segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Febre dos estúpidos

Este blogue teve sempre uma posição feroz e, de certo modo, exagerada contra Liedson. É evidente que o avançado leonino não é o pior do mundo. No entanto, pareceu-nos sempre e continua a parecer que está excessivamente sobrevalorizado. Aliás, com o actual plantel do Sporting, Liedson, para nós, só muito dificilmente seria titular. Nesta conjuntura, é-nos igualmente incompreensível que seja, desde há muito, considerado melhor que Nuno Gomes, Hélder Postiga ou Óscar Cardozo, por exemplo. Mas se equipará-lo a estes ou a outros como o austríaco Linz ou o camaronês Meyong já nos parece francamente discutível, entender que possa ser melhor que Lisandro Lopez ou David Suazo é uma idiotice profunda ou um sintoma de demência.

Se, até agora, apenas desconfiava que essa era a ideia de muito boa gente, depois da votação levada a cabo pelo jornal A Bola, não restam dúvidas: a maioria dos portugueses acha que Liedson é não só o melhor avançado a jogar em Portugal, o que por si já era estúpido, mas também o melhor estrangeiro, à frente de Reyes, Aimar, Katsouranis, Suazo, Lucho, Lisandro, Izmailov, Vukcevic, Rochemback, Romagnoli e Polga, só para dar alguns exemplos. Se é verdade que uma votação deste tipo é condicionada pela quantidade de adeptos do Benfica que, muito provavelmente, terão votado, o que explica, de certo modo, a ausência dos argentinos do Porto, não deixa de ser preocupante que, mesmo nessas circunstâncias, Liedson tenha ficado à frente de todos os estrangeiros a jogar no clube da Luz.

Explicações pode haver muitas: 1) Liedson angariou boa parte dos votos de benfiquistas que, de modo reprovador, consideram que o "Levezinho" é o único sustento do Sporting, o que faria da votação uma forma de achincalhar o "eterno rival"; 2) Portugal continua a viver sob a égide de uma doença mental chamada (como tão bem referiram António José Saraiva e Eduardo Lourenço) Sebastianismo e Liedson é o mais recente produto dessa epidemia colectiva, saudosa e obsessiva, que procura em cada esquina um Messias que os anime; 3) Quem tem opiniões sobre futebol é, na sua esmagadora maioria, estúpido. Gosto especialmente da terceira, até porque é, para mim, o adjectivo que melhor define quem acha que Liedson pode sequer ser comparado a Lisandro ou a Suazo.

À votação d'A Bola poderíamos ainda acrescentar outra votação, esta feita num espaço frequentado por gente bem mais erudita, sapiente e isenta. E a verdade é que o resultado é o mesmo. Liedson a presidente!, digo eu. Por que não? O que estas duas votações mostram, ao contrário do que essa maioria erudita, sapiente e isenta pensa, não é que Liedson é o melhor avançado português; o que mostra é que, na sua grande maioria, essa gente erudita sapiente e isenta, ou seja, quem vê futebol em Portugal, é imbecil. Só num país como este é que um jogador da qualidade de Liedson poderia ter o prestígio que tem. Lisandro vai à selecção argentina já com relativa regularidade, mesmo quando a selecção das pampas tem, para o ataque, homens como Messi, Aguero, Tevez, Crespo, Julio Cruz, Saviola e Diego Milito, só para dar alguns exemplos. Já Liedson, apesar do deserto de talento (quando comparado com o argentino) que é o ataque brasileiro actualmente, nem sequer entra nos planos do seleccionador brasileiro. Deve ser perseguição. Só pode. Afinal, se Liedson é melhor que Lisandro, não será também melhor que Alexandre Pato, Rafael Sóbis, Luís Fabiano, Adriano, Fred, Jô? E o Real Madrid, que pretende contratar Lisandro? São estúpidos ou quê? Vão contratar um gajo que nem sequer é o melhor na sua posição em Portugal? E Suazo, que é dos avançados com melhor reputação no Calcio e que discutiu a titularidade, no ano transacto, com Crespo e Júlio Cruz no Inter, também é inferior a Liedson. Aliás, se Ibrahimovic, Fernando Torres, Drogba e Berbatov viessem jogar para Portugal, tenho a certeza que Liedson continuaria a ser o preferido dessa gente erudita, sapiente e isenta.

Já foi amplamente discutido aqui, mas talvez valha a pena recordar novamente quais os argumentos defendidos por quem gosta de Liedson. São apenas dois: marca mais golos que os opositores; tem um espírito de sacrifício inigualável, correndo sem se cansar atrás dos adversários durante os 90 minutos. Quanto aos golos, além de a sua marca estar francamente inflaccionada (tem uma média de golos de apenas 0,58 golos por jogo, o que faz com que a capacidade concretizadora de Liedson não ande assim tão distante da de Nuno Gomes, por exemplo, que, no mesmo período, sabendo-se que o avançado do Benfica não é um grande finalizador e que se lesiona mais regularmente, o que implica mais momentos de forma menos bons, tem uma média de 0,43 golos por jogo), basta dizer que marcar golos é apenas a fase final de um processo muito longo e que, quem o faz não tem, na grande maioria das vezes, nem um terço da responsabilidade dos mesmos. Liedson é relativamente bom nessa fase final, nesse gesto de empurrar a bola para a baliza, mas é medíocre no resto. Além disso, a grande maioria dos golos que marca são de execução fácil, tendo maior mérito apenas na forma como consegue antecipar o desfecho da jogada e surgir, no momento exacto e no local exacto, para marcar. Nisso, de facto, é bom. Mas a irrelevância disso, num jogo de futebol, é directamente proporcional à quantidade de vezes que tem possibilidade de acontecer. Em 90 minutos, essa situação ocorre três ou quatro vezes. Tudo o resto em que Liedson é abaixo da média ocorre em proporções colossalmente maiores. O ser capaz de aparecer na zona certa é, por isso, um atributo claramente escasso para um jogador de topo. E é o único atributo digno de registo que Liedson tem. No resto, é miserável. Quanto ao correr muito não significa que corra bem. Aliás, Liedson corre mal. Não corre na hora certa nem para os sítios certos. As suas tão gabadas acções defensivas são actos irreflectidos que, não raro, prejudicam a própria equipa. Alegar que participa positivamente no aspecto defensivo do jogo é não saber o que é o aspecto defensivo do jogo. Liedson tem disponibilidade. Mas se não souber usar essa disponibilidade, é só uma barata-tonta. Quer dizer, uma barata-tonta nem prejudicaria tanto a sua equipa, nesse capítulo.

Para finalizar, Liedson é um jogador banal, um jogador bom num aspecto do jogo, mas muito mau em todos os outros. Compará-lo a Lisandro e a David Suazo, principalmente, é de gente doida. Haver tanta gente a pensar o mesmo é uma espécie de surto de febre. Mas não se trata de uma febre qualquer; é uma febre de estupidez. Em tempos, também se pensou que a evolução das espécies se dava por transmissão de características aos descendentes. Segundo essa teoria, um determinado animal desenvolvia, ao longo da vida, uma certa aptidão e depois passava-a aos seus descendentes. Por exemplo, a girafa, originariamente, seria uma espécie de cavalo, com um pescoço curto. À medida que a vegetação da savana foi sendo mais escassa, cada girafa tinha de se esticar o mais possível para chegar à folhagem mais alta. Durante a sua vida, a girafa aumentava o tamanho do pescoço o suficiente para chegar à folhagem que lhe permitisse sobreviver, passando depois essa alteração fisionómica à descendência. Com a sucessão das gerações, a girafa teria então passado de um animal de pescoço curto para um animal de pescoço comprido, tendo o tamanho do pescoço aumentado gradualmente em cada geração. Depois veio Darwin e a Selecção Natural e mandou isto tudo às urtigas. Nesta história toda, Liedson pode bem ser a girafa (embora a mim me pareça mais um guaxinim), enquanto os palermas dos seus admiradores farão bem o papel dos que se empertigaram contra Darwin.

P.S. Sem ter nada a ver, apenas uma curiosidade. Em 6 meses, Pelé é dispensado por Mourinho e Jesualdo Ferreira. O Entredez não percebe mesmo nada de futebol.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Sondagens (11)

À pergunta "Quem é o jogador tecnicamente mais evoluído da Liga Sagres?" responderam nada mais nada menos que 100 pessoas. Pablo Aimar, o astro argentino, liderou a votação, destacadíssimo, com 38 votos. Não esperava outra coisa, ainda que esta sondagem visasse perceber uma outra coisa. Em segundo lugar ficou o portista Lucho Gonzalez, com 13 votos, e, em terceiro, o seu colega de equipa Hulk, com 12. Jose António Reyes averbou 11 votos, Marat Izmailov 8, Simon Vukcevic 6, Hélder Barbosa e Ricardo Nascimento 3, Angél di Maria 2 e Wesley e João Moutinho 1. De realçar ainda os 2 votos noutros jogadores. Léo? Lisandro? Liedson? Hugo Leal? Aquilo que, contudo, importava perceber era o que se entende por "tecnicamente mais evoluído". Na minha acepção, será aquele que tem melhor relação com a bola, aquele que consegue fazer as coisas em espaços mais pequenos, que interage com a bola com maior facilidade, aquele que executa à velocidade que pensa. Nesse sentido, um jogador de drible mais comprido como Hulk ou Di Maria jamais seria incluído nas primeiras escolhas. Apesar de admirar muitíssimo Lucho Gonzalez, reconheço-lhe algumas limitações a nível de drible, sobretudo, sendo um jogador que necessita de pausar as suas acções. Tecnicamente, é muito bom, mas não é um jogador extraordinário em espaços curtos. A sua virtude é saber encontrar o espaço certo para poder executar. Já Pablo Aimar tem essa capacidade. Mas também não foi para ele o meu voto. O jogador que, para mim, mais impressiona em termos técnicos, nesta liga, é o russo Marat Izmailov. Surpreendentemente, pois achava que era uma coisa só minha, outras 7 pessoas votaram nele. É notável a velocidade com que executa em espaços reduzidos, o conforto das suas recepções, o equílibrio, a capacidade de drible como recurso. Mas o mais impressionante talvez sejam as suas mudanças de direcção, como se fosse feito de plasticina. Aquele drible de simular o remate e mudar de direcção, fá-lo com uma perfeição e com uma velocidade sem igual desde Nani. E essa competência é das coisas que revela maiores dotes técnicos num jogador. Não sendo, depois, um jogador extraordinariamente criativo, imaginativo, ficando, nesse capítulo, a perder para Lucho, Aimar e Romagnoli, por exemplo, Marat Izmailov merece, porém, este destaque.

sábado, 17 de janeiro de 2009

Rolo Compressor

Chegou ao fim a primeira volta na Liga Espanhola e o Barcelona de Guardiola bateu o record da equipa com maior número de pontos numa primeira volta do campeonato: 50 pontos. Com um jogo a mais, tem 15 pontos de diferença para o segundo, é o melhor ataque com 59 golos marcados (mais de 3 por jogo, em média) e a melhor defesa, com13 sofridos. Esta noite, esmagou o Deportivo da Corunha de Zé Castro, equipa que ocupa o sétimo lugar e tem ambições europeias, por uns esclarecedores 5-0. Mas, mais do que o resultado, impressiona a facilidade com que a equipa troca a bola, a incapacidade do adversário em ter bola, a asfixiante pressão alta. O Deportivo não criou uma única situação de golo.

Se pensarmos ainda que 5 dos 7 pontos perdidos pelo Barça foram perdidos nas duas primeiras jornadas do campeonato, altura em que os processos colectivos ainda não estariam certamente mecanizados, maior se torna a dimensão deste feito. A equipa de Guardiola não está só a jogar um bom futebol; está a jogar um futebol demolidor. Quando, após aqueles dois maus resultados no início da Liga Espanhola, o Barcelona venceu o Sporting por 3-1, num jogo em que o Sporting pouco atacou, muitos criticaram a equipa lisboeta, afirmando que o Barcelona estava em crise e que não se admitia, por isso, que o Sporting fosse tão humilhado. Na altura, pareceu-me desde logo que esta gente se precipitava. Mais do que demérito do Sporting, era evidente que o Barcelona não era uma equipa qualquer. A facilidade com que saía de zonas de pressão, a capacidade para trocar a bola rapidamente entre três ou quatro adversários, a ocupação perfeita dos espaços e a forma asfixiante como pressionava deixava antever tudo o que se passou a seguir: uma primeira volta praticamente imaculada.

A grande virtude deste Barcelona não está no génio individual dos seus jogadores. É verdade que todos eles são muito talentosos e é verdade que, com Messi, tudo é mais fácil. Mas alguém duvida que este Barça, mesmo sem Messi, estaria em primeiro? O que faz da equipa de Guardiola uma grande equipa é um conjunto de coisas do qual a capacidade individual dos elementos que a compõem é apenas uma pequena parte. O que é, de facto, fundamental, é a filosofia de jogo, a cultura táctica, a organização e a inteligência. O Barcelona é hoje uma equipa dotada de grandes valores, sobretudo, mental e intelectualmente. Não há, praticamente, nenhum jogador que não seja rápido a pensar. O futebol de toque curto constante não é só mais uma característica; é um sintoma - um sintoma de inteligência. Uma equipa que tenha a facilidade de jogar em espaços curtos com a eficácia com que o Barcelona o faz é uma equipa, do ponto de vista ofensivo, saudável. Por menos espaço que haja, a equipa arranja forma de passar por lá. Enquanto outras equipas andam à volta, à procura de espaço, o Barcelona entra pelo buraco da agulha. E desfaz defesas como quem respira.

Uma das coisas mais espantosas é a forma despreocupada com que a equipa joga. Não raro, vemos um jogador a passar a bola a outro que tem um adversário perto, sem medo que o colega a perca. Não são muitas as equipas que têm capacidade de fazer isto, de arriscar isto. Muitas vezes, perante marcações apertadas, a opção é jogar mais comprido, ou atrasar, ou lateralizar. No Barcelona não. O Barcelona é, de certeza, a equipa no mundo que mais passes verticais faz. E isto porque existe uma confiança no colega e na capacidade de decisão do mesmo que normalmente não existe. Quando um médio-ofensivo recua para receber um passe vertical de um defesa, traz consigo uma marcação, mas mesmo assim a bola é-lhe dada. Ao fazê-lo, é-lhe colocada a responsabilidade de decidir bem, de devolver a bola ou de segurá-la, de tocar para o lado para outro colega ou de receber e de se virar para o adversário. Mas esta atribuição de responsabilidade implica igualmente uma coragem inegável em quem faz o passe. O Barcelona troca tão bem a bola porque não há medo de perdê-la, porque se confia na inteligência do colega. E a equipa, assim, progride com segurança no campo, desposicionando o adversário e enervando-o. O carrossel dos catalães é apenas o resultado duma equipa mentalmente forte e de uma equipa inteligente. Depois, na fase defensiva, a capacidade de pressão é igualmente invejável. Mas o segredo está na capacidade criativa de todo o conjunto, desde o guarda-redes ao avançado. O Barcelona é o que é porque todos os seus jogadores pensam de maneira parecida, de uma maneira arrojada, criativa, clara. O Barcelona joga com a cabeça. Não tem jogadores atleticamente fortes, nem velocistas. Tem jogadores dotados tecnicamente e, sobretudo, dotados intelectualmente. Em termos de tomadas de decisão, são a equipa mais formidável de que me lembro. Este Barcelona, por tudo isto, por esta singular capacidade de dominar o jogo com a bola em seu poder, fazendo-a rodar por todos os seus jogadores com uma facilidade ímpar, como se estivesse sem adversário em campo, progredindo quando tem de progredir e reservando-se quando tem de se reservar, é o protótipo de equipa perfeita e joga o futebol que o Entredez, desde sempre, tentou defender.

Ao fim de 6 meses, posso dizer que Guardiola me enche as medidas. A partir de hoje, está, para mim, entre aquela pequena elite de treinadores que considero fora do vulgar. Antes de finalizar, gostaria, contudo, de partilhar um raciocínio, na forma de uma pergunta. Alguém acha que o Barcelona conseguiria jogar este tipo de futebol - um futebol de toque curto, um futebol que fornece, regularmente, ao portador da bola, dois ou três apoios, um futebol inteligente, capaz de sair de situações de inferioridade numérica com uma facilidade assombrosa, um futebol que põe o adversário a correr atrás da bola, circulando-a a toda a largura e a todo o comprimento do campo, indo à frente, voltando atrás, indo à esquerda, voltando à direita, um futebol que cansa só de ver, um futebol que é o que de mais parecido com arte este desporto pode oferecer - poderia o Barcelona jogar este tipo de futebol noutro esquema táctico, por exemplo, num 442 clássico?

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A Arbitragem de Paulo Baptista

Muito se tem dito, nos últimos dias, sobre a arbitragem do passado fim-de-semana na Luz. É verdade que o senhor Paulo Baptista errou. É verdade que errou várias vezes. É verdade que errou em benefício do Benfica. É verdade que isso influenciou o resultado. Mas também é verdade que nada disto é novo. O exagero irracional de metade dos comentários sobre estes acontecimentos roça a estupidez. Paulo Baptista não esteve pior que maior parte dos árbitros que temos no nosso futebol.

Não vi o jogo na íntegra, mas arrisco-me a dizer que não esteve pior que Pedro Henriques no jogo frente ao Nacional. Porquê? Porque aquilo de que se queixam são de lances capitais. Dois ou três, no máximo. Há um problema grave no que toca a deliberar sobre a actuação de um árbitro num determinado jogo. Se o árbitro tiver feito um jogo exemplar, mas errar num lance considerado capital, é imediatamente creditado como mau. Ora, isto não faz sentido. Apesar de um penalty poder decidir um jogo ou de um golo mal anulado ter influência directa no resultado, não deixa de ser um lance cuja análise requer tanta atenção e perícia quanto uma jogada a meio-campo. E o problema começa aí. É verdade que a existência desse tipo de erros é aquilo que permite, de uma forma directa e clara, afirmar que uma equipa foi prejudicada ou beneficiada. Mas errar nesses lances não implica ser pior do que quem erra noutros lances. O senhor Pedro Henriques, por exemplo, com quem comparei o senhor Paulo Baptista, teve apenas um ou dois lances capitais em que errou, no dito jogo com o Nacional, mas a sua exibição, em termos globais, foi escandalosamente má. Aquele que é visto como o melhor árbitro português, para muitos, assenta a sua arbitragem num critério estúpido e inadequado. O que Pedro Henriques faz não é o que um árbitro deveria fazer, ou seja, fazer cumprir regras; o que ele faz é interpretar regras. Um árbitro que interpreta é uma contradição em termos. Arbitrar significa fiscalizar o cumprimento das regras; não significa interpretá-las. Pedro Henriques acha que o futebol é uma coisa que não é e deixa jogar para além do admissível. O problema deste tipo de interpretações é que não consegue suster a coerência. No jogo mencionado, por exemplo, foi perfeitamente visível uma discrepância de juízos no que toca a acções defensivas e ofensivas. Pelo critério largo de Pedro Henriques, aos defesas era permitido disputar as bolas usando o físico muito para além do permitido, mas aos avançados o mínimo toque no defesa era considerado falta. Não foram poucas as vezes que assinalou infracções ao mínimo toque de um avançado do Benfica num defesa do Nacional que tentava sair para o ataque. Ora, tendo em conta o critério que defende, isto não poderia ser considerado falta. Mas foi. Sistematicamente. O que este tipo de arbitragem faz é que haja um maior equilíbrio entre quem ataca e quem defende, pois quem defende é mais protegido. Num jogo apitado por Pedro Henriques, a diferença de qualidade futebolística entre duas formações é sempre atenuada pela sua arbitragem e uma equipa com menos argumentos técnicos pode sempre fazer uso de argumentos menos futebolísticos para se equiparar ao adversário. A arbitragem de Pedro Henriques foi, por isso, e não por ter invalidado aquele golo, francamente displicente. Já a de Paulo Baptista tem causado maior alvoroço porque ficou ligada a lances de maior importância. Dentro dos mesmos, apenas considero errado não ter assinalado penalty naquela entrada perfeitamente imbecil de Luisão e o fora-de-jogo não assinalado a David Luiz, que deu o golo ao Benfica. Quanto ao penalty sobre Di Maria, nem sequer percebo qual é a dúvida da falta. Quando muito, poderia colocar-se a questão de ser obstrução e, consequentemente, livre indirecto dentro da área. Mas que há falta, há: Mossoró desiste completamente da bola, colocando, de forma deliberada, o corpo à frente de Di Maria. Agora, não se pode falar apenas de uma má arbitragem de Paulo Baptista. É verdade que a arbitragem não foi boa e que o senhor em questão tem culpa disso, mas é também vítima de tudo o que se passou antes, da péssima arbitragem do senhor Pedro Henriques e do clima de suspeição em que vive o nosso futebol. Depois da arbitragem de Pedro Henriques, nenhum árbitro no mundo viria à Luz de cabeça fria, capaz de tomar decisões imparciais quando tivesse dúvidas. Depois do que aconteceu, em caso de dúvida, seria sempre a favor do Benfica. E seria assim porque se trata de um clube grande, com grande projecção mediática. Quando se diz que os grandes clubes são mais beneficiados que os pequenos, não é porque os árbitros prefiram os grandes aos pequenos. É porque os grandes são mais falados e a mediatização que os envolve provoca pressões que um árbitro dificilmente é capaz de ignorar. Apitar aquele fora-de-jogo ou aquele penalty e depois vir a verificar que afinal se tinha enganado a desfavor do Benfica acarretarria, para Paulo Baptista, uma ruína muito mais grave que a actual. Isso é óbvio.

Resumindo, os erros de Paulo Baptista existem, são normais e só a conjuntura do nosso futebol e a existência constante de casos fazem com que se exagerem os mesmos ao ponto da insanidade. Além disso, continua a ser dada importância exagerada a lances capitais quando a qualidade de um árbitro deve ser medida de igual modo em todos os lances do jogo. Enquanto assim for, nem os árbitros têm condições para melhorar, nem a avaliação dos mesmos será condizente com o seu real valor.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Fala quem sabe...

Só para encher chouriços, os momentos mais importantes de uma entrevista com Deus:

1. "Mourinho è uno splendido comunicatore, molto bravo a caricare il suo ambiente e a mettere pressione sugli avversari."

Enquanto os outros enfiam a carapuça com o que Mourinho diz, São Alessandro diz que é sinal de que ele é bom. Perspicácia.

2. "La Champions ha un fascino unico. E poi avendone vinta solo una contro 5-7 scudetti se dovessi scegliere la preferirei anch’io."

A Juventus aponta baterias à Champions. Scolari que se cuide, assim como os restantes adversários. Com um bom reforço de Inverno (já se falou em Diego), não sei, não...

3. "Si parla sempre di Cristiano Ronaldo ma Rooney è straordinario."

O quê? Quem és tu para te atreveres a comparar o Rooney com o primeiro, o segundo e terceiro melhor do mundo num só?

4. [Sobre o Barcelona] "Gioca davvero bene e ha Messi che probabilmente è il più forte in assoluto."

Messi, o melhor do mundo, em termos absolutos? Quem sabe, sabe...

5. [Quando inquirido sobre o porquê de, aos 34 anos, estar a fazer uma das suas melhores épocas] "Dipende dai muscoli, che stanno bene. E dalla testa: dentro c'è tanta voglia di vincere."

Reforço a parte "dalla testa". Para Del Piero, parte da sua boa produção depende da cabeça, isto é, da inteligência.

6. "Il mio tiro è un po’ cambiato rispetto al passato. Ho dovuto adeguarmi al fatto che oggi i portieri sono più bravi; e poi mi alleno molto con barriere che stanno a 8 metri e non ai canonici 9,15 perché in campo la distanza regolare viene fatta rispettare poco."

Os grandes são aqueles que se adaptam às necessidades. É por isso que Del Piero continua na alta roda do futebol europeu. Destaco o facto de treinar os livres com barreiras colocadas a oito metros.

7. "Sonia è straordinaria. Tra noi è stato un colpo di fulmine. L'ho vista in un bar e... Ho cominciato a corteggiarla mandandole dei fiori. Lo faccio anche adesso. Credo che quelli di oggi siano più importanti di allora."

Dentro de campo, é um "gentleman". Fora, ao que parece, não é diferente. É como o outro: dentro de campo, faz gestos para a bancada a dizer que é o número 1; fora do campo, espatifa carros de alta cilindrada.

8. "andare ai Mondiali è un mio obiettivo."

Teremos Pinturrichio na África do Sul? É eterno...

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Coisas do estúpido futebol que temos

1. António Tadeia, no Domingo Desportivo desta semana, quando inquirido sobre se a equipa apresentada por Paulo Bento, na última jornada, era a melhor do Sporting, respondeu que tinha dúvidas sobre o companheiro de Liedson. Segundo o douto senhor, Postiga deveria ser mais utilizado nos jogos em casa do que nos jogos fora (até porque toda a gente sabe que fora o Sporting joga contra 13 adversários e em casa apenas contra 11) e o seu argumento é - e agora vem o momento "Por que é que eu falo quando deveria estar caladinho? - Postiga "estraga muito jogo ao Sporting". Para António Tadeia, Hélder Postiga - e parafraseio - "é muitas vezes apanhado em fora-de-jogo", "enrola demasiado o jogo da equipa" e "mexe-se muito de um lado para o outro e retira, com isso, espaço a Liedson". Tenho uma palavra para o senhor António Tadeia: "Óculos". Ou isso ou Liedson é de tal maneira perfeito que quando é apanhado em fora-de-jogo ou a enrolar o jogo tem a capacidade de se metamorfosear em Hélder Postiga. Mas brilhante, brilhante, é o facto de Hélder Postiga "estragar" jogo por se mexer muito e cair em zonas do Liedson. Tenho impressão que, também aqui, António Tadeia confundiu Liedson com Postiga - o que é normal, visto que eles são parecidos -, mas mesmo que assim não seja, que raio de Deus é que Liedson é para que todos os espaços do campo lhe pertençam? Queres ver que o segredo do Sporting seria passar a jogar só com Liedson, de modo a que os colegas não lhe retirem espaço? E que mais tem o Postiga de mal? Mau hálito? Problemas de gaguez? Não ser igualzinho a São Liedson? Ai, ai, os mentecaptos...

2. O Sporting fez um jogo razoável, embora Moutinho tenha estado acima dos companheiros, e depressa voltaram as antigas vozes irritantes que afirmam que a melhor posição de Moutinho, no losango, é a 10. Sempre que se disse isto, no passado, as seguintes exibições de Moutinho trataram de refutá-lo. Mas elas insistem. Embora Moutinho possa jogar ali, e o faça com relativa facilidade, não é ali que mais pode render, nem é o melhor jogador do plantel naquela posição. Uma das razões para se dizer isto é porque Moutinho fica mais livre de tarefas defensivas e ocupa zonas mais centrais, onde pode fazer uso da sua visão de jogo. Além disso, com isto, possibilita-se que se jogue com Izmailov e Vukcevic nas alas do losango, o que para esta gente é sinónimo de maior largura. Desmistificando coisinhas: 1) num 442 losango, os alas do losango são médios interiores, devem ser jogadores capazes de ocupar espaços centrais e não flanqueadores; 2) Moutinho é um jogador extraordinário, com uma inteligência invulgar, com boa visão de jogo, mas falta-lhe alguma criatividade (nesse sentido, Romagnoli é um jogador que desequilibra com muito mais facilidade naquela posição); 3) o facto de jogar a 10 não iliba Moutinho de tarefas defensivas (tem tantas como na outra posição, ainda que em posições diferentes); 4) jogar com Moutinho numa ala só pode ser danoso para as características do jogador se se entender que os alas de um losango têm mais tarefas exteriores que interiores, o que não é verdade. 5) Jogar com um jogador mais agressivo a 10 para compensar o facto de se jogar com outro menos culto tacticamente noutra posição do losango é uma forma de pensar uma equipa em termos individuais, como uma balança, levando-se a fantasia de um prato da balança para o outro e compensando movendo a cultura táctica no sentido inverso, para equilibrar os pratos.

3. Liedson fez uma primeira parte notável, frente ao Setúbal. Sem ironias. A sério. Quase sempre que tinha a bola, decidia bem; raramente tentou resolver as coisas sozinho, ainda que estivesse a quilómetros da baliza, como é hábito; a sua prioridade foi sempre procurar um colega e não driblar; soube perceber o momento certo para soltar a bola, etc. Muito bem. Com isso, participou activamente nos dois golos da equipa. E tê-lo-ia feito mesmo que não tivesse sido ele a finalizar o lance do primeiro, porque o momento chave do lance é o seu passe para Abel. Ou seja, Liedson teve uma participação positiva em dois lances de golo, coisa raríssima nele, se exceptuarmos a finalização dos lances. Além disso, teve em muitos outros lances de ataque da equipa, permitindo desenvoltura ofensiva à mesma. Não emperrou, como habitualmente faz, o ataque do Sporting. Infelizmente, este Liedson dura pouco. Na segunda parte, voltou ao mesmo de sempre, voltou à banalidade sofrível de um jogador com poucos argumentos para rivalizar com os melhores avançados do nosso campeonato.

4. Bruno Gama - dizem - fez uma boa exibição e começa a mostrar sinais de evolução. Sim, talvez tenha feito uma boa exibição. Mas sinais de evolução não os vejo. Foi dos jogadores mais inconformados, é verdade. Foi aquele que se calhar mais remates tentou. Mas não é um jogador extraordinário. Teve o mérito de não tentar passar tantas vezes no um para um (as que tentou, falhou), como tentava, mas pouco mais. O único movimento individual digno de registo são as suas diagonais para o meio, pouco eficazes, porém. Esteve menos individualista do que é costume, mas continua a não revelar um talento invulgar. É um jogador veloz, com uma capacidade técnica razoável, mas não creio que tenha capacidades para algum dia jogar num grande ou chegar à selecção nacional. Nesse capítulo, continua a ficar a anos de luz de Hélder Barbosa, que fez mais um magnífico jogo contra o Benfica; continua a não ser muito diferente de Vieirinha, Ivanildo, Diogo Valente, etc. E, como disse Luís Freitas Lobo durante o jogo, começa a ser tarde para Bruno Gama explodir.

5. Olegário Benquerença foi o árbitro do Setúbal-Sporting e, uma vez mais, mostrou uma falta de classe absolutamente contraditória com a distinção de melhor árbitro português com que o estatuto europeu o define. A expulsão de Daniel Carriço é uma barbaridade. São duas faltas no meio-campo, derrubes ou rasteiras, sem intenção de aleijar, e que não constituíam jogadas de perigo. É verdade que aceito que se mostre amarelo nessas situações. Mas, para fazê-lo, os árbitros teriam de fazê-lo sempre. Com esse critério, aos quinze minutos de jogo, em qualquer jogo, já havia três expulsões para cada lado. É uma estupidez. Ainda bem que este primo do Quim Barreiros é considerado o melhor árbitro português. Duarte Gomes e Pedro Proença, claramente os dois árbitros mais competentes a actuar em solo português, devem estar satisfeitíssimos.

6. O Benfica perdeu na Trofa e, de repente, Quique já não é assim tão bom e já toda a gente afiança que o 442 clássico é um erro. É impressionante como, para se aferir o valor das coisas, se depende dos resultados. Agora que o Benfica está mal é fácil dizer que o treinador é obtuso e que o sistema é permeável. O Entredez fez isso há 6 ou 7 meses. E da mesma forma que achava que Quique não era assim tão bom, agora afirma que Quique não é assim tão mau. Falta-lhe perceber que o 442 clássico não é uma boa opção e que os problemas ofensivos de uma equipa não podem ser resolvidos pela inspiração individual dos seus executantes. Ah, e falta-lhe perceber que Bynia não é jogador de futebol. De resto, continua a ter o mesmo valor de antes.

7. Mais uma coisa gira e contraditória é dizerem que o problema do Benfica não tem a ver directamente com o sistema de jogo (ou seja, com o facto de jogar em 442 clássico), mas depois criticar-se o facto de a equipa não formar apoios próximos do portador da bola, obrigando este a executar, invariavelmente, passes de risco. Ora, é precisamente por o Benfica jogar em 442 clássico que o espaço entre os diferentes jogadores é tão grande. E não há forma de modificar isto drasticamente. Jogar em 442 clássico significa jogar com os alas a dar largura, abertos, e com os avançados a dar profundidade. Alterar isto para permitir uma melhor rede de apoios ao portador da bola (por exemplo, aproximar um avançado ou um ala do homem do meio-campo que tem a bola) é já não jogar em 442 clássico.

8. Hugo Leal está de volta.

9. Que terá passado na cabeça do defensor do Nacional para pôr a mão à bola naquele remate de longe que, provavelmente, iria para fora ou para as mãos do guarda-redes madeirense? Um cesto de fruta?

10. Mais dois golos de Hulk cujo mérito é todo de Lisandro. É por estas e por outras que contabilizar golos e assistências não serve, rigorosamente, para nada. Então o segundo golo de Hulk, o quarto do Porto, é o cúmulo da contradição. Era só encostar para Rodriguez finalizar, mas ele quis fintar o defesa e finalizar ele. Acabou por ter sorte, pois a bola roçou no pé do defesa do Nacional e ganhou altura, tornando-se indefensável. Num lance tão fácil de resolver, Hulk tomou a pior das decisões e, só por acaso, averbou mais um golo. Significa isso que está melhor? Não, não significa. Pelo contrário. É por isso que os golos marcados servem tanto para perceber a qualidade de um avançado quanto o tamanho do nariz de uma pessoa serve para conhecer o QI da mesma.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Bitaites de Treinadores

Para começar o ano de 2009, damos a palavra a quem sabe, ou seja, aos treinadores. Ou a quem exerce a profissão de treinador, o que vai dar ao mesmo... Mas antes de lhes passar a bola, uma ou duas coisas sobre Mourinho que podem ajudar a desmistificar algumas coisas, nas palavras do amigo e biógrafo, Luís Lourenço, assim como também nas de Rui Faria e Deco.

"Mourinho sempre disse que os seus jogadores têm que ser inteligentes e que têm que usar essa mesma inteligência." (Luis Lourenço, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.78)

"[...] os jogadores têm de pensar e ser inteligentes para observar e entender o que se passa e evolui à sua volta. Daí José Mourinho dizer que só quer jogadores inteligentes nas suas equipas; eles têm de perceber e para isso têm de pensar." (Rui Faria, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.95)

"[Mourinho é um] treinador com uma inteligência superior, muito ambicioso, que exige que os jogadores também o sejam". (Deco, in Liderança: as Lições de Mourinho, pp.200)

Agora eu: Mourinho privilegia, acima de tudo, a inteligência.


Passemos aos treinadores, então:

1. Jesualdo Ferreira:

Aquando da recente vitória do Porto sobre o Arsenal, no Dragão, tendo a equipa londrina jogado com os reservas, visto já estar apurada, Jesualdo Ferreira afirmou que a vitória do Porto sobre o Arsenal não poderia ser minimizada pelo facto de o Arsenal ter jogado sem os habituais titulares e que a sua equipa era tão nova quanto a apresentada por Arséne Wenger. Francamente, desconhecia a faceta de comediante de Jesualdo...

2. Fabio Capello (La Repubblica, 24 de Julho de 2008):

Ha visto gli ultimi Europei, dal vivo e in tv. Hanno decretato la morte del 4-4-2: non lo fa più nessuno. Lei ci ha vinto molto, alla Juventus e al Real Madrid. E' un modello tattico da consegnare alla storia?
"Nel calcio non si consegna niente alla storia. Ci sono i revival, le rivisitazioni, le piccole modifiche sul modello B. Agli Europei, in realtà, si è giocato il famoso 9-1. Non prendeteci in giro, il calcio moderno è questo: nove che difendono e una punta centrale. Tutti rientrano nella loro metà campo, anche i quattro centrocampisti offensivi. Il calcio di questi tempi è il 9-1".

Han??? No Europeu, jogou-se em 9-1??? Capello no seu melhor. A explicação é que, no futebol moderno, 9 defendem e 1 ataca. Dá-me ideia que isso de moderno não tem nada... Se há algo de moderno no futebol é o facto de todos defenderem e de todos atacarem. Já dizia Cruijff que o seu primeiro defesa era o Romário e que, se ele não defendesse na zona certa, toda a equipa teria de defender mais atrás. E o Cruijff já não é de ontem. O senhor Capello continua a revelar que está há mais de uma década parado no tempo. Para ele, há jogadores para defender e jogadores para atacar. E, ainda por cima, 90% deles servem para defender. Com esta frase, Capello revelou praticamente toda a sua filosofia: é um treinador conservador, com ideias estagnadas e nada equilibradas, incapaz de compreender a evolução que o futebol foi tendo ao longo dos últimos anos. Além da escassez de ideias novas, Capello privilegia a defesa. Para ele, é mais importante defender do que atacar. Para atacar, espera-se pela sorte, ou então pela inspiração individual dos avançados. Boa...

3. Marcelo Bielsa:

"Jamás los técnicos obsesivos se preocuparon por jugar ofensivamente. Yo soy un obsesivo del ataque. Yo miro videos para atacar, no para defender. ¿Saben cuál es mi trabajo defensivo? "Corremos todos." El trabajo de recuperación tiene 5 o 6 pautas y chau, se llega al límite. El fútbol ofensivo es infinito, interminable. Por eso es más fácil defender que crear. Correr es una decisión de la voluntad, crear necesita del indispensable requisito del talento."

O perfeito oposto da mentalidade de Capello é este comentário do ex-seleccionador argentino e actual seleccionador chileno, Marcelo Bielsa. Para Bielsa, aprender a defender é muito mais fácil que aprender a atacar, pois as possibilidades ofensivas são infinitas. Concordo totalmente com isto. Aquilo com que não concordo é com a aparente leviandade com que Bielsa trata a defesa. Defender não é só correr. Aliás, se Bielsa se preocupa com a forma como ataca, deveria preocupar-se com a forma de defender, que é sempre o princípio de qualquer ataque. O erro de Bielsa é separar tão drasticamente as duas coisas. Defender de forma correcta, isto é, com os elementos bem posicionados em campo, é a base essencial para a equipa poder passar da defesa para o ataque em pouco tempo. A ideia de Bielsa é compreensível: para defender, basta haver vontade, pelo que o trabalho a fazer é apenas motivacional, enquanto que para atacar é preciso cultivar a criatividade, o talento, a inspiração, etc. Mas o problema é que defender não é só uma coisa da vontade. Não basta apenas querer. É preciso cultura posicional, educação táctica, etc. É verdade que, para aprender a defender, não são necessários tantos esforços: basta corrigir posicionamentos defeituosos, limar vícios antigos, obrigar os jogadores a preocuparem-se com coberturas, etc. Para atacar, é preciso tudo isto e ainda apelar ao instinto criativo, à capacidade da equipa se tornar imprevisível. Isso é muito mais difícil. Tanto Capello como Bielsa parecem cair no erro de achar que defender e atacar são duas coisas distintas e intocáveis. Mas de entre os dois, privilegio claramente a mentalidade do argentino, pois compreende que o ataque é muito mais difícil de trabalhar do que a defesa.

4. Fabio Capello:

Mourinho sarà un allenatore rivoluzionario per il calcio italiano?
"Ai nostri allenatori Mourinho non ha da insegnare niente. In Italia il calcio tatticamente è una cosa molto, molto seria. Sotto l'aspetto calcistico siamo i più avanzati e ormai tutti conoscono tutto. Mourinho adesso ha in mano una macchina straordinaria e non credo farà rivoluzioni, gli sarà sufficiente portare quell'un per cento di novità".

Uma vez mais, Capello demonstra a paralisia temporal que possui. Desta vez, alia à mesma uma pitada de arrogância. Até há uns anos, isto de a Itália ser o país mais evoluído tacticamente era um mito. Confundia-se evolução táctica com jogar à defesa. E confundia-se aglomeração de jogadores atrás da linha da bola com organização defensiva. Nos últimos 5 anos, principalmente, isto foi corrigido. A Itália já não é o país do "catenaccio" e no campeonato italiano até se marcam tantos ou mais golos do que em Inglaterra, por exemplo. O campeonato, este ano, é provavelmente o mais atraente, com partidas fenomenais entre equipas de segunda linha, coisa sem igual noutros campeonatos europeus, e a grande maioria das equipas é bastante evoluída tacticamente. Aliás, é o campeonato no qual se vislumbra uma maior variedade táctica, desde o 442 clássico da Juventus ao 442 losango do Inter de Mourinho, do 4231 da Roma de Spalletti ao 433 da Fiorentina de Prandelli, do 352 ao 343, etc. Concordo, por isso, que em Itália abunde o saber táctico. Mas a frase de Capello é um frase feita. E uma frase que recorda um saber táctico de uma altura em que não havia assim tanto saber táctico. Quando Capello se refere ao saber táctico dos italianos, está a referir-se a um tempo em que isso era um mito, está a referir-se ao seu tempo e a si. E o saber táctico de Capello é como o de Ranieri: está um pouco obsoleto, no meio de tanta variedade e tanta novidade. Além disto, Capello ainda diz que Mourinho trará, no máximo, um por cento de novidade. Dizer isto é não conhecer a realidade, bem como não conhecer Mourinho. Só ao nível da metodologia de treino, Mourinho rompeu com todo o cânone. Basta lembrar que, ao chegar a Itália com este método de trabalho, suscitou imediatamente a curiosidade alheia. Carlo Ancelloti, um dos que não acha que não tem nada a aprender com Mourinho, disse imediatamente que gostaria de ir assistir a um treino do Inter, tal era o interesse que lhe despertava uma nova maneira de trabalhar. Capello, uma vez mais, revela toda a sua pouca modéstia e toda a sua parca sabedoria.

5. Mourinho:

Prefere Stankovic em posições mais centrais ou encostado à esquerda?
"Muitos pensam que o jogador mais posicional à frente da linha defensiva deve ser um jogador muito defensivo. Eu não penso assim. Penso que esse jogador deve ser um jogador com boa capacidade para jogar a bola, com qualidade, com visão, com tranquilidade, para ser quase como o homem que inicia a construção de jogo nessa zona. E o Stankovic é um jogador com experiência que pode jogar aí. Se tivermos Cambiasso para jogar na sua posição normal, obviamente que Stankovic será uma opção para jogar um pouco mais à frente, mas penso que ele pode jogar nessa posição, sim."
Um jogador como Pirlo?
"Não conheço a ideia de Carlo Ancelloti com Pirlo. Não, agrada-me um jogador de futebol, não me agrada um jogador que destrói o jogo do adversário. Gosto, nesta posição, de um jogador que joga e o Cambiasso joga e Stankovic joga e temos alguns outros que podem jogar nesta posição."

Para muitos, isto já não é novidade. Para outros, talvez não seja assim. Ficam, contudo, as palavras de Mourinho (traduzidas por mim) acerca do assunto. Para ele, um médio-defensivo não deve ser um jogador de características defensivas; deve ser alguém que saiba jogar à bola e não alguém para destruir jogo. Em 2008, essa realidade não é propriamente nova, mas, até ao aparecimento de Mourinho, tirando os holandeses, poucos ou nenhuns treinadores tinham ousado pensar desta forma. É uma das muitas revoluções que Mourinho ajudou a realizar. Num futebol a sério, verdadeiramente colectivo, como poucos o preconizam, jogadores como o típico médio-defensivo "carraça" não fazem sentido.

6. Mourinho (Conferência de Imprensa a seguir ao jogo da Supertaça contra a Roma):

[Sobre a questão de Ibrahimovic não marcar muitos golos.]
"Poderá melhorar, mas penso que, numa equipa, para jogar um futebol de controlo e um futebol com posse de bola, é sempre mais importante um super-jogador do ponto de vista técnico que um jogador que marca golos. Se uma equipa está dependente de um jogador que marca 20 ou 30 golos numa época e se o jogador se encontra num momento difícil, as coisas não serão fáceis."

Para Mourinho, o seu ponta-de-lança não tem de ser um exímio finalizador. Isto, se repararmos nas suas equipas e nos números das mesmas, não é nada de novo. Tirando Drogba, no último ano do Chelsea, e McCarthy, no último ano do Porto e após um final de época em que a equipa tudo fez para que o avançado sul-africano aumentasse o seu pecúlio, as equipas de Mourinho, sendo em conjunto o melhor ataque da prova, não têm normalmente o melhor marcador da mesma. Isto porque, nas suas equipas, marcar golo é uma coisa colectiva, da competência da equipa e não do seu avançado. Para Mourinho, para jogar ao ataque, para jogar em posse, é sempre mais importante um jogador que o possibilite do que um jogador capaz de marcar muitos golos. Assim, numa equipa que queira exercer o domínio de jogo, um jogador que valha apenas pela extraordinária capacidade finalizadora que possui não é um jogador útil. Veja-se o erro (assumido por Mourinho no final da época) que foi a contratação de Mateja Kezman. Para Mourinho, incorporar numa equipa sua um jogador que depende da sua capacidade individual de finalizador é desvirtuar o princípio absolutamente colectivo da sua maneira de pensar. Se quer uma equipa que troque a bola e consiga dominar o jogo, todos os seus elementos têm de ser benéficos para isso. Um jogador que não o seja, ainda que depois seja capaz de finalizar melhor do que outros, é sempre um corpo estranho no interior de um colectivo afinado por atributos colectivos. Sim, estou a insinuar que a Mourinho jamais lhe interessaria um jogador como Liedson...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Certezas (12)

Classe. É a palavra que melhor o define. O que não deixa de ser notável, tendo em conta que tem apenas 19 anos. Possuidor de uma técnica absolutamente notável, o que impressiona mais neste miúdo é a maturidade, a frieza, a racionalidade. É, também, a aparente facilidade com que executa cada lance. Alia, portanto, aos atributos técnicos invejáveis uma velocidade de raciocínio ímpar. Ao chegar aos seus pés, a bola já tem um destino, previamente estudado e decidido com uma destreza invulgar. Apesar de muito talentoso, não parece cair nas vaidades de outros e muito menos abusar nos truques e na fantasia improfícua. Sabe, por isso, guardar o seu arsenal de recursos para quando necessita deles, não usando cada bola que lhe chega para demonstrar as coisas extraordinárias de que os seus pés são capazes. Essa é, aliás, uma das características da escola espanhola de que faz parte. Aqui abro um parêntesis. É certo que esta rubrica, até ao momento, se deteve apenas em jogadores portugueses, em jovens promessas do nosso futebol, e que foram escapando a esta distinção alguns jogadores estrangeiros que, inegavelmente, tinham valor para ser referidos. Lembro-me, assim de repente, pelo menos de Bojan Krkic, o fenómeno espanhol, de Carlos Vela, o avançado mexicano que entretanto já vai fazendo alguns jogos pelo Arsenal, e de Stevan Jovetic, o avançado montenegrino que no princípio da presente temporada rumou à Fiorentina. Embora, por razões óbvias, não nos seja possível acompanhar a evolução de jovens menos conhecidos do grande público que não sejam portugueses, queremos contudo, a partir de agora, sempre que faça sentido, referenciar valores oriundos de outros países e que sejam pouco falados. Afinal, é disso que esta rubrica se alimenta. Como tal, começamos, nas nossas "Certezas" internacionais, por apresentar este médio-ofensivo espanhol, formado no Real Madrid. No início desta época, foi emprestado ao Queens Park Rangers (apesar dos esforços, sobretudo do Arsenal, em contratá-lo) e treinado por Paulo Sousa. Ao fim de meio ano, porém, este campeão europeu de sub-19 volta à casa mãe, talvez fruto da inegável capacidade futebolística que possui. Será curioso ver como Juande Ramos conseguirá gerir um meio-campo com tantas unidades de ataque de grande qualidade como sejam os holandeses Van der Vaart e Sneijder e os espanhóis Ruben de la Red, Guti e este miúdo, sendo que, à partida, não terá regressado a Espanha a meio da temporada apenas para fazer número. Será, por isso, interessante, acompanhar nos próximos meses a evolução de Daniel Parejo...

domingo, 21 de dezembro de 2008

Hulk, o Sistema de Jesualdo e a Zona do Porto

Sobre Hulk haveria bastante a dizer. Reconheço-lhe enormes capacidades individuais. Tecnicamente, é um dos jogadores mais dotados da Liga Sagres. Atleticamente é soberbo. Tem um remate extraordinário. E é velocíssimo. Falta-lhe, contudo, aquilo que considero mais importante num jogador de futebol: as capacidades colectivas. Falta-lhe a capacidade de perceber quando é que as suas características podem servir a equipa; falta-lhe saber esperar pela bola junto a uma linha, para ter espaço para explorar o um para um; falta-lhe ter por prioridade os colegas e não a finta; etc. Nesse sentido, sendo um jogador que tem por vocação o drible, sendo um jogador que, ao receber a bola de costas para a baliza, nunca dá de frente, procurando sempre virar-se para rematar ou para fintar, a sua posição deveria ser extremo. É esta a principal razão pela qual não consigo apreciar o brasileiro. O extremo é aquele jogador que, no meu entender, dentro de uma equipa, maior liberdade pode ter para experimentar lances individuais. Um avançado, entre outras coisas, deve ser capaz de servir de apoio vertical, deve ser capaz de jogar de costas para a baliza, deve saber tabelar, de modo a permitir um jogo curto em zonas centrais, deve servir de referência para a equipa progredir com a bola controlada no terreno. Hulk não tem essa capacidade. É por isso que, como avançado, não lhe auguro um grande futuro. Já como extremo a conversa talvez fosse outra. Isto porque, como é óbvio, tudo aquilo que disse que um avançado deveria ter, um extremo não tem obrigatoriamente que ter. Um extremo raramente recebe a bola de costas e a capacidade de segurar a bola junto à linha não constitui um ganho significativo para uma equipa.

Acontece, porém, que Hulk não joga numa equipa qualquer. Joga no Porto. E no Porto de Jesualdo. O Porto de Jesualdo, bem como o seu Braga, é uma equipa extraordinariamente objectiva, arrumada atrás e promovendo transições rápidas. Não sabe jogar de outra maneira. É uma equipa que aproveita bem os espaços em transição, mas que não é tão boa a encontrar soluções em ataque organizado, com o adversário bem fechado lá atrás. Uma das coisas que considero essenciais (cada vez mais essenciais), numa equipa que jogue em ataque organizado contra equipas bem fechadas, é a capacidade de fazer passes verticais. Por passes verticais entendo passes rasteiros, não muito longos, que quebrem linhas defensivas, passes entre dois adversários, solicitando um colega que recua para, jogando de costas, saltar etapas de construção. Em equipas que defendem bem, sobretudo em largura, a verticalidade, neste sentido, é essencial. Nas últimas fases de construção, então, é obrigatória. Este tipo de passes pode parecer trivial, mas além de constituir um ganho enorme para qualquer equipa, não são de execução nada fácil, nem para quem o executa (que tem de ter em conta muitas coisas, sobretudo os apoios que terá o colega que vai receber a bola), nem para quem recebe. Ora, o Porto de Jesualdo é uma equipa que ignora esta necessidade. O ano passado, no entanto, soube contrariar esta negligência de duas formas. Primeiro, porque Lisandro tem essa capacidade e o seu entendimento com Lucho resultava, muitas vezes, em passes verticais do último a solicitar o primeiro que, recebendo de costas, conseguia entregar num colega que entretanto se desmarcara. Segundo, porque tinha a arma de Bosingwa. Muitas vezes, o ataque organizado do Porto obrigava o adversário a concentrar os seus números do lado esquerdo e depois, saindo rapidamente da zona de pressão à esquerda, a equipa lançava Bosingwa, que subia pela direita e recebia a bola com possibilidades de apostar, invariavelmente, no um para um. Este ano, sem essas possibilidades, uma vez que não há Bosingwa nem Lisandro tem jogado ao meio, o Porto tem-se ressentido.

Ora bem, é aqui que pretendo chegar. Uma vez que Jesualdo não define como prioritário, no ataque, a formação de apoios verticais, os seus avançados não necessitam de ter as características que identifiquei como essenciais. Como o Porto joga sistematicamente em velocidade, os seus avançados querem-se velozes e individualmente dotados. Nos últimos jogos, tem jogado Rodriguez, Lisandro e Hulk, com o último no centro apenas no desenho, uma vez que há liberdade para todos eles se movimentarem ao longo de toda a linha da frente. O Porto não utiliza um avançado de referência, mas sim três jogadores de quem se espera muita espontaneidade e desequilíbrios. Se é verdade que, em transição, a equipa pode estar melhor apetrechada (ainda que não pareça existir, como no passado, uma referência como era Quaresma, sempre encostado à linha para dar início à transição), os problemas que vêm das épocas anteriores têm tendência a agravar-se. O jogo com o Shalke 04, da segunda mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões da época transacta ilustra bem a incapacidade que o Porto de Jesualdo tem para jogar contra equipas bem fechadas lá atrás. Essa incapacidade advém, essencialmente, de a equipa não ter, em muitas ocasiões, uma referência que possa servir de apoio vertical nas imediações da área. Com Lisandro ainda mais longe do centro do terreno, maiores dificuldades terá o Porto nesses jogos.

Resumindo, vejo em Hulk muito mais um jogador de linha ou um segundo avançado, para jogar solto ao lado de um avançado mais fixo, do que um ponta-de-lança. Como avançado num 433, não penso que seja uma boa opção. Apesar de tudo, e porque Jesualdo privilegia, nos seus homens da frente, a profundidade e a capacidade de acelerar o jogo, Hulk pode ser o avançado do seu 433. Agora, não se espere que o Porto seja uma equipa competente a jogar contra equipas bem organizadas lá atrás e que seja capaz, sem recorrer à inspiração individual dos seus atletas (esse argumento tão incerto), de resolver partidas difíceis.

Antes de terminar, gostaria ainda de falar do modo como o Porto de Jesualdo defende. Há que dar mérito a quem merece e Jesualdo, não sendo um treinador que aprecio em demasia, soube evoluir. Instruiu-se e melhorou bastante os seus conhecimentos ao longo da sua carreira. Ainda que o seu Porto seja um pouco autista e só saiba jogar de uma forma, tem competências extraordinárias. Uma delas é a forma como efectua a sua pressão, assente em princípios zonais. Neste momento, com Rodriguez, Hulk e Lisandro, é bem visível como o Porto inicia o seu processo defensivo. Os três atacantes reúnem-se em zonas centrais, pressionando em profundidade, o que obriga os adversários a procurarem as linhas. Ao acontecer isto, a equipa efectua uma pressão à zona quase perfeita, procurando asfixiar o portador da bola contra a linha lateral. Nenhuma equipa, em Portugal, o faz melhor que o Porto. Os seus adversários são, não raro, obrigados a jogar longo ou para trás, de modo a iniciar o processo ofensivo. A ocupação das zonas é do melhor que se vê em Portugal e tem sido, para mim, um dos segredos da capacidade competitiva desta equipa ao longo dos últimos anos. Aliás, creio, tem sido talvez a característica que melhor distingue a regularidade do Porto de Jesualdo da irregularidade do Sporting de Paulo Bento, que não é, nem por sombras, capaz de uma pressão tão alta e tão eficaz quanto a dos campeões nacionais.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Sondagens (10)

À pergunta "Quem vai ser o campeão europeu esta época?", responderam 48 votantes. Para surpresa minha, a votação deteve-se quase em exclusivo em duas equipas, o que, numa prova a eliminar, com pelo menos 10 equipas de nível semelhante, não deixa de ser estranho. Assim, o Barcelona reuniu 16 votos e o Inter 15. Para mim, são as duas equipas que mais gostaria de ver ganhar a prova e as duas que, a meu ver, têm melhores argumentos para se degladiarem com Manchester United, Chelsea e Liverpool. O Liverpool foi precisamente a terceira equipa mais votada, com 3 votos, enquanto que, no Arsenal e no Atlético de Madrid, votaram duas vezes. Chelsea, Roma, Bayern e Juventus tiveram 1 voto. Surpreendentemente, ninguém votou no Manchester United. Houve ainda 5 votos noutros candidatos. Tentando pensar em possíveis outros candidatos, será o Lyon? O Villareal? Fica a dúvida. De qualquer modo, penso que o maniqueísmo que esta votação ilustra não se reflectirá na prova e há que contar com outros candidatos além do Inter de Mourinho e deste Barcelona fantástico de Guardiola. Em Junho se verá...

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

O "problema" de Quique...

Quique Flores (treinador a quem reconheço qualidades e cuja filosofia de jogo, baseada em pressupostos ofensivos, me agrada bastante), na sequência da ausência de Ruben Amorim, optou por alterar o sistema de jogo com o qual vinha trabalhando. O treinador espanhol afirmou que, sem Amorim, era complicado apresentar um sistema equilibrado, optando então pelo losango, sob o pretexto de que este sistema lhe "permitia ter mais bola".

O 442 "clássico" é um sistema favorável a ataques rápidos. A sua estrutura permite-nos fazer "campo grande" de forma célere e sem grande dificuldade (com dois médios-alas, concedendo largura, e dois avançados, proporcionando profundidade). Este facto, aliado à capacidade de colocar muitos homens na parte final do processo ofensivo, permite que o conjunto de Quique alterne momentos em que consegue colocar o adversário sob grande pressão, através de um vendaval de futebol ofensivo, com outros em que os desequilíbrios inerentes à estrutura do próprio sistema saltam à vista. Por outras palavras, não é fácil encontrar meio-termo neste Benfica.

Este aspecto só não ganha mais destaque devido à (grande) qualidade dos jogadores à disposição do treinador espanhol. No processo ofensivo, por exemplo, é notória a necessidade de os jogadores (principalmente os alas e os avançados) resolverem através de iniciativas individuais, problemas que (supostamente) são do foro colectivo. São "espremidos" até à última gota jogadores como Reyes, Aimar, Suazo, etc (isto só para citar os casos mais gritantes).

A velocidade que caracteriza as várias fases do processo ofensivo, associada ao facto de apenas existirem dois jogadores no centro do terreno (médios-centros), deixa demasiadas vezes os jogadores sem "rede"(apoios), não lhes deixando outra solução para além da iniciativa individual.

Transições

É nestes dois momentos (defesa/ataque e ataque/defesa, mas principalmente nesta última) que são evidenciadas as várias debilidades do sistema benfiquista.

Se na transição defesa/ataque os perigos de jogar demasiado aberto e com poucos jogadores na zona da bola (o que impossibilita a saída de zonas de pressão de forma apoiada e segura), são dissimulados com a qualidade individual dos seus jogadores, na transição ataque/defesa a história é diferente.

O deficiente povoamento central, aliado à escassez de linhas, torna o conjunto da luz demasiado permeável, quer a passes verticais, quer a movimentações entre linhas. Por outro lado, o facto de apresentar poucas linhas "obriga" a um grande deslocamento posicional dos seus jogadores. Na sequência do processo ofensivo, os jogadores (os dois médios-centro), no intento de criar apoios, desposicionam-se, (através de movimentos verticais, que geralmente leva a que cubram grandes distâncias) resultando desta evidência uma grande vulnerabilidade às transições ataque/defesa.

É importante, a meu ver, que uma equipa se apresente equilibrada em todos os momentos do jogo, e não me parece que o conjunto de Quique o consiga, pelo menos neste sistema - um sistema que dá demasiado ênfase à largura, quando o centro do jogo se determina em função da bola e não só na intenção de colocar mais dificuldades ao adversário portador da bola. Uma equipa que privilegie o lado "forte" do jogo poderá não ter a hipótese de conseguir uma variação de flanco tão rápida, por exemplo, mas ganha em segurança no seu processo ofensivo, assim como em capacidade de reacção sobre o esférico, assim que este é recuperado pelo adversário.

Tudo isto dá origem aos seguintes sintomas:

- Dificuldade em controlar o jogo sem sofrer: o conjunto benfiquista experimenta grandes dificuldades quando não consegue encostar a equipa adversária ao seu último reduto.

- Demasiada permeabilidade frente a equipas que apresentem uma boa posse e circulação de bola.

- Grandes dificuldades para jogar em ataque continuado contra equipas que sejam organizadas e que não assumam uma postura demasiado submissa.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Coisas da Semana

1. O Sporting venceu. Liedson marcou. Rochemback assistiu. Se o futebol fosse matemática da primeira classe, estes dois seriam as estrelas do encontro. Como não é, embora 99,9% das pessoas que o vêem o reduzam a isso, não foram. Nem são.

2. Por falar em não saber ver futebol, o que dizer de quem está apaixonado por Hulk? O rapaz tem força, tem técnica, tem velocidade. Só não é é jogador de futebol.

3. Num fim-de-semana de gente burra, Quaresma foi considerado a maior desilusão do Calcio. Tendo em conta o que este tipo de votações diz de quem vota, este resultado é um espelho da incompetência da generalidade do público que vê futebol.

4. Por falar em prémios, Ronaldo recebeu finalmente a Bola de Ouro. Justo prémio, numa época em que não deu hipóteses à concorrência. Não considero que tenha sido injustiçado na época passada, uma vez que Kaká fora claramente melhor, mas seria muito injusto se não ganhasse este ano, pois quer a nível individual, quer a nível colectivo, ninguém esteve tão em foco como ele. Ainda assim, não é, para mim, em termos absolutos, o melhor jogador do mundo. E muito menos o melhor jogador português de todos os tempos.

5. José Mota perdeu a liderança. Vejamos o que perderá mais, nas próximas jornadas.

6. O Benfica ganhou por 6 ao Marítimo e toda a gente achou que se tratou de um resultado muito bom e de uma prestação muito boa. Não foi. O resultado não pode ser dissociado do lance que ditou a expulsão de Marcos e que acabaria por ditar o primeiro golo benfiquista. Antes disso, apenas uma oportunidade de golo, com Suazo a aproveitar um lançamento de Reyes para se isolar. Mas até ao segundo golo só deu Marítimo. Quem tiver visto o jogo com atenção, viu um Benfica frágil, incapaz de tomar conta do jogo, com a sorte de ter ficado desde muito cedo a jogar contra dez e com unidades que resolvem a qualquer momento. Mas, colectivamente, foi mais uma má exibição. Acho que o jogo, depois do segundo golo, não pode servir de exemplo. Ainda assim, é talvez importante referir que os primeiros três golos são de bola parada e que, em lances de bola corrida, o Benfica criou apenas uma oportunidade de golo, a tal acima citada. Assim, até ao segundo golo, o Marítimo mandou no jogo, trocando a bola a seu bel-prazer no meio-campo encarnado, aproveitando o muito espaço entre sectores. Mesmo com menos um jogador, o Marítimo foi sempre mais autoritário, dominou sempre a partida, sendo que o pressing encarnado raramente foi eficaz. Com bola, igualmente, o Benfica foi patético, caindo quase sempre no erro de lançar Suazo em profundidade ou de procurar Reyes na esquerda, para que este resolvesse individualmente. Passes verticais, progressão com bola, foi coisa que não se viu. Daí Aimar ter estado fora da partida. Nunca foi bem servido porque o Benfica não procura a não ser passes em profundidade, quer seja para as costas da defesa, quer seja para a velocidade dos alas. É muito pouco. O 6-0 foi apenas o corolário de um aproveitamento quase 100% eficaz, coisa em que o Benfica, este ano, parece estar bastante forte. Mas não ilustra, de maneira nenhuma, a superioridade encarnada. É um resultado mentiroso...

7. Em Itália, o Inter de Mourinho começa a distanciar-se. 6 pontos de avanço, para já, sobre os rivais, deixa antever boas coisas.

8. Em Espanha, o Barcelona de Guardiola é como o Inter de Mourinho: no início, auguraram-lhe mau desempenho, os primeiros resultados deixaram em pulgas os seus opositores, mas agora também já têm 6 pontos de avanço sobre a concorrência. Neste fim-de-semana, dois resultados semelhantes: o Barcelona venceu por 4 um adversário difícil, assim como o Inter, por 3. São, talvez, as duas equipas que melhor oposição poderão oferecer aos grandes de Inglaterra, no que toca à vitória final na Liga dos Campeões.

9. Schuster já não é treinador do Real. O seu sucessor, Juande Ramos, poderá fazer um trabalho interessante e ainda ir a tempo de conseguir alguma coisa este ano. A ver vamos.

10. Referência ainda para o Braga de Jorge Jesus que, num grupo complicado, conseguiu o apuramento para a fase seguinte da Taça UEFA. Já o Benfica de Quique deverá ficar vergonhosamente pelo caminho. Em termos de plantel, se exceptuarmos as equipas que virão da Liga dos Campeões, provavelmente só o Milan teria melhores jogadores. Ficar por aqui, ainda por cima num grupo claramente acessível e ocupando o último lugar do mesmo à partida para a última jornada, não pode ser esquecido só porque, no campeonato, a equipa lidera.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Carlos Martins: um estudo

O jogo foi o Benfica-Vitória de Setúbal, do passado fim-de-semana; o espécime em estudo, Carlos Martins. Antes da descrição dos lances e das conclusões, dizer que terá sido dos jogos menos positivos de Carlos Martins, o que em parte se deveu à falta de apoios perto de si.

1 minuto: Mau passe. (Saída de jogo para o Benfica e Martins, como consequência de um lance estudado, tenta lançar em profundidade um dos avançados do Benfica; o passe é interceptado.)

1 minuto: Boa opção. (Sofre falta no grande círculo a tentar proteger a bola.)

1 minuto: Boa opção. (Apertado, roda e joga de frente no apoio.)

2 minutos: Boa opção. (Passe curto a solicitar Jorge Ribeiro)

2 minutos: Boa opção. (No seguimento da jogada, entrega a bola, num passe curto, para Reyes e este cruza.)

2 minutos: Boa opção. (A bola sobra novamente para Martins, que por sua vez faz um passe vertical para Cardozo, que se encontra a entrada da área.)

3 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a posse de bola.)

4 minutos: Bate canto. (Canto tenso, ao segundo poste; Cardozo por pouco não consegue cabecear.)

5 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a posse de bola.)

6 minutos: Boa opção, embora arriscada. (Passe vertical para Reyes (opção arriscada).)

7 minutos: Mau passe. (Lançamento em profundidade a solicitar Suazo. A opção (tentava apanhar desprevenida a equipa do Vitória de Setúbal, visto que esta estava em transição ofensiva quando perdeu a possse de bola) era correcta, mas o passe saiu demasiado longo.)

8 minutos: Lance dividido. (Perde uma disputa pela bola.)

10 minutos: Boa opção. (Passe de primeira para o jogador que lhe estava a dar cobertura (apoio).)

10 minutos: Boa opção. (Tabela com Reyes e falta sofrida no seguimento da mesma jogada.)

11 minutos: Bate livre. (Bate livre curto, a meio do meio-campo ofensivo.)

14 minutos: Lance dividido. (Perde lance em bola dividida.)

14 minutos: Mau passe. (Passe transviado para Maxi Pereira.)

15 minutos: Mau passe. (Passe transviado.)

15 minutos: Participação na recuperação de bola. (Participa de forma decisiva na recuperação da posse de bola, pressiona o adversário de forma a que a bola sobre para Reyes.)

16 minutos: Bate livre. (Livre directo frontal de meia-distância; obriga Pedro Alves a defesa apertada.)

17 minutos: Bate canto. (Deste canto resulta jogada de perigo para a baliza sadina.)

20 minutos: Boa opção. (Passe vertical para Suazo.)

21 minutos: Boa opção. (Passe lateral a solicitar Katsouranis.)

23 minutos: Faz falta. (Falta cometida a meio-campo, com o intuito de parar o contra-ataque adversário.)

23 minutos: Mau passe. (Boa opção no passe para Suazo, mas este é interceptado.)

24 minutos: Remate. (Remate à entrada da area, defesa apertada de Pedro alves.)

26 minutos: Boa opção. (Passe atrasado para Miguel Vítor.)

27 minutos: Boa opção. (Passe lateral a solicitar Maxi Pereira.)

29 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola.,)

29 minutos: Boa opção. (Dribla adversário e faz passe vertical para Cardozo.)

30 minutos: Bate livre. (Livre lateral, batido de forma tensa; obriga Perdo Alves a socar a bola.)

31 minutos: Bate canto. (A defesa sadina corta sem dificuldade.)

32 minutos: Boa opção. (Envolvimento com Amorim. No seguimento da jogada proporciona cruzamento a Amorim com um toque de calcanhar.)

33 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Maxi Pereira.)

33 minutos: Mau passe. (Passe transviado.)

34 minutos: Mau passe. (Passe precipitado, sem olhar. No entanto não possuia apoios e a bola vinha pelo ar, pelo que se torna injusto crucificá-lo por não ter arriscado ficar com ela.)

40 minutos: Perda de bola. (Tentou desenvencilhar-se de um adversário, mas não conseguiu.)

43 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola.)

43 minutos: Má opção. (Apesar de ter acabado de recuperar a bola, precipita-se e perde-a novamente.)

45 minutos: Remate. (Remate à entrada da àrea, bate num adversário, e ganha canto.)

46 minutos: Bate canto. (Sem perigo.)

Primeira parte em que o benfica demonstrou grandes dificuldades, quer no processo ofensivo (vivendo sobretudo de movimentos individuais dos seus jogadores). No processo defensivo, revelaram dificuldades, consentindo muito espaço entre linhas.

46 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Maxi Pereira.)

47 minutos: Boa opção. (Passe atrasado para Miguel Vitor.)

48 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Jorge Ribeiro.)

49 minutos: Boa opção. (Tabela com Maxi; no seguimento deste lance, o uruguaio sofre falta.)

49 minutos: Bate livre. (Bate tenso ao primeiro poste; Katsouranis não consegue desviar com sucesso.)

54 minutos: Perda de bola. (Perde a posse de bola ao tentar desembaraçar-se de um adversário.)

54 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola e entrega curto.)

56 minutos: Boa opção. (Passe lateral para Jorge Ribeiro.)

56 minutos: Boa opção. (Na sequênca da jogada, tabela com Reyes.)

56 minutos: Boa opção. (Passe atrasado para Miguel Vítor.)

57 minutos: Cruzamento. (Cruzamento interceptado por defesa sadino.)

58 minutos: Sofre falta. (Sofre falta na zona de meio-campo.)

61 minutos: Faz Falta. (Falta inteligente.)

64 minutos: Recuperação de bola. (Recupera a bola.)

64 minutos: Má opção. (Na sequência da jogada, perde a bola.)


Coloquei em negrito aquilo que de negativo Carlos Martins fez. Vamos às conclusões:

1) 55 acções durante o tempo em que esteve em campo; 44 acções positivas; 80% de acções positivas.
2) Em 35 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se, portanto, os lances de bola parada ou as disputas de bola, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 25 boas acções contra 10 más acções; 71% de boas acções.
3) Destas 10 más acções, só 4 foram resultado de más opções, sendo que as restantes 6 foram más execuções.
4) Embora destas 4 más opções tenham resultado 4 perdas de bola, Carlos Martins recuperou 6 bolas e participou activamente, pelo menos, em mais uma, que acabou por sobrar para Reyes. Se o índice de perdas de bola não é tão baixo quanto desejável, já as recuperações confirmam, de certo modo, além da entrega ao jogo (também confirmada pelas estatísticas oficiais, segundo as quais foi dos jogadores que mais correu) uma clara capacidade de se integrar em processos defensivos, desmentindo outra coisa que também, muitas vezes, lhe é apontada.
5) Efectuou 21 passes correctos contra 9 passes errados; 70% de passes acertados. Tem sido dito que Carlos Martins não lateraliza e não joga para trás, com segurança, preferindo invariavelmente solicitar os companheiros da frente e querendo sistematicamente fazer o último passe, mas a verdade é que, destes 30 passes, 22 foram para trás, para o lado, ou passes curtos, quer em tabelas, quer de segurança relativamente alta, e só 8 foram passes em progressão, sendo que 5 deles foram passes verticais, rasteiros, cujo grau de risco é pouco elevado. Ainda assim, contando apenas os primeiros, temos que Carlos Martins fez 73% de passes de baixo risco, o que invalida, de certo modo, a teoria de que perde demasiadas bolas tentando fazer coisas que não são para ele, assim como prejudica os ataques da equipa querendo saltar etapas.
6) Raramente recorreu ao drible, usando-o, ainda assim, só em último caso, tendo sido bem sucedido 1 vez e mal sucedido 2 vezes.
7) Sofreu 3 faltas e cometeu 2.
8) Fez 3 remates, sendo que um deles foi de livre.
9) Foi dos jogadores que mais se preocupou em dar apoios perto dos seus colegas, respeitando não só o colega que tinha a bola como o princípio da posse de bola como nenhum outro, tentando ao máximo atenuar a falta de ligação entre sectores, bem como a distância larga entre elementos. Esteve muito bem, neste aspecto, revelando uma cultura táctica e uma noção das necessidades ofensivas da sua equipa bem acima da média.
10) Dizer ainda que, apesar de não possuir dados estatísticos que o comprovem, leva-me a intuição a afirmar que Ruben Amorim, o tal jogador que tem sido tão elogiado (e com razão) pela forma como equilibra a equipa à direita, perdeu, neste encontro, mais bolas que Carlos Martins, tomando igualmente mais vezes a opção errada. Tendo em conta que a distinção que tem sido feita entre os dois é que Ruben Amorim, ao contrário de Carlos Martins, confere mais segurança aos processos da equipa e não arrisca tanto, este dado não deixa de ser curioso.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

O Misterioso Problema do Sporting e os Indiscutíveis

Como muitos dos textos que escrevo, este é uma resposta imediata a uma determinada opinião generalizada entre quem fala de futebol. Muito se escreveu, ao longo da época passada, sobretudo quando o Sporting começava a ficar afastado do título, sobre o que ia mal para os lados de Alvalade. A teoria que então surgiu, e sobre a qual não me pronunciei até hoje, é de que o compromisso que o Sporting tem para com a banca, que o impossibilita de gastar tanto como os rivais, está directamente relacionado com o mau desempenho desportivo recente e é mesmo a principal causa do mesmo. Não concordo nem nunca concordei com isto.

Segundo esta teoria, que entretanto parece ter caído novamente em desuso (provavelmente porque depois o Sporting ainda conseguiu ficar em segundo lugar e arrecadar novamente a Taça de Portugal), o Sporting caminha para um processo de "belenensização", segundo palavras de um certo sábio. Ou seja, com o compromisso para com a banca, o Sporting não pode investir na melhoria do plantel; não o fazendo, perde gradualmente valor, o que faz com que conquiste cada vez menos coisas; conquistando menos coisas, os jovens jogadores formados na Academia valorizam-se cada vez menos; sendo a venda de activos do clube a maior fonte de receitas do mesmo, essa valorização cada vez menor implica receitas cada vez menores e, por conseguinte, cada vez menos capacidade para investir. Segundo esta teoria, o Sporting do ano passado, arredado da luta pelo título logo muito cedo, manifestou já um decréscimo de qualidade evidente e foi o prenúncio dessa gradual perda de capacidade de investir. Ou seja, para certos iluminados, os resultados menos positivos de uma época foram suficientes para provar uma teoria que só poderia ficar provada ao fim de muitas épocas. Se esta teoria estivesse correcta, como explicar a boa campanha da equipa de Paulo Bento no ano imediatamente anterior? Há dois anos, o Sporting fora uma equipa forte, ficando em segundo e lutando pelo título até ao fim, além de ter ganho a Taça de Portugal. De repente, já era uma equipa fraca? Não faz sentido.

O insucesso da época anterior, sobretudo na prova de resistência (uma vez que venceu a Taça, foi eliminado da Taça UEFA pelo finalista vencido e chegou à final da Taça da Liga), tem outras explicações. Antes de me deter nelas, gostaria de dizer que a teoria anterior não tem pés nem cabeça. A estratégia desportiva do Sporting é diferente da dos seus rivais e passa por uma contenção financeira muito maior. Em contrapartida, a aposta na prata da casa acaba por, de certo modo, compensar o menor investimento e tem sido, ao longo dos últimos anos, suficiente para manter o Sporting a um nível idêntico ao do Benfica e ao do Porto. Ao contrário dos rivais, que investem muito e esperam obter retorno desse investimento com a valorização desportiva dos jogadores em que investem, o Sporting investe consideravelmente menos e aposta de forma mais clara na valorização de jovens formados no clube. Em termos financeiros, não se pode dizer que tem sido uma má política, uma vez que, à excepção deste último defeso, o Sporting tem conseguido encaixar sempre algum dinheiro. Mas a teoria não rejeita isto. O que diz é que o problema do Sporting é a nível desportivo. Apostando em jovens que acabam por valorizar, pode ser capaz de vendê-los mais tarde, mas vai subsistindo com uma equipa constantemente formada por jogadores inexperientes, o que em termos desportivos pode ser prejudicial. A minha discordância com esta teoria não tem a ver com isto, embora considere falso o facto de o Sporting ser desportivamente menos competitivo que os rivais por causa desta estratégia. Aquilo de que discordo veementente é da consequência disto. É que, segundo esta teoria, uma equipa formada deste modo não só não é desportivamente competitiva como, por causa de não o ser, também não será, a longo prazo, financeiramente competitiva. Segundo os defensores desta teoria, o Sporting, por causa desta estratégia, ganhará cada vez menos coisas, será cada vez mais fraco a nível desportivo, o que fará com os seus jogadores sejam cada vez menos valiosos, o que, por sua vez, implica menos encaixe financeiro e, gradualmente, menos capacidade para se apetrechar com bons jogadores. Como tem sido visível, a estratégia continua a dar alguns frutos, logo a especulação em torno dela não parece plausível. O Sporting, gastando perto de três vezes menos que os seus rivais (se não for mais), continua a ser uma equipa competitiva; foi a equipa que mais coisas ganhou nos últimos anos e que melhor réplica conseguiu dar ao Porto, que ainda continua a usufruir das conquistas de Mourinho e de toda a valorização que essas conquistas possibilitaram. A estratégia do Sporting não só não tem revelado um decréscimo de qualidade desportiva, como não implica uma capacidade de investimento cada vez mais inferior, como ficou comprovado por este defeso, em que se gastou mais e não se recebeu nada. Os defensores desta teoria continuam a não ter qualquer testemunho substancial que a ateste.

Isto leva-nos para outra questão: se o problema do Sporting não é a capacidade cada vez menor para investir, qual é? Por que razão correu tão mal a época passada? A minha resposta é: por questões meramente desportivas. Não considero, como muita gente, que o Sporting tivesse um plantel mais fraco que o Porto. Considero, isso sim, que as opções iniciais de Paulo Bento eram inferiores às de Jesualdo. Mas nisto há também muita culpa do treinador leonino. Os erros de Paulo Bento não são circunstanciais. Isto é, Paulo Bento não é um treinador que umas vezes acerta, mas outras erra. Não. Paulo Bento tem boas coisas, enquanto treinador, mas tem certos caprichos, certas ideias predeterminadas que têm sido e continuam a ser, ao fim de três anos, a fonte maior dos seus erros. Isto faz com que as coisas corram, certas vezes, bem, outras vezes mal. Daí os problemas acentuarem-se numa prova de regularidade e ficarem disfarçados em provas a eliminar. É, portanto, dos erros de Paulo Bento que irei falar em seguida.

Há essencialmente dois tipos de erros: os erros tácticos, que afectam o colectivo, enquanto colectivo, e erros de apreciação e selecção de elementos do colectivo. Do primeiro tipo, consigo apontar essencialmente dois erros graves a Paulo Bento: a preferência constante (foi assim em todos os três anos) por um pressing menos alto do que seria desejável, tendo em conta as características do nosso campeonato, e a cada vez mais frequente opção pelo jogo directo (o futebol da sua equipa foi sendo cada vez mais objectivo, perdendo com isso lucidez, capacidade de mandar no jogo, de ter a bola, etc.). No que toca, porém, a jogadores e a opções técnicas - e é aqui que considero importante chegar - é que considero que reside o maior problema de Paulo Bento. Desde a opção, quase sempre falhada, de utilizar um avançado como vértice ofensivo do losango (principalmente Djaló), à insistência em certas pedras que, a dada altura, se percebia que eram nocivas ao desempenho da equipa, muitos têm sido os erros de Paulo Bento. É neles que me vou deter em seguida.

Começo por Romagnoli. Depois de uns primeiros bons seis meses, Romagnoli começou a época 2006/2007 em grande, mas quando a equipa começou a produzir pouco, foi imediatamente feito bode expiatório. O que Paulo Bento não percebeu foi que a equipa não produziu pouco porque Romagnoli produziu pouco, mas sim que Romagnoli produziu pouco porque a equipa produziu pouco. A relação causal existiu, mas Paulo Bento percebeu-a ao contrário. Aliás, a pouca produção individual de Romagnoli é quase sempre sinal de que a equipa está mal. Romagnoli precisa, não raro, de que a equipa seja capaz de ter bola, de circulá-la com segurança até que ela chegue a si. Paulo Bento não percebeu isto. Aliás, continua a não perceber: sempre que a equipa está mal, sacrifica o argentino. O que é certo é que Romagnoli esteve então algum tempo afastado da equipa, altura em que o Sporting perdeu o comboio do título. Quando se percebeu que o argentino era fundamental na equipa, já era tarde de mais. A presença de Romagnoli no onze esteve ligada à recuperação da segunda volta e veio provar que o pequeno craque tinha, obrigatoriamente, de jogar.

O segundo nome que pretendo frisar é o do inevitável Liedson. O brasileiro é e continuará a ser nocivo ao colectivo. Não é coincidência que o Sporting tenha começado a jogar menos à bola desde que Liedson voltou aos relvados. A produção ofensiva do Sporting liga-se, em grande medida, ao tipo de avançados que tem na frente. Com Liedson, o Sporting está claramente mais fraco, tem menos bola em zonas ofensivas, tem um avançado a menos a servir de apoio vertical e, como tal, está obrigado a um jogo muito menos pausado, a um jogo mais rápido, mais rectilíneo, com solicitações recorrentemente para as costas da defesa. Com Liedson, o futebol do Sporting é muito mais previsível e, contra equipas que defendem com um bloco muito baixo, menos eficaz. Em Portugal e em qualquer jogo em que o adversário defende muito fechado, os avançados têm de saber tabelar, têm de saber baixar para dar um apoio vertical; não podem ser só baratas tontas que se mexem erraticamente. Liedson faz do Sporting uma equipa pequena. É o típico jogador que, porque é rápido, ágil, e sabe aproveitar os espaços nas costas da defesa e dentro da área, serve os interesses de uma equipa que joga em contra-ataque ou com um futebol simples, de jogo mais directo. Para uma equipa grande, que precisa que um avançado seja alguém capaz de aparecer entre linhas a tabelar uma bola e capaz de intervir em várias das fases de construção de jogo, Liedson não serve. E poderão até alegar que, nos últimos jogos, o Sporting ganhou invariavelmente pela margem mínima e que o golo foi marcado por Liedson. A minha resposta a isso é igualmente factual. Sem Liedson, se exceptuarmos os jogos com Barcelona, Benfica e Porto, que são sempre jogos especiais, o Sporting tinha três vitórias no campeonato em outros tantos jogos e uma vitória na Liga dos Campeões num único jogo. Ou seja, sem Liedson, o Sporting ganhara sempre os jogos que tinha obrigação de ganhar. Em termos de golos, Postiga, Djaló e Derlei tinham, até à altura, dado conta do recado. Com Liedson, o Sporting tem produzido claramente menos e perdido pontos que não deveria perder. Coincidência? Não me parece. O facto de marcar alguns golos não pode fazer presumir que, sem Liedson, esses golos não existiriam, já que, sem Liedson, havia golos. O que se pode presumir, isso sim, é que com Liedson, o Sporting joga menos à bola. A quantidade de ataques que a falta de inteligência dele destrói é enorme. Ora bem, Paulo Bento é apaixonado por Liedson. Esse é outro dos problemas, um dos mais graves, a meu ver. A equipa produz claramente pouco com o Levezinho em campo e, numa prova de regularidade, isso é determinante. Há quem diga que Liedson é o abono de família do Sporting. Eu atrevo-me a dizer que, com Liedson, o Sporting só ganhará um campeonato se Porto e Benfica facilitarem.

Se pensarmos, então, na forma como Liedson entrou na equipa agora, ao voltar de lesão, podemos então perceber muita coisa sobre os erros de Paulo Bento e sobre a má gestão desportiva do treinador do Sporting. Djaló, Postiga e Derlei, sobretudo os dois primeiros, estavam em momentos de forma muito bons e, assim que Liedson pôde jogar, Paulo Bento não hesitou em relegá-los para o banco. Ou seja, dos dois lugares para avançados, um deles está reservado. Ora, que espécie de motivação é que um jogador que sabe que tem que lutar com três companheiros por um lugar no onze pode ter, quando um outro tem o seu cantinho reservado, ainda por cima sem o justificar? Djaló terá mesmo, a dada altura, perdido a paciência e ficou fora de uma convocatória. Há quem considere que Paulo Bento tem razão e que o jogador tem que acatar a decisão do treinador. Mas isso é falso. Djaló não tem que acatar coisíssima nenhuma. E não tem que acatar porque não há razão para tal. Ele merecia jogar e um amor imbecil do treinador por um jogador não é justificação para não jogar. Djaló só teria que aceitar esta situação se por acaso o jogador em causa entrasse e justificasse (não é com um golo por jogo que se justifica nada) essa entrada. Tal não aconteceu. O Sporting era muito mais equipa com Djaló do que com Liedson. E o mesmo se passará com Postiga. Postiga ainda não perdeu as estribeiras, mas tem toda a legitimidade para perdê-las, quando for o caso. E isto por uma razão simples. Porque a indiscutibilidade de um jogador justifica-se em campo e nos treinos. O problema é que, para Paulo Bento, há indiscutíveis por haver, porque lhe apetece que haja.

Está, finalmente, lançado o segundo tema deste texto: os indiscutíveis. Um dos grandes problemas de Paulo Bento é o ter indiscutíveis. E tê-los à priori, isto é, sem basear essa indiscutibilidade na justificação da mesma. Este tema prende-se com a forma de liderar de Paulo Bento e com o porquê de jogadores mais temperamentais acabarem por ser proscritos pelo técnico leonino. Liderar não é só mandar. Aquele que é liderado deve sentir que tem tantos direitos e deveres quanto o colega. Por isso, um bom líder não pode ter indiscutíveis. Mas Paulo Bento tem-nos. Tem Polga, tem Moutinho, tem Liedson e tem Rochemback, agora. Nenhum destes, por pior que esteja, sai da equipa. Isto é um erro. E é um erro porque confere a estes um estatuto de intocável que faz com que os outros saibam que todo o esforço para os substituir é inglório. Se Djaló não aguentou a injustiça de Liedson voltar à equipa sem qualquer espécie de justificação, Miguel Veloso também não aguentou o facto de, de um momento para o outro, Rochemback passar a ter de jogar no seu lugar, relegando-o para a posição de lateral-esquerdo. E, tal como Liedson, Rochemback ainda não justificou a sua utilização. Mas, entretanto, continua a jogar. Paulo Bento cria fetiches com determinados jogadores e imagina que, por pior que eles estejam, devem continuar a jogar. Liedson e Rochemback não só não têm dado nada à equipa como, por terem o estatuto que têm, têm ajudado a dividir um grupo que deveria estar coeso. Ao ter indiscutíveis, Paulo Bento passa uma mensagem negativa ao seu grupo. Daí à desmotivação vai um pequeno passo e os primeiros a quebrar são precisamente os mais temperamentais, aqueles que se apercebem da injustiça e que não são capazes de continuar a ser humilhados, enquanto outros vivem como lordes, gordos e apaparicados. Vukcevic foi só o caso mais grave.

Diz Mourinho, sobre a forma de motivar o jogador latino, o seguinte:

"O jogador latino não é especialmente obediente à hierarquia. É obediente à competência. Não sou obediente porque tu és treinador; sou obediente porque sabes mais disto que eu, porque és bom, porque treinas bem, porque tens razão." (Luís Lourenço e Fernando Ilharco, Liderança: As Lições de Mourinho, pp.186)

Ora, Vukcevic, assim como Veloso e Djaló, em menor escala, perceberam e insurgiram-se contra a incoerência de tratamentos dentro do balneário leonino. Enquanto Moutinho pode dizer o que quiser, que não sai da equipa, para outros uma palavra despropositada é logo motivo de processo disciplinar. Enquanto Rochemback e Liedson, estando aptos a jogar, jogam, para outros todo o esforço do mundo é insuficiente. Assim, não valerá a pena. Vukcevic terá, por certo, consciência de que tem mais valor que Rochemback e Liedson e que pode ajudar a equipa muito mais do que estes dois. Percebendo que, por mais que fizesse, nunca atingiria o estatuto destes dois, perdeu a cabeça, desmotivou-se. Nada mais normal. Como diz Mourinho, precisava de ter visto em Paulo Bento competência, mas viu apenas um superior hierárquico, caprichoso, intolerante, intransigente e incoerente. Percebeu que Paulo Bento tinha indiscutíveis por ter, porque lhe apetecia tê-los; percebeu que Paulo Bento não justificava a existência desses indiscutíveis com competência, mas sim por capricho. Um jogador talentoso, cheio de vontade de mostrar o seu valor, consciente da sua qualidade, jamais poderá acatar uma liderança tão inábil quanto a de Paulo Bento. Para Bento, há intocáveis porque ele decidiu haver; para um treinador competente, esse estatuto ganha-se. Vukcevic tem toda a razão para ter agido como agiu: nunca foi respeitado como outros o são, muitos deles sem o merecerem. Quem faltou primeiro ao respeito nesta história toda foi o treinador, ao não tratar todos da mesma maneira. O resto é conversa...

P.S. Queria pedir desculpa pela extensão exagerada do texto. Juntei dois assuntos que há muito queria abordar e acabou por ficar deste tamanho estúpido. Mas estava mesmo na hora de falar disto tudo...

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

"A arte e beleza expulsam todo o mal do mundo"

Não consigo confirmar se esta frase é da escritora Agustina Bessa Luis, mas a verdade é que podíamos aplicar a mesma à peregrinação de Del Piero pelo campeonato Italiano.

A verdade é que, nos tempos que correm, ter o privilégio de ver actuar um jogador como Del Piero é um verdadeiro luxo. Não só pela classe que demonstra em cada lance, mas pela qualidade que coloca em cada decisão e movimento.

A inteligência do "Pinturicchio" não se manifesta só na qualidade das decisões que toma, mas na maneira como com consegue "comprar" espaço e tempo no futebol actual. Valendo-se "apenas" de uma técnica sublime, sem ser poderoso fisicamente ou velocista, o número dez da Juve não só consegue criar espaço para o seu futebol como ainda tem o desplante de cobrir os seus movimentos com a ilusão de que tudo o que faz é de uma naturalidade e com uma serenidade que ofende. Dá a ideia que ele ouve Beethoven enquanto joga - será Für Elise? - enquanto que o resto anda entretido a ouvir The Prodigy.

No entanto, o que mais supreende é a maneira como um jogador, por si só, consegue esconder e defender um sistema táctico tão desequilibrado como o da Juve (se bem que com a nova epidemia deste sistema as coisas fiquem mais fáceis).

Há muito que venho criticando este sistema. Apesar de não ser um assunto isento de polémica, a minha opinião sobre este assunto não se tem alterado, não porque tenha mantido uma atitude autista em relaçao ao mesmo, mas porque quanto mais informação absorvo e cruzo, mais perto fico da conclusão que é uma táctica que coloca grandes dificuldades à proliferção, com sucesso, do modelo de jogo que idealizo. Todavia, Del Piero consegue, através do seu talento, "mascarar" as debilidades da equipa de Turim, de tal forma que muitos apelidam-na de inteligente. Nada mais errado. A equipa apresenta um futebol "primitivo", com os vários momentos do jogo bem separados, com transições simples e um bloco (muito) baixo. A opção por este modelo de jogo poderia comprometer de forma irremediável os objectivos de uma equipa como a Juve. Poderia, não fosse o número 10.

Com os seus golos (e a maneira como os alcança), a forma como compra tempo e espaço para o seu jogo, acrescentando tempo ao onze de Ranieri. Tempo de qualidade, através da magia de Del Piero, que intimida, e inspira. Porque na bola há de tudo: os que jogam; os que jogam e ensinam, etc. Mas Del Piero inspira. Obrigado.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Andar de Carroça

O Tottenham, desde que Juande Ramos foi despedido e Redknapp assumiu as rédeas da equipa, tem ganho quase sempre. Para muitos, está melhor. Para mim, não. A principal diferença é que, antes, a equipa tinha um automóvel topo de gama, mas os jogadores não sabiam conduzi-lo. Agora, tem uma carroça que vai, de socalco em socalco, vencendo os obstáculos que lhe aparecem pela frente. Mas isto apenas até ficar atascada numa poça de lama. Os jogadores, acostumados ao que aprenderam, habituados às leis em que foram formados, só sabem jogar de uma maneira. Estão formatados para jogar à inglesa e, qualquer que seja a alteração, reagem mal. Talvez Juande Ramos não tenha sido suficientemente competente para ensinar os seus pupilos a conduzir um automóvel tão bom, mas a verdade é que, assim que lhes facilitaram as coisas, assim que chegou um treinador inglês, igual a todos os outros treinadores ingleses, começaram a ter resultados. E começaram a tê-los porque voltaram a jogar do mesmo modo que jogaram toda a vida, de um modo fácil que, por estarem habituados, lhes permite pôr o seu valor individual em destaque.

Mas, deste modo, o futebol do Tottenham nunca passará disto, nunca será mais do que essas individualidades. No fundo, a saída de Juande Ramos, embora tenha feito com que os resultados começassem a surgir, representa a estagnação evolutiva da equipa. A partir de agora, o Tottenham será só isto. É verdade que tem valores fantásticos, mas como colectivo jamais chegará onde poderia chegar com o treinador espanhol. Em Inglaterra, prefere-se andar de carroça. Quando se pega num automóvel, não se sabe conduzi-lo. A máquina que Juande Ramos poderia criar era claramente superior à que Redknapp algum dia poderá vir a construir, mas os jogadores, acostumados a conceitos simples e a jogar essencialmente com o coração, não souberam fazer parte dela. Provavelmente, estarão até mais felizes agora, que começaram a ganhar. Infelizmente, estar feliz significa, por norma, não ter consciência do quão pequeno se é. Estes jogadores, ainda que sorridentes pelas vitórias recentes, não têm consciência do que perderam. Com Juande Ramos, o potencial a que cada um deles poderia chegar seria, por certo, muito maior do que alguma vez virá a ser. Lá está, é o hábito de andar de carroça, o hábito de ser pequeno.

domingo, 9 de novembro de 2008

Professor...

No futebol actual, são cada vez menos os jogadores que nos apaixonam. Menos ainda são aqueles que nos "ensinam" futebol.

Aimar é um desses (poucos) exemplos.

O número 10 benfiquista tem-nos presenteado com verdadeiras lições de futebol, tanto a nível interpretativo como no aspecto técnico.

Na memória de todos ainda está aquela pequena maravilhosa "rabona" do argentino. A dificuldade, neste caso, consiste em determinar o maior mérito: se o do gesto técnico, se o da leitura rápida e correcta do lance. Porque estes movimentos, muitas vezes, funcionam apenas como artifícios e, como tal, seriam à partida dispensáveis. Direi mesmo que serão contrários à essência do futebol enquanto jogo. Porque muitas vezes são executados à margem de qualquer estratégia de jogo, em que cada movimento encerra sobre si mesmo a própria finalidade. Aimar, no entanto, utiliza a sua capacidade de execução como desbloqueador de situações complexas. As exibições de Pablito confundem-se entre os truques e a inteligência do seu futebol.
Digo "confunde-se" porque manda a razão que se jogue futebol de forma simples, que se coloque em campo os meios e esforços necessários para o sucesso da nossa forma de jogar (enquanto equipa), e que evitemos as palhaçadas frívolas.

A essência do futebol de Aimar não tem nada a ver com qualquer gesto técnico vistoso. A substância presente em cada movimento de Aimar, do mais complexo ao mais banal, é em função do que o jogo lhe requisita em dado momento para alcançar um objectivo que encerra muito mais do que esse simples momento. Ou seja, os seus movimentos não são desconectados entre si. Daí ele perceber quando deve lançar um jogador para um contra-ataque mortífero, ou por outro lado, quando é que deve entregar a bola a um colega que não se encontra a mais de um/dois metros de distância. A qualidade do futebol revelada em ambos os momentos é a mesma. A sua manifestação, porém, é que é diferente. Mas a presença activa do argentino no jogo e a importância deste jogador para a equipa alcançar os objectivos do jogar a que se propõe não oscila em função da estética dos seus movimentos.

A faculdade de Aimar conseguir concretizar o seu Futebol através de execuções fantásticas não seria suficiente para fazer dele um jogador de eleição... ou um Artista. Não se o Futebol dele, a essência do mesmo, não fosse por si só extraordinária. Aimar, o futebolista, não precisaria de recorrer a gestos técnicos deslumbrantes para ser um fantástico jogador porque o futebol que "nasce" dentro do argentino é soberbo. O facto de o argentino conseguir materializar essa interpretação e entendimento do jogo através de uma (a do próprio) visão estética, coloca-o no mesmo pedestal dos Artistas. Daqueles a sério.

E é aqui que Aimar assume, de forma inconsciente, um papel determinante para as gerações de futebolistas num futuro próximo. Com as suas pequenas lições, vai ensinando, entre meia-dúzia de truques, o que é jogar BOM FUTEBOL.
Porque na incapacidade de se perceber, por si só, algo tão profundo como o jogar bem, de forma racional (grande parte dos jovens jogadores apenas atribui importância a aspectos técnicos, descurando a sua interpretação do jogo), é importante que as gerações mais jovens cresçam a admirar um jogador que trata tão bem o jogo, ainda que o admirem por tratar bem a bola.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Pouca coisa...

1. Aimar não presta. Passes de letra são coisas para gajos que vieram passar férias a Portugal, de certeza.

2. Nuno Assis é outro que não vale nada. O facto de ter sido o jogador vimaranense mais esclarecido em campo foi coincidência.

3. Andrezinho, esse sim, é um jogador e tanto. Aquela assistência para Aimar, que permitiu ao argentino solicitar a corrida de Suazo, é de uma classe extraordinária. Melhor, só o pontapé no queixo do hondurenho ou aquela dança esquisita à frente de Reyes, durante quase um minuto, sem sair do mesmo sítio.

4. No golo do Guimarães, pode falar-se em erros de Maxi Pereira, que deveria estar mais metido para dentro, ou de Luisão, que não deveria ter tentado interceptar a bola, mantendo-se na corrida com Douglas, mas o lance só acontece porque o sistema do Benfica a isso convida. Com apenas dois passes rasteiros, o Guimarães ultrapassou 8 jogadores do Benfica. Roberto veio buscar a bola ao espaço vazio e o passe do médio minhoto para ele ultrapassou toda a linha do meio-campo do Benfica. A partir desse momento, está criado o desequilíbrio. O resto é mais ou menos fácil. A chave do lance é esse passe e não os erros posicionais dos defesas. É por estas e por outras razões que não consigo perceber como é que o 442 clássico continua a ser o modelo táctico mais utilizado. E não me venham falar de dinâmicas. Aquilo acontece com qualquer equipa que jogue com uma linha de 4 homens no meio-campo. Não há dinâmicas que o impeçam.

5. Muitos afirmam que Aimar não foi atropelado por Danilo dentro da área e que, portanto, não haveria lugar à marcação de um penalty que, para mim, foi claríssimo. O argumento é que já ia em queda quando se dá o contacto. Se um camião TIR vier direito a mim, de certeza que também não vou ficar quietinho à espera que ele me acerte. Aimar encolheu-se, prevendo o choque. Mas nada disso importa. Deixando-se ou não cair, a verdade é que há um contacto evidente que derruba o argentino.

6. Liedson continua a facturar, dizem alguns. O que eu gostava mesmo de saber era quanto é que Liedson paga aos defesas adversários para que estes façam disparates e o deixem isolado. Ou então, quando é que Liedson volta a marcar um golo cujo mérito seja mesmo dele. Aposto que vai vir muito palerma dizer que há mérito na forma como ele pressiona. Sinceramente, isso dá-lhe quase tanto mérito como a mim, que, sentado no meu sofá, estava a torcer para que aquele defesa dominasse mal a bola e depois inventasse daquela forma.

7. O Porto perdeu novamente e fala-se em crise. O que é certo é que Jesualdo, em 2 anos, não conseguiu lançar na equipa principal do Porto praticamente nenhum jogador de relevo. Foi vivendo daquilo que já vinha de trás e quase todas as suas contratações foram fracassos: Kazmierczak, Bollatti, Guarín, Farías, Lino, Stepanov, Benitez, etc. Agora que escasseia a qualidade trazida em tempos, a qualidade do plantel portista já não disfarça a pouca qualidade de Jesualdo nesse âmbito. A palavra "qualidade", três vezes referida na frase anterior, parece-me aquela que, pela sua ausência, melhor define o que se está a passar no Dragão.

8. Bruno Alves deu mais um beliscão num adversário, desta vez Davide. Beliscar com o cotovelo não é uma arte para qualquer um, mas Bruno Alves também não é qualquer um. Continuo é sem perceber por que é que os tipos que ele belisca fazem fita para tentar expulsá-lo, quando é evidente que esse tipo de truques mesquinhos não resulta.

9. José Mota lidera. No campeonato e nas loas que os estultos lhe tecem.

10. Lá fora, o Barça continua sem ganhar... por diferenças pequenas.

11. Em Itália, grande campeonato. 3 pontos separam os 5 primeiros; 6 pontos separam os 9 primeiros. Só para comparar, em Inglaterra, os primeiros 5 já estão separados por 6 pontos e os primeiros 9 por 12.

12. Del Piero marcou mais um golo espantoso. Quero distingui-lo com dois prémios. 1) É o melhor marcador de livres de que me recordo, à excepção de David Beckham; 2) É, para mim, provavelmente, o melhor jogador de sempre que nunca ganhou o prémio de melhor do mundo.