Pereirinha e Rui Pedro, na sequência do penalty não convertido contra a selecção de Cabo Verde, foram suspensos pelo Professor Carlos Queiroz.
Este capricho do principal responsável técnico das selecções nacionais, aliado às declarações de Rui Caçador, poderá ter repercussões a todos os níveis nefastas. E isto não se aplica só aos dois jogadores que foram castigados.
A opção por crucificar dois jogadores que "ousaram" fazer algo de diferente não se esgota no castigo "concedido". Quando se condena um acto destes, desta natureza, está a circunscrever-se a irreverência, a originalidade, a coragem de num dado momento surpreender, mas, acima de tudo, está a condenar-se os que pretendem algo mais. O mais fácil naquela situação seria apontar a grande penalidade de forma vulgar. E isto só não aconteceu porque um jogador, num dado momento, sentiu que poderia fazer mais, porque ousou tentar algo de diferente. E tentar algo de diferente nada tem a ver com desrespeito, ou leviandade.
Mas não deixa de ser engraçado atentar nas declarações de Rui Caçador: "se eles tivessem feito aquilo num jogo com uma selecção mais forte, com o resultado 0-0 e num jogo a doer, aí, talvez até aceitasse a classe e a coragem dos jogadores. Assim, não". Peço desculpa, mas quem é que faltou ao respeito a quem? Quem é que está a tratar os cabo-verdianos como uns coitadinhos? O jogador que achou que devia "caprichar"? Ou o treinador que acha que contra estes "pobres coitados" qualquer um pode fazer algo do género?
E que dizer do seleccionador principal? É para isto que pretende participar mais nas selecções jovens? Para poder mostrar serviço, já que na selecção principal é a miséria que se vê? Cuidado com os "banhos de humildade" professor, não vá ter um tipo alto e loiro a escovar-lhe as costas no próximo sábado.
Depois há uma questão que não podemos ignorar: cada jogador é um caso! Não conheço muito bem o Rui Pedro, mas se há coisa que se não pode apontar ao Pereirinha é tiques de vedeta. Aliás, quem o conhece bem até admite que uma das razões de ele ainda não se ter imposto de forma categórica é a maneira demasiado "correcta" e "certinha" com que tem pautado as suas exibições, não se vislumbrando a coragem e a irreverência que sempre demonstrou, quer nas camadas jovens, quer na liga de Honra, ao serviço do Olivais e Moscavide (na altura ainda com idade de júnior). Não me parece, portanto, que esta opção em retrair a irreverência deste jogador se possa revelar positiva no futuro do mesmo, temendo até que possa suceder exactamente o oposto no desenvolvimento de Bruno Pereirinha.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Podias ser mais atrasado, Professor? Não, não podias...
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Gonçalo
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domingo, 22 de março de 2009
Cruyff contra a Intensidade
Reconheço que Manchester e Liverpool têm as equipas atleticamente mais aptas a vencer a Champions. Mas, como sempre defendi, o futebol tem muito mais de intelectual do que de atlético. Não acredito, por isso, que o empenho físico que subjaz à capacidade de ser intenso, que a simplicidade, a velocidade, a objectividade e a agressividade sejam imbatíveis. Contra equipas que fazem da intensidade a sua arma, que têm um poderio atlético superior, como são o caso do Manchester e do Liverpool, o segredo residirá em possuir a bola, em trocá-la entre os seus jogadores o mais rapidamente possível, em criar sucessivas linhas de passe e assinaláveis redes de apoios. Se há equipa com a qual me identifico é o Barcelona de Guardiola. E é precisamente o futebol do Barcelona que serve de ilustração àquilo que defendo. Cruyff dizia, há dias, nesta entrevista, que não se importava que o Barcelona jogasse já com uma destas duas equipas, para muitos as duas grandes favoritas à vitória final. A razão era simples: não há razão nenhuma para temer qualquer adversário. O futebol do Barcelona é que é difícil de anular, não o contrário. De forma a contrariar a capacidade atlética destes dois adversários, Cruyff sugere o seguinte:
Os quartos-de-final estão aí e, contra os desejos de Cruyff, nem Liverpool nem Manchester se atravessaram no caminho do Barcelona. O adversário será o Bayern de Munique. A diferença será, no entanto, apenas qualitativa, pois os germânicos constituem igualmente uma equipa que vive da intensidade de jogo. Perderá, para os ingleses (sobretudo para o Liverpool), em organização defensiva, mas de resto é uma equipa em tudo idêntica às outras duas. Será, por isso mesmo, um excelente ensaio para o Barcelona e uma primeira ordália às verdadeiras capacidades da única equipa europeia (com qualidade suficiente para jogar a este nível) que joga um futebol verdadeiramente apoiado. Depois do duplo desafio com o Bayern, ficará muito mais claro que espécie de resposta pode dar, nos dias de hoje, um futebol mais elaborado, mais requintado, mais inteligente, face ao músculo e ao suor em que a esmagadora maioria das filosofias hodiernas se baseiam. Tal como Cruyff, acredito que o jogo posicional, a capacidade de criar apoios ao portador da bola, a velocidade com que se circula a bola, a técnica e a inteligência podem fazer frente à capacidade atlética, por mais perfeita que esta seja. Acredito, portanto, que o Barcelona não só tem francas possibilidades de vencer a Liga dos Campeões este ano, como se constituirá, caso o consiga, como um exemplo de como a elegância, a classe e as ideias se podem superiorizar à força, à vontade e ao espírito de sacrifício.
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Nuno
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sábado, 14 de março de 2009
O desinteresse kantiano aplicado ao futebol
É aqui que entra Kant e a sua noção de desinteresse. Na Crítica da Faculdade do Juízo, o filósofo alemão diz o seguinte:
Apreender pela sua faculdade de conhecimento (seja num modo de representação claro ou confuso) um edifício regular e conforme a fins, é algo totalmente diverso do que ser consciente desta representação com a sensação de comprazimento
"Onde pois não é porventura pensado simplesmente o conhecimento de um objecto mas o próprio objecto (a forma ou existência do mesmo) como efeito, enquanto possível somente mediante um conceito do último, aí se pensa um fim. A representação do efeito é aqui o fundamento determinante da sua causa e precede-a. A consciência da causalidade de uma representação com vista ao estado do sujeito para o conservar nele pode aqui de modo geral designar aquilo que se chama prazer."
Todo o juízo estético deve ter por fim o conhecimento do objecto e não o efeito que o próprio objecto produz. Avaliar, portanto, uma partida de futebol com base no prazer que esta possa produzir no sujeito é, pois, estar concentrado no objecto em si e não no seu conhecimento, que é o que importa.
"Todo o fim, se é considerado como fundamento do comprazimento, traz sempre consigo um interesse como fundamento de determinação do juízo sobre o objecto do prazer. Logo, nenhum fim subjectivo pode situar-se no fundamento do juízo de gosto. [...] nem um agrado que acompanha a representação, nem a representação da perfeição do objecto e o conceito de bom podem conter esse fundamento de determinação."
O juízo de gosto não deve, pois, ser influenciado por aquilo que o objecto em causa proporciona, nem fundamentado por conceitos a priori daquilo que é bom. Uma partida de futebol deve ser analisada sem o espectro do prazer que causa e sem qualquer conceito formado previamente que defina em que parâmetros a mesma possa ser assinalada positiva ou negativamente. Só deste modo é possível ver futebol com um desinteresse perfeito e ser capaz de se inferir objectivamente acerca disso. O que sobra, pois, são as propriedades intrínsecas do objecto, propriedades que não tenham qualquer relação connosco mas apenas umas com as outras. No caso de uma partida de futebol, essas propriedades não serão, portanto, a emotividade, a intensidade, a quantidade de golos, etc. Isso são propriedades manifestadas pelos efeitos que uma partida produz. Aquilo que é verdadeiramente relevante é a qualidade intrínseca do jogo, a qualidade que dependa unicamente da funcionalidade do jogo. Essa qualidade, para quem assiste desinteressadamente ao jogo, só pode estar contida na própria essência do jogo. E a essência do jogo define-se por critérios de utilidade. Por outras palavras, a intensidade só será positiva enquanto útil; chutar à baliza só será positivo enquanto constituir a coisa mais útil a fazer naquele momento, etc. A qualidade de um jogo e, por conseguinte, a qualidade do futebol praticado por cada uma das equipas depende das acções colectivas, das decisões individuais, da reacção entre cada um dos elementos das equipas, da fricção entre dois blocos adversários, enfim, da utilidade de cada pormenor enquanto finalidade particular naquele instante.
Sintetizando, a qualidade de um jogo de futebol não tem a ver com a emoção, não tem a ver com golos, não tem a ver com vitórias, não tem a ver com malabarismos, não tem a ver com nada que não se cinja à utilidade de cada detalhe. A qualidade só pode ser interpretada de acordo com a utilidade daquilo que se faz a cada momento. E aquilo que é útil a cada momento varia, de acordo com a situação, não havendo por isso um critério universal estipulado a priori para defini-lo. O que é bom é-o mediante as circunstâncias da altura e o nível de qualidade de um jogo está ligado à quantidade de situações resolvidas adequadamente.
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Nuno
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segunda-feira, 9 de março de 2009
Hulk: um estudo
1 mins: Cruzamento. (Arrancada pela direita; passa por dois adversários e cruza para Christian Rodriguez, que remata à meia-volta contra o guarda-redes adversário.)
8 mins: Boa opção. (Ganha o lance e dá em Raúl Meireles.)
8 mins: Remate. (Recebe de Raúl Meireles, vai à linha, tem tempo para assistir Lisandro, mas pára e opta por rematar por cima.)
10 minutos: Má opção. (Ganha o lance e finta; perde e ganha lançamento.)
12 minutos: Boa opção. (Recebe um passe vertical de Fernando e dá de frente em Lucho.)
14 minutos: Perda de bola. (Toque de calcanhar inconsequente e respectiva perda de bola.)
15 minutos: Faz falta. (Comete falta na frente.)
19 minutos: Cabeceamento. (Ganha lance de cabeça.)
20 minutos: Mau passe. (Ganha a bola no meio, roda para a esquerda e executa um passe que é interceptado; apesar disso, a bola sobe e acaba por chegar a Rodriguez.)
21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Raúl Meireles.)
21 minutos: Boa opção. (Dá de frente em Rodriguez.)
23 minutos: Mau tempo de salto. (Faz-se ao lance, mas calcula mal o tempo de salto e a bola passa-lhe por cima.)
27 minutos: Perda de bola. (Passa em velocidade por Paulo Assunção, mas insiste na jogada individual, tentando furar entre dois adversários e fica sem a bola.)
28 minutos: Golo falhado. (Boa desmarcação; fica isolado, mas tenta picar a bola e falha.)
30 minutos: Perda de bola. (Recebe de costas e perde a bola.)
33 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)
34 minutos: Má opção. (Recebe a bola, demora a soltá-la e acaba por entregá-la mal.)
35 minutos: Boa opção. (Ganha uma bola no meio-campo em falta, levando os jogadores do Atlético a parar; como o árbitro não apita, solicita Lisandro, que é desarmado.)
38 minutos: Faz falta. (Recebe a bola com a ajuda do braço.)
40 minutos: Faz falta. (Empurra, alegadamente, o defensor junto à linha de fundo.)
42 minutos: Remate. (Com espaço na esquerda, dribla Seitaridis e remata cruzado ao lado.)
42 minutos: Perda de bola. (Tenta fintar no meio de muita gente e perde a bola.)
45 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta rodar e ir em velocidade, mas é desarmado.)
47 minutos: Boa opção. (Recebe na esquerda e dá em Lisandro, que passa junto à linha.)
50 minutos: Sofre falta. (Tenta fintar no meio-campo e acaba por sofrer falta.)
51 minutos: Má opção. (Tenta fintar e ganha lançamento.)
53 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola na direita e cruza, sem consequências.)
53 minutos: Faz falta. (Comete falta no ataque.)
58 minutos: Faz falta. (Recebe a bola, mas faz falta ao tentar protegê-la.)
58 minutos: Perda de bola. (Recebe a bola, vira-se, tenta o drible e perde.)
59 minutos: Sofre falta. (Recebe, segura e sofre falta.)
60 minutos: Cruzamento. (Recebe a bola, roda e cruza contra um defesa.)
63 minutos: Faz falta. (Comete falta sobre Paulo Assunção.)
64 minutos: Remate. (Responde a um cruzamento de Lucho, mas acerta com o ombro na bola.)
68 minutos: Má opção. (Recebe a bola, roda e perde; a bola sobra, porém, para Sapunaru.)
68 minutos: Má opção. (Recebe, roda e perde; ganha o lançamento.)
70 minutos: Perda de bola. (Recebe, tira um adversário do caminho e faz um passe em esforço, que é interceptado.)
71 minutos: Boa opção. (Recebe a bola, roda para a esquerda e dá na linha em Christian Rodriguez; na sequência da jogada, Lisandro faz golo.)
73 minutos: Má opção. (Recebe no meio-campo, vira-se e dá vertical em Lisandro, não respeitando o movimento do colega; a bola acaba no entanto por passar e Lucho vai apanhá-la.)
74 minutos: Boa opção. (Recebe a bola vinda de um ressalto, demora demasiado tempo a fazer malabarismos, mas acaba por decidir bem e dar recuado em Raúl Meireles que cruza.)
80 minutos: Perda de bola. (Recebe e tenta virar o flanco sem necessidade. O passe acaba por sair mal e é interceptado.)
80 minutos: Boa opção. (Dá a bola de frente.)
81 minutos: Perda de bola. (Recebe na linha, tenta vir para o meio e perde; ganha o primeiro ressalto, insiste no drible e volta a perder; ganha ainda mais dois ressaltos, mas acaba por perder a bola.)
87 minutos: Má opção. (Ganha o lance em falta, tenta o drible no meio de três adversários; é desarmado, mas ganha um canto.)
87 minutos: Má opção. (Bate o canto curto e recebe novamente a bola, entregando-a a Lisandro, que vem numa diagonal, no meio de dois adversários, num local onde não iria tirar qualquer proveito.)
90 minutos: Cabeceamento. (Ganha de cabeça para Lucho, desmarca-se para receber a bola à frente, mas não aguenta o ombro a ombro com o defesa espanhol.)
Coloquei em negrito aquilo que de positivo Hulk fez ao longo da partida. Vamos às conclusões:
1) 46 acções durante todo o jogo; 17 acções positivas; 37% de acções positivas.
2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 13 boas opções contra 22 más opções; 37% de boas opções.
3) Destas 22 más opções resultaram 14 perdas de bola para a sua equipa.
4) Fez 7 faltas (sendo que apenas numa se pode dizer que é duvidosa) e sofreu 2.
5) Fez 3 cruzamentos, sendo que apenas 1 deles levou perigo.
5) Fez 4 remates, sendo que apenas dois deles constituíram verdadeiro perigo.
6) Apostou em 16 acções individuais, sendo que foi mal sucedido por 12 vezes. Das 4 vezes em que conseguiu tirar alguma coisa desses lances, em 2 deles sofreu faltas, ambos estando muito recuado no terreno, e em apenas 2 lances a sua capacidade individual teve consequências positivas. As suas acções individuais tiveram, portanto, um aproveitamento de 12,5% e todas elas ocorreram junto às faixas.
7) Recebeu 15 bolas estando de costas e entregou apenas 4 de frente; em 73% das vezes, optou pelo mais difícil. Optando pelo mais difícil, perdeu 3 bolas na recepção, perdeu 7 ao tentar virar-se para o adversário, e apenas ganhou 1 apostando em rodar sobre si; teve 12,5% de sucesso em lances em que se tentou virar para o adversário.
Comentários: Já aqui o disse e reafirmo-o: Hulk tem capacidades individuais fantásticas. Mas tê-las, por si só, não é nada. Há que saber aproveitá-las e que saber pô-las ao serviço do colectivo. E Hulk não faz nenhuma das duas coisas. A sua capacidade de decisão, como se comprova, é bastante baixa. Deste modo, a sua colaboração, em termos colectivos, deixa muito a desejar e Hulk é, não raras vezes, prejudicial ao processo ofensivo da sua equipa. Aproximadamente, duas em cada três bolas que lhe chegam não têm o melhor destino. É muito. Deste modo, e reconhecendo que as capacidades individuais de Hulk podem ajudar o colectivo, há que tentar explorá-las o melhor possível e de forma a que essas capacidades prejudiquem o menos possível o colectivo. Como se comprova também pelo estudo, a sua capacidade de desequilibrar é especialmente útil nas faixas, com espaço, e quando não tem de rodar sobre si próprio para progredir. As duas vezes em que o seu poder de arranque conseguiu criar estragos na defesa contrária foi junto às linhas (se exceptuarmos o lance do golo falhado, em que há uma clara desatenção da defesa adversária e em que Hulk é lançado em profundidade). Deste modo, vemos que não só as suas qualidades são potenciadas junto às linhas como é nesse local que a sua fraca capacidade de decisão poderá prejudicar menos a equipa. Se há coisa que este estudo veio demonstrar é que Hulk deve participar o menos possível na manobra ofensiva da equipa, procurando isolar-se do colectivo o mais possível de modo a ter, quando receber a bola, espaço e margem de erro para tentar desequilíbrios individuais. Era isto que, por exemplo, fazia Quaresma, em tudo idêntico ao brasileiro (ainda que menos mau a decidir), quando ficava aparentemente perdido encostado a um flanco. Às vezes, podia passar ao lado do jogo, mas não só não era um elemento nocivo no ataque da equipa como também constituía uma opção constante para as transições ofensivas da mesma. Ora, um jogador deste tipo não pode jogar enfiado entre os centrais; um jogador que em 73% das bolas que recebe de costas não a dá de frente não pode jogar como ponta-de-lança, sob pena de a equipa não poder contar com o apoio vertical que um jogador na sua posição normalmente oferece. Outra coisa que o estudo vem comprovar é que Hulk não está, como se vinha dizendo, melhor em termos de compreensão de jogo. A insistência em virar-se para a baliza adversária, sempre que recebe a bola de costas, sabendo que a probabilidade de ter um adversário à ilharga é grande, chega a ser de principiante; a quantidade de bolas que perde é assustadora; a quantidade de faltas desnecessárias um abuso. Hulk não melhorou em nada desde que chegou ao nosso campeonato a não ser em confiança. Está hoje um jogador mais confiante e com muito mais liberdade para errar. Mas a sua capacidade de decisão permanece imutável. E permanecerá sempre, ao contrário do que se pensa. Isto porque uma coisa é melhorar a nível táctico, em termos de compreensão de jogo, de experiência, de confiança, outra coisa muito diferente é melhorar em termos intelectuais. E essa mudança é tão lenta quanto uma mudança ao nível técnico, por exemplo. E a razão é simples. São coisas que se aprendem vagarosamente, com o decorrer dos anos. Hulk é isto e será só isto. Agora, é possível retirar algum proveito disto, reconhecendo-se as limitações que isto tem. Hulk está longe de ser o melhor jogador do campeonato, como parecem querer fazer dele, à força, porque embora, de facto, seja fortíssimo quando arranca com a bola, não só não executa estas iniciativas com conta, peso e medida, como, na grande maioria das vezes as mesmas acabam por significar perdas de bola ou ataques inconsequentes. Correndo o risco de tecer uma afirmação aparentemente paradoxal, para que Hulk seja o mais útil possível ao colectivo tem de colaborar o menos possível com ele, ocupando uma posição expectante na grande maioria do tempo. Nessa altura, poder-se-á tirar todo o proveito dele e, aí sim, falar dele como um jogador ao nível de Lucho ou Lisandro.
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Nuno
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16:02:00
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sábado, 28 de fevereiro de 2009
Futebol fora de época...
É um exercicio engraçado imaginarmos certos jogadores a "florescer" num ambiente que não aquele em que os descobrimos. Embora a evolução dos mesmos enquanto jogadores não fosse possível, se estes se encontrassem num ambiente totalmente diferente. Mas será que, mesmo por um mero acaso, isto fosse possível, isto é, se estes conseguissem atingir o nível que apresentam nos seus clubes, será que receberiam o mesmo reconhecimento noutros clubes, ainda que a maior parte dos outros clubes fosse de um nível, incomparavelmente inferior? Provavelmente não.
Se nos debruçarmos sobre o caso do jogador Sergio Busquets, facilmente percebemos que o facto de ele se "emancipar" só é possível por se encontrar numa equipa num "estádio" de desenvolvimento superior às demais. Dificilmente este jogador poderia "crescer" numa equipa como o Sporting, pelo menos neste momento, ou até em qualquer equipa do meio da (nossa) tabela. Da mesma forma, mais facilmente vemos um jogador como Liedson alcançar sucesso na Liga Inglesa, por exemplo, do que um jogador como Postiga. Postiga, em várias coisas me lembra Barbosa, Pedro Brabosa. Não só pela excelência do seu futebol, mas muito pelo seu "deslocamento" perante grande parte dos que o rodeiam. Porque corre quando deve, toca quando deve, dribla quando pode, não chama para si as atenções dos exageros que não comete. Em contrapartida, este jogador teria, sem ponta de dúvida, mais condições para ter sucesso numa equipa mais evoluída, como o Barcelona, do que o Levezinho.
A explicação está no desenvolvimento do conceito de futebol que habita nestes dois jogadores: um joga para o povo, da forma mais primitiva que existe (mas é também a única que a grande maioria dos adeptos sabe apreciar); o outro joga para si e para aquilo que entende ser o melhor para a equipa. O problema é que a percepção de jogo que possui é demasiado "erudita" para o futebol que o acolhe.
Adam Smith defendeu o seguinte: "só as qualidades de espírito são capazes de conferir uma autoridade entre iguais (...) São, porém, qualidades invisíveis, sempre sujeitas a contestação, e efectivamente contestadas em geral (...)"
Esta afirmação, ainda que derive de alguém que não tenha qualquer tipo de relacionamento com o desporto-rei, aplica-se de forma bastante pertinente às idiossincrasias do mesmo.
Um solução inteligente muitas vezes não requer exuberância físico/técnica, o que impede o devido reconhecimento da execelência da resolução em causa. Soluções que não sejam sustentadas por uma interpretação, ou decisão, tão correcta, mas que ponham em foco qualidades fisico/técnicas estão ao alcance de todos. Já um jogador que possua um entendimento superior do jogo só tem hipotese de ser reconhecido se os agentes futebolísticos que o rodeiam (treinadores, jogadores, adeptos, etc.) tenham eles próprios uma concepção evoluída do jogo.
Não é exclusivo do futebol a existência de pessoas com uma visão de tal forma evoluída, na área em que estão inseridos, que dificilmente são "agraciados" com o reconhecimento contemporâneo.
O problema é que, ao invés de outros exemlos, não é possivel ao jogador deixar obra se não estiver inserido no "ambiente correcto", para se poder prestar o devido reconhecimento numa época posterior, uma época que se mostre "capaz" de tal feito.
Um jogador, enquanto parte de um todo, está sempre condicionado pelo mesmo e, se o todo é demasiado primitivo para poder absorver as qualidades do mesmo, dificilmente as qualidades desse jogador serão aproveitadas e reconhecidas. Dai que se preste vassalagem a jogadores como Pelé, e outros, em detrimento de jogadores como Custódio, Farnerud, etc.
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Gonçalo
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05:29:00
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
Retrospectiva do Atlético de Madrid - F.C.Porto e Antevisão do Sporting - Bayern de Munique
Retrospectiva do Atlético de Madrid - F.C. Porto:
O Porto empatou em Madrid, mas melhor que o resultado foi a confirmação de que é mais equipa que o Atlético. Embora o modelo de Jesualdo só se sinta confortável em transição e o Porto precise de espaço para pôr em prática o seu futebol, é claramente mais organizado e objectivo que o conjunto espanhol. Com Aguero ainda aquém das suas capacidades, o Atlético foi sempre previsível, marcando em duas falhas claras do Porto, primeiro num lance em que Bruno Alves está demasiado recuado, colocando em jogo os avançados do Atlético, e em que Cissokho está demasiado alto, permitindo que a bola entre em Maxi Rodriguez, que lhe passou nas costas, e depois num lance muito infeliz de Helton. Já o Porto conseguiu sempre manter em sentido a defesa espanhola, sobretudo graças à velocidade e ao repentismo do seu trio da frente. Lisandro esteve especialmente empenhado e foi o autor dos dois tentos da equipa. Rodriguez foi, quanto a mim, o melhor em campo, seguido de Lucho. Já Hulk passou claramente ao lado do jogo. À excepção de uma ou outra arrancada, sempre quando descaía para uma das faixas, esteve apagado. Ainda assim, não esteve tão mal como é hábito, do ponto de vista da decisão, sobretudo na primeira parte, conseguindo entregar várias bolas de frente e de primeira. O que me parece, porém, difícil de aceitar é a opção de Jesualdo em utilizar Hulk no centro do terreno. É verdade que a equipa ganha a capacidade de explorar as costas do adversário, mas isso não chega. Creio também que a opção tem mais a ver com a disponibilidade defensiva de Lisandro. É que o Porto opta por fechar o corredor central, convidando o adversário a sair pelas linhas, e os primeiros elementos a efectivarem a pressão são normalmente os alas. Jesualdo quererá, certamente, que Hulk não se desgaste neste trabalho, ao mesmo tempo que não confiará tanto na sua capacidade táctica quanto na de Lisandro. Mas isso traz problemas. O Porto perde capacidade de circular a bola pelo meio, perde uma referência no ataque para jogar como apoio ofensivo e fica obrigado a jogar de forma mais directa e mais rápida. Não foi o caso com o Atlético, pois a equipa espanhola, pelo modelo que usa, concede bastantes espaços, mas a verdade é que esta equipa do Porto não é forte a jogar contra equipas fechadas e não me parece que a tendência, nesse sentido, seja melhorar. Ainda assim, estão reunidas boas condições para que a equipa portuguesa siga em frente.
Antevisão do Sporting C.P. - Bayern de Munique:
O Sporting joga amanhã em casa contra o Bayern de Munique. O momento dos alemães não é o melhor e a equipa portuguesa pode e deve aproveitar-se disso. O mais importante, numa primeira eliminatória em casa, é não sofrer golos. Tendo em conta isso e conhecendo a equipa bávara, acho que o Sporting deve optar por uma de duas estratégias: ou mandar no jogo, impondo o ritmo do mesmo, fazendo uso de uma posse de bola com pouco risco de modo a controlar a velocidade da partida, ou recuar o bloco e defender baixo, concedendo a iniciativa ao adversário e tentando aproveitar as transições, momento em que o Bayern deixa muito a desejar. Este Bayern joga num 442 clássico perfeitamente definido, com Ribery e Schweinsteiger, os dois alas, a procurarem muito os espaços centrais, o que permite aos defesas laterais subirem bastante. É uma equipa muito dotada, do ponto de vista individual, mas que só sabe jogar a uma velocidade. Ainda assim, se tiver espaço para fazer uso da intensidade que põe em campo, o Bayern pode ser letal. Contra equipas bem organizadas e fechadas atrás, o Bayern não é muito forte e costuma descompensar a retaguarda sempre que sobe. Se a estratégia do Sporting for conceder a iniciativa ao adversário, os melhores elementos para jogar no ataque serão Djaló e Vukcevic, enquanto que o meio-campo seria constituído por Rochemback, Izmailov, Pereirinha e Moutinho. Se a estratégia, pelo contrário passar por ter bola, é impreterível incluir Romagnoli no onze e utilizar passes verticais a explorar o espaço entre a defesa e a dupla Van Bommel/Zé Roberto, espaço esse que o Bayern concede invariavelmente. Neste contexto, jogaria com Moutinho a médio-defensivo, Izmailov e Pereinha como interiores e Derlei (já que Postiga não está operacional) e Vukcevic na frente. Não creio que Paulo Bento vá fazer nada disto, até porque Liedson é intocável, e penso que as possibilidades que o Sporting tem de seguir em frente são directamente proporcionais ao desacerto germânico. Se a equipa alemã, porém, não cometer erros, dificilmente o Sporting, de acordo com aquele que será, muito por certo, o pensamento de Paulo Bento, poderá passar à fase seguinte.
Escrito por
Nuno
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21:48:00
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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009
Várias Concepções de Defesa à Zona
Antes de começar, propriamente, gostaria de deixar claro que o livro de Nuno Amieiro que citei é um estudo eloquente e muito bem exposto do conceito de defesa à zona. Nele, Amieiro fala dos vários conceitos de zona e expõe as razões para se privilegiar um em detrimento dos outros. Para quem quiser, de facto, aprender algo sobre a zona, recomendo a leitura integral do livro, uma das poucas coisas sobre futebol que vale, de facto, a pena ler. Ora bem, antes de me deter nas várias concepções de zona, gostaria então de dar uma ideia geral do que é defender à zona. Ao contrário do que J. e A. parecem presumir, defender à zona não tem a ver com uma mentalidade mais ou menos defensiva. É possível defender à zona pressionando alto, como é possível defender à zona com um bloco baixo. Aquilo que define a zona não é a mentalidade, mas as referências de marcação. Ao contrário das marcações tradicionais ao homem, marcar à zona tem por referência não o adversário directo, mas a bola e a posição da nossa equipa; o que interessa são os espaços e não os adversários. Como tal, é predicado da zona encurtar os espaços, reduzir ao máximo a possibilidade de a bola passar entre os nossos jogadores. Defender à zona implica, portanto, várias coisas: esquecer o adversário, fazer campo pequeno, ou seja, jogar o mais perto dos companheiros que for possível, ocupar o lado forte (lado onde está a bola) e desocupar, porque desnecessário, o lado fraco (lado onde a bola não está). Para dar um exemplo, numa jogada em que o adversário conduz a bola pela esquerda, a equipa que defende à zona deve encontrar-se montada derivando para a direita (do ponto de vista de quem defende), com os jogadores de tal forma perto uns dos outros que o portador da bola só tenha linhas de passe para trás ou virando, por alto, o flanco. O que interessa na defesa à zona é ocupar espaços e manter essa ocupação independentemente da movimentação do adversário. Se os espaços estiverem, a todo o momento, preenchidos, o adversário, porque precisa de espaço para jogar, deixará de ser uma preocupação. A preocupação inicial da defesa à zona é impedir que seja o adversário, pela sua movimentação, a conduzir a marcação para onde lhe aprouver, criando espaços. Ignorando o posicionamento e a movimentação de cada um dos adversários, a equipa manter-se-á sólida, organizada, compacta. E será muito mais difícil ao adversário conseguir desequilíbrios. Ao contrário do que acontece numa defesa ao homem, um adversário, ao passar por um defesa numa equipa que jogue à zona, terá outro adversário imediatamente perto dele, porque a estrutura defensiva assenta em coberturas sucessivas. Numa defesa à zona, porque a referência não são os adversários mas os colegas, atrás de um jogador estará sempre outro, ao lado desse, outro, de acordo com a própria estrutura posicional pretendida. Dito isto, abrem-se várias possibilidades de interpretação, o que no fundo faz com que haja várias concepções de zona diferentes.
1) Em primeiro lugar, a chamada "zona mista". O pressuposto inicial é o mesmo que o da defesa à zona, isto é, o que interessa é a bola e os colegas, pelo que cada jogador deve estar posicionado em função da posição da bola no terreno e em função do posicionamento dos colegas. No entanto, esta variante da defesa à zona pressupõe que, entrando um adversário na zona de competência de um dos defensores, esse defensor deve encarregar-se de marcá-lo, largando-o se ele sair da sua zona. Isto implica definir a zona de competência, o que não é propriamente fácil e entra em contradição com um dos pressupostos base da zona, ou seja, a sua maleabilidade. Defender à zona não tem nada de estático. Não há zonas de competência no campo, porque a zona de competência é diferente a cada instante. Uma vez que a defesa à zona tem por referências a posição da bola e dos colegas, ela varia consoante a posição da bola e dos colegas. Logo, definir zonas de competência parece-me francamente difícil. Ainda assim, poder-se-ia definir essas zonas de competência a cada instante, ficando o defensor, a cada instante, com a competência de uma zona, digamos, equivalente a alguns metros à sua volta. O que me parece, contudo, contraproducente, neste tipo de variante da defesa à zona é o facto de, ainda que apenas quando um adversário directo entra na zona de jurisdição de um defensor, haver momentos em que a preocupação dos defensores deixe de ser a bola e os colegas e passe a ser o adversário. No fundo, a troca de referências, ainda que instantânea, poderá acarretar, ainda que por instantes, a perda de noção dos espaços. Defender segundo este conceito, ainda que não conceda espaços tão amplos como quem defende estritamente ao homem, acaba sempre por ser um modo de defender pouco eficaz. É inevitável, porque é natural e constante que os adversários entrem nas zonas de competência dos defensores, que se abram espaços. Esta concepção de zona é a mais utilizada hoje em dia. E é-o porque é o modo mais fácil de interpretá-la. No entanto, acarreta quase tantas consequências como uma defesa ao homem.
2) Um segundo tipo de defesa à zona, que é por exemplo a concepção de Jesualdo Ferreira, implica algo ligeiramente diferente. Pode dizer-se, grosso modo, que há dois momentos distintos no acto de defender, um passivo e um activo. O termo "zona pressionante", criado por Arrigo Sacchi, abrange o momento activo da zona. Defender à zona implica sempre a definição de uma zona pressionante, que mais não é que a zona onde se pretende recuperar a bola. Nessa zona do terreno, que pode ser mais alta ou mais baixa, mais larga ou mais estreita, mais junto à linha ou mais central, o acto de defender torna-se uma coisa activa, que pressupõe a recuperação da bola e não apenas uma organização territorial. Mesmo quando a zona pressionante não é definida, a equipa tem momentos em que defende mais activamente, nem que seja junto à área, pelas razões óbvias. Ora, a passagem de um momento passivo para um momento activo, de um momento em que a preocupação é estar organizado para um momento em que a preocupação passa a ser preencher agressivamente os espaços de modo a constranger o portador da bola, é um momento crucial. A interpretação de como este momento deve ocorrer leva a divergências de opinião e a ligeiras diferenças na forma de defender. É neste momento que a zona de Jesualdo difere, por exemplo, da de Mourinho. Ora, no momento de pressionar o adversário que conduz a bola, no momento em que é efectivada a zona pressionante, nesta concepção, a preocupação deixa de ser a bola e os colegas, passando a ser a bola e os adversários. Nesta concepção, que é a de quase toda a gente que defende à zona, pressionar activamente é sempre pressionar homens. Quando o defensor que está perto do portador da bola ataca a bola, os colegas devem reagir procurando acercar-se dos adversários que tiverem por perto de modo a inviabilizarem uma opção de passe. Isto pode parecer uma boa solução, mas creio que acarreta problemas. Com este comportamento, ao esquecerem deliberadamente a ocupação dos espaços, fixando-se num adversário em concreto, perde-se, ainda que momentaneamente, a estrutura de coberturas que estava montada. Imagine-se agora que o portador da bola que era pressionado, em vez de passar a bola, driblava e livrava-se do defensor que o tinha pressionado. As consequências eram óbvias. Após ultrapassado esse obstáculo, uma vez que a estrutura defensiva tinha sido temporariamente desfeita, teria algum tempo e espaço de manobra para progredir. O comportamento defensivo implícito nesta concepção, ainda que não totalmente inadequado, acarreta, portanto, momentos de desorganização que podem ser fatais.
3) Isto leva-nos para uma terceira concepção da zona, que mais não é do que uma consequência, nas zonas do terreno a isso mais propícias, da segunda concepção. Nas imediações da área e dentro dela, o momento defensivo é sempre activo. Porque a baliza é uma referência defensiva óbvia, defender perto dela é sempre defender de uma forma pressionante, atacando o portador da bola. Ora, há quem defenda que, dentro da área e junto a ela as referências não podem ser zonais, mas sim os adversários. O argumento é o seguinte: como, nessa zona do terreno, todos os espaços são importantes, é muito difícil ocupá-los a todos, mais vale seguir cada um dos adversários, ignorando os espaços. Esta atitude mais não é do que uma consequência, como disse, da segunda, que define, no momento pressionante do acto defensivo, que as referências são os homens e não os espaços. Mas, tal como na segunda concepção, isto acarreta consequências. A troca de referências espaciais pelas referências dos adversários e vice-versa não é instantânea; a passagem de uma a outra é sempre um momento de desorganização. Se é verdade que um defensor pode, para si, ser rápido a reagir e a escolher um adversário para marcar, não nos podemos esquecer que a movimentação que resulta dessa decisão vai implicar novas decisões em cada um dos seus colegas que se tinham colocado no terreno em função dele. Transformar um acto defensivo que tem por referências os colegas e a bola num acto defensivo que passa a ter por referências o adversário não é um processo de fácil execução porque, uma vez mais, o comportamento de um jogador vai condicionar o comportamento de cada um dos seus colegas. E essa transformação, por não ser simples, leva tempo. Ou seja, esta teoria, ao tentar resolver aquilo que considera ser um problema irresolúvel, a impossiblidade de ocupar com exactidão os espaços dentro da área, acaba por descuidar um problema provavelmente maior: ao se preocupar excessivamente com os espaços, esquece o tempo, que, provavelmente, até é mais decisivo. Enquanto a equipa se reorganiza, trocando referências, o adversário tem tempo para agir, tempo esse que pode ser crucial. Além de isto ser um problema evidente, mantém-se o mesmo problema de sempre no que diz respeito às marcações individuais: ficando os jogadores entregues a pares de marcações, qualquer desembaraço individual é um desequilíbrio decisivo.
4) Resta uma última concepção de defesa à zona, que é precisamente a concepção defendida por Nuno Amieiro no livro em questão, assim como por José Mourinho ou Carlos Carvalhal, para dar dois exemplos. É, digamos, a mais pura das concepções, aquela que não se desvirtua, em momento algum do jogo, dos seus pressupostos iniciais. Para muitos, será demasiado lírica; para outros, a mais coerente. Devo dizer que é a concepção que mais me satisfaz, simplesmente porque é nela que sinto residirem menos problemas de coerência. Distingue-se das anteriores, como disse, por em nenhum momento se afastar das referências primordiais estabelecidas inicialmente: a bola, os colegas e a baliza. Ao contrário da segunda concepção, a zona pressionante é mesmo uma zona pressionante, ou seja, é efectivada mediante referências zonais. O jogador que está mais perto do portador da bola ataca a bola e os colegas reagem atacando os espaços de acordo, unicamente, com a movimentação do seu colega e com a movimentação de cada um dos seus colegas. Isto pode permitir, eventualmente, que haja um adversário solto para receber um primeiro passe desse portador da bola. Mas o novo portador da bola, o que a recebe do primeiro portador, tem agora muito menos espaço para jogar, muito menos linhas de passe e, sobretudo, uma estrutura defensiva adversária que se manteve organizada e inalterada. Ao contrário, também, da terceira concepção, segundo esta concepção é indiferente a zona do terreno onde se defende. Porque a baliza é uma das referências, quanto mais perto dela, mais aglomerados devem estar os defensores e, por conseguinte, menores serão os espaços. A única objecção possível a esta teoria seria em caso de contra-ataque ou ataque rápido, no qual, apesar de a equipa que ataca atacar com poucos jogadores, a equipa que defende também ter poucos defensores. Nesse caso - pode dizer-se - não é possível ocupar todos os espaços. Mas a defesa à zona implica ainda uma última coisa: o assinalar do adversário. Apesar de o adversário não ser uma referência como o são a bola, os colegas e a baliza, é necessário haver a noção de onde ele está a cada momento. Isto não serve para que seja possível marcá-lo quando isso se tornar necessário, mas sim para cortar o melhor possível as linhas de passe para o mesmo ou para perceber quais os espaços mais importantes a preencher. Ao contrário, portanto, da terceira concepção, numa jogada de ataque rápido, nas imediações da área, os defensores devem manter as mesmas referências de antes e não se preocuparem com o adversário. Devem, contudo, ter a capacidade de assinalá-lo, de perceber onde ele está, de modo a colocarem-se o melhor possível. Com efeito, se tudo isto for executado a preceito, os espaços de manobra manter-se-ão escassos e a equipa manter-se-á organizada, mesmo em lances de pouca presença na área. Esta concepção - julgo - é a única verdadeiramente colectiva. Defender à zona não é só um capricho ou só uma forma mais eficaz de defender; é também o único modo de uma equipa defender verdadeiramente em equipa, de forma solidária. Não abdicar, em momento algum, das referências dos colegas e da bola é a única forma de, em todos os momentos, a equipa ser equipa; é a única forma de, em todos os momentos, não depender de cada um dos seus elementos, mas sim de algo que se cria com a solidariedade desses elementos. Jogando assim, os jogadores não têm, no momento defensivo, funções individuais, mas uma função colectiva que é igual para todos e que só varia segundo a posição do terreno em que se encontram. Partilhar as mesmas funções que todos os colegas é o único modo de jogar colectivamente.
Para acabar, gostaria ainda de falar dos defeitos normalmente apontados a todas as defesas à zona. Porque se preocupa unicamente com o lado forte da bola, há sempre espaço para jogar no lado fraco e uma variação de flanco rápida pode criar desequilíbrios. Isto é verdade, mas uma equipa que joga assim sabe-o. Sabê-lo implica poder atenuá-lo, treinando-o. Carlos Carvalhal uma vez disse que essa era uma realidade com que as suas equipas tinham de saber lidar e que muito da preparação delas passava por reagir ao momento da variação de flanco o mais rapidamente e adequadamente possível. A grande vantagem desta forma de defender é conhecer, em rigor, as suas próprias limitações, o que, em abono da verdade, é o primeiro passo para as corrigir. A capacidade de bascular rapidamente e em sintonia é pois uma das mais importantes tarefas a treinar. Isto leva-me para outra questão. Com um conceito tão rigoroso, que implica a perfeita harmonia entre vários elementos, um treino superficial e teórico sobre a zona não pode ser eficaz. Defender à zona, porque implica uma perfeita relação entre todos os jogadores, porque implica um saber responder a cada um dos comportamentos de cada um dos elementos do todo, não pode ser treinada levianamente. Todo o treino tem de ser preparado em função desta ideia, de modo a criar hábitos, rotinas, modos de pensar e executar. Daí considerar que, para jogar numa defesa à zona pura, tem de se treinar sob o método proposto pela Periodização Táctica. Com outra metodologia, francamente, acho difícil um conceito como este, que necessita de tanta sistematização e que pressupõe um comportamento absolutamente mecanizado, funcionar bem.
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Nuno
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Curtas da Jornada 18
2. A melhor oportunidade do Sporting na primeira parte foi cortada para fora por uma cabeçada sem nexo de São Liedson. Carriço tinha tudo para fazer o golo, mas Liedson, desamparado, sem qualquer hipótese de fazer golo, vendo o colega em melhor posição, decidiu lançar-se à bola para lhe tocar de qualquer forma. Boa decisão, sem dúvida.
3. O Belenenses é patético. Defende homem a homem em todo o terreno. Ainda assim, o Sporting fez um jogo miserável e, apesar de conseguir um domínio territorial evidente, não criou oportunidades de golo à excepção de dois ou três remates de longe. Romagnoli, o melhor jogador leonino em espaços curtos, continua inexplicavelmente proscrito.
4. Polga está irreconhecível. A facilidade com que é, constantemente, ultrapassado no um para um é constrangedora. Tonel e Carriço teriam de ser os titulares, neste momento.
5. Miguel Veloso, a lateral, está a ser queimado. Não sei se as suas dificuldades defensivas na posição serão mesmo dificuldades. Lembro-me de vê-lo jogar a lateral esquerdo na selecção de sub-21 e não lhe reconhecia estes defeitos. Creio estar certo quando afirmo que as dificuldades são mais falta de vontade do que outra coisa.
6. Rochemback não tem lugar neste Sporting. E os seus defeitos não terminam com a má forma física. Compreende mal o jogo e as necessidades da equipa a cada momento, é francamente displicente em termos posicionais e não oferece rigorosamente nada ao conjunto. Talvez seja por perceber isto que Veloso anda chateado e por Paulo Bento não perceber isto que o Sporting não joga nada à bola.
7. Postiga tem obrigatoriamente de jogar nesta equipa. Não é pelo golo nem pela assistência; é pela classe, pela tranquilidade, pela imaginação, pela capacidade de decisão e pelo sentido de colectivo que empresta em todos os momentos do jogo. É, com Romagnoli, o melhor leão a funcionar como apoio vertical, coisa de que a equipa necessita como um indigente necessita de pão.
8. Vukcevic é extraordinário. Ao contrário do que muita gente diz, as qualidades do montenegrino não terminam na explosão e na capacidade de resolver individualmente. Para os argumentos técnicos e físicos que possui, é um jogador que decide muitas vezes bem, ao contrário de outros parecidos com ele, como Hulk ou Di Maria.
9. O Porto venceu, mas a coisa esteve tremida. Valeu um argentino pequenino que, para muitos, não vale nada. Farias não é um jogador extraordinário, mas é um ponta-de-lança eficaz, esperto, concentrado, com um instinto de baliza formidável. Dentro da área, é um jogador temível: sabe esperar o momento certo para atacar a bola e perceber o espaço onde ela vai cair como poucos. Fora da área, é banal, mas ainda assim não inventa muito, pelo que não prejudica em demasia a sua equipa. Os pontos de contacto com São Liedson são evidentes, mas enquanto um é Deus, o outro é só um peão descartável.
10. Luis Freitas Lobo, no Domingo Desportivo, disse que Hulk é bom é no meio. Mas também disse que David Luiz é lateral-direito, por isso se calhar é melhor não ligar. Hulk no meio é fraco. Até pode não sê-lo contra equipas que defendem mal, como o Rio Ave, mas contra equipas que defendam mais ou menos, é previsível, fácil de anular, e muito, muito contraproducente. A insistência nos lances individuais é angustiante. Ontem, teve uma jogada que toda a gente gabou. Passou pelo meio de dois, tirou Gaspar do caminho e chutou do meio da rua, atingindo o poste da baliza de Paiva. O que muita gente não percebe é que esta jogada mostra o que de bom Hulk pode dar a uma equipa e, ao mesmo tempo, o que de mau pode oferecer. O bom é, naturalmente, capacidade de arranque, drible e remate forte, ou seja, argumentos individuais. O mau é a tomada de decisão. O primeiro drible, a passar pelo meio de dois adversários, ainda que arriscado, é consequência de não ter apoios, mas a seguir há vantagem numérica. Se o drible sobre Gaspar é uma coisa de recurso, pois o defesa saiu-lhe às pernas, já o remate é um disparate. Após a finta, o defesa-direito do Rio Ave aproxima-se de Hulk para evitar a progressão do brasileiro. Nessa altura, Hulk deveria ter soltado em Mariano, que ficaria isolado, ainda que ligeiramente descaído para a esquerda. Optou pelo remate. Poderia ter dado um grande golo, é verdade. Mas a opção não foi a melhor. E o resultado foi o mais provável. Ou seja, Hulk, apesar de ter a capacidade de provocar desequilíbrios, raramente os aproveita da melhor maneira. Assim, o seu desempenho continua muito aquém do que as suas capacidades individuais possibilitam.
11. Na hora de trocar Fucile, lesionado, Jesualdo introduziu Tomás Costa. Até aqui, nada de estranho. O esquisito foi ter puxado Fernando para a direita e colocado o argentino no meio. Fernando é o principal responsável pelo equilíbrio exibicional que a equipa nortenha atingiu esta época. A sua inclusão na equipa constituiu o maior reforço desta temporada. Abdicar dele ali foi um erro que Jesualdo só não pagou caro porque não calhou.
12. Fábio Coentrão voltou a marcar um golo fantástico ao Porto. Merece, sem dúvidas algumas, uma oportunidade para lutar por um lugar no Benfica na próxima época. É, de longe, o melhor extremo português da sua idade. O que é parvo é, na selecção de sub-21, não ter a notoriedade que têm Bruno Gama, Ukra e Candeias, uma vez que é claramente superior a qualquer um deles.
13. Na Luz, o Benfica mostrou que o bom jogo contra o Porto foi uma excepção. Este Benfica tem a capacidade de ser forte contra grandes, mas é absolutamente banal quando tem de tomar a iniciativa de jogo. Contra uma equipa francamente má e que veio discutir o jogo com uma estratégia muito primitiva, viu-se facilmente manietado. Não teve capacidade para criar superioridade numérica em posse, nem inteligência para evitar a armadilha do fora-de-jogo. Valeu um erro do guarda-redes adversário, para abrir o marcador, e dois momentos de inspiração de Ruben Amorim e Di Maria.
14. Aimar continua a mostrar por que é que os caluniadores são gente sem massa encefálica. É aquele jogador sem o qual o modelo táctico de Quique atingiria o cúmulo da previsibilidade.
15. Carlos Martins arrisca-se a passar ao lado de uma época. Tudo porque as suas qualidades não são minimamente potenciadas por um modelo estupidamente inadequado.
16. Onde jogou Miguel Vítor, essa grande "referência" do Benfica dos dias de hoje?
17. O Braga escorregou. Nada de muito impressionante. A equipa de Jorge Jesus não é o monstro papão que têm feito dela.
18. Manuel Machado, apesar das referências individuais na marcação defensiva, continua a fazer um bom campeonato. Continua a valer Nené, uma das maiores revelações da temporada.
19. Em Itália, amainou a tempestade para o Inter de Mourinho. O campeonato está praticamente no papo, o que pode bem dar a dose de confiança necessária para enfrentar as restantes provas com maior tranquilidade.
20. O Barcelona voltou a empatar, mas é de salientar a forma saudável como conseguiu reagir à desvantagem. As grandes equipas também se vêem nestes momentos.
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Nuno
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14:50:00
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Descubram as diferenças...
Entre o Sporting que defrontou (e humilhou!) o Porto e aquele que foi copiosamente derrotado pelo Braga (que não foi tão bom como a opinião generalizada tem defendido - note-se que com isto eu não coloco a justiça do resultado em causa, apenas defendo que não foi tanto o mérito do Braga, mas sim o demérito do Sporting), existe um mar de diferenças.
No confronto com o campeão nacional vimos o melhor (de longe!) Sporting da época, até agora.
Com Adrien a exibir-se num plano exepcional como pivot defensivo, rodando o jogo a preceito e emprestando também verticalidade ao jogo do Sporting, ao mesmo tempo que encurtava os espaços entre sectores (retirando com isto espaço e tempo ao adversário, nas suas transições ofensivas), fruto de um posicionamento e leitura irrepreensíveis, o futebol leonino ganhou esclarecimento (algo impossível com Rochemback).
No vértice mais avançado do losango, foi Romagnoli a rubricar uma excelente exibição, tornando o futebol do Sporting fluído, mercê da sua capacidade parar jogar apoiado, de toque simples, mas que muitas vezes passa ao lado do comum adepto. O facto de se preocupar em fornecer os apoios verticais, não se coibindo de jogar entre linhas, não só liberta os médios-interiores como condiciona a maneira como o adversário defende.
Na frente de ataque, coabitou, porventura, a melhor dupla de avançados do plantel leonino. A capacidade de manter a posse de bola, assim como de jogar de costas para a baliza adversária, permitiu à equipa dominar por completo o jogo, fruto da facilidade com que conseguiam jogar durante largos minutos no meio-campo defensivo adversário. Num dos poucos comentários dignos de registo, um dos comentadores comparou a exibição do conjunto leonino a uma equipa de andebol, isto devido à capacidade de girar a bola até conseguir descobrir um espaço para poder provocar um desequilíbrio no adversário.
Com isto, o clube leonino não só conseguiu atacar de forma segura, como conseguiu impedir o campeão nacional de executar as transições ofensivas com eficácia. Resumindo, foi um Sporting organizado, confiante, sem demasiada pressa em chegar à área adversária, circulando a bola entre sectores, estando os mesmos bem próximos, interpretando os vários momentos do jogo de forma colectiva e não dependendo (demasiado) das individualidades para conseguir perturbar o adversário. O individual ao serviço do colectivo, e não o contrário.
Contra o Braga, a derrota começou na inclusão de Rochemback, passou pela opção de prescindir de Romagnoli (Moutinho como 10 baixa em demasia, o que muitas vezes resume o losango do Sporting a um 442 clássico, com todas as dificuldades que isto acarreta para equipa: falta de apoios verticais, dificuldades em atacar de forma apoiada e organizada, etc.). O Sporting abusou do passe longo, foi lento a girar a bola, optou por forçar os ataques, numa primeira fase, pelos corredores mais congestionados em vez de rodar o jogo (o que, se acontecesse, isto é, girar a bola, os ataques seriam mais lentos, numa primeira fase, mas a equipa beneficiaria de uma maior consistência ofensiva, fruto de um melhor posionamento em campo), de maneira a retirar a bola de zonas em que o adversário tem mais facilidade em pressionar, e isto tudo proporcionou um ambiente (muito) favorável à primeira vitória do conjunto bracarense frente a um dos grandes. Mais do que uma grande vitória de Jesus, assistimos, isso sim, a uma grande derrota de Bento.
P.S. César Peixoto à selecção, não? Talvez esteja demasiado velho...
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Gonçalo
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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009
Curtas para fazer pensar
2. O Porto venceu facilmente o Belenenses. Hulk é fortíssimo a jogar contra equipas desorganizadas defensivamente e que defendem ao homem. Contra essas equipas e sobretudo quando descai para uma das linhas, o seu poder de explosão é demolidor. Não são raras as vezes que ganha a linha e cruza atrasado. Dessa forma, pode ser um jogador importante para o Porto. O problema é quando joga contra equipas mais fechadas ou quando anda no meio do ataque. Aí é francamente mau.
3. Há quem ache que uma equipa, quando não consegue resolver as coisas colectivamente, depende das suas unidades capazes de desequilibrar individualmente. Recorrendo a essa teoria, consideram que o Sporting tem menos apetência para solucionar jogos pois tem menos unidades destas do que os rivais. Devo confessar que isto me causa alguma confusão. O problema está em pensar que o colectivo serve o individual. Eu sei que maior parte dos treinadores pensa assim e que constroem o seu modelo para tirar o melhor proveito dos seus atletas. Só que isso é sempre uma estratégia pensada em função das individualidades. Uma equipa a sério deve tentar resolver todos os seus problemas colectivamente. A capacidade para desequilibrar a nível individual deve ser sempre um bónus e nunca a principal fonte de eficácia. É também por isto que o Sporting está a jogar pior desde que Liedson recuperou da sua lesão e passou a integrar regularmente os titulares de Paulo Bento. Não sei quanto tempo esta lesão durará, mas se for caso disso, não demorará para que a equipa, sem Liedson, comece a jogar, em termos colectivos, bem melhor.
4. Nuno Assis fez três golos. Tendo em conta as circunstâncias em que os fez, não é um feito extraordinário. O que é extraordinário é que haja pessoas que precisem que ele faça três golos para lhe darem o devido valor. Às vezes, penso que estas pessoas vão ao estádio e ficam o tempo todo a jogar às cartas.
5. Entretanto, o Porto é o único grande a movimentar-se no mercado de Inverno. Adquiriu, para já, Cissokho, Miguel Lopes e Andrés Madrid. O argentino pode ser útil, embora Fernando esteja de pedra e cal no lugar de médio-defensivo. Quanto aos outros, a única coisa boa que se pode dizer deles é que não serão tiros no pé tão grandes quanto a contratação - a confirmar-se - de Silvestre Varela. Confesso que, ao ler a notícia, fui ao calendário para me assegurar que não era dia 1 de Abril. A única coisa que ainda não percebi é se o Porto contrata por caridade ou se é mesmo para ver se consegue lixar todos os eventuais negócios aos restantes rivais.
6. Lá fora, Raúl igualou o record de golos de Di Stefano. Feito assinalável para um dos melhores jogadores dos últimos anos e que só não foi campeão europeu este Verão porque não o deixaram.
7. O Barcelona soma e segue. Messi é de outra galáxia e está a milhas de toda a concorrência. Não há igual desde Zizou. Ronaldo, na Playstation, quando joga contra o Barcelona, deve aproveitar todos os lances em que Messi conduz a bola para entrar de carrinho sobre ele.
9. Ao mesmo tempo, Quaresma foi emprestado ao Chelsea. É verdade que a relação com os adeptos não era fácil, mas Mourinho poderia ter feito mais. Parece agora que desistiu daquele que denominou um dos maiores desafios da sua carreira, cedendo o jogador. Não sei o que isto significará na carreira do internacional português, mas não ter vingado em Itália, numa equipa treinada por aquele que poderia ter extraído o melhor dele, é sempre um grande revés.
10. Em Inglaterra, Scolari continua sem ganhar jogos grandes e o Manchester agradece. O Liverpool é - parece-me - a única equipa com uma palavra a dizer, no que diz respeito ao campeonato.
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Nuno
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18:28:00
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quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
Estigma
Um jogador é um todo complexo e não uma adição de partes, de atributos. Para muita gente, um jogador, qualquer que seja, não pode ser bom em muitas coisas; tem de ter virtudes e defeitos, encontrando-se uns em proporção igual aos outros. Ou seja, para esta gente, um jogador com boas qualidades técnicas é necessariamente debilitado em termos de desarme ou de capacidade de pressão; um jogador inteligente é-o necessariamente por compensação de outros atributos que não conseguiu desenvolver. E mede-se cada uma das qualidades de um jogador em função das outras, de maneira a que a soma seja igual em todos. Para muito boa gente, é inconcebível que um jogador seja inteligente, esforçado, tecnicamente dotado e rápido e apressam-se a formar preconceitos e a dizer palermices.
"Se és bom tecnicamente, não podes ser bom a defender porque eu não quero." Esta é mais ou menos a forma como o pensam. E isto acarreta consequências. Mesmo muitos daqueles que julgam não pensar assim, fazem-no. Todos aqueles que acham que Pirlo precisa de carregadores de piano ao lado para fazer o trabalho sujo por ele, ou aqueles que acham que Riquelme precisa de uma equipa a jogar para ele, ou, de uma forma geral, todos os que julgam que uma equipa deve ser montada em função de um ou outro jogador, estão necessariamente a incorrer em preconceitos deste género. Porquê? Porque um jogador não tem apenas os seus pontos fortes. Um jogador que seja muito talentoso pode ter outras virtudes. Da presença de talento num indivíduo não se segue, de modo nenhum, a ausência de outras qualidades. Mas é o que muita gente parece pensar. O maior estigma, no que diz respeito a este tipo de coisas, parece perseguir os jogadores talentosos, embora se possa manifestar noutros jogadores. Quantas vezes a virilidade de um jogador não fez dele, para muitos, apenas um caceteiro? E se essa característica era evidente, não era necessário que todas as outras não estivessem presentes. Ricardo Rocha foi disto um bom exemplo.
Quero, contudo, prender-me na questão do talento, pois creio que é a mais paradigmática. Não é raro que um jogador talentoso seja considerado fraco nos restantes aspectos. Isso deriva, quanto a mim, de um impulso igualitário que, culturalmente e politicamente, parece ter-se impregnado na mentalidade moderna. Parece haver uma necessidade doentia de reabilitar pessoas menos aptas, numa clara posição anti-darwiniana, para a vida social e para todos os fenómenos que a envolvem. A primeira resposta que se deveria dar a alguém que não tem qualquer qualidade futebolística deveria ser: "dedica-te a outro desporto". Mas, numa atitude simpática, porque se vive num mundo que cada vez mais promove a igualdade de oportunidades, concede-se a alguém deste género a oportunidade de jogar futebol. Não tendo um pingo de talento, imagina-se que pode ser útil a fazer o oposto, ou seja, a não deixar jogar. E, de repente, todos podem ser futebolistas, os que têm qualidade e os que não têm, porque uns servem para jogar e outros para não deixar jogar. Este tipo de mentalidade ainda hoje é muito recorrente, embora caminhe já para o ocaso. Por via deste mesmo princípio igualitário, que imagina possível que todo o ser humano seja futebolista, concebe-se então o jogador como uma soma de atributos: os que têm qualidades futebolísticas, têm bons atributos para jogar; os que não têm qualidades, têm bons atributos para não deixar jogar. E, através desta forma de socialismo barato, todos estão em pé de igualdade, De repente, numa actividade para a qual é necessário, como para qualquer actividade, engenho e arte, todos estão em podem exercê-la, independentemente de possuirem ou não esse engenho e arte. Esta é uma forma contra-natura de estar no mundo.
Vivemos, quer queiramos, quer não, num mundo regido pela lei do mais forte. No futebol, como em tudo, são os mais aptos que vingam. Jogadores como Bynia não deveriam estar no mesmo plantel que jogadores como Aimar, pura e simplesmente porque um não tem qualidade e o outro tem. Mas como se concebe o futebol como um jogo de equilíbrios, em que uns fazem umas coisas e outros fazem outras, em que uns fazem um determinado tipo de trabalho e outros outro, isto torna-se possível. Ora bem, um jogador talentoso não vive necessariamente apenas do talento; pode bem ser muito hábil noutras coisas. Muitas vezes, até, um jogador com excelentes recursos técnicos, é aquele que, reflectindo nas suas capacidades, melhor perceberá o modo de travar outros jogadores com recursos parecidos.
Só para dar alguns exemplos, Romagnoli e Carlos Martins são jogadores reconhecidamente talentosos. Mas nem um nem outro gozam de particular afeição no que toca aos restantes aspectos do jogo. De Romagnoli diz-se que é um jogador frágil, defensivamente inútil, que marca poucos golos, etc. É verdade que Romagnoli, em termos físicos, não é um jogador muito dotado, mas tem atributos intelectuais notáveis que fazem dele muito mais do que um jogador habilidoso. Se é verdade que não é muito agressivo a responder directamente à posse de bola adversária, não sendo o principal responsável por recuperações de bola da sua equipa, tem outras virtudes, mesmo em termos defensivos, que muitos parecem ignorar. Antes de mais, é seguramente o jogador que mais quilómetros percorre, na equipa leonina. O trabalho invisível do argentino é geralmente negligenciado pela maioria das pessoas, mas a verdade é que, sobretudo quando a equipa tem a bola, é o jogador que melhor e mais trabalha sem bola, quer abrindo linhas de passe, quer promovendo superioridade numérica em determinadas zonas do campo, quer procurando zonas de menor densidade do adversário. Depois, em termos defensivos, ainda que não seja através de movimentos agressivos, posiciona-se extraordinariamente bem, ocupando espaços que obrigam o adversário a progredir para determinados sítios e que facilitam zonas de pressão a outros companheiros, normalmente aos avançados que recuam ou aos interiores do losango. Por tudos isto e também por aquilo que faz a equipa jogar, quando tem a bola, não se limitando a lances de génio, a últimos passes ou a dribles vistosos, mas fazendo, geralmente, o mais útil em cada momento, é inconcebível que Romagnoli seja considerado apenas um jogador talentoso. É muito mais do que isso. O que vou dizer parecerá surpreendente e errado a muita gente, mas a verdade é que Romagnoli é muito mais operário que jogadores a quem, usualmente, se reconhece essa característica, como seja o caso de Bynia ou Liedson. E isto porque o trabalho que faz, ainda que menos vistoso, é bastante mais útil à equipa. Aliás, nesse aspecto não é muito diferente de Lucho Gonzalez, embora este goze de uma admiração a toda a prova e ninguém ouse dizer que defende pouco.
É, por isso, um preconceito enorme considerar que jogadores talentosos não podem, por natureza, ser bons noutras coisas. Podem-no e muitos são-no. Também é verdade que há jogadores que são apenas talentosos. Mas não se pode generalizar. Do mesmo modo, também há médios aguerridos que têm mais virtudes para além da capacidade de luta. Moutinho - toda a gente reconhece - é um jogador talentoso e, ao mesmo tempo, lutador. Mas Yebda, que é um jogador do qual o atributo que mais rapidamente salta à vista é a capacidade de luta, tem mais do que isso e é um jogador inteligente, com boa qualidade técnica. Tal como Raúl Meireles. E com um jogador inteligente passa-se o mesmo. Não se é inteligente apenas por não se ter mais nada. Não existe um número finito de pontos que se distribuem pelos diferentes atributos dos jogadores. Quando se olha, por isso, para um jogador talentoso, não se deve olhar para ele como um jogador talentoso, mas como um jogador no seu todo. Porque é isso que ele é. Deve-se, por isso, parar de vez com a definição de jogadores através dos seus atributos mais salientes e procurar ver neles tudo o que possuem. É por causa deste tipo de observação superficial, que gosta de colocar rótulos em atletas, que há tantos erros em contratações. É também por causa dessa forma errada de ver as coisas que muitos jogadores com excelentes qualidades são rapidamente amaldiçoados pelos adeptos. Porque Nuno Gomes falha demasiados golos, não presta; porque Romagnoli é frágil, não presta; porque Carlos Martins não contribui, de modo decisivo, para nada, não presta; porque Farnerud tem processos simples e lentos, não presta. E, ao contrário, endeusam-se figuras com base em um ou dois atributos, ignorando-se os restantes, como seja o caso de Hulk, Liedson e Pelé. Isto não é assim. Um jogador é uma criatura complexa, e os mais completos são os que têm mais atributos e não os que têm os atributos mais espalhafatosos.
É errado, portanto, de um modo geral, dizer de um jogador talentoso que precisa de jogadores de características completamente opostas para fazer o que ele não sabe. Muitas vezes, os jogadores talentosos não precisam de ninguém para isso. Veja-se Iniesta e Xavi, no Barcelona, por exemplo. Porquê? Porque são mais do que jogadores talentosos; porque possuem outras características além da sua característica dominante. Enquanto não se perceber isso, dificilmente se saberá, por exemplo, apreciar as qualidade de um jogador ou todo o seu potencial.
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Nuno
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segunda-feira, 26 de janeiro de 2009
Febre dos estúpidos
Se, até agora, apenas desconfiava que essa era a ideia de muito boa gente, depois da votação levada a cabo pelo jornal A Bola, não restam dúvidas: a maioria dos portugueses acha que Liedson é não só o melhor avançado a jogar em Portugal, o que por si já era estúpido, mas também o melhor estrangeiro, à frente de Reyes, Aimar, Katsouranis, Suazo, Lucho, Lisandro, Izmailov, Vukcevic, Rochemback, Romagnoli e Polga, só para dar alguns exemplos. Se é verdade que uma votação deste tipo é condicionada pela quantidade de adeptos do Benfica que, muito provavelmente, terão votado, o que explica, de certo modo, a ausência dos argentinos do Porto, não deixa de ser preocupante que, mesmo nessas circunstâncias, Liedson tenha ficado à frente de todos os estrangeiros a jogar no clube da Luz.
Explicações pode haver muitas: 1) Liedson angariou boa parte dos votos de benfiquistas que, de modo reprovador, consideram que o "Levezinho" é o único sustento do Sporting, o que faria da votação uma forma de achincalhar o "eterno rival"; 2) Portugal continua a viver sob a égide de uma doença mental chamada (como tão bem referiram António José Saraiva e Eduardo Lourenço) Sebastianismo e Liedson é o mais recente produto dessa epidemia colectiva, saudosa e obsessiva, que procura em cada esquina um Messias que os anime; 3) Quem tem opiniões sobre futebol é, na sua esmagadora maioria, estúpido. Gosto especialmente da terceira, até porque é, para mim, o adjectivo que melhor define quem acha que Liedson pode sequer ser comparado a Lisandro ou a Suazo.
À votação d'A Bola poderíamos ainda acrescentar outra votação, esta feita num espaço frequentado por gente bem mais erudita, sapiente e isenta. E a verdade é que o resultado é o mesmo. Liedson a presidente!, digo eu. Por que não? O que estas duas votações mostram, ao contrário do que essa maioria erudita, sapiente e isenta pensa, não é que Liedson é o melhor avançado português; o que mostra é que, na sua grande maioria, essa gente erudita sapiente e isenta, ou seja, quem vê futebol em Portugal, é imbecil. Só num país como este é que um jogador da qualidade de Liedson poderia ter o prestígio que tem. Lisandro vai à selecção argentina já com relativa regularidade, mesmo quando a selecção das pampas tem, para o ataque, homens como Messi, Aguero, Tevez, Crespo, Julio Cruz, Saviola e Diego Milito, só para dar alguns exemplos. Já Liedson, apesar do deserto de talento (quando comparado com o argentino) que é o ataque brasileiro actualmente, nem sequer entra nos planos do seleccionador brasileiro. Deve ser perseguição. Só pode. Afinal, se Liedson é melhor que Lisandro, não será também melhor que Alexandre Pato, Rafael Sóbis, Luís Fabiano, Adriano, Fred, Jô? E o Real Madrid, que pretende contratar Lisandro? São estúpidos ou quê? Vão contratar um gajo que nem sequer é o melhor na sua posição em Portugal? E Suazo, que é dos avançados com melhor reputação no Calcio e que discutiu a titularidade, no ano transacto, com Crespo e Júlio Cruz no Inter, também é inferior a Liedson. Aliás, se Ibrahimovic, Fernando Torres, Drogba e Berbatov viessem jogar para Portugal, tenho a certeza que Liedson continuaria a ser o preferido dessa gente erudita, sapiente e isenta.
Já foi amplamente discutido aqui, mas talvez valha a pena recordar novamente quais os argumentos defendidos por quem gosta de Liedson. São apenas dois: marca mais golos que os opositores; tem um espírito de sacrifício inigualável, correndo sem se cansar atrás dos adversários durante os 90 minutos. Quanto aos golos, além de a sua marca estar francamente inflaccionada (tem uma média de golos de apenas 0,58 golos por jogo, o que faz com que a capacidade concretizadora de Liedson não ande assim tão distante da de Nuno Gomes, por exemplo, que, no mesmo período, sabendo-se que o avançado do Benfica não é um grande finalizador e que se lesiona mais regularmente, o que implica mais momentos de forma menos bons, tem uma média de 0,43 golos por jogo), basta dizer que marcar golos é apenas a fase final de um processo muito longo e que, quem o faz não tem, na grande maioria das vezes, nem um terço da responsabilidade dos mesmos. Liedson é relativamente bom nessa fase final, nesse gesto de empurrar a bola para a baliza, mas é medíocre no resto. Além disso, a grande maioria dos golos que marca são de execução fácil, tendo maior mérito apenas na forma como consegue antecipar o desfecho da jogada e surgir, no momento exacto e no local exacto, para marcar. Nisso, de facto, é bom. Mas a irrelevância disso, num jogo de futebol, é directamente proporcional à quantidade de vezes que tem possibilidade de acontecer. Em 90 minutos, essa situação ocorre três ou quatro vezes. Tudo o resto em que Liedson é abaixo da média ocorre em proporções colossalmente maiores. O ser capaz de aparecer na zona certa é, por isso, um atributo claramente escasso para um jogador de topo. E é o único atributo digno de registo que Liedson tem. No resto, é miserável. Quanto ao correr muito não significa que corra bem. Aliás, Liedson corre mal. Não corre na hora certa nem para os sítios certos. As suas tão gabadas acções defensivas são actos irreflectidos que, não raro, prejudicam a própria equipa. Alegar que participa positivamente no aspecto defensivo do jogo é não saber o que é o aspecto defensivo do jogo. Liedson tem disponibilidade. Mas se não souber usar essa disponibilidade, é só uma barata-tonta. Quer dizer, uma barata-tonta nem prejudicaria tanto a sua equipa, nesse capítulo.
Para finalizar, Liedson é um jogador banal, um jogador bom num aspecto do jogo, mas muito mau em todos os outros. Compará-lo a Lisandro e a David Suazo, principalmente, é de gente doida. Haver tanta gente a pensar o mesmo é uma espécie de surto de febre. Mas não se trata de uma febre qualquer; é uma febre de estupidez. Em tempos, também se pensou que a evolução das espécies se dava por transmissão de características aos descendentes. Segundo essa teoria, um determinado animal desenvolvia, ao longo da vida, uma certa aptidão e depois passava-a aos seus descendentes. Por exemplo, a girafa, originariamente, seria uma espécie de cavalo, com um pescoço curto. À medida que a vegetação da savana foi sendo mais escassa, cada girafa tinha de se esticar o mais possível para chegar à folhagem mais alta. Durante a sua vida, a girafa aumentava o tamanho do pescoço o suficiente para chegar à folhagem que lhe permitisse sobreviver, passando depois essa alteração fisionómica à descendência. Com a sucessão das gerações, a girafa teria então passado de um animal de pescoço curto para um animal de pescoço comprido, tendo o tamanho do pescoço aumentado gradualmente em cada geração. Depois veio Darwin e a Selecção Natural e mandou isto tudo às urtigas. Nesta história toda, Liedson pode bem ser a girafa (embora a mim me pareça mais um guaxinim), enquanto os palermas dos seus admiradores farão bem o papel dos que se empertigaram contra Darwin.
P.S. Sem ter nada a ver, apenas uma curiosidade. Em 6 meses, Pelé é dispensado por Mourinho e Jesualdo Ferreira. O Entredez não percebe mesmo nada de futebol.
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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
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sábado, 17 de janeiro de 2009
Rolo Compressor
Se pensarmos ainda que 5 dos 7 pontos perdidos pelo Barça foram perdidos nas duas primeiras jornadas do campeonato, altura em que os processos colectivos ainda não estariam certamente mecanizados, maior se torna a dimensão deste feito. A equipa de Guardiola não está só a jogar um bom futebol; está a jogar um futebol demolidor. Quando, após aqueles dois maus resultados no início da Liga Espanhola, o Barcelona venceu o Sporting por 3-1, num jogo em que o Sporting pouco atacou, muitos criticaram a equipa lisboeta, afirmando que o Barcelona estava em crise e que não se admitia, por isso, que o Sporting fosse tão humilhado. Na altura, pareceu-me desde logo que esta gente se precipitava. Mais do que demérito do Sporting, era evidente que o Barcelona não era uma equipa qualquer. A facilidade com que saía de zonas de pressão, a capacidade para trocar a bola rapidamente entre três ou quatro adversários, a ocupação perfeita dos espaços e a forma asfixiante como pressionava deixava antever tudo o que se passou a seguir: uma primeira volta praticamente imaculada.
A grande virtude deste Barcelona não está no génio individual dos seus jogadores. É verdade que todos eles são muito talentosos e é verdade que, com Messi, tudo é mais fácil. Mas alguém duvida que este Barça, mesmo sem Messi, estaria em primeiro? O que faz da equipa de Guardiola uma grande equipa é um conjunto de coisas do qual a capacidade individual dos elementos que a compõem é apenas uma pequena parte. O que é, de facto, fundamental, é a filosofia de jogo, a cultura táctica, a organização e a inteligência. O Barcelona é hoje uma equipa dotada de grandes valores, sobretudo, mental e intelectualmente. Não há, praticamente, nenhum jogador que não seja rápido a pensar. O futebol de toque curto constante não é só mais uma característica; é um sintoma - um sintoma de inteligência. Uma equipa que tenha a facilidade de jogar em espaços curtos com a eficácia com que o Barcelona o faz é uma equipa, do ponto de vista ofensivo, saudável. Por menos espaço que haja, a equipa arranja forma de passar por lá. Enquanto outras equipas andam à volta, à procura de espaço, o Barcelona entra pelo buraco da agulha. E desfaz defesas como quem respira.
Uma das coisas mais espantosas é a forma despreocupada com que a equipa joga. Não raro, vemos um jogador a passar a bola a outro que tem um adversário perto, sem medo que o colega a perca. Não são muitas as equipas que têm capacidade de fazer isto, de arriscar isto. Muitas vezes, perante marcações apertadas, a opção é jogar mais comprido, ou atrasar, ou lateralizar. No Barcelona não. O Barcelona é, de certeza, a equipa no mundo que mais passes verticais faz. E isto porque existe uma confiança no colega e na capacidade de decisão do mesmo que normalmente não existe. Quando um médio-ofensivo recua para receber um passe vertical de um defesa, traz consigo uma marcação, mas mesmo assim a bola é-lhe dada. Ao fazê-lo, é-lhe colocada a responsabilidade de decidir bem, de devolver a bola ou de segurá-la, de tocar para o lado para outro colega ou de receber e de se virar para o adversário. Mas esta atribuição de responsabilidade implica igualmente uma coragem inegável em quem faz o passe. O Barcelona troca tão bem a bola porque não há medo de perdê-la, porque se confia na inteligência do colega. E a equipa, assim, progride com segurança no campo, desposicionando o adversário e enervando-o. O carrossel dos catalães é apenas o resultado duma equipa mentalmente forte e de uma equipa inteligente. Depois, na fase defensiva, a capacidade de pressão é igualmente invejável. Mas o segredo está na capacidade criativa de todo o conjunto, desde o guarda-redes ao avançado. O Barcelona é o que é porque todos os seus jogadores pensam de maneira parecida, de uma maneira arrojada, criativa, clara. O Barcelona joga com a cabeça. Não tem jogadores atleticamente fortes, nem velocistas. Tem jogadores dotados tecnicamente e, sobretudo, dotados intelectualmente. Em termos de tomadas de decisão, são a equipa mais formidável de que me lembro. Este Barcelona, por tudo isto, por esta singular capacidade de dominar o jogo com a bola em seu poder, fazendo-a rodar por todos os seus jogadores com uma facilidade ímpar, como se estivesse sem adversário em campo, progredindo quando tem de progredir e reservando-se quando tem de se reservar, é o protótipo de equipa perfeita e joga o futebol que o Entredez, desde sempre, tentou defender.
Ao fim de 6 meses, posso dizer que Guardiola me enche as medidas. A partir de hoje, está, para mim, entre aquela pequena elite de treinadores que considero fora do vulgar. Antes de finalizar, gostaria, contudo, de partilhar um raciocínio, na forma de uma pergunta. Alguém acha que o Barcelona conseguiria jogar este tipo de futebol - um futebol de toque curto, um futebol que fornece, regularmente, ao portador da bola, dois ou três apoios, um futebol inteligente, capaz de sair de situações de inferioridade numérica com uma facilidade assombrosa, um futebol que põe o adversário a correr atrás da bola, circulando-a a toda a largura e a todo o comprimento do campo, indo à frente, voltando atrás, indo à esquerda, voltando à direita, um futebol que cansa só de ver, um futebol que é o que de mais parecido com arte este desporto pode oferecer - poderia o Barcelona jogar este tipo de futebol noutro esquema táctico, por exemplo, num 442 clássico?
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Nuno
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