domingo, 1 de junho de 2008

Por que é que as coisas são como são? (2)

Voltei, há umas semanas, a ouvir o meu amigo imaginário e achei importante referir a conversa que então se desenrolou. Enquanto dava o Liverpool, Gláucon comentou:

Gláucon: Ó Sócrates, este Kuyt é mesmo bom jogador.

Sócrates: É interessante. A escola holandesa é fértil em grandes avançados.

Gláucon: É verdade! Assim como a italiana. Por que será que assim é?

Sócrates: Esse problema tem explicação nas características de ambos os campeonatos. Embora por razões diferentes, está no carácter do futebol destes dois países a explicação para tamanha fecundidade em avançados.

Gláucon: Não sei se te entendo. Pretendes que é por causa do estilo de futebol que se pratica num determinado país que os jogadores que crescem nesse país são diferentes, de uma forma geral, dos jogadores que crescem noutro país?

Sócrates: Sim, é isso mesmo.

Gláucon: Não sei se concordo. Não terá antes a ver com questões culturais, históricas, económicas, político-sociais?

Sócrates: Evidentemente.

Gláucon: Então como concilias as duas coisas?

Sócrates: As duas coisas não se excluem. Os jogadores serão o resultado de um processo cultural, mas também o resultado de uma necessidade inerente ao próprio futebol em que estão incluídos.

Gláucon: No Brasil isso é assim?

Sócrates: No Brasil todos jogam à bola na rua. Os jogadores têm a sua aprendizagem nas ruas, por imitação dos mais velhos, e têm liberdades que outra aprendizagem não permitiria. Na rua, cada um quer ser o melhor; cada um pega na bola e tenta fazer coisas inigualáveis. Não interessa que a equipa seja a melhor. Quando chegam aos escalões mais velhos, estes jogadores têm por bagagem uma capacidade individual notável, mas pouca ou nenhuma cultura táctica. Além disso, psicologicamente, têm tendência a privilegiar as acções individuais às do colectivo. É por isso que o Brasil, apesar das grandes quantidades de jogadores, produz poucos guarda-redes ou defesas. Na rua, esses são apenas os "outros", aqueles que os virtuosos tendem a ultrapassar. Num futebol sem espírito colectivo, sem noção de colectivo, como é o futebol de rua, há tendência a formar jogadores de grande qualidade técnica, que conduzem bastante bem a bola, que fintam. Uma boa observação do futebol brasileiro permite perceber certas tendências...

Gláucon: E que tendências são essas?

Sócrates: Além de poucos defesas, de poucos guarda-redes de qualidade, o Brasil também não é fecundo em médios-defensivos. Os jogadores que se destacam pelos aspectos defensivos raramente se tornam jogadores de topo. Já em médios ofensivos, avançados (sobretudo avançados ágeis), abundam as opções.

Gláucon: Mas então como explicas que o Brasil, com tantos talentos individuais, não produza extremos de craveira mundial, ó Sócrates?

Sócrates: Bem observado. A aprendizagem do jogador brasileiro, como referi, faz-se através do individualismo. Isso implica, além de querer fazer coisas extraordinárias com a bola, uma tentativa de participar constantemente no jogo. O jogador brasileiro, porque individualista, não percebe, durante toda a aprendizagem, que a construção ofensiva é feita em várias fases e que a cada jogador está destinada uma parcela dessa construção. Como tal, procura ser ele a fazer tudo, deslocando-se no terreno em função da posição da bola. Porque procuram sempre ter a bola, as suas movimentações são de aproximação a ela e não de afastamento. Assim, o jogador brasileiro gosta muito mais de ocupar espaços centrais, por onde a bola passa mais vezes, do que de se desmarcar pela linha, à espera de um passe longo de um colega. A actividade de extremo, meramente passiva em grande parte da construção ofensiva, não se coaduna com as raízes individualistas e egocêntricas do jogador brasileiro. Daí haver poucos jogadores de linha e muitos para o meio do terreno.

Gláucon: Mas o Brasil produz os melhores laterais do planeta. Como explicas isto, ó Sócrates?

Sócrates: Assim é. A abundância de jogadores habilidosos faz com que nem todos sejam médios de ataque. Os mais velozes e potentes terão de ocupar outras posições, preferencialmente nas alas porque mantêm características técnicas que lhes permitem subir com facilidade e integrar-se no ataque. O lateral brasileiro, porque a sua aprendizagem o cunhou com a vontade de participar no jogo atacante, é muito ofensivo e, por conseguinte, descuidado a nível defensivo.

Gláucon: E como explicas que raramente se encontre um jogador brasileiro cerebral, que paute o jogo da equipa, que não entre em dribles excessivos, que ocupe bem os espaços e que faça fluir o futebol ofensivo?

Sócrates: Pelas mesmas razões que não há extremos. O jogador brasileiro cresceu a fintar os outros; foi ensinado a tentar resolver as coisas sozinho. Um jogador com as características que referes é um jogador que privilegia o colectivo, que põe as suas características ao serviço da equipa e que faculta a outros mais dotados a possibilidade de desequilibrarem.

Gláucon: Não sei se estou convencido. De qualquer maneira, o futebol brasileiro de que falas é então um futebol que se explica por questões culturais. Em que medida é que um certo tipo de futebol, que se molda por necessidades inerentes ao seu estilo próprio, modela os jogadores consoante essas necessidades?

Sócrates: No Brasil, isso não parece acontecer, de facto. Aliás, na Argentina passa-se algo semelhante. Nos países em que a formação a nível dos clubes é negligenciada, os jogadores formam-se sozinhos. Sobressai, portanto, nestes países, a individualidade. Acontece, então, que ao nível sénior o futebol não assenta em bases estritamente colectivas. O futebol nestes países nunca deixa de ser um futebol de rua. É um jogo entre duas equipas apenas na medida em que onze jogadores têm missões opostas a outros onze. Mas raramente se joga em equipa. As equipas brasileiras são equipas apenas na medida em que cada um dos seus jogadores tem por objectivo colaborar para o sucesso do conjunto. Mas o futebol brasileiro é desconexo: cada um tem a liberdade de fazer o que bem lhe apetecer. Há espírito de entreajuda na medida em que querem todos o mesmo, mas sobressai uma vontade individual que não se pode conciliar com os objectivos da equipa. Nos países que formam jogadores deste tipo, os campeonatos são muito pouco racionais e ganha, geralmente, a equipa que tiver as melhores unidades. Neste tipo de campeonato, que assenta num futebol individualista (e por individualista entendo não o ser egoísta, mas sim não possuir um espírito colectivo relevante) o nível táctico tem pouca importância. Um futebol tacticamente pobre nunca pode moldar jogadores no sentido que refiro.

Gláucon: Aceitas então que o jogador brasileiro é consequência apenas de um processo cultural?

Sócrates: Sim e não. Digo que sim porque é esse mesmo processo cultural que impede que o futebol brasileiro se desenvolva ao ponto de necessitar de jogadores com características específicas. Mas também digo que não porque, como é pobre a nível táctico, impera a individualidade e os jogadores mais adequados são aqueles que tenham maior desenvoltura individual. Porque o futebol brasileiro aprecia sempre os que se desembaraçam melhor sozinhos, produz jogadores individualmente muito fortes. O futebol brasileiro, pela cultura em que se insere, necessita e molda jogadores que melhor se adequem à realidade brasileira, ou seja, jogadores individualistas, capazes de resolver jogos sozinhos, que conduzem bem a bola, mas tacticamente desinstruídos e sem um verdadeiro espírito colectivo. É assim o estilo de futebol do Brasil (fundado pelas condições culturais do país, como é óbvio) que faz com que os jogadores brasileiros tenham certas características.

Gláucon: Isso não me parece muito fácil de perceber. Mas ainda não explicaste, ó Sócrates, por que é que a Holanda produz tantos avançados.

Sócrates: Tens razão. Mas não preciso de muito tempo para o fazer.

Gláucon: Tenho para mim que o futebol holandês produz muitos avançados de qualidade porque, tacticamente, é um futebol de orientação ofensiva. Num futebol assim, destacam-se sempre os avançados. É assim, ó Sócrates?

Sócrates: Não inteiramente. Nesse caso, o futebol inglês, que também é um futebol ofensivo, também produziria atacantes de grande nível com a mesma frequência. E assim não é, pelo menos nos últimos tempos.

Gláucon: Creio que tens razão. Então como explicas isso? E, já agora, como explicas que, tanto o futebol holandês, virado para o ataque, como o futebol italiano, virado para a defesa, produzam grandes atacantes? Não é contraditório?

Sócrates: Não. Não é o facto de ser um futebol ofensivo ou defensivo que vai talhar os jogadores, mas aquilo que cada estilo de futebol exige deles. O futebol holandês, desde há várias décadas, privilegia não só um futebol iminentemente ofensivo, como a materialização dessa filosofia de ataque através de um jogo colectivo. Ao contrário de outros países em que se joga igualmente ao ataque, como nos países sul-americanos, por exemplo, ou em Inglaterra, na Holanda o ataque assenta não nos jogadores, não nas individualidades, mas no conjunto.

Gláucon: E que significa isso?

Sócrates: Significa isso que, na Holanda, os avançados tendem a trabalhar as situações ofensivas com uma ideia de colectivo sempre presente. Dessa forma, evoluem segundo rotinas de futebol apoiado, privilegiando situações como as tabelas, as triangulações, o passe curto. Porque o futebol holandês coloca bastantes homens no processo ofensivo, os avançados holandeses têm tendência a trabalhar aspectos como a rapidez de raciocínio. Porque num futebol ofensivo implica haver menos espaços para jogar nas zonas ofensivas, os avançados holandeses tendem a aprender, desde cedo, outras formas de contornar os colectivos adversários. Não havendo muito espaço, porque as transições não são rápidas, os avançados holandeses evoluem sem privilegiar as acções individuais, quase sempre infrutíferas. São, assim, verdadeiramente, jogadores de colectivo, que trabalham desde pequenos para encontrar soluções ofensivas enquanto inseridos num colectivo.

Gláucon: E é esse trabalho específico que os modela?

Sócrates: Com efeito. É por causa de trabalharem, desde muito novos, esses aspectos, que adquirem essas características.

Gláucon: E no futebol italiano? Como explicas então, ó Sócrates, que o futebol italiano também produza grandes avançados? Não é contraditório, uma vez que a orientação do seu futebol é muito mais defensiva do que na Holanda?

Sócrates: Como disse, caro Gláucon, não é por um futebol ter uma orientação ofensiva ou defensiva que terá mais ou menos avançados de qualidade. O futebol inglês tem uma orientação ofensiva e ainda assim não produz avançados de grande nomeada. Isso deve-se ao facto de o futebol inglês, embora assente num estilo directo, ser muito pouco equilibrado. Nas transições defesa-ataque, a equipa que ataca encontra sempre muitos espaços entre as linhas adversárias, que está invariavelmente descompensada. Por causa dessa deficiência táctica, os jogadores têm mais espaço para jogar, não necessitando de aperfeiçoar certos aspectos técnicos como o drible curto ou o raciocínio rápido. Porque o futebol em Inglaterra é jogado a muita velocidade e há sempre muito espaço para jogar, o avançado inglês não encontra, ao longo do seu processo de formação, necessidade de se modificar. O estilo inglês implica apenas que trabalhe a velocidade, o poder de choque e a agressividade, o que é evidentemente insuficiente perante estilos de futebol mais fechados. Como os processos ofensivos em Inglaterra são muito simples, os seus avançados não trabalham senão o mais simples possível, ficando aquém de avançados de outros países por isso mesmo.

Gláucon: Percebo. Mas ainda não explicaste por que razão, então, em Itália também se produzem grandes avançados. E, de acordo com o que pretendes do futebol inglês, não é também contraditório que em Itália, onde o estilo também é muito directo, como em Inglaterra, haja avançados de grande qualidade?

Sócrates: Compreendo a tua relutância, Gláucon. Mas creio que continuas sem me perceber. Não é nem o pendor ofensivo/defensivo de um futebol nem o modo como se definem as transições defesa-ataque que definem o estilo de um futebol e o tipo de jogador que se forma nesse futebol. Em Itália, de facto, as transições são relativamente semelhantes às de Inglaterra, muito directas, simples, procurando chegar à frente de forma rápida. As diferenças, contudo, são relevantes.

Gláucon: E que diferenças são essas?

Sócrates: Em Itália, embora a primeira transição seja, normalmente, a procura dos jogadores mais adiantados, não se coloca tanta gente no processo ofensivo. Daqui resulta que as equipas se desequilibram menos e que os ataques estejam, quase sempre, em inferioridade numérica perante as defesas.

Gláucon: É por causa disso que o futebol italiano é tão fechado?

Sócrates: Com certeza. Há a preocupação, em Itália, de as equipas nunca se exporem desnecessariamente. Isto implica que o futebol transalpino se divida em dois momentos claros: o defensivo e ofensivo. As equipas defendem para depois lançarem os seus avançados; há jogadores para defender (mais) e jogadores para atacar (menos). Isto faz com que, passando para o momento ofensivo, os atacantes necessitem de se desembaraçar sem uma rede de apoios. Por causa desta necessidade de resolverem as coisas sozinhos, sem o apoio colectivo, os avançados italianos desenvolvem características individuais relevantes, como seja a capacidade de segurar e proteger a bola, nalguns, ou o drible curto, noutros, ou a capacidade de desmarcação, noutros ainda. O avançado italiano, porque em inferioridade numérica perante defesas que nunca se desmontam, evolui por necessitar de arranjar soluções individuais com que resolver os seus problemas.

Gláucon: De facto, Sócrates, a tua explicação faz sentido. Segundo o teu argumento, tanto na Holanda como em Itália, produzem-se grandes avançados, mas por razões diferentes.

Sócrates: Exactamente. Por razões diferentes, mas inerentes a cada um dos estilos de futebol.

Gláucon: E em que pé ficam as razões sócio-culturais?

Sócrates: As razões sócio-culturais podem interferir na evolução de um jogador e presidir ao estilo de futebol de um país. Desse modo, podem relacionar-se indirectamente com o tipo de jogadores que se formam nesse país. Mas as características desses jogadores serão sempre resultado de uma necessidade de adaptação ao estilo de futebol que se pratica nesse país. Nesse sentido, é unicamente o estilo de futebol praticado, influenciado, é certo, por razões sócio-culturais, que vai exigir a evolução dos jogadores.

Gláucon: De certa forma, então, tens para ti que os jogadores evoluem apenas por necessidade de adaptação?

Sócrates: Sim, sem dúvida.

Gláucon: É esse um ponto de vista darwiniano?

Sócrates: Creio que sim, embora de forma um pouco vaga. É o ambiente (estilo de futebol) que rodeia as espécies (jogadores) que vai determinar quais das espécies são mais aptas à sobrevivência. Aqueles que melhor se adaptarem às exigências do ambiente são os que sobrevivem. Esses vão evoluir no sentido de se adaptarem cada vez melhor às exigências, enquanto que os outros vão cair no esquecimento. Esta adaptação às exigências é o que os torna melhores, no fundo. Uma vez determinada esta qualidade, as gerações seguintes vão evoluir no mesmo sentido. Evidentemente, características como a qualidade futebolística não passam geneticamente de geração para geração, pelo que não se pode falar de selecção natural como Darwin. Mas o facto de a sobrevivência ser limitada apenas àqueles que souberem adaptar-se às exigências é, por si só, uma forma de selecção. Não sendo uma selecção natural, porque não é definida por características inatas, é ainda assim uma selecção com base na sobrevivência dos mais aptos. Nesse sentido, creio, os jogadores evoluem de um ponto de vista darwiniano, sendo que os ambientes mais agressivos, mais competitivos, são os que produzem melhores espécimes.

Gláucon: Para resumir o teu argumento, ó Sócrates, Itália e Holanda são então, por razões diferentes , é certo, os habitats mais exigentes para os avançados?

Sócrates: Sim, exactamente. E é essa exigência que vai fazer com que esses avançados sejam, por norma, os de melhor qualidade.

Gláucon: Gosto dessa explicação, ilustre Sócrates. Estou uma vez mais rendido...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Pelé: um estudo

O jogo é o Portugal-França, na categoria de sub-21, a contar para o Torneio da Suécia. Em estudo, a exibição de Pelé, um dos novos ídolos, juntamente com o Gato das Botas e a Padeira de Aljubarrota, dos relvados portugueses. De referir, antes de começar, que Pelé esteve, na minha opinião, uns furos acima do que é normal, não abusando tanto do passe comprido, por exemplo. Isto deve-se, em parte, à forma como a equipa francesa defendeu, nunca pressionando em cima e fechando-se lá atrás, obrigando Pelé a passes mais laterais e recuados.

1 minuto: Má opção. (Recebe e dá em Manuel Fernandes, embora tivesse tido tempo para virar o flanco e pudesse, com isso, descongestionar o jogo.)

1 minuto: Boa opção. (Recebe um lançamento e entrega a Manuel da Costa.)

2 minutos: Falta. (Faz falta sem necessidade.)

5 minutos: Má opção. (Tenta driblar, perde, mas recupera graças ao porte atlético.)

6 minutos: Boa opção. (Dá atrás depois de receber.)

6 minutos: Má opção. (Drible arriscado no meio-campo que, por acaso, sai bem, havendo porém o perigo de, perdendo a bola, a França criar uma situação de superioridade numérica que era desnecessária.)

7 minutos: Mau passe. (Mau passe para a ala, a permitir a recuperação francesa.)

7 minutos: Recuperação de bola. (Recupera uma bola depois do jogador francês a adiantar em demasia.)

10 minutos: Mau passe. (Passe longo, na direcção de um francês.)

10 minutos: Má opção. (Tentativa de passe longo que acaba nas mãos do guarda-redes adversário)

15 minutos: Recuperação de bola. (Intercepta um passe e dá em Manuel Fernandes.)

15 minutos: Sofre falta. (Sofre falta à saída da grande-área, ao proteger a bola, após um ataque perigoso dos franceses.)

16 minutos: Mau posicionamento. (Demasiado subido no terreno, a permitir espaço entre linhas.)

18 minutos: Boa opção. (Devolve atrás.)

21 minutos: Mau passe. (Tenta pisar a bola, mas falha; o jogador francês escorrega e ele recupera, entregando depois mal a bola, obrigando Antunes a dividir a bola com um adversário.)

22 minutos: Mau posicionamento. (Novamente adiantado, concedendo muito espaço nas suas costas e entre os centrais.)

23 minutos: Boa opção. (Dá em Manuel da Costa.)

23 minutos: Boa opção. (Recebe e dá em Paulo Machado.)

25 minutos: Mau posicionamento. (Estando demasiado avançado, permite espaço entre si e os centrais, que Manuel da Costa tenta preencher, avançando ligeiramente; como Nuno André Coelho não acompanha, um lançamento longo apanha o avançado gaulês nas costas do defesa português, não sendo golo por manifesta falta de calma do francês.)

25 minutos: Boa opção. (Dá em Paulo Machado.)

25 minutos: Mau passe. (Executa um passe com demasiada força e para Bruno Gama, que não teria boas condições para receber a bola.)

26 minutos: Boa opção. (Devolve a Manuel da Costa.)

28 minutos: Mau remate. (Apesar de a opção não ser necessariamente má, o remate é francamente mau.)

30 minutos: Perda de bola. (Depois de a bola ter sobrado para uma zona de ninguém, tenta ganhar uma bola em habilidade, pisando-a, mas fá-lo de forma lenta e um francês rouba-lha.)

31 minutos: Boa opção. (Recebe, roda e dá em Manuel Fernandes.)

34 minutos: Boa opção. (Tabela com Manuel Fernandes, que no entanto estica demasiado o passe e o lance perde-se.)

39 minutos: Boa opção. (À entrada da área, tenta arranjar espaço para o remate; não consegue e dá para o remate de Paulo Machado.)

40 minutos: Boa opção. (Devolve a Nuno André Coelho.)

41 minutos: Ultrapassado. (É ultrapassado no um para um com relativa facilidade.)

42 minutos: Mau posicionamento. (Novamente muito subido, permite que apareça um adversário na sua zona, à entrada da área, a rematar completamente à vontade.)

44 minutos: Boa opção. (Recebe e dá em Manuel Fernandes.)

45 minutos: Má opção. (No meio-campo, com a selecção gaulesa a perder uma bola em transição e podendo jogar de forma mais cautelosa, efectua um passe longo para Edinho; este quase consegue chegar antes do guarda-redes, mas apenas porque a bola se afasta da baliza, obrigando o guarda-redes a percorrer um espaço maior.)

45 minutos: Má opção. (Com a equipa francesa descompensada, recebe uma bola de Antunes, podendo rodar o jogo para a direita, esticando-o, mas prefere fintar, voltar ao meio, perdendo a hipótese de uma transição rápida e permitindo à selecção francesa que se reorganizasse defensivamente.)

48 minutos: Boa opção. (Dá em Paulo Machado.)

51 minutos: Mau passe. (Passe sem nexo para o centro da defesa francesa.)

51 minutos: Ultrapassado. (É ultrapassado em velocidade por um adversário, junto à linha.)

55 minutos: Mau posicionamento. (Com Antunes fora a ser assistido, um dos centrais franceses entra pela esquerda da defesa e, através de um passe recuado, encontra um companheiro que tem tempo para tudo, numa zona que Pelé tinha de, obrigatoriamente, ter ajudado a preencher, coisa que não fez; do lance resulta o primeiro golo da França.)

56 minutos: Boa opção. (Dá para trás.)

58 minutos: Boa opção. (Recebe, tira um adversário e dá em Paulo Machado.)

58 minutos: Bom passe. (Passe vertical para Edinho.)

58 minutos: Ultrapassado. (Vai à queima e é ultrapassado.)

59 minutos: Corte. (Corte para o ar.)

62 minutos: Má opção. (Depois de deixar pregados ao relvado dois adversários, passando no meio deles, decide mal e entrega a bola a um adversário.)

64 minutos: Boa opção. (Entrega a Paulo Machado.)

66 minutos: Boa opção. (Recebe, dá em Manuel da Costa; este devolve a bola e Pelé abre na direita, para João Pereira.)

67 minutos: Corte. (Ganha um lance de cabeça.)

68 minutos: Má opção. (Tenta fazer uso do seu poderio atlético e segurar a bola junto à linha, quando a poderia entregar a um colega, e acaba por perdê-la.)

72 minutos: Boa opção. (Dá para Nuno André Coelho.)

73 minutos: Recuperação de bola. (Recupera uma bola.)

73 minutos: Má opção. (Depois da recuperação de bola, progride no terreno e, de muito longe e sem preparação, tenta alvejar a baliza adversária, quando se impunha que jogasse com um colega.)

75 minutos: Corte. (Corte com a ponta do pé, com a bola a sobrar para Paulo Machado.)

76 minutos: Remate. (Remate contra a barreira, na sequência de um livre indirecto.)

78 minutos: Bom passe. (Passe vertical para Hélder Barbosa.)

78 minutos: Má opção. (Ganha um ressalto; tenta fintar e perde a bola; ganha novamente o ressalto, dribla um adversário mas torna a perder a bola.)

80 minutos: Mau passe. (Mau passe para Tiago Gomes.)

80 minutos: Boa opção. (Recebe no peito e dá para Nuno André Coelho.)

81 minutos: Boa opção. (Entrega a João Moreira.)

81 minutos: Boa opção. (Dá atrás.)

81 minutos: Boa opção. (Dá a Paulo Machado.)

82 minutos: Boa opção. (Abre para João Pereira.)

83 minutos: Boa opção. (Intercepta e dá em Paulo Machado.)

84 minutos: Boa opção. (Entrega a Paulo Machado, recebe novamente e dá a Celestino.)

85 minutos: Bom passe. (Passe a abrir na esquerda, para Tiago Gomes, embora o facto de o lateral esquerdo não ter apoios tenha inviabilizado a jogada.)

85 minutos: Boa opção. (Passa a Hélder Barbosa.)

86 minutos: Mau passe. (Passe vertical para um colega que tinha marcação apertada, resultando numa bola dividida e, depois, perdida.)

86 minutos: Boa opção. (Dá atrás.)

86 minutos: Boa opção. (Recebe, tira um adversário com uma simulação de corpo e entrega bem no meio.)

87 minutos: Boa opção. (Dá para Manuel da Costa.)

87 minutos: Boa opção. (Passe lateralizado para Tiago Gomes.)

92 minutos: Má opção. (Tentativa de passe longo que acaba nas mãos do guarda-redes francês.)


Para melhor se aferirem os resultados, coloquei em negrito as acções negativas de Pelé. Vamos aos resultados:

1) 70 acções durante os 90 minutos; 41 acções positivas durante o jogo; 59% de acções positivas.
2) Em 53 lances com a bola nos pés e com condições para fazer algo (exclui-se portanto os lances de bola parada ou as disputas de cabeça, ou os lances em que procura recuperar a bola, ou os lances em que não tem a bola totalmente dominada), teve 34 boas opções contra 19 más opções; 64% de boas opções.
3) Destas 19 más opções, resultaram 15 perdas de bola, sendo que 9 delas não trouxeram perigo de maior à sua equipa, por terem ido para fora ou parar a zonas recuadas do campo, mas 6 delas provocaram desequilíbrios perigosos, permitindo à selecção francesa iniciar o seu processo ofensivo de imediato e com a selecção das quinas desorganizada defensivamente.
4) Pelé fez 3 cortes, ganhou 1 bola de cabeça e recuperou 3 bolas.
5) Fez 1 falta e sofreu outra.
6) Tentou desembaraçar-se individualmente dos seus adversários por 11 vezes, o que para um médio-defensivo é um exagero. Dessas 11 tentativas, apenas 6 foram bem sucedidas, sendo que, dessas 6, apenas 3 eram a melhor opção na altura.
7) Por sua vez, foi ultrapassado individualmente por 3 vezes.
8) Sendo um tipo que tem marcado golos que todos têm elogiado e que detém um pontapé invejável, fez 3 remates, sendo que 2 deles passaram muito por cima e outro saiu rasteiro e foi embater nos adversários que constituíam a barreira.
9) Passou o jogo todo mal posicionado, mas, em jogadas concretas de ataque francês, causou problemas à sua equipa por 5 vezes, o que, tendo em conta o pouco que os franceses atacaram, sobretudo na primeira parte, é muitíssimo. Desses lances, 1 deu golo da França, outro provocou o avanço de Manuel da Costa e o isolamento do avançado francês, outro permitiu a um francês um remate frontal, à entrada da área, sem oposição, e outros dois permitiram jogadas perigosas.
10) Efectuou 41 passes acertados contra 11 passes errados; 79% passes acertados. Este número revela que 1 em cada 5 passes de Pelé são errados. Não sendo um número muito problemático, tem de se ter em conta o risco dos mesmos. Destes 41 passes acertados, apenas 3 foram de risco elevado, sendo 2 deles passes verticais, pelo chão, que permitiram à equipa jogar entre linhas e 1 deles um passe a rasgar na esquerda. Se tivermos em conta o total dos 52 passes que efectuou, dos quais apenas 10 foram de risco elevado, vemos que apenas 19% dos passes que Pelé fez comportavam um risco elevado. Desses 10 passes de risco elevado, só 3 foram acertados, o que implica que os 79% de passes acertados diminuem drasticamente com o aumento do risco do passe. Assim, Pelé acertou 90% dos passes de risco baixo (38 passes acertados de um total de 42 passes de risco baixo) que efectuou, mas apenas 30% dos passes de risco elevado. Se é verdade que o seu acerto em passes de menor risco deve constituir prova de que conferiu alguma segurança com bola à equipa, não pode deixar de ser relevante que foi mal sucedido 2 em cada 3 vezes que tentava arriscar mais. Ora, tendo em conta o claro insucesso dos seus passes de maior risco, Pelé salvaguardar-se-á sempre que não abusar dos passes de risco elevado. Se é verdade que neste encontro obteve 79% de passes acertados, também é verdade que isso se deveu à percentagem relativamente baixa de passes de risco elevado, 19%. Uma vez que é conhecida a apetência de Pelé pelo risco, é de adivinhar que esta percentagem aumente noutros encontros, contra adversários que actuam de outra forma. Façamos um exercício: com estas contas e com uma percentagem de, por exemplo, 38% de passes de risco, o correspondente ao dobro do jogo de hoje e mais condizente com a apetência dele, Pelé teria, em 52 passes, 20 passes de risco, dos quais acertaria apenas 6; dos restantes 32 passes de risco menos elevado, à percentagem de 90%, Pelé acertaria 29; assim, com uma percentagem de passes de risco elevado nos 38%, Pelé acertaria, em 52 passes, apenas 35 e já não 41; o seu índice de passes acertados desceria de 79% para 67%. Se é evidente que 79% de passes acertados, não sendo uma marca óptima, é uma marca relativamente boa, não deixa de ser menos verdade que, num jogado mais normal de Pelé (como já o demonstrou noutras partidas, gosta de arriscar passes mais longos) esse índice relativamente bom tende a decrescer consideravelmente.

Notas finais: Tendo a equipa portuguesa a bola, Pelé raramente ofereceu linhas de passe aos colegas, andando nestas alturas a passo. Sem bola, quer em missão defensiva, quer ofensiva, foi um desastre, errando em termos posicionais como um principiante. Esta falta de aptidão para oferecer apoios ou para perceber que espaços deve ocupar nas diferentes situações de jogo são, talvez, o seu maior defeito. Sem bola, portanto, fica evidente que Pelé tem graves deficiências. Com bola, durante esta partida, não esteve tão mal como noutras alturas, sobretudo porque optou por não arriscar tanto quanto costuma. Ainda assim, para um jogador na sua posição, abusa de iniciativas individuais desnecessárias e não garante a segurança no passe que se desejaria. Como se não bastasse, não foi (nem é, normalmente), um jogador concentrado, andando a passo em muitas situações em que se exigia uma resposta rápida da sua parte. Esta lentidão de processos agravou-se ainda com a pouca disponibilidade de Pelé para as bolas divididas, coisa que, de acordo com o seu porte atlético, deveria ter facilidade em ganhar. Sabendo-se que Mourinho espera dos seus jogadores, além de inteligência e interesse pelo jogo, concentração máxima, estou em crer que Pelé precisa de modificar muito do seu futebol para entrar nas contas do técnico português.

Ainda sobre este encontro:

1) Um dos comentadores de serviço lembrou-se de comparar Nuno André Coelho a Ricardo Carvalho. O que eu gostava de saber era em que esquina esse indivíduo bateu com a cabeça.

2) A selecção nacional é das mais miseráveis de que me lembro neste escalão. Do onze inicial, aproveita-se um: Carlos Saleiro. O resto são tipos sem potencial, ou com menos potencial do que se diz, ou que pararam de evoluir, embora tivessem um potencial considerável.

3) Manuel da Costa foi repreendido por Rui Caçador e meio país ficou espantado. Foi preciso uma coisa dessas para se perceber que o jogador português é horrível na interpretação dos lances e na forma como abusa em subidas sem nexo, ou em lances individuais, ou em habilidades sem sentido?

4) Hélder Barbosa continua a não ser opção para Caçador. Agora, o melhor extremo português desta idade até já se vê ultrapassado por um ponta-de-lança adaptado... e que ainda por cima não tem idade para jogar nesta selecção. Brilhante!

5) E Fábio Coentrão, não?

6) Os comentadores disseram ainda que Pelé estava cansado, após uma época longa e desgastante. Segundo eles, o internacional português jogara mais de 20 jogos em Itália, tendo-se afirmado na equipa do Inter como poucos esperariam. Ya, ya. Pelé jogou 4 jogos a titular no campeonato, tendo entrado noutros 9. São 13. 496 minutos jogados. Isto é afirmar-se como?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os melhores

Eis os melhores da Liga 2007/2008:

Guarda-Redes: Diego Benaglio
Defesa Direito: Bosingwa
Defesa Esquerdo: Léo
Defesas Centrais: Polga e Rodriguez
Médio-Defensivo: Paulo Assunção
Médios-Ofensivos: Lucho Gonzalez e Rui Costa
Extremos: Quaresma e Vukcevic
Avançado: Lisandro Lopez

Treinador: Carlos Carvalhal

Os suplentes:

Guarda-redes: Quim
Defesa Direito: Ricardo Esteves
Defesa Esquerdo: Carlos Fernandes
Defesas Centrais: Geromel e Tonel
Médio-Defensivo: Delfim
Médios-Ofensivos: Moutinho e Zé Pedro
Extremos: Tarik Sektioui e Christian Rodriguez
Avançado: Roland Linz

Treinador: Manuel Cajuda

Os que também poderiam ter sido eleitos, mas que por esta ou aquela razão não foram:

Guarda-Redes: Eduardo, porque só podia escolher dois guarda-redes.
Defesas direitos: Abel, porque revelou lacunas defensivas graves; Nélson porque perdeu toda a confiança que tinha quando chegou ao Benfica; Andrezinho, porque embora seja muito forte a atacar, é muito fraco a defender.
Defesas Esquerdos: Rodrigo Alvim, porque só podia escolher dois.
Defesas Centrais: David Luiz, porque passou grande parte da época lesionado e nunca conseguiu atingir um nível exibicional constante; Bruno Alves por razões óbvias.
Médios-Defensivos: Miguel Veloso, porque apesar de ter começado e acabado confiante, passou grande parte da época num nível medíocre; Raúl Meireles, porque num esquema como este não poderia ser médio-defensivo, e para médio ofensivo havia melhores; Ruben Amorim, porque só podia escolher dois e a sua posição também não é a de médio mais recuado; Roberto Brum porque só podia escolher dois; Katsouranis, porque fez uma época bem abaixo do desejável, tendo muitas vezes actuado como defesa central.
Médios-ofensivos: Romagnoli, porque as suas exibições sofrem quando a equipa está mal e, como tal, passou ao lado de bastantes jogos. Fajardo, porque não conseguiu manter os níveis do início da temporada, nem foi capaz de ser, como o foi na altura, o jogador mais preponderante do Guimarães; Jorge Ribeiro porque a médio é banal, apesar dos golos que consegue, fruto do seu bom pontapé.
Extremos: Hélder Barbosa, porque alguém decidiu ir buscá-lo a meio da época para pô-lo no banco; Matheus porque beneficiou claramente por estar incluído num colectivo forte, ressentindo-se quando trocou de ares; Fellype Gabriel porque não pôde jogar regularmente e manter o bom nível do início da temporada; Di Maria, porque alternou entre exibições formidáveis e momentos menos bons, quase todos por estar incluído numa equipa sem rumo; Alan e João Ribeiro porque só podia escolher quatro.
Avançados: Cardozo, Cláudio Pitbull, Roncatto, Weldon e Wesley por só poder escolher dois; Liedson por razões óbvias.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Curtas de fim de época

1. Sem jogar tanto como a Fiorentina, o Zenit venceu o Rangers e vingou italianos, portugueses, alemães e gregos. Contra equipas que só defendem, a arte e o engenho são, por certo, o caminho mais curto para o sucesso, mas, como fica bem visível nesta final, bastava um lance para que a equipa escocesa não fosse capaz de virar o rumo dos acontecimentos. Ficou também visível que os escoceses, em todas as eliminatórias que superaram, nunca controlaram os desafios, deixando-se à mercê da sorte, que lhes foi sendo favorável. Desta vez, e como não é possível ter sempre sorte, a justiça imperou. Seria frustrante para o futebol que, depois da Grécia de Rehhagel, o Rangers de Walter Smith ganhasse alguma coisa a jogar assim.

2. No Benfica, afinal, Eriksson já não vem. Confesso que o sueco não correspondia ao perfil de treinador que acho adequado para o Benfica, mas a sua personalidade e o seu profissionalismo convenciam-me de que era a melhor das alternativas até então apresentada. Gorada, portanto, a possibilidade Eriksson, o Benfica vira-se para Quique Flores. Formidável! O que o Benfica precisava era mesmo de um tipo que gosta de jogar com 4 defesas centrais...

3. Rui Costa cessou funções como jogador e, no dia seguinte, estava, vestido a rigor, a iniciar uma nova etapa na carreira, num novo cargo. A primeira notícia: renovação com Léo. Parece começar com a classe com que acabou.

4. Scolari revelou os 23 eleitos para o Euro 2008. Não convocar Maniche, Carlos Martins, e Caneira são, para mim, os principais equívocos do seleccionador. Não levando Bruno Alves nem Jorge Ribeiro, e abdicando ou de um dos avançados, ou de Raúl Meireles, ou mesmo de Miguel, estes três caberiam perfeitamente no lote de convocados, ficando o mesmo muito mais equilibrado. Assim, não há alternativas reais a Deco; vão 4 centrais e 4 laterais; vão apenas 5 jogadores de meio-campo; e ainda vai um jogador que, se é lateral, mais valia Caneira (podendo, pela polivalência deste, não levar um dos centrais), se é para o meio-campo, havia claramente melhores. Tirando tudo isto, é ainda tempo para falar de jogadores que nunca foram aposta de Scolari, mas que mereciam, pelo menos, ter sido testados. São eles Zé Castro, Pedro Mendes, Paulo Assunção e Nuno Assis.

5. Na taça de Portugal, Jesualdo Ferreira voltou a tentar adaptar a sua equipa à forma de jogar do Sporting. E voltou a perder. Burros velhos não aprendem mesmo línguas...

6. O Sporting fez das exibições mais adultas da época: dominou sempre o jogo, teve muito mais posse de bola, soube sempre evitar o pressing portista, nunca se descontrolou emocionalmente e nunca se desequilibrou no campo. A juntar a isto, conseguiu uma coisa que jamais conseguiu esta época: penetrações pelo centro do terreno. A isto se deveu o excelente desempenho dos avançados, sobretudo de Derlei, a segurar a bola de costas para a baliza, permitindo a entrada dos colegas nas costas ou tabelando com os mesmos, entrando em posse em zonas perigosas. Quem é que não jogou mesmo no sector ofensivo?

7. Rochemback é reforço leão para a próxima temporada. Acho-o um bom reforço, mas a euforia leonina é exagerada. É um jogador experiente, com qualidades, mas não inventem coisas que não são verdade. Não é um jogador concentrado, nem um jogador intenso, nem alguém preponderante no desempenho defensivo da equipa, nem sequer um jogador muito correcto do ponto de vista posicional. As suas principais virtudes são o discernimento e a tranquilidade com que joga, sabendo pautar com rigor os ritmos da equipa; a facilidade com que tem a bola no pés e a capacidade técnica e atlética, que lhe permite ganhar muitos dos duelos individuais. Agora, não é jogador de grandes rasgos, e muito menos um jogador de equilíbrios. Também não é jogador para grandes correrias, pelo que, na posição 10 do losango, a mais exigente sem bola, é desadequada. Do meu ponto de vista, Rochemback pode ser uma mais-valia, mas nunca para médio-defensivo ou para médio-ofensivo no losango do Sporting. É apenas como interior que o vejo a poder render e apenas se Moutinho sair.

8. Rijkaard despede-se de Barcelona com uma vitória por 5-3 e a sensação de que poucos treinadores poriam uma equipa a jogar tanto à bola como a sua. É verdade que os intérpretes contam, mas a equipa de Rijkaard, em bom ou em mau estado, apresentou sempre dinâmicas colectivas que poucas equipas apresentaram. As trocas sucessivas de bola nas imediações da área, as triangulações curtas e rápidas que desposicionavam facilmente os oponentes e a quantidade de posse de bola por jogo não terão mesmo comparação com qualquer outra equipa dos últimos tempos. Se o Barcelona campeão europeu em 2006 foi, por muita gente, considerada a equipa da década, não será demais elogiar o trabalho do holandês e colocá-lo também entre os melhores treinadores dos últimos anos.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Chegou ao fim!

Chegou ao fim a carreira futebolística de um dos mais fantásticos jogadores de sempre do futebol português. Ontem, dia 11 de Maio de 2008, Rui Costa pendurou as botas. Nesta hora, ao invés das lágrimas do adeus, apetece-me lembrar tudo o que ele foi. Laudrup disse, ao terminar a carreira, que em poucos anos deixaria de haver jogadores como ele: referia-se aos números 10 puros, ao tipo de jogador que comanda o leme de uma equipa, que puxa todos os cordéis ofensivos, que dribla, passa e remate como se estivesse a executar a mais simples das tarefas. Rui Costa é um desses últimos jogadores. Foi o meu primeiro grande ídolo! Depois dele, teria vários, é certo, mas foi com ele que aprendi a sorrir perante um jogo, foi ele o primeiro a quem quis imitar os movimentos. Numa das muitas inconfessadas ilusões infantis, desejei ser jogador de futebol e imaginei-me ao lado dele num campo. É justo, portanto, dedicar-lhe, na despedida, tudo o que puder dedicar. As recordações são imensas e seria impossível distinguir todos os grandes momentos da sua carreira. Quero, porém, neste momento, relembrar aqueles que mais me marcaram: o penalty decisivo que deu a vitória do mundial de sub-20 em 1991; o chapéu perfeito frente à Irlanda, na Luz, que abriu caminho à vitória que nos levaria ao Euro 96; o melhor jogo que o terei visto fazer, um Portugal-França de carácter amigável, em 96, cujo resultado final foi de 3-2 para os franceses, mas durante o qual Rui Costa parecia um objecto estranho, um fenómeno de outro planeta, com uma alegria a jogar que nunca mais lhe vi repetida, coroada com um golo que ilustra toda a sua classe; os incontáveis últimos passes para Batistuta na Fiorentina; o passe de morte, após uma jogada brilhante de toda a equipa, para o golo do empate frente à Inglaterra, na mítica reviravolta do Euro 2000; o golo de raiva frente à Inglaterra no Euro 2004, calando ingleses e portugueses. Pelo meio, aquela expulsão absurda frente à Alemanha, que o pôs a chorar pela injustiça e posicionou todo o povo lusitano contra o árbitro Marc Batta. Era em tudo isto e em muito mais que pensava ontem, na Luz, quando fui dedicar o meu preito ao grande maestro.

Figo terá dito que Rui Costa é maior que o Benfica. Atrevo-me a dizer que Rui Costa é maior que o futebol! São raríssimos os exemplos de jogadores que conquistaram tantos corações. Portugueses, florentinos e milaneses. Além dos corações, que nunca decepcionou, Rui Costa ganhou o respeito do mundo: a carta que o Milão lhe endereçou, agradecendo-lhe, é das demonstrações mais fortes do homem que foi. Ontem, dia 11 de Maio, apesar do quarto lugar do Benfica na Liga, a emoção e os festejos terão sido certamente maiores, mais significativos, e, daqui a uns anos, mais lembrados, do que os festejos portistas, com a conquista de mais um título, ou do que os festejos leoninos, pelo acesso directo à Liga dos Campeões, ou ainda do que os festejos vimaranenses, por uma classificação inédita. É que, de um lado da balança estavam os sucessos desportivos, efémeros por excelência; do outro, estava uma carreira ímpar, um homem como poucos, que tão depressa não será esquecido. Fica até a sensação de que a ele, Rui Costa, muito mais do que a qualquer outro jogador da sua geração, todos os eventuais erros seriam perdoados. E isso não é toda a gente que consegue. Tenho praticamente a certeza de que, se se despedisse, como Zidane, com uma agressão numa final de um campeonato do mundo, seria mais celebrado do que criticado.

Chega, pois, o fim de uma etapa na sua vida. Os relvados agradecem a sua passagem e choram o desaparecimento de um dos últimos românticos. Laudrup - confesso-o com pena - tinha razão: o futebol caminha numa direcção na qual os jogadores como ele tendem a desaparecer. Depois de Zidane, é a vez de Rui Costa. Sobra ainda Riquelme, afastado contudo dos grandes palcos. Teremos um dia ainda a possibilidade de inverter esta tendência e recuperar este tipo de jogadores, agora tão em desuso? Seria bom, para o futebol, que sim. Rui Costa disse, no fim da partida, que, no final da carreira, preferia rir, em vez de chorar, como tantas outras vezes. Também eu, em vez do pranto, deixei escapar um largo sorriso. Porque Rui Costa vale mais que lágrimas; vale o esforço de as conter perante a inevitável certeza de que tudo chegou ao fim e de que não mais se repetirão as proezas com que tantas vezes nos deliciou.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Clássicos: (Taça dos Campeões Europeus 86/87 - FC Porto vs Bayern de Munique)

A equipa de Artur Jorge actuou num 451, mostrando desde logo respeito e receio dos germânicos. Mlynarczyk na baliza, João Pinto à direita e Inácio à esquerda, Celso e Eduardo Luís no centro da defesa. No meio-campo, Jaime Magalhães à direita e Quim à esquerda eram quase segundos laterais. André, Sousa e Madjer ajudavam a fechar o meio, ficando o ataque entregue única e exclusivamente a Paulo Futre. O Bayern tomou, por isso mesmo, conta do jogo logo de início e só em fugazes contra-ataques, normalmente lançamentos para a velocidade de Futre, o Porto conseguia sacudir a pressão germânica. Em largura, a equipa defendeu muito mal, sendo os alemães capazes de chegar à linha para cruzar com muita frequência. As figuras em maior evidência, nesta fase, foram o lateral direito Winklhofer e o extremo-esquerdo Ludwig Kögl, um jogador velocíssimo e dotado de uma requintada técnica. Os alemães iam causando cada vez mais perigo até que, num lance esquisito, após um lançamento lateral, a bola sobra para Kögl, que, na área, mergulha e faz, de cabeça, o primeiro golo. Não fica, contudo, isento de culpas o guardião portista, que saíra dos postes sem necessidade. A partir desta altura, sensivelmente a meio da primeira parte, o Porto não mais foi capaz de lançar os seus contra-ataques, apesar de Madjer ter avançado no terreno, para o lado de Futre. A equipa enervou-se e perdeu bastantes bolas, coisa que os alemães aproveitaram. Apareceu nesta fase Lothar Matthäus, com vários passes de morte, não aproveitados pelos seus companheiros. Entretanto, Kögl continuava a fazer o que queria de João Pinto, rubricando uma exibição fantástica. O resultado de 1-0 ao intervalo era lisonjeiro para aquilo que o Porto tinha feito.

No segundo tempo, Artur Jorge lançou Juary, tirando Quim. Puxou Sousa para a esquerda e o brasileiro passou a fazer companhia a Futre na frente. Isto teve o condão de soltar mais o 10 portista, que começou a pôr em água a cabeça aos alemães. Já na primeira parte fora travado em falta várias vezes, mas nesta segunda parte seria ainda mais castigado. O Bayern, apesar da maior audácia portista, nunca se enervou e continuou a controlar a partida. Os primeiros 25 minutos da segunda parte foram repartidos e nenhuma equipa se superiorizou à outra, acumulando-se jogadas de ataque nos dois meios-campos. De assinalar, nesta fase, um excelente remate de Madjer, após um ressalto, que levou a bola a sobrevoar a barra da baliza, bem como um lance na área portista, em que João Pinto derruba Kögl e o árbitro não vê. Logo após este lance, surge a melhor jogada de todo o encontro, iniciada numa tabela de Futre com Jaime Magalhães. O 10 do Porto, recebendo a bola de Jaime, entra então na área com ela dominada, ultrapassa dois adversárias, sentando-os, e remata a rasar ao poste direito da baliza de Pfaff: era o sinal do que viria a seguir. Antes ainda da reviravolta no marcador, nota para uma entrada assassina de Celso, que viu apenas amarelo; para um lance anedótico em que Celso trava Kögl e no qual o árbitro, em vez de dar o segundo amarelo ao central portista, assinala falta contra o Bayern por interpretar que o extremo alemão mergulhara; e para uma sucessão de faltas e de protestos de Jaime Magalhães que lhe poderiam ter valido o segundo amarelo. Artur Jorge faz então entrar Frasco e, minutos depois, numa altura em que o Bayern até já sacudira a maior pressão dos portugueses, um passe em profundidade encontra Juary, que toca pela segunda vez na bola durante os 30 minutos que já estava em campo; este dá para Frasco, que tira um adversário do caminho e cruza; a bola encontra novamente Juary, que remata; o remate vai encontrar Madjer que, de costas para a baliza, já sem Pfaff, utiliza o calcanhar para igualar a partida. Após este lance, Madjer saiu do terreno para ser assistido e, ao reentrar, cria um desequilíbrio na esquerda. Recebe um passe longo, dá um nó de todo o tamanho em Winklhofer e, já em esforço, cruza para Juary que, sem oposição, encosta para o 2-1: estava dada a volta no marcador. Até ao final, o Porto limitou-se a pontapear a bola para onde estava virado e a queimar tempo, sendo que os germânicos perderam todo o discernimento que tinham e não foram capazes de voltar a criar situações de real perigo.

Notas Finais:

1) O Porto venceu num jogo em que foi claramente inferior, aproveitando um lance fortuito e uma desconcentração germânica para marcar. Além de Futre, que conseguiu sempre, através da sua técnica e da sua velocidade, ameaçar as hostes alemãs, e de alguns pormenores de Madjer e Sousa, pouco ou nada o Porto fez para merecer igualar o marcador. Em termos tácticos, os alemães foram superiores até à altura em que sofreram dois golos de rajada, nunca perdendo o domínio dos acontecimentos, gerindo ritmos e conseguindo levar o jogo para longe da sua área. Foi, pois, em pequenos detalhes que o jogo se definiu. Poder-se-ia dizer que as opções de Artur Jorge foram acertadíssimas, mas nem isso é bem verdade. Até à altura do primeiro golo, o Porto da segunda parte limitou-se a chutar bolas para as costas da defesa do Bayern, a solicitar a velocidade de Juary, sendo que os lances raramente assustavam os germânicos. O brasileiro, que acabou por ser decisivo e esteve nos dois golos, tocou três vezes na bola em 33 minutos, o que revela que não teve muito a ver com a vitória. Os lances dos golos nada tiveram a ver com uma mudança de atitude ou com uma melhoria do futebol do Porto: foram lances isolados e o êxito dos mesmos deveu-se a um ou outro detalhe, como o facto de Madjer, no lance do segundo golo, não estar marcado por ter acabado de reentrar na partida.

2) O homem da partida foi Ludwig Kögl, que não parou um minuto e levou tanta ou mais porrada que Futre. Do lado dos germânicos, há ainda a destacar a excelente exibição de Matthäus e alguns pormenores de Rummenigge (irmão de Karl-Heinze Rummenigge), enquanto que no Porto os melhores foram Futre, Madjer e Sousa.

3) Nota negativa, do meu ponto de vista, para Jaime Magalhães, que passou o jogo a refilar e só não foi expulso porque o árbitro não quis, que teve uma entrada maldosa sobre Kögl, já com um amarelo, não tendo ido para a rua uma vez mais por caridade, e que, depois do 2-1, sempre que o árbitro interrompia o jogo, ia a correr e dava uma biqueirada na bola para o mais longe possível, sem sofrer as devidas consequências desse comportamento.

4) A estratégia inicial de Artur Jorge revelou-se perfeitamente errada e o Porto só não foi para o intervalo com uma desvantagem maior por manifesta incompetência dos avançados alemães na hora da finalização. Além disso, o lance do penalty na área do Porto poderia ter sentenciado o jogo.

5) Fica, pois, para a História, um Porto desconhecido que vergou e humilhou o arrogante colosso alemão. Fica para a História um Golias caído aos pés de um David. E o que a História nos deixou, aquilo que fica, é que o Porto foi um justo campeão. Ainda que a outra história, com "h" pequeno, a história do jogo, tenha sido um pouco diferente daquilo que a História com "H" grande preservou.

domingo, 4 de maio de 2008

Erro de Casting ou Casting Errado?

Luís Freitas Lobo, num artigo sobre Tiago, explica, e bem, por que razão o internacional português não rendeu o que se esperaria dele nesta época. Diz Freitas Lobo:

"Na Juventus de Rainieri, [Tiago] entrou num 4x4x2 clássico em linha e com grande distância entre-linhas como um dos membros de um duplo-pivot central. Deixou de ter apoios para jogar curto, tocar e desmarcar-se, numa progressão apoiada, até à entrada da área, para ter à sua frente um corredor inteiro para percorrer, seja em posse, seja à espera de um passe, seja na recuperação. Não é este o habitat indicado para o futebol de Tiago. Assim, fica fora dos timings do jogo, ritmos e espaços."

Concordo, na íntegra, com isto. Acho que as características de Tiago não lhe permitem ser um jogador de topo neste sistema e, mais, que o 442 clássico, além de todas as lacunas que lhe reconheço, é das tácticas nas quais os jogadores têm de ser mais completos. Porque o futebol caminha na direcção da especialização, a própria táctica é um fóssil. Por exemplo, um médio de topo neste sistema tem de ser óptimo a atacar e óptimo a defender, tem de ser criativo, saber ler o jogo e, ao mesmo tempo, correr quilómetros (o que provoca desgaste, sobretudo psicológico, e retira discernimento), ser forte nos duelos corpo a corpo, etc. Para uma táctica destas, há poucos médios de qualidade. O melhor, aquele que melhor se enquadra neste sistema, que tanto ataca como defende com qualidade, talvez seja Steven Gerrard. Tendo em conta tudo isto e tendo em conta que Tiago nunca se evidenciou num sistema idêntico, que foi sempre um jogador de apoios curtos, não seria de espantar que não fosse capaz de vingar na Juventus. Outro exemplo foi Hugo Viana no Newcastle, ou no Valência. Diz ainda Freitas Lobo:

"O seu melhor lugar é como um dos médios interiores no vértice avançado de um meio campo em triângulo só com um pivot-defensivo. Ou seja, no centro de um 4x3x3. Assim, sente as costas protegidas por um trinco forte e depois, de perfil com outro médio culto, faz as transições defesa-ataque-defesa. Foi assim, com as linhas próximas, que brilhou no Lyon, à frente de Diarra, e a lado de Juninho. Tal como fez no Chelsea."

Sem dúvida. Mas num 442 losango também renderia, como interior. Ou em qualquer táctica que privilegie o jogo em apoios, na qual tenha, a seu lado, alguém com quem trocar a bola, para que nunca tenha de jogar comprido, ou de fazer uso da capacidade de transporte, aspectos do jogo em que é um jogador mediano. Os seus melhores jogos na selecção foram ao lado de Deco, porque aí consegue ter alguém que lhe facilite o jogo, que lhe dê soluções colectivas e não o obrigue à individualidade, na qual é banal.

Tiago é um jogador de colectivo e não tem capacidade para resolver sozinho os problemas da equipa, seja a construir o jogo ofensivo, seja a transportar a bola, seja a jogar comprido, seja a recuperar bolas ou a ganhar lances de cabeça. Nesse sentido, jamais se integraria com facilidade numa táctica como o 442 clássico, que é uma táctica iminentemente individual, que não privilegia um jogo em apoios e na qual os jogadores têm de acumular funções.

Freitas Lobo resume bem os porquês de Tiago ter tido uma época tão abaixo do que se esperaria dele, mas fica por aí. Quero pegar no seu argumento para concluir três coisas que não poderia deixar de dizer:

1) Que o 442 clássico - repetindo o que disse acima - no contexto actual do futebol, é uma táctica que não privilegia o colectivo e que os jogadores, sobretudo os do meio-campo, são obrigados a preencher espaços maiores, a esforços redobrados, a demasiadas tarefas e funções. Isto faz com que um jogador de meio-campo, para ser eficaz nesta táctica, tenha de possuir uma capacidade que só os melhores do mundo possuem. Neste contexto, esta táctica só poderá ser desempenhada com sucesso por equipas com capacidade para contratar os melhores do mundo.

2) Que não foi Tiago em si, ou seja, o jogador, quem falhou, mas sim a contratação de Tiago. Quero com isto dizer que, tendo o aval de Ranieri (desconheço se o teve, mas tenho de partir do pressuposto de que teve), a contratação de Tiago foi um erro. Se o plano era jogar em 442 clássico, o treinador italiano deveria ter percebido que Tiago não era o jogador ideal para esse sistema, uma vez que as suas características são totalmente opostas às que se requerem num médio nesta táctica. Ranieri terá contratado, então, Tiago pelo bom futebol que praticou noutra equipa, não tendo em conta as suas características, mas apenas a posição que ocupava em campo. Em vez de querer um médio competente para um 442 clássico, terá apenas desejado um médio.

3) Que este tipo de erros grosseiros (como foi exemplo também a contratação de Leandro Lima, um médio de toque curto, para jogar entre linhas, coisa que a equipa de Jesualdo não contempla) denota a incapacidade da grande maioria dos treinadores em reconhecer os atributos de cada jogador, bem como a incapacidade destes para perceber que os atributos intelectuais são de todo mais importantes na adequação de um jogador a um modelo de jogo do que os atributos técnicos e físicos. É fácil, portanto, concluir que Ranieri, como Jesualdo, como grande parte dos treinadores, olha apenas para os atributos técnicos e físicos dos jogadores, descuidando os atributos intelectuais, sem dúvida mais relevantes. Em Tiago, ter-se-á visto que é um jogador de boa técnica, com boa capacidade de passe e remate, mas não se terá visto, com certeza, que não é um jogador para ritmos demasiado altos, que é bom a nível posicional, fornecendo correctamente os apoios, que reconhece que os processos ofensivos passam por diferentes etapas, que não arrisca passes demasiado longos, privilegiando a segurança e a posse de bola, que precisa de ter várias soluções de passe perto de si, pois não é forte em acções individuais, etc. São estes atributos, estas capacidades intelectuais e não as capacidades técnicas e físicas, que definem a posição de um jogador, bem como o papel que o mesmo pode desempenhar num colectivo. E foram estes atributos intelectuais que não se tiveram em conta quando se decidiu contratar o internacional português.

Discordo, portanto, que Tiago tenha sido um erro de casting. O próprio casting (bem como a quem competia fazê-lo) esse sim, é que foi um erro.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Pequenas coisas

1. O Porto acaba o campeonato a golear o segundo classificado, em casa deste, e a aumentar a diferença que o separa dos que o seguem. A confiança tem destas coisas. Há quem diga que os vinte e tal pontos reflectem a diferença de nível entre os dragões e os opositores, mas tal é pura ilusão. Se a conquista do campeonato não sofre contestação, já a diferença pontual só pode reflectir que, sem pressão sobre si e estando os opositores pressionados, uma equipa parece sempre mais superior do que o é, na realidade.

2. O Benfica venceu o Belenenses e assegurou, antes da decisão do caso Meyong, que pelo menos o quarto lugar não lhe foge. Como em vez de se pensar com cautelas a próxima época, já se anda a contratar tudo o que tenha duas pernas, esta é uma classificação que, em futuras temporadas, talvez seja satisfatória.

3. O Sporting venceu o Marítimo, com um golo de matraquilhos. Se a bola tivesse batido em Liedson e não em Romagnoli, aposto que se imaginava logo que aquele lance absolutamente fortuito tinha sido precipitado pela disponibilidade e pela entrega do "Levezinho", que teria feito uso da sua ímpar capacidade de pressão para enervar o defesa madeirense, levando-o a chutar contra si.

4. José Mota foi atropelado por um jogador do Braga, quando se encontrava junto à linha lateral. Ficou com cara de poucos amigos, mas não sei se por causa do acidente, se por a roda da fortuna, esta época, estar em sentido oposto ao da época passada.

5. Manuel Machado foi despedido e o Braga voltou a ganhar. Coincidência?

6. A Naval garantiu a permanência e Delfim, o autor do golo da vitória, foi expulso por uma mão na bola a meio-campo. Este é daqueles casos que, às vezes, merecia que se fechassem os olhos.

7. Na Champions, o Manchester, mais continental do que seria de esperar, mas menos continental do que têm dito, ganhou o direito à final, depois de 180 minutos a defender. O Barcelona, com 90 minutos de grande futebol e alguns bons momentos nos outros 90, acabou por claudicar após um erro individual. A este nível, é verdade, um erro daqueles pode ser fatal, mas não me tentem convencer de que passou a melhor equipa, porque isso não aconteceu. Uma equipa que só defende, por melhor que o faça, não merece nunca ganhar um jogo. Merece-o ainda menos se do outro lado estiver uma equipa que ataque como dever ser. Mas o futebol é assim e lá vamos ter a final inglesa que tantos ceguinhos queriam...

8. No duelo individual entre o melhor do mundo em 2007/2008 e o melhor do mundo em termos absolutos, Ronaldo levou uma cabazada de Messi. Apesar de tudo, o português deverá ganhar o prémio de melhor do mundo, sem contestação, por tudo o que fez de bom esta temporada.

9. O Chelsea mostrou que, nesta altura, é talvez a equipa inglesa com maior frescura física. Depois de vencer o Manchester para o campeonato, conseguiu superar o Liverpool e está na final da Champions. Um final de época absolutamente fantástico, com hipóteses de ganhar algo. O que não é tolerável é que, por causa deste final de época, esqueçam a final da taça da Liga com o Tottenham, bem como o resto da temporada e todos os records que Mourinho bateu em Inglaterra, pondo em cima da mesa idiotices como a comparação entre Grant e o Special One...

10. O Zenit esmagou o Bayern. Memorável!

11. O Rangers eliminou o Panathinaikos, o Werder Bremen, o Sporting e a Fiorentina com uma média de 2 ou 3 remates por jogo. Se os leões não foram muito competentes na forma de atacar o sistema ultra-defensivo dos britânicos, a Fiorentina, só no jogo da segunda mão, criou perto de 20 oportunidades de golo. Não via uma equipa com tanta sorte desde a Grécia de 2004.

12. Esta Fiorentina é só mais um exemplo daquilo que o futebol italiano já não é. O 4º lugar na liga, à frente de Milan e Lazio, por exemplo, assim como a chegada até esta fase da UEFA, denotam bem a qualidade da equipa. O sistema de jogo é o 433, com um só pivot-defensivo. A quantidade de jogadores com características ofensivas é notável: o jogador mais recuado do meio-campo, Liverani, era originariamente um médio de características ofensivas; Jorgensen e Gobbi, os laterais, são de origem médios. Esta é, verdadeiramente, uma equipa italiana virada para o ataque. Fiorentina, Roma, Inter, Juventus e Milan: os primeiros cinco do campeonato italiano já não jogam à italiana. Após a decadência da última década, em que os emblemas mais fortes, encostados ao poderio financeiro, se deixaram embalar e não acompanharam as inovações tácticas, eis que ressurge o futebol transalpino. Neste momento, a Inglaterra está no topo, com os grandes clubes a reinarem na Europa, mas a competitividade do campeonato interno não consegue acompanhar a do campeonato espanhol e a do italiano e essas grandes equipas, munidas dos melhores elementos disponíveis no mercado, descuidam a evolução táctica, fechando-se defensivamente e entregando as iniciativas ofensivas a esses elementos. Estão no mesmo ponto que o futebol italiano no início dos anos 90. É um novo ciclo que se está a iniciar e não prevejo, para o futebol inglês, nada mais nada menos que o mesmo destino que o italiano teve e que o fez, ao fim de décadas de uma herança defensiva, modificar-se radicalmente para poder sobreviver.

13. Em jogo a contar para a primeira jornada da Fase Final do Nacional de Júniores, o Sporting bateu o Benfica por 2-1. O 442 clássico de João Alves foi angustiante, sobretudo pela rigidez a que a equipa esteve sujeita e pela colocação do melhor jogador encarnado, o capitão Miguel Rosa, de origem um médio-ofensivo, o melhor na construção de jogo, no flanco direito. Já o Sporting, apresentou um 433 defeituoso, com rotinas mal trabalhadas e uma defesa assustadora. Diogo Rosado, o melhor dos leões e o único com boas ideias em todo o jogo, foi alvo da estupidez da massa associativa. Tudo começou quando, ao reparar que um colega precisava de assistência, escorregou quando se preparava para chutar a bola para fora. Cordialmente, os jogadores do Benfica seguiram a jogada e empataram o jogo. A partir daí, sempre que tocava na bola, era assobiado e insultado. Apesar de nunca ter virado à cara à luta e de ter sido dos que mais empenho demonstrou, não lhe perdoaram aquele lance, bem como outros em que, mais por erros dos companheiros do que por seus, perdeu a bola. Chegaram a dizer que era o Farnerud dos júniores, com toda a carga negativa que tal associação comporta. Até que ganhou uma falta depois de driblar um adversário junto à linha de fundo. Nessa altura, gostaram. Mas, nessa altura, deviam estar caladinhos. Se por acaso tivesse marcado o golo da vitória, as mesmas pessoas que disseram mal deveriam ser obrigadas a sair do estádio, a não festejar o golo. E não é porque não devem criticar os jogadores da sua equipa; é mesmo porque não perceberam, sequer, que estava a ser o melhor em campo. A estupidez do adepto comum é gritante! Este miúdo estará, nos próximos anos, entre os melhores jogadores portugueses e os adeptos que hoje levantaram a voz para dizer mal dele deveriam pagar imposto para festejar os seus futuros êxitos. Em cima dos 90 minutos, o Sporting colocou-se novamente a ganhar. Ninguém festejou mais do que Diogo Rosado. Terá sentido, certamente, um grande alívio por ter estado ligado ao golo do empate do Benfica, mas não acredito que não tivesse sentido também que, com a vitória, já não seria injustamente acusado das coisas que o acusavam. No fim do jogo, ficou alguns minutos ajoelhado no terreno. No fim de contas, salvara-se da humilhação a que a estultícia do povo, que só vê o que é fácil de ver, o submetera. Fica, contudo, a nota: o adepto comum vai ao estádio para poder fazer o que não faz na rua, para poder insinuar que todos os que não torcem pela sua equipa são filhos de mulheres da vida, para poder ofender aqueles que têm o poder durante aqueles 90 minutos, e pretende, portanto, que a sua equipa mostre, não arte, não ciência, não organização, não boas ideias, mas sangue, suor e lágrimas. Pretende, pois, dos seus jogadores, não ideias, mas empenho. Se uma equipa de futebol fosse uma empresa de construção civil e o adepto comum um empreiteiro, os trabalhadores não construiriam segundo um projecto, mas trabalhariam incessantemente, colocando tijolos em tudo o que era sítio. Não haveria casa, mas ninguém os poderia acusar de não terem trabalhado. Enquanto adepto, o adepto comum, como este empreiteiro, é um incompetente. E, sinceramente, o futebol já merecia adeptos competentes...

domingo, 27 de abril de 2008

Compreender Futebol, em vez de o jogar...

Luís Freitas Lobo, numa passagem do seu livro, Planeta Futebol, cita Menotti acerca da perspectiva que este detém sobre os jogadores que prefere, ou que mais admira. Através desta frase – dando a entender a predilecção por Makélélé, em detrimento de Ronaldo, o “Gordo” – Menotti é claro nas suas preferências: a opção por um jogador que lhe permite defender um modelo de jogo e as idiossincrasias do mesmo, em detrimento de jogadores que, apesar de potenciarem uma maior individualidade, comprometem o indivíduo abstracto, o chamado colectivo, é clara. E, para isto acontecer, um jogador tem de compreender o que é o “jogar bem” futebol, enquanto desporto colectivo, e não como um espectáculo de circo.

O futebol, como desporto colectivo que é, deve assentar as suas bases na organização e coordenação entre os seus elementos. Não se trata apenas de um desporto, em que são as capacidades atléticas que definem as reais possibilidades de uma equipa se tornar vencedora; trata-se um jogo e, como tal, a componente cognitiva assume uma relevância determinante.
Por isso, mais do que ser brilhantes na execução, devemos ser bons na interpretação do jogo.


No entanto, a maior parte dos jogadores idolatrados são, na sua essência, jogadores que se destacam pelos seus desempenhos individuais, em detrimento dos que através da sua acção são, quando utilizados, de grande valia para o colectivo. Poderíamos pegar em vários casos: no Sporting, Liedson e Custódio; no Benfica, Petit e Nuno Gomes; no Porto, Assunção, e Quaresma. Todavia, este último exemplo difere dos dois primeiros em alguns aspectos. No que toca ao Assunção, a sua actuação tem sido exaltada por colegas, o que lhe veio conferir, de alguma forma, justiça às suas actuações. Se juntarmos a este facto a sua excessiva agressividade, de tão agrado do adepto, facilmente se vislumbra o porquê do seu reconhecimento junto das massas. Quanto a Quaresma, a situação é diferente. É um jogador alheado do colectivo, que vive para a satisfação dos seus caprichos; no entanto, a suas qualidades tornam legítimas as suas acções. Não é determinante para a “saúde” do colectivo, mas o facto de conseguir muitos desequilíbrios, através das suas acções individuais, acaba por beneficiar o colectivo. Alguns poderão alegar que este facto resulta da posição que Quaresma ocupa, e que esta obriga a um maior número de acções exclusivamente individuais. Para isso peço que tenham em consideração uma comparação entre Quaresma e Nani. Se ignorarmos os aspectos intelectuais, poderemos dizer que o extremo portista e o jogador do Manchester são em tudo muito semelhantes. Fortes no 1x1, rápidos, tecnicistas, e criativos. A diferença reside, acima de tudo, na forma como interpretam a sua integração no colectivo. Apesar de alguma “queda” para o individualismo, as acções de Nani compreendem, na maioria das vezes, as necessidades do colectivo, ao invés de Quaresma, que apenas o faz ocasionalmente e de forma desconexa.

Destes casos, a maior evidência vai, sem dúvida, para o caso dos leões, Custódio e Liedson (a minha ideia inicial seria de pegar em Farnerud, na vez de Custódio, mas como este assunto já tem sido tão debatido, achei por bem escolher um outro exemplo). Facilmente um jogador como Liedson agrada às massas: um jogador que vale exclusivamente de acções individuais, viradas para beneficio próprio, sobressaindo destes gestos, sobretudo, as qualidades físicas do mesmo. A diferença deste para um jogador como Quaresma, ou Ronaldo, – falo do “Gordo” – é que Liedson, apesar de optar demasiado pelas iniciativas individuais, oferece muito pouco à sua equipa com essas movimentações. Se não é raro observar os dois primeiros “resolverem” jogos com as suas acções individuais, não é fácil encontrar uma mão cheia de acções individuais do “levezinho” que tenham resultado num benefício real para a sua equipa. A grande valia do avançado sportinguista esgota-se no seu faro pelo golo (muitos não hesitariam em assinalar a sua disponibilidade em lutar pelo esférico, mas a verdade é que o facto de realizar estas acções de forma isolada da movimentação colectiva redunda numa inconsequência de esforços, maior parte das vezes), e esta virtude beneficia principalmente da movimentação colectiva, a mesma que Liedson, não poucas vezes compromete.

Por outro lado, um jogador que se distinga pela forma como defende o colectivo, distinguindo-se através de factores intelectuais, em detrimento do individual, dificilmente será reconhecido pelo adepto comum. Por mais irónico que pareça, Custódio, ao sacrificar a sua importância individual, em favor do colectivo, contribuía decisivamente para a sua parca popularidade entre os adeptos leoninos. E isto acontece por duas razões:

1 - A necessidade das pessoas se reverem no indivíduo e não no colectivo, pois este, sendo um elemento abstracto, é incomparavelmente mais complicado de compreender e quantificar.

2 - A mesma necessidade de quantificar as qualidades de cada jogador vai impor que se dê destaque àquelas que mais facilmente se vislumbram: os índices físicos. Este facto tem uma importância maior, na medida em que esta visão é partilhada por maior parte dos treinadores de futebol. Isto vai levar a que a selecção dos jogadores seja feita de uma forma semelhante à que fazemos no jogo PES, ignorando que não vale de nada a superioridade físico\técnica dos jogadores se não a conseguirem utilizar de forma a beneficiar o colectivo.

Assim, acredito que jogadores que se distingam pela forma como definem as suas actuações em prol do colectivo, em detrimento da evidência individual, continuarão a ser injustiçados pelo público. Já os que roubarem do colectivo para se evidenciaram, continuarão a ser os eleitos pelo povo, mesmo que no fim de contas a equipa não lucre, em nada, com esta situação...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Lição

O Barcelona é talvez a equipa que, a nível ofensivo, melhor representa aquilo que se defende neste espaço. Jogar ao ataque contra equipas que defendem com autocarros deve ser executado exactamente como o Barcelona o fez ontem contra o Manchester. Aliás, aproveito até um jogo em que o adversário se defendeu bem e em que o resultado não foi positivo para dar ênfase à forma extraordinária como a equipa de Rijkaard atacou. Embora não tenha conseguido materializar o seu futebol em golos, o jogo do Barça foi perfeito. Perante uma equipa que vinha para defender os 90 minutos e tentar aproveitar o avanço das linhas espanholas para lançar Ronaldo, o Barcelona fez um jogo quase irrepreensível. Muitos dirão que a vantagem na posse de bola, quase esmagadora, não reflecte um domínio do jogo. Em muitos casos, isso pode ser verdade. Mas, no jogo de ontem, não foi o caso. O Barcelona circulou a bola pelos seus jogadores com paciência, mas sempre em progressão, sempre com o objectivo claro de avançar no terreno, de vencer as linhas inimigas. De pé para pé, lentamente, com arranques individuais aqui ou ali a provocar desequilíbrios, com movimentos constantes dos jogadores que não tinham a bola, o Barcelona foi circundando a defesa do Manchester, composta por duas linhas, cada uma com quatro jogadores. O bloco baixíssimo do Manchester foi incapaz de pressionar com êxito os jogadores do Barcelona e a equipa soube sempre evitar perder a bola. Depois, aproveitava tabelas para romper entre linhas e ganhar espaços à entrada da área: não foram poucas as vezes que os jogadores "blaugrana" conseguiram aparecer, em posse, à entrada da área, e só mesmo a pouca espontaneidade e alguma falta de agressividade nesta fase impediram a equipa de criar mais perigo. Muitos dirão que a prova de que o Manchester defendeu bem foi que o Barcelona não conseguiu muitas oportunidades de golo. É verdade que assim foi, mas há explicações para isto. Além da já referida falta de agressividade na definição dos lances, creio que influenciou a equipa a eventualidade de sofrer um golo em casa. Assim, tentou não correr riscos desnecessários, tentou não executar passes mais arriscados, que tanto poderiam ter ajudado a romper a defensiva britânica como poderiam prejudicar a posse de bola e o controlo do jogo. Com vista a não perder nunca este controlo, o Barcelona foi uma equipa paciente, mas ao mesmo tempo menos audaz do que poderia ter sido. Deste ponto de vista, se bastava ao Barcelona arriscar um pouco mais e se só não o fez para não perder o controlo do jogo, é porque quem controlou as operações foi a equipa espanhola e nunca a inglesa. Aconteceu por diversas vezes ver o Manchester a pressionar com eficácia e os catalães a conseguirem manter a posse da bola, descongestionando e reiniciando a jogada por outro sítio, obrigando a equipa inglesa a esfalfar-se para não abrir espaços. O Barcelona controlou o jogo todo, mantendo sempre a posse de bola e conseguindo, não raras vezes, introduzir-se em zonas ameaçadoras. O futebol foi envolvente, de toque curto e rápido, dinâmico, progressivo e competente. Não andou apenas a circular a bola, a fugir à pressão do Manchester; foi capaz de superá-la e de se intrometer entre as duas linhas defensivas inglesas. É verdade que o Manchester defendeu muito bem em largura e pressionou com alguma eficácia. Mas isso só acrescenta mérito às vezes que o Barcelona conseguiu superar essa boa estratégia defensiva de Ferguson. Se a equipa não conseguiu ir muitas vezes à linha, conseguiu entrar com a bola controlada pelo meio por diversas vezes, dispondo de remates à entrada da área e até de algumas entradas em posse na área britânica. O jogo de ontem deixa tudo em aberto, é certo, mas foi uma verdadeira lição de futebol e de como se deve atacar contra equipas que defendam tão em baixo quanto o Manchester o fez. O simples facto de não ter conseguido marcar golos não deve constituir prova de que esse futebol foi inconsequente; apesar de não ter marcado, o Barcelona demonstrou um poder ofensivo fenomenal e nenhum adepto inglês, depois do jogo de ontem, pode não ficar apreensivo. Parecendo paradoxal aquilo que vou dizer, quero reiterar que o que se passou em Camp Nou foi um verdadeiro hino ao futebol de ataque e, embora o 0-0, é assim que se deve atacar, com ponderação, segurança, paciência e competência. Muitos dirão ainda que um hino ao futebol de ataque é um jogo que acabe com muitos golos. Errado! O futebol do Barcelona ontem, esse sim, foi uma demonstração do que é atacar: atacou, empurrou, massacrou, sem nunca perder a cabeça, sem nunca descuidar a defesa; atacou sempre de forma equilibrada, sem riscos loucos, respeitando a qualidade do adversário e reconhecendo a estratégia cínica do mesmo. O futebol de ataque do Barcelona ontem foi o melhor futebol de ataque que vi nos últimos tempos e uma brilhante lição que os manuais de futebol deveriam preservar.

domingo, 20 de abril de 2008

O que é um passe?

Foi aqui dito, há tempos, que o Entre 10 ensinaria a Pelé, o jovem internacional sub-21 português, em que consiste um passe. Chegou, pois, a altura de tão adiada tarefa. Ao contrário do que a generalidade das pessoas pensa, o passe é tudo menos um gesto técnico simples. Aliás, é até precipitado defini-lo como um gesto técnico, pois o que é mais relevante, para a obtenção de um bom passe, não tem rigorosamente nada a ver com condições técnicas. Assim sendo, enquanto a opinião do vulgo defende que um passe é um gesto técnico, eu defenderei, nestas linhas, que um passe é, isso sim, um gesto intelectual, ao qual a técnica serve apenas de intermediário. Ademais, defenderei que um passe, embora seja executado por um indivíduo, não é um gesto individual, mas sim um gesto colectivo, pois é resultado de diferentes dinamismos e só tem aproveitamento enquanto beneficiar uma acção colectiva.

Muito mais que saber colocar a bola num local preciso, do que ter a capacidade de executar com perfeição um passe, é importante, para o jogador que tem a bola e a quer endossar a um colega, perceber como, quando e por que razão o deve ou não fazer. Num passe, a técnica cumpre um papel meramente secundário: mais importante que conseguir colocar a bola onde se quer é querer colocar a bola no sítio correcto. A um passe preside uma intenção e é essa intenção e não o passe em si que concorre para a qualidade do mesmo. Por mais certeiro que um passe seja, são as condições em que o colega vai receber a bola, assim como aquilo que a equipa pode extrair desse passe, que verdadeiramente interessa. Se um jogador consegue colocar a bola a cinquenta metros no pé de um colega, mas este não tem qualquer espécie de apoios e está rodeado de adversários, o passe efectuado pelo primeiro, ainda que tecnicamente perfeito, não produz consequências positivas. É por isso que, num passe, a componente técnica é completamente independente da componente intelectual. Aquilo que defendo é que, para que um passe seja considerado bom, a segunda componente é muito mais decisiva que a primeira.

Assim, poder-se-ia dividir um passe, à partida, em ideia e execução. Em termos de ideia, contudo, há várias sub-divisões a fazer. Um jogador, ao pensar em fazer um passe, deve ter em conta várias coisas: condições de recepção do colega; apoios que o colega tem ou vai receber; ganhos colectivos; situação e necessidades presentes do jogo (se a equipa está a ganhar ou a perder); etc. Por exemplo, um bom passe a nível técnico não é necessariamente um bom passe se o jogador que receber a bola não tiver condições suficientemente boas para tal. Pelé, por exemplo, é um jogador, a nível do passe, de grande qualidade técnica: os seus passes, por norma, encontram o colega a que se destinam. A sua qualidade técnica não é, porém, condizente com a opção de passe. Não raro, o jogador do Inter, embora executando com qualidade, não tem em conta tudo aquilo que deve ter. Um passe seu é, do ponto de vista estético, de boa qualidade, mas, não pensando Pelé se o mesmo representa a melhor opção para a equipa e se o colega vai poder dar seguimento à jogada, o mesmo passe é, muitas vezes, inconsequente. Não são poucas as vezes que alonga o jogo sem necessidade nem poucas as vezes que faz o passe pelo ar quando pode fazê-lo pelo chão. Pelé não se preocupa com o que vai acontecer a seguir ao seu passe, mas apenas com o passe em si, o que é errado. Aquilo que define um bom passe é muito mais tudo o que vem depois do passe do que o próprio passe.

A capacidade de uma equipa fazer posse de bola advém muito mais da capacidade que os jogadores têm para entender o que vai acontecer a seguir a cada passe do que da capacidade e da qualidade de passe de cada um deles. Para que a equipa permaneça com a posse de bola, um jogador, ao passar, deve perceber que opções de passe terá o jogador que receber a bola, no momento em que a receber. Muito mais do que perceber se há uma linha de passe aberta, um jogador que tem a bola e a vai passar tem de conseguir perceber se, assim que receber a bola, o seu colega terá forma de dar continuidade à jogada. Se não tiver esta capacidade, o jogador que passa só poderá fazer bons passes por acaso: todos os passes que permitirem a continuidade da posse de bola ou que permitirem progressão acontecem então por acidente, porque o jogador que recebe, felizmente, soube encontrar uma solução, ou porque o adversário não tinha capacidade para inviabilizar a continuidade da jogada. O acto de passar, em futebol, é um pouco como cada jogada de xadrez: se não se tiver em conta as próximas jogadas, se não se imaginarem possibilidades futuras, uma jogada por si só é facilmente contrariada. Uma equipa cujos jogadores não tenham capacidade para imaginar aquilo que o colega vai ser capaz de fazer assim que receber a bola jogará muito em função da sorte e da capacidade individual dos jogadores. Os melhores jogadores, ao nível do passe, são aqueles que, ao entregarem a bola, percebem imediatamente quais as soluções que o colega vai ter. Pelé não é um destes casos. Os seu passes não são ponderados e, embora encontrem com regularidade o destinatário, colocam invariavelmente dificuldades ao mesmo, ou à equipa. Abusa dos passes longos em ocasiões em que, além de uma recepção difícil, o jogador que recebe não tem apoios para dar continuidade à jogada, o que torna um passe, já por si arriscado, numa jogada completamente ineficaz. Não se preocupa com as condições de recepção dos colegas e, muitas vezes, quando pode jogar curto e seguro, prefere arriscar e dificultar a acção dos mesmos. Além de tudo isto, não é capaz de perceber que uma equipa que ataca deve fazê-lo progressivamente e que, sem apoios, um passe só funciona como último passe. Apesar de revelar algum critério no descongestionamento dos flancos, ou demora a fazer o passe quando deveria apressá-lo, ou fá-lo rápido quando deveria contemporizar. É com alguma facilidade que vemos a equipa onde joga não ser capaz de progredir ou perder tempo relevante após um passe seu.

O passe é, na minha opinião, o elemento mais importante no processo ofensivo de uma equipa. Mas o passe em si, isto é, o gesto técnico, é uma parte muito irrelevante do mesmo. O passe engloba coisas como a visão de jogo, a imaginação, a capacidade de perceber movimentações colectivas, a velocidade de raciocínio, etc. E é a competência em todos estes processos que define um jogador com uma boa capacidade de passe. Por isso, porque são aspectos intelectuais e não técnicos que definem um bom passe, dificilmente um jogador pouco inteligente será bom nesse capítulo. Sem o auxílio do intelecto, um jogador não poderá compreender mais que o trivial e nunca fará bons passes para além daqueles mais fáceis do ponto de vista do raciocínio. É também por isso que me fascinam certos jogadores que, para a grande generalidade do público, são banais, jogadores esses que são capazes de pensar, a cada momento, o que é melhor para a equipa e de que forma uma acção aparentemente simples como um passe pode ser aproveitada nos momentos seguintes ao mesmo. Para a grande generalidade do público, o passe é uma coisa simples e qualquer um é capaz de fazê-lo. Por isso, um jogador que se destaque apenas neste capítulo não é, para esses, suficientemente bom. Para mim, como o passe é praticamente tudo no futebol, um jogador capaz de fazer bons passes com frequência (e por bons passes entende-se, por tudo o que foi dito, passes consequentes) deveria reunir maior apoio que qualquer outro tipo de jogador.

O passe é, pois, para a maior parte das pessoas, um gesto técnico individual. Para mim, não é nem um gesto técnico nem um gesto individual. É um gesto intelectual, porque o intelecto tem muito mais peso que a técnica na definição do mesmo, e é um gesto colectivo (engloba passe do jogador, recepção do colega, movimentação de toda a equipa, preocupação com posicionamento do adversário, preocupação com as eventualidades seguintes, etc.) porque só naquilo de bom que a equipa pode usufruir de um passe é que se pode medir a qualidade do mesmo.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Sondagem (5)

Segundo os leitores do Entre Dez, dos últimos 4 treinadores do Benfica, Trapattoni foi o melhor. Com 35 votos, contra 13 de José António Camacho, a velha raposa parece ter deixado saudades. Os restantes 6 votos foram distribuídos pelos outros dois candidatos, sendo que Fernando Santos arrecadou 4 votos e Koeman apenas 2. Reconheço que esta votação era um pouco um voto no "menos mau". A mediocridade dos treinadores do Benfica tem sido tanta que a votação teria de ser mesmo assim. Não sou fã de nenhum dos 4 treinadores em questão, mas o menos mau, para mim, seria Fernando Santos, seguido de Trapattoni. Se posso, de certa maneira, perceber a votação no italiano, não entendo, porém, o segundo lugar do espanhol.

Sugere então esta votação que, apesar de ter posto o Benfica a praticar o futebol mais agradável dos últimos 15 anos (com resultados significativos), Fernando Santos não reuniu amigos. Já Trapattoni, embora seja de louvar o facto de ter sido campeão com parcos recursos, foi sempre um treinador pouco audaz, sobretudo para um grande. O seu Benfica acabou por ter alguma sorte na forma como conquistou o campeonato e isso terá certamente contribuído para que, hoje, seja visto como o melhor dos últimos tempos. Camacho, por seu lado, teve uma equipa completamente desnorteada, como já não se via desde Jupp Heynckes, mas ainda assim tem quem o apoie. Completamente esquecido estará Koeman, embora tenha levado o Benfica, em termos europeus, mais longe do que qualquer outro treinador nos últimos tempos.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Melhor o resultado...

Na jornada que consagrou o “tri-campeão”, nem só os adeptos portistas têm razões para se sentirem felizes. Depois dos tropeções dos “Vitórias” e posteriormente do rival da segunda circular, os sportinguistas não só levaram o Braga de vencida como recuperaram Djaló.

O jogo começou da forma esperada, com um Braga recuado, apostando principalmente na capacidade de luta dos seus jogadores para suster o ímpeto ofensivo leonino. Carlos Fernandes e Rodriguez destacavam-se no sector defensivo: o português pela forma inteligente como fechava o flanco e iniciava os lances de ataque do Braga – quase sempre com uma solicitação em Matheus - o sul-americano na maneira como fechava os espaços, cortando várias linhas de passe.
Não conseguiu ter bola a equipa minhota, mas, apesar disso, conseguiu criar dois lances perigosos, sempre pela ala esquerda, com Linz a revelar-se muito perigoso (aquele toque de calcanhar...).

Mas foi na desorganização do meio-campo bracarense que surgiu o ascendente, ainda que tímido, da equipa leonina. Com Brum sozinho a pensar o jogo, - Contreras e Vandinho apenas se destacavam pela agressividade - a equipa arsenalista perdia demasiadas bolas, facilitando a tarefa à equipa leonina.

Do lado do Sporting, destaque, mais uma vez, para Farnerud. Não gostam do sueco, mas a verdade é que Pontus pensa e executa com grande qualidade. No meio-campo leonino foi o único a conseguir dar “traço” ao jogo da equipa de Alvalade. Com Moutinho escondido a “dez”, e Veloso a definir as suas acções mais vezes mal do que bem, tornando o jogo leonino muito confuso, eram o sueco e Izmailov que iam criando as soluções mais conseguidas do futebol verde-e-branco: o sueco através dos seus passes verticais, solicitando de forma soberba os avançados leoninos, e o russo com importantes movimentos verticais.

Com o primeiro golo (muito bem Liedson – por que é que ele não faz sempre “aquilo”, em vez das habituais tentativas, frustradas, de remate ou drible? –) apareceram, em bom estilo, os avançados, Liedson e Djaló. Logo após a obtenção do primeiro golo, surgiu o segundo, com mais uma excelente combinação entre o duo da frente.

Aqui um pequeno parêntesis: tem sido frequente neste espaço criticar o futebol de Liedson, defendendo que um avançado tem de ser, forçosamente, muito mais que o jogador do último toque. Defendemos que um avançado, como qualquer outro jogador, tem de compreender o que é melhor para a equipa em cada momento. Seja um toque para o lado, ou para trás, seja a opção de rematar, ou fintar, um jogador tem de compreender qual a melhor opção para a equipa. Não embarco no velho dogma que defende que um avançado, para ser útil, tem de ser egoísta. Liedson, sem fazer qualquer golo, fez dos melhores 45 minutos que já o vimos fazer. Infelizmente, na segunda parte, voltou ao seu estilo habitual.

Veio o intervalo e também um Braga mais atrevido. Jaílson, no lugar de Vandinho, mexeu com o jogo bracarense. Deu mais profundidade, assim como mais capacidade ofensiva. Valeu ao Sporting, nos momentos de maior aperto, Patrício, a barra, e Bruno Paixão (aquele golo foi anulado porquê?). O clube de Alvalade voltou a manifestar dificuldade na gestão da posse de bola. Daí não ter conseguido cruzar os últimos 45 minutos sem sobressaltos. Só nos últimos minutos, já com Pereirinha em campo, é que logrou ameaçar novamente a baliza minhota. Pereirinha, com dois remates perigosos, assim como uma excelente jogada de Farnerud, que provavelmente só não deu golo porque o Levezinho optou pelo remate, em vez de lhe devolver o esférico, foram os lances mais perigosos da equipa lisboeta no segundo tempo.

No fundo, uma vitória que se aceita, mas não por estes números. O Braga pagou a factura da pouca ambição demonstrada no primeiro tempo. Mas não é só nos aspectos ofensivos que a equipa de Machado merece reparos. A equipa é mal organizada nos processos defensivos, e nem o facto de jogar num bloco baixo consegue disfarçar este factor.

Do lado do clube leonino, destacar a incapacidade em circular a bola entre os seus sectores, sem o fazer em nítido esforço. O futebol sportinguista é confuso e vive apenas de momentos individuais e da inspiração, aleatória, dos jogadores. A sua organização defensiva, prejudicada por erros individuais (Abel tem sido simplesmente horrível na maneira como fecha o lado direito), e pela incapacidade da equipa em manter a posse de bola, expondo-se em demasia às iniciativas dos adversários, tem sido muitas vezes colocada em causa.

Depois, existe a velha questão dos avançados. À excepção de Derlei, e do inoperante Purovic, os avançados leoninos são, acima de tudo, jogadores explosivos, que não se destacam pela forma como conseguem segurar o esférico. Esta debilidade veio a tornar-se decisiva, de forma negativa, de diferentes formas, e em diferentes momentos: numa primeira fase, porque o losango leonino abriu em demasia, e neste caso era importante que os avançados soubessem contemporizar e assumir um maior protagonismo na gestão da posse de bola. Como isto não sucedia, a equipa ficava demasiado dependente das transições feitas através das alas, ficando sem apoios para variar o jogo de forma sustentada e segura. Numa fase posterior, a ineficácia dos avançados leoninos em segurar o esférico, veio-se a revelar contraproducente para o estilo de jogo quer de Veloso, que de Adrien. Ambos são jogadores com uma grande apetência ofensiva, e que baseiam as suas actuações numa grande mobilidade. Isto vai retirar ao jogo leonino apoios, pois muitas vezes estes jogadores, ao envolverem-se directamente na condução dos processos ofensivos, não conseguem criar apoios recuados. Desta forma, era importante que os avançados recuassem, criando superioridade, propiciando desta forma um maior número de apoios ao portador da bola. Sem um jogador como Custódio, o futebol leonino fica sem uma saída de emergência, ficando desta forma comprometida a possibilidade de descongestionar o jogo de forma segura. Daí a nossa insistência: Por que não Farnerud a trinco?

sábado, 5 de abril de 2008

Breves da Semana

1. Antes do jogo com o Porto, Jorge Jesus disse que, qualquer que fosse o resultado, uma coisa era certa: o Belenenses iria ser melhor tacticamente que o Porto. Jesualdo, após a vitória suada, fez questão de deixar bem claro que o Porto tinha sido tacticamente superior ao Belenenses. Adoro pessoas que, quando ganham, precisam de rebaixar os outros para se sentirem homenzinhos.

2. Já o Sporting, ganhou folgadamente à Naval, mas a exibição foi medíocre. É gritante, por exemplo, a falta de ideias da equipa no último terço do terreno.

3. O Benfica também goleou e Rodriguez fez um golaço. Custa compreender como é que não se conserva uma unidade tão rentável como o uruguaio.

4. Na Champions, Manchester e Liverpool gozaram de uma sorte inacreditável. O futebol de qualidade da Roma e o massacre dos Gunners mereciam mais.

5. O Fenerbahce continua a surpreender e promete não facilitar na segunda mão. Sendo, com o Shalke, a equipa mais modesta em prova, nutro alguma simpatia pelos turcos. Dar-me-ia, sem dúvida, algum gozo que, depois de eliminarem o Sevilha, fossem capazes de derrubar dois colossos ingleses e marcar presença na final.

6. Neste momento, um cenário perfeitamente possível para as meias-finais da Champions faz jogar Barcelona com Manchester e Fenerbahce com Arsenal. O futebol de ataque, alegre e bem trabalhado estaria, nesse caso, em força, nas meias-finais da prova, coisa da qual, provavelmente, não haverá memória. Melhor, só mesmo se a Roma fosse capaz de eliminar o Manchester em Old Trafford.

7. Na UEFA, o Sporting tem boas condições de atingir as meias-finais. O resultado, no entanto, ao contrário do que se pode pensar, não me parece favorável aos leões. Sendo o factor casa cada vez menos determinante e mantendo-se a lei dos golos fora, marcar golos como visitante na primeira mão de uma eliminatória é fundamental. É que, também ao contrário do que se diz, a eliminatória já não está no intervalo. O Rangers já não pode sofrer golos em casa, pelo que cada golo que marque significa que o Sporting tem de marcar esse golo e mais um. Empatar a 0-0 na primeira mão chega a ser, às vezes, para a equipa que joga em casa, melhor do que ganhar por 2-1, por exemplo. Apesar de tudo, considero o Sporting superior e creio que tem condições para seguir em frente. Aliás, até talvez nem fosse mau o Rangers marcar mesmo um golo em Alvalade: obrigava o Sporting a jogar para marcar golos e impedia que a eliminatória fosse para penaltys, o que seria mau para os portugueses.

8. O futebol do Rangers poderia ser mais primitivo? Não foi um 442 clássico apenas pela disposição em campo do Sporting. Marcando homem a homem no meio-campo, jogar contra o losango do Sporting implicava jogar em 451/541. O Rangers marca ao homem a todo o terreno, joga um futebol directo, e tem na vontade a sua única arma. Em termos individuais, a equipa é banal; colectivamente, funciona por impulsos individuais, ou seja, pela vontade de cada elemento. O público, então, não poderia mesmo ser mais primitivo. A exultação nunca foi por uma sucessão de passes correctos ou por lances bem gizados, mas por iniciativas em que os jogadores revelavam aplicação. A cada disputa de bola, a cada desarme ou tentativa de desarme, os adeptos exaltavam-se de uma maneira quase absurda. É ridículo que o futebol britânico continue a viver deste tipo de coisas. E em Inglaterra não é diferente. O poderio financeiro é que disfarça esta forma bizarra de ver o mundo. O ser humano, sobretudo o ser humano britânico mas não só, já se educava esteticamente, não?

9. O Zenit de São Petersburgo está demolidor. Depois de limpar o Marselha, deu cabo do Bayer Leverkusen. Um amigo russo dizia-me, antes da eliminatória, que o único problema do Zenit, até à final, seria o Bayern de Munique. Achei-o demasiado optimista, mas parece que, para já, a razão está do lado dele. Uma perguntinha: como é que Arshavin ainda está a jogar na Rússia?

10. Se o Zenit é sensação, o que dizer do Getafe de Laudrup? Tenho pena de não ter podido assistir a nenhum dos jogos do Getafe contra o Benfica, mas no país vizinho diz-se que o futebol dos pupilos de Laudrup é admirável. Pode ser que continuem em prova...

11. O meu prognóstico para as meias-finais da UEFA: Sporting vs Fiorentina e Zenit vs Getafe.