa e precede-a. A consciência da causalidade de uma representação com vista ao estado do sujeito para o conservar nele pode aqui de modo geral designar aquilo que se chama prazer."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §10)

Todo o juízo estético deve ter por fim o conhecimento do objecto e não o efeito que o próprio objecto produz. Avaliar, portanto, uma partida de futebol com base no prazer que esta possa produzir no sujeito é, pois, estar concentrado no objecto em si e não no seu conhecimento, que é o que importa.

"Todo o fim, se é considerado como fundamento do comprazimento, traz sempre consigo um interesse como fundamento de determinação do juízo sobre o objecto do prazer. Logo, nenhum fim subjectivo pode situar-se no fundamento do juízo de gosto. [...] nem um agrado que acompanha a representação, nem a representação da perfeição do objecto e o conceito de bom podem conter esse fundamento de determinação."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §11)

O juízo de gosto não deve, pois, ser influenciado por aquilo que o objecto em causa proporciona, nem fundamentado por conceitos a priori daquilo que é bom. Uma partida de futebol deve ser analisada sem o espectro do prazer que causa e sem qualquer conceito formado previamente que defina em que parâmetros a mesma possa ser assinalada positiva ou negativamente. Só deste modo é possível ver futebol com um desinteresse perfeito e ser capaz de se inferir objectivamente acerca disso. O que sobra, pois, são as propriedades intrínsecas do objecto, propriedades que não tenham qualquer relação connosco mas apenas umas com as outras. No caso de uma partida de futebol, essas propriedades não serão, portanto, a emotividade, a intensidade, a quantidade de golos, etc. Isso são propriedades manifestadas pelos efeitos que uma partida produz. Aquilo que é verdadeiramente relevante é a qualidade intrínseca do jogo, a qualidade que dependa unicamente da funcionalidade do jogo. Essa qualidade, para quem assiste desinteressadamente ao jogo, só pode estar contida na própria essência do jogo. E a essência do jogo define-se por critérios de utilidade. Por outras palavras, a intensidade só será positiva enquanto útil; chutar à baliza só será positivo enquanto constituir a coisa mais útil a fazer naquele momento, etc. A qualidade de um jogo e, por conseguinte, a qualidade do futebol praticado por cada uma das equipas depende das acções colectivas, das decisões individuais, da reacção entre cada um dos elementos das equipas, da fricção entre dois blocos adversários, enfim, da utilidade de cada pormenor enquanto finalidade particular naquele instante.

Sintetizando, a qualidade de um jogo de futebol não tem a ver com a emoção, não tem a ver com golos, não tem a ver com vitórias, não tem a ver com malabarismos, não tem a ver com nada que não se cinja à utilidade de cada detalhe. A qualidade só pode ser interpretada de acordo com a utilidade daquilo que se faz a cada momento. E aquilo que é útil a cada momento varia, de acordo com a situação, não havendo por isso um critério universal estipulado a priori para defini-lo. O que é bom é-o mediante as circunstâncias da altura e o nível de qualidade de um jogo está ligado à quantidade de situações resolvidas adequadamente.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Hulk: um estudo

O jogo em questão foi o Atlético de Madrid - F.C. Porto; em análise, o avançado brasileiro Hulk. Esta análise não vem no imediato seguimento do jogo, o que acaba por ser interessante, visto que houve muitas opiniões favoráveis à exibição de Hulk, nomeadamente em Espanha.

1 mins: Cruzamento. (Arrancada pela direita; passa por dois adversários e cruza para Christian Rodriguez, que remata à meia-volta contra o guarda-redes adversário.)

8 mins: Boa opção. (Ganha o lance e dá em Raúl Meireles.)

8 mins: Remate. (Recebe de Raúl Meireles, vai à linha, tem tempo para assistir Lisandro, mas pára e opta por rematar por cima.)

10 minutos: Má opção. (Ganha o lance e finta; perde e ganha lançamento.)

12 minutos: Boa opção. (Recebe um passe vertical de Fernando e dá de frente em Lucho.)

14 minutos: Perda de bola. (Toque de calcanhar inconsequente e respectiva perda de bola.)

15 minutos: Faz falta. (Comete falta na frente.)

19 minutos: Cabeceamento. (Ganha lance de cabeça.)

20 minutos: Mau passe. (Ganha a bola no meio, roda para a esquerda e executa um passe que é interceptado; apesar disso, a bola sobe e acaba por chegar a Rodriguez.)

21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Raúl Meireles.)

21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Rodriguez.)

23 minutos: Mau tempo de salto. (Faz-se ao lance, mas calcula mal o tempo de salto e a bola passa-lhe por cima.)

27 minutos: Perda de bola. (Passa em velocidade por Paulo Assunção, mas insiste na jogada individual, tentando furar entre dois adversários e fica sem a bola.)

28 minutos: Golo falhado. (Boa desmarcação; fica isolado, mas tenta picar a bola e falha.)

30 minutos: Perda de bola. (Recebe de costas e perde a bola.)

33 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)

34 minutos: Má opção. (Recebe a bola, demora a soltá-la e acaba por entregá-la mal.)

35 minutos: Boa opção. (Ganha uma bola no meio-campo em falta, levando os jogadores do Atlético a parar; como o árbitro não apita, solicita Lisandro, que é desarmado.)

38 minutos: Faz falta. (Recebe a bola com a ajuda do braço.)

40 minutos: Faz falta. (Empurra, alegadamente, o defensor junto à linha de fundo.)

42 minutos: Remate. (Com espaço na esquerda, dribla Seitaridis e remata cruzado ao lado.)

42 minutos: Perda de bola. (Tenta fintar no meio de muita gente e perde a bola.)

45 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta rodar e ir em velocidade, mas é desarmado.)

47 minutos: Boa opção. (Recebe na esquerda e dá em Lisandro, que passa junto à linha.)

50 minutos: Sofre falta. (Tenta fintar no meio-campo e acaba por sofrer falta.)

51 minutos: Má opção. (Tenta fintar e ganha lançamento.)

53 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola na direita e cruza, sem consequências.)

53 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)

58 minutos: Faz falta. (Recebe a bola, mas faz falta ao tentar protegê-la.)

58 minutos: Perda de bola. (Recebe a bola, vira-se, tenta o drible e perde.)

59 minutos: Sofre falta. (Recebe, segura e sofre falta.)

60 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola, roda e cruza contra um defesa.)

63 minutos: Faz falta. (Comete falta sobre Paulo Assunção.)

64 minutos: Remate. (Responde a um cruzamento de Lucho, mas acerta com o ombro na bola.)

68 minutos: Má opção. (Recebe a bola, roda e perde; a bola sobra, porém, para Sapunaru.)

68 minutos: Má opção. (Recebe, roda e perde; ganha o lançamento.)

70 minutos: Perda de bola. (Recebe, tira um adversário do caminho e faz um passe em esforço, que é interceptado.)

71 minutos: Boa opção. (Recebe a bola, roda para a esquerda e dá na linha em Christian Rodriguez; na sequência da jogada, Lisandro faz golo.)

73 minutos: Má opção. (Recebe no meio-campo, vira-se e dá vertical em Lisandro, não respeitando o movimento do colega; a bola acaba no entanto por passar e Lucho vai apanhá-la.)

74 minutos: Boa opção. (Recebe a bola vinda de um ressalto, demora demasiado tempo a fazer malabarismos, mas acaba por decidir bem e dar recuado em Raúl Meireles que cruza.)

80 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta virar o flanco sem necessidade. O passe acaba por sair mal e é interceptado.)

80 minutos: Boa opção. (Dá a bola de frente.)

81 minutos: Perda de bola. (Recebe na linha, tenta vir para o meio e perde; ganha o primeiro ressalto, insiste no drible e volta a perder; ganha ainda mais dois ressaltos, mas acaba por perder a bola.)

87 minutos: Má opção. (Ganha o lance em falta, tenta o drible no meio de três adversários; é desarmado, mas ganha um canto.)

87 minutos: Má opção. (Bate o canto curto e recebe novamente a bola, entregando-a a Lisandro, que vem numa diagonal, no meio de dois adversários, num local onde não iria tirar qualquer proveito.)

90 minutos: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para Lucho, desmarca-se para receber a bola à frente, mas não aguenta o ombro a ombro com o defesa espanhol.)

Coloquei em negrito aquilo que de positivo Hulk fez ao longo da partida. Vamos às conclusões:

1) 46 acções durante todo o jogo; 17 acções positivas; 37% de acções positivas.
2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 13 boas opções contra 22 más opções; 37% de boas opções.
3) Destas 22 más opções resultaram 14 perdas de bola para a sua equipa.
4) Fez 7 faltas (sendo que apenas numa se pode dizer que é duvidosa) e sofreu 2.
5) Fez 3 cruzamentos, sendo que apenas 1 deles levou perigo.
5) Fez 4 remates, sendo que apenas dois deles constituíram verdadeiro perigo.
6) Apostou em 16 acções individuais, sendo que foi mal sucedido por 12 vezes. Das 4 vezes em que conseguiu tirar alguma coisa desses lances, em 2 deles sofreu faltas, ambos estando muito recuado no terreno, e em apenas 2 lances a sua capacidade individual teve consequências positivas. As suas acções individuais tiveram, portanto, um aproveitamento de 12,5% e todas elas ocorreram junto às faixas.
7) Recebeu 15 bolas estando de costas e entregou apenas 4 de frente; em 73% das vezes, optou pelo mais difícil. Optando pelo mais difícil, perdeu 3 bolas na recepção, perdeu 7 ao tentar virar-se para o adversário, e apenas ganhou 1 apostando em rodar sobre si; teve 12,5% de sucesso em lances em que se tentou virar para o adversário.

Comentários: Já aqui o disse e reafirmo-o: Hulk tem capacidades individuais fantásticas. Mas tê-las, por si só, não é nada. Há que saber aproveitá-las e que saber pô-las ao serviço do colectivo. E Hulk não faz nenhuma das duas coisas. A sua capacidade de decisão, como se comprova, é bastante baixa. Deste modo, a sua colaboração, em termos colectivos, deixa muito a desejar e Hulk é, não raras vezes, prejudicial ao processo ofensivo da sua equipa. Aproximadamente, duas em cada três bolas que lhe chegam não têm o melhor destino. É muito. Deste modo, e reconhecendo que as capacidades individuais de Hulk podem ajudar o colectivo, há que tentar explorá-las o melhor possível e de forma a que essas capacidades prejudiquem o menos possível o colectivo. Como se comprova também pelo estudo, a sua capacidade de desequilibrar é especialmente útil nas faixas, com espaço, e quando não tem de rodar sobre si próprio para progredir. As duas vezes em que o seu poder de arranque conseguiu criar estragos na defesa contrária foi junto às linhas (se exceptuarmos o lance do golo falhado, em que há uma clara desatenção da defesa adversária e em que Hulk é lançado em profundidade). Deste modo, vemos que não só as suas qualidades são potenciadas junto às linhas como é nesse local que a sua fraca capacidade de decisão poderá prejudicar menos a equipa. Se há coisa que este estudo veio demonstrar é que Hulk deve participar o menos possível na manobra ofensiva da equipa, procurando isolar-se do colectivo o mais possível de modo a ter, quando receber a bola, espaço e margem de erro para tentar desequilíbrios individuais. Era isto que, por exemplo, fazia Quaresma, em tudo idêntico ao brasileiro (ainda que menos mau a decidir), quando ficava aparentemente perdido encostado a um flanco. Às vezes, podia passar ao lado do jogo, mas não só não era um elemento nocivo no ataque da equipa como também constituía uma opção constante para as transições ofensivas da mesma. Ora, um jogador deste tipo não pode jogar enfiado entre os centrais; um jogador que em 73% das bolas que recebe de costas não a dá de frente não pode jogar como ponta-de-lança, sob pena de a equipa não poder contar com o apoio vertical que um jogador na sua posição normalmente oferece. Outra coisa que o estudo vem comprovar é que Hulk não está, como se vinha dizendo, melhor em termos de compreensão de jogo. A insistência em virar-se para a baliza adversária, sempre que recebe a bola de costas, sabendo que a probabilidade de ter um adversário à ilharga é grande, chega a ser de principiante; a quantidade de bolas que perde é assustadora; a quantidade de faltas desnecessárias um abuso. Hulk não melhorou em nada desde que chegou ao nosso campeonato a não ser em confiança. Está hoje um jogador mais confiante e com muito mais liberdade para errar. Mas a sua capacidade de decisão permanece imutável. E permanecerá sempre, ao contrário do que se pensa. Isto porque uma coisa é melhorar a nível táctico, em termos de compreensão de jogo, de experiência, de confiança, outra coisa muito diferente é melhorar em termos intelectuais. E essa mudança é tão lenta quanto uma mudança ao nível técnico, por exemplo. E a razão é simples. São coisas que se aprendem vagarosamente, com o decorrer dos anos. Hulk é isto e será só isto. Agora, é possível retirar algum proveito disto, reconhecendo-se as limitações que isto tem. Hulk está longe de ser o melhor jogador do campeonato, como parecem querer fazer dele, à força, porque embora, de facto, seja fortíssimo quando arranca com a bola, não só não executa estas iniciativas com conta, peso e medida, como, na grande maioria das vezes as mesmas acabam por significar perdas de bola ou ataques inconsequentes. Correndo o risco de tecer uma afirmação aparentemente paradoxal, para que Hulk seja o mais útil possível ao colectivo tem de colaborar o menos possível com ele, ocupando uma posição expectante na grande maioria do tempo. Nessa altura, poder-se-á tirar todo o proveito dele e, aí sim, falar dele como um jogador ao nível de Lucho ou Lisandro.