O preâmbulo anterior tem o condão de justificar as asserções que farei de seguida. Dito isto, tive a oportunidade de assistir ao vivo, há dias, em pleno Camp Nou, ao desafio que opôs o Barcelona ao Recreativo de Huelva, a contar para o campeonato espanhol. O jogo foi pouco intenso do ponto de vista emocional, não teve oscilações significativas e foi quase sempre jogado ao mesmo ritmo. Não terá sido um dos melhores jogos do Barcelona, tal a abundância de boas exibições, mas a verdade é que a equipa catalã fez o jogo que mais lhe interessava. Marcou cedo, geriu a vantagem, sempre com mais bola que o adversário, e geriu as expectativas e as energias dos seus jogadores mais influentes. Messi, então, esteve em campo apenas para desentorpecer os músculos, como se fosse um treino de recuperação activa. Ainda assim, foi um desafio agradável, com muitos dos ingredientes habituais: trocas de bola sucessivas, bom jogo posicional e elevada concentração de todos os jogadores. Deste ponto de vista, uma vez que foi um jogo pausado, com poucas transições rápidas de parte a parte, jogado quase sempre com os conjuntos organizados, foi talvez o jogo perfeito para quem tenta perceber os pormenores mais profundos do modelo de Guardiola. Será precisamente a isso que me dedicarei de seguida.
1. Tabelas
Há quem diga que jogar bem não é jogar bonito. Normalmente, isto acontece porque baseiam o conceito de bonito em algo que não o é, na verdade. Em futebol, ou em tudo o que tem um carácter objectivo, o bonito é o que satisfaz essa objectividade. Ou seja, é igual ao bom. Jogar futebol bonito não é andar a fazer cabritos ou cuecas, não é fazer passes longos a toda a hora ou fintar três adversários no sentido contrário à baliza; é jogar bem. Ao contrário do que estas pessoas diriam, o futebol do Barcelona não é atractivo porque é bonito; é atractivo porque é bom. E é bonito porque é bom. Essencialmente, é um futebol em que a taxa de opções correctas é muito elevada. E esta taxa é aquilo que, em futebol, define o que é bom e, por arrasto, o que é bonito. O futebol deste Barcelona é, na sua essência, isto: uma taxa de boas opções francamente superior a toda a concorrência. O seu futebol é reconhecidamente formidável graças à qualidade das opções dos seus jogadores. Isto permite, como consequência, que a equipa tenha uma taxa elevada de passes acertados, bem como a facilidade de progredir em posse. Neste momento, os que discordam de mim, dirão que há equipas que não jogam tão bonito, isto é, de forma tão atractiva, mas que jogam igualmente bem, isto é, são igualmente equipas eficazes e competentes no que diz respeito à objectividade. A divergência de opinião terá unicamente a ver com o conceito de "objectivo". Para maior parte das pessoas, o objectivo do futebol é o golo, ou a vitória. Nesse sentido, uma equipa joga bem se cumprir ou fizer tudo o que estiver ao seu alcance para cumprir esse objectivo. Assim, uma equipa que jogue de forma directa, sem "rodriguinhos", com um ritmo elevadíssimo, sempre com vista à vitória, fará um bom jogo. Não concordo com isto. E a razão prende-se com o facto de não concordar que o objectivo do futebol seja o golo ou a vitória. Como o defendi aqui, o objectivo do golo é um objectivo circunstancial, que só é activado no momento de chutar à baliza. Todos os outros momentos têm por objectivo fazer o melhor possível para passar ao momento seguinte. O objectivo do futebol não é assim o golo ou a vitória, mas sim o fazer o melhor em cada momento. Ora, o Barcelona adopta uma filosofia que se identifica claramente com isto. Em muitos momentos do jogo - eu diria mesmo na maior parte deles - a equipa está menos interessada em marcar golos do que em manter a posse de bola ou fazer o que é melhor a cada momento, ainda que isso implique cinco ou seis acções para progredir o mesmo que poderia progredir numa só acção. Mas o que é mais interessante é que há ocasiões, mesmo quando o resultado está nivelado, em que o futebol do Barça é absolutamente contra-intuitivo. Em certas alturas, quando outra equipa qualquer aproveitaria para progredir no terreno ou para impor velocidade, o Barça joga para trás, envolve-se em tabelas aparentemente inconsequentes e diverte-se a trocar a bola entre os seus jogadores, sem qualquer objectivo aparente. Não é raro, por exemplo, vermos um passe vertical em que o jogador que recebe a bola se pode virar, pois tem espaço, e progredir perigosamente, mas não o faz, preferindo tabelar ou jogar para trás. Estes lances, na minha opinião, definem este Barcelona. As coisas, obviamente, não se fazem apenas por fazer e a ausência de objectividade é apenas aparente. Há, nestes gestos, o reflexo óbvio da forma de estar em campo da equipa. Tabelar quando pode progredir, jogar para trás quando tem espaço para a frente, fazer passes absolutamente inconsequentes quando tem espaço para avançar, são formas de treinar, de mecanizar, de criar rotinas nos jogadores. Preferir trocar a bola sem qualquer espécie de objectividade é precisamente aquilo que os deixa, depois, completamente confortáveis a jogar de costas para a baliza, a fazer tabelas, a considerar apoios, a romper linhas em trocas de bola sucessivas. O divertimento incosequente acaba por funcionar como treino, ou seja, por ter consequências, ainda que não imediatas.
3. Simplicidade Complexa
Muita gente há também que considera o futebol do Barcelona de uma simplicidade incrível. E consideram que essa simplicidade é louvável. O futebol do Barça não tem nada de simples. O facto de aquilo que eles fazem parecer simples deriva do erro comum de não se valorizar coisas como um passe de dez metros, quando são claramente mais complicadas de fazer do que outras que muitas vezes se consideram difíceis, como dribles fantásticos ou remates fortíssimos. Fazer um bom passe envolve tantas variáveis que é um gesto muito mais difícil do que se pensa. E a essência do Barça é o passe. Simplesmente, um pequeno passe não é só um pequeno passe; é um conjunto de movimentos coordenados entre todos os elementos da equipa. A simplicidade do Barcelona não é simples, não é só um futebol de "toca e foge" constante; cada "toca e foge" joga com todas as movimentações dos outros jogadores. Jogar como o Barça joga, com uma tal qualidade de troca de bola, só é possível porque existe uma coordenação colectiva fantástica e porque a movimentação de todos os colegas sem bola é de tal forma correcta que propicia, a cada instante, variadíssimas soluções de passe ao portador da bola. A aparência da simplicidade é o resultado de um processo muito complexo.
4. Atacar de forma verdadeiramente colectiva
Para muita gente, ser bom tacticamente é saber arrumar defensivamente a equipa. Para outros, acresce a isto o mecanizar o melhor possível os momentos de transição. Assim, uma equipa só é colectiva em momento defensivo ou quando está em transição. Daí que, a nível ofensivo, se pense que um treinador só pode treinar, isto é, rotinar, o momento da transição defesa-ataque. Para estas pessoas, em ataque organizado, o que conta é a qualidade, a inspiração, os atributos individuais de cada um dos jogadores, e não nada que possa ser mecanizado. Isto é absolutamente falso. E a maior lição de Guardiola, este ano, é precisamente essa. É indubitável que as individualidades influenciam a qualidade com que o colectivo manobra, mas é tão possível defender bem sem grandes individualidades do ponto de vista defensivo como é possível atacar bem sem grandes individualidades do ponto de vista ofensivo. Isto, claro, se essa falta de individualidades for compensada por um desempenho colectivo relevante. Uma equipa que defenda à zona, e a entreajuda entre os jogadores, as compensações, o posicionamento em função dos colegas estiver correcto, é óbvio que minoriza a falta de qualidade individual de cada um dos atletas, pois estão menos expostos às suas debilidades. Mas por que não seria assim em termos ofensivos? A falta de explosão de um extremo não pode ser compensada utilizando uma tabela com um companheiro? Claro que pode. E se não tem capacidade de ultrapassar o adversário pelo drible, tem-no certamente com uma tabela, por mais lento que seja. Daí que todo o gesto colectivo seja uma arma para compensar a individualidade. Este Barcelona ataca de forma verdadeiramente colectiva. Ao jogar em constantes tabelas, num futebol claramente apoiado, de toque curto, de passes verticais, de exploração do espaço entre linhas, está a valorizar não as características individuais dos seus atletas, mas as relações entre cada um deles. Não é, portanto, na qualidade individual dos seus elementos, mas sim na relação entre eles que reside a força ofensiva do Barça.
5. Qualidade individual
6. Zona Perfeita
7. Apoios
Muito da capacidade do Barcelona passa pela facilidade que tem em criar apoios constantes. Quanto mais apoios houver, mais soluções tem quem leva a bola e mais fácil é fugir à actividade defensiva do adversário. A forma de jogar sem bola deste Barcelona potencia, em muito, essa facilidade. Ao contrário do que muitas vezes se pensa e do que, à partida, parece ter mais lógica, nem sempre faz sentido, quando a equipa tem bola, fazer o chamado "campo grande", isto é, dispor os jogadores o mais afastados de si de forma a preencherem todos os espaços do campo e a haver mais espaço para jogar. A principal intenção deste tipo de estratégia é levar o adversário, se este jogar ao homem, a abrir brechas entre os seus elementos. Mas contra equipas que joguem bem à zona, isto não acontece. Pode, de facto, haver mais espaço para receber a bola, mas haverá menos espaço para furar. Na prática, as equipas podem lateralizar infinitamente o jogo, se tiverem qualidade para isso, mas não ganham nada com isso se os adversários, defensivamente, forem bem organizados. Fazer "campo grande" faz sentido quando tem de fazer sentido. E ao contrário do que se pensa, este Barcelona não joga extremamente aberto, com os jogadores a darem sistematicamente largura e profundidade. É raríssimo que os dois extremos, em processo ofensivo, estejam os dois abertos ao mesmo tempo; é raríssimo que os dois médios-ofensivos estejam longe um do outro. Há sempre gente perto uma da outra. A equipa evolui em harmónio e não de forma rectilínea, torcendo-se sobre si mesma para permitir que os laterais dêem profundidade ou que o avançado baixe para tabelar com o médio. O Barcelona não faz "campo grande" a não ser quando lhe interessa e é até, muitas vezes, uma equipa encolhida, jogando em pouco espaço de terreno, quer seja a defender, quer seja a atacar, só esticando o jogo quando o adversário fica emaranhado na teia de apoios que conseguem criar. Os seus jogadores, por causa disto, têm a possibilidade de correr menos, uma vez que têm menos espaço para cobrir.
8. Ausência de passes longos
9. Ritmo
Antes da partida com o Recreativo, Guardiola disse que a sua equipa teria de tentar evitar um ritmo de jogo baixo e tranquilo, pois isso interessava ao adversário. Para evitar isso, o treinador do Barça dizia que seria importante circular bem a bola. O ritmo elevado de jogo não é senão o ritmo elevado a que a bola circula. Nesse aspecto, sim, o Barcelona tem um ritmo de jogo frenético, se for preciso. Mas não é uma equipa constantemente vertical, constantemente a tentar chegar à frente. O seu ritmo de jogo, isto é, a intensidade com que ataca as redes adversárias, não é alto. E isso é um pormenor importantíssimo. Jogar apoiado, em toque curto, de forma segura, privilegiando a posse de bola não é compatível com um ritmo de jogo elevado, pois os riscos de efectuar maus passes aumenta com o aumento do ritmo de jogo. O Barça troca velozmente a bola, mas não joga velozmente. A sua evolução defesa-ataque é, porventura, das mais demoradas do mundo, servindo essa demora para a equipa se manter unida e apoiada, o que permite crescer por etapas, sempre em condições de ser ela a mandar na partida.
10. Dois médios-ofensivos
Para muitos, o esquema táctico, isto é, a disposição dos jogadores em campo não tem qualquer influência na forma como a equipa joga, uma vez que são as dinâmicas que interessam, e qualquer esquemo táctico permite jogar de todas as maneiras com igual eficácia. Para esses, o Barcelona poderia jogar da mesma forma em 442 clássico, por exemplo. Não concordo com isto. Aliás, imaginar que só as dinâmicas têm importância, numa equipa, seria imaginar, por exemplo, que não há qualquer razão lógica para um treinador optar por um esquema táctico em vez de outro. Sinceramente, este Barcelona, com outra qualquer táctica, era outra equipa, jogaria de forma absolutamente diferente. Uma das coisas mais importantes, porventura, é a utilização de dois médios-ofensivos. Já nem vou falar das características individuais dos médios que jogam nestas duas posições, apesar de elas serem únicas, no futebol europeu, mas é completamente diferente jogar em 433 com dois médios-ofensivos de jogar, por exemplo, apenas com 1, em 4231. Em termos ofensivos, a presença de mais um jogador permite à equipa, em zonas avançadas do terreno, uma rede de apoios muito mais eficaz. Depois, haver dois médios-ofensivos potencia um pressing muito mais alto, uma melhor ligação entre meio-campo e ataque e, em termos gerais, uma melhor arrumação dos jogadores em função do espaço ocupado pela equipa.
11. Movimentos típicos dos extremos com bola
12. Verticais ou diagonais sem bola e passes verticais
Outro dos movimentos ofensivos mecanizados na equipa são as verticais ou as diagonais sem bola. Normalmente, um dos médios-ofensivos volta-se para trás e joga a bola no médio-defensivo. Nesse momento, o outro médio-ofensivo inicia um movimento umas vezes vertical, outras diagonal, mas nunca recebe a bola. Esta é novamente endereçada ao mesmo médio-ofensivo, num passe vertical, e este agora tem mais espaço, fruto da desmarcação do colega, que arrastou adversários. A partir daqui, a bola entrará nas linhas ou subirá no ponta-de-lança, que tem por hábito descer para dar um apoio vertical, sendo um dos extremos a dirigir-se, na diagonal, para o centro do ataque. Outro movimento sem bola semelhante, com os mesmos fins, são as diagonais dos extremos. Associado a isto está a quantidade incrível de passes verticais, rasteiros, que a equipa consegue. Com estes passes, usualmente propiciados por estas movimentações ilusórias, a equipa progride verticalmente no terreno sem levantar a bola do chão, de forma segura, etapa a etapa.
13. Bolas paradas defendidas à zona.
O Barcelona defende os cantos à zona, colocando, por norma, 8 jogadores zonalmente e ainda um à entrada da área. Isto poderá variar de adversário para adversário, mas é usual não colocar nenhum jogador em nenhum dos postes (o que não deixa de ser curioso, tendo em conta maior parte das zonas), um jogador na zona do primeiro desvio, na linha vertical da pequena área, uma linha de quatros jogadores na linha de pequena área e ainda outra linha, um pouco mais adiantada que esta, com três homens nos intervalos dos outros quatro. Um dos defeitos que se aponta ao Barcelona, ou uma das dúvidas em relação à sua capacidade competitiva, prende-se com os lances de bola parada. Diz-se que a equipa é muito permeável de bola parada, mas dos 24 golos sofridos na Liga apenas 3 foram de bola parada, ao passo que, na Liga dos Campões, só 2 em 12 (excluo os livres directos). Só 1 em cada 6 golos sofridos são de bola parada, pelo que me parece francamente exagerado falar de permeabilidade nesses lances.
14. Importância da parte estratégica do jogo
15. Rotatividade do plantel
Resumindo, este Barcelona, definido pela expressão catalã que encabeça este texto, é mesmo mais do que um clube. Não querendo apropriar-me do sentido exacto da expressão, que encerra questões políticas e culturais bem mais fortes e que não são chamadas para o caso, considero este Barcelona bem mais do que uma equipa normal, no sentido em que funciona de forma totalmente diferente, com princípios bem próprios e uma mentalidade incrivelmente distinta. O prazer que extraio ao ver esta equipa jogar e todo o reconhecimento que agora lhe dão é uma espécie de vitória ideológica. Afinal, nenhuma equipa, na actualidade e não só, reflecte com maior exactidão aquilo que se defendeu desde sempre no Entre Dez como este Barcelona. Guardiola e o seu Barça são o rosto visível das ideias deste espaço e o seu sucesso será também o sucesso dessas ideias.