Este é, porventura, um dos maiores sofismas que o futebol contém: "Não interessa o sistema táctico, o que conta são as dinâmicas".
À partida, isto pode parecer verdadeiro, mas a realidade é bem diferente.
Podemos definir as dinâmicas de uma equipa como o padrão dos movimentos que a mesma concerta entre os seus sectores e, por consequência, entre os seus jogadores. Muita gente defende que são os jogadores que definem as características das dinâmicas (se um jogador tem tendência para procurar a bola em zonas mais interiores, se ele se sente mais à vontade em zonas laterais, entrelinhas, etc.)
Não é assim que eu vejo este assunto. Devemos respeitar a individualidade, e tudo o que de bom vem deste "pormenor" de cada jogador, mas apenas em função do plano de jogo da equipa. Tudo aquilo que cada jogador empresta è equipa deve ser sempre enquadrado pelo jogador e restantes companheiros nas necessidades da equipa, e não o contrário. Ou seja, é o individuo ao serviço da equipa, independentemente das características desse jogador.
As dinâmicas, como movimentos que o nosso modelo de jogo pretende que sejam efectuadas, estão directamente relacionadas com o posicionamento dos jogadores, portanto, na distribuição dos onze jogadores no relvado.
Assim, as características das dinâmicas são directamente influenciadas pelo posicionamento das peças na estrutura da equipa. O alinhamento de cada posição dentro do sistema táctico (cada parte do todo), enquadrado com o posicionamento das outras peças, é fundamental na legitimação e pertinência nas dinâmicas das partes em função do todo pretendido (ideia/filosofia de jogo). Porque é isto que se deseja: que cada movimento de cada jogador seja SEMPRE em função dos princípios de jogo que sustentam toda a actividade colectiva.
Desta forma, as dinâmicas desenvolvem-se e relacionam-se dentro de uma determinada estrutura. Dentro dessas estruturas existirão umas que permitirão um melhor desenvolvimento e optimização de um tipo específico de dinâmicas. Rinus Michels defende isto ao proferir as seguintes frases: "(...) the 4:3:3 is not as suitable to counter attack football(...) when choosing to play the 4:3:3 system you are assuming as a coach that you will carry the play as much as possible."(in Rinus Michels, Teambuilding: The Road to Success)
Como é óbvio, o sistema táctico por si só não garante que a nossa equipa jogue bem, de forma apoiada, com uma boa posse e circulação de bola, etc. Admito que para muitos não passe de um pormenor, mas são estes detalhes que fazem toda a diferença: o método de treino; a capacidade de liderar e interpretar os vários elementos (com as mais distintas personalidades) do grupo; a qualidade dos jogadores; a ideia colectiva de jogo que se pretende (e a taxa de sucesso da implementação da mesma), tudo isto são pormenores quando nos focamos no geral (o todo que é a equipa).
O posicionamento de cada posição relativa à estrutura do sistema táctico funciona como o ponto de partida e de chegada. As constantes do nosso jogar são formuladas a partir do desenho da estrutura da nossa equipa. É importante que o nosso sistema táctico nos ofereça a possibilidade de articular de forma harmoniosa os quatro momentos do jogo.
Assim, esperamos que cada sistema táctico favoreça a nossa filosofia de jogo. Mas sem que os jogadores tenham de o fazer em (demasiado) esforço, nem em prejuízo das suas faculdades. Van Gaal defendeu qualquer coisa como isto: "no seu modelo de jogo, o ideal seria que cada jogador corresse o menos possível". E isto não me parece possível com um qualquer sistema táctico.
domingo, 26 de outubro de 2008
Sistema táctico: para além do mito das dinâmicas...
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Gonçalo
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Sondagens (9)
P.S. Esta sondagem não pretende tirar quaisquer conclusões práticas. É apenas um instrumento de curiosidade através do qual se apreciam as tendências dos visitantes deste espaço. Como tal, pede-se àqueles que insistem em achar que isto tem, para os autores, o peso de uma sondagem eleitoral que estejam caladinhos e guardem para si as observações palermas e os comentários sem nexo. Obrigado!
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Nuno
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domingo, 19 de outubro de 2008
Centrais altos e espadaúdos
O argumento, no que diz respeito aos centrais, é que jogam numa posição em que é determinante ganhar bolas de cabeça e defendem-se dizendo que centrais baixos, como Cannavaro, compensam com uma impulsão extraordinária. Ou seja, essas pessoas creêm que, ou se tem altura, ou se tem impulsão. Isto porque um defesa deve ser capaz de ganhar bolas de cabeça. Queria dar um exemplo que manda isto tudo às favas. O Inter de Mourinho ganhou hoje por 4-0 à Roma. Jogaram a central Chivu e Córdoba, uma dupla de centrais com uma média de altura claramente inferior a 1,80 metros. Como médio-defensivo, numa posição onde, para muitos, sobretudo contra equipas que jogam um futebol mais directo, se deve dar importância à altura, Mourinho apresentou Cambiasso, um jogador também abaixo dos 1,80 metros. Ou seja, o Inter jogou com três jogadores relativamente baixos nas posições onde, por norma, se diz que é importante haver altura. E ganhou. E goleou. E não teve problemas por causa disso. E é primeiro no campeonato. Chama-se "jogar futebol", para quem não souber.
Onde outros precisam da altura de Meira para jogar contra Suécias, Mourinho precisa de jogadores que se saibam posicionar e que ofereçam qualidade suficiente no processo ofensivo. A altura não é um atributo fundamental num defesa. Há muitos e bons defesas que foram ou são relativamente baixos: Baresi, Cannavaro, Córdoba, Chivu, Ricardo Carvalho, Daniel Carriço, etc. E isto porque ganhar bolas de cabeça é francamente menos importante que um bom jogo posicional colectivo que permita ganhar as segundas bolas. Mourinho continua a dar lições, mas poucos lhe prestam atenção. Continua a achar-se, por exemplo, que contra equipas que têm jogadores altos na frente e jogam um futebol directo para eles, é necessário ter altura. Mas a altura não se combate com altura. Combate-se com bom posicionamento, com velocidade de reacção, com jogadores capazes de preencher os espaços nos quais vão cair as segundas bolas. É por isso que seria perfeitamente possível ter dois Moutinhos a central, isto é, dois jogadores com a envergadura de Moutinho. Não é a altura que faz um central, como não é a velocidade que faz um extremo. São as disposições intelectuais, as rotinas de jogo, a desenvoltura própria da habituação à posição, etc.
Para terminar, uma pequena referência à forma de trabalhar de Mourinho. Para muitos, Mourinho dá importância aos atributos físicos. Mas o exemplo dos centrais, bem como do médio-defensivo, vem desmentir tudo isso. Ou seja, se nas equipas de Mourinho há jogadores de boa estampa física, ou jogadores altos, ou jogadores rápidos, ou jogadores fortes, ou jogadores agressivos, ou jogadores muito dotados tecnicamente, é coincidência. Aquilo que não há é jogadores burros. E os que há são despachados em negócios que envolvem a transferência de outros atletas. O primeiro critério na escolha dos jogadores de Mourinho são as disposições intelectuais. Jogar com Córdoba, Chivu e Cambiasso evidencia isso. Aquilo que importa em Muntari não é a força; a força é apenas um acrescento. E um acrescento que uma equipa com dinheiro pode dar ao luxo de adquirir. O que não pode faltar é inteligência, é capacidade de perceber o jogo. O que importa em Ibrahimovic não é a altura nem a capacidade técnica; o que importa em Drogba não é a força; o que importa em Essien não é o pulmão. Isso são acrescentos. O que importa é a saúde mental, são as boas decisões, a qualidade das opções, etc. Tirando os extremos, Mourinho pretende jogadores essencialmente inteligentes. E prefere-os mesmo que eles não possuam os atributos físicos ou técnicos que melhor os potenciem.
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Nuno
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quarta-feira, 15 de outubro de 2008
O que sobra da derrota...
Mais importante que o resultado ou a exibição da renovada selecção dos sub-21, é conferir o desempenho dos jogadores que actuaram na partida contra a Ucrânia.
Começando pelos guarda-redes: tarde descansada para Patrício, o que já não se aplica a Ventura. O guardião formado nas camadas jovens do Porto, apesar do golo sofrido, revelou tranquilidade e segurança sempre que foi chamado a intervir.
Centrais: Carriço esteve ao seu nível, o que significa que foi dono e senhor de quase todos os lances que disputou. Miguel Vítor foi outro que esteve à altura das expectativas que temos, ou seja: uma exibição esforçada, mas com pouca lucidez. Já André Pinto demonstrou algumas dificuldades no posicionamento, assim como alguma lentidão nos processos.
Laterais: João Gonçalves foi o que se exibiu ao melhor nível. Algumas culpas no lance do golo (o adversário que cruzou para o golo foi mais forte que ele no "choque") não ensombram uma bela exibição, principalmente a atacar. Tiago Pinto esteve desastrado no passe, revelando demasiada ansiedade. Ruben Pinto exibiu-se a um nível superior, pecando apenas por exagerar nos lançamentos longos (no lance do golo não acompanhou o jogador que fez a diagonal e concretizou a jogada).
Médios: Stélvio Cruz, um Pelé, mas em mau. Castro e Rui Pedro (jogam em posições diferentes, bem sei) são um pouco a antítese um do outro: Castro joga bem, mas em esforço e sem ponta de estilo. Rui Pedro, estilo tem; o problema é que revela pouca imaginação, assim como pouca segurança no passe. O futebol de Pereirinha continua igual a si próprio: tão correcto e inteligente, que até parece simples. Mas não é. Romeu Ribeiro, nos poucos minutos que esteve em campo, fez-me questionar o que se passa com o Miguel Rosa (apesar deste ser mais novo).
Extremos (bem sei que Portugal apresentou, no início, um 442. Mas a verdade é que Candeias funcionou mais como extremo do que como interior): o extremo portista é forte nos duelos individuais, misturando técnica e velocidade em boas doses. O problema é que dá ideia que não sabe fazer mais nada que fintar e rematar. E rematar de qualquer forma, e de qualquer sítio, não me parece uma solução muito inteligente. Ukra mostrou muito pouco nos minutos que entrou. Já o vi actuar noutras ocasiões e, apesar de não o achar nada de extraordinário, não é tão mau quanto pareceu. Paim teve ainda menos tempo. Mostrou bom toque de bola, mas de forma inconsequente. Pareceu demasiado individualista.
Avançados: Orlando Sá parece-me um jogador a rever. Não é muito evoluído tecnicamente, mas não é mau nos apoios, e movimenta-se bem na área. Pena não jogar mais vezes no Braga. Seria interessante ver a sua evolução. Yazalde pareceu mais forte no 1x1 que o Orlando; nos poucos minutos que jogou demonstrou isso, fazendo uso da sua velocidade e força. No entanto, é outro jogador que jogou poucos minutos. Daí ser complicado dizer muito mais.
Sendo cedo para tirar conclusões, há no entanto meia-dúzia de jogadores interessantes que merecem um acompanhamento mais próximo, assim como mais oportunidades nos respectivos clubes. Outros... Nem tanto...
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Gonçalo
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sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Curtas em atraso
2. Fernando tem sido uma das grandes revelações deste início de temporada. Cheira-me que Pelé se transferiu do banco do Inter para o banco do Porto.
3. Os dois melhores jogadores deste início de temporada no Sporting têm sido Izmailov e Romagnoli. O russo, já se sabia, não podia jogar contra o Porto. Talvez para facilitar a vida ao adversário, Paulo Bento deixou também de fora o argentino.
4. O 442 clássico de Quique é tão errático que tanto dá para demonstrar força, como contra Sporting e Nápoles, como para sofrer até ao fim em Paços de Ferreira ou perder pontos estúpidos em Matosinhos. É capaz de ter a ver com o facto de a equipa, nesse sistema, não ser capaz de controlar os ritmos de jogo e de conceder muitos espaços entre linhas.
5. José Mota e o Leixões seguem em posição privilegiada no campeonato. Não tarda, começam a dizer que o homem percebe de bola.
6. Quando o Barcelona venceu o Sporting em Camp Nou, levantaram-se vozes dizendo que o Sporting fora esmagado por uma equipa em crise. Logo após esse jogo, o Barcelona espetou 6 ao Gijon. Este fim-de-semana deu mais 6 ao Atlético de Madrid. É uma crise um bocado esquisita...
7. Jaime Pacheco no Belenenses? Haja fé... Será Mior do que com Casimiro?
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Nuno
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15:43:00
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domingo, 5 de outubro de 2008
Fenix...
Há pouco mais de um ano, quando saiu pela "porta pequena" de Alvalade, poucos(nenhuns!?) eram aqueles que admitiam que Martins conseguisse inverter o rumo que a sua carreira estava a tomar.
Em Espanha, recuperou a confiança e a alegria de jogar, facto a que o Benfica não se mostrou indiferente. Veio ao "preço da chuva" e, neste momento, é dos elementos mais influentes do plantel benfiquista.
Aqui entra, de forma decisiva, o mérito de Quique. Admito que, apesar de o espanhol privilegiar uma táctica que não me agrada muito, guardo uma grande admiração por Flores. O discurso, a filosofia, a minuciosidade do seu trabalho, aliada à forma isenta como avalia os que trabalham consigo, faz com que consiga retirar o que de melhor tem os seus jogadores. E neles se incluem Martins. Para delírio da massa associativa do Benfica.
Martins foi, durante muito tempo, de alguma forma "punido" pelo talento e exuberância que demonstra em cada acção. Porque jogadores que demonstram, como ele, uma grande qualidade técnica aliada a uma boa dose de imprevisibilidade são muitas vezes associados, de forma unilateral, a uma parca disponibilidade para tarefas defensivas ou mesmo para se sacrificar em prol do "grupo". Nada mais errado. Uma coisa não implica a outra. Depois, foi-lhe associado as inúmeras lesões às "noitadas", aos excessos que todos os jogadores, ou quase todos, tinham, mas que só manifestavam os seus efeitos "colaterais" nele. Nem mesmo quando ele justificou, mais tarde, a causa das lesões, lhe foi permitido escapar a essa etiqueta de "puto irresponsável". Felizmente, para ele e para o Benfica, Quique não "emprenha" pelos ouvidos, analisa o desempenho dos atletas treino a treino, jogo a jogo.
Agradecem os adeptos do "Glorioso" e os adeptos do Bom Futebol. Obrigado.
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Gonçalo
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09:17:00
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segunda-feira, 29 de setembro de 2008
A Entrega
Entregar-se ao jogo é tudo menos uma questão física. Pelo contrário, "dar o litro", usar todas as energias ao seu dispor para impedir o adversário directo de agir, correr mais que os colegas são, por norma, sinais de falta de entrega. Isto porque a "entrega" não é, ou não deveria ser, uma coisa física. O futebol, apesar de 99,9% dos jogadores, treinadores, comentadores e adeptos não o saberem, é um jogo essencialmente intelectual. Se há coisa, portanto, que um jogador deve entregar de si, é o intelecto. Entregar-se ao jogo significa ceder às exigências tácticas do treinador, ceder àquilo que se lhe pede; significa convencer-se das suas limitações e não as aceitar, jogando sempre, ainda que isso lhe seja complicado, de modo a melhorar-se. Por entrega entende-se então a predisposição para agir em conformidade com o que é contrário à sua natureza, com o que é contrário ao que é fácil de fazer. Um jogador que se entrega é aquele que arrisca sair a jogar quando o fácil seria dar um pontapé para a frente; é aquele que, apertado, tenta dominar a bola e pô-la junto à relva para dar seguimento à jogada; é aquele que tenta desarmar o mais lealmente possível pois, não recorrendo à falta, é obrigado a desenvolver outras competências; é aquele que está o mais possível concentrado, de modo a cumprir o melhor possível o seu papel; é aquele que procura a melhor solução, ainda que seja a mais difícil. Estes são os únicos que põem os interesses colectivos à frente dos seus. Aliviar quando não é estritamente necessário, apenas para se salvaguardar de um erro, jogar o mais longe possível para que um eventual erro não aconteça perto de si, cabecear para longe quando poderia dominar e jogar para o lado, correr feito maluco para desarmar um adversário sem ter atenção ao posicionamento dos colegas e de toda a sua equipa, desarmar com agressividade excessiva, correndo o risco de cometer faltas escusadas, jogar num companheiro que, embora tenha condições de receber a bola, vai ficar sem apoios, apenas porque essa era a sua opção mais fácil, são acções de quem não se entrega ao jogo.
Entregar-se ao jogo não tem nada a ver com transpirar, com quilómetros corridos ou com demonstrações de virilidade. Entregar-se ao jogo é aceitar os seus defeitos e procurar melhorá-los, é reconhecer que o futebol é um jogo complexo e que a simplicidade não leva a lado nenhum. Isto, para muita gente, será complicado de perceber, mas corresponde à mais pura das verdades. Muitas vezes, diz-se que os jogadores complicam o que é simples e que, quanto mais simples os processos, mais eficazes. Isso não é verdade. O futebol não é um jogo simples. É até muitíssimo complexo. Se há equipas cujos processos parecem simples, é porque os jogadores têm a capacidade de tornar o que é complexo em simples. Nada mais. O futebol é complexo e exige muito do intelecto dos jogadores. Aqueles que mais se entregam são aqueles que procuram não simplificar as coisas, só porque lhes é mais fácil. Muitas vezes, estes jogadores são acusados de inventar, de não jogarem simples e até de falta de vontade. Isto é errado. Não raro, estes jogadores têm uma consciência mais apurada que todos os outros e sabem que, em certas situações, é preciso inventar, é preciso complicar, ainda que, a título individual, isso possa trazer-lhes complicações. Ao colocarem os interesses colectivos à frente dos seus, arriscam-se a serem condenados pela percepção errada que os outros têm das coisas.
Resumindo, a entrega ao jogo, esse mito urbano, é algo que só faz sentido a nível intelectual. Aqueles jogadores que referem, no final dos jogos, que apesar de não terem ganho, deram tudo o que tinham, raramente estão correctos. Dar tudo o que se tem não é dar toda a disponibilidade física que possuem, não é despender todas as energias ao seu dispor; é, isso sim, fazê-lo de uma maneira correcta, pensando sempre se cada pingo de suor está a ser empregue de forma inteligente e pensando sempre que, por mais difícil e custosa que seja cada acção, se deve tentar ser capaz de coisas cada vez mais difíceis. Entregar-se ao jogo tem, pois, muito pouco a ver com aquilo que Liedson ou Bynia fazem, só para dar alguns exemplos. Aqueles que mais se entregam são, normalmente, muito mais discretos do ponto de vista da agressividade. Mas o povo quer é empenho físico, quer é choques em contramão, quer é sangue, suor e lágrimas. É compreensível: afinal, se uma divindade descesse ao mundo dos homens, facilmente passaria por intrujão. A bitola do povo, por norma, está ao nível das suas competências intelectuais. Pedir a um público essencialmente analfabeto para ver num jogo mais do que aquilo que o seu intelecto estaria disposto a dar, caso fossem jogadores, seria como pedir a São Francisco de Assis que se tornasse materialista.
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Nuno
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segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Brolin
que se ri do arqueiro e afronta a tempestade;
exilado na terra e no meio dos apupos,
as asas de gigante impedem-no de andar."
Charles Baudelaire, "O Albatroz"
Quem se lembra dele, lembra-se de alegria, de fantasia, de pura habilidade e, sobretudo, de uma paixão avassaladora por este desporto. Brolin não era só mais um jogador talentoso; era muito mais que isso. Ainda assim, o seu talento foi ímpar naquele país, não obstante Henrik Larsson ter sido eleito, há poucos anos, o melhor jogador sueco de todos os tempos. Aliás, lembrar que Larsson ficará na História à frente de Brolin é até a maneira mais adequada de iniciar um texto sobre o prodígio nórdico. É que, se há alguém a quem o futebol traiu, esse alguém é Tomas Brolin. Larsson é apenas dois anos mais novo que Brolin e jogou na mesma altura que ele, sem nunca atingir o patamar de excelência do primeiro. Compará-los, além de ser impossível, pois o talento de um foi inegavelmente superior ao do outro, chega até a ser sacrílego.
Disse que Brolin não foi apenas um jogador porque tinha, como poucos, uma paixão enorme pelo jogo. Isso via-se na forma alegre, jovial, pueril e desinibida com que jogava. Nenhum sueco para além dele - arrisco dizê-lo - manifestou tamanha alegria a jogar futebol. Os seus dribles, a facilidade de passe, a magia, a classe, foram únicos. Chegou a ser eleito o quarto melhor jogador de 1994 e, depois do brilhante Mundial de 94, o Barcelona pensou recrutá-lo. Tal não aconteceu e a carreira de Brolin teria uma viragem abrupta. Vítima de um desporto aviltante, da incompetência de treinadores e da estupidez vigente, Brolin não voltaria a ser o mesmo. O seu futebol, para sobreviver, precisava de se alimentar daquela paixão que sempre manifestara - essa era a sua motivação. E foi isso que Brolin perdeu.
Ao ingressar no Leeds United, Brolin encontrou um futebol onde o músculo se sobrepõe à técnica, onde o jogo estava castrado e era apenas um pretexto para medir capacidades atléticas. Em Inglaterra, a magia, a paixão, o prazer não existiam. O futebol, e tudo o que o envolvia, era em terras de Sua Majestade uma luta, um confronto, e não um jogo. Se Brolin quisesse evidenciar-se pelo seu poderio físico, teria sido pugilista. Se escolheu o futebol, foi porque o futebol é muito mais do que uma desculpa para se pôr em combate dois pares de hormonas. Em Inglaterra, encontrou uma cultura primitiva, bárbara no sentido lato de bárbaro, uma cultura para quem o futebol servia de estímulo a um espírito animalesco. Em Inglaterra, não se jogava futebol; mediam-se vontades, músculos e graus de irracionalidade. Sendo o futebol, para Brolin, precisamente o oposto, depressa se tornou desnecessário. A desmotivação foi causa e consequência do pouco uso que passou a ter. Ao mesmo tempo que ia deixando de ser opção, ia perdendo o amor que tinha ao jogo. A inteligência, a classe, e o prazer abandonaram-no, mas apenas porque o futebol, como ele o via, o abandonara primeiro.
Aos 28 anos, após mais alguns anos de pouca valia, agastado com a relação com o jogo, Brolin decidiu desistir. Não desistiu, como tantos outros, porque uma lesão o tinha incapacitado, mas sim porque o futebol o tinha enganado. Tornara-se de tal forma inteligente, de tal forma diferente daquilo que a esmagadora maioria que anda no futebol é, que não era compreendido. Sem capacidade para contrariar a incompreensão de que foi vítima, refém num mundo mesquinho, pequeno, desambicioso e estúpido, não tinha outra saída. Foi perdendo a paixão pelo jogo de forma gradual até que ela se extinguiu por completo. A 12 de Agosto de 1998, tornou oficial a decisão. Eis o canto do cisne:
"Estou aqui para dizer se vou ou não continuar a jogar futebol. Decidi desistir. Já andava a pensar desistir há muito tempo; pensava em desistir antes de assinar pelo Crystal Palace, mas eles convenceram-me a não o fazer. Estou muito contente por o Crystal Palace me ter dado a oportunidade de jogar futebol. Mas, depois da época terminar, estava ainda mais convencido a desistir. Gostaria de permanecer no Crystal Palace, mas não tinha qualquer motivação. Tentei assistir a alguns jogos do Campeonato do Mundo de França, mas não ajudou. Preferia, em vez disso, jogar golfe. Não tenho motivação para continuar a este nível."
Este foi, pois, muito mais que um texto de homenagem, um lamento. O futebol, infelizmente, continua a ser um desporto preferencialmente para selvagens e para bestas. Em futebol, ser civilizado, possuir uma inteligência acima da média, ser cordato, educado, puro, não é importante. E não o é porque, salvo raras excepções, é um desporto de gente sem escrúpulos, para incultos, para fanáticos, para cobardes, para hipócritas, um desporto que serve para libertar o ser irracional que há dentro de cada um. Dificilmente os génios teriam lugar no meio de tanto lixo...
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Nuno
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quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Coragem...
"Não é obrigatório que só por ver como as características da equipa não favorecerem uma cultura de posse (indo assim passar a maior parte do jogo sem bola) que o treinador deva optar logo por um jogo mais directo, abdicando do que seria o seu modelo, afinal as ideias de jogo que considera a melhor forma de jogar bom futebol."
Luis Freitas Lobo, in "Porque «jogar bem» é específico".
Da mesma maneira que não é fácil educar bem uma criança, colocar uma equipa a jogar futebol de qualidade é uma tarefa que envolve alguma complexidade. Requer tempo, perseverança, disciplina, metodologia, discernimento e coragem, muita coragem. A coragem necessária para impor o modelo que preconizamos, assim como a interpretação do mesmo.
Para alguém que nunca andou em nenhum dos dois, será sempre mais complicado conduzir bem um automóvel que uma parelha de cavalos; no entanto, os benefícios de optar pelo primeiro sobre o segundo (salvo raras excepções) é evidente .
Não é fácil impor um modelo que, por ser mais exigente, vai encontrar mais resistência por parte de uma significativa fatia dos jogadores. Aqui importa realçar a concepção de "exigente": normalmente, quando se fala em exigência e entrega, pondera-se apenas factores físicos, coisa de que discordo totalmente. A exigência não se pode resumir a esforço físico, como se de um cavalo de corrida se tratasse. A exigência terá de passar por uma interpretação correcta, de cada jogador, do que o modelo de jogo escolhido requer. Ou seja, é importante que da parte dos jogadores haja disponibilidade intelectual para compreender o modelo de jogo.
Assim, quanto mais exigente for o nosso modelo, maior será a resistência encontrada pelo treinador. A verdade é esta: é muito mais fácil optar por um estilo directo, que separe sectores, que parta o jogo em dois momentos, que escolha a marcação individual etc., do que escolher um modelo de jogo que, apesar de lhe permitir ser mais forte como equipa, vai dar mais trabalho a criar automatismos.
Uma filosofia de jogo que passe por ter um bom jogo posicional, com uma boa posse e circulação de bola, com as transições defesa/ataque e ataque/defesa bem definidas, que defenda à zona, etc., é algo que requer algum tempo até se atingir os objectivos que se pretendem. Todavia, um modelo desta natureza apresenta um potencial e uma capacidade evolutiva que um modelo como o que foi citado anteriormente não possui. E isto está relacionado com a exigência que um e outro apresentam.
E aqui a obrigação do treinador passa por arranjar estímulos para que os seus "pupilos" interpretem bem o que lhes é pedido. A partir de situações que lhes facilitem a compreensão de todas as virtudes do modelo proposto pelo seu técnico, os jogadores terão de compreender que, apesar de mais exigente, aquela filosofia é a melhor. E não o contrário. Ou seja, não é admissível que a incapacidade inicial de uma parte (seja ela grande ou não) do plantel obrigue o treinador a optar por um modelo mais "pobre", só porque este é mais fácil de interiorizar. Até porque esta opção acaba por ser penalizadora para os jogadores que demonstram competência para colocar o modelo de jogo pretendido em acção. O nivelamento quer-se por cima, nunca por baixo.
A competência de um treinador terá de compreender, sempre, vários elementos: astúcia táctica, capacidade de análise do jogo e dos próprios jogadores, liderança, metodologia de treino, disciplina, carácter e coragem. Mais uma vez, coragem. Coragem para não ser apenas mais um, coragem para não se vender, para não cair no erro de ser mais uma "puta" no futebol, procurando os resultados no imediato a qualquer custo. Porque o futebol, a evolução do mesmo, merece melhor.
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Gonçalo
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domingo, 14 de setembro de 2008
Certezas...(11)
Corpo de miúdo, mas joga, corre, recupera, pensa e executa como poucos homens. Este, realmente, não engana. Se o quiserem encontrar, é só procurar pelo... Rabiu
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Gonçalo
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quinta-feira, 11 de setembro de 2008
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Nuno
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segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Sondagens (8)
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Criatividade e acaso...
"Nenhuma outra actividade é tão continuamente e universalmente influenciada pelo acaso. E por intermédio do acaso, o acidental e a sorte desempenham um papel da maior importância na guerra." (in Clausewitz, On War, Liv.1, Cap.1, p.85)
Não direi que Clausewitz tenha sido o primeiro pensador estratégico a conferir ao acaso e à incerteza a devida importância. No entanto, podemos afirmar que ele conseguiu com enorme discernimento perceber a importância das vertentes não-lineares que caracterizam os sistemas complexos, como é o caso da doutrina a que ele se entregou (a guerra), mas que se pode a aplicar a outros exemplos que terão mais afinidade com esse objecto do que se poderia julgar à partida (pelo menos, para alguns).
E é a partir da sua interpretação da arte da guerra, e das variantes que a condicionam, que vamos defender à importância dos factores intelectuais na abordagem ao processo de combate, ficando ao nosso encargo a analogia com o futebol.
"A arte da guerra lida com forças vivas e morais. Por consequência, nunca pode atingir o absoluto, ou a certeza; restará sempre uma margem para a incerteza, tanto nas coisas grandes como nas mais pequenas"
(in Clausewitz, On War, Liv.1, Cap.1, p.86)
A constante evolução no futebol, mormente no que toca a factores relacionados com as abordagens feitas ao jogo pelos mais variados técnicos, tem como objectivo o maior controlo possível sobre as inúmeras variáveis que compõem um jogo de futebol. Procura-se “fabricar” um ambiente que seja familiar à equipa e que vá de encontro a um formato que lhes permita retirar o máximo rendimento possível das características da mesma.
Através das mais avançadas metodologias e abordagens ao jogo, juntamente com uma vasta panóplia de informações, poderemos conceber um quadro de previsões e expectativas bem conseguido. Todavia, estamos sempre sujeitos aos caprichos do acaso e da incerteza. Ralf Dahrendorf definiu esta tentativa de controlar algo tão complexo, neste caso um jogo de futebol, como "uma marcha activa para o desconhecido".
Ter a consciência das nossas características, das nossas qualidades e dos nossos defeitos, relacioná-las com as características dos nossos adversários, para conseguirmos reproduzir da forma mais fiel possível o cenário em que irá decorrer o jogo, é uma das chaves para o sucesso de uma equipa. A partir daqui, poderemos trabalhar, com base nas probabilidades que esse cenários nos concedem, a melhor maneira de nos impormos ao adversário. Atenção, não quero dizer com isto que vamos abdicar do nosso modelo de jogo; é precisamente o oposto, pretende-se criar condições para que seja mais fácil implementar a nossa ideia de jogo.
Acções recíprocas a vários níveis, quer entre colegas de equipa, quer entre adversários, tornam complicado controlar o embate entre adversários. Por muito "apurados" que sejam os nossos princípios de jogo e apesar da importância dos mesmos para implementação da nossa filosofia e organização, estes são insuficientes para dar resposta ou compreender as situações que surgem pela fricção entre duas forças antagónicas. Ou seja, a estratégia delineada para cada jogo não passa de um ideal que se pretende. Como tal, dificilmente os moldes desejados se proporcionarão como pretendemos.
A vulnerabilidade de um jogo de futebol a perturbações causadas por pequenos incidentes, leva a que as equipas sejam constantemente colocadas perante situações de conhecimento imperfeito, ou seja, situações em que o trabalho desenvolvido nos "bastidores" não as pode prever ou trabalhar.
Clausewitz defendia que na guerra, apesar de toda a táctica e estratégia implícita na execução da mesma, existe um sem-número de situações que leva a um conhecimento imperfeito da situação.
"..., é porque o acto de guerra não é um puro cálculo matemático, mas uma actividade actividade conduzida no seio das trevas, ou quando muito numa fraca penumbra..."
(in Clausewitz, On War, Liv.VII, Cap.XV, P.665)
A única maneira de escaparmos à incognoscibilidade do futuro estará no “coup d’oeil”, ou seja, na capacidade de descobrir num labirinto de incertezas a solução que, apesar de ser a melhor, e mais eficaz, nem sempre é visível aos olhos de todos. Um futebolista, muitas vezes, encontra-se na mesma situação.
É neste ponto que encontramos a importância de contar com jogadores de grande criatividade, pois são estes que mais facilmente conseguem tirar partido do improviso. É a criatividade que melhor resposta consegue dar aos problemas imprevisíveis. No entanto, temos tendência para confundir criatividade com números de circo, o que leva a que consideremos jogadores sem qualquer tipo de engenho como criativos.
Criatividade nem sempre é sinónimo de uma grande qualidade técnica, aliás, um jogador por não ser tão evoluído tecnicamente até poderá ser mais criativo devido a esse handicap: a necessidade de contornar os problemas que vão surgindo, com algo que não seja a capacidade técnica, ou atributos físicos, impõe que estes jogadores sejam obrigados a encontrar mais soluções do que as que estão ao alcance de todos os outros. Obviamente que isto não se aplica a todos os jogadores que são limitados tecnicamente, ou seja, só por serem limitados tecnicamente não vão ser criativos, mas os jogadores que possuam um pensamento divergente, facilmente encontrarão nesta dificuldade intrínseca uma fonte de estimulo à sua criatividade.
Mas o que é a criatividade num jogador de futebol? Como a reconhecemos? Será que apenas os jogadores que ocupem posições mais ofensivas poderão ser denominados como tal? Eu estou completamente em desacordo com este sofisma. Criatividade não é uma característica exclusiva de uma função, ou de uma fracção do nosso jogar. Não tem de ser obrigatoriamente exuberante. Às vezes a maneira mais criativa é a mais discreta. Por exemplo, muitas vezes um passe que só é simples depois de ter sido executado é muito mais engenhoso que um passe de 40 metros. Temos tendência para dar mais ênfase a este último exemplo porque resulta de situações mais vistosas, mesmo que destas nem sempre venham mais benefícios do que situações em que os resultados não são tão instantâneos como aqueles, da mesma forma como se corta uma linha de passe, ou se desarma um adversário. Em muitos casos, os jogadores têm de recorrer a soluções criativas para resolver situações em que se encontram perante imprevisibilidades e para as quais, como tal, não poderiam estar preparados. O mesmo se aplica a dribles vistosos, mas que no entanto são "pré-fabricados", não é o acaso que leva a que os utilizemos, mas somos nós que conduzimos o jogo de forma a utilizá-los. Estas acções são engraçadas, excelentes para o ego; todavia, são menos úteis que os dribles que, apesar de aparentemente mais simples, são mais complicados, pois surgem como uma forma de contornar um problema inesperado e, como tal, os jogadores não dispuseram de tempo/espaço para preparar a sua execução. E a criatividade, apesar de se manifestar de forma individual, deve ser utilizada em prol do colectivo, não para beneficio próprio e efémero, colocando em risco a estratégia do colectivo. Não! Deve ser utilizada para se conseguir exactamente o oposto. Por outras palavras, deve utilizar-se este atributo como uma arma para contornar todos os problemas que inviabilizem a estratégia do nosso grupo. Isto sim, é criatividade.
Guilford e Godefroid definem a criatividade como algo que se sustenta em três aspectos essenciais: a fluidez, que permite ao criador encontrar um grande número de soluções, onde a maior parte dos jogadores só encontra algumas; a flexibilidade, que permite vislumbrar várias perspectivas sobre os problemas em questão; e a originalidade, que se caracteriza pela pela descoberta de novas formas de resolução para os vários problemas e situações.
Como é óbvio, a convivência com este tipo de jogadores não é fácil, pois estes são mais resistentes aos valores de grupo, se por acaso estes não coadunam com os deles, e dão preferência a soluções mais estéticas do que os jogadores comuns, o que por vezes poderá colocar em causa a eficácia das suas acções. Porém, não nos devemos sentir intimidados com este tipo de personalidades, antes pelo contrário; devemos perceber o estímulo que advém da necessidade de conseguir que este tipo de jogadores se identifique com o nosso modelo de jogo.
Para concluir, deixo-vos aqui uma lista de "crenças" que, na minha opinião, são equívocas, assim como uma lista de jogadores que se apresentam como criativos sem, no entanto, o serem e vice-versa:
- O jogador criativo só pode manifestar a sua criatividade na posse da bola.
- O jogador criativo terá de ser obrigatoriamente evoluído tecnicamente.
- O jogador criativo é, necessariamente, individualista.
- Confunde-se com um criativo qualquer jogador que seja forte no 1x1, apesar de muitos destes jogadores não oferecerem nenhuma solução para além do drible.
Jogadores Pseudo-Criativos: Cristiano Ronaldo, Vieirinha, Dominguez, Anderson, Bruno Gama, Denílson.
Jogadores Realmente Criativos: Farnerud, Mikel, Romagnoli, Aimar, Carlos Martins, Nuno Assis, Ricardo Carvalho, Delfim.
Está aberto o debate.
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Gonçalo
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segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Dez tentativas
1. Porque ainda não sabia o que era um passe?
2. Porque José Mourinho andou a ler o nosso blogue?
3. Porque os seus dois neurónios não se adaptaram ao estilo de vida em Itália?
4. Porque, uma vez que Mourinho anda a adaptar jogadores para jogar na sua posição, mais depressa o Toldo jogava a médio-defensivo do que ele?
5. Porque os centrais começaram a regressar das lesões e já nem para fazer número servia?
6. Porque lhe prometeram que, com Mourinho, ele ia aprender a jogar à bola, mas num mês de trabalho ainda não sabia o que era um colega de equipa?
7. Porque continuava convencido que defender à zona era uma maneira de confeccionar bacalhau?
8. Porque suava demasiado e o seu cheiro ficava de tal modo entranhado na roupa que o Inter estava a ter prejuízo com roupa de treino?
9. Porque, com a chegada de Muntari, passou a haver demasiados pretos no plantel com os quais gozar?
10. Porque, tendo em conta as reais capacidades futebolísticas do Vítor, queriam que, em vez de Pelé, se passasse a chamar Vitinha?
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Nuno
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16:44:00
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quarta-feira, 27 de agosto de 2008
Um jogador leal
Jesualdo já tinha dito que nunca viu Bruno Alves a agredir ninguém. Se no caso do professor a idade pode justificar a existência de cataratas, no pai de Bruno Alves parece-me que o caso deve ser clínico. Segundo este artigo, Washington Alves, pai de Bruno Alves, veio defender o filho, dizendo, entre outras coisas, o seguinte:
"Bruno é um jogador leal e limpo a jogar".
Leal tipo como quem tem lealdade? E as cotoveladas, os pontapés nas costas, os pisões, o que são? Demonstrações de carinho? E limpo tipo como quem arranca a cabeça a outro de forma limpinha?
De facto, também me parecem exagerados os dois cartões amarelos da época passada. Afinal, não há nenhuma lei que diga que costelas partidas, ombros deslocados e olhos arrancados seja passível de punição. Agora, ia era jurar que a intenção das punições é retrair ímpetos violentos. Mas se calhar estou errado...
"é natural que acabe por se retrair se as punições se repetirem e procure jogar de acordo com os critérios dos árbitros."
Pois, isso agora era lixado, se ele tivesse que começar a jogar de acordo com as regras. Eu quando jogo xadrez também me sinto um bocado prejudicado por os meus peões não poderem andar mais do que uma casa ou por a minha rainha não poder jogar três vezes seguidas.
"O que não é bom para o jogador, nem para o FC Porto."
Obviamente que não é bom para o jogador. Tem toda a razão. Sem o taco de baseball, o Bruno Alves fica claramente mais fraco. E o Porto, impossibilitado de alinhar com 11 tanques de guerra, também fica mais débil. Onde é que já se viu ter de jogar com onze seres humanos?
"Um defesa-central tem de ser viril."
Eu diria que um defesa-central tem de ser defesa-central, mas eu também tenho a mania que sei tudo.
"ninguém contrata uma bailarina para jogar na área, onde é preciso agir e decidir em fracção de segundos."
Bailarinas para jogar na área, segundo o senhor Washington, é mau. Já gorilas, como o filho, faz todo o sentido. Mas o argumento do senhor Washington é claro: Bruno Alves tem de ser viril porque é preciso agir e decidir em fracção de segundos. Para este senhor, a velocidade de raciocínio depende exclusivamente da virilidade. O homem mais rápido é aquele que bate mais nos outros. Parece-me um raciocínio um bocado arriscado, mas talvez faça sentido. E na escola, quando tinha que fazer contas de cabeça, o Bruno Alves espancava os colegas para pensar mais rápido? Ouvi dizer que se pensa com o cérebro e não com os cotovelos ou com a sola da bota. Mas deve ser mentira. Por isso, faz sentido que ele seja viril. Se espernear de maneira a acertar em tudo o que mexe, é provável que consiga chegar primeiro à bola que os adversários, logo, pensa e executa mais rápido.
Nota final: Estas declarações explicam muita coisa. A educação de Bruno Alves e de Geraldo, seu irmão e também um defesa central amigo das pernas adversárias, deve ter sido complicada. Quais terão sido as suas primeiras palavras? "Estropiar"? "Sarrafada"? "Uga Uga"? No Natal, enquanto os amigos deles recebiam bonecos, bolas de futebol e consolas de vídeo, Bruno Alves e Geraldo recebiam o quê? Ringues de boxe? Paredes de tijolos para praticarem a joelhada rotativa? E qual seria a actividade que fariam em conjunto com o pai? Caça do javali à cabeçada? Quando chegavam da escola com uma negativa, será que o castigo eram duzentas placagens à mãe? E nas férias, será que iam para a praia como as outras famílias, ou iriam antes partir pedra com os cotovelos? Não deve ter sido fácil, não...
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Nuno
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15:56:00
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segunda-feira, 25 de agosto de 2008
Fim-de-Semana
1 – O duelo entre Vitórias resultou num empate. Num jogo dominado do primeiro ao último minuto pelo conjunto orientado por Cajuda, Faquirá apresentou um conjunto que nem defender bem conseguiu. Valeu a noite desinspirada dos pupilos de Cajuda, no que toca à finalização. Isso e a ajuda do árbitro.
2- O Sporting começou em bom estilo. Perante um Trofense que desiludiu, e muito, demonstrou um futebol coeso e ligado. Os leões começam bem esta liga, mas como será em Braga, sem Polga?
3 – A cueca do Rochemback ao Nascimento...
4 – O Olhanense conseguiu uma excelente primeira parte, frente ao Estoril. No entanto, aquela dupla de centrais quase que deitava tudo a perder. Valeu Djalmir, com três golos. Jorge Costa apresentou uma equipa a praticar bom futebol, com dois “meninos” que podem vir a dar cartas no futebol nacional: Castro joga como trinco e demonstra qualidade no passe, aliado a um bom posicionamento. Assim que, com a experiência, perceber que nem sempre fazer um passe de 40 metros, mesmo que perfeito na execução, é a melhor opção, pode ser uma excelente opção para o Porto; quanto a João Gonçalves, não gostei dele como médio-centro, nos juniores do Sporting, porém, como lateral, mostra qualidade na forma como sai a jogar, assim como uma razoável cultura táctica em acções defensivas, se não estagnar, poderá ter a sua oportunidade dentro de pouco tempo.
5 - Alguém me explica como é que o Miguel Rosa não calça naquele meio-campo do Estoril?
6 – Jesualdo diz que nunca viu o Bruno Alves agredir ninguém... Professor, professor... e atenção aos jogos, não?!?
7 – A equipa do Belenenses... O que é aquilo? E centrais de jeito?
8 – Super Quim salvou o Benfica de uma vergonha estrondosa... Já agora... Quem é que fez o golo do Benfica?
9 - Lá fora, destaque para a derrota do Arsenal e para a vitória tangencial do Chelsea. O Arsenal, sem Fabregas, só tem um ritmo de jogo. Expõe-se ao contra-ataque adversário de uma forma tão infantil quanto a maneira como ataca, quer seja pelo centro, quer seja pelas alas, sem apoios. Já o Chelsea, valha São Deco. A forma como a equipa acabou o jogo, encostada às cordas, denota a diferença que este Chelsea é a defender. A referência são os jogadores adversários; com a subida das linhas destes, o Chelsea recuou atrás deles. Isto, com Mourinho, jamais acontecia. E, se desta vez, o adversário não foi suficientemente competente, não tardará a que o Chelsea de Scolari se veja em maus lençóis.
10 - Ao fim de pouco mais de 1 mês, sai o primeiro título para Mourinho. Zanetti, o melhor em campo a par de Ibrahimovic, marcou o penalty decisivo.
11 - Em Madrid, o Valência, a ganhar por 1-0 (por 4-2, na eliminatória), sofreu o empate, numa altura em que estava a jogar contra 10. O mais esquisito é que, a seguir, já a jogar contra 9, sofreu mais três. Que aberração foi aquela?
12 - A Argentina é campeã olímpica. Num relvado que só podia beneficiar os nigerianos, a tarefa não foi fácil, mas um excelente golo de Di Maria, o melhor em campo a seguir a Gago, resolveu a questão.
por Gonçalo e Nuno
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Gonçalo
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quarta-feira, 20 de agosto de 2008
12 coisas
2. Por que é que ninguém dá um par de lambadas no Manuel da Costa? Ou então expliquem-lhe o que é jogar futebol...
3. Como é que se seleccionam jogadores para as equipas jovens? Pela quantidade de dinheiro dos seus empresários?
4. Começou a época em Inglaterra e o Chelsea goleou. O golo de Deco, além de um frango monumental, é a melhor ilustração do que é o futebol inglês. Naquela altura, parecia que o Chelsea estava a jogar contra 6 ou 7...
5. Fábio Paim vai ser emprestado ao Chelsea. Como não tem passaporte brasileiro, em Portugal não tinha lugar.
6. O Sporting limpou mais uma taça e venceu de novo o Porto. Coincidência ou falta de aprumo de Jesualdo?
7. Nos Jogos Olímpicos, a Argentina limpou, sem apelo nem agravo, um Brasil órfão de ideias. Quem continuar a achar que Anderson tem um talento ímpar só pode andar a dormir. O jogador do Manchester fez um jogo combativo, esteve sempre perto da luta, mas com bola é um desastre. Tem os seus argumentos técnicos, mas quando tem de decidir rápido decide mal. No meio-campo, pode ser bom para ajudar à luta, mas é um elemento a menos a construir. Hernanes é um jogador banal, apesar de se falar muito nele. Thiago Neves é francamente mais talentoso, mas nem a excelente exibição frente à China lhe valeu a titularidade. Lucas Leiva é, além de francamente lento, muito mau a nível posicional e pouco expedito com bola. Tudo o que de bom o Brasil fez nestes Jogos Olímpicos saiu dos pés de Diego, o tal que não é maduro nem tem qualidade para jogar ao mais alto nível. Tudo o que de bem construído o Brasil fez, passou por si. Além disso, no jogo contra a Bélgica, por exemplo, foi da sua garra que nasceu o golo de Hernanes, vencendo na luta o gigante Fellaini. Continuar a achar que ele também não defende é razão para uma consulta de oftalmologia. Contra a Argentina, esteve pouco em jogo, sobretudo graças ao mau jogo com bola dos restantes médios. Mas, sempre que a teve, fez o jogo fluir. Diego, Ronaldinho e os laterais, Rafinha e Marcelo (a quantidade de cuecas que este menino faz é uma coisa absurda!), foram os melhores. O guarda-redes Renan também me pareceu seguro; Pato ainda é muito novo, embora o talento já lá esteja. Quanto aos centrais, que miséria! Aquele que dizem ter 18 anos, mas que tem pelo menos 3 ou 4 a mais, parece o Pepe, mas ainda mais limitado de ideias e mais lento; do outro, basta dizer que é irmão do Luisão.
8. Na Argentina, destaque para Aguero, Messi, Riquelme e Gago. Mascherano não é mau, mas no meio destes roça o banal. Ver jogar Riquelme é um sonho. Que nunca desapareçam os jogadores como ele!
9. No Porto, Quaresma continua sem jogar. Há quem diga que já está vendido. Se não está, que sentido faz continuar de fora?
10. Fucile foi castigado por causa de ter marcado um penalty à Panenka contra a vontade do professorzinho ou Jesualdo quis dar hipóteses ao Sporting, não o pondo?
11. A David Luiz está a acontecer o mesmo que aconteceu a Anderson, há duas épocas. Fizeram meia-dúzia de jogos a um bom nível, embora tenham denotado algumas deficiências, lesionaram-se e pararam durante muito tempo. Durante essa altura, foram feitos de mártires e imaginados como salvadores da pátria. De repente, sem terem mostrado nada de relevante, passaram a génios. Tanto um como outro têm qualidades, mas essas qualidades foram muito exageradas pela opinião pública.
12. Derlei, Djaló e Postiga estão em boa forma. Se o Sporting continuar a ganhar e a jogar suficientemente bem, com que legitimidade poderá Paulo Bento relançar na equipa Liedson? Querem ver que esta é a época de todas as verdades...
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Nuno
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12:19:00
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segunda-feira, 18 de agosto de 2008
Marcar golos: um objectivo ou uma consequência?
Antes de mais, deve ser dito que é possível, por exemplo, uma equipa ser campeã mundial sem marcar qualquer golo no campeonato do mundo. Logo, o objectivo a que se propõe uma equipa nunca pode ser o de marcar golos ou o de marcar mais golos que o adversário, pois há, pelo menos, um objectivo mais alto que é o de ganhar. E esse objectivo, ganhar, nem sempre se alcança marcando mais golos que o adversário. Numa competição da UEFA, por exemplo, em eliminatórias disputadas a duas mãos, os objectivos de uma equipa num dos jogos pode ser apenas o de não sofrer golos em casa. Deste modo, é absurdo sequer pensar que o objectivo num jogo de futebol seja "marcar golos". Ainda assim, este texto não pretende defender a tese de que marcar golos não é o objectivo do futebol porque há outros objectivos mais altos. O que se pretende defender aqui é que todos esses objectivos mais altos, além de não serem objectivos em si, mas apenas coisas que acontecem por obra de outras coisas, para que possam concretizar-se, são resultado de outros objectivos mais pequenos, de detalhes. E esses objectivos mais pequenos é que são os verdadeiros objectivos no futebol.
Um jogo de futebol, como qualquer outro jogo, só existe porque o ser humano não é perfeito. Em jogos relativamente mais simples, como o jogo do galo, se os opositores jogarem bem, o resultado é sempre um empate. Assim é porque, no jogo do galo, a perfeição não é difícil de atingir. No jogo das Damas, por exemplo, hoje em dia já há programas de computador que fazem com que seja impossível ganhar-lhes. No futebol, pela complexidade inerente à especificidade do jogo, isso não acontece, embora a História do Futebol se paute por uma evolução do aperfeiçoamento do mesmo. Em futebol, não é possível atingir a perfeição porque as variáveis são tantas que se torna impossível controlá-las todas. Ainda assim, de uma equipa que consiga controlar as variáveis do jogo que estão ao seu alcance, poder-se-á dizer que fez um jogo "perfeito", uma vez que não havia mais nada que pudesse fazer para atingir os seus objectivos. A perfeição, num jogo em que o factor sorte e o atrito natural num adversário que tem objectivos semelhantes são variáveis incontroláveis, nunca pode ser atingida, mas é possível, no que diz respeito às variáveis controláveis, exercê-las de forma perfeita. Uma equipa que faça tudo o que está ao seu alcance de forma perfeita pode, portanto, fazer um jogo perfeito. Por aqui se pode perceber que fazer um jogo perfeito não implica ganhá-lo e, muito menos, marcar golos.
Em desportos em que não há fricção com o adversário, o desempenho próprio é o único factor a ter em conta: um nadador, para ser o melhor, tem de contar apenas consigo; uma equipa de remo tem de contar apenas consigo; um maratonista tem de contar apenas consigo; um piloto de rally tem de contar apenas consigo. Nestes desportos, o objectivo "vitória" é indissociável do caminho que se percorre até ele. Nestes desportos, os resultados são a melhor forma de aferir o desempenho dos desportistas. O mesmo já não acontece noutros desportos. Em desportos em que há adversários a ter em conta, as coisas são diferentes. Uma corrida de fórmula 1 é, portanto, diferente de um rally neste sentido, uma vez que, para vencer, há que ter em conta os adversários. Em desportos em que haja fricção com adversários, os resultados podem ser enganadores e aquele que vence nem sempre foi o que teve o melhor desempenho. O peso que os resultados têm na aferição dos desempenhos varia de desporto para desporto, consoante as características inerentes a cada um deles. Nos desportos em que haja mais fricção, em que a complexidade resultante dessa fricção seja maior, mais falaciosos podem ser os resultados. O futebol, creio, é o desporto onde a fricção entre adversários tem maior peso e onde há mais factores incontroláveis. Deste modo, é o desporto no qual os resultados pior ilustram o desempenho de uma equipa.
Assim sendo, uma equipa que queira ser bem sucedida não pode querer sê-lo marcando golos, uma vez que isso vai ser resultado dessa "fricção" com o adversário. Aquilo a que uma equipa se deve propor é o de tentar controlar o mais possível a tendência dessa fricção. Fazendo-o, terá mais possibilidades de marcar golos. Na Fórmula 1, por exemplo, partir da "pole position" tem, nos dias que correm, uma importância acrescida. Havendo um equilíbrio entre os carros cada vez maior, é importante minimizar a fricção com os adversários e partir do primeiro lugar é uma vantagem nesse sentido. Assim, o primeiro objectivo de um piloto é partir do melhor lugar possível, para que tenha que controlar menos coisas ao longo da corrida. No futebol, do mesmo modo, o objectivo de uma equipa é controlar o mais possível aquilo que é possível controlar. Realizando esse objectivo, está mais apta a marcar golos e a ganhar jogos. Não o fazendo, também pode marcar, mas as probabilidades são menores. Assim, entre uma equipa que controla melhor as variáveis do jogo, mas que não marca por algo que a supera, e uma equipa que controla pior as variáveis do jogo, mas tem a felicidade de marcar, faz um jogo mais perfeito a primeira, ainda que não seja a mais bem sucedida das duas.
Deste modo, é perfeitamente legítimo dizer que a perfeição não implica vitórias. Algumas das mais perfeitas equipas da História do Futebol não ganharam nada: o Brasil de 1982, a Laranja Mecânica dos Mundiais de 74 e 78, etc. Fazer um jogo perfeito não tem nada a ver com vencer, porque no futebol há coisas que não se podem controlar. Fazer um jogo perfeito, no entanto, é o melhor método para vencer, pois é aquele que melhores probabilidades oferece para que se atinja esse fim. Se assim é, fazer um jogo perfeito deve ser o objectivo de uma equipa de futebol, pois essa é a melhor maneira de ser bem sucedida. E, para se fazer um jogo perfeito, interessa tentar dominar o maior número de coisas possíveis. Uma equipa que jogue equilibrada em todos os momentos do jogo, que ataque e defenda de forma organizada, que seja segura e eficaz nas transições, sólida e bem posicionada em todas alturas fará sempre um jogo mais perfeito que uma equipa que vá à maluca para cima do adversário, ainda que a última consiga marcar e a primeira não. Assim, o objectivo "fazer um jogo perfeito" é diferente do objectivo "marcar golos" porque o primeiro se preocupa em controlar o melhor possível aquilo que pode ser controlado (o que aumenta as probabilidades de se marcar mais golos do que sofrer), enquanto que o segundo está apenas preocupado em marcar golos. Desta forma, marcar golos é apenas uma consequência de um objectivo a que chamei "fazer um jogo perfeito". O objectivo de uma equipa é, pois, jogar o melhor possível. Se o conseguir, terá mais probabilidades de ter, por arrasto, mais golos marcados do que sofridos. O objectivo "marcar mais golos do que sofrer" é então somente uma consequência dos verdadeiros objectivos de uma equipa de futebol, da mesma forma que o xeque-mate, no xadrez, é uma consequência de um sem-fim de estratégias defensivas e ofensivas que conduzem a esse resultado. Marcar golos ou fazer xeque-mate é tão-só o resultado visível dos objectivos a que se propõem uma equipa e um xadrezista. Marcar golos não é um objectivo; é antes, isso sim, aquilo que revela que os objectivos da equipa foram bem sucedidos. Marcar golos não é uma meta, mas um carimbo, algo que confirma a realização dessa meta. Marcar golos é, deste modo, uma coisa diferente em espécie de uma coisa como "jogar de forma perfeita". Jogar de forma perfeita é um objectivo; marcar golos é uma consequência desse objectivo e também uma coisa que afirma ou nega a realização desse objectivo.
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Nuno
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quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Campeonato do Mundo dos Comentários Hilariantes (Grupo A)
1) Pedro (4 de Maio de 2007) (post Erros):
"Jogar bem nem sempre é jogar bonito."
e
"Ele [Trapattoni] usa uma táctica q é feia mas q resulta."
2) Rui Cunha (22 de Maio de 2007) (post Diego):
"Não, não e não... Concordo com muitos posts. Mas não com este. Enquanto portista tive sempre a esperança que o Diego explodisse... Mas fiquei cansado. Da lentidão que tem em receber e colocar a bola jogável, do ter que rodar com a bola, do fazer que faz que defende, sim porque ele pode ter um adversário a 2 m que o única coisa que faz é seguir o adversário e nunca o ataca. Continuo a achar que não tem grande futuro num campeonato em que saibam defender como Itália ou Espanha. O Diego teve também outro problema. Que foi o de vir substituir o jogador mais completo que vi jogar no Porto. Nos seus melhores tempos, atacava melhor do que alguma vez vi o Diego e nunca deixou de ser um jogador de equipa. Os craques também sabem suar! Só uma outra achega... Prefiro o Albertini ao Redondo... Até porque fazia parte da equipa mais espantosa que vi jogar."
3) Herói (3 de Julho de 2007) (post Equipa do Ano):
"aquela do miccoli a ponta de lança e do nelson em mençao honrosa/revelaçao é a brincar cá ca malta né?"
4) Oscar (16 de Junho de 2007) (post Sub-20):
5) luissm (18 de Julho de 2007) (post Luis Sobral 0-2 Entre Dez):
(Nota: 1 mês depois, já nem Manuel Fernandes nem Fernando Santos estavam na Luz.)
e
e
6) lzbral (27 de Julho de 2007) (post Luis Sobral 0-2 Entre Dez):
(Nota: Há facções na blogosfera?)
7) Petrovic (20 de Julho de 2007) (post Certezas (6)):
"muito bom, com grande maturidade para quem ainda tem idade de junior. basta comparar com Pereirinha...
o grande azar dele chama-se Miguel Veloso."
8) Luis Sobral (9 de Fevereiro de 2008) (post Goleada):
"«Para acabar, quero então dizer que o resultado se avoluma para 0-3 e que, pressupondo que o Sobral não tem um transplante cerebral marcado para os próximos tempos, se avizinha uma goleada...»
Você pensa ser levado a sério com este tipo de linguagem? Não tem vergonha? Ganhou o quê? Infeliz."
9) afinal... (23 de Abril de 2008) (post A Explicação Definitiva):
e
"Se joga a médio centro, é medio-centro."
(Nota: Se anda na água, é peixe)
10) José Leal (10 de Agosto de 2007) (post O Admirável Mundo Novo de Quique Flores):
11) Luis Sobral (9 de Fevereiro de 2008) (post Mais Luis Sobral):
Luís Sobral"
12) Ivo (3 de Setembro de 2007) (post O que eu prefiro):
(Nota: num desses 3 anos, o Benfica foi campeão.)
13) Bruno Pinto (25 de Setembro de 2007) (post Finalmente, algo acertado):
PS: Magnífico blog, continuem..."
(Nota: Um tipo porreiro!)
e
(a 13 de Janeiro de 2008) (post Tragédia Grega... e não só):
Foda-se lá o personagem!"
(Nota: Um tipo não tão porreiro!)
e
(3 dias mais tarde) (post 22 curtinhas):
(Nota: Depois disto, nunca mais falou.)
14) anónimo (6 de Outubro de 2007) (post Equipa de Sonho):
"avançado: liedson"
15) Bruno Pinto (9 de Outubro de 2007) (post União de Leiria 1-2 Benfica):
16) José Leal (15 de Outubro de 2007) (post Preconceito):
17) MRO (16 de Outubro de 2007) (post Pergunta um tanto ou quanto delicada...):
"o médio interior claramente ! o defensivo está mais vocacionado para esperar pelos avançados e os ofensivos mais a manter posições para dar opções e prender os adversários. o interior anda aos fogos e a fazer piscinas."
e
"considerando, claro, que o médio interior é o ofensivo, porque para mim isso do losango nunca chega realmente a existir ! acho que o Losango é sempre, na relaidade um "Y"."
e
"um "Y" sem bola nesses jogadores, que se transforma num "T" nas dinâmicas ofensivas e defensivas."
18) Bruno Pinto (23 de Outubro de 2007) (post Os mal-amados):
(Nota: Ouviste, Van Gaal? Pára lá de achar que numa equipa ideal os jogadores devem correr o menos possível.)
e
(Nota: Napoleão, sem o cavalo, também teria demorado mais a chegar às batalhas)
19) Bruno Pinto (23 de Outubro de 2007) (post Os mal-amados):
(Nota: "Não, não, eu não digo que a Terra seja o centro do sistema solar! O que eu digo é que o Sol anda à volta da Terra!")
20) Pedro (23 de Outubro de 2007) (post Os mal-amados):
e
21) Pedro (7 de Novembro de 2007) (post 10 coisinhas que precisam de ser ditas):
e
""Se ele se vai embora, o Sporting deixa de ganhar coisas"
Tens dúvidas??
Em quatro anos faz 100 golos pelo scp...se não fosse Liedson o scp andava pelo meio da tabela"
22) Metralha (9 de Novembro de 2007) (post 10 coisinhas que precisam de ser ditas):
[sobre Liedson]
"Nuno & Gonçalo,
FODA-SE!!!
101 golos!!!
Qts tem o Djaló?
Qts tem o Lisandro?
Que puta de BURRICE a vossa!!"
23) Luis Sobral (9 de Fevereiro de 2008) (post Luis Sobral (4)):
"Além de perder tempo a ler textos sem sentido, faz mais alguma coisa na vida?
Luís Sobral"
24) Pedro (29 de Novembro de 2007) (post Liedson: um estudo):
"Lembro-me de um golão q ele faz num remate quase de primeira, já não me lembro contra quem. Sinceramente acho q marcou um bom numero de golos fora da área."
(Nota: o golo em questão foi contra a Académica, mas não foi de fora da área nem de primeira, embora tenha sido "quase de primeira", como defendido).
25) Bruno Pinto (23 de Outubro de 2007) (post Os mal-amados):
"se há coisas que não me dás são lições de futebol passado"
e
(a 13 de Janeiro de 2008) (post O Boavista de Pacheco):
[falando sobre Matthaus]
(Nota: Matthaus encontrou-se apenas 1 vez com Maradona, durante a partida)
e
(Nota: Já disse que o Maradona não foi marcado pelo Matthaus e que só se encontrou com ele por 1 vez?)
e
(a 16 de Janeiro de 2008) (post 22 curtinhas):
(Nota: É provável que tenha confundido Matthaus com Augenthaler: afinal, são os dois alemães e têm os dois duas narinas.)
São então estes os 25 candidatos. Está aberta a votação...
Escrito por
Nuno
às
20:34:00
34
bolas ao poste
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domingo, 10 de agosto de 2008
Antecâmara
Foi um adversário interessante, este Sampdoria. Apresentou-se num esquema de três centrais - se foi uma opção para se encaixar no esquema do Sporting ou se é o esquema habitual desta equipa é algo que desconheço – com marcações individuais aos dois avançados leoninos, dois homens nos corredores laterais (um em cada faixa, sendo que eram estes os responsáveis por dar largura ao futebol da equipa, ficando o ala contrário à faixa pela qual era conduzido o ataque da sua equipa completamente aberto; com este pormenor era pretendido que a equipa conseguisse sair da zona de pressão do conjunto leonino, ao mesmo tempo que tentavam desequilibrar a equipa lisboeta; porém, o facto de o conjunto orientado por Bento ter conseguido bascular de forma bastante razoável, impediu que os intentos da formação da Sampdoria fossem conseguidos), e um tridente no meio-campo que precedia a dupla de avançados, se bem que apenas um se fixasse entre os centrais leoninos, ficando o outro, no caso Delvecchio, com mais liberdade de movimentos.
O Sporting apresentou-se num 442 losango, numa formação que, talvez à excepção de um ou dois casos – Abel e Djaló? -, deve ser a que se vai apresentar na final da Supertaça, no próximo dia 16, frente ao Porto. Com Moutinho na posição 6, Rochemback como interior direito, Izmailov, no lado esquerdo, um pouco mais “aberto”, e Romagnoli no vértice mais avançado do losango, antecedendo a dupla de avançados, formada por Yannick e Derlei.
O início do jogo mostrou um Sporting com algumas dificuldades em impor-se ao seu adversário. Os italianos, preocupando-se essencialmente em anular o conjunto leonino, conseguiram nos primeiros 10 minutos impedir que o clube de Alvalade explanasse o seu jogo. Porém, este facto não resultou apenas da táctica do conjunto orientado por Walter Mazzarri. Moutinho, nos primeiros minutos, denotou algumas dificuldades no seu posicionamento, principalmente no que toca aos apoios – isto porque apesar de alguns erros no seu posicionamento defensivo, daqui não resultaram granes consequências, visto que os italianos raramente conduziram as suas tentativas de ataque por zonas interiores, “arriscando” servir os avançados a partir das zonas laterais, mal dobravam a linha do meio-campo -, o que acabou por resultar numa constante opção pelo jogo directo, que não beneficiou, em nada, o conjunto leonino.
Sensivelmente a partir do primeiro quarto de hora, o Sporting começou a mandar no jogo, conseguindo por algumas vezes uma boa circulação de bola, o que lhe permitiu crescer no jogo e aproximar-se com algum perigo da baliza defendida por Mirante. Izmailov, antes do golo de Derlei, e Romagnoli no minuto seguinte à combinação entre a dupla de atacante leonina, dispuseram de excelentes oportunidades para “facturar”. Durante este período assistiu-se a algumas movimentações interessantes. No corredor esquerdo, Grimi, quando conduzia o esférico e não o pontapeava à parva, procurava lançar um dos avançados no espaço vazio criado por Izmailov. Este iniciava o lance junto a linha, procurava zonas mais interiores e, desta movimentação, resultava o espaço nas costas da defesa do conjunto italiano, que era explorado através de um passe do lateral argentino para um dos avançados leoninos. Rochemback, em duas ou três combinações com Romagnoli, conseguiu dar um ar de sua graça, não conseguindo contudo disfarçar algumas dificuldades em se coordenar com o colectivo quando a bola não passa por ele. Derlei esteve num plano bastante positivo, com excelentes combinações com os seus colegas e a verdade é que o futebol leonino (e o de Djaló) ganha bastante em ter um avançado com as características dele: um avançado que sabe ter a bola, ler o jogo e encontrar a melhor solução para o conjunto, mesmo que para isso abdique de algum protagonismo.
O final da primeira parte veio, sem que nenhum dos jogadores do sector defensivo alcançasse grande destaque; para isso contribuiu a total inépcia do sector ofensivo dos italianos.
Destaque para algumas cenas lamentáveis, que culminaram numa entrada violentíssima de Campagnaro sobre “Rocha”, com o primeiro a receber ordem de expulsão de Pedro Proença.
Com o intervalo surgiram uma série de alterações no conjunto verde-e-branco. Tiago, Caneira, Veloso, Pereirinha, e Postiga entraram para o lugar de Patrício, Abel, Romagnoli, Rochemback, e Derlei.
Com mais um não foi difícil ao conjunto leonino manter a superioridade sobre o conjunto italiano. Postiga mostrou-se soberbo nas combinações, pecando apenas na finalização de um cruzamento de Grimi, numa excelente jogada produzida pelo colectivo leonino. Pereirinha não deslumbrou; porém, mostrou-se seguro no passe e extremamente correcto na leitura dos lances. Todavia, a noite era de Izmailov e este mostrou-se simplesmente irrepreensível no um para um, conseguindo protagonizar algumas das jogadas mais empolgantes da noite.
Foi já com Tiuí, Ronny e Adrien (alguém percebe porque é que não lhe foi dada a oportunidade de rodar noutro clube, para poder assim crescer e ganhar confiança?) que o Sporting terminou o encontro. Não sem antes Moutinho fazer as pazes com o público leonino, na conversão de uma grande penalidade, e Tiuí conseguir protagonizar um episódio verdadeiramente hilariante: depois de ser derrubado pelo guardião italiano Fiorillo, levantou-se e depois de Postiga desistir de fazer golo, permitindo ao brasileiro a recompensa pelo seu esforço... falhou o que parecia impossível... E a final da taça já foi no passado mês de Maio... Belos juros...
Escrito por
Gonçalo
às
16:12:00
24
bolas ao poste
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