sexta-feira, 25 de julho de 2008

Competitividade

Findos os campeonatos 2007/2008 e preparando-se já a época de 2008/2009, proponho um estudo comparativo entre as mais cotadas ligas europeias. A ideia é contrastar a diferença entre equipas do topo e equipas do fundo da tabela, de forma a tentar chegar a um coeficiente de competitividade que demonstre de que forma é mais fácil ou mais difícil ser bem sucedido num campeonato ou noutro.

Como fazer isto? Pensei em dividir cada tabela classificativa final em quatro, agrupando, por exemplo, num campeonato de 20 equipas, as primeiras 5 classificadas, depois do 6º ao 10º, do 11º ao 15º e do 16º ao 20º. Ao dividir a tabela em quatro, possibilita-se que se contrastem as melhores equipas com as piores, bem como a primeira metade da tabela com a segunda metade. Para cada um destes grupos, calculei a média de golos por jogo, a média de golos sofridos por jogo e, finalmente, a média da diferença entre golos marcados e sofridos por jogo (a média é calculada por equipa e não para o grupo). Com estes resultados, poder-se-á verificar, por exemplo, a diferença de golos marcados entre as primeiras classificadas e as últimas classificadas de um determinado campeonato. Com base no cálculo da diferença entre os golos marcados e os golos sofridos (Goal Average) dos diferentes grupos poder-se-á perceber quão desnivelados foram os resultados entre esses grupos e, em última análise, aferir do desnivelamento entre as melhores equipas e as piores desse campeonato. Comparando os diferentes desnivelamentos poder-se-á comparar a competitividade entre cada um dos campeonatos em análise, sendo que, quão maior for o desnivelamento, menor é a competitividade desse campeonato. Se fizer a média dos desnivelamentos e dividir esse valor por cada um dos desnivelamentos, obterei então um coeficiente de competitividade para cada um dos campeonatos. Multiplicando esse coeficiente de competitividade pela produção doméstica de uma equipa (média de pontos obtidos por jogo no seu campeonato), será possível comparar, com mais justiça, a produção a nível interno entre equipas de campeonatos completamente distintos.

Segundo o Ranking da UEFA, os dez países mais poderosos são: Inglaterra, Espanha, Itália, França, Alemanha, Rússia, Roménia, Portugal, Holanda e Escócia.

Inglaterra: 1002 golos marcados; 2,64 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,79) (6º a 10º: 1,35) (11º a 15º: 1,17) (16º a 20º: 0,95)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,74) (6º a 10º: 1,27) (11º a 15º: 1,52) (16º a 20º: 1,74)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 1,05) (6º a 10º: 0,08) (11º a 15º: -0,35) (16º a 20º: -0,79)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,97)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 1,40)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,84)

Espanha: 1021 golos marcados; 2,69 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,92) (6º a 10º: 1,30) (11º a 15º: 1,13) (16º a 20º: 1,03)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,13) (6º a 10º: 1,31) (11º a 15º: 1,33) (16º a 20º: 1,61)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,79) (6º a 10º: -0,01) (11º a 15º: -0,20) (16º a 20º: -0,58)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,80)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 0,99)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,37)

Itália: 970 golos marcados; 2,55 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,76) (6º a 10º: 1,32) (11º a 15º: 1,11) (16º a 20º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,93) (6º a 10º: 1,37) (11º a 15º: 1,36) (16º a 20º: 1,45)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,83) (6º a 10º: -0,05) (11º a 15º: -0,25) (16º a 20º: -0,52)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,88)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 1,08)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 1,35)

França: 868 golos marcados; 2,28 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,52) (6º a 10º: 1,08) (11º a 15º: 1,04) (16º a 20º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,97) (6º a 10º: 1,00) (11º a 15º: 1,24) (16º a 20º: 1,36)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,55) (6º a 10º: 0,08) (11º a 15º: -0,20) (16º a 20º: -0,43)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 10º: 0,47)
(Entre 1º a 5º e 11º a 15º: 0,75)
(Entre 1º a 5º e 16º a 20º: 0,98)

Alemanha: 860 golos marcados; 2,81 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,78) (6º a 9º: 1,55) (10º a 13º: 1,29) (14º a 18º: 1,01)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,00) (6º a 9º: 1,49) (10º a 13º: 1,57) (14º a 18º: 1,61)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,78) (6º a 9º: 0,06) (10º a 13º: -0,28) (14º a 18º: -0,60)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,72)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 1,06)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,38)

Rússia: 562 golos marcados; 2,34 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 4º: 1,56) (5º a 8º: 1,17) (9º a 12º: 1,08) (13º a 16º: 0,88)
Sofridos p/ jogo: (1º a 4º: 0,98) (5º a 8º: 1,10) (9º a 12º: 1,21) (13º a 16º: 1,39)
Average p/ jogo: (1º a 4º: 0,58) (5º a 8º: 0,07) (9º a 12º: -0,13) (13º a 16º: -0,51)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 4º e 5º a 9º: 0,51)
(Entre 1º a 4º e 9º a 12º: 0,71)
(Entre 1º a 4º e 13º a 16º: 1,09)

Roménia: 726 golos marcados; 2,37 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,48) (6º a 9º: 1,39) (10º a 13º: 0,97) (14º a 18º: 0,90)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 0,78) (6º a 9º: 1,29) (10º a 13º: 1,19) (14º a 18º: 1,51)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,70) (6º a 9º: 0,10) (10º a 13º: -0,22) (14º a 18º: -0,61)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,60)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 0,92)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,31)

Portugal: 553 golos marcados; 2,30 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 4º: 1,55) (5º a 8º: 1,21) (9º a 12º: 0,92) (13º a 16º: 0,93)
Sofridos p/ jogo: (1º a 4º: 0,78) (5º a 8º: 1,05) (9º a 12º: 1,28) (13º a 16º: 1,50)
Average p/ jogo: (1º a 4º: 0,77) (5º a 8º: 0,16) (9º a 12º: -0,36) (13º a 16º: -0,57)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 4º e 5º a 9º: 0,61)
(Entre 1º a 4º e 9º a 12º: 1,13)
(Entre 1º a 4º e 13º a 16º: 1,34)

Holanda: 956 golos marcados; 3,12 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 5º: 1,90) (6º a 9º: 1,80) (10º a 13º: 1,51) (14º a 18º: 1,08)
Sofridos p/ jogo: (1º a 5º: 1,07) (6º a 9º: 1,52) (10º a 13º: 1,76) (14º a 18º: 1,93)
Average p/ jogo: (1º a 5º: 0,83) (6º a 9º: 0,28) (10º a 13º: -0,25) (14º a 18º: -0,85)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 5º e 6º a 9º: 0,55)
(Entre 1º a 5º e 10º a 13º: 1,08)
(Entre 1º a 5º e 14º a 18º: 1,68)

Escócia: 541 golos marcados; 2,73 golos por jogo.
Golos p/ jogo: (1º a 3º: 1,97) (4º a 6º: 1,39) (7º a 9º: 1,24) (10º a 12º: 0,86)
Sofridos p/ jogo: (1º a 3º: 0,91) (4º a 6º: 1,30) (7º a 9º: 1,52) (10º a 12º: 1,74)
Average p/ jogo: (1º a 3º: 1,06) (4º a 6º: 0,09) (7º a 9º: -0,28) (10º a 12º: -0,88)
Desnivelamento de Average: (Entre 1º a 3º e 4º a 6º: 0,97)
(Entre 1º a 3º e 7º a 9º: 1,34)
(Entre 1º a 3º e 10º a 12º: 1,94)

Resultados:

Média de Desnivelamentos entre as equipas de topo e as equipas de fundo da tabela: 1,43

Coeficientes de competitividade:
1º França: 1,33
2º Rússia: 1,31
3º Roménia: 1,09
4º Portugal: 1,07
5º Itália: 1,06
6º Espanha: 1,04
7º Alemanha: 1,04
8º Holanda: 0,85
9º Inglaterra: 0,78
10º Escócia: 0,74

Conclusões:

1) Os campeonatos mais competitivos, isto é, aqueles onde há menor desnivelamento entre equipas grandes e pequenas, são o francês e o russo. Estes dois campeonatos atingem mesmo coeficientes de competitividade muito mais altos que os que se seguem.

2) Roménia, Portugal, Itália, Espanha e Alemanha têm coeficientes de competitividade semelhantes, sendo que o nosso campeonato é mesmo o 4º mais competitivo.

3) Na cauda, surgem a Holanda, a Inglaterra e a Escócia, com o futebol britânico a ocupar os dois últimos lugares da lista.

4) Quanto aos golos marcados, a Holanda é o país onde se marcam mais golos (3,12 p/j); depois a Alemanha (2,81 p/j); Escócia (2,73 p/j); Espanha (2,69 p/j); Inglaterra (2,64 p/j); Itália (2,55 p/j); Roménia (2,37 p/j); Rússia (2,34 p/j); Portugal (2,30 p/j); e França (2,28 p/j).

5) O campeonato mais nivelado, o francês, é também aquele onde se marcam menos golos, podendo por isso presumir-se que muitos resultados serão empates a 0 ou vitórias por 1-0.

6) O campeonato holandês é o que tem mais golos marcados, o escocês é o terceiro e o inglês o quinto, o que indica que, sendo os três campeonatos mais desnivelados, as equipas de topo marcam muito mais golos às equipas do fundo da tabela do que noutros sítios.

7) O campeonato português é o segundo onde se marcam menos golos, o que indica que é nivelado muito por baixo.

8) Entre os três campeonatos maiores, o inglês é, de longe, o mais desnivelado, mantendo-se Itália e Espanha bem próximas. Se por um lado a supremacia das equipas de topo inglesas na Europa foi evidente e pode explicar algum do desfasamento em relação às ditas menores do seu campeonato, não deixa de ser também verdade que as equipas menores de Inglaterra são claramente inferiores às equipas menores de Espanha e de Itália.

9) De uma maneira geral, os campeonatos onde se marcam mais golos são os campeonatos onde há maior desnível entre grandes e pequenos. A excepção será a Alemanha, que mantém um coeficiente de competitividade elevado, ao nível médio, e que é o segundo campeonato onde se marcam mais golos.

10) Com estas contas, demonstra-se que é mais difícil uma equipa ser bem sucedida em Espanha, por exemplo, do que em Inglaterra. Isto implica que, um jogador de ataque numa equipa grande inglesa vai ter sempre a vida mais facilitada do que um jogador de ataque numa equipa grande espanhola. Assim, é de todo injusto comparar os golos marcados por um jogador que jogue numa equipa de topo em Inglaterra com outro que jogue numa equipa de topo em Espanha, uma vez que o primeiro terá mais facilidades em marcar.

11) Em Inglaterra, Escócia, Espanha e Itália registaram-se os maiores desnivelamentos entre as primeiras quatro ou cinco equipas e as equipas seguintes. Isto significa que, nestes 4 países, o poder das primeiras equipas encontra-se bem acima do das restantes. Creio que Portugal, com uma prestação normal de Benfica e Sporting, se incluiria neste lote, o que aumentaria o desnível competitivo do nosso campeonato.

12) Fazendo a média de pontos por jogo e multiplicando-a pelo coeficiente de competitividade, podemos aferir da produção doméstica das equipas e concluir, por exemplo, que há mais mérito no 3º lugar do Barcelona (1,76 pontos p/j x 1,04 (CCE) = 1,83) do que no 1º lugar do Manchester United (2,29 pontos p/j x 0,78 (CCI) = 1,79). Ou, por outras palavras, é mais difícil fazer 67 pontos em Espanha do que 87 em Inglaterra.

13) Como é óbvio, se reduzirmos o espectro e, em vez de calcularmos o coeficiente de competitividade com base no desnivelamento entre equipas do topo e equipas do fundo da tabela, o calculássemos com base no desnivelamento entre a primeira metade da tabela e a segunda, as diferenças entre os coeficientes de competitividade de cada campeonato seriam menores, mas as conclusões seriam, essencialmente, as mesmas.

14) Utilizando os 5 campeonatos onde se marcam mais golos, podemos concluir que em Espanha e na Alemanha, a existência de golos é razoavelmente racionada entre todas as equipas do campeonato, ao passo que na Holanda, na Inglaterra e na Escócia isso não acontece. Isto significa que na Espanha e na Alemanha a ineficácia defensiva dos adversários não é tão responsável pela eficácia ofensiva de uma equipa quanto o é na Holanda, na Inglaterra e na Escócia. Podemos então presumir que, em Espanha e na Alemanha, a relação entre atacar bem/defender mal não é tão evidente como na Holanda, na Inglaterra e na Escócia. O mesmo é dizer que em Espanha e na Alemanha as equipas são mais equilibradas na sua propensão ataque/defesa e que no futebol britânico e holandês as equipas são mais desequilibradas tacticamente.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Maus princípios...

Se bem que nos encontremos na pré-época, os sinais que ficam do primeiro teste a "doer" da equipa leonina não são muito animadores.

Começou num 442 clássico, com Rochemback e Adrien no miolo, sentindo grandes dificuldades nas transições e optando pelos lançamentos longos para contrariar a falta de apoios. Assim, a opção passou invariavelmente pela solicitação directa dos dois avançados. O conjunto liderado por Paulo Bento jogava de forma partida, sem articulação e, à excepção de um lançamento longo do camisola 26 para Derlei (com a colaboração determinante da defesa adversária) e consequente cruzamento do Ninja para a finalização de Yannick, e de um lance individual de Izmailov, o Sporting não conseguiu importunar o (fraco) sector defensivo dos ingleses.

Foi com esta notória dificuldade na circulação da posse de bola que vimos o Sunderland - que miséria de equipa!! - superiorizar-se ao conjunto de Alvalade. Todavia, foi o clube de Alvalade quem encontrou o caminho do golo: Ronny, com um remate feliz, fez o 1-0, sem que nada o justificasse.

As dificuldades do Sporting nos processos ofensivos obrigou a que, muitas vezes, os jogadores que actuavam nas alas, principalmente Izmailov, abandonassem os seus corredores, na tentativa de conseguir os apoios que lhes permitissem as penetrações no último reduto do adversário. Desta situação resultava uma grande dificuldade da turma leonina, na transição ataque-defesa, permitindo que uma equipa como o Sunderland conseguisse, de forma simples e eficaz, circular a bola de modo a retirá-la das zonas de pressão leonina. Daqui só não resultaram consequências maiores pela nítida falta de talento dos ingleses. Ainda assim, estes, por uma vez, criaram grande perigo junto de Tiago, beneficiando da deficiente ocupação da zona frontal à grande-área leonina: Richardson conseguiu fugir a Carriço (apesar de tudo, boa exibição!), provocando calafrios à equipa portuguesa.
Ao intervalo o resultado revelava-se lisonjeiro para a turma leonina, destacando-se pela positiva Izmailov.

Na segunda parte, já com o figurino em losango, o Sporting mostrou-se mais forte nas transições ofensivas. Todavia, o facto de o losango se encontrar demasiado aberto revelava um "leão" pouco compacto, menos até se comparado com a estrutura apresentada na primeira-parte. A "vertigem pela largura" retira profundidade e poder de incisão ao conjunto de verde-e-branco da mesma forma que a torna mais débil nas transições, principalmente nas de ataque-defesa.

Ainda assim, Romagnoli, com a sua movimentação entre linhas, conseguia criar desequilíbrios, sendo que, por este facto, o Sporting conseguiu encontrar o caminho para a área adversária com mais facilidade e de forma mais assídua. O problema veio da "quebra" de Izmailov, assim como o desacerto de Rochemback na posição 6. Há um provérbio que diz "atrás de mim virá quem de mim bom fará" e isto pode aplicar-se às criticas feitas por este blogue ao desempenho de Miguel Veloso no ano passado. Estes factores, assim como o desacerto da defensiva leonina (lembram-se desta dupla de centrais em Braga, há dois anos?), foram determinantes para um péssima exibição, o que vem assim por alguma "água na fervura" em toda euforia demonstrada lá para os lados de Alvalade. Ainda é cedo para se tirar conclusões, mas que as coisas neste momento estão mal... isso estão...

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Pablo Aimar: prazer e frustração...

Pablo Aimar no Benfica: a melhor notícia dos últimos anos para o nosso campeonato! Arrisco a dizer que é, desde Diego, pelo Porto, a contratação de maior luxo do futebol português. Uso o substantivo "luxo" de propósito, pois acho Lucho González, embora já tivesse algum estatuto quando o Porto o foi buscar, nunca teve o impacto que Aimar chegou a ter na Argentina ou que Diego chegou a ter no Brasil.

Maradona disse dele e de Saviola: "Adoro estes dois. É pena que joguem no River. São rapidíssimos." Não é uma designação muito concreta, mas o facto de, entre 100 jogadores, Maradona ter escolhido falar de Aimar tem de ser relevante. Para além dele e de Saviola, entre jovens jogadores que na altura despontavam na Argentina, Maradona só falou de Riquelme e de Romagnoli. Isto demonstra muito daquilo que se esperava de Aimar. Quanto a mim, vi-o no último ano de River fazer coisas que, desde Maradona, não via: slaloons impressionantes desde o meio-campo, a ultrapassar com fintas curtas todos os opositores que lhe saíam ao encalço, concluindo depois a jogada com um passe de morte, com uma cueca e um remate colocado, etc. Antes de vir para a Europa, já eu suspirava pelo futebol de Aimar. Foi por isso que, ao transferir-se para o Valência de Cúper, me deixou em êxtase. Agora, podia vê-lo com a regularidade com que antes não podia.

Os primeiros jogos no Valência deixaram-me, porém, alguma estupefacção. Aimar raramente jogava de outra forma que não ao primeiro toque. Não entendi como, numa equipa tão parca em talento, o astro argentino não pegava na bola e não fazia coisas como as que lhe tinha visto fazer nas pampas. Julguei que fosse por timidez, mas não. Algum tempo depois percebi o que se passava e, mais uma vez, Aimar surpreendia-me. Ao contrário do que seria de esperar, jovem como era, Aimar percebeu imediatamente que o futebol na Europa não era o futebol da sua Argentina. Aqui, tinha que se moldar, tinha que lapidar o seu talento para que o mesmo pudesse servir as necessidades de um futebol mais exigente. O que era verdadeiramente espantoso era que um jovem com a qualidade dele não cedesse à tentação de ir no um para um mais vezes. Aos poucos, o jovem rapidíssimo de que Maradona falava transformou-se no jovem inteligentíssimo. O seu futebol de primeiro toque permitia coisas em termos colectivos muito mais relevantes que qualquer das suas fantásticas jogadas individuais. Foi, na verdade, um dos primeiros jogadores que me fez perceber que, em futebol, é muito mais importante aquilo que um jogador faz em função do colectivo do que as jogadas individuais mirabolantes. E o seu Valência ganhou muito mais com o seu futebol discreto mas inteligente do que alguma vez ganharia com as suas arrancadas fenomenais. O jogador "rapídissimo" tornou-se "rapidíssimo a pensar".

Na altura, cheguei a pensar que Aimar era o jogador ideal para jogar no meio dos galácticos do Real. Entre tantos jogadores que gostavam de ter a bola e de se recrear com ela, Aimar seria o ponto de apoio, o jogador de toque simples que serviria de pêndulo ofensivo para os outros. Tenho a certeza que Aimar, numa equipa como o Real, teria sido de uma importância enorme. E tinha qualidade mais do que suficiente para isso, na altura. Entretanto, o mundial de 2002: Aimar era um jovem, uma fraca figura no meio dos outros jogadores de meio-campo, mas foi eleito por Bielsa para comandar o meio-campo no jogo decisivo contra a Suécia. Nos outros, já havia entrado, tendo sido, para mim, a grande figura da selecção das pampas nesse mundial. O seu futebol prometia um sucesso futuro que, no entanto, nunca se chegou a realizar. Com Ranieri e com Quique, Aimar nunca mais teve o que tinha com Cúper e o que chegou a ter com Benitez. No sistema do agora treinador do Benfica, por exemplo, Aimar era um jogador amarrado, longe dos espaços onde poderia ser genial. Ainda assim, continuou a evoluir como jogador até que, inexplicavelmente, Quique deixou de contar com ele. O percurso que se previa ascensional e que, do Valência, o deveria ter levado para um grande europeu, sofreu uma reviravolta e Aimar acabou esquecido em Saragoça. Aliás, Aimar e outro argentino de enormíssimo talento que chegou a ser falado para o Benfica: Andrés D'Alessandro.

As lesões, mas, principalmente, a coabitação num esquema táctico senil, fez com que a carreira de Aimar não fosse mais longe. Como ele, há e houve outros que, sobretudo nos últimos anos, foram preteridos por jogadores com outras qualidades. Diego, Van der Vaart e Rosicky (este entretanto acabou por ser repescado por um treinador que, no que toca a avaliar jogadores, deixa os outros a milhas) são exemplos de jogadores com características semelhantes a Aimar que, nos dias que correm, parecem não ser muito apreciados. Não tenho dúvidas, contudo, que qualquer um destes tem lugar num grande europeu e que só a teimosia em se achar que o tamanho e a agressividade são factores relevantes na apreciação de um jogador os tem mantido afastados de tal destino. Se é verdade que, no que diz respeito a Diego e Van der Vaart, há ainda possibilidades de salvarem as suas carreiras, para Aimar o tempo começa a escassear. Para mim, não ter chegado a um grande europeu explica-se sobretudo pela deficiência mental de grande parte dos treinadores mundiais, cuja competência futebolística parece teimar em não melhorar. Cheguei já a comparar Aimar com Nuno Assis, salvo as devidas proporções. São jogadores muito idênticos, com características técnicas, físicas e intelectuais muito semelhantes e que representam, para mim, o mesmo em dois panoramas diferentes: Nuno Assis é um jogador de selecção nacional que não teve o sucesso em Portugal que merecia, ao passo que Aimar é um jogador de topo mundial, que merecia ter chegado a um grande europeu e ser bem sucedido. Ambos entendem o jogo de uma forma inteligente e, por isso mesmo, são mais discretos do que as suas reais capacidades. São jogadores que oferecem ao colectivo muito mais do que o colectivo lhes oferece a eles. E, por causa de não serem recompensados por isso, ficaram aquém das suas possibilidades. Ambos abdicaram da sua capacidade individual para servirem um grupo, mas sabe-se que, em futebol, continua a dar-se maior importância a quem faz números de circo do que a quem faz as coisas correctamente. Jogadores como estes, só inseridos numa equipa colectivamente forte (como há poucas), que jogue verdadeiramente em colectivo, é que poderiam ver as suas preocupações colectivas recompensadas. Assim não aconteceu e foram sendo esquecidos.

Além disso, parece-se preferir-se, hoje em dia, jogadores com outros atributos, como a capacidade de choque ou o tamanho, a jogadores de talento puro, que é um atributo intelectual. E em vez de Aimar, de Diego, de Van der Vaart, vemos Ballacks, Andersons, Stankovics nos grandes clubes mundiais. Não quero tirar o mérito de cada um destes, mas em talento ficam a anos de luz dos primeiros três. Isto demonstra que, actualmente, o talento é cada vez menos importante para os treinadores. Prefere-se a força, a velocidade, a agressividade, à inteligência, à classe, à criatividade. Aimar foi vítima disto e teve no esquema de Quique Flores a sua Torre de Babel. Num esquema que não privilegia o talento, de pouca flexibilidade, Aimar era um jogador banal. O seu talento, aí, não poderia abrir as asas. Num esquema como o de Quique, queriam-se jogadores rápidos, incisivos, objectivos. Aimar precisa de não ser nada disto para ser o verdadeiro Aimar. Assim, a vinda para o Benfica é, por um lado, a melhor coisa que um adepto de bom futebol poderia desejar, mas, por outro, para quem tem consciência das amarras a que vai estar sujeito, um grito mudo de revolta. No Benfica, vou poder apreciar aquele que é, para mim, o jogador que a nível mundial mais rapidamente executa aquilo que pensa, mas ao mesmo tempo vou ter um nó na garganta, pois sei que vai estar a jogar menos do que aquilo que poderia e que a sua carreira estará, certamente, condenada a pouco mais do que isto. Assim, a par da satisfação enorme que é ter em Portugal um dos meus maiores ídolos, vou sentir-me constantemente frustrado quando vir que não é a camisola do Real, do Barcelona, do Milan, da Juventus, do Manchester ou do Liverpool que ele está a envergar...

Apesar de tudo, porque gosto demasiado de futebol, bem-vindo, Pablo Aimar!

sexta-feira, 11 de julho de 2008

O princípio da complexidade no futebolista

Nos dias que correm ainda é normal que grande parte das análises produzidas assente num fundamento reducionista. O futebol não é execpção.

As consequências da proliferação deste modelo, o reducionismo - ao qual alguns autores se referem como o paradigma da simplicidade -, no nosso futebol, à excepção de meia dúzia de casos, são evidentes. Encontram-se desde a maneira como se seleccionam jogadores, até à maneira como se concebe e sistematiza o modelo de jogo.

Quando qualquer jogador é apresentado ao público (e quando digo apresentado, digo-o no sentido de um jornalista, treinador, ou até, em algumas ocasiões, o próprio jogador, o apresentar "verbalmente"), é descrito de uma forma anlítica: fala da sua velocidade, do seu forte remate, da capacidade técnica, etc.
Até aqui nada de novo.

O grande problema surge com o principio da adição. Por outras palavras, a grande maioria dos treinadores parte do principio que adicionando um jogador veloz, por exemplo, terá uma equipa mais rápida. Nada mais errado. Obviamente, o jogador será sempre rápido, todavia, isso apenas se poderá revelar como algo positivo para equipa se esta se mostrar apta para o assimilar, e vice-versa.

O todo existente antes da aquisição de um novo elemento será, necessariamente, diferente após essa "absorção". Com esta "renovação" surgirão novas conecções e interacções entre as várias partes constituintes do todo, e com isso, emergirão novos padrões. Por arrasto, o todo será diferente, mais forte ou mais fraco, mas diferente, seguramente. Por isso, é importante compreender qualquer jogador na sua complexidade antes de o agregar à equipa. Aqui entra em cena a contextualização, perceber que este é um factor determinante para conseguir que o aparecimento de certos padrões sejam controlados. O princípio da sensibilidade às condições iniciais deve estar sempre presente, por isso é dever do líder, neste caso, o treinador, ter presente o cuidado de precaver estas situações, assegurando que o grupo e o jogador têm condições para a simbiose que se pretende.

Aqui surge a grande questão. Quando se contrata um jogador, mais do que procurar os atributos fisicos, a escolha deverá recair nos seus atributos intelectuais, na maneira como entende o jogo, na perspicácia, no poder decisão, etc., porque são estes factores que vão potenciar as características individuais em prol do colectivo, que vão poder enquadrar o jogador no modelo de jogo pretendido da melhor forma. Depois, perceber se o padrão de jogo do jogador se enquadra na filosfia do nosso grupo. Perceber se o jogador se enquadra num jogo mais posicional e, por isso, se as suas caractrísticas se enquandram mais facilmente no ataque organizado, se tem apetência para transições mais rápidas, etc.

A velocidade, a circulação de bola, a consistência defensiva, a capacidade construtiva, etc., não são ingredientes isolados, por isso mesmo impossíveis de confeccionar de forma separada, ou até de ser adquiridos através da inclusão de um ou dois elementos que tenham uma maior predisposição para um dado momento de jogo. As partes e o todo influenciam-se de forma recíproca, sendo que um dado jogador será sempre diferente dependendo do todo em que está inserido. Mais, uma equipa, mesmo sem alterar o seu figurino integral, pode representar um todo bastante diferente, bastando para isso alterar alguns sub-princípios que, por sua vez, terão influência no desempenho dos seus jogadores, assim como na relação entre estes, e nos vários sectores, estabelecendo-se assim novos padrões dentro da equipa, determinando desta forma um nova identidade na equipa.

Por se passar ao lado destas situações, encontramos grandes oscilções em várias equipas sem existirem, aparentemente, razões para tal.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Clássicos: (Espanha 82 - Itália vs Brasil)

Na segunda fase de grupos do mundial espanhol, o sorteio ditou que o grupo C fosse composto por Brasil, Argentina e Itália, três candidatas à vitória final. Deste grupo, apenas uma destas equipas seguiria em frente, pelo que era necessário vencer dois opositores fortíssimos. A Argentina de Maradona não aguentou e perdeu os dois encontros, não obstante o anti-jogo de Gentile que, às leis actuais, teria sido expulso várias vezes (bateu um recorde ao fazer 23 faltas sobre o mesmo jogador num só jogo, isto fora as que não foram assinaladas). Por isso, tudo se decidia entre Itália e Brasil. De referir, ainda, que a Itália chegara a esta fase sem vencer qualquer jogo, com três empates e apenas beneficiando do facto de ter marcado mais um golo que o adversário em igualdade pontual.

Os brasileiros apresentaram-se num 352, com Valdir Peres na baliza, Leandro na direita, Luisinho na esquerda e Óscar no meio, Cerezo e Falcão como médios-defensivos, Sócrates, Júnior e Éder à frente destes, com liberdade, e Zico e Serginho na frente. Do lado da Itália, a mesma estratégia do jogo contra a Argentina: Gentile a marcar em cima Zico. Os italianos jogaram, portanto, em 541, com Zoff na baliza, Oriali à direita, Cabrini à esquerda, Scirea, Colovatti e Gentile no meio, Tardelli e Antognoni no meio-campo, Conti à direita, Graziani à esquerda, e Rossi na frente. Apesar do esquema aparentemente defensivo, a Itália nunca deixou de procurar o ataque e, na primeira parte, o jogo foi mesmo bastante equilibrado. Logo aos 5 minutos, um cruzamento do meio da rua encontrou Rossi na área que, de cabeça, concluiu sem dificuldades. Vítima do pouco rigor defensivo, o Brasil arrancava a perder. Entretanto, já Zico levara cacetada suficiente para que Gentile estivesse a ver o jogo pela televisão. Cartões, nem vê-los. Ou melhor, viu-o, sim, mas por protestos após mais uma falta. Aliás, os cartões naquela época serviam mais para que os jogadores estivessem calados do que para proteger os artistas e o espectáculo. Antes do golo do empate, destaque ainda para um falhanço inacreditável de um avançado inacreditável. Zico recupera uma bola e vai-se a isolar; para azar seu, Serginho, um matacão sem técnica, sem velocidade, sem agilidade e sem cérebro, chega primeiro à bola e finaliza de qualquer maneira; o resultado foi um pontapé estúpido, com a bola a sair francamente ao lado e aos trambolhões, digno de um troglodita. O golo do empate nasce de novo lance de Zico, que se liberta por momentos de Gentile e efectua um passe do outro mundo a isolar Sócrates, que não perdoou. E quando o Brasil tinha tudo para ir para cima dos italianos, eis mais um erro imperdoável. Ao estilo de Secretário para Acosta, Cerezo isola Paolo Rossi que, com um remate à entrada da área, não perdoa. Até final da primeira parte, o jogo foi repartido.

Na segunda parte, o Brasil surgiu mais determinado, com Júnior e Éder, principalmente, a tentarem pegar no jogo da equipa. Depois de muito tentarem e de Zoff ter negado tudo e mais alguma coisa, eis que Falcão, com todo o tempo do mundo à entrada da área, empata a partida com um remate potente. Com este resultado, era o Brasil quem seguia em frente. Faltando menos de 20 minutos para o final, havia que fazer alguma coisa. Mas Enzo Bearzot não mexeu na equipa. Quase do nada, num pontapé de canto que sobra para a entrada da área, um remate de primeira encontra Paolo Rossi, que desvia para o terceiro golo. A partir daqui, sim, a Itália remeteu-se à defesa e ofereceu toda a iniciativa de jogo aos comandados de Telê Santana, apostando apenas no contra-ataque. Mas a falta de inspiração dos brasileiros e a segurança de Zoff haveriam de estipular que o marcador não mais se alterasse.

A Itália seguia assim para as meias-finais da prova depois de ter passado a primeira fase de grupos sem conseguir vencer adversários como os Camarões, o Perú e a Polónia. Apesar da exibição paupérrima no início do torneio, conseguia - à custa de muita sorte e favorecimento, é certo - ultrapassar um grupo complicadíssimo e ia agora ter pela frente novamente a Polónia. Como até nem tinha tido muita sorte até aqui, Boniek, a estrela polaca, não pôde jogar. A Itália venceu e seguiu para a final, sagrando-se campeã frente à Alemanha. Ilustrativo do que foi a campanha italiana foi o facto de Paolo Rossi, o melhor marcador da prova, só ter marcado golos nos últimos três jogos do torneio, três ao Brasil, dois à Polónia e um à Alemanha. De entre os destaques individuais, há a realçar, do lado da Itália, Zoff (simplesmente imperial), Tardelli e Antognoni (excelentes a pautar o jogo italiano) e Rossi, com uma mobilidade refrescante e um sentido de baliza bastante apurado. No Brasil, Cerezo (com os seus movimentos verticais, a aparecer constantemente na área a finalizar), Júnior, Éder e Sócrates (pela responsabilidade de pôr a jogar toda a equipa) e Zico (o pequeno génio, de drible curto, rápido a pensar e a executar), criminosamente anulado nesta partida por um dos mais facínoras defesas de todos os tempos.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Esquemas tácticos racionais

Há dias, surgiu a debate a questão sobre a racionalidade dos esquemas tácticos. Devo dizer, em primeiro lugar, que cada treinador ou cada entendido terá, certamente, uma ideia de quais são os esquemas tácticos que considera mais racionais. Para chegar a essa conclusão terá certos critérios. Aquilo que penso defender aqui é o meu critério para chegar a esses esquemas, critério esse que, julgo, é o único que confere racionalidade a um sistema táctico.

Para muitos, um esquema táctico tem de se adequar aos recursos humanos ao dispor de um treinador. Isto é, o modo como a equipa se dispõe em campo deve ser influenciado pelos jogadores do plantel. Ou seja, no caso de haver 2 avançados muitos bons, a equipa tem de jogar de modo a que esses dois avançados joguem. Ou, caso a equipa tenha dois trincos de qualidade, deve jogar com um duplo-pivot defensivo. Considero isto errado. Em primeiro lugar, porque os jogadores podem adaptar-se a posições cujas movimentações e espaços a ocupar não sejam muito diferentes. Por exemplo, um desses médios-defensivos pode conseguir jogar como médio interior, ou um dos avançados pode jogar a partir de uma ala, flectindo para o meio. Mas, de qualquer forma, querendo manter os melhores jogadores nas suas posições de origem, isso nunca deve influenciar aquilo que se considera mais importante. O que pretendo é que haja vários modelos aceitáveis e que, de acordo com os jogadores disponíveis, encontrar qual desses modelos se adequa melhor aos mesmos. Mas nunca a existência de dois avançados absolutamente imprescindíveis deve pôr em causa os critérios de avaliação de racionalidade de um modelo. Ou seja, esses dois avançados só vão poder jogar como avançados em modelos em que a existência de dois avançados não constitua uma irresponsabilidade táctica. Antes, por exemplo, jogar em 352, para manter os dois avançados, do que abdicar de um homem de meio-campo e jogar em 442 clássico.

Outros há que confundem racionalidade com equilíbrio. Há modelos mais ofensivos, mais defensivos e mais equilibrados. Mas nada disto tem a ver com racionalidade. Ou seja, o que quero dizer é que um sistema mais virado para o ataque ou mais virado para a defesa, que arrisque mais ou que arrisque menos, não é critério para definir a racionalidade de nada. Um sistema com três defesas, nesse sentido, pode ser tão racional quanto um com quatro, independentemente de estar menos povoado atrás. O que estas pessoas pretendem é que um sistema que arrisque jogar com três defesas é uma coisa, nos dias de hoje, muito ousada. E confundem ousadia com irracionalidade. Não concordo com isto. Considero possível que um esquema com 3 defesas seja perfeitamente racional. E considero isto porque os critérios que, para mim, conferem racionalidade a um esquema não se prendem com a zona do campo que pretendem ocupar ou com a orientação ofensiva ou defensiva do mesmo. E que critérios são esses, então?

Na minha opinião, a única coisa que pode servir para definir a racionalidade de um sistema é a forma como cada componente se relaciona com outro, dentro desse sistema. Aqueles sistemas que tiverem uma relação adequada entre os seus componentes serão, certamente, os sistemas mais unidos, mais coesos e, consequentemente, os mais racionais. Uma equipa deve jogar compacta, unida, com apoios sucessivos. Penso que isto seja evidente. Logo, por sistema racional entendo aquele que permitir um melhor estabelecimento de apoios. É por isso que, para mim, um sistema com poucas linhas é um sistema inadequado. Um 442 clássico, por exemplo, ao definir três linhas horizontais claras, não contempla os espaços entre as mesmas e não é um sistema para transições lentas. Não o é porque um médio-centro, por exemplo, só terá como apoio avançado um dos avançados. Isto implica que, imaginando uma jogada rectilínea, a bola passa do médio para o avançado. Nos dias que correm, processos ofensivos tão simples são pouco eficazes. Daí a necessidade de se colocar gente entre estas três linhas, de modo a fazerem a união entre meio-campo e ataque e permitir um jogo de passe mais curto e, consequente, menos arriscado. Entendo, portanto, que a importância de haver apoios constantes (quer avançados, quer recuados, quer laterais) ao portador da bola é o que confere racionalidade a um sistema. Nesse sentido, são, para mim, racionais todos os sistemas que permitam isto e irracionais aqueles para os quais a obtenção destes apoios exija maiores deslocações dos jogadores. Os sistemas que, pelo posicionamento original dos jogadores, mais facilmente contemplam esta necessidade são, para mim, o 433 com um só pivot-defensivo, o 442 losango, o 352, o 343 losango e o 334 com duplo-pivot defensivo.

O que é comum a todos estes sistemas não é apenas, como se possa pensar, um maior número de linhas horizontais, o que permite pressionar mais em profundidade. Isso é importante, sim, mas não é tudo. Acho que uma equipa deve posicionar-se em campo de forma a conseguir um elevado número de linhas horizontais, mas isso não é suficiente. Por exemplo, um duplo-pivot defensivo num meio-campo com três homens é radicalmente diferente, em termos de dinâmica colectiva, de um sistema que opte apenas por um homem nessa zona. E a diferença está, essencialmente, na forma como os apoios são fornecidos. Aliás, num esquema com quatro defesas, assumo, é profundamente errada a adopção de dois médios em cunha à frente deles. Penso assim porque o espaço que deveria ser privilegiado era o espaço que fica à frente do espaço entre os dois centrais. Com dois médios-defensivos, os espaços cobertos estão na mesma linha vertical que os espaços cobertos pelos defesas. Isso faz com que se forme um quadrado dentro do qual o espaço não está coberto. Aquilo que pretendo dizer é que um esquema racional deve contemplar, sim, a multiplicação de linhas horizontais, mas nunca esquecer as linhas verticais. Se formos aos desenhos, um esquema como o 442 losango assenta em triângulos sucessivos. Isto é essencial para se poder cobrir com exactidão todos os espaços de terreno. E cobrir todos os espaços da melhor maneira possível e com menos esforço possível é a forma mais racional de montar uma equipa.

Falar em linhas horizontais e em linhas verticais pode parecer vago, mas é precisamente a formação dessas linhas, se virmos bem, que confere união aos sectores. E essas linhas têm de estar definidas alternadamente. Por exemplo, num sistema com 4 defesas, cada um deles está numa linha vertical. É absolutamente crucial que haja, imediatamente a seguir aos defesas, a formação de uma quinta linha vertical (normalmente dada pelo pivot-defensivo). Um duplo-pivot, aqui, não conferiria uma quinta linha nesta zona. Essa só seria formada pela posição do médio-ofensivo e do avançado, ou seja, em zonas muito avançadas do terreno. Ao mesmo tempo, horizontalmente, estariam definidas apenas 4 linhas, contra 5 no 433. Em zonas recuadas, estariam formadas duas linhas horizontais no 4231, contra três no 433. A conjugação entre linhas verticais e horizontais é aquilo que permite, em cada zona, a existência de triângulos de apoios, absolutamente fundamentais. Um sistema que não contemple essa rede de apoios não é um sistema racional.

Quando Louis Van Gaal afirma que a sua filosofia era preparar a equipa de maneira a que cada um dos elementos da mesma corresse o menos possível, isto não é só da boca para fora. A melhor maneira de fazer com que os jogadores corram menos é obter uma rede de apoios que o permita. Quanto melhor um jogador estiver apoiado, menos terá de correr para preencher os seus espaços. Se a equipa estiver montada de maneira a que todos os jogadores tenham apoios que permitam que cada um deles tenha de ser preocupar com menos espaço, a equipa, de um modo geral, correrá menos. E isso significa que ocupará melhor os espaços. Agora, para tal coisa não servem todos os sistemas. Aqueles que são mais racionais são então aqueles que, pela forma como conjugam as suas onze pedras, fazem com que cada um dos elementos, a cada momento, tenha menos espaço com que se preocupar. Um 442 clássico, por exemplo, tem inúmeros momentos em que os dois médios-centro têm espaços enormes para cobrir. Isto não pode ser um sistema racional. É um sistema pouco coeso, que só pode ter sucesso através de transições directas, que não contempla um jogo em apoios nem ocupa bem os espaços defensivos (a não ser num bloco baixíssimo), que vive de dinâmicas anárquicas e da ideia mais primitiva de todas, a de que no futebol há jogadores para defender e jogadores para atacar, de que há uma altura para defender que não tem que se preocupar com o ataque e que há um momento para atacar durante o qual não se deve pensar na defesa.

Assim, ao contrário do que seria de esperar, um sistema não é mais ou menos racional pela utilização de mais ou menos defesas, mas sim pela união ou desunião que proporciona. Porque uma equipa deve atacar a defender e defender a atacar, é a existência permanente de apoios que a torna mais racional. Um sistema racional será, por isso, aquele que, nos diferentes momentos de jogo, mantiver a equipa mais preparada para o próximo momento. Há sistemas, nesse sentido, que permitem que a equipa se adapte à alteração de momentos mais rapidamente que outros. Esses são os sistemas racionais, os outros, os irracionais.

domingo, 29 de junho de 2008

Final e mais coisinhas

1. Assim, sim. A Espanha, sem Villa, jogou como contra a Rússia, após a lesão do avançado do Valência. Só com um avançado, Xavi adiantou-se no terreno para jogar ao lado de Fabregas, ficando Senna como único médio-defensivo. Desta forma, a Espanha conseguiu ter, no meio-campo, uma estrutura com duas linhas, muito mais racional no que concerne à ocupação de espaços. Outra virtude deste tipo de estrutura de meio-campo é permitir que os médios-ala, Iniesta e Silva, se movimentem livremente sem que, com isso, se abram espaços perigosos. Deste modo, a Espanha jogou a final com um sistema muito mais em conta e mereceu inteiramente a vitória neste encontro. Mas a teimosia no 442 inicial poderia ter custado caro, sobretudo no jogo com a Itália, que acabou por ter de ser decidido nos penaltys. Acabou por ganhar a melhor equipa em termos individuais e aquela que, embora tenha passado grande parte do torneio pouco equilibrada, demonstrou maior inteligência e qualidade. Confirmou-se também a aposta que fizera, antes do início do torneio e antes, portanto, de conhecer o modo de jogar das equipas... Parabéns, Espanha!

2. Este europeu demonstrou ainda outra coisa: a importância (que tantas vezes se ignora) da formação. Juntamente com a Holanda (outra cujas individualidades deram espectáculo), a Espanha é o maior país formador. Esta vitória é também uma vitória daqueles que apostaram nisso...

3. Para mim, a melhor equipa do torneio e respectivos suplentes:

Guarda-Redes: Van der Sar (Casillas)
Defesa Direito: Lahm (Corluka)
Defesa Esquerdo: Zhirkov (Pranjic)
Defesas Centrais: Puyol e Pannuci (Ricardo Carvalho e Chiellini)
Médio Defensivo: Pirlo (Senna)
Médios Ofensivos: Deco e Xavi (Van der Vaart e Modric)
Extremos: Arshavin e Iniesta (Podolski e David Silva)
Avançado: Van Nistelrooy (David Villa)

Treinador: Gus Hiddink (Bilic)

4. Ballack foi o homem dos quases, esta época.

5. Uma das coisas que se disse ao longo do Euro foi que Pepe era o melhor central do mesmo. Findo o torneio, devo dizer que, bem melhor que Pepe estiveram e são: Ricardo Carvalho, Ujfalusi, Simunic, Kovac, Chiellini, Panucci, Gallas, Chivu, Puyol e Marchena. São 10. Se tivermos em conta que ainda faltaram Nesta, Cannavaro, Rio Ferdinand, John Terry e Mexés, pelo menos, percebemos facilmente que Pepe está longe dos 15 melhores defesas europeus.

6. Pelé passa de estrela máxima a dispensável a inserir no negócio de Quaresma? Esta coisa do sacana do Zé vir ao nosso blogue tirar ideias tem de acabar...

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Meias-finais

1. A Alemanha atacou, atacou, atacou e perdeu o jogo... Ah, espera... Foi à Turquia que aconteceu isso. É que tinha ficado com a sensação de que os turcos nem sequer tinham jogadores para jogar este jogo...

2. A pobreza do futebol dos alemães é assustadora. É que não defendem bem, não atacam bem, individualmente são uma selecção mediana, colectivamente são antiquados, não têm ideias, não são imprevisíveis... O futebol pode mesmo ser uma coisa tão inexplicável? É que se, como a Grécia de há 4 anos, se limitassem a defender, eu até conseguia entender que não sofressem golos e que, num ou noutro golpe de sorte, marcassem. Mas é que nem defendem bem. Estão na final pela única coisa em que são, de facto, bons: o aproveitamento dos erros dos adversários. Mas se alguém disser que há mérito em saber aproveitar os erros dos outros, eu pergunto: e como é que se trabalha isso? A sério, para haver mérito, teria de ser uma coisa para a qual se trabalhasse. Ora, nada daquilo que tem dado à Alemanha o êxito que tem tido é trabalhado. Portanto, estão onde estão porque o acaso assim o quis. Tudo bem, são mentalmente fortes e tal. Mas onde é que esteve essa força mental quando se apanharam a ganhar a 10 minutos do fim e permitiram o golo do empate da Turquia? Onde é que esteve a força mental no jogo contra a Croácia? Esta selecção alemã é uma selecção fraca, que não dá mais, e que chegou à final do Euro à custa de um bom aproveitamento de falhas dos outros. Isto é futebol? Ou são Slot Machines?

3. Na outra meia-final, a Rússia voltou a não ser capaz de travar a selecção espanhola. Mas o jogo voltou a ser tudo o contrário do que vão dizer dele. Até à saída de Villa, por lesão, a Espanha era uma equipa sem ideias, presa de movimentos, e só os russos é que jogavam. Se houve alguém que dominou os acontecimentos, nesse período de jogo, foi a Rússia. A Espanha vivia das acções individuais, que pouco ou nada conseguiram de relevante. Com a saída de Villa, o meio-campo da Espanha, já por si muito dinâmico, ganhou outro elemento de enormíssima qualidade. Torres ficou abandonado na frente e a equipa espanhola passou a ganhar a batalha de meio-campo. Mas não por uma questão táctica. Ganhou-a porque passou a ter mais um elemento e a sua qualidade técnica era suficiente para suprir as dificuldades que um modelo como o espanhol implica. A partir daqui só deu Espanha. Com Fabregas, Iniesta e Silva sem posição fixa, e tendo ainda Xavi ao lado de Senna, atrás destes, o meio-campo da Espanha estava suficientemente preenchido e com gente suficiente e de suficiente qualidade técnica e intelectual para que o habitual carrossel não provocasse desequilíbrios atrás. Com um esquema assim, acredito que a liberdade que Aragonés dá aos jogadores mais ofensivos possa ser produtiva. Mas só assim. Ou seja, foi preciso o melhor marcador da Espanha lesionar-se para que a equipa jogasse de forma mais adulta. Ou seja, foi por acaso que a Espanha jogou à bola, desta vez.

4. Aragonés é horrível. Por tudo. Que substituições suicidas foram aquelas? Ainda com 25 minutos para jogar, a ganhar apenas por 1-0, tira Xavi e Torres?? Já depois de ter ficado sem Villa? E esgota as substituições? Genial! Mas há mais. Ao lesionar-se, Villa deu lugar a Fabregas e a Espanha passou a jogar num 4231, com os 3 jogadores atrás de Torres sem posição predefinida. Isto implica que, se Aragonés não tivesse Villa, não jogaria em 442 clássico. Isto implica que Aragonés escolhe o modelo de jogo em função dos jogadores que tem ao seu dispor. Isto é primitivo... O modelo de jogo, isto é, aquilo que o treinador entende que é a melhor forma de ocupar os espaços no campo tem de ser anterior à escolha dos jogadores que vão interpretar esse modelo de jogo. Isto é evidente. Mas não para Aragonés.

5. Era tão fácil pôr a Espanha a jogar num esquema racional. Num 433, num 442 losango, num 343 losango. Com a inteligência e a qualidade daqueles jogadores nem era preciso mais nada. Sugestão de um 343 losango: Casillas na baliza, Ramos, Puyol e Marchena na defesa, Senna ou Alonso a trinco, Xavi e Iniesta como interiores, Fabregas a 10 (ou Guti, se Aragonés tivesse tomado os comprimidos), Silva na esquerda, Villa na direita e Torres na frente. Tão fácil...

6. Chegam, pois, à final duas equipas que começaram o torneio em 442 clássico, mas que, por uma ou outra razão, tiveram necessidade de modificar o seu sistema. Não sei como vão jogar na final, mas sei que, de um lado, vai estar a melhor equipa em termos individuais da prova, mas que colectivamente deixa bastante a desejar, e, do outro, vai estar uma equipa que, francamente, vale por uma coisa qualquer esquisita, misteriosa, cuja longa história de sucessos passados parece continuar a atemorizar os adversários, mas que joga tão pouco que chega a parecer ridículo (talvez até mais ridículo que a Grécia de há 4 anos) que uma equipa assim esteja a disputar a final de um europeu.

domingo, 22 de junho de 2008

Certezas (10)

As comparações serão inevitáveis. Que é o novo Moutinho, ainda que ocupe outra posição no terreno. Por grande parte do público será admirado pela sua tenacidade, pela forma como discute cada lance como se fosse o último... Por outros será rejeitado, seja pelo tamanho, seja pela força; outros, atrasados mentais, dirão que ele precisará é de esteróides, para ver se ganha "corpo"...

Mas basta, basta de banalidades, pois este miúdo, de banal, não tem nada.

A qualidade técnica é de fácil adivinhação, assim como a agilidade, que tão bem utiliza nos seus desarmes, mas, neste filme, não passam de personagens secundárias, comparadas com o poder de decisão, e leitura deste "David". Com um discernimento que envergonha muitos veteranos, seja quando tem que jogar a um, dois toques, ou quando tem que se envolver em processos ofensivos mais complexos, a qualidade deste júnior de primeiro ano não deixa ninguém indiferente. Por isso, não será de estranhar que esteja em Alvalade o sucessor de Veloso; é só esquecer o 1,66 m do André Martins e lembrar o talento que lhe transborda da cabeça aos pés...

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Quartos-de-Final

1. Joachim Low mostrou que tinha respeito pela nossa selecção e modificou a sua Alemanha. A principal alteração foi a saída de um avançado e a entrada de um médio. A Alemanha jogou assim num 4231, ficando Ballack mais solto no espaço entre linhas e tendo mais profundidade nos flancos com Podolski e Schweinsteiger. Apesar de tudo, não foi à custa disto que a Alemanha ganhou o jogo. Dois golos de bola parada e um num lance aparentemente inofensivo, em que dois jogadores de ataque chegaram para 5 defensores, não são coisas para um campeonato da Europa. Passa a Alemanha, naquilo em que, de facto, é forte, ou seja, a aproveitar os pontos fracos dos outros. Aufwiedersehn Portugal!

2. Ainda bem que andaram a gabar Pepe o europeu todo. Que era o maior, que tinha classe, que era mais rápido que o Speedy Gonzalez. O futebol é cérebro e esse foi o único músculo que Pepe não desenvolveu ao longo da sua carreira. Já tinha ficado evidente (pelo menos para mim) que Pepe continuava a ter os defeitos que teve sempre, ou seja, a falta de calma e a má abordagem dos lances. Mas preferiam ver coisas como antecipações fantásticas, ou desarmes no limite, ou a agressividade na disputa da bola. Tudo isto é verdade. O que não viram foi que isto ou pode ter consequências graves ou é consequência de alguma coisa. Muitos desarmes no limite, por exemplo, eram resultado de más interpretações dos lances e eram apenas o seu último recurso. Contra a Turquia, por exemplo, teve falhas de principiante que ninguém pareceu querer ver. Porquê? Porque depois, graças à sua capacidade física, conseguia recuperar. Um jogador não é aquilo que consegue, mas aquilo que tenta. Pepe pode conseguir muitos desarmes, mas a sua forma de jogar indicia deficiências graves. E tantas vezes o cântaro vai à fonte que se parte. Se já tinha ficado ligado ao primeiro golo da Suíça, se bem que na altura Bruno Alves tenha ajudado, este jogo com a Alemanha foi o culminar de um europeu em que esteve muito abaixo do que se disse. O lance do primeiro golo é apenas uma ilustração da forma como Pepe joga sem pensar. A forma como os alemães tabelaram foi perfeita e Bosingwa foi batido. Mas Pepe estava tão mal posicionado que Podolski, ao receber a bola, não tinha só ultrapassado Bosingwa como também o central do Real Madrid. A partir daí, metade do golo estava feito. Podolski conduziu e cruzou para Schweinsteiger marcar. Paulo Ferreira pode não ter sido lesto a acompanhar o extremo alemão, assim como Ricardo talvez pudesse ter fechado o cruzamento e talvez Ricardo Carvalho pudesse ter-se colocado melhor, encurtando espaços, mas a primeira e mais grave falha é a de Pepe, com um erro posicional patético. Este tipo de lances aconteceram várias vezes ao longo do europeu, mas como não tiveram as consequências que este teve, não se falou deles. E Pepe ia sendo o maior, para toda a gente. Mas não fica por aqui. A forma apalermada como disputa os lances sempre me causou muita confusão. Quer seja perto, quer seja longe da área, Pepe vai sempre ao choque. Ora, muitas vezes até pode não fazer falta, ou não ter intenção de fazê-la, mas jogar no limite como joga é sempre um risco demasiado grande. Então quando Portugal tem os problemas que tem nas bolas paradas, é um comportamento suicida. Ao longo do europeu, foi jogando assim e sendo elogiado. Contra a Alemanha, ainda abusou mais. E fez faltas estúpidas. Muitas. Uma delas deu o terceiro golo. Um lance em que Klose ia sozinho, junto à linha, com Pepe pela frente e outro jogador português a tapar-lhe o espaço na retaguarda. Falha grave de Pepe. Costuma dizer-se que, quando se perde, é fácil criticar. Ora bem, sempre apontei estes defeitos a Pepe. Se hoje o critico, faço-o porque sempre o critiquei e porque hoje esses defeitos devem ter ficado visíveis para toda a gente. Ao contrário do muito que se disse, Pepe não foi dos melhores jogadores da selecção neste europeu. Aliás, das opções de Scolari, creio, foi mesmo o pior, se exceptuarmos Ricardo. Mas ainda bem que andaram a gabá-lo...

3. Por que é que Ricardo continua a ser o tipo que joga de luvas e se equipa de maneira diferente?

4. Qual é o nível de escolaridade obrigatória no país de Scolari?

5. Mas pronto, acho que se Ronaldo, o melhor do mundo, tivesse podido participar neste campeonato, Portugal teria tido mais sucesso.

6. A Turquia continua a sua campanha épica. Se bem que os outros era mesmo só sorte, não faz lembrar nada de há 4 anos?

7. A Croácia dominou o jogo do princípio ao fim e não merecia perder. Os turcos, apesar de terem o mérito de serem esforçados, têm ganho tudo nos últimos instantes. Desta vez, foi mesmo para lá da hora e num remate que me pareceu precedido de falta. Se eu gostasse de teorias da conspiração, diria que a Turquia é um adversário mais acessível para a Alemanha. Mas deve ser só Alá que está a torcer pelos turcos com muita força. Ou então é Maomé. São parecidos: daí a confusão. Quer dizer, às tantas é Jesus. Já não digo nada...

8. A Rússia ensinou o mundo a jogar à bola. Spassiba, Hiddink!

9. Aquela que era, até ao momento, considerada como a melhor equipa da prova não foi só eliminada. Foi humilhada. Completamente vergados ao poder colectivo dos russos, os holandeses pouco conseguiram fazer. Ficou evidente uma coisa que ninguém parecia ter querido ver: a Holanda vivia da inspiração das suas individualidades da frente (nisso, era talvez das equipas com mais e melhores soluções, neste Euro). Contra uma equipa que dominou sempre o jogo, os holandeses não conseguiram abrir espaços para soltar a imaginação destes homens. Sem processos ofensivos bem definidos, numa noite em que a inspiração não desabrocha, a Holanda não tem soluções. Foi o que aconteceu. Aquela equipa a quem tanto elogiaram tacticamente foi sempre uma equipa partida, com homens para defender e homens para atacar. Isto não é uma equipa tacticamente equilibrada, como se disse. Muito pelo contrário. E Hiddink provou-o...

10. Arshavin joga tanto! Zhirkov é outro. Akinfeev, Pavlyuchenko e Zyrianov também são bons. Mas o resto da equipa roça o banal. Por aqui se vê que, mesmo sem grandes ovos, é possível fazer omoletes. É a melhor equipa do Euro, colectivamente. Para mim, ficou logo claro que aquela pesada derrota frente aos espanhóis fora um percalço. Aquela primeira parte fora de muito boa qualidade e só algum azar deixou o resultado naquele estado. Os jogos que se seguiram, para muitos, foram surpreendentes. Nessa altura, disse-se que a Rússia estava a melhorar. Mas não estava. Como não melhorou desses jogos para este. A Rússia foi sempre isto: uma equipa com bons princípios de jogo, muito unida, com uma dinâmica ofensiva soberba e com capacidade, sobretudo, em termos colectivos, para disfarçar a pouca valia individual que o conjunto que possui. Vamos ver até onde conseguem ir...

11. Sugestão de negócio para o Real Madrid: em vez de irem buscar o Ronaldo e o Pavlyuchenko, por que não contratar Arshavin? Poupava-se dinheiro e ficava-se a ganhar. Fica a dica...

12. A Espanha segue em frente, num jogo equilibrado. Os espanhóis tiveram mais bola e os italianos insistiram em demasia nas solicitações de Toni. Na Espanha, aquele 442 não me convence. A defender, é claramente redutor, com três linhas bem definidas. A atacar, mantém os dois homens no meio-campo alinhados, Xavi e Senna, e faz os alas flectirem para o meio para aproveitar o espaço entre linhas. Isto seria bom se os laterais tivessem um grande propensão ofensiva, coisa que não acontece. Assim, quando Silva e Iniesta vêm para o meio, não há ninguém a aproveitar o espaço que eles deixam vago. A Espanha vale assim pelas individualidades e, como a Holanda, aposta tudo na liberdade concedida aos seus 4 homens da frente, os dois avançados e os dois alas. Antevê-se um jogo interessante, com a Rússia a procurar a desforra.

13. Del Piero entrou e fez logo miséria da defesa espanhola. Como é bom apreciar os poucos momentos de magia com que ainda nos presenteia um dos maiores jogadores de futebol dos últimos 15 anos.

14. Estão fechadas as contas dos quartos-de-final e exceptuando a Rússia, sou da opinião que passaram as equipas menos fortes. Agora, creio, ninguém se arriscará a prognosticar quem vencerá o Euro 2008 sem uma grande margem de erro.

domingo, 15 de junho de 2008

Ronda final

1. Portugal perdeu por 2 e acabou por rubricar uma exibição muito pálida. O que é que Scolari queria treinar com aquele meio-campo? Em termos individuais, a destacar o erro de Bruno Alves no primeiro golo, completamente desconcentrado, a deixar a sua posição. Pepe também não ficou bem na fotografia.

2. A Suíça ganhou com 2 golos de Hakan Yakin. Igualmente bem esteve o seu companheiro de ataque, Derdiyok. Behrami, embora tivesse feito um jogo fisicamente debilitado, após a entrada escusada de Paulo Ferreira, é outro dos bons valores desta equipa. Barnetta também não fica atrás. Mas os comentadores gabaram e gabaram Gelson Fernandes, Inler e até Vonlathen (este então é absurdo). Lá está, prefere-se sempre aquilo que salta à vista, o poder de choque, a disponibilidade física, a velocidade, a técnica, etc. Esquece-se que, mais importante que tudo isso, são as capacidades intelectuais e estes jogadores deixam muito a desejar nesse capítulo.

3. Num jogo de malucos, a Turquia virou o resultado depois de estar a perder por 2-0. Nihat foi o herói, com dois golos, um deles de belo efeito, e Petr Cech acabou por ter um papel importante na derrota da sua equipa. Sem dúvida, no melhor pano cai a nódoa. O maluco-mor, Demirel, acabou por ser expulso.

4. Nem a feijões a Croácia tirou o pé do acelerador. Grande jogo do lateral esquerdo Pranjic. Não deu para ver muito de Kalinic.

5. A Polónia parece uma equipa de há 40 anos atrás. Em tudo. No sistema táctico, nos processos, nas ideias. Em termos individuais, salvam-se Boruc, Smolarek, Saganowski e Guerreiro. Só. O resto é paisagem. E aquele médio, Murawski, a correr? Tal e qual um jogador nos anos 60, com os braços ao longo do corpo. Chegou a ser cómico. Foi, para mim, a equipa mais fraca do Euro. Resta-lhes a consolação de se terem qualificado para este europeu à frente de Portugal.

6. A Alemanha, como se previa, segue em frente e vai jogar com Portugal. A história do jogo resume-se ao golo de Ballack e a um falhanço inacreditável de Gomez. Que se passou ali? Estava um duende escondido na relva?

7. Os romenos nem eram parvos nenhuns, mas a diferença de qualidade foi evidente. A Holanda tem, provavelmente, a melhor segunda equipa do Euro. Huntelaar é uma máquina. Ninguém o vai buscar?

8. Domenech foi à vidinha. A personagem, a arrogância, a falta de educação e a ausência de cérebro não mereciam melhor desfecho: último lugar no grupo, com um futebol amorfo e cheio de buracos. Mexés não foi ao Euro porque Abidal podia jogar a central? Patético! Sentindo necessidade de compor a defesa, tira-se um miúdo que tinha entrado há 10 minutos e mete-se um defesa. A perder, jogar com 3 defesas, ainda por cima todos velocíssimos, ou tirar um avançado não eram melhores soluções? Ridículo! Há camiões cisternas que não perdiam nada em passar por cima de certas pessoas...

9. Há dias em que acontece de tudo. Ribery lesiona-se a fazer uma falta; Abidal é expulso num lance que acaba por dar o primeiro golo à Itália; Nasri está 10 minutos em campo por causa de um calhau com pernas; Henry não marca golos e ainda contribui para o segundo da Itália. Assim também é complicado - diga-se...

10. Luca Toni voltou a falhar bastantes golos, mas só aquela recepção no lance do penalty vale milhões.

11. A Itália vai jogar com a Espanha sem Pirlo nem Gattuso. Se a ausência do segundo até pode ser uma boa notícia para os italianos, a ausência de Pirlo é daqueles presentes que os espanhóis só recebem uma vez na vida.

12. A Rússia confirmou a impressão com que tinha ficado no primeiro jogo. A verdadeira Rússia é aquela da primeira parte contra a Espanha, que dominou os espanhóis e os encostou às cordas. Não têm uma equipa muito valiosa em termos individuais, mas jogam que se fartam à bola. É das equipas mais bem organizadas e com processos mais bem definidos... Se conseguirem defender bem, a Holanda que se cuide...

13. Mas o Real Madrid está parvo? Com tanto avançado bom neste Euro, entre os quais o melhor já está nos seus quadros, e anda atrás de Pavlyuchenko? Huntelaar, não? Villa, não?

14. A Suécia é o que é sempre: uma equipa em 442 clássico, muito aberta, cheia de buracos, com processos horríveis. Quando Kallstrom não tem lugar, está tudo dito. Sabem que outro sueco é que tinha lugar naquele meio-campo? Até meteu pena, ver Ibrahimovic vítima de um sistema táctico acéfalo...

15. A Grécia disse adeus ao Euro sem um pontinho. Então, Rehhagel?

16. Finda a fase de grupos, nada que me espante. As equipas que passaram, em cada um dos grupos, foram aquelas a quem, por acaso, tinha prognosticado a passagem. Sempre me pareceu que a Turquia tinha mais argumentos que a República Checa, da mesma forma que a Rússia tinha mais do que a Suécia e a Grécia. No grupo da morte, a escolher uma para não passar, era claramente a França. No grupo B, a única coisa de que não estava à espera era da ordem pela qual as equipas passaram. Um Euro 2008, para já, sem grandes imprevisibilidades...

17. A UEFA, para evitar que as equipas que já se encontraram nos grupos se encontrem na final, faz com que o vencedor do primeiro e do segundo jogo dos quartos-de-final joguem entre si. Isto não faz sentido nenhum. Desta forma, as probabilidades de se encontrarem duas equipas que já se encontraram duplica. E nem sequer percebo por que é que é menos grave encontrarem-se nas meias-finais do que na final. Absurdo! Se não queriam que se encontrassem na final, fizessem as coisas de maneira diferente: pusessem, por exemplo, o primeiro classificado de um grupo A a jogar com o segundo classificado do grupo D e o primeiro classificado do grupo B a jogar com o segundo classificado do grupo C, por exemplo. Teríamos, então, um Portugal-Rússia, um Croácia-Itália, um Holanda-Turquia e um Espanha-Alemanha. Qualquer que fosse o desenvolvimento destes jogos, era mais improvável que duas equipas que se encontraram nos grupos viessem a encontrar-se na final. Mas, desta forma, também não se encontravam, e isso é certo, nas meias-finais. Como está isto, há 50% de hipóteses de duas equipas que jogaram entre si nos grupos se encontrarem novamente nas meias-finais. A Holanda, que venceu sem apelo nem agravo a Itália, pode ter que lidar com eles novamente já na fase seguinte. Não me parece que isso seja tão interessante como ver a Holanda jogar com equipas contra as quais ainda não jogou. Viva a entidade sem cérebro que é a UEFA! Esta iniciativa está ao nível daquela regra que diz que o Panucci tem de jogar com uma anestesia geral, para não ter dores quando o Buffon lhe cai em cima e não ficar fora do campo a colocar toda a gente em jogo.

Segunda Ronda

1. Portugal carimbou a passagem aos quartos-de-final, com mais uma exibição de qualidade. Deco é, até ver, o homem do Euro. Que exibição de sonho! Parecia tocado por uma vontade divina! Já Ronaldo, foi simplesmente horrível. Alguém que lhe explique quantos são 1+10...

2. Como é que era mesmo aquela frase feita do futebol: Nuno Gomes não presta; Liedson é que é bom! Realmente, agora faziam falta os rasgos do levezinho...

3. Assim que entrou Koller, Scolari meteu Meira. Fenomenal, a estratégia do novo treinador do Chelsea! Como ia entrar um tipo que ganha as bolas todas de cabeça, a coisa certa a fazer é pôr alguém que tente estorvar o mais possível... Patético...

4. Petit sabe o que é uma posição? Que barata-tonta!

5. Scolari disse que a Alemanha, tacticamente, é perfeita. Argumenta Scolari que os jogadores tinham as posições bem definidas. Eu cá acho que, num jogo de matraquilhos, os jogadores ainda têm as posições mais definidas.

6. A Suíça já foi. Jogava em 442 clássico. Curioso...

7. A Alemanha que, para muitos, jogou bastante contra a Polónia, fez um jogo miserável contra a Croácia. Menotti e Mourinho, para além de Scolari, gabaram a selecção germânica, pelo que este segundo jogo seria uma aberração. Não creio. Este segundo jogo veio demonstrar tudo o que achava da Alemanha. Na altura, disse que, em termos tácticos, os comandados de Low eram pré-históricos. Contra selecções que se abrissem menos e que tivessem melhores intérpretes, teriam dificuldades. O jogo contra a Croácia confirmou tudo isso. A Alemanha interpreta bem o seu 442 clássico, mas o próprio sistema obriga a um futebol simples, demasiado simples. Nunca foram capazes de combinações mais complexas e foram completamente manietados por uma selecção que, tacticamente, nem é grande coisa.

8. Modric joga tanto! Ainda bem que há malta que se apressou a dizer, depois de um primeiro jogo em que não teve tanta bola, que ele estava verde para estas andanças. É bom e vai dar mesmo muito que falar. Juande Ramos, sagaz, não hesitou em adquiri-lo antes do europeu. Por que terá sido?

9. Com Modric, Rakitic, Srna e Kranjcar, a selecção croata está aí para as curvas. Nos próximos anos, vão dar que falar. Se lhes juntarmos a promessa que é Kalinic, está em vista uma selecção com muito potencial.

10. No jogo dos tristes, Áustria e Polónia repartiram pontos. Duas equipas, tacticamente, tão senis quanto a Alemanha. Os germânicos não deverão ter dificuldades em ultrapassar os austríacos...

11. A Roménia empatou com a Itália e só depende de si para seguir em frente. Deixar Itália e França pelo caminho teria a sua piada.

12. A Holanda esmagou a França. Se contra a Itália a equipa viveu de momentos felizes, como o caso do primeiro golo, neste jogo recolheu frutos do brilhantismo estratégico de Van Basten. A França pode até ter sido superior à Holanda em alguns momentos, mas a opção pela qualidade de posse de bola e pelo talento em detrimento da combatividade é qualquer coisa com que o receio do modernismo no futebol não nos costuma brindar. A ganhar ao intervalo por 1-0, o treinador holandês tirou um dos seus médios-defensivos, fazendo entrar Robben e deslocando Van der Vaart para terrenos mais recuados. Com isso, perdeu agressividade, mas ganhou talento e frescura na frente, assim como segurança na posse de bola e ideias no meio-campo. Nessa altura do jogo, a França carregou, em busca do empate, e muitos acharam que isso fora reflexo da estratégia de Van Basten. O treinador holandês respondeu, nesta altura, novamente contra o que é convencional. A ser pressionado pela França, voltou a tirar um elemento combativo, Kuyt, e colocou em campo Van Persie, ganhando ainda mais velocidade e talento. Com a França a atacar, a estratégia de Van Basten não se poderia ter revelado melhor, com o segundo golo a aparecer logo de seguida e o jogo a ficar definitivamente encaminhado. Estava demonstrado ao mundo que, ao contrário do que é vulgar pensar, não é pela força, pela disponibilidade física, pela agressividade, pela garra e pela altura, mas sim pela posse de bola, pela inteligência e pela qualidade com que se ataca que melhor se defende. Que grande lição!

13. A Espanha venceu e está nos quartos-de-final. Como não vi o jogo, não sei bem o que dizer, mas lá que esteve difícil, esteve...

14. A Grécia vai para casa mais cedo. Esgotaram-se os créditos em 2004?

15. Finda a segunda ronda, pode-se dizer que aquela ideia parva que anda um pouco na moda de dizer que os jogadores cada vez se desgastam mais ao longo da época e chegam a estas competições sem muita vontade de fazer alguma coisa de jeito é mesmo só uma ideia parva. A qualidade do campeonato, julgo, tem demonstrado precisamente o contrário: bons jogos, competitividade, emoção, etc... Ainda bem que Carlos Queirós disse, antes do torneio, que estas competições tinham cada vez menos interesse.

16. O campeonato de júniores terminou e o Sporting foi campeão. José Lima, o medíocre treinador sportinguista não merecia; já os jogadores, sendo a equipa mais fraca dos últimos anos, eram claramente superiores à concorrência e não serem campeões seria, sem dúvida, muito mau. Mas teve quase para acontecer. Depois dos pontos perdidos em casa na jornada anterior com o Leixões, com Diogo Rosado, na altura, a saltar do banco para empatar a partida, o Sporting precisava, pelo menos, de um empate frente ao Porto. Durante muito tempo, e num jogo aborrecido porque José Lima mandou a sua equipa defender atrás e com marcações homem a homem no meio-campo, manteve-se o empate que se desenhou nos primeiros 10 minutos. Mas, a meio da segunda parte, o Porto passou para a frente e o Sporting passou a estar em desvantagem. No deserto de ideias que foi a equipa em termos ofensivos, registo apenas para um passe soberbo de Diogo Rosado a isolar Marco Matias. E o jogo encaminhava-se para o fim, com o Porto já a fazer a festa. Nas bancadas, havia quem maldissesse, por exemplo, Diogo Rosado. Que era um pintas, que tinha a mania que era estrela, que era só vaidade. E depois aplaudia-se de pé a exibição miserável de Wilson Eduardo, quando este foi substituído. O futebol tem destas coisas e os adeptos leoninos parece que têm apetência por avançados burros. Outra coisa para a qual parece terem apetência é para se equivocarem. Diogo Rosado, o tal que é pintas, pegou na bola junto à linha, driblou para dentro, deixando para trás o opositor directo, tirou ainda outro adversário do caminho e, do meio da rua, com um potentíssimo e colocadíssimo remate, deu o campeonato aos de Alvalade. Já ninguém esperava, até porque o Sporting pouco tinha feito para ganhar o jogo, e talvez por causa disso, a euforia foi impressionante. Nessa altura, todos esqueceram que foi o tal vaidoso que os fez pular. Mais uma vez. Diogo Rosado despiu a camisola e viu o segundo amarelo, sendo expulso. Estávamos nos descontos e pouco poderia o Porto fazer, portanto, Rosado, sentindo que tinha a missão cumprida, abraçou o árbitro como que agradecendo a expulsão e saiu debaixo de uma chuva de aplausos. Pouco tempo depois, acabou a partida, fez-se a festa e engatou-se tudo à porrada. Diogo Rosado, como poucos, manteve-se longe disto tudo e festejou para dentro. Afinal, o título era mais dele do que qualquer um dos outros. Depois, era aquele que se mantinha à parte do grupo, a quem todos vinham, à vez, abraçar, mas festejando de uma forma diferente. Quando os jogadores alinharam para serem chamados, um de cada vez, todos os que ouviam o nome corriam a colocar-se ao lado dos colegas, virados para as bancadas. Diogo Rosado foi o único que foi a passo. Também foi aquele para quem os aplausos foram mais intensos. De repente, o patinho feio era um cisne e todos queriam agradecer-lhe. O que fica, disto, é a postura solitária de Diogo Rosado, a postura com que afinal se fez jus àquilo que se passou neste jogo. O Sporting foi campeão e está de parabéns, mas o campeonato, muito mais do que da equipa, é dele.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Incidências da primeira ronda do Euro 2008

1. A República Checa venceu a Suíça num jogo em que pouco ou nada fez. Quando vejo aquele meio-campo sem ideias, só consigo pensar em Nedved, Poborsky e Rosicky. Que diferença!

2. Na Suíça, Hakan Yakin é suplente. Fabuloso! Foi preciso o segundo melhor jogador suíço lesionar-se para entrar o melhor jogador suíço. Dois habilidosos em campo é muito...

3. Portugal entrou a ganhar e fez a melhor exibição dos últimos 2 anos. Nuno Gomes é fraquinho. Bons são aqueles avançados que tentam resolver as coisas sozinhos...

4. Esperava mais da Croácia, mas ainda assim deu para perceber as qualidades de Modric. Fortíssimo com a bola nos pés. Vai dar que falar...

5. A táctica alemã é completamente pré-histórica. O que vale é que a da Polónia e a da Áustria também o são.

6. Segundo os comentadores da TVI, Guerreiro, o sul-americano naturalizado polaco, veio dar cor à selecção polaca. Um comentário infeliz, por certo...

7. A França entrou a empatar. Nem Benzema, nem Ribery, nem Malouda fazem esquecer Zidane.

8. A Holanda derrotou a Itália por expressivos 3-0, mas, não fosse o golo irregular de Van Nistelrooy a abrir o activo e as coisas teriam sido muito diferentes. A partir daí, a Holanda passeou-se em campo e acabou por conseguir mais dois golos estando a Itália balanceada no ataque. Estou em crer que este resultado, porém, não é sinónimo nem de uma Holanda a todo o gás (ainda que aquelas individualidades sejam das melhores deste campeonato), nem de uma Itália aquém das expectativas.

9. Há alguma lei que obrigue as equipas a jogar em 442 clássico? Uma táctica obsoleta há 15 anos, mas que é, provavelmente, a mais utilizada neste europeu. Desta feita, é a Espanha. Aragonés é horrível. O homem mal consegue abrir os olhos, quanto mais ter sinapses. Não bastava não ter levado artistas como Raúl, Joaquín, ou Guti, como ainda deixou de fora do onze titular Fabregas e teve de arrumar Iniesta à direita. Isto tudo para poder jogar em 442 clássico. Brilhante! As consequências disto foram as previsíveis: uma Espanha muito má com bola, a acabar por decidir o jogo através dos erros infantis dos russos e da capacidade individual dos homens da frente, principalmente Fernando Torres e David Villa. Para mim, que era a selecção que reunia melhor conjunto de individualidades, esta Espanha foi uma decepção. Vale pelas individualidades, que são do melhor que há neste campeonato, mas como equipa foi uma nulidade. Aquela segunda parte, com os russos a baixarem os braços, não pode ilustrar nada. A primeira parte foi inteiramente dos russos e só a má transição defensiva da equipa de Hiddink e um ou outro erro individual permitiu à Espanha marcar. As transições da equipa são do mais primitivo que há, tendo sentido muitas dificuldades sempre que os russos se arrumavam posicionalmente: não há passes verticais, não há jogo entre linhas, nada. Só as transições rápidas, a explorar a velocidade do duo da frente. Isso é muito pouco.

10. Mais pérolas de Luis Sobral? Claro que sim. No Espanha-Rússia, no golo russo, fez questão de dizer duas coisas: primeiro, que o russo que marca o golo não tinha tido nenhuma marcação; segundo, que Capdevilla era o espanhol mais perto do russo, mas que este deveria estar marcado por um dos centrais. Vou tentar explicar ao senhor Luis Sobral uma coisa. Um dia, Deus nosso Senhor lembrou-se de fazer o mundo. Mais tarde, pôs lá o Adão e a Eva, que tiveram muitos filhinhos. Entretanto, a humanidade desenvolveu-se e criou um jogo chamado futebol. Até aqui, penso, o senhor Luis Sobral deve estar familiarizado com a História. Acontece que uma das incidências desse jogo são os pontapés de canto e estes podem ser defendidos, pelo menos, de duas formas: ou marcando-se, homem a homem, cada um dos avançados adversários, ou marcando-se à zona, ficando, como é óbvio, cada um dos adversários sem marcação. Será que a Espanha defende os cantos à zona e que foi por isso que o senhor Luis Sobral viu o avançado russo sem marcação? Ai, ai, as ideias, as ideias...

11. Mas continua. Luís Sobral também disse que, no meio-campo da Espanha, não havia posições fixas. Eu vi, claramente, uma linha de quatro homens bem definida, com Iniesta à direita, Silva à esquerda e Xavi e Senna no meio. Até sou capaz de dizer qual dos dois médios-centro jogou mais descaído para a direita e qual jogou mais para a esquerda. Além de outros problemas, será que o senhor Luís Sobral também tem um problema de oftalmologia?

12. Esperem! Ainda há mais! Quem é Arshvin? Segundo Luís Sobral, é o melhor jogador russo! A sério? Ia jurar que era o Arshavin. Mas se calhar estou equivocado...

13. A Rússia tem bons princípios de jogo, não fosse orientado por Hiddink, mas individualmente pareceu-me das equipas mais frágeis do Euro. Sem Arshavin, por castigo, e sem Izmailov, por causa de conflitos com o presidente da federação russa, fica tudo muito mais difícil. Mas ajudava se Denisov e Kerzhakov tivessem sido convocados e se os irmãos Berezutski estivessem a jogar.

14. A Grécia levou na pá. Já era tempo! Grande Ibrahimovic!

15. Depois da primeira ronda - custa-me dizê-lo - mas a equipa mais equilibrada e mais bem organizada, daquelas que têm argumentos individuais para poder discutir este europeu, é Portugal. Isto evidencia o quão pobre, em termos tácticos, está a ser este campeonato.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Primeiro clássico...

Excelente jogo.

Entrou melhor a Holanda, beneficiando da acção dos seus criativos, Rafael Van der Vaart, e Sneijder. A qualidade técnica e inteligência destes dois jogadores, associada à maravilhosa exibição de Van Nistelrooy (deu uma verdadeira lição de futebol, que talvez Luca Toni devesse estudar), disfarçava as limitações que o duplo-pivot defensivo impunha na dinâmica colectiva laranja. De Jong e Engellar quase que jogavam de mãos dadas, o que só não teve consequências negativas para o conjunto holandês porque os médios interiores transalpinos não davam a devida largura à equipa italiana. Gattuso e Ambrosini não conferiam os apoios (nem a dinâmica) necessários para que a equipa conseguisse criar situações de perigo junto da área holandesa.
Por outro lado, a péssima exibição de Luca Toni não permitia que a equipa o pudesse utilizar como alternativa à falta de soluções oferecidas pelo meio-campo.

Um erro gravíssimo da equipa de arbitragem permitiu à Holanda chegar à vantagem no marcador; antes já Van Nistelrooy tinha beneficiado de uma excelente oportunidade para abrir o activo. A defesa italiana, completamente à deriva (desta vez nem mesmo Buffon se safou) comprometia, de forma quase irreversível, uma equipa que, apesar de bem organizada, via essa boa estrutura esbarrar na pouca qualidade de muitos dos seus jogadores. Aquilani, De Rossi, Del Piero e Cassano, para além de Grosso, são jogadores que acrescentam qualidade que não está ao alcance de Ambrosini, Gattuso, Camaronesi e Materazzi.

Antes do intervalo, num excelente contra-ataque, a Holanda conseguiu chegar ao 2-0, um resultado que talvez fosse exagerado para o que a Holanda havia produzido, em termos qualitativos, mas que fazia justiça aos erros cometidos pelo conjunto italiano.

No reatamento, apesar de uma (tímida) tentativa do conjunto treinado por Donadoni em alterar o rumo do jogo, só quando Del Piero entrou no jogo é que realmente surgiram alguns embaraços para a equipa do país das tulipas. Dois remates com relativo perigo serviram de mote para um período em que, já com Cassano em campo, a equipa italiana conseguiu criar situações de grande perigo junto da baliza de Van der Sar. Toni continuou a sua noite de pesadelo, esbanjando de forma imperdoável a melhor oportunidade do jogo para a squadra azzurra. Poucos minutos mais tarde, e já na sequência de um contra-ataque (mais um), precedido de uma excelente defesa de Van der Sar a remate de Pirlo, Van Bronckhorst estabeleceu o resultado final.

Resumindo, um bom jogo de futebol, o melhor até esta data, mas que demonstrou uma Itália muito aquém do que se esperava, especialmente no que toca à coesão defensiva – a defesa deu sempre demasiado espaço, afastando-se em demasia da linha do meio-campo – proporcionando, desta forma, a possibilidade um resultado muito moralizante para uma Holanda que nas transições viveu demasiado do cunho individual dos seus jogadores.

No plano individual, destacar Sneijder e Van der Vaart, assim como Van Nistelrooy, do lado da Holanda. Já a Itália foi outra com Grosso, Del Piero e Cassano.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sondagem (6)

A poucos dias de começar o Euro 2008, a sondagem feita pelos órgãos oficiais da prova, isto é, nós, indica que os adeptos portugueses estão confiantes. À pergunta "Quem vai ganhar o Euro 2008" responderam 35 votantes, 10 dos quais apostando em Portugal. O optimismo lusitano, também conhecido como fé, conta assim festejar a vitória na prova e nem o mau presságio que foi não só a fase de qualificação como tudo o que se passou sobretudo desde o mundial da Alemanha é motivo para desconfiar das capacidades deste conjunto de jogadores. Tirando estes 10 votos, maioritariamente patriotas - creio -, sobram 25 votantes. Estes 25 votos, penso, foram votos mais racionais e constituem apostas tendo em conta mais as capacidades das equipas do que propriamente desejos pessoais. Assim, Itália (com 7 votos) e Alemanha (com 6) são as principais candidatas, segundo os votantes. Depois, vem a Espanha, com 4 votos, o que não deixa de constituir, para mim, alguma surpresa. Não que ache que a Espanha não tem condições para vencer a prova, porque até acho e é mesmo a minha favorita, mas porque geralmente a selecção vizinha não é tida em muito boa conta nas fases finais. Destaque ainda para a França e para a Holanda, ambas com 2 votos, assim como para a Rússia, igualmente com 2 votos. A votação na Rússia terá, penso, sobretudo a ver com a excelente campanha europeia do Zenit e com a competência, universalmente reconhecida, do treinador Guus Hiddink. Áustria e República Checa receberam 1 voto cada e fecham o lote de equipas votadas. De todas as não votadas, de salientar a campeã em título, a Grécia. Pelo que vi no jogo contra Portugal, os gregos são, nos dias que correm, uma equipa muito mais competente do que há 4 anos, quando ganharam a prova. Se na altura foram surpreendendo tudo e todos, acabando por vencer a prova com doses industriais de sorte, agora deveriam ser uma formação a ter em conta. Não sei o que farão durante este europeu, até porque estão num grupo algo complicado, juntamente com aquela que é, para mim, a grande favorita, a Espanha, e com Suécia, sempre difícil, e Rússia. Mas que têm mais condições para vencer a prova do que tinham há 4 anos, lá isso têm...

domingo, 1 de junho de 2008

Por que é que as coisas são como são? (2)

Voltei, há umas semanas, a ouvir o meu amigo imaginário e achei importante referir a conversa que então se desenrolou. Enquanto dava o Liverpool, Gláucon comentou:

Gláucon: Ó Sócrates, este Kuyt é mesmo bom jogador.

Sócrates: É interessante. A escola holandesa é fértil em grandes avançados.

Gláucon: É verdade! Assim como a italiana. Por que será que assim é?

Sócrates: Esse problema tem explicação nas características de ambos os campeonatos. Embora por razões diferentes, está no carácter do futebol destes dois países a explicação para tamanha fecundidade em avançados.

Gláucon: Não sei se te entendo. Pretendes que é por causa do estilo de futebol que se pratica num determinado país que os jogadores que crescem nesse país são diferentes, de uma forma geral, dos jogadores que crescem noutro país?

Sócrates: Sim, é isso mesmo.

Gláucon: Não sei se concordo. Não terá antes a ver com questões culturais, históricas, económicas, político-sociais?

Sócrates: Evidentemente.

Gláucon: Então como concilias as duas coisas?

Sócrates: As duas coisas não se excluem. Os jogadores serão o resultado de um processo cultural, mas também o resultado de uma necessidade inerente ao próprio futebol em que estão incluídos.

Gláucon: No Brasil isso é assim?

Sócrates: No Brasil todos jogam à bola na rua. Os jogadores têm a sua aprendizagem nas ruas, por imitação dos mais velhos, e têm liberdades que outra aprendizagem não permitiria. Na rua, cada um quer ser o melhor; cada um pega na bola e tenta fazer coisas inigualáveis. Não interessa que a equipa seja a melhor. Quando chegam aos escalões mais velhos, estes jogadores têm por bagagem uma capacidade individual notável, mas pouca ou nenhuma cultura táctica. Além disso, psicologicamente, têm tendência a privilegiar as acções individuais às do colectivo. É por isso que o Brasil, apesar das grandes quantidades de jogadores, produz poucos guarda-redes ou defesas. Na rua, esses são apenas os "outros", aqueles que os virtuosos tendem a ultrapassar. Num futebol sem espírito colectivo, sem noção de colectivo, como é o futebol de rua, há tendência a formar jogadores de grande qualidade técnica, que conduzem bastante bem a bola, que fintam. Uma boa observação do futebol brasileiro permite perceber certas tendências...

Gláucon: E que tendências são essas?

Sócrates: Além de poucos defesas, de poucos guarda-redes de qualidade, o Brasil também não é fecundo em médios-defensivos. Os jogadores que se destacam pelos aspectos defensivos raramente se tornam jogadores de topo. Já em médios ofensivos, avançados (sobretudo avançados ágeis), abundam as opções.

Gláucon: Mas então como explicas que o Brasil, com tantos talentos individuais, não produza extremos de craveira mundial, ó Sócrates?

Sócrates: Bem observado. A aprendizagem do jogador brasileiro, como referi, faz-se através do individualismo. Isso implica, além de querer fazer coisas extraordinárias com a bola, uma tentativa de participar constantemente no jogo. O jogador brasileiro, porque individualista, não percebe, durante toda a aprendizagem, que a construção ofensiva é feita em várias fases e que a cada jogador está destinada uma parcela dessa construção. Como tal, procura ser ele a fazer tudo, deslocando-se no terreno em função da posição da bola. Porque procuram sempre ter a bola, as suas movimentações são de aproximação a ela e não de afastamento. Assim, o jogador brasileiro gosta muito mais de ocupar espaços centrais, por onde a bola passa mais vezes, do que de se desmarcar pela linha, à espera de um passe longo de um colega. A actividade de extremo, meramente passiva em grande parte da construção ofensiva, não se coaduna com as raízes individualistas e egocêntricas do jogador brasileiro. Daí haver poucos jogadores de linha e muitos para o meio do terreno.

Gláucon: Mas o Brasil produz os melhores laterais do planeta. Como explicas isto, ó Sócrates?

Sócrates: Assim é. A abundância de jogadores habilidosos faz com que nem todos sejam médios de ataque. Os mais velozes e potentes terão de ocupar outras posições, preferencialmente nas alas porque mantêm características técnicas que lhes permitem subir com facilidade e integrar-se no ataque. O lateral brasileiro, porque a sua aprendizagem o cunhou com a vontade de participar no jogo atacante, é muito ofensivo e, por conseguinte, descuidado a nível defensivo.

Gláucon: E como explicas que raramente se encontre um jogador brasileiro cerebral, que paute o jogo da equipa, que não entre em dribles excessivos, que ocupe bem os espaços e que faça fluir o futebol ofensivo?

Sócrates: Pelas mesmas razões que não há extremos. O jogador brasileiro cresceu a fintar os outros; foi ensinado a tentar resolver as coisas sozinho. Um jogador com as características que referes é um jogador que privilegia o colectivo, que põe as suas características ao serviço da equipa e que faculta a outros mais dotados a possibilidade de desequilibrarem.

Gláucon: Não sei se estou convencido. De qualquer maneira, o futebol brasileiro de que falas é então um futebol que se explica por questões culturais. Em que medida é que um certo tipo de futebol, que se molda por necessidades inerentes ao seu estilo próprio, modela os jogadores consoante essas necessidades?

Sócrates: No Brasil, isso não parece acontecer, de facto. Aliás, na Argentina passa-se algo semelhante. Nos países em que a formação a nível dos clubes é negligenciada, os jogadores formam-se sozinhos. Sobressai, portanto, nestes países, a individualidade. Acontece, então, que ao nível sénior o futebol não assenta em bases estritamente colectivas. O futebol nestes países nunca deixa de ser um futebol de rua. É um jogo entre duas equipas apenas na medida em que onze jogadores têm missões opostas a outros onze. Mas raramente se joga em equipa. As equipas brasileiras são equipas apenas na medida em que cada um dos seus jogadores tem por objectivo colaborar para o sucesso do conjunto. Mas o futebol brasileiro é desconexo: cada um tem a liberdade de fazer o que bem lhe apetecer. Há espírito de entreajuda na medida em que querem todos o mesmo, mas sobressai uma vontade individual que não se pode conciliar com os objectivos da equipa. Nos países que formam jogadores deste tipo, os campeonatos são muito pouco racionais e ganha, geralmente, a equipa que tiver as melhores unidades. Neste tipo de campeonato, que assenta num futebol individualista (e por individualista entendo não o ser egoísta, mas sim não possuir um espírito colectivo relevante) o nível táctico tem pouca importância. Um futebol tacticamente pobre nunca pode moldar jogadores no sentido que refiro.

Gláucon: Aceitas então que o jogador brasileiro é consequência apenas de um processo cultural?

Sócrates: Sim e não. Digo que sim porque é esse mesmo processo cultural que impede que o futebol brasileiro se desenvolva ao ponto de necessitar de jogadores com características específicas. Mas também digo que não porque, como é pobre a nível táctico, impera a individualidade e os jogadores mais adequados são aqueles que tenham maior desenvoltura individual. Porque o futebol brasileiro aprecia sempre os que se desembaraçam melhor sozinhos, produz jogadores individualmente muito fortes. O futebol brasileiro, pela cultura em que se insere, necessita e molda jogadores que melhor se adequem à realidade brasileira, ou seja, jogadores individualistas, capazes de resolver jogos sozinhos, que conduzem bem a bola, mas tacticamente desinstruídos e sem um verdadeiro espírito colectivo. É assim o estilo de futebol do Brasil (fundado pelas condições culturais do país, como é óbvio) que faz com que os jogadores brasileiros tenham certas características.

Gláucon: Isso não me parece muito fácil de perceber. Mas ainda não explicaste, ó Sócrates, por que é que a Holanda produz tantos avançados.

Sócrates: Tens razão. Mas não preciso de muito tempo para o fazer.

Gláucon: Tenho para mim que o futebol holandês produz muitos avançados de qualidade porque, tacticamente, é um futebol de orientação ofensiva. Num futebol assim, destacam-se sempre os avançados. É assim, ó Sócrates?

Sócrates: Não inteiramente. Nesse caso, o futebol inglês, que também é um futebol ofensivo, também produziria atacantes de grande nível com a mesma frequência. E assim não é, pelo menos nos últimos tempos.

Gláucon: Creio que tens razão. Então como explicas isso? E, já agora, como explicas que, tanto o futebol holandês, virado para o ataque, como o futebol italiano, virado para a defesa, produzam grandes atacantes? Não é contraditório?

Sócrates: Não. Não é o facto de ser um futebol ofensivo ou defensivo que vai talhar os jogadores, mas aquilo que cada estilo de futebol exige deles. O futebol holandês, desde há várias décadas, privilegia não só um futebol iminentemente ofensivo, como a materialização dessa filosofia de ataque através de um jogo colectivo. Ao contrário de outros países em que se joga igualmente ao ataque, como nos países sul-americanos, por exemplo, ou em Inglaterra, na Holanda o ataque assenta não nos jogadores, não nas individualidades, mas no conjunto.

Gláucon: E que significa isso?

Sócrates: Significa isso que, na Holanda, os avançados tendem a trabalhar as situações ofensivas com uma ideia de colectivo sempre presente. Dessa forma, evoluem segundo rotinas de futebol apoiado, privilegiando situações como as tabelas, as triangulações, o passe curto. Porque o futebol holandês coloca bastantes homens no processo ofensivo, os avançados holandeses têm tendência a trabalhar aspectos como a rapidez de raciocínio. Porque num futebol ofensivo implica haver menos espaços para jogar nas zonas ofensivas, os avançados holandeses tendem a aprender, desde cedo, outras formas de contornar os colectivos adversários. Não havendo muito espaço, porque as transições não são rápidas, os avançados holandeses evoluem sem privilegiar as acções individuais, quase sempre infrutíferas. São, assim, verdadeiramente, jogadores de colectivo, que trabalham desde pequenos para encontrar soluções ofensivas enquanto inseridos num colectivo.

Gláucon: E é esse trabalho específico que os modela?

Sócrates: Com efeito. É por causa de trabalharem, desde muito novos, esses aspectos, que adquirem essas características.

Gláucon: E no futebol italiano? Como explicas então, ó Sócrates, que o futebol italiano também produza grandes avançados? Não é contraditório, uma vez que a orientação do seu futebol é muito mais defensiva do que na Holanda?

Sócrates: Como disse, caro Gláucon, não é por um futebol ter uma orientação ofensiva ou defensiva que terá mais ou menos avançados de qualidade. O futebol inglês tem uma orientação ofensiva e ainda assim não produz avançados de grande nomeada. Isso deve-se ao facto de o futebol inglês, embora assente num estilo directo, ser muito pouco equilibrado. Nas transições defesa-ataque, a equipa que ataca encontra sempre muitos espaços entre as linhas adversárias, que está invariavelmente descompensada. Por causa dessa deficiência táctica, os jogadores têm mais espaço para jogar, não necessitando de aperfeiçoar certos aspectos técnicos como o drible curto ou o raciocínio rápido. Porque o futebol em Inglaterra é jogado a muita velocidade e há sempre muito espaço para jogar, o avançado inglês não encontra, ao longo do seu processo de formação, necessidade de se modificar. O estilo inglês implica apenas que trabalhe a velocidade, o poder de choque e a agressividade, o que é evidentemente insuficiente perante estilos de futebol mais fechados. Como os processos ofensivos em Inglaterra são muito simples, os seus avançados não trabalham senão o mais simples possível, ficando aquém de avançados de outros países por isso mesmo.

Gláucon: Percebo. Mas ainda não explicaste por que razão, então, em Itália também se produzem grandes avançados. E, de acordo com o que pretendes do futebol inglês, não é também contraditório que em Itália, onde o estilo também é muito directo, como em Inglaterra, haja avançados de grande qualidade?

Sócrates: Compreendo a tua relutância, Gláucon. Mas creio que continuas sem me perceber. Não é nem o pendor ofensivo/defensivo de um futebol nem o modo como se definem as transições defesa-ataque que definem o estilo de um futebol e o tipo de jogador que se forma nesse futebol. Em Itália, de facto, as transições são relativamente semelhantes às de Inglaterra, muito directas, simples, procurando chegar à frente de forma rápida. As diferenças, contudo, são relevantes.

Gláucon: E que diferenças são essas?

Sócrates: Em Itália, embora a primeira transição seja, normalmente, a procura dos jogadores mais adiantados, não se coloca tanta gente no processo ofensivo. Daqui resulta que as equipas se desequilibram menos e que os ataques estejam, quase sempre, em inferioridade numérica perante as defesas.

Gláucon: É por causa disso que o futebol italiano é tão fechado?

Sócrates: Com certeza. Há a preocupação, em Itália, de as equipas nunca se exporem desnecessariamente. Isto implica que o futebol transalpino se divida em dois momentos claros: o defensivo e ofensivo. As equipas defendem para depois lançarem os seus avançados; há jogadores para defender (mais) e jogadores para atacar (menos). Isto faz com que, passando para o momento ofensivo, os atacantes necessitem de se desembaraçar sem uma rede de apoios. Por causa desta necessidade de resolverem as coisas sozinhos, sem o apoio colectivo, os avançados italianos desenvolvem características individuais relevantes, como seja a capacidade de segurar e proteger a bola, nalguns, ou o drible curto, noutros, ou a capacidade de desmarcação, noutros ainda. O avançado italiano, porque em inferioridade numérica perante defesas que nunca se desmontam, evolui por necessitar de arranjar soluções individuais com que resolver os seus problemas.

Gláucon: De facto, Sócrates, a tua explicação faz sentido. Segundo o teu argumento, tanto na Holanda como em Itália, produzem-se grandes avançados, mas por razões diferentes.

Sócrates: Exactamente. Por razões diferentes, mas inerentes a cada um dos estilos de futebol.

Gláucon: E em que pé ficam as razões sócio-culturais?

Sócrates: As razões sócio-culturais podem interferir na evolução de um jogador e presidir ao estilo de futebol de um país. Desse modo, podem relacionar-se indirectamente com o tipo de jogadores que se formam nesse país. Mas as características desses jogadores serão sempre resultado de uma necessidade de adaptação ao estilo de futebol que se pratica nesse país. Nesse sentido, é unicamente o estilo de futebol praticado, influenciado, é certo, por razões sócio-culturais, que vai exigir a evolução dos jogadores.

Gláucon: De certa forma, então, tens para ti que os jogadores evoluem apenas por necessidade de adaptação?

Sócrates: Sim, sem dúvida.

Gláucon: É esse um ponto de vista darwiniano?

Sócrates: Creio que sim, embora de forma um pouco vaga. É o ambiente (estilo de futebol) que rodeia as espécies (jogadores) que vai determinar quais das espécies são mais aptas à sobrevivência. Aqueles que melhor se adaptarem às exigências do ambiente são os que sobrevivem. Esses vão evoluir no sentido de se adaptarem cada vez melhor às exigências, enquanto que os outros vão cair no esquecimento. Esta adaptação às exigências é o que os torna melhores, no fundo. Uma vez determinada esta qualidade, as gerações seguintes vão evoluir no mesmo sentido. Evidentemente, características como a qualidade futebolística não passam geneticamente de geração para geração, pelo que não se pode falar de selecção natural como Darwin. Mas o facto de a sobrevivência ser limitada apenas àqueles que souberem adaptar-se às exigências é, por si só, uma forma de selecção. Não sendo uma selecção natural, porque não é definida por características inatas, é ainda assim uma selecção com base na sobrevivência dos mais aptos. Nesse sentido, creio, os jogadores evoluem de um ponto de vista darwiniano, sendo que os ambientes mais agressivos, mais competitivos, são os que produzem melhores espécimes.

Gláucon: Para resumir o teu argumento, ó Sócrates, Itália e Holanda são então, por razões diferentes , é certo, os habitats mais exigentes para os avançados?

Sócrates: Sim, exactamente. E é essa exigência que vai fazer com que esses avançados sejam, por norma, os de melhor qualidade.

Gláucon: Gosto dessa explicação, ilustre Sócrates. Estou uma vez mais rendido...