sábado, 28 de fevereiro de 2009

Futebol fora de época...

É um exercicio engraçado imaginarmos certos jogadores a "florescer" num ambiente que não aquele em que os descobrimos. Embora a evolução dos mesmos enquanto jogadores não fosse possível, se estes se encontrassem num ambiente totalmente diferente. Mas será que, mesmo por um mero acaso, isto fosse possível, isto é, se estes conseguissem atingir o nível que apresentam nos seus clubes, será que receberiam o mesmo reconhecimento noutros clubes, ainda que a maior parte dos outros clubes fosse de um nível, incomparavelmente inferior? Provavelmente não.

Se nos debruçarmos sobre o caso do jogador Sergio Busquets, facilmente percebemos que o facto de ele se "emancipar" só é possível por se encontrar numa equipa num "estádio" de desenvolvimento superior às demais. Dificilmente este jogador poderia "crescer" numa equipa como o Sporting, pelo menos neste momento, ou até em qualquer equipa do meio da (nossa) tabela. Da mesma forma, mais facilmente vemos um jogador como Liedson alcançar sucesso na Liga Inglesa, por exemplo, do que um jogador como Postiga. Postiga, em várias coisas me lembra Barbosa, Pedro Brabosa. Não só pela excelência do seu futebol, mas muito pelo seu "deslocamento" perante grande parte dos que o rodeiam. Porque corre quando deve, toca quando deve, dribla quando pode, não chama para si as atenções dos exageros que não comete. Em contrapartida, este jogador teria, sem ponta de dúvida, mais condições para ter sucesso numa equipa mais evoluída, como o Barcelona, do que o Levezinho.

A explicação está no desenvolvimento do conceito de futebol que habita nestes dois jogadores: um joga para o povo, da forma mais primitiva que existe (mas é também a única que a grande maioria dos adeptos sabe apreciar); o outro joga para si e para aquilo que entende ser o melhor para a equipa. O problema é que a percepção de jogo que possui é demasiado "erudita" para o futebol que o acolhe.

Adam Smith defendeu o seguinte: "só as qualidades de espírito são capazes de conferir uma autoridade entre iguais (...) São, porém, qualidades invisíveis, sempre sujeitas a contestação, e efectivamente contestadas em geral (...)"

Esta afirmação, ainda que derive de alguém que não tenha qualquer tipo de relacionamento com o desporto-rei, aplica-se de forma bastante pertinente às idiossincrasias do mesmo.

Um solução inteligente muitas vezes não requer exuberância físico/técnica, o que impede o devido reconhecimento da execelência da resolução em causa. Soluções que não sejam sustentadas por uma interpretação, ou decisão, tão correcta, mas que ponham em foco qualidades fisico/técnicas estão ao alcance de todos. Já um jogador que possua um entendimento superior do jogo só tem hipotese de ser reconhecido se os agentes futebolísticos que o rodeiam (treinadores, jogadores, adeptos, etc.) tenham eles próprios uma concepção evoluída do jogo.

Não é exclusivo do futebol a existência de pessoas com uma visão de tal forma evoluída, na área em que estão inseridos, que dificilmente são "agraciados" com o reconhecimento contemporâneo.
O problema é que, ao invés de outros exemlos, não é possivel ao jogador deixar obra se não estiver inserido no "ambiente correcto", para se poder prestar o devido reconhecimento numa época posterior, uma época que se mostre "capaz" de tal feito.

Um jogador, enquanto parte de um todo, está sempre condicionado pelo mesmo e, se o todo é demasiado primitivo para poder absorver as qualidades do mesmo, dificilmente as qualidades desse jogador serão aproveitadas e reconhecidas. Dai que se preste vassalagem a jogadores como Pelé, e outros, em detrimento de jogadores como Custódio, Farnerud, etc.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Retrospectiva do Atlético de Madrid - F.C.Porto e Antevisão do Sporting - Bayern de Munique

O Entredez fez hoje dois anos e, para o comemorar, um pequeno texto sobre as equipas portuguesas envolvidas nos oitavos de final da Liga dos Campeões.

Retrospectiva do Atlético de Madrid - F.C. Porto:


O Porto empatou em Madrid, mas melhor que o resultado foi a confirmação de que é mais equipa que o Atlético. Embora o modelo de Jesualdo só se sinta confortável em transição e o Porto precise de espaço para pôr em prática o seu futebol, é claramente mais organizado e objectivo que o conjunto espanhol. Com Aguero ainda aquém das suas capacidades, o Atlético foi sempre previsível, marcando em duas falhas claras do Porto, primeiro num lance em que Bruno Alves está demasiado recuado, colocando em jogo os avançados do Atlético, e em que Cissokho está demasiado alto, permitindo que a bola entre em Maxi Rodriguez, que lhe passou nas costas, e depois num lance muito infeliz de Helton. Já o Porto conseguiu sempre manter em sentido a defesa espanhola, sobretudo graças à velocidade e ao repentismo do seu trio da frente. Lisandro esteve especialmente empenhado e foi o autor dos dois tentos da equipa. Rodriguez foi, quanto a mim, o melhor em campo, seguido de Lucho. Já Hulk passou claramente ao lado do jogo. À excepção de uma ou outra arrancada, sempre quando descaía para uma das faixas, esteve apagado. Ainda assim, não esteve tão mal como é hábito, do ponto de vista da decisão, sobretudo na primeira parte, conseguindo entregar várias bolas de frente e de primeira. O que me parece, porém, difícil de aceitar é a opção de Jesualdo em utilizar Hulk no centro do terreno. É verdade que a equipa ganha a capacidade de explorar as costas do adversário, mas isso não chega. Creio também que a opção tem mais a ver com a disponibilidade defensiva de Lisandro. É que o Porto opta por fechar o corredor central, convidando o adversário a sair pelas linhas, e os primeiros elementos a efectivarem a pressão são normalmente os alas. Jesualdo quererá, certamente, que Hulk não se desgaste neste trabalho, ao mesmo tempo que não confiará tanto na sua capacidade táctica quanto na de Lisandro. Mas isso traz problemas. O Porto perde capacidade de circular a bola pelo meio, perde uma referência no ataque para jogar como apoio ofensivo e fica obrigado a jogar de forma mais directa e mais rápida. Não foi o caso com o Atlético, pois a equipa espanhola, pelo modelo que usa, concede bastantes espaços, mas a verdade é que esta equipa do Porto não é forte a jogar contra equipas fechadas e não me parece que a tendência, nesse sentido, seja melhorar. Ainda assim, estão reunidas boas condições para que a equipa portuguesa siga em frente.

Antevisão do Sporting C.P. - Bayern de Munique:

O Sporting joga amanhã em casa contra o Bayern de Munique. O momento dos alemães não é o melhor e a equipa portuguesa pode e deve aproveitar-se disso. O mais importante, numa primeira eliminatória em casa, é não sofrer golos. Tendo em conta isso e conhecendo a equipa bávara, acho que o Sporting deve optar por uma de duas estratégias: ou mandar no jogo, impondo o ritmo do mesmo, fazendo uso de uma posse de bola com pouco risco de modo a controlar a velocidade da partida, ou recuar o bloco e defender baixo, concedendo a iniciativa ao adversário e tentando aproveitar as transições, momento em que o Bayern deixa muito a desejar. Este Bayern joga num 442 clássico perfeitamente definido, com Ribery e Schweinsteiger, os dois alas, a procurarem muito os espaços centrais, o que permite aos defesas laterais subirem bastante. É uma equipa muito dotada, do ponto de vista individual, mas que só sabe jogar a uma velocidade. Ainda assim, se tiver espaço para fazer uso da intensidade que põe em campo, o Bayern pode ser letal. Contra equipas bem organizadas e fechadas atrás, o Bayern não é muito forte e costuma descompensar a retaguarda sempre que sobe. Se a estratégia do Sporting for conceder a iniciativa ao adversário, os melhores elementos para jogar no ataque serão Djaló e Vukcevic, enquanto que o meio-campo seria constituído por Rochemback, Izmailov, Pereirinha e Moutinho. Se a estratégia, pelo contrário passar por ter bola, é impreterível incluir Romagnoli no onze e utilizar passes verticais a explorar o espaço entre a defesa e a dupla Van Bommel/Zé Roberto, espaço esse que o Bayern concede invariavelmente. Neste contexto, jogaria com Moutinho a médio-defensivo, Izmailov e Pereinha como interiores e Derlei (já que Postiga não está operacional) e Vukcevic na frente. Não creio que Paulo Bento vá fazer nada disto, até porque Liedson é intocável, e penso que as possibilidades que o Sporting tem de seguir em frente são directamente proporcionais ao desacerto germânico. Se a equipa alemã, porém, não cometer erros, dificilmente o Sporting, de acordo com aquele que será, muito por certo, o pensamento de Paulo Bento, poderá passar à fase seguinte.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Várias Concepções de Defesa à Zona

"Confrontado com a eventualidade do F.C. Porto de Mourinho «defender à zona», J. é peremptório: "Não. Eu não concordo com isso. Eu acho que vocês estão completamente enganados. Sabe porque é que eu digo que estão completamente enganados? Porque o Porto é uma equipa que faz um pressing alto (...)" e "(...) jogar à zona é jogar numa zona expectante, dando a iniciativa ao adversário e jogando na sua zona defensiva"." Para A., "jogar à zona é estarem todos atrás da linha da bola. Agora, jogar à zona não é termos todos os jogadores a jogar dentro da nossa área, mas sim o adversário estar a trocar a bola entre a defesa e a nossa equipa estar toda atrás da linha da bola"."

in AMIEIRO, Nuno, Defesa à Zona no Futebol, pp.96

J. e A. são designações para dois treinadores de futebol. Tanto um como outro têm um conceito de defesa à zona profundamente errado. Para muita gente, como para estes senhores, jogar à zona é colocar os jogadores todos atrás da bola, aglomerá-los numa posição estática, expectante. Nesse sentido, uma equipa que defendesse à zona, seria sempre uma equipa que concederia a iniciativa de jogo ao adversário e que tentaria aproveitar os erros do mesmo para, depois, jogar no espaço criado pela subida das suas linhas. Ora bem, defender à zona não é nada disso. É possível, por exemplo, defender à zona executando um pressing alto.

Antes de começar, propriamente, gostaria de deixar claro que o livro de Nuno Amieiro que citei é um estudo eloquente e muito bem exposto do conceito de defesa à zona. Nele, Amieiro fala dos vários conceitos de zona e expõe as razões para se privilegiar um em detrimento dos outros. Para quem quiser, de facto, aprender algo sobre a zona, recomendo a leitura integral do livro, uma das poucas coisas sobre futebol que vale, de facto, a pena ler. Ora bem, antes de me deter nas várias concepções de zona, gostaria então de dar uma ideia geral do que é defender à zona. Ao contrário do que J. e A. parecem presumir, defender à zona não tem a ver com uma mentalidade mais ou menos defensiva. É possível defender à zona pressionando alto, como é possível defender à zona com um bloco baixo. Aquilo que define a zona não é a mentalidade, mas as referências de marcação. Ao contrário das marcações tradicionais ao homem, marcar à zona tem por referência não o adversário directo, mas a bola e a posição da nossa equipa; o que interessa são os espaços e não os adversários. Como tal, é predicado da zona encurtar os espaços, reduzir ao máximo a possibilidade de a bola passar entre os nossos jogadores. Defender à zona implica, portanto, várias coisas: esquecer o adversário, fazer campo pequeno, ou seja, jogar o mais perto dos companheiros que for possível, ocupar o lado forte (lado onde está a bola) e desocupar, porque desnecessário, o lado fraco (lado onde a bola não está). Para dar um exemplo, numa jogada em que o adversário conduz a bola pela esquerda, a equipa que defende à zona deve encontrar-se montada derivando para a direita (do ponto de vista de quem defende), com os jogadores de tal forma perto uns dos outros que o portador da bola só tenha linhas de passe para trás ou virando, por alto, o flanco. O que interessa na defesa à zona é ocupar espaços e manter essa ocupação independentemente da movimentação do adversário. Se os espaços estiverem, a todo o momento, preenchidos, o adversário, porque precisa de espaço para jogar, deixará de ser uma preocupação. A preocupação inicial da defesa à zona é impedir que seja o adversário, pela sua movimentação, a conduzir a marcação para onde lhe aprouver, criando espaços. Ignorando o posicionamento e a movimentação de cada um dos adversários, a equipa manter-se-á sólida, organizada, compacta. E será muito mais difícil ao adversário conseguir desequilíbrios. Ao contrário do que acontece numa defesa ao homem, um adversário, ao passar por um defesa numa equipa que jogue à zona, terá outro adversário imediatamente perto dele, porque a estrutura defensiva assenta em coberturas sucessivas. Numa defesa à zona, porque a referência não são os adversários mas os colegas, atrás de um jogador estará sempre outro, ao lado desse, outro, de acordo com a própria estrutura posicional pretendida. Dito isto, abrem-se várias possibilidades de interpretação, o que no fundo faz com que haja várias concepções de zona diferentes.

1) Em primeiro lugar, a chamada "zona mista". O pressuposto inicial é o mesmo que o da defesa à zona, isto é, o que interessa é a bola e os colegas, pelo que cada jogador deve estar posicionado em função da posição da bola no terreno e em função do posicionamento dos colegas. No entanto, esta variante da defesa à zona pressupõe que, entrando um adversário na zona de competência de um dos defensores, esse defensor deve encarregar-se de marcá-lo, largando-o se ele sair da sua zona. Isto implica definir a zona de competência, o que não é propriamente fácil e entra em contradição com um dos pressupostos base da zona, ou seja, a sua maleabilidade. Defender à zona não tem nada de estático. Não há zonas de competência no campo, porque a zona de competência é diferente a cada instante. Uma vez que a defesa à zona tem por referências a posição da bola e dos colegas, ela varia consoante a posição da bola e dos colegas. Logo, definir zonas de competência parece-me francamente difícil. Ainda assim, poder-se-ia definir essas zonas de competência a cada instante, ficando o defensor, a cada instante, com a competência de uma zona, digamos, equivalente a alguns metros à sua volta. O que me parece, contudo, contraproducente, neste tipo de variante da defesa à zona é o facto de, ainda que apenas quando um adversário directo entra na zona de jurisdição de um defensor, haver momentos em que a preocupação dos defensores deixe de ser a bola e os colegas e passe a ser o adversário. No fundo, a troca de referências, ainda que instantânea, poderá acarretar, ainda que por instantes, a perda de noção dos espaços. Defender segundo este conceito, ainda que não conceda espaços tão amplos como quem defende estritamente ao homem, acaba sempre por ser um modo de defender pouco eficaz. É inevitável, porque é natural e constante que os adversários entrem nas zonas de competência dos defensores, que se abram espaços. Esta concepção de zona é a mais utilizada hoje em dia. E é-o porque é o modo mais fácil de interpretá-la. No entanto, acarreta quase tantas consequências como uma defesa ao homem.

2) Um segundo tipo de defesa à zona, que é por exemplo a concepção de Jesualdo Ferreira, implica algo ligeiramente diferente. Pode dizer-se, grosso modo, que há dois momentos distintos no acto de defender, um passivo e um activo. O termo "zona pressionante", criado por Arrigo Sacchi, abrange o momento activo da zona. Defender à zona implica sempre a definição de uma zona pressionante, que mais não é que a zona onde se pretende recuperar a bola. Nessa zona do terreno, que pode ser mais alta ou mais baixa, mais larga ou mais estreita, mais junto à linha ou mais central, o acto de defender torna-se uma coisa activa, que pressupõe a recuperação da bola e não apenas uma organização territorial. Mesmo quando a zona pressionante não é definida, a equipa tem momentos em que defende mais activamente, nem que seja junto à área, pelas razões óbvias. Ora, a passagem de um momento passivo para um momento activo, de um momento em que a preocupação é estar organizado para um momento em que a preocupação passa a ser preencher agressivamente os espaços de modo a constranger o portador da bola, é um momento crucial. A interpretação de como este momento deve ocorrer leva a divergências de opinião e a ligeiras diferenças na forma de defender. É neste momento que a zona de Jesualdo difere, por exemplo, da de Mourinho. Ora, no momento de pressionar o adversário que conduz a bola, no momento em que é efectivada a zona pressionante, nesta concepção, a preocupação deixa de ser a bola e os colegas, passando a ser a bola e os adversários. Nesta concepção, que é a de quase toda a gente que defende à zona, pressionar activamente é sempre pressionar homens. Quando o defensor que está perto do portador da bola ataca a bola, os colegas devem reagir procurando acercar-se dos adversários que tiverem por perto de modo a inviabilizarem uma opção de passe. Isto pode parecer uma boa solução, mas creio que acarreta problemas. Com este comportamento, ao esquecerem deliberadamente a ocupação dos espaços, fixando-se num adversário em concreto, perde-se, ainda que momentaneamente, a estrutura de coberturas que estava montada. Imagine-se agora que o portador da bola que era pressionado, em vez de passar a bola, driblava e livrava-se do defensor que o tinha pressionado. As consequências eram óbvias. Após ultrapassado esse obstáculo, uma vez que a estrutura defensiva tinha sido temporariamente desfeita, teria algum tempo e espaço de manobra para progredir. O comportamento defensivo implícito nesta concepção, ainda que não totalmente inadequado, acarreta, portanto, momentos de desorganização que podem ser fatais.

3) Isto leva-nos para uma terceira concepção da zona, que mais não é do que uma consequência, nas zonas do terreno a isso mais propícias, da segunda concepção. Nas imediações da área e dentro dela, o momento defensivo é sempre activo. Porque a baliza é uma referência defensiva óbvia, defender perto dela é sempre defender de uma forma pressionante, atacando o portador da bola. Ora, há quem defenda que, dentro da área e junto a ela as referências não podem ser zonais, mas sim os adversários. O argumento é o seguinte: como, nessa zona do terreno, todos os espaços são importantes, é muito difícil ocupá-los a todos, mais vale seguir cada um dos adversários, ignorando os espaços. Esta atitude mais não é do que uma consequência, como disse, da segunda, que define, no momento pressionante do acto defensivo, que as referências são os homens e não os espaços. Mas, tal como na segunda concepção, isto acarreta consequências. A troca de referências espaciais pelas referências dos adversários e vice-versa não é instantânea; a passagem de uma a outra é sempre um momento de desorganização. Se é verdade que um defensor pode, para si, ser rápido a reagir e a escolher um adversário para marcar, não nos podemos esquecer que a movimentação que resulta dessa decisão vai implicar novas decisões em cada um dos seus colegas que se tinham colocado no terreno em função dele. Transformar um acto defensivo que tem por referências os colegas e a bola num acto defensivo que passa a ter por referências o adversário não é um processo de fácil execução porque, uma vez mais, o comportamento de um jogador vai condicionar o comportamento de cada um dos seus colegas. E essa transformação, por não ser simples, leva tempo. Ou seja, esta teoria, ao tentar resolver aquilo que considera ser um problema irresolúvel, a impossiblidade de ocupar com exactidão os espaços dentro da área, acaba por descuidar um problema provavelmente maior: ao se preocupar excessivamente com os espaços, esquece o tempo, que, provavelmente, até é mais decisivo. Enquanto a equipa se reorganiza, trocando referências, o adversário tem tempo para agir, tempo esse que pode ser crucial. Além de isto ser um problema evidente, mantém-se o mesmo problema de sempre no que diz respeito às marcações individuais: ficando os jogadores entregues a pares de marcações, qualquer desembaraço individual é um desequilíbrio decisivo.

4) Resta uma última concepção de defesa à zona, que é precisamente a concepção defendida por Nuno Amieiro no livro em questão, assim como por José Mourinho ou Carlos Carvalhal, para dar dois exemplos. É, digamos, a mais pura das concepções, aquela que não se desvirtua, em momento algum do jogo, dos seus pressupostos iniciais. Para muitos, será demasiado lírica; para outros, a mais coerente. Devo dizer que é a concepção que mais me satisfaz, simplesmente porque é nela que sinto residirem menos problemas de coerência. Distingue-se das anteriores, como disse, por em nenhum momento se afastar das referências primordiais estabelecidas inicialmente: a bola, os colegas e a baliza. Ao contrário da segunda concepção, a zona pressionante é mesmo uma zona pressionante, ou seja, é efectivada mediante referências zonais. O jogador que está mais perto do portador da bola ataca a bola e os colegas reagem atacando os espaços de acordo, unicamente, com a movimentação do seu colega e com a movimentação de cada um dos seus colegas. Isto pode permitir, eventualmente, que haja um adversário solto para receber um primeiro passe desse portador da bola. Mas o novo portador da bola, o que a recebe do primeiro portador, tem agora muito menos espaço para jogar, muito menos linhas de passe e, sobretudo, uma estrutura defensiva adversária que se manteve organizada e inalterada. Ao contrário, também, da terceira concepção, segundo esta concepção é indiferente a zona do terreno onde se defende. Porque a baliza é uma das referências, quanto mais perto dela, mais aglomerados devem estar os defensores e, por conseguinte, menores serão os espaços. A única objecção possível a esta teoria seria em caso de contra-ataque ou ataque rápido, no qual, apesar de a equipa que ataca atacar com poucos jogadores, a equipa que defende também ter poucos defensores. Nesse caso - pode dizer-se - não é possível ocupar todos os espaços. Mas a defesa à zona implica ainda uma última coisa: o assinalar do adversário. Apesar de o adversário não ser uma referência como o são a bola, os colegas e a baliza, é necessário haver a noção de onde ele está a cada momento. Isto não serve para que seja possível marcá-lo quando isso se tornar necessário, mas sim para cortar o melhor possível as linhas de passe para o mesmo ou para perceber quais os espaços mais importantes a preencher. Ao contrário, portanto, da terceira concepção, numa jogada de ataque rápido, nas imediações da área, os defensores devem manter as mesmas referências de antes e não se preocuparem com o adversário. Devem, contudo, ter a capacidade de assinalá-lo, de perceber onde ele está, de modo a colocarem-se o melhor possível. Com efeito, se tudo isto for executado a preceito, os espaços de manobra manter-se-ão escassos e a equipa manter-se-á organizada, mesmo em lances de pouca presença na área. Esta concepção - julgo - é a única verdadeiramente colectiva. Defender à zona não é só um capricho ou só uma forma mais eficaz de defender; é também o único modo de uma equipa defender verdadeiramente em equipa, de forma solidária. Não abdicar, em momento algum, das referências dos colegas e da bola é a única forma de, em todos os momentos, a equipa ser equipa; é a única forma de, em todos os momentos, não depender de cada um dos seus elementos, mas sim de algo que se cria com a solidariedade desses elementos. Jogando assim, os jogadores não têm, no momento defensivo, funções individuais, mas uma função colectiva que é igual para todos e que só varia segundo a posição do terreno em que se encontram. Partilhar as mesmas funções que todos os colegas é o único modo de jogar colectivamente.

Para acabar, gostaria ainda de falar dos defeitos normalmente apontados a todas as defesas à zona. Porque se preocupa unicamente com o lado forte da bola, há sempre espaço para jogar no lado fraco e uma variação de flanco rápida pode criar desequilíbrios. Isto é verdade, mas uma equipa que joga assim sabe-o. Sabê-lo implica poder atenuá-lo, treinando-o. Carlos Carvalhal uma vez disse que essa era uma realidade com que as suas equipas tinham de saber lidar e que muito da preparação delas passava por reagir ao momento da variação de flanco o mais rapidamente e adequadamente possível. A grande vantagem desta forma de defender é conhecer, em rigor, as suas próprias limitações, o que, em abono da verdade, é o primeiro passo para as corrigir. A capacidade de bascular rapidamente e em sintonia é pois uma das mais importantes tarefas a treinar. Isto leva-me para outra questão. Com um conceito tão rigoroso, que implica a perfeita harmonia entre vários elementos, um treino superficial e teórico sobre a zona não pode ser eficaz. Defender à zona, porque implica uma perfeita relação entre todos os jogadores, porque implica um saber responder a cada um dos comportamentos de cada um dos elementos do todo, não pode ser treinada levianamente. Todo o treino tem de ser preparado em função desta ideia, de modo a criar hábitos, rotinas, modos de pensar e executar. Daí considerar que, para jogar numa defesa à zona pura, tem de se treinar sob o método proposto pela Periodização Táctica. Com outra metodologia, francamente, acho difícil um conceito como este, que necessita de tanta sistematização e que pressupõe um comportamento absolutamente mecanizado, funcionar bem.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Curtas da Jornada 18

1. Paulo Bento apresentou um 442 clássico. Resultado até mudar de ideias: 1-0 para o Belenenses e um deserto de ideias.

2. A melhor oportunidade do Sporting na primeira parte foi cortada para fora por uma cabeçada sem nexo de São Liedson. Carriço tinha tudo para fazer o golo, mas Liedson, desamparado, sem qualquer hipótese de fazer golo, vendo o colega em melhor posição, decidiu lançar-se à bola para lhe tocar de qualquer forma. Boa decisão, sem dúvida.

3. O Belenenses é patético. Defende homem a homem em todo o terreno. Ainda assim, o Sporting fez um jogo miserável e, apesar de conseguir um domínio territorial evidente, não criou oportunidades de golo à excepção de dois ou três remates de longe. Romagnoli, o melhor jogador leonino em espaços curtos, continua inexplicavelmente proscrito.

4. Polga está irreconhecível. A facilidade com que é, constantemente, ultrapassado no um para um é constrangedora. Tonel e Carriço teriam de ser os titulares, neste momento.

5. Miguel Veloso, a lateral, está a ser queimado. Não sei se as suas dificuldades defensivas na posição serão mesmo dificuldades. Lembro-me de vê-lo jogar a lateral esquerdo na selecção de sub-21 e não lhe reconhecia estes defeitos. Creio estar certo quando afirmo que as dificuldades são mais falta de vontade do que outra coisa.

6. Rochemback não tem lugar neste Sporting. E os seus defeitos não terminam com a má forma física. Compreende mal o jogo e as necessidades da equipa a cada momento, é francamente displicente em termos posicionais e não oferece rigorosamente nada ao conjunto. Talvez seja por perceber isto que Veloso anda chateado e por Paulo Bento não perceber isto que o Sporting não joga nada à bola.

7. Postiga tem obrigatoriamente de jogar nesta equipa. Não é pelo golo nem pela assistência; é pela classe, pela tranquilidade, pela imaginação, pela capacidade de decisão e pelo sentido de colectivo que empresta em todos os momentos do jogo. É, com Romagnoli, o melhor leão a funcionar como apoio vertical, coisa de que a equipa necessita como um indigente necessita de pão.

8. Vukcevic é extraordinário. Ao contrário do que muita gente diz, as qualidades do montenegrino não terminam na explosão e na capacidade de resolver individualmente. Para os argumentos técnicos e físicos que possui, é um jogador que decide muitas vezes bem, ao contrário de outros parecidos com ele, como Hulk ou Di Maria.

9. O Porto venceu, mas a coisa esteve tremida. Valeu um argentino pequenino que, para muitos, não vale nada. Farias não é um jogador extraordinário, mas é um ponta-de-lança eficaz, esperto, concentrado, com um instinto de baliza formidável. Dentro da área, é um jogador temível: sabe esperar o momento certo para atacar a bola e perceber o espaço onde ela vai cair como poucos. Fora da área, é banal, mas ainda assim não inventa muito, pelo que não prejudica em demasia a sua equipa. Os pontos de contacto com São Liedson são evidentes, mas enquanto um é Deus, o outro é só um peão descartável.

10. Luis Freitas Lobo, no Domingo Desportivo, disse que Hulk é bom é no meio. Mas também disse que David Luiz é lateral-direito, por isso se calhar é melhor não ligar. Hulk no meio é fraco. Até pode não sê-lo contra equipas que defendem mal, como o Rio Ave, mas contra equipas que defendam mais ou menos, é previsível, fácil de anular, e muito, muito contraproducente. A insistência nos lances individuais é angustiante. Ontem, teve uma jogada que toda a gente gabou. Passou pelo meio de dois, tirou Gaspar do caminho e chutou do meio da rua, atingindo o poste da baliza de Paiva. O que muita gente não percebe é que esta jogada mostra o que de bom Hulk pode dar a uma equipa e, ao mesmo tempo, o que de mau pode oferecer. O bom é, naturalmente, capacidade de arranque, drible e remate forte, ou seja, argumentos individuais. O mau é a tomada de decisão. O primeiro drible, a passar pelo meio de dois adversários, ainda que arriscado, é consequência de não ter apoios, mas a seguir há vantagem numérica. Se o drible sobre Gaspar é uma coisa de recurso, pois o defesa saiu-lhe às pernas, já o remate é um disparate. Após a finta, o defesa-direito do Rio Ave aproxima-se de Hulk para evitar a progressão do brasileiro. Nessa altura, Hulk deveria ter soltado em Mariano, que ficaria isolado, ainda que ligeiramente descaído para a esquerda. Optou pelo remate. Poderia ter dado um grande golo, é verdade. Mas a opção não foi a melhor. E o resultado foi o mais provável. Ou seja, Hulk, apesar de ter a capacidade de provocar desequilíbrios, raramente os aproveita da melhor maneira. Assim, o seu desempenho continua muito aquém do que as suas capacidades individuais possibilitam.

11. Na hora de trocar Fucile, lesionado, Jesualdo introduziu Tomás Costa. Até aqui, nada de estranho. O esquisito foi ter puxado Fernando para a direita e colocado o argentino no meio. Fernando é o principal responsável pelo equilíbrio exibicional que a equipa nortenha atingiu esta época. A sua inclusão na equipa constituiu o maior reforço desta temporada. Abdicar dele ali foi um erro que Jesualdo só não pagou caro porque não calhou.

12. Fábio Coentrão voltou a marcar um golo fantástico ao Porto. Merece, sem dúvidas algumas, uma oportunidade para lutar por um lugar no Benfica na próxima época. É, de longe, o melhor extremo português da sua idade. O que é parvo é, na selecção de sub-21, não ter a notoriedade que têm Bruno Gama, Ukra e Candeias, uma vez que é claramente superior a qualquer um deles.

13. Na Luz, o Benfica mostrou que o bom jogo contra o Porto foi uma excepção. Este Benfica tem a capacidade de ser forte contra grandes, mas é absolutamente banal quando tem de tomar a iniciativa de jogo. Contra uma equipa francamente má e que veio discutir o jogo com uma estratégia muito primitiva, viu-se facilmente manietado. Não teve capacidade para criar superioridade numérica em posse, nem inteligência para evitar a armadilha do fora-de-jogo. Valeu um erro do guarda-redes adversário, para abrir o marcador, e dois momentos de inspiração de Ruben Amorim e Di Maria.

14. Aimar continua a mostrar por que é que os caluniadores são gente sem massa encefálica. É aquele jogador sem o qual o modelo táctico de Quique atingiria o cúmulo da previsibilidade.

15. Carlos Martins arrisca-se a passar ao lado de uma época. Tudo porque as suas qualidades não são minimamente potenciadas por um modelo estupidamente inadequado.

16. Onde jogou Miguel Vítor, essa grande "referência" do Benfica dos dias de hoje?

17. O Braga escorregou. Nada de muito impressionante. A equipa de Jorge Jesus não é o monstro papão que têm feito dela.

18. Manuel Machado, apesar das referências individuais na marcação defensiva, continua a fazer um bom campeonato. Continua a valer Nené, uma das maiores revelações da temporada.

19. Em Itália, amainou a tempestade para o Inter de Mourinho. O campeonato está praticamente no papo, o que pode bem dar a dose de confiança necessária para enfrentar as restantes provas com maior tranquilidade.

20. O Barcelona voltou a empatar, mas é de salientar a forma saudável como conseguiu reagir à desvantagem. As grandes equipas também se vêem nestes momentos.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Descubram as diferenças...

Entre o Sporting que defrontou (e humilhou!) o Porto e aquele que foi copiosamente derrotado pelo Braga (que não foi tão bom como a opinião generalizada tem defendido - note-se que com isto eu não coloco a justiça do resultado em causa, apenas defendo que não foi tanto o mérito do Braga, mas sim o demérito do Sporting), existe um mar de diferenças.

No confronto com o campeão nacional vimos o melhor (de longe!) Sporting da época, até agora.
Com Adrien a exibir-se num plano exepcional como pivot defensivo, rodando o jogo a preceito e emprestando também verticalidade ao jogo do Sporting, ao mesmo tempo que encurtava os espaços entre sectores (retirando com isto espaço e tempo ao adversário, nas suas transições ofensivas), fruto de um posicionamento e leitura irrepreensíveis, o futebol leonino ganhou esclarecimento (algo impossível com Rochemback).

No vértice mais avançado do losango, foi Romagnoli a rubricar uma excelente exibição, tornando o futebol do Sporting fluído, mercê da sua capacidade parar jogar apoiado, de toque simples, mas que muitas vezes passa ao lado do comum adepto. O facto de se preocupar em fornecer os apoios verticais, não se coibindo de jogar entre linhas, não só liberta os médios-interiores como condiciona a maneira como o adversário defende.

Na frente de ataque, coabitou, porventura, a melhor dupla de avançados do plantel leonino. A capacidade de manter a posse de bola, assim como de jogar de costas para a baliza adversária, permitiu à equipa dominar por completo o jogo, fruto da facilidade com que conseguiam jogar durante largos minutos no meio-campo defensivo adversário. Num dos poucos comentários dignos de registo, um dos comentadores comparou a exibição do conjunto leonino a uma equipa de andebol, isto devido à capacidade de girar a bola até conseguir descobrir um espaço para poder provocar um desequilíbrio no adversário.

Com isto, o clube leonino não só conseguiu atacar de forma segura, como conseguiu impedir o campeão nacional de executar as transições ofensivas com eficácia. Resumindo, foi um Sporting organizado, confiante, sem demasiada pressa em chegar à área adversária, circulando a bola entre sectores, estando os mesmos bem próximos, interpretando os vários momentos do jogo de forma colectiva e não dependendo (demasiado) das individualidades para conseguir perturbar o adversário. O individual ao serviço do colectivo, e não o contrário.

Contra o Braga, a derrota começou na inclusão de Rochemback, passou pela opção de prescindir de Romagnoli (Moutinho como 10 baixa em demasia, o que muitas vezes resume o losango do Sporting a um 442 clássico, com todas as dificuldades que isto acarreta para equipa: falta de apoios verticais, dificuldades em atacar de forma apoiada e organizada, etc.). O Sporting abusou do passe longo, foi lento a girar a bola, optou por forçar os ataques, numa primeira fase, pelos corredores mais congestionados em vez de rodar o jogo (o que, se acontecesse, isto é, girar a bola, os ataques seriam mais lentos, numa primeira fase, mas a equipa beneficiaria de uma maior consistência ofensiva, fruto de um melhor posionamento em campo), de maneira a retirar a bola de zonas em que o adversário tem mais facilidade em pressionar, e isto tudo proporcionou um ambiente (muito) favorável à primeira vitória do conjunto bracarense frente a um dos grandes. Mais do que uma grande vitória de Jesus, assistimos, isso sim, a uma grande derrota de Bento.

P.S. César Peixoto à selecção, não? Talvez esteja demasiado velho...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Curtas para fazer pensar

1. Mantorras entrou outra vez e marcou outra vez. Há quem diga que o angolano é o amuleto da sorte da Luz e quem explique a sua produção recorrendo a misticismos, a superstições e bruxedos. Por cá, acreditamos que Mantorras, ainda que não seja um jogador minimamente completo, possui um atributo em que é bastante forte: o instinto de baliza. A capacidade de perceber onde a bola vai cair, a apetência pelo golo e a forma como se aproxima de zonas de concretização sempre que é preciso fazem de Mantorras um jogador talhado para o último toque na bola. Nisto, não é inferior a Liedson. Ou talvez o seja apenas em lances aéreos. Aliás, a sua média de golos nos últimos anos é algo de espantoso: 0,95 golos por jogo. Mas o que importa perguntar é: por que razão é que um é um Deus e o outro é só um coxo por quem grande parte do público nutre afeição e se compadece?

2. O Porto venceu facilmente o Belenenses. Hulk é fortíssimo a jogar contra equipas desorganizadas defensivamente e que defendem ao homem. Contra essas equipas e sobretudo quando descai para uma das linhas, o seu poder de explosão é demolidor. Não são raras as vezes que ganha a linha e cruza atrasado. Dessa forma, pode ser um jogador importante para o Porto. O problema é quando joga contra equipas mais fechadas ou quando anda no meio do ataque. Aí é francamente mau.

3. Há quem ache que uma equipa, quando não consegue resolver as coisas colectivamente, depende das suas unidades capazes de desequilibrar individualmente. Recorrendo a essa teoria, consideram que o Sporting tem menos apetência para solucionar jogos pois tem menos unidades destas do que os rivais. Devo confessar que isto me causa alguma confusão. O problema está em pensar que o colectivo serve o individual. Eu sei que maior parte dos treinadores pensa assim e que constroem o seu modelo para tirar o melhor proveito dos seus atletas. Só que isso é sempre uma estratégia pensada em função das individualidades. Uma equipa a sério deve tentar resolver todos os seus problemas colectivamente. A capacidade para desequilibrar a nível individual deve ser sempre um bónus e nunca a principal fonte de eficácia. É também por isto que o Sporting está a jogar pior desde que Liedson recuperou da sua lesão e passou a integrar regularmente os titulares de Paulo Bento. Não sei quanto tempo esta lesão durará, mas se for caso disso, não demorará para que a equipa, sem Liedson, comece a jogar, em termos colectivos, bem melhor.

4. Nuno Assis fez três golos. Tendo em conta as circunstâncias em que os fez, não é um feito extraordinário. O que é extraordinário é que haja pessoas que precisem que ele faça três golos para lhe darem o devido valor. Às vezes, penso que estas pessoas vão ao estádio e ficam o tempo todo a jogar às cartas.

5. Entretanto, o Porto é o único grande a movimentar-se no mercado de Inverno. Adquiriu, para já, Cissokho, Miguel Lopes e Andrés Madrid. O argentino pode ser útil, embora Fernando esteja de pedra e cal no lugar de médio-defensivo. Quanto aos outros, a única coisa boa que se pode dizer deles é que não serão tiros no pé tão grandes quanto a contratação - a confirmar-se - de Silvestre Varela. Confesso que, ao ler a notícia, fui ao calendário para me assegurar que não era dia 1 de Abril. A única coisa que ainda não percebi é se o Porto contrata por caridade ou se é mesmo para ver se consegue lixar todos os eventuais negócios aos restantes rivais.

6. Lá fora, Raúl igualou o record de golos de Di Stefano. Feito assinalável para um dos melhores jogadores dos últimos anos e que só não foi campeão europeu este Verão porque não o deixaram.

7. O Barcelona soma e segue. Messi é de outra galáxia e está a milhas de toda a concorrência. Não há igual desde Zizou. Ronaldo, na Playstation, quando joga contra o Barcelona, deve aproveitar todos os lances em que Messi conduz a bola para entrar de carrinho sobre ele.

8. Em Itália, o Inter de Mourinho continua a marcar passo. Apesar dos seis pontos de avanço, o "scudetto" parece menos assegurado do que aquilo que se previa há umas semanas. A eliminatória da Liga dos Campeões com o Manchester United será, provavelmente, o jogo decisivo da temporada. Se o Inter conseguir passar pelos actuais detentores do ceptro, a confiança da equipa atingirá os níveis suficientes para enfrentar com tranquilidade uma recta final de temporada que, em caso contrário, não será fácil.

9. Ao mesmo tempo, Quaresma foi emprestado ao Chelsea. É verdade que a relação com os adeptos não era fácil, mas Mourinho poderia ter feito mais. Parece agora que desistiu daquele que denominou um dos maiores desafios da sua carreira, cedendo o jogador. Não sei o que isto significará na carreira do internacional português, mas não ter vingado em Itália, numa equipa treinada por aquele que poderia ter extraído o melhor dele, é sempre um grande revés.

10. Em Inglaterra, Scolari continua sem ganhar jogos grandes e o Manchester agradece. O Liverpool é - parece-me - a única equipa com uma palavra a dizer, no que diz respeito ao campeonato.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Estigma

Aquilo que me apresto a documentar talvez não constitua um choque assim tão grande nos dias que correm, mas não há muito tempo era das coisas mais normais no mundo do futebol. Se pessoas como José Mourinho ajudaram a revolucionar muito da mentalidade que rodeia o fenómeno futebolístico, é certo, porém, que muitos ainda pensam como dantes. É, portanto, a esses que o texto se dirige, mais concretamente.

Um jogador é um todo complexo e não uma adição de partes, de atributos. Para muita gente, um jogador, qualquer que seja, não pode ser bom em muitas coisas; tem de ter virtudes e defeitos, encontrando-se uns em proporção igual aos outros. Ou seja, para esta gente, um jogador com boas qualidades técnicas é necessariamente debilitado em termos de desarme ou de capacidade de pressão; um jogador inteligente é-o necessariamente por compensação de outros atributos que não conseguiu desenvolver. E mede-se cada uma das qualidades de um jogador em função das outras, de maneira a que a soma seja igual em todos. Para muito boa gente, é inconcebível que um jogador seja inteligente, esforçado, tecnicamente dotado e rápido e apressam-se a formar preconceitos e a dizer palermices.

"Se és bom tecnicamente, não podes ser bom a defender porque eu não quero." Esta é mais ou menos a forma como o pensam. E isto acarreta consequências. Mesmo muitos daqueles que julgam não pensar assim, fazem-no. Todos aqueles que acham que Pirlo precisa de carregadores de piano ao lado para fazer o trabalho sujo por ele, ou aqueles que acham que Riquelme precisa de uma equipa a jogar para ele, ou, de uma forma geral, todos os que julgam que uma equipa deve ser montada em função de um ou outro jogador, estão necessariamente a incorrer em preconceitos deste género. Porquê? Porque um jogador não tem apenas os seus pontos fortes. Um jogador que seja muito talentoso pode ter outras virtudes. Da presença de talento num indivíduo não se segue, de modo nenhum, a ausência de outras qualidades. Mas é o que muita gente parece pensar. O maior estigma, no que diz respeito a este tipo de coisas, parece perseguir os jogadores talentosos, embora se possa manifestar noutros jogadores. Quantas vezes a virilidade de um jogador não fez dele, para muitos, apenas um caceteiro? E se essa característica era evidente, não era necessário que todas as outras não estivessem presentes. Ricardo Rocha foi disto um bom exemplo.

Quero, contudo, prender-me na questão do talento, pois creio que é a mais paradigmática. Não é raro que um jogador talentoso seja considerado fraco nos restantes aspectos. Isso deriva, quanto a mim, de um impulso igualitário que, culturalmente e politicamente, parece ter-se impregnado na mentalidade moderna. Parece haver uma necessidade doentia de reabilitar pessoas menos aptas, numa clara posição anti-darwiniana, para a vida social e para todos os fenómenos que a envolvem. A primeira resposta que se deveria dar a alguém que não tem qualquer qualidade futebolística deveria ser: "dedica-te a outro desporto". Mas, numa atitude simpática, porque se vive num mundo que cada vez mais promove a igualdade de oportunidades, concede-se a alguém deste género a oportunidade de jogar futebol. Não tendo um pingo de talento, imagina-se que pode ser útil a fazer o oposto, ou seja, a não deixar jogar. E, de repente, todos podem ser futebolistas, os que têm qualidade e os que não têm, porque uns servem para jogar e outros para não deixar jogar. Este tipo de mentalidade ainda hoje é muito recorrente, embora caminhe já para o ocaso. Por via deste mesmo princípio igualitário, que imagina possível que todo o ser humano seja futebolista, concebe-se então o jogador como uma soma de atributos: os que têm qualidades futebolísticas, têm bons atributos para jogar; os que não têm qualidades, têm bons atributos para não deixar jogar. E, através desta forma de socialismo barato, todos estão em pé de igualdade, De repente, numa actividade para a qual é necessário, como para qualquer actividade, engenho e arte, todos estão em podem exercê-la, independentemente de possuirem ou não esse engenho e arte. Esta é uma forma contra-natura de estar no mundo.

Vivemos, quer queiramos, quer não, num mundo regido pela lei do mais forte. No futebol, como em tudo, são os mais aptos que vingam. Jogadores como Bynia não deveriam estar no mesmo plantel que jogadores como Aimar, pura e simplesmente porque um não tem qualidade e o outro tem. Mas como se concebe o futebol como um jogo de equilíbrios, em que uns fazem umas coisas e outros fazem outras, em que uns fazem um determinado tipo de trabalho e outros outro, isto torna-se possível. Ora bem, um jogador talentoso não vive necessariamente apenas do talento; pode bem ser muito hábil noutras coisas. Muitas vezes, até, um jogador com excelentes recursos técnicos, é aquele que, reflectindo nas suas capacidades, melhor perceberá o modo de travar outros jogadores com recursos parecidos.

Só para dar alguns exemplos, Romagnoli e Carlos Martins são jogadores reconhecidamente talentosos. Mas nem um nem outro gozam de particular afeição no que toca aos restantes aspectos do jogo. De Romagnoli diz-se que é um jogador frágil, defensivamente inútil, que marca poucos golos, etc. É verdade que Romagnoli, em termos físicos, não é um jogador muito dotado, mas tem atributos intelectuais notáveis que fazem dele muito mais do que um jogador habilidoso. Se é verdade que não é muito agressivo a responder directamente à posse de bola adversária, não sendo o principal responsável por recuperações de bola da sua equipa, tem outras virtudes, mesmo em termos defensivos, que muitos parecem ignorar. Antes de mais, é seguramente o jogador que mais quilómetros percorre, na equipa leonina. O trabalho invisível do argentino é geralmente negligenciado pela maioria das pessoas, mas a verdade é que, sobretudo quando a equipa tem a bola, é o jogador que melhor e mais trabalha sem bola, quer abrindo linhas de passe, quer promovendo superioridade numérica em determinadas zonas do campo, quer procurando zonas de menor densidade do adversário. Depois, em termos defensivos, ainda que não seja através de movimentos agressivos, posiciona-se extraordinariamente bem, ocupando espaços que obrigam o adversário a progredir para determinados sítios e que facilitam zonas de pressão a outros companheiros, normalmente aos avançados que recuam ou aos interiores do losango. Por tudos isto e também por aquilo que faz a equipa jogar, quando tem a bola, não se limitando a lances de génio, a últimos passes ou a dribles vistosos, mas fazendo, geralmente, o mais útil em cada momento, é inconcebível que Romagnoli seja considerado apenas um jogador talentoso. É muito mais do que isso. O que vou dizer parecerá surpreendente e errado a muita gente, mas a verdade é que Romagnoli é muito mais operário que jogadores a quem, usualmente, se reconhece essa característica, como seja o caso de Bynia ou Liedson. E isto porque o trabalho que faz, ainda que menos vistoso, é bastante mais útil à equipa. Aliás, nesse aspecto não é muito diferente de Lucho Gonzalez, embora este goze de uma admiração a toda a prova e ninguém ouse dizer que defende pouco.

É, por isso, um preconceito enorme considerar que jogadores talentosos não podem, por natureza, ser bons noutras coisas. Podem-no e muitos são-no. Também é verdade que há jogadores que são apenas talentosos. Mas não se pode generalizar. Do mesmo modo, também há médios aguerridos que têm mais virtudes para além da capacidade de luta. Moutinho - toda a gente reconhece - é um jogador talentoso e, ao mesmo tempo, lutador. Mas Yebda, que é um jogador do qual o atributo que mais rapidamente salta à vista é a capacidade de luta, tem mais do que isso e é um jogador inteligente, com boa qualidade técnica. Tal como Raúl Meireles. E com um jogador inteligente passa-se o mesmo. Não se é inteligente apenas por não se ter mais nada. Não existe um número finito de pontos que se distribuem pelos diferentes atributos dos jogadores. Quando se olha, por isso, para um jogador talentoso, não se deve olhar para ele como um jogador talentoso, mas como um jogador no seu todo. Porque é isso que ele é. Deve-se, por isso, parar de vez com a definição de jogadores através dos seus atributos mais salientes e procurar ver neles tudo o que possuem. É por causa deste tipo de observação superficial, que gosta de colocar rótulos em atletas, que há tantos erros em contratações. É também por causa dessa forma errada de ver as coisas que muitos jogadores com excelentes qualidades são rapidamente amaldiçoados pelos adeptos. Porque Nuno Gomes falha demasiados golos, não presta; porque Romagnoli é frágil, não presta; porque Carlos Martins não contribui, de modo decisivo, para nada, não presta; porque Farnerud tem processos simples e lentos, não presta. E, ao contrário, endeusam-se figuras com base em um ou dois atributos, ignorando-se os restantes, como seja o caso de Hulk, Liedson e Pelé. Isto não é assim. Um jogador é uma criatura complexa, e os mais completos são os que têm mais atributos e não os que têm os atributos mais espalhafatosos.

É errado, portanto, de um modo geral, dizer de um jogador talentoso que precisa de jogadores de características completamente opostas para fazer o que ele não sabe. Muitas vezes, os jogadores talentosos não precisam de ninguém para isso. Veja-se Iniesta e Xavi, no Barcelona, por exemplo. Porquê? Porque são mais do que jogadores talentosos; porque possuem outras características além da sua característica dominante. Enquanto não se perceber isso, dificilmente se saberá, por exemplo, apreciar as qualidade de um jogador ou todo o seu potencial.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Febre dos estúpidos

Este blogue teve sempre uma posição feroz e, de certo modo, exagerada contra Liedson. É evidente que o avançado leonino não é o pior do mundo. No entanto, pareceu-nos sempre e continua a parecer que está excessivamente sobrevalorizado. Aliás, com o actual plantel do Sporting, Liedson, para nós, só muito dificilmente seria titular. Nesta conjuntura, é-nos igualmente incompreensível que seja, desde há muito, considerado melhor que Nuno Gomes, Hélder Postiga ou Óscar Cardozo, por exemplo. Mas se equipará-lo a estes ou a outros como o austríaco Linz ou o camaronês Meyong já nos parece francamente discutível, entender que possa ser melhor que Lisandro Lopez ou David Suazo é uma idiotice profunda ou um sintoma de demência.

Se, até agora, apenas desconfiava que essa era a ideia de muito boa gente, depois da votação levada a cabo pelo jornal A Bola, não restam dúvidas: a maioria dos portugueses acha que Liedson é não só o melhor avançado a jogar em Portugal, o que por si já era estúpido, mas também o melhor estrangeiro, à frente de Reyes, Aimar, Katsouranis, Suazo, Lucho, Lisandro, Izmailov, Vukcevic, Rochemback, Romagnoli e Polga, só para dar alguns exemplos. Se é verdade que uma votação deste tipo é condicionada pela quantidade de adeptos do Benfica que, muito provavelmente, terão votado, o que explica, de certo modo, a ausência dos argentinos do Porto, não deixa de ser preocupante que, mesmo nessas circunstâncias, Liedson tenha ficado à frente de todos os estrangeiros a jogar no clube da Luz.

Explicações pode haver muitas: 1) Liedson angariou boa parte dos votos de benfiquistas que, de modo reprovador, consideram que o "Levezinho" é o único sustento do Sporting, o que faria da votação uma forma de achincalhar o "eterno rival"; 2) Portugal continua a viver sob a égide de uma doença mental chamada (como tão bem referiram António José Saraiva e Eduardo Lourenço) Sebastianismo e Liedson é o mais recente produto dessa epidemia colectiva, saudosa e obsessiva, que procura em cada esquina um Messias que os anime; 3) Quem tem opiniões sobre futebol é, na sua esmagadora maioria, estúpido. Gosto especialmente da terceira, até porque é, para mim, o adjectivo que melhor define quem acha que Liedson pode sequer ser comparado a Lisandro ou a Suazo.

À votação d'A Bola poderíamos ainda acrescentar outra votação, esta feita num espaço frequentado por gente bem mais erudita, sapiente e isenta. E a verdade é que o resultado é o mesmo. Liedson a presidente!, digo eu. Por que não? O que estas duas votações mostram, ao contrário do que essa maioria erudita, sapiente e isenta pensa, não é que Liedson é o melhor avançado português; o que mostra é que, na sua grande maioria, essa gente erudita sapiente e isenta, ou seja, quem vê futebol em Portugal, é imbecil. Só num país como este é que um jogador da qualidade de Liedson poderia ter o prestígio que tem. Lisandro vai à selecção argentina já com relativa regularidade, mesmo quando a selecção das pampas tem, para o ataque, homens como Messi, Aguero, Tevez, Crespo, Julio Cruz, Saviola e Diego Milito, só para dar alguns exemplos. Já Liedson, apesar do deserto de talento (quando comparado com o argentino) que é o ataque brasileiro actualmente, nem sequer entra nos planos do seleccionador brasileiro. Deve ser perseguição. Só pode. Afinal, se Liedson é melhor que Lisandro, não será também melhor que Alexandre Pato, Rafael Sóbis, Luís Fabiano, Adriano, Fred, Jô? E o Real Madrid, que pretende contratar Lisandro? São estúpidos ou quê? Vão contratar um gajo que nem sequer é o melhor na sua posição em Portugal? E Suazo, que é dos avançados com melhor reputação no Calcio e que discutiu a titularidade, no ano transacto, com Crespo e Júlio Cruz no Inter, também é inferior a Liedson. Aliás, se Ibrahimovic, Fernando Torres, Drogba e Berbatov viessem jogar para Portugal, tenho a certeza que Liedson continuaria a ser o preferido dessa gente erudita, sapiente e isenta.

Já foi amplamente discutido aqui, mas talvez valha a pena recordar novamente quais os argumentos defendidos por quem gosta de Liedson. São apenas dois: marca mais golos que os opositores; tem um espírito de sacrifício inigualável, correndo sem se cansar atrás dos adversários durante os 90 minutos. Quanto aos golos, além de a sua marca estar francamente inflaccionada (tem uma média de golos de apenas 0,58 golos por jogo, o que faz com que a capacidade concretizadora de Liedson não ande assim tão distante da de Nuno Gomes, por exemplo, que, no mesmo período, sabendo-se que o avançado do Benfica não é um grande finalizador e que se lesiona mais regularmente, o que implica mais momentos de forma menos bons, tem uma média de 0,43 golos por jogo), basta dizer que marcar golos é apenas a fase final de um processo muito longo e que, quem o faz não tem, na grande maioria das vezes, nem um terço da responsabilidade dos mesmos. Liedson é relativamente bom nessa fase final, nesse gesto de empurrar a bola para a baliza, mas é medíocre no resto. Além disso, a grande maioria dos golos que marca são de execução fácil, tendo maior mérito apenas na forma como consegue antecipar o desfecho da jogada e surgir, no momento exacto e no local exacto, para marcar. Nisso, de facto, é bom. Mas a irrelevância disso, num jogo de futebol, é directamente proporcional à quantidade de vezes que tem possibilidade de acontecer. Em 90 minutos, essa situação ocorre três ou quatro vezes. Tudo o resto em que Liedson é abaixo da média ocorre em proporções colossalmente maiores. O ser capaz de aparecer na zona certa é, por isso, um atributo claramente escasso para um jogador de topo. E é o único atributo digno de registo que Liedson tem. No resto, é miserável. Quanto ao correr muito não significa que corra bem. Aliás, Liedson corre mal. Não corre na hora certa nem para os sítios certos. As suas tão gabadas acções defensivas são actos irreflectidos que, não raro, prejudicam a própria equipa. Alegar que participa positivamente no aspecto defensivo do jogo é não saber o que é o aspecto defensivo do jogo. Liedson tem disponibilidade. Mas se não souber usar essa disponibilidade, é só uma barata-tonta. Quer dizer, uma barata-tonta nem prejudicaria tanto a sua equipa, nesse capítulo.

Para finalizar, Liedson é um jogador banal, um jogador bom num aspecto do jogo, mas muito mau em todos os outros. Compará-lo a Lisandro e a David Suazo, principalmente, é de gente doida. Haver tanta gente a pensar o mesmo é uma espécie de surto de febre. Mas não se trata de uma febre qualquer; é uma febre de estupidez. Em tempos, também se pensou que a evolução das espécies se dava por transmissão de características aos descendentes. Segundo essa teoria, um determinado animal desenvolvia, ao longo da vida, uma certa aptidão e depois passava-a aos seus descendentes. Por exemplo, a girafa, originariamente, seria uma espécie de cavalo, com um pescoço curto. À medida que a vegetação da savana foi sendo mais escassa, cada girafa tinha de se esticar o mais possível para chegar à folhagem mais alta. Durante a sua vida, a girafa aumentava o tamanho do pescoço o suficiente para chegar à folhagem que lhe permitisse sobreviver, passando depois essa alteração fisionómica à descendência. Com a sucessão das gerações, a girafa teria então passado de um animal de pescoço curto para um animal de pescoço comprido, tendo o tamanho do pescoço aumentado gradualmente em cada geração. Depois veio Darwin e a Selecção Natural e mandou isto tudo às urtigas. Nesta história toda, Liedson pode bem ser a girafa (embora a mim me pareça mais um guaxinim), enquanto os palermas dos seus admiradores farão bem o papel dos que se empertigaram contra Darwin.

P.S. Sem ter nada a ver, apenas uma curiosidade. Em 6 meses, Pelé é dispensado por Mourinho e Jesualdo Ferreira. O Entredez não percebe mesmo nada de futebol.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sondagens (11)

À pergunta "Quem é o jogador tecnicamente mais evoluído da Liga Sagres?" responderam nada mais nada menos que 100 pessoas. Pablo Aimar, o astro argentino, liderou a votação, destacadíssimo, com 38 votos. Não esperava outra coisa, ainda que esta sondagem visasse perceber uma outra coisa. Em segundo lugar ficou o portista Lucho Gonzalez, com 13 votos, e, em terceiro, o seu colega de equipa Hulk, com 12. Jose António Reyes averbou 11 votos, Marat Izmailov 8, Simon Vukcevic 6, Hélder Barbosa e Ricardo Nascimento 3, Angél di Maria 2 e Wesley e João Moutinho 1. De realçar ainda os 2 votos noutros jogadores. Léo? Lisandro? Liedson? Hugo Leal? Aquilo que, contudo, importava perceber era o que se entende por "tecnicamente mais evoluído". Na minha acepção, será aquele que tem melhor relação com a bola, aquele que consegue fazer as coisas em espaços mais pequenos, que interage com a bola com maior facilidade, aquele que executa à velocidade que pensa. Nesse sentido, um jogador de drible mais comprido como Hulk ou Di Maria jamais seria incluído nas primeiras escolhas. Apesar de admirar muitíssimo Lucho Gonzalez, reconheço-lhe algumas limitações a nível de drible, sobretudo, sendo um jogador que necessita de pausar as suas acções. Tecnicamente, é muito bom, mas não é um jogador extraordinário em espaços curtos. A sua virtude é saber encontrar o espaço certo para poder executar. Já Pablo Aimar tem essa capacidade. Mas também não foi para ele o meu voto. O jogador que, para mim, mais impressiona em termos técnicos, nesta liga, é o russo Marat Izmailov. Surpreendentemente, pois achava que era uma coisa só minha, outras 7 pessoas votaram nele. É notável a velocidade com que executa em espaços reduzidos, o conforto das suas recepções, o equílibrio, a capacidade de drible como recurso. Mas o mais impressionante talvez sejam as suas mudanças de direcção, como se fosse feito de plasticina. Aquele drible de simular o remate e mudar de direcção, fá-lo com uma perfeição e com uma velocidade sem igual desde Nani. E essa competência é das coisas que revela maiores dotes técnicos num jogador. Não sendo, depois, um jogador extraordinariamente criativo, imaginativo, ficando, nesse capítulo, a perder para Lucho, Aimar e Romagnoli, por exemplo, Marat Izmailov merece, porém, este destaque.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Rolo Compressor

Chegou ao fim a primeira volta na Liga Espanhola e o Barcelona de Guardiola bateu o record da equipa com maior número de pontos numa primeira volta do campeonato: 50 pontos. Com um jogo a mais, tem 15 pontos de diferença para o segundo, é o melhor ataque com 59 golos marcados (mais de 3 por jogo, em média) e a melhor defesa, com13 sofridos. Esta noite, esmagou o Deportivo da Corunha de Zé Castro, equipa que ocupa o sétimo lugar e tem ambições europeias, por uns esclarecedores 5-0. Mas, mais do que o resultado, impressiona a facilidade com que a equipa troca a bola, a incapacidade do adversário em ter bola, a asfixiante pressão alta. O Deportivo não criou uma única situação de golo.

Se pensarmos ainda que 5 dos 7 pontos perdidos pelo Barça foram perdidos nas duas primeiras jornadas do campeonato, altura em que os processos colectivos ainda não estariam certamente mecanizados, maior se torna a dimensão deste feito. A equipa de Guardiola não está só a jogar um bom futebol; está a jogar um futebol demolidor. Quando, após aqueles dois maus resultados no início da Liga Espanhola, o Barcelona venceu o Sporting por 3-1, num jogo em que o Sporting pouco atacou, muitos criticaram a equipa lisboeta, afirmando que o Barcelona estava em crise e que não se admitia, por isso, que o Sporting fosse tão humilhado. Na altura, pareceu-me desde logo que esta gente se precipitava. Mais do que demérito do Sporting, era evidente que o Barcelona não era uma equipa qualquer. A facilidade com que saía de zonas de pressão, a capacidade para trocar a bola rapidamente entre três ou quatro adversários, a ocupação perfeita dos espaços e a forma asfixiante como pressionava deixava antever tudo o que se passou a seguir: uma primeira volta praticamente imaculada.

A grande virtude deste Barcelona não está no génio individual dos seus jogadores. É verdade que todos eles são muito talentosos e é verdade que, com Messi, tudo é mais fácil. Mas alguém duvida que este Barça, mesmo sem Messi, estaria em primeiro? O que faz da equipa de Guardiola uma grande equipa é um conjunto de coisas do qual a capacidade individual dos elementos que a compõem é apenas uma pequena parte. O que é, de facto, fundamental, é a filosofia de jogo, a cultura táctica, a organização e a inteligência. O Barcelona é hoje uma equipa dotada de grandes valores, sobretudo, mental e intelectualmente. Não há, praticamente, nenhum jogador que não seja rápido a pensar. O futebol de toque curto constante não é só mais uma característica; é um sintoma - um sintoma de inteligência. Uma equipa que tenha a facilidade de jogar em espaços curtos com a eficácia com que o Barcelona o faz é uma equipa, do ponto de vista ofensivo, saudável. Por menos espaço que haja, a equipa arranja forma de passar por lá. Enquanto outras equipas andam à volta, à procura de espaço, o Barcelona entra pelo buraco da agulha. E desfaz defesas como quem respira.

Uma das coisas mais espantosas é a forma despreocupada com que a equipa joga. Não raro, vemos um jogador a passar a bola a outro que tem um adversário perto, sem medo que o colega a perca. Não são muitas as equipas que têm capacidade de fazer isto, de arriscar isto. Muitas vezes, perante marcações apertadas, a opção é jogar mais comprido, ou atrasar, ou lateralizar. No Barcelona não. O Barcelona é, de certeza, a equipa no mundo que mais passes verticais faz. E isto porque existe uma confiança no colega e na capacidade de decisão do mesmo que normalmente não existe. Quando um médio-ofensivo recua para receber um passe vertical de um defesa, traz consigo uma marcação, mas mesmo assim a bola é-lhe dada. Ao fazê-lo, é-lhe colocada a responsabilidade de decidir bem, de devolver a bola ou de segurá-la, de tocar para o lado para outro colega ou de receber e de se virar para o adversário. Mas esta atribuição de responsabilidade implica igualmente uma coragem inegável em quem faz o passe. O Barcelona troca tão bem a bola porque não há medo de perdê-la, porque se confia na inteligência do colega. E a equipa, assim, progride com segurança no campo, desposicionando o adversário e enervando-o. O carrossel dos catalães é apenas o resultado duma equipa mentalmente forte e de uma equipa inteligente. Depois, na fase defensiva, a capacidade de pressão é igualmente invejável. Mas o segredo está na capacidade criativa de todo o conjunto, desde o guarda-redes ao avançado. O Barcelona é o que é porque todos os seus jogadores pensam de maneira parecida, de uma maneira arrojada, criativa, clara. O Barcelona joga com a cabeça. Não tem jogadores atleticamente fortes, nem velocistas. Tem jogadores dotados tecnicamente e, sobretudo, dotados intelectualmente. Em termos de tomadas de decisão, são a equipa mais formidável de que me lembro. Este Barcelona, por tudo isto, por esta singular capacidade de dominar o jogo com a bola em seu poder, fazendo-a rodar por todos os seus jogadores com uma facilidade ímpar, como se estivesse sem adversário em campo, progredindo quando tem de progredir e reservando-se quando tem de se reservar, é o protótipo de equipa perfeita e joga o futebol que o Entredez, desde sempre, tentou defender.

Ao fim de 6 meses, posso dizer que Guardiola me enche as medidas. A partir de hoje, está, para mim, entre aquela pequena elite de treinadores que considero fora do vulgar. Antes de finalizar, gostaria, contudo, de partilhar um raciocínio, na forma de uma pergunta. Alguém acha que o Barcelona conseguiria jogar este tipo de futebol - um futebol de toque curto, um futebol que fornece, regularmente, ao portador da bola, dois ou três apoios, um futebol inteligente, capaz de sair de situações de inferioridade numérica com uma facilidade assombrosa, um futebol que põe o adversário a correr atrás da bola, circulando-a a toda a largura e a todo o comprimento do campo, indo à frente, voltando atrás, indo à esquerda, voltando à direita, um futebol que cansa só de ver, um futebol que é o que de mais parecido com arte este desporto pode oferecer - poderia o Barcelona jogar este tipo de futebol noutro esquema táctico, por exemplo, num 442 clássico?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Arbitragem de Paulo Baptista

Muito se tem dito, nos últimos dias, sobre a arbitragem do passado fim-de-semana na Luz. É verdade que o senhor Paulo Baptista errou. É verdade que errou várias vezes. É verdade que errou em benefício do Benfica. É verdade que isso influenciou o resultado. Mas também é verdade que nada disto é novo. O exagero irracional de metade dos comentários sobre estes acontecimentos roça a estupidez. Paulo Baptista não esteve pior que maior parte dos árbitros que temos no nosso futebol.

Não vi o jogo na íntegra, mas arrisco-me a dizer que não esteve pior que Pedro Henriques no jogo frente ao Nacional. Porquê? Porque aquilo de que se queixam são de lances capitais. Dois ou três, no máximo. Há um problema grave no que toca a deliberar sobre a actuação de um árbitro num determinado jogo. Se o árbitro tiver feito um jogo exemplar, mas errar num lance considerado capital, é imediatamente creditado como mau. Ora, isto não faz sentido. Apesar de um penalty poder decidir um jogo ou de um golo mal anulado ter influência directa no resultado, não deixa de ser um lance cuja análise requer tanta atenção e perícia quanto uma jogada a meio-campo. E o problema começa aí. É verdade que a existência desse tipo de erros é aquilo que permite, de uma forma directa e clara, afirmar que uma equipa foi prejudicada ou beneficiada. Mas errar nesses lances não implica ser pior do que quem erra noutros lances. O senhor Pedro Henriques, por exemplo, com quem comparei o senhor Paulo Baptista, teve apenas um ou dois lances capitais em que errou, no dito jogo com o Nacional, mas a sua exibição, em termos globais, foi escandalosamente má. Aquele que é visto como o melhor árbitro português, para muitos, assenta a sua arbitragem num critério estúpido e inadequado. O que Pedro Henriques faz não é o que um árbitro deveria fazer, ou seja, fazer cumprir regras; o que ele faz é interpretar regras. Um árbitro que interpreta é uma contradição em termos. Arbitrar significa fiscalizar o cumprimento das regras; não significa interpretá-las. Pedro Henriques acha que o futebol é uma coisa que não é e deixa jogar para além do admissível. O problema deste tipo de interpretações é que não consegue suster a coerência. No jogo mencionado, por exemplo, foi perfeitamente visível uma discrepância de juízos no que toca a acções defensivas e ofensivas. Pelo critério largo de Pedro Henriques, aos defesas era permitido disputar as bolas usando o físico muito para além do permitido, mas aos avançados o mínimo toque no defesa era considerado falta. Não foram poucas as vezes que assinalou infracções ao mínimo toque de um avançado do Benfica num defesa do Nacional que tentava sair para o ataque. Ora, tendo em conta o critério que defende, isto não poderia ser considerado falta. Mas foi. Sistematicamente. O que este tipo de arbitragem faz é que haja um maior equilíbrio entre quem ataca e quem defende, pois quem defende é mais protegido. Num jogo apitado por Pedro Henriques, a diferença de qualidade futebolística entre duas formações é sempre atenuada pela sua arbitragem e uma equipa com menos argumentos técnicos pode sempre fazer uso de argumentos menos futebolísticos para se equiparar ao adversário. A arbitragem de Pedro Henriques foi, por isso, e não por ter invalidado aquele golo, francamente displicente. Já a de Paulo Baptista tem causado maior alvoroço porque ficou ligada a lances de maior importância. Dentro dos mesmos, apenas considero errado não ter assinalado penalty naquela entrada perfeitamente imbecil de Luisão e o fora-de-jogo não assinalado a David Luiz, que deu o golo ao Benfica. Quanto ao penalty sobre Di Maria, nem sequer percebo qual é a dúvida da falta. Quando muito, poderia colocar-se a questão de ser obstrução e, consequentemente, livre indirecto dentro da área. Mas que há falta, há: Mossoró desiste completamente da bola, colocando, de forma deliberada, o corpo à frente de Di Maria. Agora, não se pode falar apenas de uma má arbitragem de Paulo Baptista. É verdade que a arbitragem não foi boa e que o senhor em questão tem culpa disso, mas é também vítima de tudo o que se passou antes, da péssima arbitragem do senhor Pedro Henriques e do clima de suspeição em que vive o nosso futebol. Depois da arbitragem de Pedro Henriques, nenhum árbitro no mundo viria à Luz de cabeça fria, capaz de tomar decisões imparciais quando tivesse dúvidas. Depois do que aconteceu, em caso de dúvida, seria sempre a favor do Benfica. E seria assim porque se trata de um clube grande, com grande projecção mediática. Quando se diz que os grandes clubes são mais beneficiados que os pequenos, não é porque os árbitros prefiram os grandes aos pequenos. É porque os grandes são mais falados e a mediatização que os envolve provoca pressões que um árbitro dificilmente é capaz de ignorar. Apitar aquele fora-de-jogo ou aquele penalty e depois vir a verificar que afinal se tinha enganado a desfavor do Benfica acarretarria, para Paulo Baptista, uma ruína muito mais grave que a actual. Isso é óbvio.

Resumindo, os erros de Paulo Baptista existem, são normais e só a conjuntura do nosso futebol e a existência constante de casos fazem com que se exagerem os mesmos ao ponto da insanidade. Além disso, continua a ser dada importância exagerada a lances capitais quando a qualidade de um árbitro deve ser medida de igual modo em todos os lances do jogo. Enquanto assim for, nem os árbitros têm condições para melhorar, nem a avaliação dos mesmos será condizente com o seu real valor.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Fala quem sabe...

Só para encher chouriços, os momentos mais importantes de uma entrevista com Deus:

1. "Mourinho è uno splendido comunicatore, molto bravo a caricare il suo ambiente e a mettere pressione sugli avversari."

Enquanto os outros enfiam a carapuça com o que Mourinho diz, São Alessandro diz que é sinal de que ele é bom. Perspicácia.

2. "La Champions ha un fascino unico. E poi avendone vinta solo una contro 5-7 scudetti se dovessi scegliere la preferirei anch’io."

A Juventus aponta baterias à Champions. Scolari que se cuide, assim como os restantes adversários. Com um bom reforço de Inverno (já se falou em Diego), não sei, não...

3. "Si parla sempre di Cristiano Ronaldo ma Rooney è straordinario."

O quê? Quem és tu para te atreveres a comparar o Rooney com o primeiro, o segundo e terceiro melhor do mundo num só?

4. [Sobre o Barcelona] "Gioca davvero bene e ha Messi che probabilmente è il più forte in assoluto."

Messi, o melhor do mundo, em termos absolutos? Quem sabe, sabe...

5. [Quando inquirido sobre o porquê de, aos 34 anos, estar a fazer uma das suas melhores épocas] "Dipende dai muscoli, che stanno bene. E dalla testa: dentro c'è tanta voglia di vincere."

Reforço a parte "dalla testa". Para Del Piero, parte da sua boa produção depende da cabeça, isto é, da inteligência.

6. "Il mio tiro è un po’ cambiato rispetto al passato. Ho dovuto adeguarmi al fatto che oggi i portieri sono più bravi; e poi mi alleno molto con barriere che stanno a 8 metri e non ai canonici 9,15 perché in campo la distanza regolare viene fatta rispettare poco."

Os grandes são aqueles que se adaptam às necessidades. É por isso que Del Piero continua na alta roda do futebol europeu. Destaco o facto de treinar os livres com barreiras colocadas a oito metros.

7. "Sonia è straordinaria. Tra noi è stato un colpo di fulmine. L'ho vista in un bar e... Ho cominciato a corteggiarla mandandole dei fiori. Lo faccio anche adesso. Credo che quelli di oggi siano più importanti di allora."

Dentro de campo, é um "gentleman". Fora, ao que parece, não é diferente. É como o outro: dentro de campo, faz gestos para a bancada a dizer que é o número 1; fora do campo, espatifa carros de alta cilindrada.

8. "andare ai Mondiali è un mio obiettivo."

Teremos Pinturrichio na África do Sul? É eterno...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Coisas do estúpido futebol que temos

1. António Tadeia, no Domingo Desportivo desta semana, quando inquirido sobre se a equipa apresentada por Paulo Bento, na última jornada, era a melhor do Sporting, respondeu que tinha dúvidas sobre o companheiro de Liedson. Segundo o douto senhor, Postiga deveria ser mais utilizado nos jogos em casa do que nos jogos fora (até porque toda a gente sabe que fora o Sporting joga contra 13 adversários e em casa apenas contra 11) e o seu argumento é - e agora vem o momento "Por que é que eu falo quando deveria estar caladinho? - Postiga "estraga muito jogo ao Sporting". Para António Tadeia, Hélder Postiga - e parafraseio - "é muitas vezes apanhado em fora-de-jogo", "enrola demasiado o jogo da equipa" e "mexe-se muito de um lado para o outro e retira, com isso, espaço a Liedson". Tenho uma palavra para o senhor António Tadeia: "Óculos". Ou isso ou Liedson é de tal maneira perfeito que quando é apanhado em fora-de-jogo ou a enrolar o jogo tem a capacidade de se metamorfosear em Hélder Postiga. Mas brilhante, brilhante, é o facto de Hélder Postiga "estragar" jogo por se mexer muito e cair em zonas do Liedson. Tenho impressão que, também aqui, António Tadeia confundiu Liedson com Postiga - o que é normal, visto que eles são parecidos -, mas mesmo que assim não seja, que raio de Deus é que Liedson é para que todos os espaços do campo lhe pertençam? Queres ver que o segredo do Sporting seria passar a jogar só com Liedson, de modo a que os colegas não lhe retirem espaço? E que mais tem o Postiga de mal? Mau hálito? Problemas de gaguez? Não ser igualzinho a São Liedson? Ai, ai, os mentecaptos...

2. O Sporting fez um jogo razoável, embora Moutinho tenha estado acima dos companheiros, e depressa voltaram as antigas vozes irritantes que afirmam que a melhor posição de Moutinho, no losango, é a 10. Sempre que se disse isto, no passado, as seguintes exibições de Moutinho trataram de refutá-lo. Mas elas insistem. Embora Moutinho possa jogar ali, e o faça com relativa facilidade, não é ali que mais pode render, nem é o melhor jogador do plantel naquela posição. Uma das razões para se dizer isto é porque Moutinho fica mais livre de tarefas defensivas e ocupa zonas mais centrais, onde pode fazer uso da sua visão de jogo. Além disso, com isto, possibilita-se que se jogue com Izmailov e Vukcevic nas alas do losango, o que para esta gente é sinónimo de maior largura. Desmistificando coisinhas: 1) num 442 losango, os alas do losango são médios interiores, devem ser jogadores capazes de ocupar espaços centrais e não flanqueadores; 2) Moutinho é um jogador extraordinário, com uma inteligência invulgar, com boa visão de jogo, mas falta-lhe alguma criatividade (nesse sentido, Romagnoli é um jogador que desequilibra com muito mais facilidade naquela posição); 3) o facto de jogar a 10 não iliba Moutinho de tarefas defensivas (tem tantas como na outra posição, ainda que em posições diferentes); 4) jogar com Moutinho numa ala só pode ser danoso para as características do jogador se se entender que os alas de um losango têm mais tarefas exteriores que interiores, o que não é verdade. 5) Jogar com um jogador mais agressivo a 10 para compensar o facto de se jogar com outro menos culto tacticamente noutra posição do losango é uma forma de pensar uma equipa em termos individuais, como uma balança, levando-se a fantasia de um prato da balança para o outro e compensando movendo a cultura táctica no sentido inverso, para equilibrar os pratos.

3. Liedson fez uma primeira parte notável, frente ao Setúbal. Sem ironias. A sério. Quase sempre que tinha a bola, decidia bem; raramente tentou resolver as coisas sozinho, ainda que estivesse a quilómetros da baliza, como é hábito; a sua prioridade foi sempre procurar um colega e não driblar; soube perceber o momento certo para soltar a bola, etc. Muito bem. Com isso, participou activamente nos dois golos da equipa. E tê-lo-ia feito mesmo que não tivesse sido ele a finalizar o lance do primeiro, porque o momento chave do lance é o seu passe para Abel. Ou seja, Liedson teve uma participação positiva em dois lances de golo, coisa raríssima nele, se exceptuarmos a finalização dos lances. Além disso, teve em muitos outros lances de ataque da equipa, permitindo desenvoltura ofensiva à mesma. Não emperrou, como habitualmente faz, o ataque do Sporting. Infelizmente, este Liedson dura pouco. Na segunda parte, voltou ao mesmo de sempre, voltou à banalidade sofrível de um jogador com poucos argumentos para rivalizar com os melhores avançados do nosso campeonato.

4. Bruno Gama - dizem - fez uma boa exibição e começa a mostrar sinais de evolução. Sim, talvez tenha feito uma boa exibição. Mas sinais de evolução não os vejo. Foi dos jogadores mais inconformados, é verdade. Foi aquele que se calhar mais remates tentou. Mas não é um jogador extraordinário. Teve o mérito de não tentar passar tantas vezes no um para um (as que tentou, falhou), como tentava, mas pouco mais. O único movimento individual digno de registo são as suas diagonais para o meio, pouco eficazes, porém. Esteve menos individualista do que é costume, mas continua a não revelar um talento invulgar. É um jogador veloz, com uma capacidade técnica razoável, mas não creio que tenha capacidades para algum dia jogar num grande ou chegar à selecção nacional. Nesse capítulo, continua a ficar a anos de luz de Hélder Barbosa, que fez mais um magnífico jogo contra o Benfica; continua a não ser muito diferente de Vieirinha, Ivanildo, Diogo Valente, etc. E, como disse Luís Freitas Lobo durante o jogo, começa a ser tarde para Bruno Gama explodir.

5. Olegário Benquerença foi o árbitro do Setúbal-Sporting e, uma vez mais, mostrou uma falta de classe absolutamente contraditória com a distinção de melhor árbitro português com que o estatuto europeu o define. A expulsão de Daniel Carriço é uma barbaridade. São duas faltas no meio-campo, derrubes ou rasteiras, sem intenção de aleijar, e que não constituíam jogadas de perigo. É verdade que aceito que se mostre amarelo nessas situações. Mas, para fazê-lo, os árbitros teriam de fazê-lo sempre. Com esse critério, aos quinze minutos de jogo, em qualquer jogo, já havia três expulsões para cada lado. É uma estupidez. Ainda bem que este primo do Quim Barreiros é considerado o melhor árbitro português. Duarte Gomes e Pedro Proença, claramente os dois árbitros mais competentes a actuar em solo português, devem estar satisfeitíssimos.

6. O Benfica perdeu na Trofa e, de repente, Quique já não é assim tão bom e já toda a gente afiança que o 442 clássico é um erro. É impressionante como, para se aferir o valor das coisas, se depende dos resultados. Agora que o Benfica está mal é fácil dizer que o treinador é obtuso e que o sistema é permeável. O Entredez fez isso há 6 ou 7 meses. E da mesma forma que achava que Quique não era assim tão bom, agora afirma que Quique não é assim tão mau. Falta-lhe perceber que o 442 clássico não é uma boa opção e que os problemas ofensivos de uma equipa não podem ser resolvidos pela inspiração individual dos seus executantes. Ah, e falta-lhe perceber que Bynia não é jogador de futebol. De resto, continua a ter o mesmo valor de antes.

7. Mais uma coisa gira e contraditória é dizerem que o problema do Benfica não tem a ver directamente com o sistema de jogo (ou seja, com o facto de jogar em 442 clássico), mas depois criticar-se o facto de a equipa não formar apoios próximos do portador da bola, obrigando este a executar, invariavelmente, passes de risco. Ora, é precisamente por o Benfica jogar em 442 clássico que o espaço entre os diferentes jogadores é tão grande. E não há forma de modificar isto drasticamente. Jogar em 442 clássico significa jogar com os alas a dar largura, abertos, e com os avançados a dar profundidade. Alterar isto para permitir uma melhor rede de apoios ao portador da bola (por exemplo, aproximar um avançado ou um ala do homem do meio-campo que tem a bola) é já não jogar em 442 clássico.

8. Hugo Leal está de volta.

9. Que terá passado na cabeça do defensor do Nacional para pôr a mão à bola naquele remate de longe que, provavelmente, iria para fora ou para as mãos do guarda-redes madeirense? Um cesto de fruta?

10. Mais dois golos de Hulk cujo mérito é todo de Lisandro. É por estas e por outras que contabilizar golos e assistências não serve, rigorosamente, para nada. Então o segundo golo de Hulk, o quarto do Porto, é o cúmulo da contradição. Era só encostar para Rodriguez finalizar, mas ele quis fintar o defesa e finalizar ele. Acabou por ter sorte, pois a bola roçou no pé do defesa do Nacional e ganhou altura, tornando-se indefensável. Num lance tão fácil de resolver, Hulk tomou a pior das decisões e, só por acaso, averbou mais um golo. Significa isso que está melhor? Não, não significa. Pelo contrário. É por isso que os golos marcados servem tanto para perceber a qualidade de um avançado quanto o tamanho do nariz de uma pessoa serve para conhecer o QI da mesma.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Bitaites de Treinadores

Para começar o ano de 2009, damos a palavra a quem sabe, ou seja, aos treinadores. Ou a quem exerce a profissão de treinador, o que vai dar ao mesmo... Mas antes de lhes passar a bola, uma ou duas coisas sobre Mourinho que podem ajudar a desmistificar algumas coisas, nas palavras do amigo e biógrafo, Luís Lourenço, assim como também nas de Rui Faria e Deco.

"Mourinho sempre disse que os seus jogadores têm que ser inteligentes e que têm que usar essa mesma inteligência." (Luis Lourenço, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.78)

"[...] os jogadores têm de pensar e ser inteligentes para observar e entender o que se passa e evolui à sua volta. Daí José Mourinho dizer que só quer jogadores inteligentes nas suas equipas; eles têm de perceber e para isso têm de pensar." (Rui Faria, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.95)

"[Mourinho é um] treinador com uma inteligência superior, muito ambicioso, que exige que os jogadores também o sejam". (Deco, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.200)

Agora eu: Mourinho privilegia, acima de tudo, a inteligência.


Passemos aos treinadores, então:

1. Jesualdo Ferreira:

Aquando da recente vitória do Porto sobre o Arsenal, no Dragão, tendo a equipa londrina jogado com os reservas, visto já estar apurada, Jesualdo Ferreira afirmou que a vitória do Porto sobre o Arsenal não poderia ser minimizada pelo facto de o Arsenal ter jogado sem os habituais titulares e que a sua equipa era tão nova quanto a apresentada por Arséne Wenger. Francamente, desconhecia a faceta de comediante de Jesualdo...

2. Fabio Capello (La Repubblica, 24 de Julho de 2008):

Ha visto gli ultimi Europei, dal vivo e in tv. Hanno decretato la morte del 4-4-2: non lo fa più nessuno. Lei ci ha vinto molto, alla Juventus e al Real Madrid. E' un modello tattico da consegnare alla storia?
"Nel calcio non si consegna niente alla storia. Ci sono i revival, le rivisitazioni, le piccole modifiche sul modello B. Agli Europei, in realtà, si è giocato il famoso 9-1. Non prendeteci in giro, il calcio moderno è questo: nove che difendono e una punta centrale. Tutti rientrano nella loro metà campo, anche i quattro centrocampisti offensivi. Il calcio di questi tempi è il 9-1".

Han??? No Europeu, jogou-se em 9-1??? Capello no seu melhor. A explicação é que, no futebol moderno, 9 defendem e 1 ataca. Dá-me ideia que isso de moderno não tem nada... Se há algo de moderno no futebol é o facto de todos defenderem e de todos atacarem. Já dizia Cruijff que o seu primeiro defesa era o Romário e que, se ele não defendesse na zona certa, toda a equipa teria de defender mais atrás. E o Cruijff já não é de ontem. O senhor Capello continua a revelar que está há mais de uma década parado no tempo. Para ele, há jogadores para defender e jogadores para atacar. E, ainda por cima, 90% deles servem para defender. Com esta frase, Capello revelou praticamente toda a sua filosofia: é um treinador conservador, com ideias estagnadas e nada equilibradas, incapaz de compreender a evolução que o futebol foi tendo ao longo dos últimos anos. Além da escassez de ideias novas, Capello privilegia a defesa. Para ele, é mais importante defender do que atacar. Para atacar, espera-se pela sorte, ou então pela inspiração individual dos avançados. Boa...

3. Marcelo Bielsa:

"Jamás los técnicos obsesivos se preocuparon por jugar ofensivamente. Yo soy un obsesivo del ataque. Yo miro videos para atacar, no para defender. ¿Saben cuál es mi trabajo defensivo? "Corremos todos." El trabajo de recuperación tiene 5 o 6 pautas y chau, se llega al límite. El fútbol ofensivo es infinito, interminable. Por eso es más fácil defender que crear. Correr es una decisión de la voluntad, crear necesita del indispensable requisito del talento."

O perfeito oposto da mentalidade de Capello é este comentário do ex-seleccionador argentino e actual seleccionador chileno, Marcelo Bielsa. Para Bielsa, aprender a defender é muito mais fácil que aprender a atacar, pois as possibilidades ofensivas são infinitas. Concordo totalmente com isto. Aquilo com que não concordo é com a aparente leviandade com que Bielsa trata a defesa. Defender não é só correr. Aliás, se Bielsa se preocupa com a forma como ataca, deveria preocupar-se com a forma de defender, que é sempre o princípio de qualquer ataque. O erro de Bielsa é separar tão drasticamente as duas coisas. Defender de forma correcta, isto é, com os elementos bem posicionados em campo, é a base essencial para a equipa poder passar da defesa para o ataque em pouco tempo. A ideia de Bielsa é compreensível: para defender, basta haver vontade, pelo que o trabalho a fazer é apenas motivacional, enquanto que para atacar é preciso cultivar a criatividade, o talento, a inspiração, etc. Mas o problema é que defender não é só uma coisa da vontade. Não basta apenas querer. É preciso cultura posicional, educação táctica, etc. É verdade que, para aprender a defender, não são necessários tantos esforços: basta corrigir posicionamentos defeituosos, limar vícios antigos, obrigar os jogadores a preocuparem-se com coberturas, etc. Para atacar, é preciso tudo isto e ainda apelar ao instinto criativo, à capacidade da equipa se tornar imprevisível. Isso é muito mais difícil. Tanto Capello como Bielsa parecem cair no erro de achar que defender e atacar são duas coisas distintas e intocáveis. Mas de entre os dois, privilegio claramente a mentalidade do argentino, pois compreende que o ataque é muito mais difícil de trabalhar do que a defesa.

4. Fabio Capello:

Mourinho sarà un allenatore rivoluzionario per il calcio italiano?
"Ai nostri allenatori Mourinho non ha da insegnare niente. In Italia il calcio tatticamente è una cosa molto, molto seria. Sotto l'aspetto calcistico siamo i più avanzati e ormai tutti conoscono tutto. Mourinho adesso ha in mano una macchina straordinaria e non credo farà rivoluzioni, gli sarà sufficiente portare quell'un per cento di novità".

Uma vez mais, Capello demonstra a paralisia temporal que possui. Desta vez, alia à mesma uma pitada de arrogância. Até há uns anos, isto de a Itália ser o país mais evoluído tacticamente era um mito. Confundia-se evolução táctica com jogar à defesa. E confundia-se aglomeração de jogadores atrás da linha da bola com organização defensiva. Nos últimos 5 anos, principalmente, isto foi corrigido. A Itália já não é o país do "catenaccio" e no campeonato italiano até se marcam tantos ou mais golos do que em Inglaterra, por exemplo. O campeonato, este ano, é provavelmente o mais atraente, com partidas fenomenais entre equipas de segunda linha, coisa sem igual noutros campeonatos europeus, e a grande maioria das equipas é bastante evoluída tacticamente. Aliás, é o campeonato no qual se vislumbra uma maior variedade táctica, desde o 442 clássico da Juventus ao 442 losango do Inter de Mourinho, do 4231 da Roma de Spalletti ao 433 da Fiorentina de Prandelli, do 352 ao 343, etc. Concordo, por isso, que em Itália abunde o saber táctico. Mas a frase de Capello é um frase feita. E uma frase que recorda um saber táctico de uma altura em que não havia assim tanto saber táctico. Quando Capello se refere ao saber táctico dos italianos, está a referir-se a um tempo em que isso era um mito, está a referir-se ao seu tempo e a si. E o saber táctico de Capello é como o de Ranieri: está um pouco obsoleto, no meio de tanta variedade e tanta novidade. Além disto, Capello ainda diz que Mourinho trará, no máximo, um por cento de novidade. Dizer isto é não conhecer a realidade, bem como não conhecer Mourinho. Só ao nível da metodologia de treino, Mourinho rompeu com todo o cânone. Basta lembrar que, ao chegar a Itália com este método de trabalho, suscitou imediatamente a curiosidade alheia. Carlo Ancelloti, um dos que não acha que não tem nada a aprender com Mourinho, disse imediatamente que gostaria de ir assistir a um treino do Inter, tal era o interesse que lhe despertava uma nova maneira de trabalhar. Capello, uma vez mais, revela toda a sua pouca modéstia e toda a sua parca sabedoria.

5. Mourinho:

Prefere Stankovic em posições mais centrais ou encostado à esquerda?
"Muitos pensam que o jogador mais posicional à frente da linha defensiva deve ser um jogador muito defensivo. Eu não penso assim. Penso que esse jogador deve ser um jogador com boa capacidade para jogar a bola, com qualidade, com visão, com tranquilidade, para ser quase como o homem que inicia a construção de jogo nessa zona. E o Stankovic é um jogador com experiência que pode jogar aí. Se tivermos Cambiasso para jogar na sua posição normal, obviamente que Stankovic será uma opção para jogar um pouco mais à frente, mas penso que ele pode jogar nessa posição, sim."
Um jogador como Pirlo?
"Não conheço a ideia de Carlo Ancelloti com Pirlo. Não, agrada-me um jogador de futebol, não me agrada um jogador que destrói o jogo do adversário. Gosto, nesta posição, de um jogador que joga e o Cambiasso joga e Stankovic joga e temos alguns outros que podem jogar nesta posição."

Para muitos, isto já não é novidade. Para outros, talvez não seja assim. Ficam, contudo, as palavras de Mourinho (traduzidas por mim) acerca do assunto. Para ele, um médio-defensivo não deve ser um jogador de características defensivas; deve ser alguém que saiba jogar à bola e não alguém para destruir jogo. Em 2008, essa realidade não é propriamente nova, mas, até ao aparecimento de Mourinho, tirando os holandeses, poucos ou nenhuns treinadores tinham ousado pensar desta forma. É uma das muitas revoluções que Mourinho ajudou a realizar. Num futebol a sério, verdadeiramente colectivo, como poucos o preconizam, jogadores como o típico médio-defensivo "carraça" não fazem sentido.

6. Mourinho (Conferência de Imprensa a seguir ao jogo da Supertaça contra a Roma):

[Sobre a questão de Ibrahimovic não marcar muitos golos.]
"Poderá melhorar, mas penso que, numa equipa, para jogar um futebol de controlo e um futebol com posse de bola, é sempre mais importante um super-jogador do ponto de vista técnico que um jogador que marca golos. Se uma equipa está dependente de um jogador que marca 20 ou 30 golos numa época e se o jogador se encontra num momento difícil, as coisas não serão fáceis."

Para Mourinho, o seu ponta-de-lança não tem de ser um exímio finalizador. Isto, se repararmos nas suas equipas e nos números das mesmas, não é nada de novo. Tirando Drogba, no último ano do Chelsea, e McCarthy, no último ano do Porto e após um final de época em que a equipa tudo fez para que o avançado sul-africano aumentasse o seu pecúlio, as equipas de Mourinho, sendo em conjunto o melhor ataque da prova, não têm normalmente o melhor marcador da mesma. Isto porque, nas suas equipas, marcar golo é uma coisa colectiva, da competência da equipa e não do seu avançado. Para Mourinho, para jogar ao ataque, para jogar em posse, é sempre mais importante um jogador que o possibilite do que um jogador capaz de marcar muitos golos. Assim, numa equipa que queira exercer o domínio de jogo, um jogador que valha apenas pela extraordinária capacidade finalizadora que possui não é um jogador útil. Veja-se o erro (assumido por Mourinho no final da época) que foi a contratação de Mateja Kezman. Para Mourinho, incorporar numa equipa sua um jogador que depende da sua capacidade individual de finalizador é desvirtuar o princípio absolutamente colectivo da sua maneira de pensar. Se quer uma equipa que troque a bola e consiga dominar o jogo, todos os seus elementos têm de ser benéficos para isso. Um jogador que não o seja, ainda que depois seja capaz de finalizar melhor do que outros, é sempre um corpo estranho no interior de um colectivo afinado por atributos colectivos. Sim, estou a insinuar que a Mourinho jamais lhe interessaria um jogador como Liedson...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Certezas (12)

Classe. É a palavra que melhor o define. O que não deixa de ser notável, tendo em conta que tem apenas 19 anos. Possuidor de uma técnica absolutamente notável, o que impressiona mais neste miúdo é a maturidade, a frieza, a racionalidade. É, também, a aparente facilidade com que executa cada lance. Alia, portanto, aos atributos técnicos invejáveis uma velocidade de raciocínio ímpar. Ao chegar aos seus pés, a bola já tem um destino, previamente estudado e decidido com uma destreza invulgar. Apesar de muito talentoso, não parece cair nas vaidades de outros e muito menos abusar nos truques e na fantasia improfícua. Sabe, por isso, guardar o seu arsenal de recursos para quando necessita deles, não usando cada bola que lhe chega para demonstrar as coisas extraordinárias de que os seus pés são capazes. Essa é, aliás, uma das características da escola espanhola de que faz parte. Aqui abro um parêntesis. É certo que esta rubrica, até ao momento, se deteve apenas em jogadores portugueses, em jovens promessas do nosso futebol, e que foram escapando a esta distinção alguns jogadores estrangeiros que, inegavelmente, tinham valor para ser referidos. Lembro-me, assim de repente, pelo menos de Bojan Krkic, o fenómeno espanhol, de Carlos Vela, o avançado mexicano que entretanto já vai fazendo alguns jogos pelo Arsenal, e de Stevan Jovetic, o avançado montenegrino que no princípio da presente temporada rumou à Fiorentina. Embora, por razões óbvias, não nos seja possível acompanhar a evolução de jovens menos conhecidos do grande público que não sejam portugueses, queremos contudo, a partir de agora, sempre que faça sentido, referenciar valores oriundos de outros países e que sejam pouco falados. Afinal, é disso que esta rubrica se alimenta. Como tal, começamos, nas nossas "Certezas" internacionais, por apresentar este médio-ofensivo espanhol, formado no Real Madrid. No início desta época, foi emprestado ao Queens Park Rangers (apesar dos esforços, sobretudo do Arsenal, em contratá-lo) e treinado por Paulo Sousa. Ao fim de meio ano, porém, este campeão europeu de sub-19 volta à casa mãe, talvez fruto da inegável capacidade futebolística que possui. Será curioso ver como Juande Ramos conseguirá gerir um meio-campo com tantas unidades de ataque de grande qualidade como sejam os holandeses Van der Vaart e Sneijder e os espanhóis Ruben de la Red, Guti e este miúdo, sendo que, à partida, não terá regressado a Espanha a meio da temporada apenas para fazer número. Será, por isso, interessante, acompanhar nos próximos meses a evolução de Daniel Parejo...