sábado, 18 de abril de 2009

Més que un club

Que há diferenças entre ver um jogo num estádio ou um jogo pela televisão, toda a gente sabe. A maior parte das pessoas, porém, resume essas diferenças a coisas insignificantes, como o facto de um jogo ao vivo propiciar maiores emoções ou a impossibilidade de assistir às repetições dos lances. Considero que os ganhos de ver um jogo ao vivo excedem em muito as perdas. Mas ao dizer isto não o faço pelas razões mais comuns. Na minha opinião, o principal ganho prende-se com a possibilidade de não se estar a olhar para a bola a todo o momento, coisa que na televisão acontece. Ao contrário, portanto, do que acontece nas transmissões televisivas, um espectador no estádio, com a devida atenção, pode perceber com muito mais facilidade tudo o que acontece numa equipa para além daquilo que acontece perto da zona onde está a bola.

O preâmbulo anterior tem o condão de justificar as asserções que farei de seguida. Dito isto, tive a oportunidade de assistir ao vivo, há dias, em pleno Camp Nou, ao desafio que opôs o Barcelona ao Recreativo de Huelva, a contar para o campeonato espanhol. O jogo foi pouco intenso do ponto de vista emocional, não teve oscilações significativas e foi quase sempre jogado ao mesmo ritmo. Não terá sido um dos melhores jogos do Barcelona, tal a abundância de boas exibições, mas a verdade é que a equipa catalã fez o jogo que mais lhe interessava. Marcou cedo, geriu a vantagem, sempre com mais bola que o adversário, e geriu as expectativas e as energias dos seus jogadores mais influentes. Messi, então, esteve em campo apenas para desentorpecer os músculos, como se fosse um treino de recuperação activa. Ainda assim, foi um desafio agradável, com muitos dos ingredientes habituais: trocas de bola sucessivas, bom jogo posicional e elevada concentração de todos os jogadores. Deste ponto de vista, uma vez que foi um jogo pausado, com poucas transições rápidas de parte a parte, jogado quase sempre com os conjuntos organizados, foi talvez o jogo perfeito para quem tenta perceber os pormenores mais profundos do modelo de Guardiola. Será precisamente a isso que me dedicarei de seguida.

1. Tabelas

Tentarei não referir aqui as coisas mais básicas, como o esquema táctico, a preferência por um futebol apoiado ou directo, a forma de defender (à zona ou ao homem), mas sim os detalhes que, no fundo, distinguem este Barça de qualquer outra equipa do mundo. Nesse sentido, as tabelas serão, porventura, o atributo mais indicado por onde começar. Nenhuma outra equipa no mundo valoriza tanto este gesto quanto o Barcelona. Já o era assim com Rijkaard; é-o incomensuravelmente mais com Guardiola. Pouca gente há que saiba, com rigor, a importância de uma tabela. Para muitos, a sua consequência imediata é igual à consequência imediata de um drible bem sucedido, isto é, ultrapassar um adversário. Isto não é verdade. Numa tabela, o desposicionamento do adversário é muito maior. A razão é simples e tem a ver com o número de atacantes envolvidos. Num drible, os jogadores que defendem têm apenas que se preocupar - digamos - com uma cabeça; têm que estar concentrados apenas naquilo que o jogador que tem a bola faz. A partir do momento em que este aposta em algo individual, como o drible, os defesas têm apenas de corrigir o seu posicionamento de modo a prevenir aquilo que esse jogador fará (que linhas de passe terá, que opções tem, etc.). A tabela, ao envolver dois atacantes, exponencia as dificuldades imediatas da defesa, pois há que ter em conta o que duas cabeças estarão a pensar. Não é, por isso, raro que numa tabela o defesa batido demore muito mais a reagir do que num drible. Mas a maior eficácia de uma tabela em relação a um drible não é a única razão existente para que a tabela deva ser tão valorizada. Sobretudo porque maior parte das equipas continuam a ter por referência de marcação, com maior ou menor grau de exagero, os jogadores adversários, uma tabela, sendo algo que envolve mais do que um atleta e movimentações constantes, é sempre algo que propicia reajustamentos defensivos constantes e uma forma eficaz de manter em permanente movimento os defesas contrários. O Barcelona de Guardiola usa com mestria a tabela. Fá-lo não só para romper linhas adversárias, mas também por uma série de outras coisas. Fá-lo, por exemplo, para sair de zonas de pressão, para manter a posse de bola, para desorganizar momentaneamente a zona onde a bola se encontra, para chamar a atenção do adversário, fazendo depois a bola viajar com celeridade para zonas de menor concentração de defesas ou até mesmo como forma de treino ou mero divertimento. Isto leva-me para o segundo ponto.

2. Falta de objectividade

Há quem diga que jogar bem não é jogar bonito. Normalmente, isto acontece porque baseiam o conceito de bonito em algo que não o é, na verdade. Em futebol, ou em tudo o que tem um carácter objectivo, o bonito é o que satisfaz essa objectividade. Ou seja, é igual ao bom. Jogar futebol bonito não é andar a fazer cabritos ou cuecas, não é fazer passes longos a toda a hora ou fintar três adversários no sentido contrário à baliza; é jogar bem. Ao contrário do que estas pessoas diriam, o futebol do Barcelona não é atractivo porque é bonito; é atractivo porque é bom. E é bonito porque é bom. Essencialmente, é um futebol em que a taxa de opções correctas é muito elevada. E esta taxa é aquilo que, em futebol, define o que é bom e, por arrasto, o que é bonito. O futebol deste Barcelona é, na sua essência, isto: uma taxa de boas opções francamente superior a toda a concorrência. O seu futebol é reconhecidamente formidável graças à qualidade das opções dos seus jogadores. Isto permite, como consequência, que a equipa tenha uma taxa elevada de passes acertados, bem como a facilidade de progredir em posse. Neste momento, os que discordam de mim, dirão que há equipas que não jogam tão bonito, isto é, de forma tão atractiva, mas que jogam igualmente bem, isto é, são igualmente equipas eficazes e competentes no que diz respeito à objectividade. A divergência de opinião terá unicamente a ver com o conceito de "objectivo". Para maior parte das pessoas, o objectivo do futebol é o golo, ou a vitória. Nesse sentido, uma equipa joga bem se cumprir ou fizer tudo o que estiver ao seu alcance para cumprir esse objectivo. Assim, uma equipa que jogue de forma directa, sem "rodriguinhos", com um ritmo elevadíssimo, sempre com vista à vitória, fará um bom jogo. Não concordo com isto. E a razão prende-se com o facto de não concordar que o objectivo do futebol seja o golo ou a vitória. Como o defendi aqui, o objectivo do golo é um objectivo circunstancial, que só é activado no momento de chutar à baliza. Todos os outros momentos têm por objectivo fazer o melhor possível para passar ao momento seguinte. O objectivo do futebol não é assim o golo ou a vitória, mas sim o fazer o melhor em cada momento. Ora, o Barcelona adopta uma filosofia que se identifica claramente com isto. Em muitos momentos do jogo - eu diria mesmo na maior parte deles - a equipa está menos interessada em marcar golos do que em manter a posse de bola ou fazer o que é melhor a cada momento, ainda que isso implique cinco ou seis acções para progredir o mesmo que poderia progredir numa só acção. Mas o que é mais interessante é que há ocasiões, mesmo quando o resultado está nivelado, em que o futebol do Barça é absolutamente contra-intuitivo. Em certas alturas, quando outra equipa qualquer aproveitaria para progredir no terreno ou para impor velocidade, o Barça joga para trás, envolve-se em tabelas aparentemente inconsequentes e diverte-se a trocar a bola entre os seus jogadores, sem qualquer objectivo aparente. Não é raro, por exemplo, vermos um passe vertical em que o jogador que recebe a bola se pode virar, pois tem espaço, e progredir perigosamente, mas não o faz, preferindo tabelar ou jogar para trás. Estes lances, na minha opinião, definem este Barcelona. As coisas, obviamente, não se fazem apenas por fazer e a ausência de objectividade é apenas aparente. Há, nestes gestos, o reflexo óbvio da forma de estar em campo da equipa. Tabelar quando pode progredir, jogar para trás quando tem espaço para a frente, fazer passes absolutamente inconsequentes quando tem espaço para avançar, são formas de treinar, de mecanizar, de criar rotinas nos jogadores. Preferir trocar a bola sem qualquer espécie de objectividade é precisamente aquilo que os deixa, depois, completamente confortáveis a jogar de costas para a baliza, a fazer tabelas, a considerar apoios, a romper linhas em trocas de bola sucessivas. O divertimento incosequente acaba por funcionar como treino, ou seja, por ter consequências, ainda que não imediatas.

3. Simplicidade Complexa

Muita gente há também que considera o futebol do Barcelona de uma simplicidade incrível. E consideram que essa simplicidade é louvável. O futebol do Barça não tem nada de simples. O facto de aquilo que eles fazem parecer simples deriva do erro comum de não se valorizar coisas como um passe de dez metros, quando são claramente mais complicadas de fazer do que outras que muitas vezes se consideram difíceis, como dribles fantásticos ou remates fortíssimos. Fazer um bom passe envolve tantas variáveis que é um gesto muito mais difícil do que se pensa. E a essência do Barça é o passe. Simplesmente, um pequeno passe não é só um pequeno passe; é um conjunto de movimentos coordenados entre todos os elementos da equipa. A simplicidade do Barcelona não é simples, não é só um futebol de "toca e foge" constante; cada "toca e foge" joga com todas as movimentações dos outros jogadores. Jogar como o Barça joga, com uma tal qualidade de troca de bola, só é possível porque existe uma coordenação colectiva fantástica e porque a movimentação de todos os colegas sem bola é de tal forma correcta que propicia, a cada instante, variadíssimas soluções de passe ao portador da bola. A aparência da simplicidade é o resultado de um processo muito complexo.

4. Atacar de forma verdadeiramente colectiva

Para muita gente, ser bom tacticamente é saber arrumar defensivamente a equipa. Para outros, acresce a isto o mecanizar o melhor possível os momentos de transição. Assim, uma equipa só é colectiva em momento defensivo ou quando está em transição. Daí que, a nível ofensivo, se pense que um treinador só pode treinar, isto é, rotinar, o momento da transição defesa-ataque. Para estas pessoas, em ataque organizado, o que conta é a qualidade, a inspiração, os atributos individuais de cada um dos jogadores, e não nada que possa ser mecanizado. Isto é absolutamente falso. E a maior lição de Guardiola, este ano, é precisamente essa. É indubitável que as individualidades influenciam a qualidade com que o colectivo manobra, mas é tão possível defender bem sem grandes individualidades do ponto de vista defensivo como é possível atacar bem sem grandes individualidades do ponto de vista ofensivo. Isto, claro, se essa falta de individualidades for compensada por um desempenho colectivo relevante. Uma equipa que defenda à zona, e a entreajuda entre os jogadores, as compensações, o posicionamento em função dos colegas estiver correcto, é óbvio que minoriza a falta de qualidade individual de cada um dos atletas, pois estão menos expostos às suas debilidades. Mas por que não seria assim em termos ofensivos? A falta de explosão de um extremo não pode ser compensada utilizando uma tabela com um companheiro? Claro que pode. E se não tem capacidade de ultrapassar o adversário pelo drible, tem-no certamente com uma tabela, por mais lento que seja. Daí que todo o gesto colectivo seja uma arma para compensar a individualidade. Este Barcelona ataca de forma verdadeiramente colectiva. Ao jogar em constantes tabelas, num futebol claramente apoiado, de toque curto, de passes verticais, de exploração do espaço entre linhas, está a valorizar não as características individuais dos seus atletas, mas as relações entre cada um deles. Não é, portanto, na qualidade individual dos seus elementos, mas sim na relação entre eles que reside a força ofensiva do Barça.

5. Qualidade individual

Há mesmo quem se atreva a dizer que o Barcelona é o que é porque tem os melhores jogadores do mundo. Isto é absurdo. Digo de caras que o plantel do Barça, em termos individuais, é claramente inferior a Manchester, Chelsea, Liverpool, Milan, Inter e Real Madrid, pelo menos. Tirando Messi e Daniel Alves, que serão os melhores na sua posição, e ainda Iniesta e Xavi, que estarão certamente com Van der Vaart, Guti, Sneijder, Fabregas, Gerrard, Lampard, Essien, e Diego nos 10 melhores médios-ofensivos do planeta, os restantes jogadores estão bem abaixo dos melhores do mundo. Valdez é um guarda-redes banalíssimo, claramente inferior, por exemplo, tanto a Casillas como a Reina, seus colegas na selecção. Puyol e Marquez são bons centrais, mas inferiores a Cannavaro, Córdoba, Rio Ferdinand, Ricardo Carvalho ou John Terry. Piqué tem um potencial fantástico e de Cáceres antevêm-se muito boas coisas, mas estão longe dos melhores do mundo. Abidal está longe dos melhores defesas-esquerdos do mundo. Yaya Touré ou Keita não são Pirlo, Gago, Cambiasso, Mikel, De Rossi, Mascherano, Xabi Alonso ou Carrick. Henry já foi, um dia, dos melhores do mundo. Hoje em dia está longe disso. Eto'o tem à sua frente, pelo menos, Ibrahimovic, Van Nistelrooy, Raul, Rooney, Berbatov, Tevez, Fernando Torres e Drogba. Argumentar isto é querer tapar o sol com uma peneira.

6. Zona Perfeita

Uma das coisas que ver um jogo num estádio facilita é poder perceber, em rigor, como funciona o movimento zonal da equipa sem bola, ou como esta reage à perda de bola e como efectiva o seu pressing. Digo-o sem grandes rodeios: a zona do Barcelona é fenomenal. A forma concentrada com que, por exemplo, os seus defesas encaram um lance disputado longe de si é fantástica.Por exemplo, em jogada a decorrer do lado esquerdo, a forma como procuram assegurar uma linha recta perfeita, ligeiramente na diagonal (aproximando-se da baliza quanto mais se afasta da bola), com os seus jogadores bem perto uns dos outros e preparados para correr caso uma bola passe para as suas costas, é soberba. Em termos de pressing, é absolutamente zonal, sem qualquer preocupação com adversários, assegurando a cada instante uma ocupação perfeita dos espaços. A facilidade que tem em fazer campo pequeno, chegando por vezes toda a equipa a ocupar menos de metade da largura do campo, faz deste Barcelona uma das melhores equipas do mundo a reagir à perda de bola. Esta eficácia, aliada depois à concentração e ao rigor posicional quando não tem bola, fazem desta equipa tão ofensiva uma equipa defensivamente muito bem preparada. O seu pressing é preferencialmente efectivado juntos às linhas, preocupando-se a equipa, em primeiro lugar, em fechar os espaços centrais, fazendo os três atacantes juntarem-se no meio, e em motivar o adversário a ir para a linha.

7. Apoios

Muito da capacidade do Barcelona passa pela facilidade que tem em criar apoios constantes. Quanto mais apoios houver, mais soluções tem quem leva a bola e mais fácil é fugir à actividade defensiva do adversário. A forma de jogar sem bola deste Barcelona potencia, em muito, essa facilidade. Ao contrário do que muitas vezes se pensa e do que, à partida, parece ter mais lógica, nem sempre faz sentido, quando a equipa tem bola, fazer o chamado "campo grande", isto é, dispor os jogadores o mais afastados de si de forma a preencherem todos os espaços do campo e a haver mais espaço para jogar. A principal intenção deste tipo de estratégia é levar o adversário, se este jogar ao homem, a abrir brechas entre os seus elementos. Mas contra equipas que joguem bem à zona, isto não acontece. Pode, de facto, haver mais espaço para receber a bola, mas haverá menos espaço para furar. Na prática, as equipas podem lateralizar infinitamente o jogo, se tiverem qualidade para isso, mas não ganham nada com isso se os adversários, defensivamente, forem bem organizados. Fazer "campo grande" faz sentido quando tem de fazer sentido. E ao contrário do que se pensa, este Barcelona não joga extremamente aberto, com os jogadores a darem sistematicamente largura e profundidade. É raríssimo que os dois extremos, em processo ofensivo, estejam os dois abertos ao mesmo tempo; é raríssimo que os dois médios-ofensivos estejam longe um do outro. Há sempre gente perto uma da outra. A equipa evolui em harmónio e não de forma rectilínea, torcendo-se sobre si mesma para permitir que os laterais dêem profundidade ou que o avançado baixe para tabelar com o médio. O Barcelona não faz "campo grande" a não ser quando lhe interessa e é até, muitas vezes, uma equipa encolhida, jogando em pouco espaço de terreno, quer seja a defender, quer seja a atacar, só esticando o jogo quando o adversário fica emaranhado na teia de apoios que conseguem criar. Os seus jogadores, por causa disto, têm a possibilidade de correr menos, uma vez que têm menos espaço para cobrir.

8. Ausência de passes longos

O passe longo, em Barcelona, é gesto non grato. Não se vêem, praticamente, passes longos, num jogo do Barcelona por várias razões. Primeiro, porque a equipa passa maior parte do jogo em organização, não havendo, por isso, da parte do adversário, tanto espaço. Segundo, porque usar o passe longo entra claramente em choque com aquilo em que se acredita e com as próprias faculdades da equipa, que tem a sua força na forma como circula a bola. Não se vê, por uma única vez que seja, um central a sair a jogar com um passe longo, mesmo estando, muitas dessas vezes, um extremo claramente aberto e com todas as condições para receber a bola. Não, isso não acontece porque isso seria queimar etapas e desvirtuar o modelo de jogo. O Barcelona precisa de evoluir de forma sustentada e é nisso que é forte. Não faz sentido, mesmo quando é mais fácil, apostar no passe longo. Depois, mesmo diagonais ou movimentos verticais dos médios que propiciem um passe para as costas da defesa são apenas movimentos estéreis ou dinâmica sem bola, usada para distrair o adversário daquilo que verdadeiramente importa ou para arrastar marcações. É muito raro, por exemplo, que as diagonais de Henry sirvam para que os defesas ou o médio-defensivo lá ponham a bola. Isto em primeiro lugar, faz com que o Barcelona não perca a posse de bola, aquilo que, no fundo, lhe confere identidade, e depois com que a equipa explore novos espaços, como consequência dessas movimentações.

9. Ritmo

Antes da partida com o Recreativo, Guardiola disse que a sua equipa teria de tentar evitar um ritmo de jogo baixo e tranquilo, pois isso interessava ao adversário. Para evitar isso, o treinador do Barça dizia que seria importante circular bem a bola. O ritmo elevado de jogo não é senão o ritmo elevado a que a bola circula. Nesse aspecto, sim, o Barcelona tem um ritmo de jogo frenético, se for preciso. Mas não é uma equipa constantemente vertical, constantemente a tentar chegar à frente. O seu ritmo de jogo, isto é, a intensidade com que ataca as redes adversárias, não é alto. E isso é um pormenor importantíssimo. Jogar apoiado, em toque curto, de forma segura, privilegiando a posse de bola não é compatível com um ritmo de jogo elevado, pois os riscos de efectuar maus passes aumenta com o aumento do ritmo de jogo. O Barça troca velozmente a bola, mas não joga velozmente. A sua evolução defesa-ataque é, porventura, das mais demoradas do mundo, servindo essa demora para a equipa se manter unida e apoiada, o que permite crescer por etapas, sempre em condições de ser ela a mandar na partida.

10. Dois médios-ofensivos

Para muitos, o esquema táctico, isto é, a disposição dos jogadores em campo não tem qualquer influência na forma como a equipa joga, uma vez que são as dinâmicas que interessam, e qualquer esquemo táctico permite jogar de todas as maneiras com igual eficácia. Para esses, o Barcelona poderia jogar da mesma forma em 442 clássico, por exemplo. Não concordo com isto. Aliás, imaginar que só as dinâmicas têm importância, numa equipa, seria imaginar, por exemplo, que não há qualquer razão lógica para um treinador optar por um esquema táctico em vez de outro. Sinceramente, este Barcelona, com outra qualquer táctica, era outra equipa, jogaria de forma absolutamente diferente. Uma das coisas mais importantes, porventura, é a utilização de dois médios-ofensivos. Já nem vou falar das características individuais dos médios que jogam nestas duas posições, apesar de elas serem únicas, no futebol europeu, mas é completamente diferente jogar em 433 com dois médios-ofensivos de jogar, por exemplo, apenas com 1, em 4231. Em termos ofensivos, a presença de mais um jogador permite à equipa, em zonas avançadas do terreno, uma rede de apoios muito mais eficaz. Depois, haver dois médios-ofensivos potencia um pressing muito mais alto, uma melhor ligação entre meio-campo e ataque e, em termos gerais, uma melhor arrumação dos jogadores em função do espaço ocupado pela equipa.

11. Movimentos típicos dos extremos com bola

Seja Messi na direita, seja Henry ou Iniesta ou Bojan na esquerda, o movimento típico dos extremos é virem para dentro. A partir dessa altura, a colocação do médio-ofensivo e do avançado é absolutamente sistemática. A forma mecânica como a equipa se comporta quando os extremos têm a bola indicia um trabalho específico a esse nível. Este é mesmo um bom exemplo de como é possível trabalhar, e muito, em termos ofensivos, uma equipa. Aliás, na verdade, é um bom exemplo de como o Barcelona, ofensivamente, é uma equipa quase exclusivamente colectiva. Assim que o extremo agarra na bola e flecte para o meio, o médio procura imediatamente ocupar um espaço recuado, dando uma opção de passe recuada, necessária caso o meio seja fechado por um dos médios, e conferindo uma cobertura em caso de perda de bola. Ao mesmo tempo, o lateral desse lado inicia a marcha para que, caso a bola baixe para o médio que deu apoio, esteja já numa posição avançada para receber novamente a bola naquele lado. Ao mesmo tempo, o ponta de lança desce e aproxima-se do extremo que conduz a bola. Ao mesmo tempo, o extremo do lado contrário aproxima-se da posição de ponta-de-lança e é o lateral do lado contrário que vai iniciar a marcha para dar profundidade. Normalmente, o lance termina com o extremo a jogar no avançado, que ou dá no médio de frente, ou tabela de primeira com o extremo, que entretanto entrou entre os defesas contrários.

12. Verticais ou diagonais sem bola e passes verticais

Outro dos movimentos ofensivos mecanizados na equipa são as verticais ou as diagonais sem bola. Normalmente, um dos médios-ofensivos volta-se para trás e joga a bola no médio-defensivo. Nesse momento, o outro médio-ofensivo inicia um movimento umas vezes vertical, outras diagonal, mas nunca recebe a bola. Esta é novamente endereçada ao mesmo médio-ofensivo, num passe vertical, e este agora tem mais espaço, fruto da desmarcação do colega, que arrastou adversários. A partir daqui, a bola entrará nas linhas ou subirá no ponta-de-lança, que tem por hábito descer para dar um apoio vertical, sendo um dos extremos a dirigir-se, na diagonal, para o centro do ataque. Outro movimento sem bola semelhante, com os mesmos fins, são as diagonais dos extremos. Associado a isto está a quantidade incrível de passes verticais, rasteiros, que a equipa consegue. Com estes passes, usualmente propiciados por estas movimentações ilusórias, a equipa progride verticalmente no terreno sem levantar a bola do chão, de forma segura, etapa a etapa.

13. Bolas paradas defendidas à zona.

O Barcelona defende os cantos à zona, colocando, por norma, 8 jogadores zonalmente e ainda um à entrada da área. Isto poderá variar de adversário para adversário, mas é usual não colocar nenhum jogador em nenhum dos postes (o que não deixa de ser curioso, tendo em conta maior parte das zonas), um jogador na zona do primeiro desvio, na linha vertical da pequena área, uma linha de quatros jogadores na linha de pequena área e ainda outra linha, um pouco mais adiantada que esta, com três homens nos intervalos dos outros quatro. Um dos defeitos que se aponta ao Barcelona, ou uma das dúvidas em relação à sua capacidade competitiva, prende-se com os lances de bola parada. Diz-se que a equipa é muito permeável de bola parada, mas dos 24 golos sofridos na Liga apenas 3 foram de bola parada, ao passo que, na Liga dos Campões, só 2 em 12 (excluo os livres directos). Só 1 em cada 6 golos sofridos são de bola parada, pelo que me parece francamente exagerado falar de permeabilidade nesses lances.

14. Importância da parte estratégica do jogo

Guardiola dá especial atenção aos seus adversários e prepara a equipa para certas nuances estratégicas, condicionadas pelo adversário. Contra o Recreativo, um exemplo claro desse lado estratégico, e que dificilmente terá sido perceptível pela transmissão televisa, foi o posicionamento defensivo aquando de um pontapé de baliza do adversário. Saberia, por certo, Guardiola que o Recreativo batia todos os pontapés de baliza para o lado direito do seu ataque, e colocou a sua equipa toda fechada nesse preciso espaço, em duas linhas de quatro jogadores, uma composta pelos centrais, a outra pelos médios e Henry, que, com Busquets, ocupava a zona onde a bola cairia. Para se ter uma ideia, Daniel Alves era o homem mais à direita desta zona e encontrava-se uns bons metros para cá da linha de meio-campo, ficando a equipa toda encolhida em 20/25 metros de largura e pouco mais de comprimento. Sabendo para onde o Recreativo bateria os seus pontapés de baliza, o Barcelona concentrou os seus onze jogadores numa área reduzidíssima de terreno, ganhando, quase de certeza, se não a primeira, pelo menos a segunda bola.


15. Rotatividade do plantel

Outro dos aspectos que merecem referência é a gestão de esforços que Guardiola tem sido obrigado a fazer nos últimos tempos. Ao contrário de grande parte dos treinadores, que optam por fazer descansar jogadores-chave em jogos do campeonato que antecedem desafios da Liga dos Campeões, a gestão de Guardiola, ainda que pretenda o mesmo, efectua-se de forma diferente. Além de nunca fazer descansar muitos dos titulares ao mesmo tempo (4 ou 5, no máximo), mantendo assim a competitividade da equipa, maior parte dos jogadores que serão utilizados no jogo seguinte e que ficaram inicialmente no banco acabam por entrar na partida, fazendo alguns minutos, mesmo que o resultado esteja garantindo. A ideia é óbvia e pretende manter os jogadores com ritmo de jogo. Isto faz todo o sentido. Se evitar o desgaste físico de uma partida de 90 minutos é importante, não nos podemos esquecer que nesse dia não há treino. Fazer eventuais titulares descansar, mas dando-lhes 20 ou 30 minutos para manterem o contacto com a competição é uma forma de gerir energeticamente e psicologicamente um plantel que me parece ter muito mais lógica. Outro exemplo da gestão da fadiga por parte de Guardiola está em Iniesta. O espanhol é um dos titulares indiscutíveis, mas nesta fase de dois jogos por semana nunca foi poupado, numa intenção clara de manter um jogador que passou algum tempo lesionado com um ritmo de jogo cada vez mais alto e apurado.

Resumindo, este Barcelona, definido pela expressão catalã que encabeça este texto, é mesmo mais do que um clube. Não querendo apropriar-me do sentido exacto da expressão, que encerra questões políticas e culturais bem mais fortes e que não são chamadas para o caso, considero este Barcelona bem mais do que uma equipa normal, no sentido em que funciona de forma totalmente diferente, com princípios bem próprios e uma mentalidade incrivelmente distinta. O prazer que extraio ao ver esta equipa jogar e todo o reconhecimento que agora lhe dão é uma espécie de vitória ideológica. Afinal, nenhuma equipa, na actualidade e não só, reflecte com maior exactidão aquilo que se defendeu desde sempre no Entre Dez como este Barcelona. Guardiola e o seu Barça são o rosto visível das ideias deste espaço e o seu sucesso será também o sucesso dessas ideias.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Momentos

A semana e meia que passou foi pródiga em episódios caricatos. É sobre eles que irei falar.

1. Luis Sobral voltou a dizer porcaria. O artigo completo pode ser lido aqui, mas vou deter-me na frase central: "Só há duas verdadeiras razões para seguir uma partida do futebol italiano: ver jogar Ibrahimovic, ver protestar José Mourinho." Ou seja, para Luis Sobral, o futebol italiano é uma trampa e só se aproveita Ibrahimovic e Mourinho (este porque protesta). Fica implícito que o resto do futebol italiano não vale nada e que nem sequer merece o sueco. Resta saber que futebol é que Luis Sobral aprecia, então. Se a liga mais competitiva do mundo não o satisfaz, talvez prefira a segunda liga do Azerbeijão. São gostos. Ainda bem que há liberdade de expressão.

2. Por cá, tivemos um senhor a armar um circo e a acabar feito palhaço. Falo de Queiroz. Pegou num pormenor insignificante e que deveria ser incentivado, fez dele um cavalo de batalha e reprovou-o. Pereirinha e Rui Pedro ousaram fazer uma coisa diferente e tiveram de prestar contas à Inquisição. Não satisfeito com a reprimenda apalermada de Rui Caçador, o seleccionador principal decidiu suspender os jogadores. Não sei se Queiroz terá aprendido com Paulo Bento a castigar todo aquele que revela uma personalidade ambiciosa, mas parece-me claro que o 25 de Abril em sua casa é dia de trabalhos forçados.

3. Entretanto, o Portimonense saiu em defesa de Rui Pedro, sendo que o jogador nem sequer pertence aos quadros do clube. Do Sporting, nem uma palavra de apoio ao capitão da selecção de sub-21. Miguel Veloso bem avisou que os jogadores não têm apoio de ninguém.

4. Ainda sobre o mesmo assunto, a reacção de Caçador e de Queirós foi a de enfatizar até ao absurdo o incidente. Outros, como eles, acharam que aquilo que os jovens fizeram foi repugnante, irresponsável e uma forma de menosprezar o adversário que ilustra a falta de valores e de humildade no nosso país. Ao contrário disto, lembram os valores morais e a dignidade de outros povos, numa atitude provinciana levada ao extremo. O que eu gostava mesmo de saber era o que é que essas pessoas diriam se vissem Henry e Wenger, no flash interview a seguir ao jogo em que o mesmo Henry e Robert Pires falharam um penalty idêntico, a rirem que nem perdidos da situação. Se calhar também são portugueses e também não têm humildade. Destaco as sábias palavras de Wenger, ditas por entre um sorriso, enquanto os jogadores do Manchester City se sentiam desrespeitados: "também faz parte do jogo cometer este tipo de erros". Pois faz. Também concordo que há uma diferença de mentalidades: Wenger não tem a tacanhez de Queiroz.

4. Provavelmente satisfeito com o pulso forte que demonstrou, Queiroz não fez a barba para o jogo com a Suécia. Se tivesse que adivinhar, diria que o seleccionador se cortou da última vez que fez a barba e decidiu castigar as lâminas de barbear por falta de responsabilidade.

5. Entretanto, antes do jogo com os nórdicos, Cristiano Ronaldo, confrontado com o porquê de não render tanto na selecção quanto no Manchester United, disse o seguinte: "Se todos fizessem o que fiz, éramos campeões mundiais". A única coisa que podemos depreender daqui é que Pereirinha e Rui Pedro, infelizmente, têm de se aguentar à bomboca, pois não são Cristiano Ronaldo. Ou seja, tentar marcar um golo de uma maneira diferente, mostrando criatividade e ao mesmo tempo coragem, é motivo para ser castigado; dizer abertamente que nem todos se esforçam como ele é um comportamento louvável. Viva a liberdade de interpretação.

6. Vieram finalmente os suecos e Portugal não jogou nada. Há quem diga que Portugal se fartou de jogar à bola, mas estes se calhar têm medo que Queiroz os castigue se disserem o contrário. Portugal atacou muito, correu muito, impôs um ritmo alto. Nada disto é jogar bem. Houve intensidade, houve vontade de ganhar, houve atitude, houve garra, houve compromisso. Só não houve ideias. Infelizmente, não houve a única coisa que era preciso ter havido. E o futebol praticado foi uma coisa irracional, sempre a uma velocidade estonteante, como se cada jogador tivesse de ir tirar o pai da forca. Futebol não é halterofilismo; joga-se com a cabecinha. Resultado: meia-dúzia de lances interessantes em 90 minutos e tantas oportunidades de golo para um lado como para o outro. A Suécia, uma selecção absolutamente banal sem Ibrahimovic, sem ter feito nada por isso, por pouco não ganhava o jogo.

7. Receita para o sucesso: jogar com um central a trinco porque os outros são grandes, jogar com o Bruno Alves de início, jogar a segunda-parte toda com 4 centrais de raiz em campo, tirar Tiago quando era o único com ideias, manter no meio-campo Meireles e Pepe, não colocar a jogar Nani nem Moutinho, trocar Danny por Hugo Almeida. Poderia acrescentar outras: apostar em Eduardo, não convocar Nuno Gomes, Postiga, Quim, Zé Castro, Fernando Meira, Pedro Mendes, Carlos Martins nem Quaresma. Estou de certeza a esquecer-me de mais qualquer coisa.

8. Imagem de marca do desafio: Queiroz com as mãos na cabeça, provavelmente a cogitar quem é que iria castigar por Cristiano Ronaldo falhar aquele golo.

9. Três jogos em casa, duas equipas medianas e uma fraca, dois empates e uma derrota; 5 jogos, 1 vitória, 6 pontos, três jogos sem marcar, 7 pontos de distância para o primeiro. São os números de Queiroz. Não seriam números maus, se Queiroz fosse seleccionador da Albânia. Assim, é a matématica a lixar a vida ao professor. O próximo a ser castigado é o Pitágoras, por ter ajudado a que houvesse forma de fazer contas.

10. Jogo amigável com a África do Sul. Ganhámos 2-0. Dois golos de bola parada, em dois falhanços incríveis da defesa sul-africana. Viva! A pergunta que se impõe é: para que é que Queiroz convocou três guarda-redes se dois deles nem no amigável entraram? Ou foram castigados a meio do estágio por terem sido encontrados a jogar ao berlinde?

11. A selecção B também jogou e Queiroz esteve na bancada. Acho que depois disso já castigou o operador de câmara que o filmou a roer uma unha. Do jogo em si, é sempre bom destacar o golo de Djaló, bem como o facto de nenhum dos jogadores portugueses ter sido castigado. Pelé fez 30 passes de ruptura inconsequentes e continua um senhor jogador.

12. Na zona sul do nacional de juniores, o Sporting foi vencer ao Seixal o Benfica, dando um passo seguro rumo à fase final. O Belenenses, que vai a Alcochete esta semana, ficou a 1 ponto do Benfica, que não contará com Nélson Oliveira nos próximos jogos, por ter sido expulso. Acho que Queiroz pensou em castigar toda a equipa do Sporting por ser muito melhor que a do Benfica.

13. Se os filhos do Queiroz aparecerem com um olho à belenenses, aposto que foi por o pai ter encontrado os miúdos a dizer que o Ibrahimovic jogava para caramba.

14. Na Liga, Lisandro foi castigado por ter simulado um penalty frente ao Benfica. Isto cheira-me a coisa do Queiroz.


quarta-feira, 25 de março de 2009

Podias ser mais atrasado, Professor? Não, não podias...

Pereirinha e Rui Pedro, na sequência do penalty não convertido contra a selecção de Cabo Verde, foram suspensos pelo Professor Carlos Queiroz.

Este capricho do principal responsável técnico das selecções nacionais, aliado às declarações de Rui Caçador, poderá ter repercussões a todos os níveis nefastas. E isto não se aplica só aos dois jogadores que foram castigados.

A opção por crucificar dois jogadores que "ousaram" fazer algo de diferente não se esgota no castigo "concedido". Quando se condena um acto destes, desta natureza, está a circunscrever-se a irreverência, a originalidade, a coragem de num dado momento surpreender, mas, acima de tudo, está a condenar-se os que pretendem algo mais. O mais fácil naquela situação seria apontar a grande penalidade de forma vulgar. E isto só não aconteceu porque um jogador, num dado momento, sentiu que poderia fazer mais, porque ousou tentar algo de diferente. E tentar algo de diferente nada tem a ver com desrespeito, ou leviandade.

Mas não deixa de ser engraçado atentar nas declarações de Rui Caçador: "se eles tivessem feito aquilo num jogo com uma selecção mais forte, com o resultado 0-0 e num jogo a doer, aí, talvez até aceitasse a classe e a coragem dos jogadores. Assim, não". Peço desculpa, mas quem é que faltou ao respeito a quem? Quem é que está a tratar os cabo-verdianos como uns coitadinhos? O jogador que achou que devia "caprichar"? Ou o treinador que acha que contra estes "pobres coitados" qualquer um pode fazer algo do género?

E que dizer do seleccionador principal? É para isto que pretende participar mais nas selecções jovens? Para poder mostrar serviço, já que na selecção principal é a miséria que se vê? Cuidado com os "banhos de humildade" professor, não vá ter um tipo alto e loiro a escovar-lhe as costas no próximo sábado.

Depois há uma questão que não podemos ignorar: cada jogador é um caso! Não conheço muito bem o Rui Pedro, mas se há coisa que se não pode apontar ao Pereirinha é tiques de vedeta. Aliás, quem o conhece bem até admite que uma das razões de ele ainda não se ter imposto de forma categórica é a maneira demasiado "correcta" e "certinha" com que tem pautado as suas exibições, não se vislumbrando a coragem e a irreverência que sempre demonstrou, quer nas camadas jovens, quer na liga de Honra, ao serviço do Olivais e Moscavide (na altura ainda com idade de júnior). Não me parece, portanto, que esta opção em retrair a irreverência deste jogador se possa revelar positiva no futuro do mesmo, temendo até que possa suceder exactamente o oposto no desenvolvimento de Bruno Pereirinha.

domingo, 22 de março de 2009

Cruyff contra a Intensidade

Para muitos, a característica mais importante de uma equipa de futebol que queira ser bem sucedida tem de ser a intensidade de jogo. Por intensidade de jogo entende-se capacidade de jogar a um ritmo elevado durante os noventa minutos, índices de concentração e agressividade máximos, capacidade de pressionar activamente em todo o campo, etc. E diz-se que hoje em dia as melhores equipas são aquelas que conseguem ser intensas a este nível. Esta é - dizem as mesmas pessoas - a arma dos colossos ingleses. Concordo que muito do potencial de Manchester e Liverpool, por exemplo, tenha a ver com isto. Afinal, são duas equipas que raramente impõem ritmos baixos aos jogos e que têm na velocidade de processos a principal arma. De formas diferentes, é verdade, serão talvez as equipas com maior intensidade de jogo na Europa. Aquilo com que não concordo é que essa seja a característica fundamental para o sucesso. Ou pelo menos - acredito - há armas com que combatê-la.

Reconheço que Manchester e Liverpool têm as equipas atleticamente mais aptas a vencer a Champions. Mas, como sempre defendi, o futebol tem muito mais de intelectual do que de atlético. Não acredito, por isso, que o empenho físico que subjaz à capacidade de ser intenso, que a simplicidade, a velocidade, a objectividade e a agressividade sejam imbatíveis. Contra equipas que fazem da intensidade a sua arma, que têm um poderio atlético superior, como são o caso do Manchester e do Liverpool, o segredo residirá em possuir a bola, em trocá-la entre os seus jogadores o mais rapidamente possível, em criar sucessivas linhas de passe e assinaláveis redes de apoios. Se há equipa com a qual me identifico é o Barcelona de Guardiola. E é precisamente o futebol do Barcelona que serve de ilustração àquilo que defendo. Cruyff dizia, há dias, nesta entrevista, que não se importava que o Barcelona jogasse já com uma destas duas equipas, para muitos as duas grandes favoritas à vitória final. A razão era simples: não há razão nenhuma para temer qualquer adversário. O futebol do Barcelona é que é difícil de anular, não o contrário. De forma a contrariar a capacidade atlética destes dois adversários, Cruyff sugere o seguinte:

"Por más que te salgan a toda pastilla, por más que te vayan a buscar arriba, por más presión que te den, tú tienes la forma de salvarlo. Y esta pasa con la técnica, el juego de posición y la velocidad que le imprimas al balón. Un pase rápido y bien dirigido a un compañero que se ofrezca en las ayudas es la única forma de hacer que ellos lleguen tarde y que tú ganes ese medio metro para salir de la presión."

Nem mais. Se o Barcelona jogar à Barcelona, o Manchester e o Liverpool é que devem temê-los. Isto porque contra a intensidade há uma arma óbvia: ter a bola. E se há equipa temível nesse aspecto do jogo é o Barcelona. E o que pode fazer uma equipa contra um adversário que tenha a bola? Tentar tirá-la, através da capacidade de pressão, através da entrega, do esforço físico. Será sempre uma disputa entre a competência de ser intenso e a competência de ter bola. O problema é que, se os dois forem competentes naquilo que se lhes impõe, será sempre quem tem bola que estará por cima. É por isso que o Barcelona só deve temer-se a si próprio. Se conseguir impor o seu futebol, a intensidade dos outros não será suficiente para pará-los.

Os quartos-de-final estão aí e, contra os desejos de Cruyff, nem Liverpool nem Manchester se atravessaram no caminho do Barcelona. O adversário será o Bayern de Munique. A diferença será, no entanto, apenas qualitativa, pois os germânicos constituem igualmente uma equipa que vive da intensidade de jogo. Perderá, para os ingleses (sobretudo para o Liverpool), em organização defensiva, mas de resto é uma equipa em tudo idêntica às outras duas. Será, por isso mesmo, um excelente ensaio para o Barcelona e uma primeira ordália às verdadeiras capacidades da única equipa europeia (com qualidade suficiente para jogar a este nível) que joga um futebol verdadeiramente apoiado. Depois do duplo desafio com o Bayern, ficará muito mais claro que espécie de resposta pode dar, nos dias de hoje, um futebol mais elaborado, mais requintado, mais inteligente, face ao músculo e ao suor em que a esmagadora maioria das filosofias hodiernas se baseiam. Tal como Cruyff, acredito que o jogo posicional, a capacidade de criar apoios ao portador da bola, a velocidade com que se circula a bola, a técnica e a inteligência podem fazer frente à capacidade atlética, por mais perfeita que esta seja. Acredito, portanto, que o Barcelona não só tem francas possibilidades de vencer a Liga dos Campeões este ano, como se constituirá, caso o consiga, como um exemplo de como a elegância, a classe e as ideias se podem superiorizar à força, à vontade e ao espírito de sacrifício.

sábado, 14 de março de 2009

O desinteresse kantiano aplicado ao futebol

É usual relacionar-se o futebol com emoções e não é novidade ouvir falar do desporto-rei como um jogo de paixões. Para grande parte das pessoas, assistir a um jogo de futebol é mais do que assistir a um jogo de futebol: é partilhar sentimentos, é libertar ânimos, é fazer parte de um espírito colectivo, é emocionar-se, etc. O futebol, como aliás outras actividades próprias do Homem, serve desta forma ao Homem como fonte de prazer.

Há essencialmente - do meu ponto de vista - duas formas de um desafio de futebol constituir fonte de prazer. Para aqueles que vêem um jogo do seu clube e que são afectados pelo sucesso ou pelo insucesso do seu clube, as peculiaridades de uma partida transformam-se em prazer, pela positiva ou pela negativa, com base num critério puramente arbitrário e que releva de um gosto ou de uma apetência unicamente individual que normalmente não se explica. Tentando transpor este tipo de leitura para o campo das artes, teríamos coisas absolutamente ridículas. Não faz qualquer sentido dizer que se prefere a arte de José Malhoa à de Caravaggio ou a música de Marco Paulo à de Mozart apenas porque somos portugueses. Em arte, não faz qualquer sentido haver avaliações com base em critérios de identificação pessoal. Ora, por que razão haveria então de o futebol ser diferente? Poder-se-á dizer que o futebol tem uma dimensão competitiva que justifica esse tipo de critério. Compreendo e aceito. Mas jamais a avaliação qualitativa de um jogo de futebol pode estar afectada por isso. Onde quero eu chegar? Ao cerne da questão. Ao valor de uma partida de futebol. Haver quem sofra com as vitórias do seu clube ou quem exulte com os êxitos da sua selecção é apenas uma consequência do facto de o futebol ser um fenómeno sócio-cultural. Enquanto fenómeno sócio-cultural, é aceitável que haja quem o veja desse modo. Mas o futebol é mais que isso. O futebol é arte.

Boa parte de quem vê futebol não vê no jogo mais do que um fenómeno desse tipo e um golo da sua equipa é igual a uma vitória política do partido que apoia ou produz uma satisfação parecida com aquela que produz a ingestão de um pedaço da sua fruta preferida. Ora, gostar de futebol não é o mesmo que gostar de maracujá. Há, contudo, um segundo tipo de pessoas que, embora nutra afeição por um determinado clube e vá ao estádio pela euforia da vitória e pela simpatia para com o clube, sabe que o jogo em si é muito mais do que um fenómeno sócio-cultural. Estas pessoas têm a percepção de que a avaliação da qualidade de uma partida não pode ser medida pelo grau de satisfação que o clube do seu coração lhes proporciona e têm até, por vezes, a consciência de que essa relação com esse clube influencia a sua capacidade de tecer considerações objectivas sobre um determinado jogo. Este é o segundo tipo de pessoas para quem o futebol constitui uma fonte de prazer. A diferença essencial tem a ver com o tipo de prazer. Ao contrário do primeiro tipo, para quem o prazer é directamente proporcional à taxa de sucesso do clube apoiado, para este tipo de pessoas o prazer de um jogo residirá noutra coisa. Que coisa será essa? É o que vamos tentar perceber de seguida.

Estas pessoas, ainda que saibam distinguir as emoções proporcionadas pelas vitórias ou derrotas do seu clube do coração das emoções proporcionadas pela qualidade do próprio jogo, continuam a incorrer num erro que consiste em presumir que a qualidade tem a ver com a emoção que propicia. Para estas pessoas, portanto, um bom jogo de futebol é aquele que confere maior satisfação, sendo essa satisfação medida pela carga emocional que o mesmo conseguir transmitir. Desta forma, avaliam a qualidade de um jogo pelo número de golos ou pela intensidade do próprio jogo, pelo ritmo a que os eventos se dão ou pela incerteza no marcador, pela quantidade de oportunidades de golos ou pela quantidade de suor deixada em campo. Todas estas coisas são incidências do jogo que podem ou não significar que o jogo foi bom. Haver muitas oportunidades de golo pode tanto significar que se assistiu a um bom jogo como pode significar que se assistiu a um número elevado de disparates das defesas. Nada destas coisas implica necessariamente que o jogo tenha sido bom. E isto por uma razão simples. Porque a qualidade do jogo não tem nada a ver com o grau de prazer que proporciona.

Há, neste momento, um comparação interessante a fazer. Quando uma pessoa vai a um concerto, ou quando ouve música em casa ou no carro, essa pessoa não está, verdadeiramente, a ouvir música. Isto é, a razão pela qual se vai a um concerto não é a música, do mesmo modo que a razão pela qual se vai ao futebol não é o futebol. Aquilo que uma pessoa vai fazer a um concerto é estabelecer um comunhão entre ela e o músico, entre aquilo que o músico transmite e aquilo que se está a passar dentro dela. Se entendermos a música como arte, um concerto é uma aberração. Aquilo que se passa num concerto é que as pessoas querem assimilar a música e aquele que a interpreta, sendo que a fruição de um concerto consiste nessa capacidade de partilha de sensações. A música em si, num concerto, tem um papel secundário; o que importa é a conformidade entre espectador e artista. Ora, isto não tem nada a ver com arte. Qualquer participação emotiva da parte do espectador é sintoma de que não se está a assistir a arte, mas sim ao interesse que o objecto que se tem pela frente nos provoca. Num jogo de futebol não é diferente. Todo aquele que estiver a assistir a um jogo centrado no interesse que esse jogo lhe provoca, seja esse interesse motivado pelo facto de o seu clube do coração estar em campo ou pela emoção que o jogo em si propicia, não está a assistir a futebol. E, de maneira geral, todo aquele que estiver interessado em fruir com a experiência de ver um jogo não tem, de facto, capacidade para compreender objectivamente o mesmo. Isto só é possível entendendo o jogo como uma obra de arte, como uma experiência estética. A qualidade de algo só pode ser avaliada tendo em conta apenas as propriedades próprias desse algo. Não faz sentido, portanto, avaliar a qualidade dessa coisa através daquilo que provoca em quem a vê, pois essa avaliação estará sempre dependente da pessoa em causa, ou seja, será sempre subjectiva. Neste sentido, a qualidade de um jogo só pode ter a ver com as suas propriedades estéticas.

É aqui que entra Kant e a sua noção de desinteresse. Na Crítica da Faculdade do Juízo, o filósofo alemão diz o seguinte:

"Para distinguir se algo é belo ou não, referimos a representação, não pelo entendimento ao objecto com vista ao conhecimento, mas pela faculdade da imaginação (talvez ligada ao entendimento) ao sujeito e ao seu sentimento de prazer ou desprazer. O juízo de gosto não é, pois, nenhum juízo de conhecimento, por conseguinte não é lógico e sim estético, pelo qual se entende aquilo cujo fundamento de determinação não pode ser senão subjectivo. Toda a referência das representações, mesmo a das sensações, pode porém ser objectiva (e ela significa então o real de uma representação empírica); somente não pode sê-lo a referência ao sentimento de prazer e desprazer, pelo qual não é designado absolutamente nada no objecto, mas no qual o sujeito se sente a si próprio do modo como ele é afectado pela sensação.
Apreender pela sua faculdade de conhecimento (seja num modo de representação claro ou confuso) um edifício regular e conforme a fins, é algo totalmente diverso do que ser consciente desta representação com a sensação de comprazimento . Aqui a representação é referida inteiramente ao sujeito e na verdade ao seu sentimento de vida, sob o nome de sentimento de prazer ou desprazer; o qual funda uma faculdade de distinção e julgamento inteiramente peculiar, que em nada contribui para o conhecimento, mas somente mantém a representação dada no sujeito em relação com a inteira faculdade de representações, da qual o ânimo se torna consciente no sentimento do seu estado."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §1)

Por outras palavras, o que diz Kant aqui é que o juízo de gosto deve estar orientado unicamente para o objecto e não para o modo como esse objecto afecta o sujeito, sendo que formar representações com base na sensação de comprazimento institui julgamentos peculiares, relacionados unicamente com a pessoa que os forma e incapazes, portanto, de conferir qualquer espécie de conhecimento. Continua Kant:

"Chama-se interesse ao comprazimento que ligamos à representação da existência de um objecto. Por isso um tal interesse sempre envolve ao mesmo tempo referência à faculdade da apetição, quer como seu fundamento de determinação, quer como vinculando-se necessariamente ao seu fundamento de determinação. Agora, se a questão é saber se algo é belo, então não se quer saber se a nós ou a qualquer um importa ou sequer possa importar algo da existência da coisa, mas sim como a ajuízamos na simples contemplação (intuição ou reflexão). [...] Cada um tem que reconhecer que aquele juízo sobre a beleza, ao qual se mescla o mínimo interesse é muito faccioso e não é nenhum juízo de gosto puro. Não se tem que simpatizar minimamente com a existência da coisa, mas pelo contrário ser a esse respeito completamente indiferente, para em matéria de gosto desempenhar o papel de juiz."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §2)

Avaliar uma obra tem de ser um acto puramente desinteressado aquando do qual não está em actividade qualquer espécie de afinidade entre o sujeito que avalia e a obra em causa. "Ser completamente indiferente" a um jogo de futebol é ser capaz de se distanciar o suficiente do jogo para que o mesmo não produza qualquer espécie de efeito em si. Só com esta distanciação e com este desinteresse se está apto a avaliar esteticamente uma partida de futebol.

"Onde pois não é porventura pensado simplesmente o conhecimento de um objecto mas o próprio objecto (a forma ou existência do mesmo) como efeito, enquanto possível somente mediante um conceito do último, aí se pensa um fim. A representação do efeito é aqui o fundamento determinante da sua causa e precede-a. A consciência da causalidade de uma representação com vista ao estado do sujeito para o conservar nele pode aqui de modo geral designar aquilo que se chama prazer."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §10)

Todo o juízo estético deve ter por fim o conhecimento do objecto e não o efeito que o próprio objecto produz. Avaliar, portanto, uma partida de futebol com base no prazer que esta possa produzir no sujeito é, pois, estar concentrado no objecto em si e não no seu conhecimento, que é o que importa.

"Todo o fim, se é considerado como fundamento do comprazimento, traz sempre consigo um interesse como fundamento de determinação do juízo sobre o objecto do prazer. Logo, nenhum fim subjectivo pode situar-se no fundamento do juízo de gosto. [...] nem um agrado que acompanha a representação, nem a representação da perfeição do objecto e o conceito de bom podem conter esse fundamento de determinação."

(Immanuel Kant, Crítica da Faculdade do Juízo, §11)

O juízo de gosto não deve, pois, ser influenciado por aquilo que o objecto em causa proporciona, nem fundamentado por conceitos a priori daquilo que é bom. Uma partida de futebol deve ser analisada sem o espectro do prazer que causa e sem qualquer conceito formado previamente que defina em que parâmetros a mesma possa ser assinalada positiva ou negativamente. Só deste modo é possível ver futebol com um desinteresse perfeito e ser capaz de se inferir objectivamente acerca disso. O que sobra, pois, são as propriedades intrínsecas do objecto, propriedades que não tenham qualquer relação connosco mas apenas umas com as outras. No caso de uma partida de futebol, essas propriedades não serão, portanto, a emotividade, a intensidade, a quantidade de golos, etc. Isso são propriedades manifestadas pelos efeitos que uma partida produz. Aquilo que é verdadeiramente relevante é a qualidade intrínseca do jogo, a qualidade que dependa unicamente da funcionalidade do jogo. Essa qualidade, para quem assiste desinteressadamente ao jogo, só pode estar contida na própria essência do jogo. E a essência do jogo define-se por critérios de utilidade. Por outras palavras, a intensidade só será positiva enquanto útil; chutar à baliza só será positivo enquanto constituir a coisa mais útil a fazer naquele momento, etc. A qualidade de um jogo e, por conseguinte, a qualidade do futebol praticado por cada uma das equipas depende das acções colectivas, das decisões individuais, da reacção entre cada um dos elementos das equipas, da fricção entre dois blocos adversários, enfim, da utilidade de cada pormenor enquanto finalidade particular naquele instante.

Sintetizando, a qualidade de um jogo de futebol não tem a ver com a emoção, não tem a ver com golos, não tem a ver com vitórias, não tem a ver com malabarismos, não tem a ver com nada que não se cinja à utilidade de cada detalhe. A qualidade só pode ser interpretada de acordo com a utilidade daquilo que se faz a cada momento. E aquilo que é útil a cada momento varia, de acordo com a situação, não havendo por isso um critério universal estipulado a priori para defini-lo. O que é bom é-o mediante as circunstâncias da altura e o nível de qualidade de um jogo está ligado à quantidade de situações resolvidas adequadamente.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Hulk: um estudo

O jogo em questão foi o Atlético de Madrid - F.C. Porto; em análise, o avançado brasileiro Hulk. Esta análise não vem no imediato seguimento do jogo, o que acaba por ser interessante, visto que houve muitas opiniões favoráveis à exibição de Hulk, nomeadamente em Espanha.

1 mins: Cruzamento. (Arrancada pela direita; passa por dois adversários e cruza para Christian Rodriguez, que remata à meia-volta contra o guarda-redes adversário.)

8 mins: Boa opção. (Ganha o lance e dá em Raúl Meireles.)

8 mins: Remate. (Recebe de Raúl Meireles, vai à linha, tem tempo para assistir Lisandro, mas pára e opta por rematar por cima.)

10 minutos: Má opção. (Ganha o lance e finta; perde e ganha lançamento.)

12 minutos: Boa opção. (Recebe um passe vertical de Fernando e dá de frente em Lucho.)

14 minutos: Perda de bola. (Toque de calcanhar inconsequente e respectiva perda de bola.)

15 minutos: Faz falta. (Comete falta na frente.)

19 minutos: Cabeceamento. (Ganha lance de cabeça.)

20 minutos: Mau passe. (Ganha a bola no meio, roda para a esquerda e executa um passe que é interceptado; apesar disso, a bola sobe e acaba por chegar a Rodriguez.)

21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Raúl Meireles.)

21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Rodriguez.)

23 minutos: Mau tempo de salto. (Faz-se ao lance, mas calcula mal o tempo de salto e a bola passa-lhe por cima.)

27 minutos: Perda de bola. (Passa em velocidade por Paulo Assunção, mas insiste na jogada individual, tentando furar entre dois adversários e fica sem a bola.)

28 minutos: Golo falhado. (Boa desmarcação; fica isolado, mas tenta picar a bola e falha.)

30 minutos: Perda de bola. (Recebe de costas e perde a bola.)

33 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)

34 minutos: Má opção. (Recebe a bola, demora a soltá-la e acaba por entregá-la mal.)

35 minutos: Boa opção. (Ganha uma bola no meio-campo em falta, levando os jogadores do Atlético a parar; como o árbitro não apita, solicita Lisandro, que é desarmado.)

38 minutos: Faz falta. (Recebe a bola com a ajuda do braço.)

40 minutos: Faz falta. (Empurra, alegadamente, o defensor junto à linha de fundo.)

42 minutos: Remate. (Com espaço na esquerda, dribla Seitaridis e remata cruzado ao lado.)

42 minutos: Perda de bola. (Tenta fintar no meio de muita gente e perde a bola.)

45 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta rodar e ir em velocidade, mas é desarmado.)

47 minutos: Boa opção. (Recebe na esquerda e dá em Lisandro, que passa junto à linha.)

50 minutos: Sofre falta. (Tenta fintar no meio-campo e acaba por sofrer falta.)

51 minutos: Má opção. (Tenta fintar e ganha lançamento.)

53 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola na direita e cruza, sem consequências.)

53 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)

58 minutos: Faz falta. (Recebe a bola, mas faz falta ao tentar protegê-la.)

58 minutos: Perda de bola. (Recebe a bola, vira-se, tenta o drible e perde.)

59 minutos: Sofre falta. (Recebe, segura e sofre falta.)

60 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola, roda e cruza contra um defesa.)

63 minutos: Faz falta. (Comete falta sobre Paulo Assunção.)

64 minutos: Remate. (Responde a um cruzamento de Lucho, mas acerta com o ombro na bola.)

68 minutos: Má opção. (Recebe a bola, roda e perde; a bola sobra, porém, para Sapunaru.)

68 minutos: Má opção. (Recebe, roda e perde; ganha o lançamento.)

70 minutos: Perda de bola. (Recebe, tira um adversário do caminho e faz um passe em esforço, que é interceptado.)

71 minutos: Boa opção. (Recebe a bola, roda para a esquerda e dá na linha em Christian Rodriguez; na sequência da jogada, Lisandro faz golo.)

73 minutos: Má opção. (Recebe no meio-campo, vira-se e dá vertical em Lisandro, não respeitando o movimento do colega; a bola acaba no entanto por passar e Lucho vai apanhá-la.)

74 minutos: Boa opção. (Recebe a bola vinda de um ressalto, demora demasiado tempo a fazer malabarismos, mas acaba por decidir bem e dar recuado em Raúl Meireles que cruza.)

80 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta virar o flanco sem necessidade. O passe acaba por sair mal e é interceptado.)

80 minutos: Boa opção. (Dá a bola de frente.)

81 minutos: Perda de bola. (Recebe na linha, tenta vir para o meio e perde; ganha o primeiro ressalto, insiste no drible e volta a perder; ganha ainda mais dois ressaltos, mas acaba por perder a bola.)

87 minutos: Má opção. (Ganha o lance em falta, tenta o drible no meio de três adversários; é desarmado, mas ganha um canto.)

87 minutos: Má opção. (Bate o canto curto e recebe novamente a bola, entregando-a a Lisandro, que vem numa diagonal, no meio de dois adversários, num local onde não iria tirar qualquer proveito.)

90 minutos: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para Lucho, desmarca-se para receber a bola à frente, mas não aguenta o ombro a ombro com o defesa espanhol.)

Coloquei em negrito aquilo que de positivo Hulk fez ao longo da partida. Vamos às conclusões:

1) 46 acções durante todo o jogo; 17 acções positivas; 37% de acções positivas.
2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 13 boas opções contra 22 más opções; 37% de boas opções.
3) Destas 22 más opções resultaram 14 perdas de bola para a sua equipa.
4) Fez 7 faltas (sendo que apenas numa se pode dizer que é duvidosa) e sofreu 2.
5) Fez 3 cruzamentos, sendo que apenas 1 deles levou perigo.
5) Fez 4 remates, sendo que apenas dois deles constituíram verdadeiro perigo.
6) Apostou em 16 acções individuais, sendo que foi mal sucedido por 12 vezes. Das 4 vezes em que conseguiu tirar alguma coisa desses lances, em 2 deles sofreu faltas, ambos estando muito recuado no terreno, e em apenas 2 lances a sua capacidade individual teve consequências positivas. As suas acções individuais tiveram, portanto, um aproveitamento de 12,5% e todas elas ocorreram junto às faixas.
7) Recebeu 15 bolas estando de costas e entregou apenas 4 de frente; em 73% das vezes, optou pelo mais difícil. Optando pelo mais difícil, perdeu 3 bolas na recepção, perdeu 7 ao tentar virar-se para o adversário, e apenas ganhou 1 apostando em rodar sobre si; teve 12,5% de sucesso em lances em que se tentou virar para o adversário.

Comentários: Já aqui o disse e reafirmo-o: Hulk tem capacidades individuais fantásticas. Mas tê-las, por si só, não é nada. Há que saber aproveitá-las e que saber pô-las ao serviço do colectivo. E Hulk não faz nenhuma das duas coisas. A sua capacidade de decisão, como se comprova, é bastante baixa. Deste modo, a sua colaboração, em termos colectivos, deixa muito a desejar e Hulk é, não raras vezes, prejudicial ao processo ofensivo da sua equipa. Aproximadamente, duas em cada três bolas que lhe chegam não têm o melhor destino. É muito. Deste modo, e reconhecendo que as capacidades individuais de Hulk podem ajudar o colectivo, há que tentar explorá-las o melhor possível e de forma a que essas capacidades prejudiquem o menos possível o colectivo. Como se comprova também pelo estudo, a sua capacidade de desequilibrar é especialmente útil nas faixas, com espaço, e quando não tem de rodar sobre si próprio para progredir. As duas vezes em que o seu poder de arranque conseguiu criar estragos na defesa contrária foi junto às linhas (se exceptuarmos o lance do golo falhado, em que há uma clara desatenção da defesa adversária e em que Hulk é lançado em profundidade). Deste modo, vemos que não só as suas qualidades são potenciadas junto às linhas como é nesse local que a sua fraca capacidade de decisão poderá prejudicar menos a equipa. Se há coisa que este estudo veio demonstrar é que Hulk deve participar o menos possível na manobra ofensiva da equipa, procurando isolar-se do colectivo o mais possível de modo a ter, quando receber a bola, espaço e margem de erro para tentar desequilíbrios individuais. Era isto que, por exemplo, fazia Quaresma, em tudo idêntico ao brasileiro (ainda que menos mau a decidir), quando ficava aparentemente perdido encostado a um flanco. Às vezes, podia passar ao lado do jogo, mas não só não era um elemento nocivo no ataque da equipa como também constituía uma opção constante para as transições ofensivas da mesma. Ora, um jogador deste tipo não pode jogar enfiado entre os centrais; um jogador que em 73% das bolas que recebe de costas não a dá de frente não pode jogar como ponta-de-lança, sob pena de a equipa não poder contar com o apoio vertical que um jogador na sua posição normalmente oferece. Outra coisa que o estudo vem comprovar é que Hulk não está, como se vinha dizendo, melhor em termos de compreensão de jogo. A insistência em virar-se para a baliza adversária, sempre que recebe a bola de costas, sabendo que a probabilidade de ter um adversário à ilharga é grande, chega a ser de principiante; a quantidade de bolas que perde é assustadora; a quantidade de faltas desnecessárias um abuso. Hulk não melhorou em nada desde que chegou ao nosso campeonato a não ser em confiança. Está hoje um jogador mais confiante e com muito mais liberdade para errar. Mas a sua capacidade de decisão permanece imutável. E permanecerá sempre, ao contrário do que se pensa. Isto porque uma coisa é melhorar a nível táctico, em termos de compreensão de jogo, de experiência, de confiança, outra coisa muito diferente é melhorar em termos intelectuais. E essa mudança é tão lenta quanto uma mudança ao nível técnico, por exemplo. E a razão é simples. São coisas que se aprendem vagarosamente, com o decorrer dos anos. Hulk é isto e será só isto. Agora, é possível retirar algum proveito disto, reconhecendo-se as limitações que isto tem. Hulk está longe de ser o melhor jogador do campeonato, como parecem querer fazer dele, à força, porque embora, de facto, seja fortíssimo quando arranca com a bola, não só não executa estas iniciativas com conta, peso e medida, como, na grande maioria das vezes as mesmas acabam por significar perdas de bola ou ataques inconsequentes. Correndo o risco de tecer uma afirmação aparentemente paradoxal, para que Hulk seja o mais útil possível ao colectivo tem de colaborar o menos possível com ele, ocupando uma posição expectante na grande maioria do tempo. Nessa altura, poder-se-á tirar todo o proveito dele e, aí sim, falar dele como um jogador ao nível de Lucho ou Lisandro.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Futebol fora de época...

É um exercicio engraçado imaginarmos certos jogadores a "florescer" num ambiente que não aquele em que os descobrimos. Embora a evolução dos mesmos enquanto jogadores não fosse possível, se estes se encontrassem num ambiente totalmente diferente. Mas será que, mesmo por um mero acaso, isto fosse possível, isto é, se estes conseguissem atingir o nível que apresentam nos seus clubes, será que receberiam o mesmo reconhecimento noutros clubes, ainda que a maior parte dos outros clubes fosse de um nível, incomparavelmente inferior? Provavelmente não.

Se nos debruçarmos sobre o caso do jogador Sergio Busquets, facilmente percebemos que o facto de ele se "emancipar" só é possível por se encontrar numa equipa num "estádio" de desenvolvimento superior às demais. Dificilmente este jogador poderia "crescer" numa equipa como o Sporting, pelo menos neste momento, ou até em qualquer equipa do meio da (nossa) tabela. Da mesma forma, mais facilmente vemos um jogador como Liedson alcançar sucesso na Liga Inglesa, por exemplo, do que um jogador como Postiga. Postiga, em várias coisas me lembra Barbosa, Pedro Brabosa. Não só pela excelência do seu futebol, mas muito pelo seu "deslocamento" perante grande parte dos que o rodeiam. Porque corre quando deve, toca quando deve, dribla quando pode, não chama para si as atenções dos exageros que não comete. Em contrapartida, este jogador teria, sem ponta de dúvida, mais condições para ter sucesso numa equipa mais evoluída, como o Barcelona, do que o Levezinho.

A explicação está no desenvolvimento do conceito de futebol que habita nestes dois jogadores: um joga para o povo, da forma mais primitiva que existe (mas é também a única que a grande maioria dos adeptos sabe apreciar); o outro joga para si e para aquilo que entende ser o melhor para a equipa. O problema é que a percepção de jogo que possui é demasiado "erudita" para o futebol que o acolhe.

Adam Smith defendeu o seguinte: "só as qualidades de espírito são capazes de conferir uma autoridade entre iguais (...) São, porém, qualidades invisíveis, sempre sujeitas a contestação, e efectivamente contestadas em geral (...)"

Esta afirmação, ainda que derive de alguém que não tenha qualquer tipo de relacionamento com o desporto-rei, aplica-se de forma bastante pertinente às idiossincrasias do mesmo.

Um solução inteligente muitas vezes não requer exuberância físico/técnica, o que impede o devido reconhecimento da execelência da resolução em causa. Soluções que não sejam sustentadas por uma interpretação, ou decisão, tão correcta, mas que ponham em foco qualidades fisico/técnicas estão ao alcance de todos. Já um jogador que possua um entendimento superior do jogo só tem hipotese de ser reconhecido se os agentes futebolísticos que o rodeiam (treinadores, jogadores, adeptos, etc.) tenham eles próprios uma concepção evoluída do jogo.

Não é exclusivo do futebol a existência de pessoas com uma visão de tal forma evoluída, na área em que estão inseridos, que dificilmente são "agraciados" com o reconhecimento contemporâneo.
O problema é que, ao invés de outros exemlos, não é possivel ao jogador deixar obra se não estiver inserido no "ambiente correcto", para se poder prestar o devido reconhecimento numa época posterior, uma época que se mostre "capaz" de tal feito.

Um jogador, enquanto parte de um todo, está sempre condicionado pelo mesmo e, se o todo é demasiado primitivo para poder absorver as qualidades do mesmo, dificilmente as qualidades desse jogador serão aproveitadas e reconhecidas. Dai que se preste vassalagem a jogadores como Pelé, e outros, em detrimento de jogadores como Custódio, Farnerud, etc.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Retrospectiva do Atlético de Madrid - F.C.Porto e Antevisão do Sporting - Bayern de Munique

O Entredez fez hoje dois anos e, para o comemorar, um pequeno texto sobre as equipas portuguesas envolvidas nos oitavos de final da Liga dos Campeões.

Retrospectiva do Atlético de Madrid - F.C. Porto:


O Porto empatou em Madrid, mas melhor que o resultado foi a confirmação de que é mais equipa que o Atlético. Embora o modelo de Jesualdo só se sinta confortável em transição e o Porto precise de espaço para pôr em prática o seu futebol, é claramente mais organizado e objectivo que o conjunto espanhol. Com Aguero ainda aquém das suas capacidades, o Atlético foi sempre previsível, marcando em duas falhas claras do Porto, primeiro num lance em que Bruno Alves está demasiado recuado, colocando em jogo os avançados do Atlético, e em que Cissokho está demasiado alto, permitindo que a bola entre em Maxi Rodriguez, que lhe passou nas costas, e depois num lance muito infeliz de Helton. Já o Porto conseguiu sempre manter em sentido a defesa espanhola, sobretudo graças à velocidade e ao repentismo do seu trio da frente. Lisandro esteve especialmente empenhado e foi o autor dos dois tentos da equipa. Rodriguez foi, quanto a mim, o melhor em campo, seguido de Lucho. Já Hulk passou claramente ao lado do jogo. À excepção de uma ou outra arrancada, sempre quando descaía para uma das faixas, esteve apagado. Ainda assim, não esteve tão mal como é hábito, do ponto de vista da decisão, sobretudo na primeira parte, conseguindo entregar várias bolas de frente e de primeira. O que me parece, porém, difícil de aceitar é a opção de Jesualdo em utilizar Hulk no centro do terreno. É verdade que a equipa ganha a capacidade de explorar as costas do adversário, mas isso não chega. Creio também que a opção tem mais a ver com a disponibilidade defensiva de Lisandro. É que o Porto opta por fechar o corredor central, convidando o adversário a sair pelas linhas, e os primeiros elementos a efectivarem a pressão são normalmente os alas. Jesualdo quererá, certamente, que Hulk não se desgaste neste trabalho, ao mesmo tempo que não confiará tanto na sua capacidade táctica quanto na de Lisandro. Mas isso traz problemas. O Porto perde capacidade de circular a bola pelo meio, perde uma referência no ataque para jogar como apoio ofensivo e fica obrigado a jogar de forma mais directa e mais rápida. Não foi o caso com o Atlético, pois a equipa espanhola, pelo modelo que usa, concede bastantes espaços, mas a verdade é que esta equipa do Porto não é forte a jogar contra equipas fechadas e não me parece que a tendência, nesse sentido, seja melhorar. Ainda assim, estão reunidas boas condições para que a equipa portuguesa siga em frente.

Antevisão do Sporting C.P. - Bayern de Munique:

O Sporting joga amanhã em casa contra o Bayern de Munique. O momento dos alemães não é o melhor e a equipa portuguesa pode e deve aproveitar-se disso. O mais importante, numa primeira eliminatória em casa, é não sofrer golos. Tendo em conta isso e conhecendo a equipa bávara, acho que o Sporting deve optar por uma de duas estratégias: ou mandar no jogo, impondo o ritmo do mesmo, fazendo uso de uma posse de bola com pouco risco de modo a controlar a velocidade da partida, ou recuar o bloco e defender baixo, concedendo a iniciativa ao adversário e tentando aproveitar as transições, momento em que o Bayern deixa muito a desejar. Este Bayern joga num 442 clássico perfeitamente definido, com Ribery e Schweinsteiger, os dois alas, a procurarem muito os espaços centrais, o que permite aos defesas laterais subirem bastante. É uma equipa muito dotada, do ponto de vista individual, mas que só sabe jogar a uma velocidade. Ainda assim, se tiver espaço para fazer uso da intensidade que põe em campo, o Bayern pode ser letal. Contra equipas bem organizadas e fechadas atrás, o Bayern não é muito forte e costuma descompensar a retaguarda sempre que sobe. Se a estratégia do Sporting for conceder a iniciativa ao adversário, os melhores elementos para jogar no ataque serão Djaló e Vukcevic, enquanto que o meio-campo seria constituído por Rochemback, Izmailov, Pereirinha e Moutinho. Se a estratégia, pelo contrário passar por ter bola, é impreterível incluir Romagnoli no onze e utilizar passes verticais a explorar o espaço entre a defesa e a dupla Van Bommel/Zé Roberto, espaço esse que o Bayern concede invariavelmente. Neste contexto, jogaria com Moutinho a médio-defensivo, Izmailov e Pereinha como interiores e Derlei (já que Postiga não está operacional) e Vukcevic na frente. Não creio que Paulo Bento vá fazer nada disto, até porque Liedson é intocável, e penso que as possibilidades que o Sporting tem de seguir em frente são directamente proporcionais ao desacerto germânico. Se a equipa alemã, porém, não cometer erros, dificilmente o Sporting, de acordo com aquele que será, muito por certo, o pensamento de Paulo Bento, poderá passar à fase seguinte.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Várias Concepções de Defesa à Zona

"Confrontado com a eventualidade do F.C. Porto de Mourinho «defender à zona», J. é peremptório: "Não. Eu não concordo com isso. Eu acho que vocês estão completamente enganados. Sabe porque é que eu digo que estão completamente enganados? Porque o Porto é uma equipa que faz um pressing alto (...)" e "(...) jogar à zona é jogar numa zona expectante, dando a iniciativa ao adversário e jogando na sua zona defensiva"." Para A., "jogar à zona é estarem todos atrás da linha da bola. Agora, jogar à zona não é termos todos os jogadores a jogar dentro da nossa área, mas sim o adversário estar a trocar a bola entre a defesa e a nossa equipa estar toda atrás da linha da bola"."

in AMIEIRO, Nuno, Defesa à Zona no Futebol, pp.96

J. e A. são designações para dois treinadores de futebol. Tanto um como outro têm um conceito de defesa à zona profundamente errado. Para muita gente, como para estes senhores, jogar à zona é colocar os jogadores todos atrás da bola, aglomerá-los numa posição estática, expectante. Nesse sentido, uma equipa que defendesse à zona, seria sempre uma equipa que concederia a iniciativa de jogo ao adversário e que tentaria aproveitar os erros do mesmo para, depois, jogar no espaço criado pela subida das suas linhas. Ora bem, defender à zona não é nada disso. É possível, por exemplo, defender à zona executando um pressing alto.

Antes de começar, propriamente, gostaria de deixar claro que o livro de Nuno Amieiro que citei é um estudo eloquente e muito bem exposto do conceito de defesa à zona. Nele, Amieiro fala dos vários conceitos de zona e expõe as razões para se privilegiar um em detrimento dos outros. Para quem quiser, de facto, aprender algo sobre a zona, recomendo a leitura integral do livro, uma das poucas coisas sobre futebol que vale, de facto, a pena ler. Ora bem, antes de me deter nas várias concepções de zona, gostaria então de dar uma ideia geral do que é defender à zona. Ao contrário do que J. e A. parecem presumir, defender à zona não tem a ver com uma mentalidade mais ou menos defensiva. É possível defender à zona pressionando alto, como é possível defender à zona com um bloco baixo. Aquilo que define a zona não é a mentalidade, mas as referências de marcação. Ao contrário das marcações tradicionais ao homem, marcar à zona tem por referência não o adversário directo, mas a bola e a posição da nossa equipa; o que interessa são os espaços e não os adversários. Como tal, é predicado da zona encurtar os espaços, reduzir ao máximo a possibilidade de a bola passar entre os nossos jogadores. Defender à zona implica, portanto, várias coisas: esquecer o adversário, fazer campo pequeno, ou seja, jogar o mais perto dos companheiros que for possível, ocupar o lado forte (lado onde está a bola) e desocupar, porque desnecessário, o lado fraco (lado onde a bola não está). Para dar um exemplo, numa jogada em que o adversário conduz a bola pela esquerda, a equipa que defende à zona deve encontrar-se montada derivando para a direita (do ponto de vista de quem defende), com os jogadores de tal forma perto uns dos outros que o portador da bola só tenha linhas de passe para trás ou virando, por alto, o flanco. O que interessa na defesa à zona é ocupar espaços e manter essa ocupação independentemente da movimentação do adversário. Se os espaços estiverem, a todo o momento, preenchidos, o adversário, porque precisa de espaço para jogar, deixará de ser uma preocupação. A preocupação inicial da defesa à zona é impedir que seja o adversário, pela sua movimentação, a conduzir a marcação para onde lhe aprouver, criando espaços. Ignorando o posicionamento e a movimentação de cada um dos adversários, a equipa manter-se-á sólida, organizada, compacta. E será muito mais difícil ao adversário conseguir desequilíbrios. Ao contrário do que acontece numa defesa ao homem, um adversário, ao passar por um defesa numa equipa que jogue à zona, terá outro adversário imediatamente perto dele, porque a estrutura defensiva assenta em coberturas sucessivas. Numa defesa à zona, porque a referência não são os adversários mas os colegas, atrás de um jogador estará sempre outro, ao lado desse, outro, de acordo com a própria estrutura posicional pretendida. Dito isto, abrem-se várias possibilidades de interpretação, o que no fundo faz com que haja várias concepções de zona diferentes.

1) Em primeiro lugar, a chamada "zona mista". O pressuposto inicial é o mesmo que o da defesa à zona, isto é, o que interessa é a bola e os colegas, pelo que cada jogador deve estar posicionado em função da posição da bola no terreno e em função do posicionamento dos colegas. No entanto, esta variante da defesa à zona pressupõe que, entrando um adversário na zona de competência de um dos defensores, esse defensor deve encarregar-se de marcá-lo, largando-o se ele sair da sua zona. Isto implica definir a zona de competência, o que não é propriamente fácil e entra em contradição com um dos pressupostos base da zona, ou seja, a sua maleabilidade. Defender à zona não tem nada de estático. Não há zonas de competência no campo, porque a zona de competência é diferente a cada instante. Uma vez que a defesa à zona tem por referências a posição da bola e dos colegas, ela varia consoante a posição da bola e dos colegas. Logo, definir zonas de competência parece-me francamente difícil. Ainda assim, poder-se-ia definir essas zonas de competência a cada instante, ficando o defensor, a cada instante, com a competência de uma zona, digamos, equivalente a alguns metros à sua volta. O que me parece, contudo, contraproducente, neste tipo de variante da defesa à zona é o facto de, ainda que apenas quando um adversário directo entra na zona de jurisdição de um defensor, haver momentos em que a preocupação dos defensores deixe de ser a bola e os colegas e passe a ser o adversário. No fundo, a troca de referências, ainda que instantânea, poderá acarretar, ainda que por instantes, a perda de noção dos espaços. Defender segundo este conceito, ainda que não conceda espaços tão amplos como quem defende estritamente ao homem, acaba sempre por ser um modo de defender pouco eficaz. É inevitável, porque é natural e constante que os adversários entrem nas zonas de competência dos defensores, que se abram espaços. Esta concepção de zona é a mais utilizada hoje em dia. E é-o porque é o modo mais fácil de interpretá-la. No entanto, acarreta quase tantas consequências como uma defesa ao homem.

2) Um segundo tipo de defesa à zona, que é por exemplo a concepção de Jesualdo Ferreira, implica algo ligeiramente diferente. Pode dizer-se, grosso modo, que há dois momentos distintos no acto de defender, um passivo e um activo. O termo "zona pressionante", criado por Arrigo Sacchi, abrange o momento activo da zona. Defender à zona implica sempre a definição de uma zona pressionante, que mais não é que a zona onde se pretende recuperar a bola. Nessa zona do terreno, que pode ser mais alta ou mais baixa, mais larga ou mais estreita, mais junto à linha ou mais central, o acto de defender torna-se uma coisa activa, que pressupõe a recuperação da bola e não apenas uma organização territorial. Mesmo quando a zona pressionante não é definida, a equipa tem momentos em que defende mais activamente, nem que seja junto à área, pelas razões óbvias. Ora, a passagem de um momento passivo para um momento activo, de um momento em que a preocupação é estar organizado para um momento em que a preocupação passa a ser preencher agressivamente os espaços de modo a constranger o portador da bola, é um momento crucial. A interpretação de como este momento deve ocorrer leva a divergências de opinião e a ligeiras diferenças na forma de defender. É neste momento que a zona de Jesualdo difere, por exemplo, da de Mourinho. Ora, no momento de pressionar o adversário que conduz a bola, no momento em que é efectivada a zona pressionante, nesta concepção, a preocupação deixa de ser a bola e os colegas, passando a ser a bola e os adversários. Nesta concepção, que é a de quase toda a gente que defende à zona, pressionar activamente é sempre pressionar homens. Quando o defensor que está perto do portador da bola ataca a bola, os colegas devem reagir procurando acercar-se dos adversários que tiverem por perto de modo a inviabilizarem uma opção de passe. Isto pode parecer uma boa solução, mas creio que acarreta problemas. Com este comportamento, ao esquecerem deliberadamente a ocupação dos espaços, fixando-se num adversário em concreto, perde-se, ainda que momentaneamente, a estrutura de coberturas que estava montada. Imagine-se agora que o portador da bola que era pressionado, em vez de passar a bola, driblava e livrava-se do defensor que o tinha pressionado. As consequências eram óbvias. Após ultrapassado esse obstáculo, uma vez que a estrutura defensiva tinha sido temporariamente desfeita, teria algum tempo e espaço de manobra para progredir. O comportamento defensivo implícito nesta concepção, ainda que não totalmente inadequado, acarreta, portanto, momentos de desorganização que podem ser fatais.

3) Isto leva-nos para uma terceira concepção da zona, que mais não é do que uma consequência, nas zonas do terreno a isso mais propícias, da segunda concepção. Nas imediações da área e dentro dela, o momento defensivo é sempre activo. Porque a baliza é uma referência defensiva óbvia, defender perto dela é sempre defender de uma forma pressionante, atacando o portador da bola. Ora, há quem defenda que, dentro da área e junto a ela as referências não podem ser zonais, mas sim os adversários. O argumento é o seguinte: como, nessa zona do terreno, todos os espaços são importantes, é muito difícil ocupá-los a todos, mais vale seguir cada um dos adversários, ignorando os espaços. Esta atitude mais não é do que uma consequência, como disse, da segunda, que define, no momento pressionante do acto defensivo, que as referências são os homens e não os espaços. Mas, tal como na segunda concepção, isto acarreta consequências. A troca de referências espaciais pelas referências dos adversários e vice-versa não é instantânea; a passagem de uma a outra é sempre um momento de desorganização. Se é verdade que um defensor pode, para si, ser rápido a reagir e a escolher um adversário para marcar, não nos podemos esquecer que a movimentação que resulta dessa decisão vai implicar novas decisões em cada um dos seus colegas que se tinham colocado no terreno em função dele. Transformar um acto defensivo que tem por referências os colegas e a bola num acto defensivo que passa a ter por referências o adversário não é um processo de fácil execução porque, uma vez mais, o comportamento de um jogador vai condicionar o comportamento de cada um dos seus colegas. E essa transformação, por não ser simples, leva tempo. Ou seja, esta teoria, ao tentar resolver aquilo que considera ser um problema irresolúvel, a impossiblidade de ocupar com exactidão os espaços dentro da área, acaba por descuidar um problema provavelmente maior: ao se preocupar excessivamente com os espaços, esquece o tempo, que, provavelmente, até é mais decisivo. Enquanto a equipa se reorganiza, trocando referências, o adversário tem tempo para agir, tempo esse que pode ser crucial. Além de isto ser um problema evidente, mantém-se o mesmo problema de sempre no que diz respeito às marcações individuais: ficando os jogadores entregues a pares de marcações, qualquer desembaraço individual é um desequilíbrio decisivo.

4) Resta uma última concepção de defesa à zona, que é precisamente a concepção defendida por Nuno Amieiro no livro em questão, assim como por José Mourinho ou Carlos Carvalhal, para dar dois exemplos. É, digamos, a mais pura das concepções, aquela que não se desvirtua, em momento algum do jogo, dos seus pressupostos iniciais. Para muitos, será demasiado lírica; para outros, a mais coerente. Devo dizer que é a concepção que mais me satisfaz, simplesmente porque é nela que sinto residirem menos problemas de coerência. Distingue-se das anteriores, como disse, por em nenhum momento se afastar das referências primordiais estabelecidas inicialmente: a bola, os colegas e a baliza. Ao contrário da segunda concepção, a zona pressionante é mesmo uma zona pressionante, ou seja, é efectivada mediante referências zonais. O jogador que está mais perto do portador da bola ataca a bola e os colegas reagem atacando os espaços de acordo, unicamente, com a movimentação do seu colega e com a movimentação de cada um dos seus colegas. Isto pode permitir, eventualmente, que haja um adversário solto para receber um primeiro passe desse portador da bola. Mas o novo portador da bola, o que a recebe do primeiro portador, tem agora muito menos espaço para jogar, muito menos linhas de passe e, sobretudo, uma estrutura defensiva adversária que se manteve organizada e inalterada. Ao contrário, também, da terceira concepção, segundo esta concepção é indiferente a zona do terreno onde se defende. Porque a baliza é uma das referências, quanto mais perto dela, mais aglomerados devem estar os defensores e, por conseguinte, menores serão os espaços. A única objecção possível a esta teoria seria em caso de contra-ataque ou ataque rápido, no qual, apesar de a equipa que ataca atacar com poucos jogadores, a equipa que defende também ter poucos defensores. Nesse caso - pode dizer-se - não é possível ocupar todos os espaços. Mas a defesa à zona implica ainda uma última coisa: o assinalar do adversário. Apesar de o adversário não ser uma referência como o são a bola, os colegas e a baliza, é necessário haver a noção de onde ele está a cada momento. Isto não serve para que seja possível marcá-lo quando isso se tornar necessário, mas sim para cortar o melhor possível as linhas de passe para o mesmo ou para perceber quais os espaços mais importantes a preencher. Ao contrário, portanto, da terceira concepção, numa jogada de ataque rápido, nas imediações da área, os defensores devem manter as mesmas referências de antes e não se preocuparem com o adversário. Devem, contudo, ter a capacidade de assinalá-lo, de perceber onde ele está, de modo a colocarem-se o melhor possível. Com efeito, se tudo isto for executado a preceito, os espaços de manobra manter-se-ão escassos e a equipa manter-se-á organizada, mesmo em lances de pouca presença na área. Esta concepção - julgo - é a única verdadeiramente colectiva. Defender à zona não é só um capricho ou só uma forma mais eficaz de defender; é também o único modo de uma equipa defender verdadeiramente em equipa, de forma solidária. Não abdicar, em momento algum, das referências dos colegas e da bola é a única forma de, em todos os momentos, a equipa ser equipa; é a única forma de, em todos os momentos, não depender de cada um dos seus elementos, mas sim de algo que se cria com a solidariedade desses elementos. Jogando assim, os jogadores não têm, no momento defensivo, funções individuais, mas uma função colectiva que é igual para todos e que só varia segundo a posição do terreno em que se encontram. Partilhar as mesmas funções que todos os colegas é o único modo de jogar colectivamente.

Para acabar, gostaria ainda de falar dos defeitos normalmente apontados a todas as defesas à zona. Porque se preocupa unicamente com o lado forte da bola, há sempre espaço para jogar no lado fraco e uma variação de flanco rápida pode criar desequilíbrios. Isto é verdade, mas uma equipa que joga assim sabe-o. Sabê-lo implica poder atenuá-lo, treinando-o. Carlos Carvalhal uma vez disse que essa era uma realidade com que as suas equipas tinham de saber lidar e que muito da preparação delas passava por reagir ao momento da variação de flanco o mais rapidamente e adequadamente possível. A grande vantagem desta forma de defender é conhecer, em rigor, as suas próprias limitações, o que, em abono da verdade, é o primeiro passo para as corrigir. A capacidade de bascular rapidamente e em sintonia é pois uma das mais importantes tarefas a treinar. Isto leva-me para outra questão. Com um conceito tão rigoroso, que implica a perfeita harmonia entre vários elementos, um treino superficial e teórico sobre a zona não pode ser eficaz. Defender à zona, porque implica uma perfeita relação entre todos os jogadores, porque implica um saber responder a cada um dos comportamentos de cada um dos elementos do todo, não pode ser treinada levianamente. Todo o treino tem de ser preparado em função desta ideia, de modo a criar hábitos, rotinas, modos de pensar e executar. Daí considerar que, para jogar numa defesa à zona pura, tem de se treinar sob o método proposto pela Periodização Táctica. Com outra metodologia, francamente, acho difícil um conceito como este, que necessita de tanta sistematização e que pressupõe um comportamento absolutamente mecanizado, funcionar bem.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Curtas da Jornada 18

1. Paulo Bento apresentou um 442 clássico. Resultado até mudar de ideias: 1-0 para o Belenenses e um deserto de ideias.

2. A melhor oportunidade do Sporting na primeira parte foi cortada para fora por uma cabeçada sem nexo de São Liedson. Carriço tinha tudo para fazer o golo, mas Liedson, desamparado, sem qualquer hipótese de fazer golo, vendo o colega em melhor posição, decidiu lançar-se à bola para lhe tocar de qualquer forma. Boa decisão, sem dúvida.

3. O Belenenses é patético. Defende homem a homem em todo o terreno. Ainda assim, o Sporting fez um jogo miserável e, apesar de conseguir um domínio territorial evidente, não criou oportunidades de golo à excepção de dois ou três remates de longe. Romagnoli, o melhor jogador leonino em espaços curtos, continua inexplicavelmente proscrito.

4. Polga está irreconhecível. A facilidade com que é, constantemente, ultrapassado no um para um é constrangedora. Tonel e Carriço teriam de ser os titulares, neste momento.

5. Miguel Veloso, a lateral, está a ser queimado. Não sei se as suas dificuldades defensivas na posição serão mesmo dificuldades. Lembro-me de vê-lo jogar a lateral esquerdo na selecção de sub-21 e não lhe reconhecia estes defeitos. Creio estar certo quando afirmo que as dificuldades são mais falta de vontade do que outra coisa.

6. Rochemback não tem lugar neste Sporting. E os seus defeitos não terminam com a má forma física. Compreende mal o jogo e as necessidades da equipa a cada momento, é francamente displicente em termos posicionais e não oferece rigorosamente nada ao conjunto. Talvez seja por perceber isto que Veloso anda chateado e por Paulo Bento não perceber isto que o Sporting não joga nada à bola.

7. Postiga tem obrigatoriamente de jogar nesta equipa. Não é pelo golo nem pela assistência; é pela classe, pela tranquilidade, pela imaginação, pela capacidade de decisão e pelo sentido de colectivo que empresta em todos os momentos do jogo. É, com Romagnoli, o melhor leão a funcionar como apoio vertical, coisa de que a equipa necessita como um indigente necessita de pão.

8. Vukcevic é extraordinário. Ao contrário do que muita gente diz, as qualidades do montenegrino não terminam na explosão e na capacidade de resolver individualmente. Para os argumentos técnicos e físicos que possui, é um jogador que decide muitas vezes bem, ao contrário de outros parecidos com ele, como Hulk ou Di Maria.

9. O Porto venceu, mas a coisa esteve tremida. Valeu um argentino pequenino que, para muitos, não vale nada. Farias não é um jogador extraordinário, mas é um ponta-de-lança eficaz, esperto, concentrado, com um instinto de baliza formidável. Dentro da área, é um jogador temível: sabe esperar o momento certo para atacar a bola e perceber o espaço onde ela vai cair como poucos. Fora da área, é banal, mas ainda assim não inventa muito, pelo que não prejudica em demasia a sua equipa. Os pontos de contacto com São Liedson são evidentes, mas enquanto um é Deus, o outro é só um peão descartável.

10. Luis Freitas Lobo, no Domingo Desportivo, disse que Hulk é bom é no meio. Mas também disse que David Luiz é lateral-direito, por isso se calhar é melhor não ligar. Hulk no meio é fraco. Até pode não sê-lo contra equipas que defendem mal, como o Rio Ave, mas contra equipas que defendam mais ou menos, é previsível, fácil de anular, e muito, muito contraproducente. A insistência nos lances individuais é angustiante. Ontem, teve uma jogada que toda a gente gabou. Passou pelo meio de dois, tirou Gaspar do caminho e chutou do meio da rua, atingindo o poste da baliza de Paiva. O que muita gente não percebe é que esta jogada mostra o que de bom Hulk pode dar a uma equipa e, ao mesmo tempo, o que de mau pode oferecer. O bom é, naturalmente, capacidade de arranque, drible e remate forte, ou seja, argumentos individuais. O mau é a tomada de decisão. O primeiro drible, a passar pelo meio de dois adversários, ainda que arriscado, é consequência de não ter apoios, mas a seguir há vantagem numérica. Se o drible sobre Gaspar é uma coisa de recurso, pois o defesa saiu-lhe às pernas, já o remate é um disparate. Após a finta, o defesa-direito do Rio Ave aproxima-se de Hulk para evitar a progressão do brasileiro. Nessa altura, Hulk deveria ter soltado em Mariano, que ficaria isolado, ainda que ligeiramente descaído para a esquerda. Optou pelo remate. Poderia ter dado um grande golo, é verdade. Mas a opção não foi a melhor. E o resultado foi o mais provável. Ou seja, Hulk, apesar de ter a capacidade de provocar desequilíbrios, raramente os aproveita da melhor maneira. Assim, o seu desempenho continua muito aquém do que as suas capacidades individuais possibilitam.

11. Na hora de trocar Fucile, lesionado, Jesualdo introduziu Tomás Costa. Até aqui, nada de estranho. O esquisito foi ter puxado Fernando para a direita e colocado o argentino no meio. Fernando é o principal responsável pelo equilíbrio exibicional que a equipa nortenha atingiu esta época. A sua inclusão na equipa constituiu o maior reforço desta temporada. Abdicar dele ali foi um erro que Jesualdo só não pagou caro porque não calhou.

12. Fábio Coentrão voltou a marcar um golo fantástico ao Porto. Merece, sem dúvidas algumas, uma oportunidade para lutar por um lugar no Benfica na próxima época. É, de longe, o melhor extremo português da sua idade. O que é parvo é, na selecção de sub-21, não ter a notoriedade que têm Bruno Gama, Ukra e Candeias, uma vez que é claramente superior a qualquer um deles.

13. Na Luz, o Benfica mostrou que o bom jogo contra o Porto foi uma excepção. Este Benfica tem a capacidade de ser forte contra grandes, mas é absolutamente banal quando tem de tomar a iniciativa de jogo. Contra uma equipa francamente má e que veio discutir o jogo com uma estratégia muito primitiva, viu-se facilmente manietado. Não teve capacidade para criar superioridade numérica em posse, nem inteligência para evitar a armadilha do fora-de-jogo. Valeu um erro do guarda-redes adversário, para abrir o marcador, e dois momentos de inspiração de Ruben Amorim e Di Maria.

14. Aimar continua a mostrar por que é que os caluniadores são gente sem massa encefálica. É aquele jogador sem o qual o modelo táctico de Quique atingiria o cúmulo da previsibilidade.

15. Carlos Martins arrisca-se a passar ao lado de uma época. Tudo porque as suas qualidades não são minimamente potenciadas por um modelo estupidamente inadequado.

16. Onde jogou Miguel Vítor, essa grande "referência" do Benfica dos dias de hoje?

17. O Braga escorregou. Nada de muito impressionante. A equipa de Jorge Jesus não é o monstro papão que têm feito dela.

18. Manuel Machado, apesar das referências individuais na marcação defensiva, continua a fazer um bom campeonato. Continua a valer Nené, uma das maiores revelações da temporada.

19. Em Itália, amainou a tempestade para o Inter de Mourinho. O campeonato está praticamente no papo, o que pode bem dar a dose de confiança necessária para enfrentar as restantes provas com maior tranquilidade.

20. O Barcelona voltou a empatar, mas é de salientar a forma saudável como conseguiu reagir à desvantagem. As grandes equipas também se vêem nestes momentos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Descubram as diferenças...

Entre o Sporting que defrontou (e humilhou!) o Porto e aquele que foi copiosamente derrotado pelo Braga (que não foi tão bom como a opinião generalizada tem defendido - note-se que com isto eu não coloco a justiça do resultado em causa, apenas defendo que não foi tanto o mérito do Braga, mas sim o demérito do Sporting), existe um mar de diferenças.

No confronto com o campeão nacional vimos o melhor (de longe!) Sporting da época, até agora.
Com Adrien a exibir-se num plano exepcional como pivot defensivo, rodando o jogo a preceito e emprestando também verticalidade ao jogo do Sporting, ao mesmo tempo que encurtava os espaços entre sectores (retirando com isto espaço e tempo ao adversário, nas suas transições ofensivas), fruto de um posicionamento e leitura irrepreensíveis, o futebol leonino ganhou esclarecimento (algo impossível com Rochemback).

No vértice mais avançado do losango, foi Romagnoli a rubricar uma excelente exibição, tornando o futebol do Sporting fluído, mercê da sua capacidade parar jogar apoiado, de toque simples, mas que muitas vezes passa ao lado do comum adepto. O facto de se preocupar em fornecer os apoios verticais, não se coibindo de jogar entre linhas, não só liberta os médios-interiores como condiciona a maneira como o adversário defende.

Na frente de ataque, coabitou, porventura, a melhor dupla de avançados do plantel leonino. A capacidade de manter a posse de bola, assim como de jogar de costas para a baliza adversária, permitiu à equipa dominar por completo o jogo, fruto da facilidade com que conseguiam jogar durante largos minutos no meio-campo defensivo adversário. Num dos poucos comentários dignos de registo, um dos comentadores comparou a exibição do conjunto leonino a uma equipa de andebol, isto devido à capacidade de girar a bola até conseguir descobrir um espaço para poder provocar um desequilíbrio no adversário.

Com isto, o clube leonino não só conseguiu atacar de forma segura, como conseguiu impedir o campeão nacional de executar as transições ofensivas com eficácia. Resumindo, foi um Sporting organizado, confiante, sem demasiada pressa em chegar à área adversária, circulando a bola entre sectores, estando os mesmos bem próximos, interpretando os vários momentos do jogo de forma colectiva e não dependendo (demasiado) das individualidades para conseguir perturbar o adversário. O individual ao serviço do colectivo, e não o contrário.

Contra o Braga, a derrota começou na inclusão de Rochemback, passou pela opção de prescindir de Romagnoli (Moutinho como 10 baixa em demasia, o que muitas vezes resume o losango do Sporting a um 442 clássico, com todas as dificuldades que isto acarreta para equipa: falta de apoios verticais, dificuldades em atacar de forma apoiada e organizada, etc.). O Sporting abusou do passe longo, foi lento a girar a bola, optou por forçar os ataques, numa primeira fase, pelos corredores mais congestionados em vez de rodar o jogo (o que, se acontecesse, isto é, girar a bola, os ataques seriam mais lentos, numa primeira fase, mas a equipa beneficiaria de uma maior consistência ofensiva, fruto de um melhor posionamento em campo), de maneira a retirar a bola de zonas em que o adversário tem mais facilidade em pressionar, e isto tudo proporcionou um ambiente (muito) favorável à primeira vitória do conjunto bracarense frente a um dos grandes. Mais do que uma grande vitória de Jesus, assistimos, isso sim, a uma grande derrota de Bento.

P.S. César Peixoto à selecção, não? Talvez esteja demasiado velho...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Curtas para fazer pensar

1. Mantorras entrou outra vez e marcou outra vez. Há quem diga que o angolano é o amuleto da sorte da Luz e quem explique a sua produção recorrendo a misticismos, a superstições e bruxedos. Por cá, acreditamos que Mantorras, ainda que não seja um jogador minimamente completo, possui um atributo em que é bastante forte: o instinto de baliza. A capacidade de perceber onde a bola vai cair, a apetência pelo golo e a forma como se aproxima de zonas de concretização sempre que é preciso fazem de Mantorras um jogador talhado para o último toque na bola. Nisto, não é inferior a Liedson. Ou talvez o seja apenas em lances aéreos. Aliás, a sua média de golos nos últimos anos é algo de espantoso: 0,95 golos por jogo. Mas o que importa perguntar é: por que razão é que um é um Deus e o outro é só um coxo por quem grande parte do público nutre afeição e se compadece?

2. O Porto venceu facilmente o Belenenses. Hulk é fortíssimo a jogar contra equipas desorganizadas defensivamente e que defendem ao homem. Contra essas equipas e sobretudo quando descai para uma das linhas, o seu poder de explosão é demolidor. Não são raras as vezes que ganha a linha e cruza atrasado. Dessa forma, pode ser um jogador importante para o Porto. O problema é quando joga contra equipas mais fechadas ou quando anda no meio do ataque. Aí é francamente mau.

3. Há quem ache que uma equipa, quando não consegue resolver as coisas colectivamente, depende das suas unidades capazes de desequilibrar individualmente. Recorrendo a essa teoria, consideram que o Sporting tem menos apetência para solucionar jogos pois tem menos unidades destas do que os rivais. Devo confessar que isto me causa alguma confusão. O problema está em pensar que o colectivo serve o individual. Eu sei que maior parte dos treinadores pensa assim e que constroem o seu modelo para tirar o melhor proveito dos seus atletas. Só que isso é sempre uma estratégia pensada em função das individualidades. Uma equipa a sério deve tentar resolver todos os seus problemas colectivamente. A capacidade para desequilibrar a nível individual deve ser sempre um bónus e nunca a principal fonte de eficácia. É também por isto que o Sporting está a jogar pior desde que Liedson recuperou da sua lesão e passou a integrar regularmente os titulares de Paulo Bento. Não sei quanto tempo esta lesão durará, mas se for caso disso, não demorará para que a equipa, sem Liedson, comece a jogar, em termos colectivos, bem melhor.

4. Nuno Assis fez três golos. Tendo em conta as circunstâncias em que os fez, não é um feito extraordinário. O que é extraordinário é que haja pessoas que precisem que ele faça três golos para lhe darem o devido valor. Às vezes, penso que estas pessoas vão ao estádio e ficam o tempo todo a jogar às cartas.

5. Entretanto, o Porto é o único grande a movimentar-se no mercado de Inverno. Adquiriu, para já, Cissokho, Miguel Lopes e Andrés Madrid. O argentino pode ser útil, embora Fernando esteja de pedra e cal no lugar de médio-defensivo. Quanto aos outros, a única coisa boa que se pode dizer deles é que não serão tiros no pé tão grandes quanto a contratação - a confirmar-se - de Silvestre Varela. Confesso que, ao ler a notícia, fui ao calendário para me assegurar que não era dia 1 de Abril. A única coisa que ainda não percebi é se o Porto contrata por caridade ou se é mesmo para ver se consegue lixar todos os eventuais negócios aos restantes rivais.

6. Lá fora, Raúl igualou o record de golos de Di Stefano. Feito assinalável para um dos melhores jogadores dos últimos anos e que só não foi campeão europeu este Verão porque não o deixaram.

7. O Barcelona soma e segue. Messi é de outra galáxia e está a milhas de toda a concorrência. Não há igual desde Zizou. Ronaldo, na Playstation, quando joga contra o Barcelona, deve aproveitar todos os lances em que Messi conduz a bola para entrar de carrinho sobre ele.

8. Em Itália, o Inter de Mourinho continua a marcar passo. Apesar dos seis pontos de avanço, o "scudetto" parece menos assegurado do que aquilo que se previa há umas semanas. A eliminatória da Liga dos Campeões com o Manchester United será, provavelmente, o jogo decisivo da temporada. Se o Inter conseguir passar pelos actuais detentores do ceptro, a confiança da equipa atingirá os níveis suficientes para enfrentar com tranquilidade uma recta final de temporada que, em caso contrário, não será fácil.

9. Ao mesmo tempo, Quaresma foi emprestado ao Chelsea. É verdade que a relação com os adeptos não era fácil, mas Mourinho poderia ter feito mais. Parece agora que desistiu daquele que denominou um dos maiores desafios da sua carreira, cedendo o jogador. Não sei o que isto significará na carreira do internacional português, mas não ter vingado em Itália, numa equipa treinada por aquele que poderia ter extraído o melhor dele, é sempre um grande revés.

10. Em Inglaterra, Scolari continua sem ganhar jogos grandes e o Manchester agradece. O Liverpool é - parece-me - a única equipa com uma palavra a dizer, no que diz respeito ao campeonato.